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15.10.14

Contraluz


Capa
A capa é construída com linhas brancas (como a luz) sobre a ausência de luz.
A sua estrutura é feita a partir de pontos separados em pequenos grupos. Cada um deles é um símbolo simples de instrumentos musicais, e cada pequeno grupo representa uma obra. Como são 12 obras no CD dividimos a sua seqüência visual – como a espacialização da violonista nas instruções das 12 peças que formam a obra Bouquet (a 12a na frente [baixo], a 9a atras [cima], etc).
Cada instrumento se conecta com a sua aparição nas outras obras, ou seja: cada violino se liga com todos os violinos; mas o violão – que aparece apenas duas vezes – só tem um traço ligando ambos.

Quartacapa
Na divisão entre o texto dos instrumentos tocados e do ano de composição de cada obra, fizemos uma quantidade de círculos coloridos que representam o timbre dos instrumentos (assim como ao lado de cada obra no encarte – para representar os timbres –, e do nome de cada instrumento).

Cor
Para cada instrumento escolhemos uma cor seguindo o espectro de divisão do branco (luz) – como o arco-íris. Cada padrão de cor representa uma série de timbres semelhantes dos instrumentos tocados no CD. O padrão timbrístico: cordas (do violino até o cravo – timbre indo para o percussivo); percussão (dos timbres mais claros aos mais complexos); instrumentos que vão entre teclas e sopros; e instrumentos de sopro (do metal à madeira). Do timbre puro de um lado (violino) ao timbre mais puro do outro (flauta).

Capas abertas (interior)
Fundo branco, da luz completa. Olhando por dentro, cada instrumento está em sua cor. Já o CD é o oposto, sem a ligação dos instrumentos; apenas eles separados nas suas formações (com exceção da obra que o Marcus toca, que está ligada a ele).
No centro do CD, é visível a ligação dos instrumentos, pois, quando ele é retirado, ficam apenas os traços, sem os círculos dos instrumentos (que estão no CD).


Fonte/Rialto
Nas gravuras de Giovanni Battista Piranesi (que influenciaram Prigioneri di un sogno nelle Carceri di Piranesi) existe uma tipografia de versais. A partir desta influencia, utilizamos uma tipografia realizada em 1999 por um grande calígrafo veneziano (Giovanni de Faccio) e um tipógrafo austríaco (Lui Karner). O primeiro é de Veneza – como o Piranesi –, e esta tipografia de uma beleza impressionante foi realizada a partir da própria arquitetura de Veneza. Ela tem a estrutura semelhante a de Piranesi, mas com uma beleza mais complexa e com uma grande família tipográfica.

Roma
Como Piranesi fez estas gravuras em Roma, acabamos por utilizar todo um padrão de um grande admirador de Roma: Le Corbusier (mas não a Roma de Piranesi, mas a Roma de Michelangelo). Toda a distribuição das obras na capa do CD (a partir do Bouquet) foram distribuídas a partir de um padrão de duas séries de Fibonacci (Modulor), assim como a escala de tamanho do texto e o seu entrelinhamento.

Adenilson Telles ● trompete
Alex Buck ● bateria
Cassia Carrascoza ● flautas
Cláudio Torezan ● contrabaixo
Douglas Kier ● violoncelo
Edson Beltrami ● flauta
Elisa Monteiro ● viola
Felipe Scagliusi ● piano
Francisco Formiga ● fagote
Gabriel Levy ● acordeão
Gilson Antunes ● violão
Horácio Gouveia ● piano
Lliuba Klevtsova ● harpa
Marcos Kiehl ● flauta em sol
Marcus Alessi Bittencour (programação
pd + Live eletronics)
Marcus Siqueira ● conduítes ● violão
Maurício De Bonis ● cravo
Pedro Gadelha ● contrabaixo
Peter Apps ● oboé
Peter Pas ● viola
Ricardo Bologna ● percussão
Ruben Zuniga ● vibrafone ● crotales
Samuel Hamzem ● trompa
Sergio Burgani ● requinta ● clarineta ● clarinete
Simona Cavuoto ● violino
Thiago Cury ● escaleta

CD: Contraluz
de Marcus Siqueira
Selo Sesc
Água Forte
diagramação:  Paulo Vidal de Castro & Thais Vilanova
encarte completo

13.10.14

ombudsman Edifício Riviera, Alameda Barros, 399/423 — Majorca, Minorca — 01232 001


"não há tanta perfeição nas obras compostas de muitas peças e feitas pelas mãos de diversos mestres como nas que foram trabalhadas por um só.
Assim vemos que os edifícios empreendidos e acabados por um só arquiteto sóem ser mais belos e mais bem ordenados que os que foram concertados pelo esforço de muitos,aproveitando-se velhos muros que haviam sido construidos para outros fins.
Descartes

O edifício Riviera, projeto do arquiteto paulistano Roberto Cerqueira Cesar (pelo Escritório Rino Levi — construtor ao seu lado de importantes obras na cidade de São Paulo), sempre teve como algo importante a sua noção de urbanismo (assim como o projeto de ambos teve para a construção de Brasília, que ficou em terceiro lugar, e todos os projetos deles realizados em São Paulo).

Recentemente existe dentro do prédio uma forte idéia fascista de separar o ambiente da própria sociedade (pensamento contra um dos fatores interessantes não apenas deste prédio, mas de qualquer tipo de obra com a menor noção urbanística). Construir do seu ambiente uma própria prisão, com uma curiosa ignorância do que ocorre na grande (e linda) cidade onde moram, se movendo em veículos individuais que não permitirão que a saúde dos seus próprios filhos sobreviva até a sua idade atual.

A maioria das importantes obras urbanísticas e arquitetônicas (para não ficar na História, ou no Mundo, ou na América Latina, ou no Brasil, ou no Estado de São Paulo, mas apenas no centro da cidade de São Paulo) não tem a entrada proibida para os cidadãos (como grades de prisão interna). Moradores com o mínimo de pensamento tombaram o prédio de Vilanova Artigas para não ter nem grades que se fechem durante a noite e os separe da idéia básica da própria constução. O Lily, de Giancarlo Palati (na Barão de Tatuí) também não tem grade (mesmo com o importante painel do artista plástico Sambonet no hall de entrada). Alguns, como o Prudência, de Rino Levi e Roberto Cerqueira Cesar, infelizmente tem grade, pois o tombamento se deu após a sua auto prisão (assim como a diminuição do jardim de Burle Marx). Mas muitos prédios importantes são abertos, colocando apenas a esquisita (no termo brasileiro) grade noturna. (, mas, voltando ao Riviera:)

No jardim colocaram um cartaz escrito:

"uso privativo dos moradores deste condomínio"

Eu, sempre que consigo, me movo contra nazi-fascismo que vejo constantemente pela rua (mesmo quando existem seguranças armados, recebendo menos que os seus patrões, para defendê-los). O texto Dos Canibais, de Montaigne (1533-1592), já mostra como esta estupidez é antiga.

Adoro sentar no jardim e ler, acompanhado de crianças judias ortodoxas, office boys de escritórios — que comem um lanche após ir tirar um xeróx —, pessoas do próprio prédio, e até pessoas que conheço de outros lugares.

Outras críticas:
  • No jardim (?) existem vasos com arcos decorativos que não apenas são contra a própria estrutura do vaso (e de séculos atrás), como estão no centro de um prédio com influências de um prédio norte-americano de Ludwig Mies van der Rohe. Isso é tão absurdo como algo que existe dentro de um Hotel brega com arcos decorativos (e não concretos, como na época em que eram lindamente usados) na rua Maranhão, que tem cadeiras Barcelona, do Ludwig Mies van der Rohe.
  • Estruturas em torno do jardim, onde é possível sentar, tinham as pastilhas iguais a da estrutura de vigas externas do prédio. Ultimamente foram cobertas com uma massa branca.
  • Existem arcos de parede de gesso (por este material, vemos como o mundo ainda é ignorante) nos halls de elevador. Nestes Halls, entre outros móveis antiergonômicos e bregas, as cadeiras (feias) de junco estão não apenas em locais distantes do Sol, como foi realizado uma pintura (?!) sobre o junco.
  • Em cima do prédio baixo, foi decidido um espaço de lazer. Foram colocadas madeiras (até aí, tudo bem) que aparecem na própria estrutura do prédio, olhado em todos os locais. Se fosse colocado estas formas bregas que dialogassem com o total (sem pensar muito, seguindo as vigas da estrutura geral), não seria tão ruim.
  • Ainda sobre a ergonomia, acho interessante bancos de plástico reciclado que existem no jardim, mas foram projetados para o conforto de 0,5% das pessoas.
  • Como se não bastasse tudo isso (e as cadeiras do salão de festas), no canto do jardim tem uma cópia (não tão boa, mas melhor que todo o resto) não utilizada, como algo disfuncional, da Cesca (1928), de Mart Stam e Marcel Breuer, projetada na Bauhaus.
"a
nada
acreditar muito
firmemente do que
não me fora persuadido
senão pelo exemplo e pelo uso;
e assim libertei-me pouco a pouco de
muitos erros que podem ofuscar nossa luz natural
e tornar-nos menos capazes de ouvirmos a razão."
Descartes

Sobre o Conceito de Condomínio

“Na Primeira metade da década de 1980, o prédio foi reformado com desenho do próprio escritório de Rino Levi (que morreu em 1965). A pedido do condomínio, a reforma sacrificou parte do jardim, que foi transformado em garagem, e ganhou um hall central no pilotis, unindo os dois núcleos com azulejos de Burle Marx. Com isso, perdeu-se parte da transparência e da beleza dos painéis cerâmicos. Atualmente, o prédio é protegido pelos orgãos de patrimônio histórico estadual e municipal.”

Prudência, de Rino Levi e Roberto Cerqueira César


“Outro item que denuncia o Lily como um dos prédios mais importantes do bairro é o painel no hall de entrada, criado pelo Roberto Sambonet.”[e apartamento térreo aberto até chão e sem grades, como o Louveira, de Vilanova Artigas, entre muitos outros]

Lily, de Giancarlo Palanti na Barão de Tatuí


“A implantação definiu uma praça na esquina que, infelizmente, desapareceu recentemente com a construção do muro que ‘protege’ o prédio”.

Santa Cândida e Santa Francisca, de Salvador Candia, na rua Aureliano Coutinho


“Antes das grades, a galeria do térreo integrava livremente as ruas Bahia e Maranhão.”

Bahia-Mar, de Francisco Beck

Fernando Serapião. Monólito 19. São Paulo: Editora Monólito, 2014.

 

O valor cultural da obra de arquitetura é habitualmente reconhecido só quando conseguiu sobreviver aos séculos. O edifício ‘antigo’ é venerado, ao passo que o apenas ‘velho’ é demolido sem contemplação.

Nos tempos passados, a evolução da cidade era suficientemente lenta e a vida útil do edifício frequentemente longa bastante para permiti-lo atingir a idade provecta e respeitável do monumento. Hoje, na utilitária e vertiginosa era industrial, o edifício torna-se velho e obsoleto antes de chegar a ser antigo e está então irremissivelmente condenado à substituição por outro mais perfeito e economicamente mais interessante.

Nessas condições, é de se cogitar se sobrará para a posteridade algum exemplo da arquitetura de nossos dias.

 CÉSAR, Roberto Cerqueira. São Paulo na Visão do Urbanista / Roberto Cerqueira César; organização Paulo Bruna. —1 edSão Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2020.


Se Max Bense horrorizou-se com colunas na frente da entrada, no edifício Califórnia (nas ruas Barão de Itapetininga e Rua Dom José de Barros), imagina com elementos não estruturais que andam sendo feitos…

Paredão

Uma cidade toda paredão.
Paredão em volta das casas.
Em volta, paredão, das almas.
O paredão dos precipícios.
O paredão familial.

 
Ruas feitas de paredão.
O paredão é a própria rua,
onde passar ou não passar
é a mesma forma de prisão.

 
Paredão de umidade e sombra,
sem uma fresta para a vida.
A canivete perfurá-lo,
a unha, a dente, a bofetão?
Se do outro lado existe apenas
outro, mais outro, paredão?

ANDRADE, Carlos Drummond de. 1902-1987. Poesia Completa. / Carlos Drummond de Andrade. (conforme as disposições do autor) Fixação de textos e notas de Gilberto Mendonça Teles. Introdução de Silviano Santiago. Biblioteca Luso-brasileira / Série Brasileira. / Boitempo, 1968 • 1973 • 1979 / Repertório Urbano. 1a tiragem da primeira edição, 2002  Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 2003.

[carta da assembleia de condomínio falando que nenhuma decisão foi tomada pela Arquitetura — enquanto as obras continuam e construções vão sendo feitas. Talvez alguma confusão entre arquitetura e urbanismo com decoração, decoração que nunca deve ser pensada, apenas a funcionalidade e a ergonomia]

camadas da sociedade transferem “a culpa de sua própria desclassificação potencial não ao aparato que a causa, mas àqueles que se opuseram criticamente ao sistema”.

Theodor W.Adorno, em 1967, para estudantes na Universidade de Viena 

Três Lembretes aos Senhores Arquitetos

3. A Planta

A planta é geradora.

Sem planta há desordem, arbitrário.

A planta traz em si a essência da sensação.

Os grandes problemas de amanhã, ditados por necessidades coletivas, colocam de novo a questão da planta. (...)

A arquitetura nada tem a ver com os estilos.

Ela solicita as faculdades mais elevadas, pela sua própria abstração. A abstração arquitetural tem de particular e de magnífico o fato de que, se enraizando no dado bruto, o espiritualiza. O dado bruto só é passível de idéia pela ordem que projetamos nele.

O volume e a superficie são os elementos através dos quais se manifesta a arquitetura. O volume e a superficie são determinados pela planta. A planta é a geradora. (...)

Terceiro Lembrete: A Planta
A planta é a geradora.
(...)
O olho observa, na sala, as superfícies múltiplas das paredes e das abóbadas; as cúpulas determinam espaços; as abóbadas desenvolvem superfícies; os pilares, as paredes se ajustam segundo razões compreensíveis. Toda a estrutura se eleva da base e se desenvolve conforme uma regra que está escrita sobre o solo na planta: formas belas, variedade de formas, unidade do princípio geométrico. Transmissão profunda de harmonia: isso é a arquitetura.
A planta está na base. Sem planta, não há nem grandeza de intenção e de expressão, nem ritmo, nem volume, nem coerência. Sem planta há essa sensação insuportável ao homem, de informe, de indigência, de desordem, de arbitrário.
A planta necessita a mais ativa imaginaçāo. Necessita também a mais severa disciplina. A planta é a determinação do todo; é o momento decisivo. Uma planta não é tão bela para desenhar quanto o rosto de uma madona; é uma austera abstração; não passa de uma algebrização árida ao olhar. De qualquer modo, o trabalho do matemático permanece uma das mais altas atividades do espírito humano.
A ordenação é um ritmo apreensível que reage sobre todo ser humano da mesma maneira.
A planta traz consigo um ritmo primário determinado: a obra se desenvolve em extensão e em altura segundo suas prescrições com conseqüências que se estendem do mais  simples ao mais complexo conforme a mesma lei. A unidade da lei é a lei da boa planta: lei simples infinitamente modulável.
(...)
Mas perdemos o sentido da planta há cem anos. Os grandes problemas do amanhã, ditados por necessidades coletivas, estabelecidos sobre estatísticas e realizados pelo cálculo, põem de novo a questão da planta. Quando tivermos compreendido a indispensável grandeza de vistas que é preciso conferir ao traçado das cidades, entraremos num período que nenhuma época conheceu. As cidades deverão ser concebidas e traçadas na sua extensão como foram traçados os templos do Oriente e como foram ordenados os Inválidos ou o Versailles de Luís XIV.
A tecnicidade desta época  técnica da finança e técnica da construção  está preparada para realizar esta tarefa.
Tony Garnier, apoiado por Herriot em Lyon, traçou a Cidade Industrial. (...) Reservando todo juízo sobre a coordenação das zonas dessa Cidade Industrial, experimentamos as conseqüências benfazejas da ordem. Onde reina a ordem, nasce o bem-estar. Pela feliz criação de um sistema de loteamento, os bairros residenciais, mesmo operários, assumem uma alta significação arquitetural. Tal é a conseqüência de uma planta.
No anual estado de espera (porque o urbanismo moderno ainda não nasceu) os mais belos bairros de nossas cidades deveriam ser os bairros de fábricas onde as causas de grandeza, de estilo,  a geometria,  resultam do próprio problema. A planta falhou, tem falhado até aqui. A admirável ordem, que certamente reina no interior dos armazens e das oficinas, ditou a estrutura das máquinas e dirige seus movimentos, condiciona cada gesto das equipes; mas a sujeira infecta os arredores e a incoerência imperava quando o fio de prumo e o esquadro fixaram a implantação dos edifícios, tornando sua ampliação caduca, custosa e perigosa. 
Uma planta teria bastado. Uma planta bastará. Os excessos do mal conduzirão a ela.
(...) Está na hora de repudiar o atual traçado de nossas cidades pelo qual se acumulam os edifícios empilhados, se enlaçam as ruas estreitas cheias de barulho, de fedor de gasolina [1923!] e de poeira e onde os andares têm suas janelas plenamente abertas sobre essas sujeiras. As grandes cidades se tornaram demasiadamente densas para a segurança dos habitantes mas não suficientemente densas para responder ao fenomeno inédito dos negócios.
[...]
É necessário tender para o estabelecimento de padrões para poder enfrentar o problema da perfeição.
O Parthenon é um produto de seleção aplicada a um padrão.
A arquitetura age sobre os padrões.
Os padrões são coisa de lógica, de análise, de estudo escrupuloso; são estabelecidos a partir de um problema bem colocado. A experimentação fixa definitivamente o padrão.
Há um espírito novo: é um espírito de construção e de síntese, guiado por uma concepção clara.
Programa do Esprit Nouveau, n1, outubro 1920.
 
É preciso tender para o estabelecimento de padrões para enfrentar o problema da perfeição.
O Parthenon é um produto de selecção aplicado a um padrão estabelecido. Desde um século o templo grego já estava organizado em todos seus elementos.
 (...)
O padrão é uma necessidade de ordem trazida para o trabalho humano.
O padrão se estabelece sobre bases certas, não arbitrariamente, mas com a segurança das coisas motivadas e de uma lógica controlada pela análise e pela experimentação.
Todos os homens têm o mesmo organismo, mesmas funções.
Todos os homens têm as mesmas necessidades.
O contrato social que evolui através das idades determina classes, funções, necessidades padronizadas, gerando produtos de uso padronizado.
A casa é um produto necessário ao homem.
(...)
Estabelecer um padrão é esgotar todas as possibilidades práticas e razoáveis, deduzir um tipo reconhecido conforme as funções, com rendimento máximo, com emprego mínimo de meios, mão-de-obra e matéria, palavras, formas, cores, sons. 
[...]
A Ordenação
O eixo é talvez a primeira manifestação humana; é o meio de todo ato humano. A criança que titubeia tende para o eixo, o homem que luta na tempestada da vida se traça um eixo. O eixo é o ordenador da arquitetura. Fazer ordem, é começar uma obra. A arquitetura se estabelece sobre eixos. Os eixos da Escola de Belas-Artes são uma calamidade da arquitetura. O eixo é uma linha de conduta para um fim. Em arquitetura, é necessário um fim para o eixo. Na Escola esqueceu-se disso e os eixos se cruzam em estrelas, todos para o infinito, o indefinido, o desconhecido, o nada, sem fim. (...)
A ordenação é a hierarquia dos eixos, logo a hierarquia dos fins, a classificação das intenções.
Logo, o arquiteto confere fins a seus eixos. Esses fins, é a parede (o cheio, sensação sensorial) ou a luz, o espaço (sensação sensorial).
Na realidade, os eixos não se percebem do alto como mostra a planta na prancheta de desenho, porém no solo o homem estando de pé e olhando diante dele. O olho vê longe e, objetiva imperturbável, vê tudo, mesmo para além das intenções e das vontades. O eixo da Acrópole vai do Pireu até o Pentélico, do mar à montanha. Dos Propileus, perpendicular ao eixo, ao longe no horizonte, o mar. Horizonte perpendicular à direção que lhe imprimiu a arquitetura onde você está, percepção ortogonal que deve ser levada em conta. Alta arquitetura: a Acrópole estende seus efeitos até o horizonte. Dos Propileus no outro sentido, a estátua de Atená, no eixo [não mais], e o Pentélico no fundo. Isso conta. E porque estão fora desse eixo violento, o Partenon à direita e o Erecteion à esquerda, você tem a oportunidade de vê-los em três quartos, na sua fisionomia total. Não se deve por as coisas da arquitetura todas sobre eixos, porque seriam como as pessoas que falam ao mesmo tempo. 
Por uma arquitetura / Le Corbusier
 
O que tende a ser mais anti-ergonômico?: parquinho de plástico, que tira a capacidade de educação corporal infantil; iluminação branca direta, como um presídio; futuro caminho em zigue-zague; maior exploração dos funcionários; porta de entrada dupla? etc, &c...
 

O que eu, ser mínimo e perdido na massa, faço em segredo, julgo que não afete a massa, permanecendo apenas entre mim e mim mesmo, guardado, se o quiser, no silêncio de um passado extinto. Mas, não!, não há passado inerte. O passado é uma via que prossegue no presente, uma lâmina cuja extremidade é o presente e que, acionada pelo impulso daquilo que penetrará o porvir, determina o que será. A cada instante, cada ser realiza um ato que o salva ou perde e, assim, realiza um ato que salva ou perde seu meio, sua família, (...), sua cidade e a civilização que o cerca, numa proporção que ninguém pode precisar e que, na mesma medida, inquieta uma consciência reta. Hoje, se existe alguma certeza, é a solidariedade universal dos fatos e seres em todos os níveis e sob todos os aspectos.

R. P. Sertillanges

Escritório Rino Levi

Moradores criticam demolição de prédio modernista em SP: 'Em nome do lucro'

Moradores que integram o movimento Pró-Pinheiros, bairro da zona oeste da capital paulista, contestam o início da demolição do antigo prédio da Cultura Inglesa, localizado na rua Deputado Lacerda Franco. O edifício foi construído em 1980 pelo escritório do arquiteto modernista Rino Levi.

Do UOL, em São Paulo
20/04/2025

Edifício de Rino Levi na Rua Augusta será demolido

O importante legado arquitetônico de Rino Levi está perdendo mais uma de suas obras. O discreto edifício Nicolau Schiesser, localizado na Rua Augusta, em São Paulo, de 1933 começa a ser demolido.

ArchDaily, 13 de Fevereiro de 2014 

O incêndio do Teatro Cultura Artística: quando reconstruir é preservar

O Cultura Artística foi projetado entre 1943 e 1944 por Rino Levi, já com Cerqueira Cesar e Pestalozzi no escritório. Foi um projeto pioneiro no uso dos mais avançados métodos de cálculo acústico no Brasil.

vitruvius, ago 2008

 

Clássicos da Arquitetura: Edifício Sede IAB-SP / Rino Levi, Miguel Forte, Abelardo de Souza e equipe

O edifício foi tombado pelas três instâncias – municipal pelo Conpresp, resolução 44/92 em 11/12/1992; pelo estadual – Condephaat através da resolução SC 41/02 de 17/01/2002 e pela federal, IPHAN em 2014.

[onde eu via o Paulo Mendes da Rocha, ia no escritório do Haron Cohen meu ex-professor e amigo , e, atualmente, vou no Z Deli]

ArchDaily

[...] Frio, fome, medo, escuridão! [...]

— [...] Só que a gente morre vivendo!

eu tinha a impressão de que elas moravam numa prisão! Para entrar na casa, tínhamos que atravessar uma primeira porta com vigilância eletrônica, depois digitar um código, havia barras nas janelas (...)!

De um diabo a outro, de Françonnette a Nassera, do século XVI ao XXI, os mesmos medos da morte, da doença, do estrangeiro e do outro fabricam as mesmas vítimas. Françonnette e Nassera se tornam uma só pessoa. Só o apoio da fantasia destrutiva que as envolve mudou, mas os efeitos são tristemente os mesmos

Chantal Montellier

“Na realidade, não existe um único instante que não traga consigo sua chance revolucionária [...]. Para o pensador revolucionário, confirma-se a chance revolucionária de cada instante histórico pela situação política. Porém, ela se confirma também pelo poder deste instante que lhe fornece a chave para entrar em um aposento bem determinado do passado, até então mantido fechado.” (GS I, 1231) 

“[...] através das ruínas de grandes construções, a idéia de seu plano arquitetural fala de maneira mais expressiva do que através de construções menos grandiosas, porém, ainda bem preservadas” (GS I, 409)

“Paris, a Capital do Século XIX 

[...]

IV. Luís Filipe ou o intérieur 

(...)

(...) Com a revolução de julho [de 1830],22 a burguesia alcança os objetivos de 1789 (Marx).

Para o homem privado, o espaço em que vive se opõe pela primeira vez ao local de trabalho. O primeiro constitui-se com o intérieur. O escritório é seu complemento. O homem privado, que no escritório presta contas à realidade, exige que o intérieur o sustente em suas ilusões. Esta necessidade é tanto mais urgente quanto menos ele cogita estender suas reflexões relativas aos negócios em forma de reflexões sociais. Na configuração de seu mundo privado, reprime ambas. Disso originam-se as fantasmagorias do intérieur. Este representa para o homem privado o universo.(...)

(...) 

Na verdade, de acordo com sua ideologia, ele parece acarretar o aperfeiçoamento do intérieur. A transfiguração da alma solitária parece ser seu objetivo. O individualismo é sua teoria. Em Van de Velde, a casa aparece como expressão da personalidade. O ornamento é, para esta casa, o que a assinatura representa para um quadro. O verdadeiro significado do Jugendstil23 não encontra sua expressão nessa ideologia. (...) Por volta dessa época, o escritório torna-se o verdadeiro centro de gravidade do espaço de vida. O homem desrealizado constrói um refúgio no seu domicílio. (...) 

(...) Sobre ele recai a tarefa de Sísifo de despir as coisas de seu caráter de mercadoria, uma vez que as possui. No entanto, ele lhes confere apenas um valor afetivo, em vez do valor de uso. (...) 

O intérieur não apenas é o universo, mas também o invólucro do homem privado. Habitar significa deixar rastros. No intérieur esses rastros são acentuados. Inventam-se colchas e protetores, caixas e estojos em profusão, nos quais se imprimem os rastros dos objetos de uso mais cotidiano. Também os rastros do morador ficam impressos no intérieur. Surge a história de detetive que investiga esses rastros. A Filosofia do Mobiliário, assim como suas novelas de detetive, apontam Poe como o primeiro fisiognomonista do intérieur. Os criminosos dos primeiros romances policiais não são gentlemen nem apaches, e sim pessoas privadas pertencentes à burguesia. 

V. Baudelaire ou as ruas de Paris 

Tudo para mim torna-se alegoria.

Baudelaire, Le Cygne. 25

O engenho de Baudelaire, que se alimenta da melancolia, é um engenho alegórico. Com Baudelaire, pela primeira vez, Paris se torna objeto da poesia lírica. Não é uma poesia que canta a cidade natal, ao contrário, é o olhar que o alegórico lança sobre a cidade, o olhar do homem que se sente ali como um estranho. Trata-se do olhar do flâneur, cujo modo de vida dissimula ainda com um halo conciliador o futuro modo de vida sombrio dos habitantes da grande cidade. O flâneur encontra-se ainda no limiar tanto da grande cidade quanto da classe burguesa. Nenhuma delas ainda o subjugou. Em nenhuma delas sente-se em casa. Ele busca um asilo na multidão. Em Engels e Poe, encontram-se as primeiras contribuições relativas à fisionomia da multidão. A multidão é o véu através do qual a cidade familiar acena para o flâneur como fantasmagoria. Nela, a cidade é ora paisagem, ora sala acolhedora. Ambas são aproveitadas na configuração das lojas de departamentos, que tornam o próprio flanar proveitoso para a circulação das mercadorias. A loja de departamentos é a última passarela do flâneur. Com o flâneur, a intelectualidade encaminha-se para o mercado. Como ela pensa, é para olhá-lo, mas na verdade já o faz para encontrar um comprador. Nesse estágio intermediário no qual ela ainda tem um mecenas, porém já começa a familiarizar-se com o mercado, ela aparece como bohème. À indefinição de sua posição econômica corresponde a indefinição de sua função política. Esta se expressa de modo mais palpável entre os conspiradores profissionais, que pertencem de maneira geral à bohème. Seu campo de trabalho inicial é o exército, mais tarde, será a pequena-burguesia, ocasionalmente, o proletariado. Aquela camada social, todavia, considera os líderes autênticos do proletariado como seus adversários. O Manifesto Comunista põe fim à sua existência política. A poesia de Baudelaire extrai sua força do páthos rebelde dessa camada social. Ele pende para o lado dos elementos associais. (...) 

(...) 

(...) Ao fundo do desconhecido para encontrar o Novo! O novo é uma qualidade independente do valor de uso da mercadoria. É a origem da aparência que pertence de modo inalienável às imagens produzidas pelo inconsciente coletivo. É a quintessência da falsa consciência cujo agente infatigável é a moda. Essa aparência do novo se reflete, como um espelho no outro, na aparência da repetição do sempre-igual. O produto dessa reflexão é a fantasmagoria da história cultural, em que a burguesia saboreia sua falsa consciência. A arte, que começa a duvidar de sua tarefa e deixa de ser inseparável da utilidade (Baudelaire ),27 precisa fazer do novo o seu valor supremo. O arbiter novarum rerum ls torna-se para a arte o esnobe. Ele é para a arte o que o dândi é para a moda. Assim como no século XVII a alegoria se torna o cânone das imagens dialéticas, assim acontece no século XIX com a nouveauté. Os jornais aliam-se aos magasins de nouveautés. A imprensa organiza o mercado de valores espirituais provocando no primeiro momento uma alta. Os inconformados rebelam-se contra a entrega da arte ao mercado. Agrupam-se sob a bandeira da arte pela arte. Deste lema origina-se a concepção da obra de arte total, que tenta proteger a arte contra o desenvolvimento da técnica. A solenidade com a qual esse culto é celebrado encontra sua correspondência no divertimento que transfigura a mercadoria. Ambos fazem abstração da existência social do ser humano. Baudelaire sucumbe à sedução de Wagner. 

VI. Haussmann ou as barricadas 

A eficiência de Haussmann insere-se no imperialismo napoleônico. Este favorece o capital financeiro. Paris vive o auge da especulação. A atividade especulativa nas bolsas supera as formas do jogo de azar herdadas da sociedade feudal. As fantasmagorias do espaço, às quais se rende o flâneur, correspondem as fantasmagorias do tempo, às quais se entrega o jogador. O jogo transforma o tempo em narcótico. Lafargue explica o jogo como uma reprodução em miniatura dos mistérios da conjuntura.30 As expropriações feitas por Haussmann fazem surgir uma especulação fraudulenta. (...) 

Haussmann tenta reforçar sua ditadura, colocando Paris sob um regime de exceção. Em 1864, em um discurso na Câmara, expressa seu ódio pela população desenraizada da grande cidade. Esta cresce constantemente devido aos próprios empreendimentos de Haussmann. O aumento dos aluguéis impele o proletariado para os subúrbios. Com isso, os bairros de Paris perdem sua fisionomia própria. Surge o cinturão vermelho operário. Haussmann denomina a si mesmo de artista demolidor. Sentia-se predestinado à sua obra, fato que enfatiza em suas memórias. Entretanto, provoca nos parisienses estranhamento em relação à sua cidade. Nela não se sentem mais em casa. Começam a tomar consciência do caráter desumano da grande cidade. (...)

A verdadeira finalidade dos trabalhos de Haussmann era proteger a cidade contra a guerra civil. Queria tornar impossível para sempre a construção de barricadas em Paris. Com a mesma intenção, Luís Filipe já introduzira o calçamento de madeira. Mesmo assim, as barricadas desempenharam seu papel na revolução de fevereiro [de 1848].33 Engels trata dos problemas de tática nas lutas de barricadas.34 Haussmann pretende impedi-las de duas maneiras. A largura das ruas deve impossibilitar que sejam erguidas barricadas, e novas ruas devem estabelecer o caminho mais curto entre os quartéis e os bairros operários. Os contemporâneos batizam o empreendimento de embelezamento estratégico

(...)

A barricada ressurge na Comuna, mais forte e mais protegida do que nunca. Estende-se pelos grandes boulevards, atingindo muitas vezes a altura do primeiro andar e escondendo trincheiras situadas atrás dela. Assim como o Manifesto Comunista encerra a época dos conspiradores profissionais, também a Comuna põe fim à fantasmagoria que domina o primeiro período do proletariado. (...) A burguesia nunca compartilhou desse erro. Sua luta contra os direitos sociais do proletariado inicia-se já na Grande Revolução e coincide com o movimento filantrópico que a encobre e que experimenta sua máxima expansão sob Napoleão III. Durante seu reinado, surge a obra monumental deste movimento: Les Ouvriers Européens, de Le Play.36 Ao lado da posição encoberta da filantropia, a burguesia sempre assumiu a posição aberta da luta de classes. Já em 1831, ela reconhece no Journal des DébatsCada fabricante vive em sua fábrica como os donos de plantações entre seus escravos. Se foi a desgraça dos antigos levantes operários o fato de nenhuma teoria lhes indicar o caminho, por outro lado, foi também a condição da força imediata e do entusiasmo com que assumem a construção de uma sociedade nova. Este entusiasmo, que atinge seu auge na Comuna, conquista temporariamente para o operariado os melhores elementos da burguesia, mas no fim leva-o a sujeitar-se a seus piores elementos. Rimbaud e Courbet posicionam-se a favor da Comuna. O incêndio de Paris é o digno desfecho da obra de destruição de Haussmann. 

(...)

Balzac foi o primeiro a falar das ruínas da burguesia.37 Mas apenas o Surrealismo permitiu vê-las com os olhos livres. O desenvolvimento das torças produtivas fez cair em ruínas os símbolos do desejo do século anterior, antes mesmo que desmoronassem os monumentos que os representavam. (...) A utilização dos elementos do sonho no despertar é o caso exemplar do pensamento dialético. Por isso, o pensamento dialético é o órgão do despertar histórico. Cada época sonha não apenas a próxima, mas ao sonhar, esforça-se em despertar. Traz em si mesma seu próprio fim e o desenvolve — como Hegel já o reconheceu — com astúcia. Com o abalo da economia de mercado, começamos a reconhecer os monumentos da burguesia como ruínas antes mesmo de seu desmoronamento. 

PARIS, CAPITAL DO SÉCULO XIX  

Introdução38

A história, como Janus, tem duas faces: quer olhe o

passado, quer olhe o presente, ela vê as mesmas coisas.

Maxime Du Camp, Paris, VI, p. 315.

O objeto deste livro é uma ilusão expressa por Schopenhauer numa fórmula segundo a qual para apreender a essência da história basta comparar Heródoto e o jornal da manhã.39 É a expressão da sensação de vertigem característica da concepção que no século XIX se fazia da história. Corresponde a um ponto de vista que considera o curso do mundo como uma série ilimitada de fatos congelados em forma de coisas. O resíduo característico dessa concepção é o que se chamou A História da Civilização,40 que faz o inventário das formas de vida e das criações da humanidade ponto a ponto. As riquezas que se encontram assim colecionadas no tesouro da civilização aparecem doravante identificadas para sempre. Essa concepção atribui pouca importância ao fato de que devem não apenas sua existência como ainda sua transmissão a um esforço constante da sociedade, esforço através do qual essas riquezas encontram-se, além do mais, estranhamente alteradas. Nossa pesquisa procura mostrar como, em conseqüência dessa representação coisificada da civilização, as formas de vida nova e as novas criações de base econômica e técnica, que devemos ao século XIX, entram no universo de uma fantasmagoria. Tais criações sofrem essa iluminação não somente de maneira teórica, por uma transposição ideológica, mas também na imediatez da presença sensível. Manifestam-se enquanto fantasmagorias. Assim apresentam-se as passagens, primeiras formas de aplicação da construção em ferro; assim apresentam-se as exposições universais, cujo acoplamento à indústria de entretenimento é significativo; na mesma ordem de fenômenos, a experiência do flâneur, que se abandona às fantasmagorias do mercado. A essas fantasmagorias do mercado, nas quais os homens aparecem somente sob seus aspectos típicos, correspondem as do interior, que se devem à inclinação imperiosa do homem a deixar nos cômodos em que habita a marca de sua existência individual privada. Quanto à fantasmagoria da própria civilização, encontrou seu campeão em Haussmann e sua expressão manifesta nas transformações que ele realizou em Paris. — Esse brilho, entretanto, e esse esplendor com os quais se cerca a sociedade produtora de mercadorias, e o sentimento ilusório de sua segurança não estão ao abrigo de ameaças; é o que lhe vêm lembrar a derrocada do Segundo Império e a Comuna de Paris. Na mesma época, o adversário mais temido dessa sociedade, Blanqui, revelou, no seu último escrito,41 os traços terríveis dessa fantasmagoria. Nesse texto, a humanidade figura como condenada. Tudo o que ela poderá esperar de novo revelar-se-á como uma realidade desde sempre presente; e este novo será tão pouco capaz de lhe proporcionar uma solução liberadora, quanto uma nova moda é capaz de renovar a sociedade. A especulação cósmica de Blanqui comporta o ensinamento segundo o qual a humanidade será tomada por uma angústia mítica enquanto a fantasmagoria aí ocupar um lugar.

A. Fourier ou as passagens

I

(...)

A maioria das passagens de Paris foi construída nos quinze anos após 1822. A primeira condição para seu aparecimento é a conjuntura favorável do comércio têxtil. Os magasins de nouveautes, os primeiros estabelecimentos a manter grandes estoques de mercadorias, começam a aparecer. São os precursores das lojas de departamentos. É a essa epoca que Balzac faz alusão quando escreve: O grande poema das vitrines canta suas estrofes coloridas da Madeleine à Porte Saint-Denis. As passagens são centros de mercadorias de luxo. Para expô-las, a arte põe-se a serviço do comerciante. Os contemporâneos não se cansam de admirá-las. Durante muito tempo permanecerão uma atração para os turistas. Um Guia Ilustrado de Paris diz: Estas passagens, uma recente invenção do luxo industrial, são galerias cobertas de vidro e com paredes revestidas de mármore, que atravessam quarteirões inteiros, cujos proprietários se uniram para esse tipo de especulação. Em ambos os lados dessas galerias, que recebem a luz do alto, alinham-se as lojas mais elegantes, de modo que tal passagem é uma cidade, um mundo em miniatura. Foi nas passagens que se realizaram as primeiras experiências com a iluminação a gás.

A segunda condição exigida para o desenvolvimento das passagens deve-se ao início da construção metálica. Sob o Império, essa técnica era considerada uma contribuição para renovar a arquitetura no sentido do classicismo grego. Boetticher, o teórico da arquitetura, expressa o sentimento geral quando diz que: quanto às formas de arte do novo sistema, o estilo helénico deve entrar em vigor. O estilo Empire é o estilo do terrorismo revolucionário para o qual o Estado é um fim em si. Assim como Napoleão não compreendeu a natureza funcional do Estado como instrumento de poder para a burguesia, tampouco arquitetos de sua época compreenderam a natureza funcional do ferro, com o qual o princípio construtivo se torna preponderante na arquitetura. Esses arquitetos constroem suportes imitando a coluna pompeana, fábricas imitando residências, assim como mais tarde as primeiras estações pareciam chalés. A construção desempenha o papel do subconsciente. (...)  Pela primeira vez, desde os romanos, surge um novo material de construção artificial, o ferro. Ele vai passar por uma evolução cujo ritmo se acelera ao longo do século, e recebe um impulso decisivo no dia em que se constata que a locomotiva - objeto dos mais diversos experimentos desde os anos 1828-1829 — não funciona adequadamente senão sobre trilhos de ferro. O trilho aparece como a primeira peça montada em ferro, precursor da viga. Evita-se o emprego do ferro nos imóveis e seu uso é encorajado nas passagens, nos pavilhões de exposições, nas estações de trem — todas elas construções visando fins transitórios.

II

Nada de surpreendente no fato de que todo interesse

de massa ultrapasse de longe seus verdadeiros limites,

na idéia ou na representação que fazemos, quando

ocupa a cena pela primeira vez.

Marx e Engels, A Sagrada Família.42

O impulso mais profundo da utopia fourierista veio do surgimento das máquinas. O falanstério devia reconduzir os homens a um sistema de relações no qual a moralidade não tinha mais nada a fazer. Nero se tornaria nele um membro mais util à sociedade que Fénelon. Fourier nao pretende, para tanto, pautar-se pela virtude, mas por um funcionamento eficaz da sociedade cujas forças motoras são as paixões. Pelas engrenagens das paixões, pela combinação complexa das paixões mecanistas com a paixão cabalista, Fourier considera a psicologia coletiva como um mecanismo de relojoaria. A harmonia fourierista é o produto necessário desse jogo combinado.

Fourier introduz no mundo de formas austeras do Império o idílio colorido do estilo dos anos 1830. Cria um sistema onde se misturam os produtos de sua visão colorida e de sua idiossincrasia com os algarismos. As harmonias de Fourier não invocam de maneira alguma uma mística dos números extraída de uma tradição qualquer. São decorrência de seus próprios decretos: elucubrações de uma imaginação organizadora que, nele, era extremamente desenvolvida. Assim ele previu a significação dos encontros para os citadinos. O dia dos habitantes do falanstério organiza-se não em suas casas, mas em grandes salas semelhantes aos saguões da Bolsa, onde os encontros são arranjados por corretores.

Nas passagens, Fourier viu o cânone arquitetônico do falanstério. É o que acentua o caráter Empire de sua utopia, que o próprio Fourier reconhece ingenuamente: O Estado societário será desde o início tanto mais brilhante quanto foi por muito tempo preterido. A Grécia, na época de Sólon e Péricles, já poderia tê-lo criado.43 As passagens que se destinaram inicialmente a fins comerciais tornam-se, com Fourier, residências. O falanstério é uma cidade feita de passagens. (...)

Marx se posiciona contra Carl Grün para defender Fourier e valorizar sua concepção colossal do ser humano.45 Considerava Fourier o único homem, ao lado de Fíegel, que trouxera à luz a mediocridade essencial do pequeno-burguês. À superação sistemática desse tipo em Hegel corresponde, em Fourier, seu aniquilamento através do humor. Um dos traços mais notáveis da utopia fourierista é que a idéia da exploração da natureza pelo homem, tão difundida na época posterior, lhe é estranha. A técnica se apresenta a Fourier muito mais como a fagulha que ateia fogo à pólvora da natureza. Talvez esteja aí a chave de sua representação bizarra, segundo a qual o falanstério se propagaria por explosão. A concepção posterior da exploração da natureza pelo homem é o reflexo da exploração real do homem pelos proprietários dos meios de produção. Se a integração da tecmca na vida social fracassou, a culpa se deve a essa exploração. 

B. Grandville ou as exposições universais 

 I

Sim, quando o mundo todo, de Paris à China,

Ó divino Saint-Simon, aceitar a tua doutrina,

A idade de ouro há de renascer com todo seu esplendor,

Os rios rolarão chá e chocolate;

Saltarão na planície os carneiros já assados,

E os linguados grelhados nadarão no Sena;

Os espinafres virão ao mundo já guisados,

Com pães torrados dispostos ao redor;

As árvores produzirão frutas em compota

E se colherão temperos e verduras;

Nevará vinho, choverá galetos,

E do céu cairão patos ao nabo

Langlé et Vanderburch, Louis Bronze et le Saint-Simonien (Théâtre du Palais-Royal, 27 février 1832) 

As exposições universais são os centros de peregrinação ao fetiche mercadoria. A Europa se deslocou para ver mercadorias, afirma Taine, em 1855  As exposições universais tiveram como precursoras exposições nacionais da indústria, a primeira delas aconteceu em 1798, no Campo de Marte. Ela nasceu do desejo de divertir as classes laboriosas e torna-se para estas uma festa de emancipação . Os trabalhadores formarão a primeira clientela. O quadro da indústria de entretenimento ainda não se constituíra. Este quadro, é a festa popular que o fornece. O celebre discurso de Chaptal sobre a indústria abre essa exposição.  Os saint-simonianos, que projetam a industrialização do planeta, se apropriam da idéia das exposições universais. Chevalier, a primeira autoridade nesse novo domínio, é um discípulo de Enfantin e redator do jornal saint-simoniano Le Globe. Os saint-simonianos previram o desenvolvimento da indústria mundial, mas não a luta de classes. Eis por que, apesar de sua participação em todos os empreendimentos industriais e comerciais, por volta da metade do século, deve-se constatar sua impotência nas questões relativas ao proletariado.

As exposições universais idealizam o valor de troca das mercadorias. Criam um quadro no qual seu valor de uso passa a segundo plano. As exposições universais constituíram uma escola onde as multidões, forçosamente afastadas do consumo, se imbuíram do valor de troca das mercadorias a ponto de se identificarem com ele: É proibido tocar nos objetos expostos. Assim, elas dão acesso a uma fantasmagoria onde o homem entra para se deixar distrair. No interior das diversões, as quais o indivíduo se entrega, no quadro da indústria de entretenimento, resta constantemente um elemento que compõe uma massa compacta. Essa massa se deleita nos parques de diversões com as montanhas russas, os cavalos mecânicos, os bichos-da-seda, numa atitude claramente reacionária. Ela se deixa levar assim a uma submissão com a qual deve poder contar tanto a propaganda industrial quanto a política. - A entronização da mercadoria e o esplendor das distrações que a rodeiam, eis o tema secreto da arte de Grandville. Daí a disparidade entre seu elemento utópico e seu elemento cínico. Seus artifícios sutis na representação de objetos inanimados correspondem ao que Marx chama de argúcias teológicas da mercadoria. Sua expressão concreta manifesta-se claramente na spécialité — uma designação de mercadoria que surge nessa época na indústria de luxo. As exposições universais constroem um mundo feito de especialidades. As fantasias de Grandville realizam a mesma coisa. Elas modernizam o universo. O anel de Saturno torna-se para ele um balcão em ferro fundido, onde os habitantes de Saturno tomam ar ao cair da noite. Assim também um balcão em ferro fundido representaria, na exposição universal, o anel de Saturno, e aqueles que ali entram se veriam levados numa fantasmagoria em que se sentiriam transformados em habitantes de Saturno. O correspondente literário dessa utopia gráfica é a obra do sábio fourierista Toussenel. Toussenel era encarregado da seção de ciências naturais num jornal de moda. Sua zoologia dispõe o mundo animal sob o cetro da moda. Considera a mulher como mediadora entre o homem e os animais. Ela é, de algum modo, a decoradora do mundo animal que, em troca, coloca a seus pés suas plumas e suas peles. Não há prazer maior para o leão que o de lhe cortarem as unhas, contanto que uma moça bonita segure a tesoura.46

II

A Moda: Senhora Morte! Senhora Morte!

Leopardi, Diálogo entre a Moda e a Morte.

A moda prescreve o ritual segundo o qual o fetiche, que é a mercadoria, deseja ser adorado. Grandville estende a autoridade da moda sobre os objetos de uso diário tanto quanto sobre o cosmos. Levando-a até os extremos, ele revela sua natureza. Ela acopla o corpo vivo ao mundo inorgânico. Face ao vivo, ela faz valer os direitos do cadáver. O fetichismo que está assim submetido ao sex appeal do inorgânico é seu nervo vital. As fantasias de Grandville correspondem a esse espírito da moda, que Apollinaire mais tarde descreveu com esta imagem: Todas as matérias dos diferentes reinos da natureza podem agora entrar na composição da roupa da mulher. Vi um vestido encantador feito de rolha de cortiça... A porcelana, o grez e a louça irromperam bruscamente na arte da vestimenta... Fazem-se sapatos de vidro de Veneza e chapéus de cristal de Baccarat .47

22 Nota w.b. 

23 Sobre o Jugendstil, ver G°, 7 e o arquivo temático S'\ sobretudo S 8a, 1 (w.b.; J.L.) 

25 Mantivemos o título original, para guardar o duplo sentido de "Cisne" e "Signo", (w.b.)

27 Baudelaire, OC II, p. 27 (Pierre Dupont). (R.T.)

30 Cf. 0 4, 1 . (R.T.)

33 Nota w.b.

34 Cf. o excerto de Friedrich Engels em E la, 5. (R.T.)

36 Frédéric Le Play, Les Ouvriers Européens: Ètudes sur les Travaux, la Vie Domestique et la Condition Morale   des Populations Ouvrières de 1’Europe, Précédées d‘un Exposé de la Méthode d'Observation, Paris,  1855. (R.T.) 

37 Cf. C 2a, 8. (E/M)

38 Da Introdução e da Conclusão deste exposé, escrito em francês, existe uma versão alemã, reproduzida em G5 V, 1255-1258, e que foi consultada na tradução destes dois textos, (w.b.)

39 Como fonte desta fórmula, Benjamin cita Rémy de Gourmont; cf. S la, 2. (R.T.)

40 Kulturqeschichte, na versão alemã deste texto (GS V, 1255). (w.b.)

41 Auguste Blanqui, CÉternité par les Astres: Hypothèse Astronomique, Paris, 1872. (R.T.)

42 Karl Marx e Friedrich Engels, MEW, vol. II, Berlim, 1957, p. 85. (R.T.)

43 Armand et Maublanc, Fourier, Paris, 1937, I, pp. 261-262; cf. W 13, 4. (J.L.; w.b.)

45 Para evitar a redundância de notas às citações que se repetem neste exposé de 1 939, remetemos o leitor para as notas correspondentes do exposé de 1935. (w.b.)

46 Alphonse Toussenel, Le Monde des Oiseaux: Ornithologie Passionnelle, vol. 1 , Paris, 1 853, p. 20; cf . W 8a, 2. (E/M)

47 Guillaume Apollinaire, Le Poète Assassine, Paris, 1927, pp. 75-76. (R.T.)

 

“Paris, a Capital do Século XIX  
Exposé de 1939
 
C. Luís Filipe ou o intérieur 
I
 

(...) O homem privado que, em seu escritório, presta contas à realidade, deseja ser sustentado em suas ilusões pelo seu intérieur. Essa necessidade é tão imperativa que ele não pensa em inserir em seus interesses de negócios uma clara consciência de sua função social. Na organização de seu círculo privado, ele recalca essas duas preocupações. Daí derivam as fantasmagorias do intérieur. este representa para o homem privado o universo. Ai ele reune as regiões longínquas e as lembranças do passado. Seu salão é um camarote no teatro do mundo.

(...) O colecionador se torna o verdadeiro ocupante do interior. Seu ofício é a idealização dos objetos. A ele cabe esta tarefa de Sísifo de retirar das coisas, já que as possui, seu caráter de mercadoria. Mas não poderia lhes conferir senão o valor que têm para o amador, em vez do seu valor de uso. O colecionador se compraz em suscitar um mundo não apenas longínquo e extinto, mas, ao mesmo tempo melhor, um mundo em que o homem, na realidade, e tão pouco provido daquilo de que necessita como no mundo real, mas em que as coisas estão liberadas da servidão de serem úteis. 

II

A cabeça

Sobre o criado-mudo, como um ranúnculo

Repousa.

Baudelaire, Uma Mártir.

O interior não é apenas o universo do homem privado, e também seu estojo. Desde Luís Filipe, encontra-se no burguês esta tendencia de indenizar-se da ausência de rastros da vida privada na grande cidade. Essa compensação, ele tenta encontrá-la entre as quatro paredes de seu apartamento. Tudo se passa como se fosse uma questão de honra não deixar se perderem os rastros de seus objetos de uso e de seus acessórios. Infatigável, preserva as impressões de uma multidão de objetos; para seus chinelos e seus relógios, seus talheres e seus guarda-chuvas, imagina capas e estojos. Tem uma clara preferência pelo veludo e a pelúcia que conservam a marca de todo contato. No estilo do Segundo Império, o apartamento torna-se uma espécie de habitáculo. Os vestígios de seu habitante moldam-se no intérieur. Daí nasce o romance policial que pesquisa esses vestígios e segue essas pistas. A Filosofia da Mobília48 e os romances policiais de Edgar Poe fazem dele o primeiro fisiognomonista do interior. Os criminosos, nas primeiras narrativas policiais (The Black Cat, The Tell-Tale Heart, William Wilson), não são nem cavalheiros nem marginais, e sim pessoas privadas pertencentes à burguesia.

III

Esta procura por meu lar... foi minha provação...

Onde fica  meu lar? Pergunto por isto,

procuro e procurei, nada encontrei.

Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.49

(...) (A linha curva do Jugendstil surge desde o título das Flores do Mal. Uma espécie de guirlanda marca o enlace das Flores do Mal, passando pelas almas das flores de Odilon Redon até o fazer catléia de Swann.51) (...)

D. Baudelaire ou as ruas de Paris

I

Tudo para mim torna-se alegoria.

Baudelaire, Le Cygne.

[...]

Na figura do flâneur a intelectualidade familiariza-se com o mercado. Para lá encaminha-se o flâneur, pensando dar apenas uma volta; mas, na verdade, é para encontrar um comprador. (...)

[...]

III

No fundo do desconhecido em busca do novo!

Baudelaire, A Viagem.

A chave da forma alegórica em Baudelaire é solidária da significação específica que a mercadoria adquire devido a seu preço. Ao aviltamento das coisas por meio do seu significado, que é característico da alegoria do século XVII, corresponde o aviltamento singular das coisas por meio do seu preço, enquanto mercadoria. Esse aviltamento que sofrem as coisas pelo fato de poderem ser taxadas como mercadorias é contrabalanceado em Baudelaire pelo valor inestimável da novidade. (...)

[...]

E. Haussmann ou as barricadas

I

Tenho o culto do Belo, do Bem, das grandes coisas,

Da bela natureza inspirando a grande arte,

Que ela encante o ouvido ou seduza o olhar;

Amo a primavera em flores: mulheres e rosas!

(Baron Haussmann) Confession d'un Lion Devenu Vieux.

A atividade de Haussmann incorpora-se ao imperialismo napoleônico que favorece o capitalismo financeiro. Em Paris, a especulação está no seu apogeu. As expropriações de Haussmann suscitam uma especulação que beira a trapaça. (...) Haussmann tenta reforçar sua ditadura, colocando Paris sob um regime de exceção. Em 1864, num discurso na Câmara, ele dá livre curso a seu ódio contra a população instável das grandes cidades. Essa população aumenta constantemente devido a seus empreendimentos. A alta dos aluguéis expulsa o proletariado para os subúrbios. Por isso os bairros de Paris perdem sua fisionomia própria. Constitui-se o cinturão vermelho operário. Haussmann deu a si mesmo o título de artista demolidor . Sentiu que tinha vocaçao para a obra que havia empreendido e acentua esse fato em suas memórias. (...) Os moradores da cidade não se sentem mais em casa; começarn a ter consciência do caráter desumano da cidade grande. (...)

A verdadeira finalidade dos trabalhos de Haussmann era proteger-se contra a eventualidade de uma guerra civil. Queria tornar para sempre impossível a construção de barricadas nas ruas de Paris. Com a mesma intenção, Luís Filipe já introduzira o calçamento de madeira. Mesmo assim, as barricadas desempenharam um pape considerável na revolução de fevereiro [de 1848].* Engels tratou dos problemas de tática nas lutas de barricadas. Haussmann procura preveni-los de dois modos. A largura as ruas tornará impossível a construção de barricadas, e novas vias ligarao em linha direta as casernas aos bairros operários. Os contemporâneos batizaram seu empreendimento de embelezamento estratégico .

[...]

Conclusão 

[...]

O universo inteiro é composto de sistemas estelares. Para criá-los a natureza tem apenas cem corpos simples à sua disposição. Apesar da vantagem prodigiosa que ela sabe tirar desses recursos, e do número incalculável de combinações que permitem a sua fecundidade, o resultado é necessariamente um número finito, como o dos próprios elementos, e, para preencher a extensão, a natureza deve repetir ao infinito cada uma de suas combinações originais ou tipos. Todo astro, qualquer que seja, existe portanto em número infinito no tempo e no espaço, não apenas sob um de seus aspectos, mas tal como se encontra, em cada segundo de sua duração, do nascimento à morte... A terra é um desses astros. Cada ser humano é portanto eterno em cada segundo de sua existência. O que escrevo agora numa cela do forte do Taureau, eu o escrevi e escreverei durante a eternidade, à mesa, com uma pena, vestido, em circunstâncias inteiramente semelhantes. Assim para cada um... O número de nossos sósias é infinito no tempo e no espaço. Em consciência, não se pode exigir mais. Esses sósias são de carne e osso, até de calças e paletó, de crinolina e de coque. Não são fantasmas, é a atualidade eternizada. Eis entretanto uma grande falha: não há progresso... O que chamamos progresso está enclausurado em cada terra e desaparece com ela. Sempre e em todo lugar, no campo terrestre, o mesmo drama, o mesmo cenário, no mesmo palco estreito, uma humanidade barulhenta, enfatuada de sua grandeza, acreditando-se ser o universo e vivendo na sua prisão como numa imensidão, para logo desaparecer com o planeta, que carregou com o mais profundo desprezo o fardo de seu orgulho. Mesma monotonia, mesmo imobilismo nos astros estrangeiros. O universo se repete sem fim e patina no mesmo lugar. A eternidade apresenta imperturbavelmente no infinito o mesmo espetáculo .57

Esta resignação sem esperança é a última palavra do grande revolucionário. O século não soube responder às novas virtualidades técnicas com uma nova ordem social. É por isso que a última palavra coube às mediações enganosas do antigo e do novo, que estão no coração de suas fantasmagorias. O mundo dominado por essas fantasmagorias é  para usarmos a expressão de Baudelaire  a modernidade. A visão de Blanqui faz entrar na modernidade — da qual os sete velhos58 aparecem como arautos — o universo inteiro. Finalmente, a novidade lhe aparece como o atributo do que é próprio ao domínio da danação. Do mesmo modo, num vaudeville um pouco anterior — Ciei et Enfer — , as punições do inferno representam a última novidade de todos os tempos, penas eternas e sempre novas . Os homens do século XIX, aos quais Blanqui se dirige como a aparições, saíram dessa região.

A 

[Passagens, Magasins de Nouveautés,1 Caucots2]

(...)

À venda os Corpos, as vozes, a imensa opulência

inquestionável

aquilo que não se venderá jamais.

Rimbaud5

[...]

Até 1870, as carruagens dominavam a rua. Era demasiado apertado andar sobre as calçadas estreitas e por isso flanava-se sobretudo nas passagens, que ofereciam abrigo do mau tempo e do trânsito. Nossas ruas mais largas e nossas calçadas mais espaçosas tornaram mais fácil e doce a flânerie, impossível a nossos pais noutro lugar que não nas passagens. ■ Flâneur ■ Edmond Beaurepaire, Paris dHier et dAujourdhui: La Chronique des Rues, Paris, 1900, p. 67. r 

[A la, 1]

[...]

Evocava-se ao mesmo tempo o gênio dos jacobinos e dos industriais , atribuía-se este dito a Luís Filipe: Deus seja louvado e minhas boutiques também. As passagens como templo do capital mercantil.

[A 2, 2] 

[...]

Passagens como origem das lojas de departamentos? Quais das lojas acima citadas localizavam-se em passagens?

[A 2, 5]

O régime das especialidades fornece também  diga-se de passagem  a chave histórico-materialista para o florescimento (quando não para o surgimento) da pintura de gênero nos anos quarenta do século passado. Com o interesse crescente que a burguesia dedicou à arte, esta pintura diferenciou-se no conteúdo e no assunto, segundo a pouca compreensão artística inicial desta classe; surgiram então como gêneros bem definidos as cenas históricas, a pintura de animais, as cenas infantis, as imagens da vida monástica, familiar, aldeã. ■ Fotografia ■

[A 2, 6]

Investigar a influência do comércio sobre Lautréamont e Rimbaud!

[A 2, 7]

Uma outra característica, a partir sobretudo do Diretório (provavelmente até 1830?), será a leveza dos tecidos; mesmo durante o frio mais rigoroso, só muito raramente aparecerão peliças e matelassês quentes <?>. Correndo o risco de morrer, as mulheres se vestirão como se as rudezas dos invernos não existissem mais, como se a natureza, subitamente, tivesse se transformado num eterno paraíso. Grand-Carteret, Les Elégances de la Toilette, Paris, p. XXXIV.

[A 2, 8]

O teatro forneceu também naquela época o vocabulário para assuntos da moda. Chapéus à moda Tarare, à moda Théodore, à moda Fígaro, à moda Grande-Sacerdotisa, à moda Ifigênia, à moda Calprenade, à moda Vitória. A mesma futilidade, que no balé procura a origem do real, trai-se quando  por volta de 1 830  um jornal dá a si mesmo o nome de Le Sylphe. ■ Moda ■

[A 2, 9]

Alexandre Dumas, numa soirée em casa da princesa Mathilde. Os versos referem-se a Napoleão III.

Nos seus fastos imperiais

O tio e o sobrinho são iguais

O tio tomava as capitais

O sobrinho os nossos capitais.

Seguiu-se um silêncio sepulcral. Registrado nas Mémoires du Comte Horace de Viel-Castel sur le Règne de Napoléon III, vol. II, Paris, 1883, p. 185.

[A 2, 10]

Acoudisse9 significava a continuidade das atividades da Bolsa. Aqui nunca o expediente chegava ao fim, frequentemente nem mesmo à noite. Quando o Café Tortoni fechou, a coluna transferiu-se para os boulevards adjacentes e ondulava-se de um lado para o outro, principalmente diante da Passage de 1’Opéra. Julius Rodenberg, Paris bei Sonnenschein und Lampenlicht, Leipzig, 1867, p. 87.

[A 2, 11]

Especulação de ações ferroviárias sob Luís Filipe.

[A 2, 12]

[...]

Pregão de rua dos vendedores de boletins da bolsa. Na alta: A alta da Bolsa. Na baixa: As variações da Bolsa. O termo baixa foi proibido pela polícia.

[A 2a, 2]

[...]

Preço de um encargo como corretor na Bolsa entre 2.000.000 e 1.400.000 francos.

[A 2a, 4]

[...]

Um nome antigo para as lojas de departamentos: entrepostos baratos. Giedion, Bauen in Frankreich, Leipzig, Berlim, 1928, p. 31.

[A 3, 4]

A transformação das grandes lojas nas passagens em lojas de departamentos. Princípio das lojas de departamentos: Os andares constituem-se de um único espaço. A vista pode abrange-los por assim dizer, com um único olhar’.’ Giedion, Bauen in Frankreich, p. 34.

[A 3, 5]

[...]

Pelo visto, já se fumava nas passagens quando isso ainda não era comum na rua. Preciso dizer aqui ainda algumas palavras sobre a vida nas passagens como o lugar de preferência dos que passeiam e dos que firmam, lugar de recreação dos mais variados ofícios. Em cada passagem existe pelo menos um salão de limpeza. Em um gabinete decorado de maneira tão elegante quanto permite sua destinação, sentam-se os cavalheiros sobre estrados elevados e lêem tranqüilamente um jornal enquanto alguém se empenha em escovar-lhes o pó das roupas e das botas. Ferdinand von Gall, Paris und seine Salons, II, Oldenburg, 1845, pp. 22-23.

[A 3, 9]

48 Edgar Allan Poe, Philosophy of Furníture. (w.b.)

49 In: Friedrich Nietzsche, Werke in drei Bànden, ed. org. por Karl Schlechta, vol. 2, Munique, 1955, p. 511. (R.T.) 

50 0 arquiteto belga Henri Van de Velde (1863-1957) exerceu uma forte influência sobre o Jugendstil. A passagem acima refere-se à casa construída por ele em Uccle, em 1895. (J.L.)

51 Marcei Proust, Du Côté de Chez Swann, A expressão faíre catleya é o eufemismo de Swann para significar fazer amor. (E/M)

57 Auguste Blanqui, UÉternité par les Astres, Paris, 1872, pp. 73-74 e 76. (R.T.)

58 Referência ao poema Os Sete Velhos (Les Sept Vieillards), de Baudelaire. (w.b.) 9 Espaço paralelo à Bolsa de Valores, onde são realizados negócios não-oficiais; cf. A 7a, 5. (E/M; w.b.) 

1 Cf. Exposés, nota 2.

2 Calicot  Empregado encarregado das vendas ao publico, em casas comerciais; cf. A 8, 3 e A9. (w.b.) 

3 Arthur Rimbaud, Œuvres Complès, ed. org. 9 por Antoine Adam, Paris 1976 (Bibliothèque de la Pléiade, 68), p. 146 (llluminationsSolde). (R.T.)

9 Espaço paralelo à Bolsa de Valores, onde são realizados negócios não-oficiais; cf. A 7a, 5. (E/M; w.b.)

E aqueles que não podem pagar ... um albergue? Ora, esses dormem onde quer que achem um lugar, em passagens, arcadas, num canto qualquer onde a polícia ou os proprietários os deixem dormir sem incomodá-los.’ Friedrich Engels. Die Lage der arbeitenden Klasse in England, 2a edição, Leipzig, 1848, p. 46 (Die großen Städte’). 

[A 4a, 2]

 

Em todas as boutiques, como de costume, o balcão em carvalho é enfeitado de peças falsas de todo tipo de metal e formato, implacavelmente pregados no lugar, como pássaros predadores na porta, garantia sem réplica da lealdade do comerciante.’ Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris (1900), p. 294 (1830 et environs’).

[A 4a, 3]”

<fase média>

[...]

Os tipógrafos ... ocuparam, no fim do século XVIII, um vasto espaço... A Passage du Caire e seus arredores... Mas com o crescimento de Paris, os tipógrafos ... dispersaram-se por toda a cidade... Que pena! Quantos tipógrafos, hoje trabalhadores degradados pelo espírito da especulação, deveriam lembrar-se que ... entre a Rue Saint-Denis e a Cour des Miracles existe ainda uma longa galeria enfiimaçada onde jazem esquecidos seus verdadeiros penates.’ Edouard Foucaud, Paris Inventem, Paris, 1844, p. 154.

[A 6, 3] 

[...]

Martin: O comércio, o senhor percebe? ... é o rei do mundo! — Degenais: Sou de sua opinião, senhor Martin, mas não basta o rei, é preciso vassalos. Pois bem! A pintura, a escultura, a música... — Martin: É preciso um pouco delas ... e ... eu também encorajei as artes; assim, no meu último estabelecimento, o Café de França, eu tinha muitas pinturas temas alegóricos... E ainda, à noite, deixava entrar os músicos...; e, enfim, se eu o convidasse a vir em minha casa..., o senhor veria sob meu peristilo duas grandes estátuas, pouco vestidas, e tendo cada uma delas uma lanterna sobre a cabeça. — Defenais: Uma lanterna? — Martin: É assim que compreendo a escultura, ela tem que servir para alguma coisa ... mas todas essas estátuas, com uma perna ou um braço no ar, para que servem? Uma vez que não se instalou nem mesmo o cano de gás ... para quê?’ Théodore Barière, Les Parisiens, Paris, 1855 (Théâtre du Vaudeville, 28 de dezembro de 1854), p. 26. A peça passa-se em 1839.

[A 6a, 3]

[...]

Do prospecto Aos moradores das ruas Beauregard, Bourbon-Villeneuve, du Caire e da Cour des Miracles’: Projeto de duas passagens cobertas indo da Place du Caire à Rue Beauregard, terminando exatamente em frente à Rue Hauteville. Senhores: Há muito tempo nós nos preocupamos com o fiituro deste bairro; sofremos ao ver propriedades tão peno do boulevard estarem tão longe do valor que deveriam ter; esse estado de coisas mudaria se abríssemos vias de comunicação, e, como é impossível traçar ruas nesse lugar, devido à grande diferença de nível do solo, e que o único projeto praticável é o que temos a honra de lhes submeter, esperamos, senhores, que, na qualidade de proprietários..., os senhores queiram nos honrar com sua colaboração e com sua adesão... Cada participante será responsável por um deposito de 5 francos por ação de 250 francos que quiser possuir na sociedade definitiva. Logo que se atingir o montante de 3.000 francos de capital, esta subscrição provisória será fechada, a refenda soma sendo por ora considerada suficiente. Paris, 20 de outubro de 1847. Convite impresso para subscrição.

[A 8, 1]

[...]

Ruas-salões: As mais largas e mais bem situadas dentre as ruas-galerias foram ornamentadas com gosto e suntuosamente mobiliadas. As paredes e os tetos foram cobertos de ... mármores raros, de douraduras..., de espelhos e de quadros; guarneciam-se as janelas de magníficas tapeçarias e de cortinas bordadas com desenhos maravilhosos; cadeiras, poltronas, canapés ... ofereceram assentos comodos aos visitantes fatigados; enfim, móveis artísticos, antigos baús..., vitrines cheias de curiosidades..., potes contendo flores naturais, aquários cheios de peixes vivos; gaiolas povoadas de pássaros raros completaram a decoração dessas ruas-galerias que, à noite, eram iluminadas por candelabros dourados e lustres de cristal. O Governo quis que as ruas pertencendo ao povo de Paris ultrapassassem em magnificência os salões dos mais poderosos soberanos... Pela manhã, as ruas-galerias ficam entregues ao pessoal da limpeza que areja, varre cuidadosamente, escova, espana, esfrega os móveis e conserva por toda pane a mais escrupulosa limpeza. Em seguida, conforme a estação, fecham-se as janelas ou deixam-nas abertas, acende-se a lareira ou se descem as cortinas... Entre nove e dez horas, todo esse trabalho de limpeza está terminado e os transeuntes, raros até então, se põem a circular em grande número. A entrada das galerias é rigorosamente proibida a todo indivíduo sujo ou portador de um grande fardo; é igualmente proibido fumar e escarrar.’ Tony Moilin, Paris en lAn 2000, Paris, 1869, pp. 26-29 (Aspects des rues-galeries’).

[A 9a, 1]

[...]

Em 1798 e 1799, a expedição do Egito contribuiu enormemente para a moda dos xales. Alguns generais do exército expedicionário, aproveitando a vizinhança da índia, enviaram a suas mulheres e a suas amigas xales de ... caxemira... A partir desse momento, a doença que se poderia chamar de febre da caxemira tomou proporções consideráveis, cresceu no Consulado, cresceu no Império, tornou-se gigantesca na Restauração, colossal no governo de Julho, e chegou, enfim, ao estado de esfinge depois da Revolução de fevereiro de 1848.’ Paris Chez Soi, p. 139. (A. Durand, Châles-cachemires indiens et français’). Contém uma entrevista com M. Martin, Rue Richelieu, 39, proprietário do magazine Aux Indiens’; relata que xales, que antes custavam de 1.500 a 2.000 francos, podem ser agora adquiridos por 800 a 1.000 francos.

[A 10 , 2 ]

[...]

Brazier, Gabriel e Dumersan, Les Passages et les Rues, ou La Guerre Declarée, vaudeville em um ato, representado pela primeira vez em Paris, no Théâtre des Vanétés, em 7 de março de 1827 Paris, 1827. — O partido dos adversários das passagens é composto pelo br. Duperron, comerciante de guarda-chuvas, Sra. Duhelder, mulher de um locador de coches, Sr. Mouffetard, fabricante de chapéus, Sr Blancmanteau, comerciante e fabricante de tamancos, Sra. Dubac, que vive de renda — cada um deles provindo de um bairro diferente. Sr Dulingot, que aplicou seu dinheiro em ações de passagens, abraça a causa das passagens. Seu advogado e o Sr Afavor, o advogado de seus opositores é o Sr Contra. Na antepenúltima cena (a 14a), surge o Sr Contra à dianteira nas Ruas. Estas ostentam bandeiras apropriadas a seu nome. Entre elas a Rue aux Ours, Rue Bergère, Rue du Croissant, Rue des Puits-qui-Parle, Rue du Grand-Hurleur etc. Analogamente, aparece na cena seguinte o cortejo das Passagens com suas bandeiras: Passage du Saumon, Passage de 1’Ancre, Passage du Grand-Cerf, Passage du Pont-Neuf, Passage de 1’Opéra, Passage du Panorama. Na cena seguinte, a ultima (a 6 ), emerge Lutécia22: do seio da terra, a princípio na figura de uma velha. Diante dela, o Sr. Contra defende sua causa contra as Passagens do ponto de vista das Ruas: Cento e quarenta e quatro passagens abrem suas bocas escancaradas para devorar nossos hábitos, para fazer fluir as ondas incessantemente renovadas de nossa multidão ociosa e ativa! E vocês querem que nós, Ruas de Paris, fiquemos insensíveis a essas invasões de nossos direitos antigos. Não, nós pedimos ... a interdição de nossos cento e quarenta e quatro adversários além de quinze milhões e quinhentos mil francos de indenizações e juros.’ (p. 29) A defesa das Passagens, pelo Sr. Aíàvor, tem a forma de uma copla. Eis uma amostra:

Nós, os proscritos, nosso uso é cômodo,

Não fizemos, com nosso aspecto risonho,

Paris inteiro adotar a moda

Destes bazares, famosos no Oriente?

... 

Quais são estas paredes que a multidão contempla?

Estes ornamentos, estas colunas, sobretudo?

Acreditar-se-ia estar em Atenas, e este templo

É ao comércio erguido pelo gosto. (pp. 29-30 ).

Lutécia faz a arbitragem da disputa: O caso está concluído. Gênios das luzes, obedeçam a minha voz. (Neste momento toda a galeria se ilumina a gás.)’ (p. 31). Um balé das Passagens e Ruas encerra o vaudeville

[A 10a, 1]

<fase tardia>

[...]

Nenhuma razão particular..., à primeira vista, para que a história tenha recebido este nome: A Loja de Antiguidades. Há apenas dois personagens que têm alguma coisa a ver com esse gênero de boutique, e desde as primeiras páginas eles a deixam para sempre... Mas quando estudamos as coisas em seqüência, percebemos que esse título é uma espéae de chave para todo o romance de Dickens. Suas histórias tinham sempre como ponto de parada alguma lembrança de rua; as lojas, talvez a coisa mais poética de todas, muitas vezes movimentaram sua imaginação desabusada. Cada boutique, na verdade, despertava nele a idéia de uma novela. Entre as diversas séries de projetos ... é surpreendente não se ver começar uma série com o título A Rua; ela seria inesgotável e as boutiques seriam os capítulos. Ele poderia ter escrito romances deliciosos. A Boutique do Padeiro, A Farmácia, A Boutique do Comerciante de Óleos: outros tantos complementos da Loja de Antiguidades. G. K. Chesterton, Dickens, traduzido por Laurent e Marrin-Dupont, Paris, 1927, pp. 82-8323

[A 11, 3] 

[...]

Confissão de Proudhon ao fim de sua vida (in: La Justice24  a comparar com a visão do falansténo em Fourier): Foi mesmo preciso civilizar-me. Mas confessá-lo-ei? O pouco que dela aprendi me desgostou... Odeio as casas de mais de um andar nas quais, numa inversão da hierarquia social, os pequenos são instalados no alto, e os grandes estabelecidos no térreo.’ (cit. Armand Cuvillier, Marx et Proudhon: A la Lumière du Marxisme, II, Primeira Parte. Paris, 1937, p. 211.) 

[A11a, 3]

Blanqui: Usei’, disse ele, a primeira insígnia tricolor de 1830, feita pela Sra. Bodin, Passage du Commerce’. Gustave Geffroy, LEnfermé , Paris, 1897, p. 240. 

[A11a, 4]

Baudelaire escreve ainda: um livro luminoso como um lenço ou um xale da Índia’. Baudelaire, LArt Romantique, Paris, p. 192 (Pierre Dupont’).25

[A 11a, 4]

[...]

Crescimento das vendas do Bon Marché, entre 1852 e 1863, de 450.000 francos para 7 milhões de francos. O aumento do lucro deve ter sido percentualmente muito menor. Movimento grande, lucro pequeno foi um novo princípio, que se coadunava com os principais efeitos, o efeito da multidão compradora e o da massa do estoque. Em 1852, Boucicaut associa-se a Vidau, o proprietário do magasin de nouveautés Au Bon Marché. A originalidade consistia em vender a mercadoria de qualidade, garantida pelo preço da mercadoria dos camelôs. A etiqueta com preço fixo foi outra inovação ousada, que suprimia a pechincha e a ‘venda segundo a cara do freguês ; a devolução permitia ao cliente anular sua transação à vontade; finalmente, os empregados eram pagos quase integralmente através de comissões sobre as vendas: estes foram os elementos constitutivos da nova organização.’ George d’Avenel, Le mécanisme de la vie moderne: Les grands magazins’, Revue des Deux Mondes, Paris, 1894, pp. 335-336; 124 tomos.

[A 12, 1]

[...]

A fisionomia da passagem surge em Baudelaire em uma frase no início do Joueur génereux’: Parece-me estranho que eu tivesse passado tantas vezes ao largo desse prestigioso antro sem desconfiar que ali era a entrada.’ Baudelaire, Œuvres, texto organizado e anotado por Y.-G. Le Dantec, I, Paris, 1931, p. 456.26

[A 12, 4]

Característica específica das lojas de departamentos: os compradores sentem-se como massa; são confrontados aos estoques; abrangem todos os andares com um só olhar; pagam preços fixos; podem trocar as mercadorias’.

[A 12, 5]

[...]

Sobre a embriaguez religiosa das grandes cidades’ de Baudelaire: as lojas de departamentos são os templos consagrados a esta embriaguez.28

[A 13]

B

22 De Lutetia, nome romano de Paris. (E/M)

23 G. K. Chesterton, Charles Dickens (1906; reimpressão: Nova Iorque, Schocken, 1965), pp. 119-120.(E/M)

24 De la Justice dans la Révolution et dans lÉglise, 3 vols., 1858. (E/M)

25 Baudelaire, OC II, pp. 26-27. (R.T.)  Baudelaire se refere ao livro de poemas de Victor Hugo, Les Orientales (1829). (E/M)

26 Baudelaire, OC I. p. 325 (Le Spleen de Paris). (J.L.; w.b.)

28 Baudelaire, OC I, p. 651 (Fusées, II). (R.T.)

 

B

[Moda]

[...]

Nada morre, tudo se transforma.

Honoré de Balzac, Pensées, Sujets, Fragments, Paris, 1910, p. 46

E o tédio é a treliça diante da qual a cortesã provoca a morte. ■ Ennui ■ 

[B1,1]

Semelhança das passagens com os galpões cobertos onde se aprendia a pedalar. Nesses locais, a mulher assumia sua aparência mais sedutora: a de ciclista Assim ela aparece nos cartazes da época. Chéret, o pintor dessa beleza feminina. A roupa da ciclista, como protótipo precoce e inconsciente da roupa esportiva, corresponde aos protótipos das formas oníricas, tal qual elas, um pouco antes ou depois, apareceram para as fábricas ou para o automóvel. Assim como as primeiras construções de fábricas apegavam-se à forma tradicional das moradias e as primeiras carrocerias de automóveis imitavam as carroças, também a expressão esportiva na roupa da ciclista luta ainda com a tradicional imagem ideal da elegancia e o fruto desta luta é o toque obstinado, sádico, que tornou estes anos tão incomparavelmente provocantes para o mundo masculino. ■ Moradas de sonho ■ 

[B 1, 3]

[...]

Nada está inteiramente em seu lugar, mas é a moda que fixa o lugar de tudo. LEsprit dAlphonse Karr, Paris, 1877, p. 129. Se uma mulher de bom gosto, ao desnudar-se à noite, se encontrasse realmente do jeito que insinuou ser durante o ia todo, creio que seria encontrada, no dia seguinte, submersa e afogada em suas lágrimas. Alphonse Karr, cit. em F. Th. Vischer, Mode und Zinismus, Stuttgart, 1879, pp. 106-107. 

[B1, 6]

[...]

Para o filósofo, o aspecto mais interessante da moda é sua extraordinária capacidade de antecipação. É consenso que a arte, muitas vezes, geralmente por meio de imagens, antecipa em anos* a realidade perceptível. Ruas ou salas puderam ser vistas em suas variadas cores brilhantes bem antes que a técnica, através de anúncios luminosos ou outros dispositivos, as colocasse sob uma luz desse tipo. Da mesma forma, a sensibilidade individual de um artista em relação ao futuro ultrapassa em muito aquela da dama da sociedade. E, entretanto, a moda está em contato muito mais constante, muito mais preciso, com as coisas vindouras graças ao faro incomparável que o coletivo feminino possui para o que nos reserva o futuro. Cada estação da moda traz em suas mais novas criações alguns sinais secretos das coisas vindouras. Quem os soubesse ler, saberia antecipadamente não só quais seriam as novas tendências da arte, mas também a respeito de novas legislações, guerras e revoluções.2 — Aqui, sem dúvida, reside o maior encanto da moda, mas também a dificuldade de torná-lo frutífero.3

 [B 1a, 1]

[...]

Uma perspectiva definitiva sobre a moda oferece-se apenas pela observação de como para cada geração aquela que a precedeu imediatamente parece ser o antiafrodisíaco mais radical que se possa conceber. Com este julgamento, ela não está tão errada como se pode imaginar. Há em cada moda algo de sátira amarga do amor, cada moda contém todas as perversidades sexuais da maneira mais impiedosa possível, cada uma comporta em si resistências secretas contra o amor. Vale a pena confrontar-se com a seguinte observação de Grand-Carteret, não importa quão superficial ela seja: É pelas cenas da vida amorosa que se percebe, na verdade, aparecer todo o ridículo de certas modas. Estes homens, estas mulheres, não são eles grotescos em gestos, em poses, pelo topete extravagante em si mesmo, pelo chapéu de copa alta, pelo redingote ajustado à cintura, pelo xale, pelos chapéus de abas largas, pelos pequenos borzeguins de tecido? O confronto das gerações passadas com as modas tem então uma importância muito maior do que se imagina habitualmente. E é um dos aspectos mais importantes do costume histórico de empreender isso sobretudo no teatro. A partir do teatro, a questão do costume penetra profundamente na vida da arte e da poesia, nas quais a moda é, ao mesmo tempo, mantida e superada. 

[B 1a, 4]

Um problema bem semelhante colocou-se para nós em vista das novas formas de velocidade que trouxeram um ritmo diferente à vida. Isto também, de certa forma, foi testado primeiramente de maneira lúdica. Surgiram as montanhas-russas’ , e os parisienses, qual loucos, apoderaram-se deste divertimento. Por volta de 1810, conforme anota um cronista, uma dama teria desperdiçado 75 francos numa só noite no Pare de Montsouris, onde havia estas atrações aéreas. O novo ritmo da vida anuncia-se por vezes de maneira mais inesperada. É o caso dos cartazes. Essas imagens de um dia ou de uma hora, desbotadas pelas tempestades, rabiscadas a carvão pelos meninos, queimadas pelo sol e alguma vezes cobertas por outras imagens, antes mesmo que tenham secado, simbolizam  num grau ainda mais intenso que a imprensa  a vida rápida, agitada, multiforme que nos arrasta. Maurice Talmeyr, La Cité du Sang, Paris, 1901, p. 269. Pois, nos primeiros tempos do cartaz ainda não havia uma lei que regulasse sua colocação, sua proteção ou que também garantisse a proteção contra os cartazes e, assim, era possível acordar uma certa manhã e encontrar a própria janela tapada por um cartaz. Esta enigmática necessidade de sensações foi desde sempre satisfeita pela moda. Porém, somente a reflexão teológica a respeito conseguirá atingir o cerne da questão, pois revela-se aí uma atitude profunda, afetiva, do ser humano frente ao curso da história. Somos levados a associar esta necessidade de sensações a um dos sete pecados capitais e não devemos nos surpreender com o fato de um cronista associar a isso profecias apocalípticas e anunciar um tempo em que os seres humanos se tornarão cegos devido ao excesso de luz elétrica e desvairados por conta do ritmo acelerado das notícias. (Em lacques Fabien, Paris en Songe, Paris, 1863.)

[B2, 1]

Em 4 de outubro de 1856, o Teatro Ginásio representou uma peça intitulada Les Toilettes Tapageuses (As Toaletes Escandalosas). Era a época da crinolina e as mulheres-„balão“ estavam na moda. A atriz que representava o papel principal, tendo compreendido a intenção satírica do autor, trazia um vestido cuja saia propositalmente exagerada tinha uma amplidão cômica e quase ridícula. No dia seguinte, à primeira apresentação, seu vestido foi pedido como modelo por mais de vinte grandes damas, e oito dias depois a crinolina tinha dobrado de dimensão. Maxime Du Camp, Paris, vol. VI, p. 1927.6

[B 2, 2]

A moda é a procura sempre vã, muitas vezes ridícula, às vezes perigosa, de uma beleza superior ideal. Du Camp, Paris, vol. VI, p. 194.

[B 2, 3]

[...]

Importante crítica política da moda do ponto de vista burguês: Quando o autor destes pensamentos racionais viu embarcar no trem o primeiro rapaz vestindo uma camisa com o mais moderno colarinho, acreditou piamente estar vendo um padre; pois esta tira branca situa-se na parte inferior do pescoço à mesma altura do conhecido colarinho do clero católico e, além disso, o longo paletó era preto. Quando reconheceu o exemplo mundano da última moda, compreendeu o que este colarinho também significa: Oh, para nós, tudo, tudo é igual, até as concordatas! Por que não? Devemos nos entusiasmar com as Luzes como rapazes nobres? Não é a hierarquia mais distinta do que a planura de uma insípida libertação dos espíritos, que ao fim nada mais faz do que azedar o prazer do homem elegante?  Ademais, este colarinho, ao traçar o pescoço numa linha reta e firme, lembra o belo aspecto de um recém-guilhotinado, o que combina bem com o caráter do esnobe. Alia-se a isso a reação violenta à cor violeta. Vischer, Vernünftige Gedanken über die jetzige Mode, p. 112.

[B 2a, 6]

Sobre a reação de 1850-1860: Declarar o que se pensa é tido como ridículo, ser severo, como infantil, assim sendo, como a roupa não deveria tornar-se também sem graça, frouxa e, ao mesmo tempo, apertada? Vischer, p. 117. Assim, ele relaciona a crinolina também ao imperialismo fortalecido que se estende e se infla como ela e que é a última e mais forte expressão do refluxo de todas as tendências do ano de 1848, fazendo recair seu poder como uma campânula acima do bem e do mal, da justiça e da injustiça da revolução. Vischer, p. 119.

[B 2a, 7]

No fundo, estas coisas são ao mesmo tempo livres e não-livres. Trata-se de um claro-escuro, onde se entremesclam a necessidade e o humor... Quanto mais fantástica uma forma, tanto mais fortemente a consciência clara e irônica acompanha a vontade servil. E esta consciência nos garante que a loucura não durará, quanto mais crescer, mais próximo estará o tempo em que terá efeito; a consciência tornar-se-á ação e libertar-se-á das amarras. Vischer, pp. 122-123.

[B 2a, 8]

Um dos textos mais importantes para o esclarecimento das possibilidades excêntricas, revolucionárias e surrealistas da moda, além disso, um texto que justamente estabelece a relação do Surrealismo com Grandville &tc, é o capítulo sobre a moda no Poète Assassiné, de Apollinaire, Paris, p. 74 & seq.8

[B 2a, 9]

Como a moda tudo imita: surgiram programas para as roupas sociais, como os que acompanham a mais moderna música sinfônica. Em 1901, em Paris, Victor Prouvé expôs um imponente traje de luxo com o título: Margens fluviais na primavera.

[B 2a, 10]

Marca da moda de então: sugerir um corpo que jamais conhecerá a nudez total.

[B 3, 1]

Apenas por volta de 1890 considera-se que a seda já não é o material mais nobre para a roupa de passeio; por isso foi-lhe atribuída uma nova função, antes desconhecida: utilizou-se a seda como forro. A roupa de 1870 a 1890 é extremamente dispendiosa e as mudanças da moda limitam-se por isso, muitas vezes, a modificações prudentes cuja intenção implícita é a de, por assim dizer, criar uma roupa nova através da reforma de uma roupa velha. 70 Jahre deutsche Mode, 1925, p. 71.

[B 3, 2]

Ano de 1873 ... quando as enormes almofadas presas ao traseiro faziam com que as saias se avolumassem, com seus drapeados em dobras, babados plissados, debruns e fitas, parecendo sair da oficina de um tapeceiro e não do ateliê de um costureiro. J. W. Samson, Die Frauenmode der Gegenwart, Berlim e Colônia. 1927. pp. 8-9.

[B 3. 3]

Nenhum tipo de imortalização é tão perturbador quanto o do efémero e das formas da moda que nos reservam os museus de cera. E quem um dia as viu, terá se apaixonado, como André Breton, pela figura feminina do Musée Grévin que ajeita sua liga no canto de um camarote. (Najda, Paris, p.199)9

[B 3, 4]

[...]

Formulação minha: O eterno, de qualquer modo, é, antes, um drapeado de vestido do que uma idéia. 10 ■ Imagem dialética ■

[B 3, 7]

No fetichismo, o sexo suprime as barreiras entre o mundo orgânico e o inorgânico. Vestuário e jóias são seus aliados. Ele se sente em casa tanto no mundo inerte quanto no da carne. Esta lhe indica o caminho de como se instalar no primeiro. Os cabelos são um território situado entre os dois reinos do sexo. Um outro abre-se-lhe na embriaguez da paixão: as paisagens do corpo. Estas nem mesmo estão mais vivas, mas são ainda acessíveis ao olhar que quanto mais distante tanto mais transfere ao tato ou ao olfato a viagem através destes reinos da morte. No sonho, porém, não raro intumescem-se os seios que, como a terra, estão totalmente vestidos de florestas e rochedos, e os olhares imergiram sua vida no fundo de espelhos d’água adormecidos em vales. Estas paisagens percorrem caminhos que acompanham o sexo ao mundo do inorgânico. A própria moda é apenas um outro meio que o atrai ainda mais profundamente ao mundo da matéria.

[B 3, 8]

Este ano, diz Tristouse, a moda é bizarra e familiar, simples e cheia de fantasia. Todos os materiais dos diferentes reinos da natureza podem agora entrar na composição de uma roupa de mulher Vi um vestido encantador feito de rolhas de cortiça... Um grande costureiro cogita lançar tailleurs feitos com o dorso de livros velhos, costurados com pêlo de bezerro... As espinhas de peixe são muito usadas em chapéus. Vêem-se freqüentemente deliciosas jovens vestidas como peregrinas de Santiago de Compostela, sendo sua roupa, como convém, constelada de conchas de „São Tiago“.11 A porcelana, o grés e a louça surgiram bruscamente na arte da vestimenta... As plumas decoram agora não apenas os chapéus, mas os sapatos e as luvas, e no proximo ano serão colocadas nas sombrinhas. Fazem-se sapatos de vidro de Veneza e chapéus de cristal de Baccarat... Esqueci-me de lhes dizer que, na última quarta-feira vi nos boulevards uma velha madame vestida com pequenos espelhos aplicados e colados em um tecido. Ao sol, o efeito era suntuoso. Parecia, digamos, uma mina de ouro a passeio. Mais tarde começou a chover e a dama pareceu uma mina de prata... A moda torna-se prática e não despreza mais nada, enobrece tudo. Ela faz com a matéria o que os românticos fizeram com as palavras. Guillaume Apollinaire, Le Poéte Assassiné, nova edição Paris, 1927, pp. 75-77.

[B 3a, 1]

[...]

Os banhos de mar deram o primeiro golpe na solene e embaraçosa crinolina. Louis sonolet, La Vie Parisienne som le Second Empire, Paris, 1929, p. 247.

[B 3a, 3]

A moda consiste de extremos. Como ela, por natureza, procura os extremos, nada mais lhe resta ao abandonar uma determinada forma senão remeter-se exatamente ao seu contrário. 70 Jahre deutsche Mode ’ 1925., p. 51. Seus máximos extremos: a frivolidade e a morte.

[B 3a, 4]

Consideravamos a crinolina o símbolo do Segundo Império na França, de sua mentira deslavada, de seu atrevimento leviano e ostentoso. Esse império ruiu..., mas o mundo parisiense ainda teve tempo, antes de sua queda, de salientar na moda feminina um outro aspecto de seu estado de espírito, e a república não se hirtou de aceitá-lo e conservá-lo. E Th. Vischer, Mode und Cynismus, Stuttgart, 1879, p. 6. A nova moda a que Vischer se refere e explicada da seguinte forma: O vestido é cortado transversalmente sobre o corpo e estende-se ... sobre o abdome. (p. 6) Mais tarde, ele ahrma que as mulheres que assim se vestem estão nuas, embora vestidas (p. 8).

[B 3a, 5]

Friedell explica em relação à mulher que a história de seu vestuário demonstra surpreendentemente poucas variações, nada mais sendo do que uma seqüência de algumas nuances que mudam muito rapidamente, mas que também retornam com maior freqüência: o comprimento das caudas, a altura dos penteados, o comprimento das mangas, o volume saia, o tamanho do decote, a altura da cintura. Mesmo revoluções radicais como o atual corte de cabelos à la garçonne são apenas o eterno retorno do mesmo . Egon Friedell, Kulturgeschichte der Neuzeit, vol. III, Munique, 1931, p. 88. Desta forma, segundo o autor, a moda feminina se distingue da moda masculina, mais variada e mais determinada.

[B 4, 1]

[...]

A moda é um testemunho, mas um testemunho da história do grande mundo somente, porque em todos os povos ... os pobres não têm modas como não têm história, e nem suas idéias, nem seus gostos, nem sua vida mudam em nada. Talvez ... a vida pública comece a penetrar nos pequenos lares, mas isso levará tempo. Eugène Montrue, Le XIXe Siècle Vécu par Deux Français, Paris, p. 241.

[B 4, 6]

A seguinte observação permite reconhecer qual o significado da moda como disfarce de determinados desejos da classe dominante. Os donos do poder sentem uma imensa aversão a grandes transformações. Desejam que tudo fique como está, por mil anos de preferência. Seria preferível que a lua permanecesse imóvel e que o sol não se movesse! Então ninguém sentiria mais fome e teria vontade de jantar. Quando tivessem usado sua arma, os adversários não deveriam mais atirar, seus tiros deveriam ser os últimos. Bertolt Brecht, Fünf Schwierigkeiten beim Schreiben der Wahrheit, Unsere Zeit, VIII, 2-3, abril de 1935, Paris/Basiléia/Praga, p. 32.

[B 4a, 1]

[...]

Uma moda atual e seu significado. Na primavera de 1935, aproximadamente, surgiram na moda feminina plaquetas de metal de tamanho médio, perfiiradas, usadas sobre a malha ou o casaco, com a inicial do prenome da mulher que os vestia. Assim, a moda tirava proveito da voga dos distintivos usados com maior freqüência pelos homens que se tornaram membros de associações. Por outro lado, entretanto, com isso vem à tona a crescente restrição à esfera particular. O nome, mais precisamente, o prenome das desconhecidas, é trazido a público numa beirada de tecido. O fato de que com isso fosse mais fácil travar conhecimento com uma desconhecida é de importância secundária.

[B 4a, 4]

Os criadores de moda ... freqüentam a sociedade e adquirem desse convívio uma impressão geral, participam da vida artística, assistem a estréias e visitam exposições, lêem os livros de sucesso  em outras palavras, sua inspiração inflama-se com os estímulos ... oferecidos por uma atualidade movimentada. Todavia, como nenhum presente desliga-se totalmente do passado, também o passado oferece-lhes estímulos... Mas apenas é utilizado aquilo que está em harmonia com o acorde da moda atual. O chapeuzinho caído sobre a testa, que devemos à exposição de Manet, prova simplesmente que possuímos uma nova disposição de entrar em confronto com o fim do século anterior. Helen Grund, Vom Wesen der Mode, Munique, 1935, p. 13.

[B 4a, 5]

<fase média>

2 À margem de uma transcrição tipográfica deste fragmento, feita por Gretel Adorno, encontra-se esta nota manuscrita de Theodor W. Adorno: eu diria: contra-revoluções. (R.T.)

3 Na revisão da tradução deste fragmento foi consultada também a tradução anteriormente publicada por Sheila Grecco em A Moda, Segundo Benjamin, Suplemento EU&, Valor, São Paulo, 6 a 8 de outubro de 2000, p. 31. (w.b.)

6 A primeira edição da obra de Maxime Du Camp sobre Paris foi publicada entre 1869 e 1875; até 1898 houve oito reedições. O editor alemão não conseguiu descobrir quais foram as edições utilizadas por Benjamin, pois as indicações de volumes e páginas são contraditórias, lacunares ou não encontráveis. (R.T.; w.b.)

8 Cf. B 3a, 1 . (J.L.)

9 André Breton, Nadja, Paris, Gallimard, 1980, p. 179. (J.L.)

10 Cf. N 3, 2. (R.T.)

11 Conchas Saint-Jacques, tradicionalmente fixadas no manto e no chapéu dos peregrinos de Santiago de Compostela, em francês, Saint-Jacques de Compostelle. (w.b.)

12 La Muette de Portici: ópera de D.-F.-E. Auber. Um dueto desta obra, Amour sacré de la patrie, teria sido o sinal para dar início à Revolução de 1830, em Bruxelas. (E/M)

<fase média> 

Sobre a batalha publicitária entre a casa de alta costura e os jornalistas de moda. Facilita sua tarefa (dos jornalistas) o fato de nossos desejos coincidirem. Dificulta, porém, o fato de que nenhum jornal ou revista queira considerar como novo aquilo que um outro jornal ou revista já tenha publicado. Somente os fotógrafos e desenhistas, ao valorizar diferentes aspectos de uma roupa através da pose e da iluminação, podem livrar-nos deste dilema. As mais importantes revistas ... possuem estúdios fotográficos próprios, equipados com todos os refinamentos técnicos e artísticos, comandados por fotógrafos muito talentosos e especializados... A todos, porém, é vedada a publicação destes documentos antes do momento de a cliente fazer sua escolha, portanto, normalmente de quatro a seis semanas antes da estréia. O motivo desta medida? — Também a mulher não quer privar-se do efeito-surpresa ao apresentar-se à sociedade vestindo estas novas roupas. Helen Grund, Vom Wesen der Mode, pp. 21-22 (manuscrito particular, Munique, 1935 .

[B 5, 1]

Segundo o sumário das seis primeiras edições, encontra-se na revista La Demiere Mode, Paris, 1874, editada por Stéphane Mallarmé, um encantador esboço esportivo, resultado de uma conversa com o maravilhoso naturalista Toussenel. Reprodução deste resumo em Minotaure, II, 6, inverno de 1935, p. 27.

[B 5, 2]

Uma teoria biológica da moda, a partir da transformação da zebra em cavalo, descrita na edição popular do Brehm,14 p. 771, transformação que se estendeu por milhões de anos... A tendência inerente aos cavalos evoluiu dando ensejo à criação de um animal extraordinário para o trote e a corrida... Os animais mais próximos de sua origem na atualidade exibem um desenho de listras bastante chamativo. Um fato curioso é que as listras exteriores da zebra manifestam uma certa concordância com a disposição das costelas e das vértebras no lado interno. Da mesma forma, pode-se já determinar pelo lado externo a posição das patas superiores dianteiras e traseiras através do desenho singular das listras nestas partes. O que significa este desenho listrado? Certamente não possui uma função protetora... As listras são mantidas, apesar de sua inutilidade funcional, e  por isso devem ter um significado especial. Não estaríamos aqui diante de estímulos provocados exteriormente em prol de tendências interiores que devem tornar-se particularmente ativas na época do acasalamento? Como é que podemos transferir esta teoria para o nosso tema?  Algo basicamente importante, segundo me parece. — A moda absurda, desde que a humanidade passou da nudez à roupa, toma emprestado o papel da natureza sábia... Pois ao determinar em sua transformação ... uma permanente revisão de todas as partes da silhueta, a moda obriga a mulher a preocupar-se permanentemente com a beleza. Helen Grund, Vom Wesen der Mode, Munique, 1935, pp. 7-8.

[B5, 3]

[...]

Nós observamos ao nosso redor ... os efeitos de confusão e dissipação que nos inflige o movimento desordenado do mundo moderno. As artes não assumem compromisso com a pressa. Nossos ideais duram dez anos! A absurda superstição do novo — que infelizmente substituiu a antiga e excelente crença no julgamento da posteridade  atribui ao esforço do trabalho o fim mais ilusório e o utiliza para criar o que há de mais perecível, o que é perecível por essência: a sensação do novo... Ora, tudo o que se vê aqui foi experimentado, seduziu e encantou durante séculos, e toda essa glória nos diz com serenidade: EU NÃO SOU NADA DE NOVO. O Tempo pode mesmo estragar a matéria na qual existo; mas enquanto ele não me destruir, não poderá fazê-lo a indiferença ou o desprezo de algum homem digno desse nome. Paul Valéry, Préambule (prefácio ao catálogo da exposição Lart italien de Cimabue à Tiepolo, Petit Palais, 1935, pp-

[B 5a, 2]

O triunfo da burguesia modifica a roupa feminina A roupa e o penteado se desenvolvem em largura ... os ombros se alagam com mangas amplas, e não se tardará a recolocare em uso as anantigas armações e a se fazer saias bufantes. Assim vestidas, as mulheres pareciam destinadas à vida sedentária, à vida familiar, porque sua maneira de se vestir não tinha nada que desse a idéia de movimento ou que parecesse favorecê-lo. Aconteceu o contráno com a chegada do Segundo Império; os laços familiares se relaxaram; um luxo sempre crescente corrompeu o costumes a ponto de tornar-se difícil distinguir, unicamente pelo aspecto da roupa, uma mulher honesta de uma cortesã. Então, a toalete feminina se transformou da cabeça aos pés... As armações foram jogadas para trás e se reuniram num traseiro acentuado. Desenvolveu-se tudo o que podia impedir as mulheres de permanecer sentadas; afastou-se tudo o que pudesse dificultar seu caminhar. Elas se pentearam e se vestiram como que para serem vistas de perfil. Ora, o perfil é a silhueta de uma pessoa ... que passa, que vai nos escapar. A toalete tormou-se uma imagem do movimento rápido que leva o mundo. Charles Blanc, Considérations sur le Vêtement des Femmes (Insitut de France, 25 de oumbro de 1872), pp. 12-13. 

[B 5a, 3]

Para entender a essência da moda atual, é preciso recorrer não só a motivos de natureza individual tais como: o desejo de mudança, o senso de beleza, a paixão por se vestir, ímpeto de se adaptar aos padrões. Sem dúvida, tais motivações interferiram em diversas épocas ... na criação das roupas... Entretanto, a moda tal como se entende hoje, não tem motivações individuais, mas tão-somente uma motivação social; no momento em que se entende isso, chega-se à compreensão de toda a sua essência. Trata-se no empenho das classes altas de se distinguirem das mais baixas, ou melhor, das classes médias ... A moda é a barreira  erigida sem cessar e sempre de novo demolida  através da qual o mundo elegante procura isolar-se das regiões medianas da sociedade. Trata-se da procura desenfreada da vaidade social, na qual se repete sem cessar um mesmo fenómeno: o esforço de um grupo para estabelecer a liderança, ainda que seja mínima a distância que o separe dos perseguidores, e o esforço destes de neutralizar essa vantagem através da nova moda. Explicam-se assim os traços característicos da moda atual. Primeiramente seu surgimento nas camadas superiores da sociedade e sua imitaçao nas camadas medias. A moda se move de cima para baixo, não de baixo para cima... Uma tentativa das classes médias de lançar uma moda nova jamais ... seria bem-sucedida; embora nada fosse mais desejável para as camadas mais altas do que a adotação de uma moda própria por parte daquelas classes. ([Nota:] Isto não as impede, contudo, de procurar novos padrões na cloaca do meio-mundo parisiense e lançar modas que carregam claramente na testa o carimbo de sua origem licenciosa, como Fr. Vischer demonstrou de maneira convincente em seu ensaio sobre a moda, ... muito criticado, porém, na minha opinião, ... altamente meritório.) Daí vem a mudança contínua da moda. Tão logo as classes medias adotem moda recém-lançada, esta perde seu valor para as classes superiores... Por isso, a novidade e a condição imprescindível da moda... A sua duração é inversamente proporcional à rapidez de sua difusão; seu caráter efêmero acentuou-se em nossos tempos na mesma medida em que se multiplicaram os meios para sua difusão graças ao aperfeiçoamento dos nossos meios de comunicação... E, finalmente, a referida motivação social expiica também o terceiro traço característico de nossa moda atual: sua ... tirania. A moda contém o critério exterior segundo o qual uma pessoa ... ‘faz parte da sociedade’. Quem não quer abrir mão disso é obrigado a segui-la, mesmo que rejeite totalmente uma nova tendência dela... Com isso é decretada também a sentença da moda... Caso as camadas sociais, que são fracas e tolas o suficiente para imitá-la, conseguissem atingir o sentimento de sua dignidade e auto-estima..., chegar-se-ia ao fim da moda, e a beleza poderia, por sua vez, recuperar o lugar que ocupou em todos os povos que ... não sentiram a necessidade de acentuar as diferenças de classes através do vestuário, ou, onde isso ocorreu, tenham sido bastante razoáveis para respeitá-las. Rudolph von Jhering, Der Zweck im Recht , vol. II, Leipzig, 1883, pp. 234-238.15

[B 6; B 6a, 1]

Sobre a época de Napoleão III: Ganhar dinheiro torna-se objeto de um ardor quase sensual, e o amor, uma questão de dinheiro. A época do Romantismo francês, o ideal erótico gravitava em torno da grisette;16 agora é a vez da lorette17 que se vende... Ocorreu na moda uma nuance marota: as senhoras usam colarinhos e gravatas, paletós, saias cortadas à semelhança de fraques ... túnicas de zuavo, dólmãs, bengalas, monóculos. Dá-se preferência a cores fortemente contrastantes e berrantes, também para os penteados: cabelos vermelho-fogo são muito apreciados... O tipo mais característico da moda é o da grande dama que faz o papel da cocota. Egon Friedell, Kulturgeschichte der Neuzeit, vol. III, Munique, 1931, p. 203. O caráter plebeu desta moda apresenta-se ao autor como invasão ... vinda de baixo, por parte dos nouveaux riches.

[B 6a, 2]

[...]

Simmel indica que a invenção da moda na época atual integra-se cada vez mais a organização objetiva do trabalho da economiaNão surge em algum lugar um artigo que se torna moda; ao contrário, criam-se artigos com a finalidade de tornar-se moda. A oposição enfatizada nesta última frase poderia dizer respeito em certa medida àquela existente entre a era burguesa e a era feudal. Georg Simmel, Philosophische Kultur, Leipzig, 1911, p. 34 (A moda).

[B 7, 7]

[...]

Simmel afirma que as modas são sempre modas de classe, que as modas da classe superior distinguem-se daquelas da classe inferior e são abandonadas no momento em que esta última começa a se apropriar delas. Georg Simmel, Philosophische Kultur, Leipzig, 1911, p. 32 (A moda).

[B 7a, 2]

 .

14 Alfred Edmund Brehm (1829-1884), zoólogo e antigo diretor do Jardim Zoológico de Berlim, foi o autor de Tierleben (Vida dos Animais), 6 vols. (1864-1869). A edição popular (o Kleine Brehm), à qual se refere Benjamin, parece ser esta: Brehms Tierleben: Kleine Ausgabe für Volk und Schule, 3 vols., 2a ed., org. por Richard Schmidtlein, Leipzig, Bibliographisches Institut, 1902. (J.L.; E/M; w.b.)

15 Cf. nota 3.

16 Jovem costureirinha na indústria da moda, de condição modesta e costumes levianos. (w.b.)

17 Moça de costumes levianos. O nome é derivado da igreja Notre-Dame de Lorette, situada num bairro onde moravam muitas dessas jovens. (w.b.)

.

 

<fase tardia>20

[...]

“A idéia tola e funesta de opor o conhecimento aprofundado dos meios de execução— trabalho sensatamente mantido … ao ato impulsivo da sensibilidade singular é um dos traços mais certos e mais deploráveis da leviandade e da fraqueza de caráter que marcaram a era romântica. A preocupação com a duração das obras já se enfraquecia e cedia, nos espíritos, ao desejo de surpreender: a arte se viu condenada a um regime de rupturas sucessivas. Nasceu um automatismo da ousadia. Esta tornou-se imperativa como fora a tradição. Enfim, a Moda, que é a mudança em alta freqüência do gosto de uma clientela substituiu sua mobilidade essencial às lentas formações dos estilos, das escolas, das grandes celebridades. Mas dizer que a Moda se encarrega do destino das Belas Artes é o bastante para dizer que o comércio aí se intromete.” Paul Valéry, Pièces sur lArt, Paris, pp. 18-488 (“Sobre Corot”). 

[B 8, 2]

[...]

“Este gosto da modernidade vai tão longe que Baudelaire, como Balzac, o estende aos mais fúteis detalhes da moda e do vestuário. Ambos os estudam em si mesmos e elaboram com eles questões morais e filosóficas, porque eles representam a realidade imediata no aspecto mais agudo, mais agressivo, mais irritante, talvez, mas também mais vivido.” [Nota]: “Além disso, para Baudelaire, essas preocupações se voltam para sua importante teoria do Dandismo da qual, justamente, ele fez uma questão de moral e de modernidade.” Roger Caillois, “Paris, mythe moderne”, Nouvelle Revue Française XXV: 284, 1 de maio de 1937, p. 692.

 [B 8a, 2]

 “Grande acontecimento! As belas damas experimentam um dia a necessidade de inflar o traseiro. Depressa, aos milhares, fábricas de enchimentos! … Mas o que é uma simples guarnição sobre ilustres cóccix? Uma bugiganga, na verdade… ‘Abaixo os traseiros! Viva as crinolinas!’ E, de repente, o universo civilizado se transforma em manufatura de sinos ambulantes. Por que o sexo encantador esqueceu os badalos dos sininhos? … Ocupar um lugar não é tudo, é preciso fazer barulho lá embaixo… O quartier Breda e o faubourg Saint-Germain são rivais em piedade, tanto quanto em engomados e em coques. Que sigam o exemplo da Igreja! Nas vésperas, o órgão e o clero recitam alternadamente um versículo dos salmos. As belas damas e seus sinos poderiam seguir esse exemplo: palavras e tilintes retomando, cada um em sua vez, a seqüência da conversa.” Blanqui, Critique Sociale, Paris, 1885, vol. I, pp. 83-84 (“O luxo”). — “O luxo” é uma polêmica dirigida contra a indústria de luxo.

[B 8a, 3]

 Cada geração vivência a moda da geração imediatamente anterior como o mais radical dos antiafrodisíacos que se pode imaginar. Com esse veredicto, ela não comete um erro tão grande como se poderia supor. Em cada moda há um quê de amarga sátira ao amor; em cada uma delas delineiam-se perversões da maneira mais impiedosa. Toda moda está em conflito com o orgânico. Cada uma delas tenta acasalar o corpo vivo com o mundo inorgânico. A moda defende os direitos do cadáver sobre o ser vivo. O fetichismo que subjaz ao sex appeal do inorgânico é seu nervo vital.

 [B 9, 1] 

Nascimento e morte - o primeiro, pelas circunstâncias naturais; a segunda, por circunstâncias sociais — limitam consideravelmente a margem de liberdade da moda, quando se tornam atuais. Este estado de coisas é realçado por uma dupla circunstância. A primeira refere-se ao nascimento e mostra como a recriação natural da vida é “superada” pela novidade no domínio da moda. A segunda refere-se à morte. No que concerne à morte, ela não aparece menos “superada” na moda, quando esta liberta o sex appeal do inorgânico.

 [B 9, 2]

A descrição detalhada da beleza feminina, apreciada pela poesia barroca, que exalta cada um de seus pormenores através da comparação, associa-se secretamente à imagem do cadáver. Tal desmembramento da beleza feminina em suas partes gloriosas assemelha-se a uma dissecação, e as mais apreciadas comparações das partes do corpo com o alabastro, com a neve, com pedras preciosas ou outras matérias, sobretudo inorgânicas, reforçam esse sentimento. (Tais desmembramentos são encontrados também em Baudelaire, “Le beau navire ".) 

 [B 9, 3]

 [...]

 As modas são um medicamento que deve compensar na escala coletiva os efeitos nefastos do esquecimento. Quanto mais efêmera é uma época, tanto mais ela se orienta na moda. Cf. [K 2a, 3].

 [B 9 a, 1 ]

 [...]

 Dificilmente encontra-se uma peça de vestuário que pode expressar tantas tendências eróticas divergentes e fornecer tantas possibilidades para dissimulá-las quanto o chapéu feminino. Enquanto o significado da cobertura de cabeça masculina seguia estritamente, em sua esfera - a política -, alguns poucos modelos rígidos, as nuances do significado erótico do chapéu feminino são incalculáveis. Não são as diferentes possibilidades de sugerir simbolicamente os órgãos sexuais as que mais podem interessar aqui. Mais surpreendente pode ser a explicação que o chapéu fornece sobre a vestimenta. Helen Grund formulou a hipótese engenhosa de que o tipo de chapéu que é usado junto com a crinolina representa na verdade um modo de manejo desta última para os homens. As largas abas do chapéu são dobradas — indicando, desta maneira, como a crinolina deve ser dobrada para facilitar ao homem o acesso sexual à mulher. 

 [B 10, 9 ]

 [...]

 C

[Paris antiga. Catacumbas, Demolições, Declínio de Paris]

"Facilis descensus Averno."

Virgílio1 

"Aqui, mesmo os automóveis têm um ar de antiguidade"

Guilllaume Apollinaire2 

Como as grades — enquanto alegorias — se estabelecem no inferno. Na Passage Vivienne, esculturas sobre os portais, representando alegorias do comércio.

 [C 1, 1 ] 

O Surrealismo veio à luz numa passagem. E sob a proteção de que musas!

 [C 1, 2 ]

O pai do Surrealismo foi Dadá, a mãe foi uma passagem. Dadá já era velho quando se conheceram. No final de 1919, Aragon e Breton, por antipatia a Montpamasse e Montmartre, transferiram seus encontros com amigos para um café na Passage de L’Opéra. A construção do Boulevard Haussmann foi o seu fim. Sobre ela, Louis Aragon escreveu 135 páginas; na soma destes três dígitos mantém-se escondido o número nove, correspondente às nove musas que dotaram o Surrealismo recém-nascido com suas dádivas. Chamam-se: Luna, a condessa de Geschwitz, Kate Greenaway, Mors, Cléo de Mérode, Dulcinéia, Libido, Baby Cadum e Friederike Kempner. (Em vez da Condessa de Geschwitz: Tipse?)3

 [C 1, 3]

[...]

Pausânias escreveu uma topografia da Grécia em 200 d.C., quando os lugares sagrados e muitos outros monumentos começaram a ruir.

 [C 1, 5] 

 [...]

Construir a cidade topograficamente, dez vezes ou cem vezes, a partir de suas passagens e suas portas, seus cemitérios e bordéis, suas estações e seus...,4 assim como antigamente ela se definia por suas igrejas e seus mercados. E as figuras mais secretas, mais profundamente recônditas da cidade: assassinatos e rebeliões, os nós sangrentos no emaranhado das ruas, os leitos de amores e incêndios. ■ Flâneur ■

 [C 1, 8]

[...]

 Na antiga Grécia, mostravam-se lugares pelos quais se descia ao reino dos monos. Também nossa existência desperta é uma terra em que se desce ao reino dos mortos, cheia de lugares aparentemente insignificantes, onde desembocam os sonhos. Passamos por eles todos os dias sem nada suspeitar; porém, mal vem o sono, nos apressamos em voltar em sua direção, procurando-os pelo tato, e nos perdemos nos corredores sombrios. O labirinto de casas das cidades assemelha-se à luz do dia à consciência; as passagens (são elas as galerias que conduzem a sua existência anterior) desembocam de dia imperceptivelmente nas ruas. Entretanto, à noite, das massas de casas sombrias, emerge assustadora sua escuridão mais compacta e o transeunte tardio passa apressado por elas, a não ser que o tenhamos encorajado a empreender a viagem pela ruela estreita. Mas um outro sistema de galerias se estende nos subterrâneos de Paris: o metrô, onde à noite as luzes se acendem rubras, indicando o caminho ao Hades dos nomes. Combat — Elysée — Georges V — Etienne Marcei — Solférino — Invalides - Vaugirard arrancaram as correntes humilhantes da rua, da praça e tornaram-se aqui, na escuridão entrecortada por lampejos fulgurantes e apitos estridentes, deuses informes das cloacas, fadas das catacumbas. Este labirinto abriga em seu interior não um, e sim dúzias de touros cegos, enfurecidos, em cuja goela é preciso lançar não uma virgem tebana por ano, e sim, a cada manhã, milhares de jovens operárias anêmicas e caixeiros sonados. ■ Nomes de ruas ■ Aqui embaixo, nada mais do choque, do entrecruzamento de nomes que formam a rede lingüística na superfície. Cada um mora solitáno aqui, o inferno é sua corte; Amer, Picon, Dubonnet5 são os guardiões do limiar.

 [C 1a, 2]

 “Cada quartier não atinge seu apogeu propriamente dito pouco antes de estar completamente urbanizado? Seu planeta descreve então uma curva, aproximando-se do comércio, e nesse particular, primeiramente do grande comércio, em seguida do pequeno. Enquanto a rua ainda é relarivamente nova, ela pertence à gente humilde, e desvencilha-se desta quando a moda lhe sorri. Sem dar atenção ao dinheiro, os interessados disputam entre si as pequenas casas e apartamentos, mas apenas enquanto mulheres bonitas de fulgurante elegância, que embelezam não só os salões, mas também a casa e até mesmo a rua, promoverem aqui suas festas ou forem para elas convidadas. E ao tornar-se passante, a bela dama requer lojas e, freqüentemente, sai caro à rua ceder muito depressa a este desejo. Começa-se então a diminuir os pátios, alguns são suprimidos totalmente, as pessoas passam a espremer-se nas casas e, ao fim, chega um dia de Ano Novo, em que não é de bom-tom exibir tal endereço num cartão de visitas. Pois a maioria dos inquilinos é formada por pequenos negociantes e as entradas das casas não perdem muito se, de vez em quando, derem abrigo a pequenos artesãos, cujos míseros barracos de madeira tomaram o lugar das lojas.”6 Lefeuve, Les Anciennes Maisons de Paris sous Napoléon III, Paris e Bruxelas, vol. I, p. 482. ■ Moda ■

 [C 1a, 3]

[...]

Paris situa-se sobre um sistema de cavernas de onde ressoam ruídos do metrô e de trens e no qual cada ônibus e cada caminhão desperta um eco que se prolonga. E este grande sistema técnico de ruas e canalização entrecruza-se com as abóbadas antigas, minas de calcário, grutas, catacumbas, que foram aumentando durante séculos, desde o início da Idade Média. Ainda hoje é possível adquirir uma entrada por dois francos para uma visita a esta Paris mais noturna, que é muito mais barata e menos perigosa que aquela da superfície. A Idade Média via isso de maneira diferente. Fontes históricas nos informam que, vez por outra, pessoas espertas dispunham-se, mediante régio pagamento e voto de silêncio, a mostrar a seus concidadãos o demônio lá embaixo, em sua majestade infernal. Um empreendimento financeiro que era muito menos arriscado para as vítimas do que para o tratante. Não deveria a Igreja considerar uma falsa aparição do diabo quase equivalente a um sacrilégio? De resto, esta cidade subterrânea também rendeu lucros palpáveis àqueles que a conheciam bem. Pois suas ruas burlavam a grande barreira alfandegária através da qual os cobradores de impostos garantiam para si seus direitos a impostos de importação. Nos séculos XVI e XVIII, o contrabando prosperava principalmente sob a terra. Sabemos também que, em tempos de comoção pública, alastravam-se rapidamente rumores assombrosos sobre as catacumbas, sem falar dos espíritos proféticos e das mulheres adivinhas, a quem isso compete por direito. No dia após a fuga de Luís XVI, o governo revolucionário difundiu cartazes em que ordenava a busca mais minuciosa nesses subterrâneos. E alguns anos mais tarde, inesperadamente, circulou pelas massas o boato de que alguns bairros estavam prestes a afundar.

 [C 2, 1]

[...]

 Existem emblemas arquiteturais do comércio: degraus levam à farmácia, enquanto a tabacaria apossou-se da esquina. O comércio sabe tirar proveito do limiar: na entrada da passagem, da pista de patinação, da piscina pública, da plataforma de embarque, coloca-se a guardiã do limiar: uma galinha que bota automaticamente ovos de lata, contendo balas em seu interior; ao lado dela, uma vidente automática - um aparelho automático de impressão, com o qual podemos imprimir nosso nome numa tira de metal que nos prenderá ao pescoço o nosso destino.

[C 2, 4]

Na antiga Paris, havia execuções (por exemplo, pela forca) em plena rua.

[C 2, 5] 

[...]

Diante da entrada, uma caixa de correio: última oportunidade de enviar um sinal ao mundo que se abandona. 

 [C 2a, 6]

Passeio e visita subterrânea aos canais de esgoto. Percurso preferido: Châtelet-Madeleine.

 [C 2a, 7]

“As ruínas da Igreja e da Nobreza, as do Feudalismo, da Idade Média são sublimes e hoje enchem de admiração os vencedores, que ficam surpresos, boquiabertos; mas as da Burguesia serão um ignóbil detrito de cartonagem, de gessos, de coloridos.” Le Diable à Paris, Paris, 1845, vol. II, p. 18 (Balzac, “O que desaparece de Paris”). ■ Colecionador ■

 [C 2a, 8]

 ...tudo isso são as passagens a nossos olhos. E nada disso elas foram outrora. “Porque é somente hoje, quando as ameaça a picareta, que elas se tornaram efetivamente santuários de um culto do efêmero, que se tornaram a paisagem-fantasma dos prazeres e das profissões malditas, incompreensíveis ontem e que o futuro jamais conhecerá.” Louis Aragon, Le Paysan de Paris, Paris, 1926, p. 19. ■ Colecionador ■

 [C 2a, 9]

 Súbito passado de uma cidade: janelas iluminadas antes do Natal reluzem como se estivessem acesas desde antes de 1880.

 [C 2a, 10]

 O sonho — eis a terra onde se fazem as descobertas que testemunham a história primeva do século XIX. ■ Sonho ■

 [C 2a, 11]

 [...]

 O renascimento do drama arcaico dos gregos sobre os palcos de madeira das feiras. O Prefeito de Polícia somente autoriza diálogos sobre estes palcos. “Esse terceiro personagem é mudo, por ordem do Sr. Prefeito de Polícia, que só permite o diálogo nos teatros considerados itinerantes.” Gerard de Nerval, Le Cabaret de la Mère Saguet, Paris, 1927, pp. 259-260 (“Le Boulevard du Temple autrefois et aujourd’hui”).

 [C 3, 1]

 Diante da entrada da passagem uma caixa de correio: uma última oportunidade de enviar um sinal ao mundo que se abandona.

[C 3, 2]

Apenas na aparência a cidade é homogênea. Até mesmo seu nome assume um tom diferente nos diferentes lugares. Em parte alguma, a não ser em sonhos, é ainda possível experienciar o fenômeno do limite de maneira mais original do que nas cidades. Entender esse fenômeno significa saber onde passam aquelas linhas que servem de demarcação, ao longo do viaduto dos trens, através de casas, por dentro do parque, à margem do rio; significa conhecer estas fronteiras, bem como os enclaves dos diferentes territórios. Como limiar, a fronteira atravessa as ruas; um novo distrito inicia-se como um passo no vazio; como se tivéssemos pisado num degrau mais abaixo que não tínhamos visto.

 [C 3, 3] 

20 Devido a uma lacuna na edição alemã, referente à gênese do arquivo temático "B", não é possível determinar se a fase tardia se inicia com o fólio [B8] ou [B9] (cf. GS V, 1262). (w.b.)

1 "É fácil descer o Averno." Virgílio, Eneida, VI, v. 126. Cf. , segmento V. (R.T.; w.b.)

2 ( 3 . Apollinaire, Œuvres Poétiques, ed. org. por Marcei Adéma e Michel Décaudin, Paris, 1 956 (Bibliothèque de la Plêiade, 121), p. 39 ("Zone"). (R.T.)

3 Um catálogo de musas do Surrealismo já aparece em três fragmentos anteriores: "Passagens Parisienses ", e ; e "", ; ver também as respectivas notas: 27, 28 e 78. A única diferença desta lista de musas com a de é a substituição da "Condessa de Geschwitz" por uma personagem chamada “Tipse", não explicada por R.T. e “misteriosa" para J.L. e E/M. - Talvez Benjamin quisesse se referir a uma nova profissão feminina, em franca expansão nas metrópoles dos anos 1 920 e designada em alemão coloquial, com uma conotação levemente pejorativa, por Tippse, "datilógrafa", (w.b.)

4 Parece que no lugar destas reticências Benjamin iria colocar mais tarde uma palavra que não lhe ocorreu  na hora. (R.T.)

5 Três bebidas alcoólicas, cujos nomes apareciam em cartazes por toda a cidade, (w.b.) 6 Nossa tradução baseou-se no texto alemão de Benjamin, que em parte traduziu, em parte adaptou a passagem de Lefeuve, como se pode verificar ao consultar o original francês reproduzido nas notas da edição alemã (GS V, 1326). (w.b.)

Curiosa a seguinte frase da obra-prima “Paris souterrain”, de Nadar, em Quand Jétais Photographe, Paris, 1900, p. 124: “Na história dos esgotos, escrita com a pena genial do poeta e filósofo, após a descrição que ele soube tornar mais comovente que um drama, Hugo conta que na China não há um só camponês que, voltando da venda de seus legumes na cidade, não traga a pesada carga de dois baldes cheios desses preciosos fertilizantes.” 
[C 4a, 1]
[...]
Em 1899, durante os trabalhos do metrô, foram encontrados na Rue Saint-Antoine os alicerces de uma torre da Bastilha. Cabinet des Estampes.
[C 4a, 4]
{como no metrô de Atenas onde, em cada estação, tem exposto as coisas antigas encontradas lá durante a obra
[...]
Pequena premonição do metrô na descrição das casas-modelo do futuro: “Os subsolos, muito espaçosos e bem iluminados, se intercomunicam todos. Formam longas galerias que seguem o trajeto das ruas e onde se construiu uma estrada de ferro subterrânea. Esta ferrovia não é destinada aos passageiros, mas apenas às mercadorias volumosas, ao vinho, à madeira, ao carvão etc., que ela transporta até o interior das casas... Estas ferrovias subterrâneas adquirem uma importância cada vez maior.’ Tony Moilin, Paris en lAn 2000, Paris, 1869, pp. 14-15 (“Maisons-modèles”).
[C 5a, 3]
[...]
“Edgar Poe fez passar pelas ruas das capitais o personagem que designou como o Homem da Multidão. O gravurista inquieto e pesquisador é o Homem das Pedras... Eis ... um ... artista que não estudou e trabalhou, como Piranesi, diante dos restos da vida extinta, e cuja obra dá uma sensação de nostalgia persistente... É Charles Meryon. Sua obra de gravurista é um dos poemas mais profundos que já foram escritos sobre uma cidade, e a originalidade singular dessas páginas penetrantes é que — embora tenham sido traçadas diretamente segundo aspectos vivos — apresentam uma aparência da vida passada, que está morta ou que vai morrer... Este sentimento existe independentemente das reproduções mais escrupulosas e mais reais dos temas que detiveram a escolha do artista. Havia nele algo de visionário, e ele certamente adivinhava que essas formas tão rígidas eram efêmeras, que essas curiosas belezas pereceríam como tudo o mais. Ele escutava a linguagem que falam as ruas e vielas incessantemente atravancadas, destruídas e refeitas, desde os primeiros dias da cidade, e por isso sua poesia evocadora se encontra com a Idade Média através da cidade do século XIX; através da visão das aparências imediatas ele identifica a melancolia de sempre.
 
A velha Paris não existe mais. A forma de uma cidade
Muda mais depressa, ai! que o coração de um mortal.14
 
Estes dois versos de Baudelaire poderiam servir como epígrafe para a obra inteira de Meryon.” Gustave Geffroy, Charles Meryon, Paris, 1926, pp. 1-3.
[C 7a, 1]
“Não é necessário imaginar a antiga porta triumphalis já como porta em arco. Ao contrário, como servia apenas a um ato simbólico, ela deve originalmente ter sido construída com os meios mais simples, ou seja: dois pilares com uma viga horizontal.” Ferdinand Noack, Triumph und Triumphbogen (Conferências da Biblioteca Warburg, vol. V), Leipzig, 1928,
[C 7a, 2]
{como os arcos decorativos, e não funcionais que existem até hoje, séculos depois da invenção funcional de Roma.
Como no Templo de Hefesto (Ναός Ηφαίστου) que, depois da dominação Romana, virou uma igreja (?!) e, para dar um aspecto romano, construiram arcos não funcionais lá dentro (????!!!!).






Não é possível ver pelas fotos [sic] que tirei, pelo sol, mas é bastante bizarro. Mas dá é possível ver a elaboradíssima estrutura da construção.} 
[...]
<fase tardia>
[...]
“Esta inteligência de Blanqui ... esta tática do silêncio, esta política de catacumbas, deviam às vezes fazer hesitar Barbès, como se estivesse diante ... de escadas subitamente escancaradas e mergulhando nos porões de uma casa mal conhecida.” Gustave Geffroy, LEnfermé, Paris, 1926, vol. I, p. 72.
[C 8, 6]
Messac cita (em Le “Detective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 419) um trecho de Vidocq, Mémoires, capítulo XLV: “Paris é um ponto sobre o globo, mas esse ponto é uma cloaca; nesse ponto deságuam todos os esgotos.”
[C 8a, 1]
[...]
Baudelaire e os cemitérios: “Atrás das altas paredes das casas, pelos lados de Montmartre, de Ménilmontant, de Montparnasse, ele imagina, ao cair da noite, os cemitérios urbanos, estas três outras cidades dentro da grande - cidades aparentemente menores que a cidade dos vivos, porque esta parece contê-las, mas em realidade tão mais vastas, tão mais populosas, com seus compartimentos apertados, superpostos em profundidade. E, nos mesmos lugares por onde hoje a multidão circula — o Square des Innocents, por exemplo — , ele evoca os antigos ossários soterrados ou desaparecidos, submersos nas ondas do tempo com todos os seus mortos, como os navios naufragados com sua tripulação.” François Porché, La Vie Douloureuse de Charles Baudelaire (da série Le Roman des Grandes Existences, vol 6), Paris, 1926, pp. 186-187.
[C 9, 2]
[...]
Léon Daudet sobre a vista do Sacré-Coeur sobre Paris. “Olha-se do alto esta quantidade de palácios, de monumentos, de casas, de casebres que parecem reunidos à espera de um cataclismo, ou de vários cataclismos, sejam meteorológicos, sejam sociais... (...)” Léon Daudet, Paris Vécu, vol. I: Rive Droite, Paris, 1930, pp. 220-221.15
[C 9a, 1]
[...]
D
[O Tédio, Eterno Retorno]
[...]
Como as forças cósmicas têm apenas um efeito narcotizante sobre o homem vazio e frágil, é o que revela a relação dele com uma das manifestações superiores e mais suaves dessas forças: o tempo atmosférico. E muito significativo que justamente esta influência, a mais íntima e mais misteriosa exercida pelo tempo sobre os homens, veio a se tornar o tema de suas conversas mais vazias. Nada entedia mais o homem comum do que o cosmos. (...)
[D 1, 3]
Baudelaire como poeta do Spleen de Paris. “Uma das características essenciais dessa poesia, na verdade, e o tedio na bruma, tédio e nevoeiro misturados (nevoeiro das cidades); numa palavra, é o spleem.” François Porché, La Vie Douloureuse de Charles Baudelaire, Paris, 1926 p. 184.
[D 1, 4 ]
[...]
“Ele explica que a Rue Grange-Batelière é particularmente poeirenta, que nos sujamos terrivelmente na Rue Réaumur.” Louis Aragon, Le Paysan de Paris, Paris, 1926, p. 88. 
[D 1a, 2]
A pelúcia como depósito de poeira. Mistério da poeira que brinca ao sol. A poeira e a “sala de visitas”. “Logo após 1840, surgem os móveis franceses totalmente estofados, e com eles o estilo de tapeçarias atinge seu domínio absoluto.” Max von Boehn, Die Mode im XIX Jahrhundert, vol. II, Munique, 1907, p. 131. Outras formas de levantar a poeira: a cauda. “Recentemente retornou também a verdadeira cauda; agora, porém, é erguida e segurada, durante o andar, com o auxílio de um gancho e um cordão, para evitar a inconveniência de varrer a rua.” Friedrich Theodor Vischer, Mode und Zynismus, Stuttgart, 1879, p. 12. ■ Poeira e perspectiva sufocada ■
[D la, 3]
A Galeria do Termômetro e a Galeria do Barômetro na Passage de l’Opéra.
[D 1a, 4]
[...]
“Só aqui”, disse Chirico, “é possível pintar. As ruas possuem tantos tons de cinza...”
[D la, 7]
[...]
O tempo de chuva na cidade, com toda sua astuta sedução, capaz de nos fazer voltar em sonhos aos primeiros tempos da infância, só é compreensível à criança de uma cidade grande. A chuva faz tudo parecer mais oculto, torna os dias não só cinzentos, mas também uniformes. De manhã à noite pode-se fazer a mesma coisa — jogar xadrez, ler, discutir enquanto o sol, de maneira bem diferente, matiza as horas e não faz bem ao sonhador. Por isso, este precisa evitar com astúcia os dias radiantes e, principalmente, levantar-se muito cedo, como os grandes ociosos, os passeadores do porto e os vagabundos: ele precisa estar a postos mais cedo que o sol. Ferdinand Hardekopf, o único verdadeiro decadente que a Alemanha produziu, indicou ao sonhador - na “Ode vom seligen Morgen” (Ode da manhã bem-aventurada), com a qual presenteou Emmy Hennings10 há muitos anos — as melhores medidas de precaução para dias ensolarados.
[D 1a. 9]
“dar a esta poeira um aspecto de consistência, como se estivesse regada com sangue”. Louis Veuillot, Les Odeurs de Paris, Paris, 1914, p. 12.
[D la, 10]
 
14 Estes versos fazem parte do poema "0 Cisne" ("Le Cygne") das Flores do Mal. (E/M)
15 L.Daudet, Paris Vécu, Paris, Gallimard, 1969, pp. 127-128. (J.L.) 
 
10 F.Hardekopf, Gesammelte Dichtungen, ed org por Emmy Moor-Wittenbach, Zurique, 1963  (Coleção Horizont), pp. 50-51. (R.T.) - Cf. B°, 5. Emmy Hennings animou o Cabaré Voltaire dos  dadaístas, em Zurique. (J.L.)

 

Sentimos tédio quando não sabemos o que estamos esperando. O fato de o sabermos ou imaginar que o sabemos é quase sempre nada mais que a expressão de nossa superficialidade ou distração. O tédio é o limiar para grandes feitos. — Seria importante saber: qual é o oposto dialético do tédio?
[D 2, 7]
[...]
O tédio é um tecido cinzento e quente, forrado por dentro com a seda das cores mais variadas e vibrantes. Nele nós nos enrolamos quando sonhamos. Estamos então em casa nos arabescos de seu forro. Porém, sob essa coberta, o homem que dorme parece cinzento e entediado. E quando então desperta e quer relatar o que sonhou, na maioria das vezes ele nada comunica além desse tédio. Pois quem conseguiria com um só gesto virar o forro do tempo do avesso? E, todavia, relatar sonhos nada mais é do que isso. E não podemos falar das passagens de outro modo. São arquiteturas nas quais revivemos em sonhos a vida de nossos pais, avos, tal qual o embrião dentro do ventre da mãe revive a vida dos animais. A existência nesses espaços decorre sem ênfase, como nos sonhos. O flanar é o ritmo desta sonolência. Em 1839, Paris foi invadida pela moda das tartarugas. É possível imaginar muito bem como as pessoas elegantes imitavam nas passagens, mais facilmente ainda que nos boulevards, o ritmo destas criaturas. ■ Flâneur ■
[D 2a, 1]
O tédio é sempre o lado externo dos acontecimentos inconscientes. Por isso o tédio parecia elegante aos grandes dândis. Ornamento e tédio.
[D 2a, 2]
Sobre o duplo significado de temps em francês.11
[D 2a, 3]
O trabalho na fabrica como infra-estrutura economica do tédio ideológico das classes superiores. “A triste rotina de um infindável sofrimento no trabalho, no qual o mesmo processo mecânico é repetido sempre, assemelha-se ao trabalho de Sísifo; o fardo do trabalho, tal qual a pedra de Sísifo, despenca sempre sobre o operário esgotado.” Friedrich Engels, Die Lage der arbeitenden Klasse in England, 2a ed, Leipzig, 1848, p. 217 (cit. em Matx, Das Kapital, Hamburgo, 1922, vol. I, p. 388).
[D 2a, 4]
O sentimento de uma “imperfeição incurável” (cf. Les Plaisirs et les Jours, cit. na homenagem de Gide) “na própria essência do presente”,12 foi talvez para Proust o motivo principal de procurar conhecer a sociedade mundana até suas últimas dobras, e talvez seja até mesmo um motivo fundamental das reuniões sociais dos homens em geral.
[D 2a, 5]
[...]
Jogadores de xadrez no Café de la Régence: “Era ali que se viam alguns hábeis jogadores fazerem seu jogo de costas para o tabuleiro: bastava que lhes dissessem a cada lance qual a peça que o adversário havia deslocado, para que eles estivessem certos de ganhar.” Histoire des Cafés de Paris, Paris, 1 857, p. 87.
[D 2a, 9]
<fase média>
[...]
“O primeiro Império copiou os arcos de triunfo e os monumentos dos dois séculos clássicos. Depois, procurou-se reinventar, reanimando modelos mais remotos: o Segundo Império imitou o Renascimento, o gótico, o pompeano. Depois, caiu-se na era da vulgaridade sem estilo.” Dubech e D’Espezel, Histoire de Paris, Paris, 1926, p. 464. ■ Intérieur ■
[D 3, 2]
[...]
“Engels contou-me que, em 1848 em Paris, no Café de la Régence, um dos primeiros centros da revolução de 1789, Marx lhe expôs pela primeira vez o determinismo econômico de sua teoria da concepção materialista da história.” Paul Lafargue: “Persönliche Erinnerungen an Friedrich Engels”, Die Neue Zeit, XXIII, 2, Stuttgart, 1905, p. 558.
[D 3, 6]
O tédio — como índice da participação no sono do coletivo. Seria o tédio por isso tão elegante a ponto de ser ostentado pelo dândi?
[D 3, 7]
Em 1757 só havia três cafés em Paris.
[D 3a, 1]
Máximas da pintura do Império: “Os artistas novos só admitiam o ‘estilo heróico, o sublime’, e o sublime só podia ser alcançado com ‘o nu e o drapeado’... Os pintores deviam procurar suas inspirações em Plutarco ou Homero, em Tito Lívio ou Virgílio, e escolher, de preferência, segundo a recomendação de David a Gros..., ‘temas conhecidos de todos’... Os temas tirados da vida contemporânea eram, por causa do estilo dos trajes, indignos da ‘grande arte’.” A. Malet e R Grillet, XIXe Siècle, Paris, 1919, p. 158. ■ Moda ■
[D 3a, 2]
“Feliz o homem que é um observador! Para ele o tédio é uma palavra vazia de sentido.” Victor Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 271.
[D 3a, 3]
O tédio começou a ser visto como uma epidemia nos anos quarenta. Lamartine teria sido o primeiro a ter dado expressão a este mal. Ele tem um papel numa pequena história que trata do famoso comediante Deburau. Certa feita, um grande neurologista foi procurado por um paciente que o visitava pela primeira vez. O paciente queixou-se do mal do século - a falta de vontade de viver, as profundas oscilações de humor, o tédio. 'Nada de grave”, disse o médico após minucioso exame. “O senhor apenas precisa repousai, razer algo para se distrair. Uma noite dessas vá assistir a Deburau e o senhor logo vera a vida com outros olhos.” “Ah, caro senhor”, respondeu o paciente, “eu sou Deburau”.
[D 3a. 4]
[...]
“A introdução do sistema Mac Adam para a pavimentação dos boulevards deu nascimento a inúmeras caricaturas. Cham mostra os parisienses cegos com a poeira e propõe erigir ... uma estátua com a inscrição: A Macadam, dos oculistas e comerciantes de óculos, em reconhecimento!’ Outras representam os transeuntes suspensos em pernas de pau, percorrendo assim os pântanos e as poças d’água.” Paris sous la République de 1848: Exposition de la Bibliothèque et des Travaux Historiques de la Ville de Paris, 1909 [Poëte, Beaupaire, Clouzot, Henriot], p. 25.
[D 3a. 6]
“Somente a Inglaterra podia ter produzido o dandismo; a França é tão incapaz de produzir seu equivalente quanto sua vizinha o é de oferecer o equivalente de nossos ... ‘leões’, tão apressados em agradar quanto os dândis em desprezar ... D’Orsay ... agradava naturalmente e apaixonadamente a todo o mundo, mesmo aos homens, enquanto que os dândis só agradavam desagradando... Do leão ao pretendente a dândi há um abismo; mas quão maior é o abismo entre o pretendente a dândi e o miserável!” Larousse, Grand Dictionnaire Universel du Dix-neuviòne Siecle, vol VI, Paris, 1870, p. 63 (verbete “art dandy”).
[D 4, 1]
[...]
O capítulo referente a Guys em LArt Romantique, sobre os dândis: “Todos são representantes ... dessa necessidade, hoje muito rara, de combater e destruir a trivialidade... O dandismo é o último brilho de heroísmo na decadência; e o tipo do dândi, encontrado pelo viajante na América do Norte, não enfraquece em nada essa idéia, porque nada nos impede de supor que as tribos que chamamos de selvagens sejam remanescentes de grandes civilizações desaparecidas... Seria preciso dizer que Monsieur G., quando desenha um de seus dândis no papel, confere-lhe sempre seu caráter histórico, até mesmo lendário, ousaria dizer, se não fosse questão do tempo presente e de coisas consideradas geralmente como brincadeira.' Baudelaire, LArt Romantique (ed. Hachette, tomo III), Paris, pp. 94-95.17
[D 5, 1]
[...]
A multidão aparece como supremo remédio contra o tédio no ensaio sobre Guys: “‘Todo homem’, disse certa vez Monsieur G., numa dessas conversas que ele ilumina com um olhar intenso e com um gesto evocativo, ‘todo homem ... que se entedia no meio da multidão é um tolo! Um tolo! E eu o desprezo!’” Baudelaire, L’Art Romantique, p. 65. 19
[D 5, 3]
[...]
“A monotonia se nutre de novo!” Jean Vaudal, Le Tableau Noir, cit. em E. Jaloux, “L’esprit des livres”, Nouvelles Littéraires, 20 de novembro de 1937.
[D 5, 6]
Contrapartida da visão de mundo de Blanqui: o universo é um lugar de catástrofes permanentes.20
[D 5, 7]
Sobre LEtemité par les Astres: Blanqui, que à beira do túmulo sabe que o Fort Du Taureau será sua derradeira prisão, escreve este livro para abrir a si mesmo as portas de novos cárceres.
[D 5a. 1]
Sobre LEtemité par les Astres: Blanqui submete-se à sociedade burguesa. Mas cai de joelhos diante dela com tanta força que o trono começa a balançar.
[D 5a, 2]
Sobre LEternite par les Astres: neste texto está disposto o céu no qual os homens do século XIX vêem as estrelas.
[D 5a, 3]
A figura de Blanqui talvez esteja presente nas “Litanias de Satanás” (Baudelaire, Œuvres, ed. Le Dantec, vol. I, Paris, 1931, p. 138): “Tu que diriges aos proscritos esse olhar calmo e altivo. De fato, existe um desenho feito de memória por Baudelaire, representando a cabeça de Blanqui.
[D 5a, 4]
Para entender o significado da nouveauté, é preciso retornar à novidade na vida cotidiana. Por que todo o mundo comunica as ultimas novidades aos outros? Provavelmente para triunfar sobre os mortos. Isto apenas quando não há realmente nada de novo.
[D 5a, 5]
O último texto de Blanqui, escrito em sua ultima prisão, permaneceu a meu ver totalmente despercebido ate hoje. Trata-se de uma especulação cosmológica. É preciso admitir que, ao primeiro olhar, o texto parece banal e de mau gosto. Entretanto, as desajeitadas reflexões de um autodidata são apenas o prelúdio de uma especulação que não se imaginaria de modo algum encontrar neste revolucionário. Na medida em que o inferno é um objeto teológico, esta especulação pode ser denominada de teológica. A visão cósmica que expõe Blanqui, tomando seus dados à ciência natural mecanicista da sociedade burguesa, é uma visão do inferno - e é, ao mesmo tempo, um complemento da sociedade que Blanqui, no fim de sua vida, foi obrigado a reconhecer como vitoriosa. O que causa um choque é a ausência de qualquer traço de ironia nesse esboço. É uma rendição incondicional, porém, ao mesmo tempo, a acusação mais terrível contra uma sociedade que projeta no céu esta imagem do cosmos como imagem de si mesma. O texto, estilisticamente muito marcante, contém as mais notáveis relações tanto com Baudelaire quanto com Nietzsche. (Carta de 6 de janeiro de 1938 a Horkheimer).21 
[D 5a. 6]
<fase tardia>
 
11 "Tempo cronológico" e "tempo atmosférico". Cf. K°, 23. (w.b.)
12 Marcel Proust, Jean Santeuil precedido de Les Plaisirs et les Jours, ed. org. por Pierre Clarac, com a colaboração de Yves Sandre, Paris, 1971 (Bibliothèque de la Plêiade, 228), p. 139; ver também vol II p. 312. (R.T.)
 
17 Op. cit, pp. 711-712. (R.T.)
18 Op. cit., p. 712. (R.T.)
19 Op. cit, p 692. (R.T.)
20 Cf. as teses de W. Benjamin "Sobre o Conceito de História", IX (GS I, 697). Na tradução brasileira: "Onde uma cadeia de eventos aparece diante de nós, e/e [sc. o anjo da história] enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pés." Teses, p. 87. (J.L.; w.b.)
21 Carta de 6 de janeiro de 1938 a Max Horkheimer, in: Briefe, vol. II, ed. org. por Gershom Scholem  e Theodor W.Adorno, Frankfurt a. M., Suhrkamp, 1978, pp. 740-743: a passagem  citada encontra-se nas pp. 741-742. (J.L.; w.b.)
 

<fase tardia>

Extraído de LEtemité par les Astres, de Blanqui: “Qual o homem que não se encontra, às vezes, em presença de duas carreiras? Aquela da qual ele se desvia lhe daria uma vida bem diferente, preservando-lhe ao mesmo tempo a mesma individualidade. Uma conduz à miséria, à vergonha, à servidão. A outra leva à glória, à liberdade. Aqui, uma mulher encantadora e a felicidade; la, cólera e desolação. Falo pelos dois sexos. Quer se a tome ao acaso ou por escolha, não importa: não se escapa da fatalidade. Mas a fatalidade não toca o infinito, que não conhece alternativa e tem lugar para tudo. Existe uma terra em que o homem segue a estrada desdenhada na outra pelo sósia. Sua existência se duplica, um globo para cada uma, depois se bifurca uma segunda, uma terceira vez, milhares de vezes. Ele possui assim sósias completos e inúmeras variantes de sósias que se multiplicam e representam sempre sua pessoa, mas não tomam senão pedaços de seu destino. Tudo o que poderíamos ter sido aqui em baixo, nós o somos em alguma outra parte. Além de nossa existência inteira, do nascimento à morte, que vivemos numa multidão de terras, nós a vivemos em outras terras em mil edições diferentes.” Cit. em Gustave Geffroy, LEnfermé, Paris, 1897, p. 399.

[D 6, 1]

Extraído do final da Etemité par les Astres: “O que escrevo neste momento, numa cela do Fort du Taureau, eu o escrevi e o escreverei por toda a eternidade, à mesa, com uma pena, vestido como estou agora, em circunstâncias inteiramente semelhantes.” Cit. em Gustave Geffroy, LEnferme, Paris, 1897, p. 401. Logo em seguida, Geffroy: “Ele escreve assim seu destino no número sem fim dos astros, e em todos os instantes da duração. Sua cela se multiplica até o incalculável. Ele é, no universo inteiro, o encarcerado que ele é nesta terra, com sua força revoltada, seu pensamento livre.”

[D 6, 2]

Extraído do final de LEternité par les Astres: “Na hora presente, a vida inteira de nosso planeta, do nascimento à morte, é vivida em parte aqui e em pane lá, dia a dia, em miríades de astros-irmãos, com todos os seus crimes e suas desgraças. O que chamamos de progresso está enclausurado em cada terra e desaparece com ela. Sempre e em todo lugar, no campo terrestre, o mesmo drama, o mesmo cenário, sobre o mesmo palco estreito, uma humanidade barulhenta, enfatuada de sua grandeza, acreditando ser o universo e vivendo em sua prisão como numa imensidão, para logo desaparecer com o globo que carregou com o mais profundo desprezo o fardo de seu orgulho. Mesma monotonia, mesmo imobilismo nos astros estrangeiros. O universo se repete, sem fim, e patina no mesmo lugar.” Cit. em Gustave Geffroy, LEnfermé, Paris, 1897, p. 402.

[D 6a, 1]

Blanqui enfatiza explicitamente o caráter científico de suas teses, que nada teriam a ver com as ingênuas fantasias de Fourier. “É preciso admitir que cada combinação particular da matéria e das pessoas ‘deve se repetir milhares de vezes para enfrentar as necessidades do infinito.’” Cit. em Geffroy, LEnfermé, Paris, 1897, p. 400. J

[D 6a, 2]

 

Capítulo final (VIII  “Résumé”) de LEternité par les Astres, de Blanqui: "O universo inteiro é composto de sistemas estelares. Para criá-los, a natureza tem apenas cem corpos simples a sua disposição. Apesar da vantagem prodigiosa que ela sabe tirar desses recursos, e do número incalculável de combinações que eles oferecem à sua fecundidade, o resultado é necessariamente um número finito, como o dos próprios elementos; para preencher sua extensão, a natureza deve repetir ao infinito cada uma de suas combinações originais ou tipos. / Todo astro, qualquer que seja, existe portanto em número infinito no tempo e no espaço, não apenas sob um de seus aspectos, mas tal como se encontra em cada segundo de sua duração, do nascimento à morte. Todos os seres distribuídos em sua superfície, grandes ou pequenos, vivos ou inanimados, partilham o privilégio dessa perenidade. / A terra é um desses astros. Todo ser humano é, pois, eterno em cada um dos segundos de sua existência. O que escrevo neste momento, numa cela do Fort du Taureau, eu o escrevi e o escreverei por toda a eternidade, à mesa, com uma pena, vestido como estou agora, em circunstâncias inteiramente semelhantes. Assim paia cada um. / Todas essas terras se abismam, uma após a outra, nas chamas renovadoras, para delas renascer e recair ainda, escoamento monótono de uma ampulheta que se vira e se esvazia eternamente a si mesma. Trata-se do novo sempre velho, e do velho sempre novo. / Os curiosos em relação à vida extraterrestre poderão, entretanto, sorrir diante de uma conclusão matemática que lhes conceda não apenas a imortalidade, mas a eternidade? O número de nossos sósias é infinito no tempo e no espaço. Em sã consciência, não se poderia exigir mais. Esses sósias são de carne e osso, até mesmo de calças e paletó, de crinolina e de coque. Não são fantasmas, são a atualidade eternizada. / Eis, entretanto, uma grande falha: não há progresso. Infelizmente! Não, são reedições vulgares, repetições. Assim são os exemplares dos mundos passados, e assim também os dos mundos futuros. Somente o capítulo das bifurcações permanece aberto à esperança. Não nos esqueçamos que tudo o que poderíamos ter sido aqui em baixo, nós o somos em alguma outra parte. O progresso aqui embaixo é apenas para nossos descendentes. Eles têm mais sorte que nós. Todas as coisas belas que o nosso globo verá, nossos futuros descendentes já as viram, vêem-nas neste momento e as verão sempre, é claro, sob a forma de sósias que os precederam e que os sucederão. Filhos de uma humanidade melhor, eles já nos ultrajaram muito e nos vaiaram muito sobre as terras mortas, passando por elas depois de nós. Continuam a nos fustigar sobre as terras vivas de onde nós desaparecemos, e nos perseguirão para sempre com seu desprezo sobre as terras a nascer. / Eles e nós  e todos os hóspedes de nosso planeta  renascemos prisioneiros do momento e do lugar que os destinos nos designam na série de suas metamorfoses. Nossa perenidade é um apêndice da sua. Não somos senão fenômenos parciais de suas ressurreições. Homens do século XIX, a hora de nossas aparições está para sempre fixada e nos reconduz sempre os mesmos, na melhor hipótese com a perspectiva de variantes felizes. Nada aí que satisfaça muito a sede de algo melhor. O que fazer? Não procurei meu prazer, procurei a verdade. Não há aqui revelação nem profeta, mas uma simples dedução da análise espectral e da cosmogonia de Laplace. Essas duas descobertas nos fazem eternos. Seria um ganho? Aproveitemos. Seria uma mistificação? Resignemo-nos / ... / No fundo, e melancólica essa eternidade do homem pelos astros, e mais triste ainda é esse seqüestro dos mundos irmãos pela inexorável barreira do espaço. Tantas populações idênticas que passam sem ter suspeitado de sua mútua existência! Pois bem! Nós a descobrimos, enfim, no século XIX. Mas quem desejará acreditar nisso? / E depois, até aqui, o passado para nós representava a barbárie, e o futuro significava progresso, ciência, felicidade, ilusão! Esse passado viu desaparecer, sobre todos os nossos globos-sósias, as mais brilhantes civilizações, sem deixar um rastro, e elas desaparecerão ainda sem deixar outros. O futuro reverá sobre bilhões de terras a ignorância, as tolices, as crueldades de nossas velhas eras! / Na hora presente, a vida inteira de nosso planeta, do nascimento à morte, é vivida em parte aqui e em parte la, dia a dia, em miríades de astros-irmãos, com todos os seus crimes e suas desgraças. O que chamamos de progresso está enclausurado em cada terra e desaparece com ela. Sempre e em todo lugar, no campo terrestre, o mesmo drama, o mesmo cenário, sobre o mesmo palco estreito uma humanidade barulhenta, enfatuada de sua grandeza, acreditando ser o universo e vivendo em sua prisão como numa imensidão, para logo desaparecer com o globo que carregou com o mais profundo desprezo o fardo de seu orgulho. Mesma monotonia, mesmo imobilismo nos astros estrangeiros. O universo se repete, sem fim, e patina no mesmo lugar. A eternidade perfaz imperturbavelmente ao infinito as mesmas representações.” A. Blanqui, LEternité par les Astres. Hypothèse Astronomique, Paris, 1872, pp. 73-76. O trecho que falta detém-se no “consolo” proporcionado pela idéia de que os entes queridos que se foram desta terra fazem companhia, enquanto sósias, nesta mesma hora, ao nosso sósia, num outro planeta.

[D 7; D 7a]

“Pensemos este pensamento em sua forma mais terrível: a existência, tal como ela é, sem sentido ou objetivo, porém, repetindo-se inevitavelmente, sem um final, no nada: o eterno retorno’. [p. 45] Negamos objetivos finais: se a existência tivesse um, este deveria ter sido atingido.” Friedrich Nietzsche, Gesammelte Werke, Munique, 1926, vol. XVIII, Der Wille zur Macht (A vontade de Poder), Livro I, p. 46.

[D 8, 1]

“A doutrina do eterno retorno teria pressupostos eruditos.” Nietzsche, Gesammelte Werke, Munique, vol. XVIII, p. 49 ( Der Wille zur Macht, Livro I).

[D 8, 2]

Contudo, o velho hábito de imaginar um objetivo para cada acontecimento é tão poderoso que o pensador precisa se esforçar para não pensar a falta mesma de objetivo do mundo como intencional. Esta idéia — de que, portanto, o mundo evita intencionalmente um objetivo ... — impõe-se a todos aqueles que querem atribuir ao mundo a faculdade da eterna novidade [p. 369] ... O mundo, enquanto força, não deve ser pensado como ilimitado, pois ele não pode ser pensado dessa forma... Falta, portanto, ao mundo também a faculdade da eterna novidade.” Nietzsche, Gesammelte Werke, vol. XIX, Munique, 1926, p. 370 (Der Wille zur Macht, Livro IV).

[D 8, 3]

“O mundo ... vive de si mesmo: seus excrementos são seu alimento. Nietzsche, Gesammelte Werke, vol. XIX, p. 371 (Der Wille zur Macht, Livro IV).

[D 8, 4]

O mundo “sem objetivo final, a menos que na felicidade do círculo resida um objetivo final; sem vontade, a menos que um anel voltando sobre si mesmo tenha boa vontade”. Nietzsche, Gesammelte Werke, Munique, vol. XIX, p. 374 (Der Wille zur Macht, Livro IV).

[D 8, 5]

A propósito do eterno retorno: “O grande pensamento como cabeça de Medusa: todos os traços do mundo se enrijecem, uma agonia congelada.” Friedrich Nietzsche, Gesammelte Werke, Munique, 1925, vol. XIV, Aus dem Nachlass 1822-1888 (Do Espólio), p. 188.

[D 8, 6]

“Criamos o pensamento mais pesado  criemos agora o ser para quem esse pensamento seja leve e bem-aventurado!” Nietzsche, Gesammelte Werke, Munique, vol. XIV (Aus dem Nachlass 1822-1888, p. 179).

[D 8, 7]

Analogia entre Engels e Blanqui: um como o outro se voltou tardiamente para as ciências naturais.

[D 8, 8]

“Se o mundo pode ser pensado como uma grandeza determinada de força e como um número determinado de centros de força  e qualquer outra representação seria ... inútil , resulta daí que ele deve passar por um número calculável de combinações no grande jogo de dados de sua existência. Num tempo infinito, qualquer combinação possível seria atingida um dia; além disso, ela seria atingida infinitas vezes. E como entre cada combinação e seu retorno seguinte precisariam ter sido percorridas todas as combinações ainda possíveis ... seria provado com isso um círculo de séries absolutamente idênticas... Esta concepção não é simplesmente mecanicista; pois se o fosse, ela não determinaria um retorno infinito de casos idênticos, e sim um estado final. Porque o mundo não o atingiu, o mecanicismo deve nos parecer uma hipótese incompleta e apenas provisória. Nietzsche, Gesammelte Werke, Munique, 1926, vol. XIX, p. 373 (Der Wille zur Macht, Livro IV).

[D 8a, 1]

UN COUP DE DÉS

 NABOLIRA

JAMAIS                                                                LE HASARD

Mallarmé

Na idéia do eterno retorno, o historicismo do século XIX se derruba a si mesmo. Segundo ela, toda tradição, mesmo a mais recente, torna-se a tradição de algo que já se passou na noite imemorial dos tempos. Com isso, a tradição assume o caráter de uma fantasmagoria, na qual a história primeva desenrola-se nos palcos sob a mais moderna ornamentação.

[D 8a, 2]

A observação de Nietzsche, segundo a qual a doutrina do eterno retorno não implica o mecanicismo, parece invocar o fenômeno do perpetuum mobile (o mundo não seria nada além disso segundo sua doutrina) como argumento contra a concepção mecanicista do mundo.

[D 8a, 3] 

Sobre o problema da Modernidade e Antiguidade: “Esta existência que se tornou inconstante e absurda e este mundo que se tornou inconcebível e abstrato se conjugam na vontade do eterno retorno, do igual como tentativa de repetir, no auge da modernidade, no símbolo, a vida dos gregos no cosmos vivo do mundo visível.” Karl Lüwith, Nietzsches Philosophie der ewigen Wiederkunft des Gleichen, Berlim, 1935, p. 83.

[D 8a, 4]

LEternité par les Astres foi escrito quatro, no máximo, cinco anos após a morte de Baudelaire no mesmo tempo da Comuna de Paris?).  Mostra-se neste texto o que as estrelas provocam naquele mundo do qual Baudelaire, com justa razão, as excluiu.

[D 9, 1]

A idéia do eterno retorno faz surgir magicamente a fantasmagoria da felicidade a partir da miséria dos anos da modernização alemã.22 Esta doutrina é uma tentativa de conciliar as tendências contraditórias do prazer: a da repetição e da eternidade. Este heroísmo é uma contrapartida ao heroísmo de Baudelaire, que faz surgir magicamente a fantasmagoria da modernidade a partir da miséria do Segundo Império.
[D 9, 2]
O pensamento do eterno retorno surgiu quando a burguesia não mais ousou olhar de frente a evolução futura do sistema de produção que ela mesma pôs para funcionar. O pensamento de Zaratustra e o do eterno retorno estão relacionados ao dito bordado no travesseiro: “Só quinze minutinhos.” 
[D 9, 3]

Crítica à doutrina do eterno retorno: “Como estudioso das ciências naturais, ... Nietzsche; é um diletante que filosofa, e como fundador de religião, um ‘híbrido de doença e vontade de poder’.” [Prefácio a Ecce Homo], (p. 83) “Toda esta doutrina parece ser nada mais que um experimento da vontade humana e uma tentativa de perpetuar o nosso fazer e não fazer, um substituto ateísta da religião. A isto corresponde o estilo da prédica e a composição de Zaratustra, que muitas vezes imita o Novo Testamento nos mínimos detalhes.” (pp. 86-87) Karl Lowith, Nietzsches Philosophie der ewigen Wiederkunft des Gleichen, Berlim, 1935. 
[D 9, 4]
Existe um esboço no qual César, em vez de Zaratustra, é o portador da doutrina de Nietzsche (Lowith, p. 73). Isto é importante. Pois indica que Nietzsche pressentia a cumplicidade de sua doutrina com o imperialismo.
[D 9, 5]
[...]
A teoria de Blanqui como uma repetição do mito — um exemplo fundamental da história primeva do século XIX. Em cada século, a humanidade precisa ficar de casdgo. Cf. a formulação básica a propósito da história primeva do século XIX [N 3a, 2] e [N 4, 1].
[D 10, 2]

O “eterno retorno” é a forma fundamental da consciência histórica primeva, mítica. (É uma consciência mítica porque não reflete.)

[D 10, 3]

[...]

Quanto mais a vida é submetida a normas administrativas, mais as pessoas precisam aprender a esperar. O jogo de azar tem o grande fascínio de liberar as pessoas da espera. 

[D 10a, 2]

[...]

A crença no progresso, em sua infinita perfectibilidade - uma tarefa infinita da moral e a representação do eterno retorno são complementares. São as antinomias indissolúveis a partir das quais deve ser desenvolvido o conceito dialético do tempo histórico. Diante disso, a idéia do eterno retorno aparece como o “racionalismo raso”, que a crença no progresso tem a má fama de representar, sendo que esta crença pertence à maneira de pensar mítica tanto quanto a representação do eterno retorno. 

[D 10a, 5]

E
[Haussmannização, Lutas de Barricadas]
[...]

Em Paris... elas se extinguem, cheirando a mofo, as passagens que estiveram tanto tempo na moda. As passagens morrem. (...)

[E 1, 5]

[...]

Desapropriações sob Haussmann: “Alguns advogados criaram uma espécie de especialização nesse gênero de negócios... Pleiteou-se a expropriação imobiliária, a expropriação industrial, a expropriação locativa, a expropriação sentimental; falou-se do teto dos pais e do berço dos filhos... ‘Como você fez fortuna?’ perguntava-se a um novo-rico, o qual respondeu: ‘Fui expropriado’... Uma indústria nova se criou que, sob o pretexto de ter em mãos os interesses dos expropriados, não recuou diante de nenhuma fraude... Ela se dirigia de preferência aos pequenos industriais e estava preparada de maneira a lhes fornecer livros de contabilidade detalhados, falsos inventários, supostas mercadorias que, muitas vezes, eram apenas pedaços de madeira embrulhados em papel. Conseguia até mesmo numerosos clientes que atravancavam sua boutique no dia em que o júri vinha fazer a visita regulamentar; inventava aluguéis exagerados, prolongados, previamente datados sobre folhas de velho papel timbrado, do qual conseguira se munir; mandava repintar os magazines como novos e ali instalava calicots improvisados, aos quais pagava três francos por dia. Era uma espécie de gangue que esvaziava o caixa da Cidade.” Du Camp, Paris, VI, pp. 255-256.

[E la, 4]

Crítica de Engels à tática das barricadas: “O máximo que a insurreição pode realizar numa ação realmente tática é o estabelecimento e a defesa de uma única barricada. Todavia, “mesmo na época clássica dos combates de rua, a barricada tinha um efeito ... mais moral do que material. Era um meio de abalar a firmeza dos soldados. Se ela resistisse ate se atingir esse objetivo, estava assegurada a vitória; caso contrario, era a derrota. Friedrich Engels na introdução a Karl Marx, Die Klassenkãmpfe in Frankreich 1848 bis 1850, Berlim, 1895, pp. 13 e 14.

[E 1a, 5]

Tão retrógrada quanto a tática da guerra civil era a ideologia da luta de classes. Marx sobre a revolução de Fevereiro: “Na idéia dos proletários ... que confundiam a aristocracia financeira com a burguesia em geral; na imaginação de comportados cidadãos que negavam ate mesmo a existência de classes ou a admitiam quando muito como uma conseqüência da monarquia constitucional; nas frases hipócritas das frações burguesas excluídas até agora do podei, o domínio da burguesia fora abolido com a proclamação da república. Todos os monarquistas transformaram-se na época em republicanos e todos os milionários de Paris tornaram-se operários. A palavra que melhor correspondia a esta supressão imaginária das relações de classe era fratemité.” Karl Marx, Die Klassenkãmpfe in Frankreich, Berlim, 1895, p. 29.

[E 1a, 6]

[...]

“A reconstrução da cidade ... obrigando o operário a morar em bairros de periferia havia rompido o laço de vizinhança que o ligava ao burguês.” Levasseur, Histoire des Classes Ouvrières et de lIndustrie en France, II, Paris, 1904, p. 775. 

[E 2, 1]

“Paris cheira a mofo.” Louis Veuillot, Les Odeurs de Paris, Paris, 1914, p. 14.

[E 2, 2]

[...]

Aberturas no Faubourg St. Antoine: Boulevard Prince Eugène, Mazas, Richard Lenoir como linhas estratégicas.

[E 2, 4]

[...]

Utilização dos ônibus na construção das barricadas. Desatrelavam-se os cavalos, solicitava-se aos passageiros que descessem, os ônibus eram tombados e içava-se no timão a bandeira.

[E 2, 7]

[...]

As Câmaras e Haussmann. “E um dia, nos limites do terror, elas o acusaram de haver criado, em pleno centro de Paris, um deserto! O Boulevard Sébastopol...” Le Corbusier, Urbanisme, Paris, 1925, p. 149. 

 [E 2, 9]

Muito importante: “Os meios de Haussmann” Ilustrações em Le Corbusier, Urbanisme, p. 150. Os diferentes tipos de pás, enxadas, carroças etc.

[E 2, 10]

Jules Ferry, Comptes Fantastiques dHaussmann,5 Paris, 1868, panfleto contra o autocrático comportamento financeiro de Haussmann.

[E 2, 11]

“Os traçados de Haussmann eram inteiramente arbitrários; não eram soluções rigorosas de urbanismo, mas medidas de ordem financeira e militar.” Le Corbusier, Urbanisme, Paris, 1925, p. 250.

[E 2a, 1]

“...a impossibilidade de obter autorização para fotografar uma adorável figura de cera que se pode ver no Museu Grévin, à esquerda, quando se passa da sala das celebridades políticas modernas à sala ao fundo da qual, atrás de uma cortina, é apresentada uma soirée no teatro: é uma mulher prendendo, na sombra, sua liga, e que é a única estátua que conheço que tem olhos, olhos de provocação.” André Breton, Nadja, Paris, 1928, pp. 199-200. Associação muito pertinente do motivo da moda com o da perspectiva. ■ Moda ■

[E 2a, 1]

[...]

A preferência de Haussmann por perspectivas representa uma tentativa de impor formas artísticas à técnica (urbanística). Isso sempre leva ao kitsch.

[E 2a, 7]

[...]

“Era preciso, a maior parte do tempo, recorrer ao júri de expropriação. Seus membros, belicosos de nascença, opositores por princípio, mostravam-se generosos em relação a um dinheiro que, pensavam, não lhes custava nada, e do qual cada um esperava beneficiar-se um dia. Numa só audiência, quando a cidade oferecia um milhão e meio, o júri exigia perto de três. Belo campo da especulação! Quem não gostaria de ter sua parte? Havia advogados especialistas na matéria; agência assegurando, por meio de comissão, um bom lucro; procedimentos para simular um aluguel ou uma indústria, para falsificar livros de contabilidade.” Georges Laronze, Le Baron Haussmann, Paris, 1932, pp. 190-191.

[E 4, 1]

Extraído das “Lamentações” contra Haussmann: “Tu viverás para ver a cidade desolada e morna. / Tua glória será grande para aqueles do futuro que chamamos arqueólogos, mas os últimos dias de tua vida serão tristes e envenenados. /.../ E o coração da cidade se endurecera lentamente.7 /.../ Os lagartos, os cães errantes, os ratos reinarão como senhores sobre essas pompas. Os estragos do tempo se acumularão sobre o ouro das sacadas, sobre as pinturas murais. /.../ E a Solidão, a grande deusa dos desertos, virá assentar-se sobre este império novo que tu lhe terás construído graças a um formidável labor.” Paris Désert: Lamentations dun férémie Haussmannisé, Paris, 1868, pp. 7-8.

[E4, 2]

[...]

“Bonaparte considerava que sua tarefa era a de assegurar a ordem burguesa... Indústria e comércio, os negócios da burguesia, deveriam florescer. Um grande numero de concessões de estradas de ferro foi distribuído, subvenções concedidas, o crédito organizado. A riqueza e o luxo da burguesia aumentam. Nos anos cinqüenta, começam a surgir ... os primeiros magazines parisienses, o ‘Bon Marché’, o ‘Louvre’, a Belle Jardinière . A movimentação financeira do ‘Bon Marché’, que em 1852 era de apenas 450.000 francos, subiu para 21 milhões em 1869.” Gisela Freund, Entwicklungder Photographie in Frankreich, [manuscrito].8

[E 4a, 4]

Por volta de 1830: “As ruas Saint-Denis e Saint-Martin são as grandes artérias desse bairro, abençoadas pelos agitadores. A guerra das ruas era aí de uma facilidade deplorável, bastava arrancar o calçamento, amontoar os móveis das casas vizinhas, as caixas do merceeiro; se necessário, um coche que passava era detido, oferecendo-se galantemente a mão às damas: foi preciso demolir as casas para dar fim a essas Termópilas9. A linha de frente avançava a descoberto, pesadamente equipada e carregada. Um punhado de insurrectos atrás de uma barricada mantinha em xeque um regimento.” Dubech e D’Espezel, Histoire de Paris, Paris, 1926, pp. 365-366. 

[E 4a, 5]

[...]

“Por mais que se construísse, os edifícios novos não bastavam para receber os expropriados. Daí resultou uma grave crise de aluguéis: eles dobraram. A população, que era de 1.053.000 almas em 1851, passou, depois da anexação, a 1.825.000, em 1866. No fim do Império, Paris contava com 60.000 casas, 612.000 alojamentos, dos quais 481.000 tinham um aluguel inferior a 500 francos. Tinham elevado as casas, abaixado o pé-direito: uma lei teve que fixar um mínimo de 2m 60.” Dubech e D’Espezel, pp. 420-421.

[E 5, 3]

“Os que cercavam o prefeito fizeram fortunas escandalosas. Uma lenda atribui à Sra Haussmann, num salão, uma reflexão ingênua: ‘É curioso, todas as vezes que compramos um imóvel, ali passa um boulevard. Dubech e D’Espezel, p. 423. 

[E 5, 4]

“No fim das vastas avenidas, Haussmann construiu monumentos, tendo em vista a perspectiva: o Tribunal do Comércio no fim do Boulevard Sébastopol; igrejas bastardas de todos os estilos, Saint-Augustin, onde Baltard copia o bizantino, um novo Saint-Ambroise, Saint-François-Xavier. No fim da Chaussée-dAntin, a igreja La Trinité imita a Renascença. Sainte-Clotilde imitava o gótico; Saint-Jean de Belleville, Saint-Marcel, Saint-Bernard, Saint-Eugène nascem dos horríveis enlaces do falso gótico com a construção em ferro... Quando Haussmann teve boas idéias, ele as realizou mal. Ateve-se muito às perspectivas; teve o cuidado de edificar monumentos no fim de suas vias retilíneas; a idéia era excelente, mas quanta inépcia na execução: o Boulevard Strasbourg enquadra a enorme escadaria do Tribunal de Comércio e a Avenue de 1’Opéra termina no cubículo do porteiro do Hôtel do Louvre.” Dubech e D’Espezel, pp. 416, 425.

[E 5, 5]

 

22 Em alemão Gründerjahre, literalmente os “anos dos fundadores”. Este período, que se iniciou com a  unificação da Alemanha, em 1871, é caracterizado por um intenso ritmo de industrialização e das  atividades económico-financeiras em geral, (w.b.)
 

5 Cf. "Passagens Parisienses ", <0 70=""> e nota.

<0 70="" style="font-family: georgia;">7 Cf . Velho Testamento, Lamentações 3. (w.b.) 

<0 70="" style="font-family: georgia;">8 Ver agora Gisèle Freund, Photographie und bürgerliche Gesellschaft: Eine kunstsoziologische Studie, Munique, 1968 (Passagen), p. 67. (R.T.)

<0 70="" style="font-family: georgia;">9 Desfiladeiro na Grécia, celebrizado pela resistência heróica, em 480 a. C, de trezentos guerreiros espartanos,   sob o comando de Leónidas, contra o exército persa de Xerxes. (w.b.)

“No tempo de Haussmann, eram necessárias novas vias, mas não necessariamente as novas vias que ele construiu... Eis o primeiro aspecto que choca em sua obra: o desprezo da experiência histórica. Haussmann faz de Paris uma cidade projetada e artificial, como no Canadá ou no Faroeste... As vias de Haussmann muitas vezes não têm utilidade e não possuem nunca beleza. A maior parte são traçados surpreendentes que partem de não importa onde, para terminar em parte alguma, derrubando tudo em sua passagem, ao passo que bastariam alguns desvios para conservar lembranças preciosas... Não se deve acusá-lo de ter haussmannizado demais, mas de menos... Apesar de sua megalomania teórica, em lugar algum, na prática, ele viu com largueza, em lugar algum previu o futuro. A todas as suas perspectivas falta amplidão, todas as suas vias são estreitas demais. Sua visão foi grandiosa, mas não grande, nem justa, nem de longo alcance.” Dubech e DEspezel. pp. 424-426.
[E 5a, 1]
[...]
 

Os donos do poder querem manter sua posição com sangue (polícia), com astúcia (moda), com magia (pompa).

[E 5a, 7]


O alargamento das ruas, dizia-se, teria sido realizado devido à crinolina.

[E 5a, 8]

[...]

Primórdios do urbanismo no Discours Contre les Servitudes Publiques (Discurso Contra as Servidões Públicas), de Boissel. “Desde que se suprimiu a comunhão natural dos bens através de sua distribuição, cada um dos proprietários cultivou o que bem entendia. Na época, a ordem social não sofria com isto, contudo, desde o surgimento das cidades, construídas de acordo com a preferência dos proprietários e seu máximo proveito, não houve mais consideração alguma por segurança, saúde e conforto da sociedade. Este foi principalmente o caso de Paris, onde se construíram igrejas e palácios, boulevards e passeios públicos, mas não houve a mínima preocupação em alojar a grande maioria da população. De maneira bastante drástica, ele descreve a sujeira e os perigos que ameaçavam o pobre transeunte nas ruas de Paris... Boissel posiciona-se então contra esta horrenda disposição das ruas e soluciona o problema ao transformar o andar térreo das casas em arcadas arejadas que oferecem proteção contra os veículos e as intempéries, antecipando assim a idéia dos ‘guarda-chuvas’ de Bellamy.”10 C. Hugo, “Der Sozialismus in Frankreich während der grofien Revolution”, parte I, “François Boissel”, Die neue Zeit, Stuttgart, 1893, XI, I, p. 813. 

 [E 6a, 3] 

 
Sobre Napoleão III, por volta de 1851: “Ele é socialista com Proudhon, reformador com Girardin, reacionário com Thiers, republicano moderado com os partidários da república e inimigo da democracia e da revolução com os legitimistas. Ele promete tudo e assina qualquer coisa.” Friedrich Szarvady, Paris, vol. I [único publicado], Berlim, 1852, p. 401.

[E6a, 4]

 

<fase média>

“Luís Napoleão..., este reprçsentante do lumpemproletariado e de tudo que é embuste e fraude atrai lentamente a violência para si... Com divertido elã, ressurge Daumier. Ele cria o personagem fulgurante de ‘Ratapoil’, um atrevido cafetão e charlatão. E este ladrãozinho andrajoso que traz sempre escondido às costas um porrete assassino torna-se para ele a encarnação da decadente idéia bonapartista.” Fritz Th. Schulte, “Honoré Daumier”, Die neue Zeit, Stuttgart, XXXII, n° 1, p. 835.

[E 7, 1]

10 Edward Bellamy, no capítulo 14 do seu romance utópico Looking Backward: 2000-1887 (1888), descreve uma construção protetora contra as intempéries que cobrem calçadas e esquinas de ruas. (J.L.; E/M) 

<fase média>
“Luís Napoleão..., este representante do lumpemproletariado e de tudo que é embuste e fraude atrai lentamente a violência para si... Com divertido elã, ressurge Daumier. Ele cria o personagem fulgurante de ‘Ratapoil’, um atrevido cafetão e charlatão. E este ladrãozinho andrajoso que traz sempre escondido às costas um porrete assassino torna-se para ele a encarnação da decadente idéia bonapartista.” Fritz Th. Schulte, “Honoré Daumier”, Die neue Zeit, Stuttgart, XXXII, n° 1, p. 835.
[E 7, 1]
[...]

“Milhares de famílias, que trabalham no centro, dormem à noite na periferia da capital. Esse movimento se parece com a maré; vê-se, pela manha, o povo descer até Paris, e, à tarde, a mesma onda popular voltar. E uma triste imagem... Acrescentarei ... que é a primeira vez que a humanidade assiste a um espetáculo tão desolador para o povo.” A Granveau, LOuvrier Devant la Société, Paris, 1868, p. 63 (“Les logements à Paris”).

[E 7, 5]

[...]

1833: “O projeto de circundar Paris com um cinturão de fortificações ... apaixonava neste momento os espíritos. Pensava-se que essas fortificações seriam inúteis para a defesa interior e ameaçadoras apenas à população. A oposição era universal... Disposições foram tomadas para uma imensa manifestação popular em 27 de julho. Informado desses preparativos..., o governo abandonou seu projeto... Entretanto, no dia da revista, inúmeros gritos: Abaixo as fortificações! — Abaixo as bastilhas!’ ressoaram antes do desfile.” G. Pinet, Histoire de 1École Polytechnique, Paris, 1887, pp. 214-215. Os ministros procuravam vingar-se com o caso da “conjuração da pólvora”.11 

[E 7 a, 2]

[...]

“Uma peça de um ato escrita rapidamente por Engels, encenada em setembro de 1847 na Associação Alemã de Trabalhadores de Bruxelas, já apresentava uma luta de barricadas num pequeno Estado alemão, que terminou com a abdicação do príncipe e a proclamação da república.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2 a ed., Berlim, 1933, p. 269.

[E 9a, 6]

Na repressão da insurreição de Junho utilizou-se pela primeira vez a artilharia na batalha de ruas.

[E 9a, 7]

A posição de Haussmann relativa à população de Paris compara-se à posição de Guizot em relação ao proletariado. Guizot designava o proletariado como a “população exterior”. (Cf. Georg Plechanow, “Üher die Anfánge der Lehre vom Klassenkampf ”, Die NeueZeit, Stuttgart, 1903, XXI, n° 1, p. 285.)

[E 9a, 8]

[...]

<fase tardia>

[...]

“Contra Paris. Projeto obstinado de esvaziar Paris, de dispersar sua população de operários. Sob pretexto de humanidade, propõe-se hipocritamente repartir nas 38.000 comunas da França 75.000 operários desempregados. 1849.” Blanqui, Critique Sociale, vol. II, Fragments et Notes, Paris, 1885, p. 313.

[E 11, 4]

“Um Sr. D’Havrincourt veio expor a teoria da estratégia da guerra civil. Não se deve nunca deixar as tropas permanecerem nos centros de revolta. Elas se pervertem em contato com os facciosos e se recusam a metralhar na hora das repressões... O verdadeiro sistema consiste na construção de cidadelas dominando as cidades suspeitas e sempre prontas a fulminá-las. Mantêm-se ali os soldados na guarnição, ao abrigo do contágio popular.” Auguste Blanqui, Critique Sociale, vol. II, Fragments et Notes, Paris, 1885, pp. 232-233 (“Saint-Etienne, 1850”).

[E 11, 5]

“A haussmannização de Paris e das províncias é um dos grandes flagelos do Segundo Império. Nunca se saberá a quantos milhares de infelizes essas construções insensatas custaram a vida, pela privação do necessário. A espoliação de tantos milhões é uma das causas principais da desgraça atual... ‘Quando a construção avança, tudo avança’, diz um adágio popular, que se tornou um axioma econômico. Nessa lógica, cem pirâmides de Quéops, elevando- se juntas até as nuvens, atestariam uma superabundância de prosperidade. Cálculo singular. Sim, num estado bem ordenado, onde a economia não estrangula o câmbio, a construção seria o termômetro verdadeiro da fortuna pública. Porque então ela revela um crescimento da população e um excedente de trabalho que ... constrói o futuro. Fora dessas condições, a colher de pedreiro só testemunha as fantasias assassinas do absolutismo. Quando este esquece um instante seu furor de guerra, é preso da fúria das construções... Todas as bocas venais celebraram em coro os grandes trabalhos que renovam a face de Paris. Nada mais triste que essa imensa agitação de pedras pela mão do despotismo, fora da espontaneidade social. Não há sintoma mais lúgubre da decadência. À medida que Roma agonizava, seus monumentos surgiam mais numerosos e gigantescos. Construía seu sepulcro e se fazia bela para morrer. Mas o mundo moderno, este não quer morrer, e a estupidez humana atinge seu ápice. Estamos cansados de grandezas homicidas. Os cálculos que perturbaram a cidade, numa dupla finalidade de compressão e de vaidade, fracassarão diante do futuro, como fracassaram no presente.” A. Blanqui, Critique Sociale, vol. I, Capital et Travail, Paris, 1885, pp. 109-111 (Conclusão de “Le Luxe”). A Nota preliminar de Capital et Travail é de 26 de maio de 1869.

[E 11a, 1]

[...]

Die neue Weltbühne, XXXIV, 5, de 3 de fevereiro de 1938 — num ensaio de H. Budzislawski, Krösus baut , pp. 120-130 — cita Engels, Zur Wohnungsfrage’’ (Sobre a questão da moradia), de 1872: “Na realidade, a burguesia tem apenas um método para solucionar a questão da moradia à sua maneira — isto e, solucioná-la de tal modo que a solução reacende a questão sempre de novo. Este método denomina-se ‘Haussmann’. Por ‘Haussmann’ entendo aqui não apenas a maneira especificamente bonapartista do Haussmann parisiense de abrir ruas longas, retas e largas no meio de bairros operários de ruas estreitas e cercá-los de grandes edifícios de luxo em ambos os lados, havendo com isso a intenção — além da utilidade estratégica de dificultar a construção de barricadas — de propiciar a constituição de um proletariado de construção especificamente bonapartista, dependente do governo, e a transformação da cidade em pura cidade de luxo. Por ‘Haussmann entendo a prática generalizada de abrir brechas nos bairros operários, principalmente naqueles situados no centro de nossas grandes cidades... O resultado e sempre o mesmo: as ruelas mais escandalosas ... desaparecem sob a máxima autoglorificação da burguesia..., mas ressurgem logo depois em outro lugar, e muitas vezes na imediata vizinhança.’’ — Coloca-se aqui também a famosa questão de concurso: por que o índice de mortalidade nas novas moradias operárias de Londres (por volta de 1890?) é tão maior do que nos slums? — Porque as pessoas se alimentam mal, a fim de conseguir pagar os altos aluguéis. Péladan observa que o século XIX teria forçado as pessoas a assegurar uma moradia, mesmo que fosse às custas da alimentação e do vestuário.

[E 12, 1] 

[...] 

Moradores provisórios (enquanto a moradia ainda apresentava umidade), sob Haussmann: Os industriais nômades dos novos pavimentos térreos parisienses se dividem em três categorias principais: os fotógrafos populares, os comerciantes de bugingangas, mantendo bazares e boutiques de treze centavos, os exibidores de curiosidades e particularmente de mulheres-gigantes. Até o presente, esses interessantes personagens contam entre aqueles que mais aproveitaram a transformação de Paris.” Victor Fournel, Paris Nouveau et Paris Futur, Paris, 1868, pp. 129-130 (“Promenade pittoresque à travers le nouveau Paris”).

[E 13, 3]

11 Depois de ter cedido, em julho de 1833, aos protestos públicos e abandonado o projeto do cinturão de fortificações, o governo vingou-se, decretando a prisão de um grupo de pessoas (inclusive quatro estudantes da École Polytechnique) suspeitas de fabricação ilegal de pólvora e armas. O grupo foi absolvido em dezembro. G. Pinet, Histoire de 1École Polytechnique, Paris, Baudry, 1887, pp. 214-219. (E/M)

F

[Construção em Ferro]

Cada época sonha a seguinte 

Michelet, Avenir! Avenir!(Europe , 73, p. 6)

Dedução dialética da construção em ferro; ela se diferencia da arquitetura grega em pedra (teto de vigas) e da arquitetura medieval (teto em arco). “Uma outra arte, na qual o tom é dado por um outro princípio estático, muito mais magnífico do que os dois primeiros, vai nascer e se desenvolver... Um novo e inusitado sistema de tetos, que naturalmente acarretará de imediato um novo reino de formas artísticas, só pode se manifestar quando um material, se não ignorado are agora, ao menos negligenciado como elemento principal para tal emprego, começa a ter aceitação... Ora, tal material é o ferro, que o nosso século já começou a u tilizar nesse sentido. Com a crescente comprovação e o conhecimento de suas qualidades estáticas na arquitetura do futuro, o ferro está destinado a servir de base ao sistema de tetos e, do ponto de vista estático, a destacar este último em relação aos sistemas helénico e medieval tanto quanto o sistema de arcos deu destaque à Idade Média em relação ao monolítico sistema de vigas de pedra do mundo antigo... Se o princípio estático de forças é tomado à construção em arcos e transformado num sistema totalmente novo e inédito, por outro lado, em relação às formas artísticas do novo sistema, terá de ser retomado o princípio formal à maneira grega.” Zum huridertjãhrigen Geburtstag Karl Böttichers, Berlim, 1906, pp. 42 e 44-46. (Os princípios da arquitetura helénica e germânica com referência à sua transposição para a arquitetura de nossos dias.)

[F 1, 1]

Vidro que surge antes do seu tempo, ferro prematuro. O material mais frágil e o mais forte foram quebrados, por assim dizer, deflorados nas passagens. Em meados do século passado, ainda não se sabia como se devia construir com vidro e ferro. Por isso o dia que se infiltra do alto através das vidraças por entre suportes de ferro é tão sujo e nublado

[F 1, 2]

[...]

As duas grandes conquistas da técnica: o gás1 e o ferro fundido andam juntos. “Sem contar a quantidade inumerável de luzes mantidas pelos comerciantes, essas galerias são iluminadas à noite por trinta e quatro bicos de gás hidrogênio sustentados por espirais de ferro fundido fixados sobre as pilastras. Provavelmente, trata-se da Galerie de 1’Opéra. J.A.Dulaure, Histoire de Paris ... Depuis 1821 Jusquà Nos Jours, vol. II, Paris, 1835, p. 29.

[F 1, 4]

[...]

“A complicada construção em ferro e cobre ... do mercado de cereais, Halle au Blé, em 1811, foi uma obra do arquiteto Bellangé e do engenheiro Brunet. Pelo que se sabe, é a primeira vez que as funções do arquiteto e do engenheiro não são mais reunidas na mesma pessoa ... Hittorf, o construtor da Gare du Nord, deve a Bellangé seu primeiro contato com a construção em ferro. — De fato, trata-se mais de um emprego do ferro do que uma construção em ferro. Ainda se transfere simplesmente ao ferro a técnica da construção em madeira.” Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich, p. 20.

[F 2, 6]

1 "Vidro e ferro fundido" ( G<l>as und Gußeisen), como quer R.T., ou "gás e ferro fundido" (Gas und  Gußeisen), como propõem E/M? Optamos peia segunda leitura, que, além de não emendar o texto  original, é confirmada pelo contexto. (w.b.) 

(...) Quando se descobriu a roda a fim de permitir a continuidade do movimento sobre o solo — não poderia alguém ter dito com certa razão: e agora, além do mais, ainda é redondo e tem forma de roda? Todas as grandes conquistas no domínio das formas não se deram afinal assim, como descobertas técnicas? Começamos apenas recentemente a adivinhar quais formas, que se tomarão determinantes para nossa época, estão ocultas nas máquinas. O quanto no início a velha forma do meio de produção domina sua forma nova ... é demonstrado de maneira talvez mais cabal pela locomotiva que foi experimentada antes da descoberta da locomotiva atual: com efeito, assim como um cavalo, possuía dois pés que eram erguidos um após o outro. Apenas após um melhor desenvolvimento da mecânica e a acumulação de experiências práticas, a forma é inteiramente determinada pelo princípio mecânico, libertando-se de vez da forma corpórea tradicional da ferramenta, que se transmuda em máquina.” (Neste sentido, por exemplo, também na arquitetura o suporte e o peso são “formas corpóreas”.) O trecho encontra-se em Marx, Das Kapital, vol. I, Hamburgo, 1922, p. 347, nota.

[F 2a, 5]

[...]

(...) Assim, A.Gordon, em A Treatise in Elementary Locomotion, queria fazer rodar os “carros a vapor” — como se dizia na época — sobre estradas de granito. Não se acreditava ser possível produzir ferro suficiente para as linhas férreas, então ainda projetadas em escala bem reduzida.

[F 3, 4]

É preciso observar que as perspectivas grandiosas que as novas construções em ferro ofereciam sobre as cidades — exemplos excelentes encontram-se em Giedion, Bauen in Frankreich, Leipzig e Berlim, 1928, nas ilustrações 61-63 da ponte de Marselha, a Pont Transbordem — estavam reservadas exclusivamente e por muito tempo aos operários e engenheiros. ■ Marxismo ■ Pois, quem além do engenheiro e do proletário galgava então os degraus que permitiam divisar pela primeira vez o novo, o decisivo: a sensação espacial dessas construções?

[F 3, 5]

Em 1791, surge na França a designação “engenheiro” (ingénieur) para os oficiais da arte das fortificações e do assédio. “E nessa mesma época, no mesmo país, começou a manifestar-se de maneira consciente, e logo com o tom de polêmica pessoal, a oposição entre construção’ e ‘arquitetura’. Isto não existiu absolutamente no passado... Entretanto, nos inúmeros ensaios estéticos, que reconduziram a arte francesa a caminhos regulares após as tempestades da revolução, ... os constructeurs se confrontaram com os décorateurs, e imediatamente colocou-se a questão se os ingénieurs, como seus aliados, não deveriam também ocupar socialmente o mesmo campo.” A. G. Meyer, Eisenbauten , Esslingen, 1907, p. 3.

[F 3, 6]

“A técnica da arquitetura de pedra é a estereotomia, a da madeira é a tectônica. O que tem a construção em ferro em comum com esta e com aquela?” Alfred Gotthold Meyer: Eisenbauten, Esslingen, 1907, p. 5. “Na pedra, sentimos o espírito natural da massa. O ferro para nós é apenas resistência e tenacidade artificialmente comprimidas.” Op. cit., p. 9. “O ferro possui uma resistência quarenta vezes maior que a da pedra e dez vezes maior que a da madeira; seu peso específico, contudo, é apenas quatro vezes maior que o da pedra e oito vezes maior que o da madeira. Um corpo de ferro possui, portanto, em comparação a um igual volume de pedra, com uma massa quatro vezes maior, uma capacidade de carga quarenta vezes maior.” Op. cit., p. 11.

 [F 3, 7]

[...]

Estações como “centros de arte”. “Se Wiertz tivesse tido à sua disposição ... os monumentos públicos da civilização moderna: estações ferroviárias, câmaras legislativas, salas de universidade, mercados, prefeituras ... quem poderia dizer que mundo novo, vivo, dramático, pitoresco ele teria projetado sobre sua tela?” A. J. Wiertz, Œuvres Littéraires, Paris, 1870, pp. 525-526.

[F 3a, 3]

O absolutismo técnico que está na base da construção em ferro, em decorrência do próprio material, fica evidente quando nos inteiramos da oposição em que o ferro se encontrava em relação as concepções tradicionais do valor e da utilidade de materiais de construção em geral. “O ferro era visto com uma certa desconfiança, justamente porque não era extraído diretamente da natureza e sim fabricado artificialmente. Esta era apenas uma aplicação particular daquele sentimento geral do Renascimento, que Leo Battista Alberti (De Re Aedificatoria, Paris, 1512, foi. XLIV) expressa com as seguintes palavras: ‘Nam est quidem cujusquis corporis pars indissolubilior, quae a natura concreta et counita est, quam quae hominum manu et arte conjuncta atque, compacta est.”’Œ8 A. G. Meyer, Eisenbauten, Esslingen, 1907, p. 14.

[F 3a, 4]

(...) No caso do ferro como material de construção isto já é bem evidente, e talvez pela primeira vez. Pois as “formas básicas, nas quais o ferro aparece como material de construção, são ... por si mesmas parcialmente novas como configurações individuais. E sua especificidade é, em grande medida, resultado e expressão das qualidades naturais do material, porque estas foram desenvolvidas e exploradas técnica e cientificamente justamente para estas formas. Em comparação com os materiais de construção conhecidos até então, o objetivo do processo de trabalho, que transforma a matéria-prima em material de construção imediatamente utilizável, inicia-se com o ferro já em um estágio muito anterior. Entre matéria e material existe aqui naturalmente uma outra relação do que entre pedra bruta e pedra lavrada, entre argila e telha, madeira e viga: no caso do ferro, o material e a forma de construção sao por assim dizer mais homogêneos.” A. G. Meyer, Eisenbauten, Esslingen, 1907, p. 23.

[F 3a, 5]

1840-1844. “A construção das fortificações, inspirada por Thiers... Thiers, que pensava que as vias férreas não funcionariam nunca, fez construir portas em Paris, no momento em que a cidade precisava de estações.” Dubech e D’Espezel, Histoire de Paris, Paris, 1926, p. 386.

[F 3a, 6]

[...]
A passagem como construção em ferro fica na fronteira do espaço largo (Breitraum). Esta é uma das razões decisivas de sua aparência “antiquada”. Ela ocupa aqui uma posição híbrida, que tem certa analogia com a da igreja barroca: “a cobertura (Halle) em abóbada, que admite até mesmo as capelas apenas como alargamento do seu próprio espaço, mais largo que nunca. Mas também nesta cobertura barroca prevalece a tendência ‘para o alto’, o êxtase dirigido às alturas, como rejubila nos afrescos do teto. Enquanto os espaços das igrejas pretendem servir a algo mais do que para fins de reunião, enquanto querem abrigar a idéia do eterno, o espaço único e contínuo apenas poderá satisfazê-los se a altura superar a largura.” A. G. Meyer, Eisenbauten , p. 74. Inversamente, pode-se dizer que permanece algo de sagrado, um resquício de nave de igreja, nesta fileira de mercadorias que é a passagem. Do ponto de vista funcional, a passagem já se encontra no domínio do espaço largo, porém, do ponto de vista arquitetônico, ainda está no espaço da antiga “cobertura”.

[F 4, 5]

 [...]

Formação histórica do espaço largo: “O castelo dos reis da França toma emprestada ao palácio renascentista italiano a ‘galeria’, a qual — como na ‘Galeria de Apoio’ do Louvre ou na ‘Galeria de Espelhos’ de Versalhes — torna-se símbolo da majestade propriamente dita ... / Seu novo cortejo triunfal no século XIX inicia-se, por sua vez, sob o signo da construção puramente utilitária, com pavilhões que servem de depósito e mercado, oficina e fábrica: o lado voltado à arte é determinado pelas estações de trem — e principalmente pelas exposições. E por toda parte a necessidade de um espaço largo contínuo é tão grande que dificilmente serão suficientes a abóbada de pedra e o teto de madeira... Na arquitetura gótica, as paredes crescem em direção ao teto, nos saguões de ferro do tipo ... da Galerie des Machines de Paris, o teto se transforma sem solução de continuidade em paredes.” A. G. Meyer, Eisenbauten, pp. 74-75.

[F 4a. 1]

Nunca a medida do “muito pequeno” teve tanta importância quanto agora. Inclui-se aí também o muito pequeno em quantidade, o “mínimo”. Trata-se de medidas que adquiriram significado para as construções da técnica e da arquitetura muito antes de a literatura se dignar de adaptar-se a elas. Basicamente é a primeira manifestação do princípio de montagem. Sobre a construção da Torre Eiffel: “Aqui a força plástica da imagem silencia em favor de uma enorme tensão de energia espiritual que concentra a energia inorgânica do material nas formas mínimas e mais eficazes, associando-as da maneira mais funcional possível... Cada uma das 12.000 peças de metal é fabricada com exatidão milimétrica, cada um dos 2,5 milhões de arrebites... Neste canteiro de obras não se ouvia nenhum golpe de formão que retira da pedra a sua forma; mesmo ali o pensamento dominava a força muscular, transferindo-a para seguros andaimes e guindastes.” A. G. Meyer, Eisenbauten, p. 93. ■ Precursores ■

[F 4a. 2]

“Haussmann não soube ter o que se poderia chamar de uma política das estações ferroviárias... Apesar de uma declaração do imperador, que havia justamente batizado as estações de novas portas de Paris, o desenvolvimento contínuo das vias férreas surpreendeu todo mundo, ultrapassou as previsões. Não se soube sair do empirismo cotidiano.” Dubech e D’Espezel, Histoire de Paris, Paris, 1926, p. 4 19.

[F 4a, 3]

Torre Eiffel. Originalmente saudada por um protesto unânime, eia continuou sendo bastante feia, mas foi útil ao estudo da telegrafia sem fio... Disseram que essa Exposição havia marcado o triunfo da construção em ferro. Seria mais justo dizer que marcou sua falência.” Dubech e D’Espezel, Histoire de Paris, Paris, pp. 461-462.

[F 4a, 4]

Por volta de 1878, acreditou-se encontrar a salvação na arquitetura em ferro; as aspirações verticais, como diz o Sr. Salomon Reinach, a predominância dos vazios sobre os cheios e a leveza da ossatura aparente fizeram esperar que nascesse um estilo que reviveria o essencial do gênio gótico, rejuvenescido por um espírito e materiais novos. Quando os engenheiros ergueram a Galerie des Machines e a Torre Eiffel, em 1 889, perdeu-se a esperança na arte de ferro. Cedo demais, talvez.” Dubech e D’Espezel, op. cit., p. 464.

[F 4a, 5]

[...]

“O caminho que vai da forma da primeira locomotiva, durante o estilo Império, à sua forma atual, perfeita e objetiva, caracteriza uma evolução.” Joseph Aug. Lux, “Maschinenästhetik”, Die Neue Zeit, XXVII, 2, p. 439, Stuttgart, 1909. 

[F 4a, 7]

<fase média>
[...]

(...) (A verificar: se em uma representação alegórica no Cabinet des Estampes, o quebra-cabeça substitui o caleidoscópio ou vice-versa.)

[F 6, 2]

[...]

Victor-Hugo em Notre-Dame de Paris, sobre o prédio da Bolsa de Valores: “Se existe a regra que a arquitetura de um edifício seja adaptada à sua finalidade ... não seria demais maravilhar-se com um monumento que pode ser indiferentemente um palácio de rei, uma câmara dos comuns, uma prefeitura, um colégio, um picadeiro, uma academia, um entreposto, um tribunal, um museu, uma caserna, um sepulcro, um templo, um teatro. Por enquanto ... é uma Bolsa de Valores... E uma Bolsa na França, como teria sido um templo na Grécia... Tem-se esta colunata que circunda o monumento, e sob a qual, nos grandes dias de solenidade religiosa, pode-se desenvolver majestosamente a teoria dos agentes de câmbio e dos corretores de comércio. Trata-se, sem dúvida, de soberbos monumentos. Acrescentemos a eles ruas muito belas, divertidas e variadas, como a Rue de Rivoli, e não posso deixar de esperar que Paris, vista de um balão, apresente um dia ... esta riqueza de linhas, ... esta diversidade de aspectos, este não sei quê ... de inesperado no belo, que caracteriza um tabuleiro de xadrez.” Victor Hugo, Œuvres Complètes, Romances, vol. III, Notre-Dame de Paris, Paris, 1880, pp. 206-207.

[F 6a, 1]

[...]

O engenheiro Alexis Barrault, que construiu o Palácio da Indústria em 1855, juntamente com Viel, era irmão de Emile Barrault.

[F 7a, 2]

Em 1779, foi construída a primeira ponte de ferro fundido (de Coalbrookdale); em 1788, seu construtor15 é agraciado com a medalha de ouro pela Sociedade Inglesa das Artes. “Como, aliás, foi em 1790 que o arquiteto Louis terminava em Paris o vigamento em ferro forjado do Théâtre-Français, é possível dizer que o centenário das construções em metal coincide quase exatamente com o da Revolução Francesa.” A. de Lapparent, Le Siècle du Fer, Paris, 1890, pp. 11-12.

[F 7a, 3]

Em Paris, no ano de 1822, uma greve dos carpinteiros.

[F 7a, 4]

Sobre o quebra-cabeça chinês, uma litografia: “O Triunfo do caleidoscópio ou o Túmulo do Jogo Chinês.” Um chinês deitado com um quebra-cabeça. Uma figura feminina colocou o pé sobre ele. Numa das mãos, ela carrega um caleidoscópio, na outra um papel ou uma tira com motivos de caleidoscópio. Cabinet des Estampes (datado de 1818).

[F 7a, 5]

“A cabeça gira e o coração aperta quando, pela primeira vez, percorre-se essas casas de fadas nas quais o ferro e o cobre resplandecentes, polidos, parecem valer por si mesmos, parecem pensar, querer, enquanto o homem pálido e fraco é o humilde servidor desses gigantes de aço.” J. Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, p. 82. O autor não teme que a produção mecânica possa prevalecer. Parece-lhe, ao contrário, ser barrada pelo individualismo do consumidor “Cada homem quer agora ser ele mesmo; conseqüentemente, desprezará muitas vezes produtos fabricados em série, sem individualidade que responda à sua.” Ic p. 78.

[F 7a, 6]

<fase tardia>

“VioIlet-le-Duc (1814-1879) mostra que os arquitetos da Idade Média foram também engenheiros e inventores surpreendentes.” Amédée Ozenfant, “La peinture murale, Encyclopédie Française, vol. XVI, Arts et Littératures dans la Société Contemporaine, tomo I, p. 70, col. 3.

[F 8, 1]

[...]

“Foi em 1783, na construção do Théâtre-Français, que o ferro foi empregado pela primeira vez em grandes dimensões, pelo arquiteto Louis. Talvez nunca se tenha repetido um trabalho tão audacioso. Quando, em 1900, o teatro foi reconstruído depois de um incêndio, utilizou-se para a mesma cobertura um peso de ferro cem vezes superior ao do arquiteto Louis. A construção em ferro propiciou uma série de edifícios, dos quais a Grande Sala de Leitura da Biblioteca Nacional de Labrouste é o primeiro e um dos melhores exemplos... Mas o ferro necessita de uma manutenção dispendiosa... A Exposição de 1889 foi o triunfo do ferro aparente...; na Exposição de 1900, quase todas as armações em ferro estavam recobertas de estafe.” LEncyclopédie Française, vol. XVI, 16-68, pp. 6-7. (Aususte Perret, “Les besoins collectifs et l’architecture”).

[F 8, 4]

O “triunfo do ferro aparente” na era do gênero: “Pode se compreender ... a partir do entusiasmo pela técnica das máquinas e da crença na solidez inigualável de seus materiais o fato de que o atributo ‘de bronze’ ou ‘de ferro’ aparece por roda parte ... toda vez que se quer enfatizar a força e a necessidade: de bronze são as leis da natureza, como mais tarde o ‘passo dos batalhões de operários’; ‘de ferro’ é a unificação do Império Alemão ... e de ferro’ é o próprio chanceler.” Dolf Stemberger, Panorama, Hamburgo, 1938, p. 31.16

 

8 “Pois em cada substância existe uma parte que é confeccionada e reunida pela natureza e que é mais   indissolúvel que a que é produzida e reunida pela mão e pela arte do homem.” (w.b.) 

15 A ponte de Coalbrookdale, no Shropshire, foi construída em 1779 por T. F. Pritchard. (J.L.)

16 D. Stemberger, Panorama oder Ansichten vom 19. Jahrhundert. Ver a resenha deste livro por Benjamin, GS III, pp. 572-579. (J.L.)

G

[Exposições, Reclame, Grandville]

[...]

Certos modos de apresentação, cenas típicas etc. começam no século XIX a migrar para o reclame e, igualmente, para o obsceno. O estilo dos Nazarenos,1 tanto quanto o estilo Mackart,2 encontra seus parentes litográficos, em preto ou mesmo coloridos, no domínio da gravura obscena. Vi uma gravura que à primeira vista poderia representar algo como o banho de Sigfried no sangue do dragão: uma erma floresta verde, o manto púrpura do herói, plena nudez, um espelho d’água — era o mais complicado enlace de três corpos, digno da capa de uma revista barata para jovens. Esta é a linguagem colorida dos cartazes que floresceram nas passagens. Quando ficamos sabendo que lá estavam pendurados os retratos de famosas dançarinas do cancan, como Rigolette e Frichette — devemos imaginá-los assim coloridos. É possível encontrar cores mais artificiais nas passagens; ninguém se surpreende que pentes sejam vermelhos ou verdes. A madrasta da Branca de Neve possuía alguns assim, e se o pente não cumpria sua tarefa, lá estava a linda maçã fazendo sua parte, meio vermelha, meio verde-veneno, como os pentes de preço módico. Por toda parte, as luvas representam seu papel de atrizes convidadas; luvas coloridas, mas principalmente as luvas longas e negras, com as quais muitas sonharam com a felicidade  seguindo o exemplo de Yvette Guilbert3 , trazendo-a, como se espera, a Margo Lion.4 E na mesa vizinha de uma taberna, as meias formam um etéreo balcão de carnes.

[G 1a, 1]

[...]

Em 1867, um negociante de papel de paredes afixa seus cartazes nos pilares das pontes.

[G 1a, 3]

Há muitos anos vi num trem suburbano um cartaz que, se neste mundo as coisas tivessem o lugar que lhes cabe, teria encontrado seus admiradores, historiadores, exegetas e copistas tão certamente como qualquer grande poema ou grande pintura. Com efeito, esse cartaz era as duas coisas ao mesmo tempo. Mas como acontece às vezes com impressões muito profundas e inesperadas, o choque foi tão forte, a impressão, se assim posso dizer, causou- me tanto impacto, que transpassou o solo da consciência e permaneceu por anos escondida em algum lugar na escuridão. Sabia apenas que se tratava de um certo “Sal de Bullrich”, e que o entreposto original deste produto localizava-se num porão da rua Flottwell, pela qual passei anos a fio com a tentação de aí descer e perguntar pelo cartaz. Então, numa certa tarde desbotada de domingo, encontrei-me naquela parte norte (?) de Moabit que já me parecera, certa vez, há quatro anos, espectralmente construída justamente nesta hora do dia. Na ocasião, tive que pagar na rua Lützow5 os impostos alfandegários de uma cidade de porcelana chinesa que mandei vir de Roma, de acordo com o peso de seus quarteirões de casas esmaltadas. Desta vez, certos indícios já me levavam a crer, durante o caminho, que esta seria uma tarde significativa. De fato, ela terminou com a descoberta de uma passagem, uma história berlinense demais para poder ser contada neste espaço de lembranças parisienses. Antes, porém, estava eu com minhas duas belas acompanhantes diante de uma miserável destilaria, cuja vitrine estava enfeitada com um arranjo de cartazes. Num deles estava escrito "Sal de Bullrich”. Nada mais continha além destes dizeres; mas, em torno destas letras, formou-se de repente, com facilidade, aquela paisagem desértica do primeiro cartaz. Eu o tinha recuperado. Era assim: no primeiro plano do deserto, movia-se um veículo de carga puxado por cavalos. Estava carregado de sacos com a inscrição “Sal de Bullrich”. Um deles tinha um buraco do qual escorria o sal, formando uma trilha na terra. Ao fundo da paisagem desértica, dois postes exibiam uma grande tabuleta com as palavras: “É o melhor”. Mas o que fazia a trilha de sal na estrada que cortava o deserto? Ela formava letras, e estas formavam palavras, as palavras: “Sal de Bullrich”. Não era a harmonia preestabelecida de um Leibniz uma criancice, se comparada a esta predestinação inscrita com absoluta precisão no deserto? E não havia neste cartaz uma parábola para coisas que ninguém jamais experimentou nesta vida terrena? Uma parábola para o cotidiano da utopia?

[G 1a, 4]

1 Grupo de pintores alemães (Overbeck, Pforr, Cornelius) que se estabeleceram em Roma em 1810 e tiraram a sua inspiração patriótica, alemã e religiosa de Dürer, das primeiras obras de Rafaël e de Perugino. (cf.Ch.Baudelaire, LArt PhilosophiqueŒuvres Complètes, vol. II, p. 599.) (J.L.)

2 Hans Mackart (1840-1884), pintor vienense, autor de grandes quadros alegóricos e históricos em estilo “neobarroco. (J.L.)

3 Cantora francesa (1868-1944). (J.L.)

4 Artista alemã de cabaré (1899-1989) dos anos 1920. Intérprete da personagem Jenny na versão cinematográfica francesa da Ópera dos Três Vinténs, de G. W. Pabst (1931), baseada na peça de Brecht. (J.L.) 

5 A Lützowstraße desembocava na Flottwellstraße, ao sul do Tiergarten, o parque central de Berlim. Moabit  é um bairro ao norte desse parque. (J.L.; w.b.) 

No Charivari de 1836 encontra-se uma ilustração mostrando um cartaz que se estende por metade da fachada de uma casa. As janelas foram poupadas, à exceção de uma, aparentemente, pois nela se apoia um homem cortando o pedaço do papel que o incomoda.

[G 1a, 1]

[...]

“O homem-sanduíche carrega com seriedade seu fardo duplo e leve. Esta jovem senhora, cujo ventre redondo é apenas passageiro, ri do cartaz ambulante e, sempre rindo, deseja lê-lo; o feliz autor de sua protuberância carrega também seu próprio fardo. Texto referente à litografia: “O homem-sanduíche na Place des Victoires”. Extraído de Nouveanx Tableaux de Paris, texto da prancha 63 [as litografias são de autoria de Marlet] . Este livro é uma espécie de Hogarth ad usum Delphini.

[G 3a, 2]

[...]

A Europa se deslocou para ver mercadorias, dizia Renan, com desprezo, da Exposição de 1855. Paul Morand, 1900, Paris, 1931, p71.

[G 4, 5]

Este ano foi perdido em prol da propaganda, diz um orador socialista, no congresso de 1900." Paul Morand, 1900, Paris, 1931, p129.

[G 4, 6]

[...]

“Com a etiqueta exibindo o preço, a mercadoria entra no mercado. Sua individualidade material e qualidade formam apenas o atrativo para a troca, sendo totalmente irrelevantes para a avaliação social de seu valor. A mercadoria tornou-se uma coisa abstrata. Uma vez saída da mão do produtor e livre de sua particularidade real, deixa de ser um produto e de ser dominada pelo homem. Adquire uma objetividade espectral’ e leva uma vida própria. ‘Uma mercadoria parece ser à primeira vista uma coisa óbvia, trivial. De sua análise resulta, porém, ser ela uma coisa complicada, cheia de sutilezas metafísicas e argúcias teológicas. Separada da vontade do homem, ela se insere em uma hierarquia misteriosa, desenvolve ou rejeita a aptidão de troca, age segundo leis próprias tal como atores sobre um palco fantasmagórico. Nos informes da Bolsa, o algodão ‘sobe’, o cobre cai’, o milho está ‘animado, o carvão está ‘fraco’, o trigo atraente’ e o petróleo ‘manifesta tendência’. As coisas emanciparam-se, assumem um comportamento humano... A mercadoria transformou-se em ídolo que, embora seja um produto feito por mãos humanas, comanda o homem. Marx fala do caráter fetiche da mercadoria. Este caráter fetiche do mundo das mercadorias provém do caráter social específico do trabalho que produz mercadorias... E apenas a relação social determinada dos homens que assume para eles aqui a forma fantasmagórica de uma relação de coisas’.” Otto Rühle, Karl Marx, Hellerau, 1928, pp. 384-385.

[G 5, 1]

[...]

“Já por ocasião da primeira Exposição universal, em 1851, enviaram para Londres às custas do Estado alguns operários escolhidos pelos empresários. Entretanto, houve também uma delegação independente que foi enviada por iniciativa de Blanqui (o economista) e de Émile de Girardin... Esta delegação apresentou um relatório geral em que não encontramos nenhum indício da tentativa de estabelecer uma ligação permanente com os operários ingleses, porém, enfatizou-se a necessidade de relações pacíficas entre a Inglaterra e a França... Em 1855, realizou-se a segunda Exposição universal, desta vez em Paris. Delegações de operários, seja da capital, seja da província, foram totalmente excluídas desta vez. Temia-se que elas oferecessem aos operários a oportunidade de se organizar.” D. Rjazanov, “Zur Geschichte der ersten Internationale”, in: Marx-Engels Archiv, org. por Rjazanov, vol. I, Frankfurt a. M., pp. 150-151.

[G 5a, 1]

As especiosidades de Grandville expressam muito bem o que Marx chama de “argúcias teológicas” da mercadoria.

[G 5a, 2]

[...]

Relação da primeira Exposição universal de Londres, de 1851, com a idéia do livre comércio.

[G 5a, 4]

“As exposições universais perderam muito do seu caráter original. O entusiasmo que em 1851 contaminou os mais amplos círculos dissipou-se e, em seu lugar, adveio uma espécie de frio cálculo; em 1851, nós nos encontrávamos na época do livre comércio... Agora encontramo-nos há décadas em um período contínuo e crescente do protecionismo; ... participar de uma exposição torna-se ... uma espécie de representação ... e enquanto em 1850 colocava-se como princípio supremo: que o governo não devia se preocupar com este assunto, chega-se hoje a considerar o governo de cada país como um verdadeiro empresário.” Julius Lessing, Das halbe Jahrhundert der Weltausstellungen, Berlim, 1900, pp. 29-30.

[G 5a, 5]

No ano de 1851, em Londres, “surgiu ... o primeiro canhão de aço fundido da fabrica Krupp e, a partir desse modelo, o ministério da guerra prussiano deveria logo encomendar mais de 200 unidades. Julius Lessing, Das halbe Jahrhundert der Weltausstellunven, Berlim 1900, p. 11.

[G 5 a, 6]

[...] 
Se a mercadoria era um fetiche, Grandville foi o seu mago-sacerdote.
[G 7, 2]
<fase média>
[...] 
Exposição universal de 1851: 14.837 expositores; em 1855, 80.000 expositores.
[G 9a, 5]
A exposição egípcia de 1867 foi montada numa construção que imitava um templo egípcio.
[G 9a, 6]
[...] 
Simbologia animal em Toussenel: a toupeira. “A toupeira não é ... o emblema apenas de um caráter, é o emblema de todo um período social, o período do nascimento da indústria, o período ciclópico ... ela é a expressão alegórica ... do predomínio absoluto da força bruta sobre a força intelectual... Há uma semelhança marcante entre as toupeiras que remexem o solo e cavam vias de comunicação subterrâneas ... e os monopolizadores de vias férreas e de empresas de transporte... A extrema sensibilidade nervosa da toupeira que teme a luz ... caracteriza admiravelmente o obscurantismo obstinado desses monopolizadores de bancos e de transportes que também temem a luz.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes: Zoologie PassionnelleMammiferes de France, Paris, 1884, pp. 469 e 473-474.
[G 11,4]
[...]
Toussenel estabelece uma simbologia das curvas, segundo a qual o círculo representa a amizade, a elipse, o amor, a parábola, o sentido da família, a hipérbole, a ambição. O parágrafo sobre a hipérbole aproxima-se especialmente de Grandville: “A hipérbole é a curva da ambição... Admirai a persistência teimosa da ardente assintota, perseguindo a hipérbole numa corrida desenfreada; ela se aproxima, se aproxima cada vez mais do ponto de chegada ... sem jamais alcançá-lo.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, p. 92.
[G 11a, 2]
Simbologia animal em Toussenel: o ouriço. “Voraz e de aspecto repulsivo é também o retrato do escrevinhador ínfimo, traficante de biografia e de chantagem, vendendo patentes de chefes de correio e concessões de teatro ... e tirando de sua consciência de alcachofra ... falsos juramentos e apologias a preço fixo... Diz-se que o ouriço é o único dos quadrúpedes da França sobre o qual o veneno da víbora não tem efeito. Eu teria adivinhado a exceção unicamente pela analogia... Como vocês querem ... que a calúnia (víbora) morda o vagabundo literário...! A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, pp, 476 e 478.
[G 11a, 3]
[...]
A primeira edição de LEsprit des Bêtes, de Toussenel, data de 1847.
[G 12, 2]
“Consultei inutilmente a antigüidade para nela encontrar traços do perdigueiro... Interroguei a época do aparecimento dessa raça às lembranças dos mais lúcidos sonâmbulos; Unias as informações terminam na seguinte conclusão: o perdigueiro é uma criação dos tempos modernos.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, p. 1 59.
[G 12, 3]
Toussenel explica a rotação da terra como resultante da força centrífuga e da atração. Mais adiante: “O astro ... começa a valsar sua valsa frenética... Tudo murmura, se move, se aquece, tudo cintila na superfície do globo, mergulhado, ainda na véspera, no frio silêncio da noite. Espetáculo maravilhoso para o observador bem posicionado; troca de cenários à vista, com um efeito admirável; porque a revolução aconteceu entre os dois sóis, e, na mesma noite, uma nova estrela cor de ametista fez sua aparição nos céus.” (p. 45) E, aludindo ao vulcanismo de épocas remotas da terra: “São conhecidos os efeitos da primeira valsa sobre as organizações delicadas... A Terra também foi rudemente sacudida na sua primeira prova.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes: Zoologie Passionnelle, Paris, 1884, pp. 44-45.
[G 12, 5]
Princípio da zoologia de Toussenel: “A classificação das espécies está em razão direta de sua semelhança com o homem.” A. Toussenel, L’Esprit des Bêtes, Paris, 1884, p. I. Cf. a epígrafe “‘O que há de melhor no homem é o cão.’ - Charlet.”
[G 12a, 1]
Apoiado por grande publicidade, Poitevin empreendeu com seu balão uma "subida a Urano”, acompanhado em sua gôndola de moças vestidas como figuras mitológicas. (Paris sous la République de 1848: Exposition de la Bibliothèque et des Travaux Historiques de la Ville de Paris, 1909 , p. 34.)
[G 12a, 2]
Não só em relação à mercadoria pode-se falar de uma autonomia fetichista, mas também em relação aos meios de produção, como demonstra a seguinte passagem de Marx: “Examinando o processo de produção sob o ponto de vista do processo de trabalho, o operário comportava-se em relação aos meios de produção ... como simples meio ... de sua atividade produtiva objetiva... É bem diferente tão logo examinemos o processo de produção sob o ponto de vista do processo da mais-valia. Os meios de produção transformam-se imediatamente em meios de apropriação do trabalho de outrem. Não é mais o operário que emprega os meios de produção, e sim são os meios de produção que empregam o operário. Em vez de serem consumidos por ele como elementos materiais de sua atividade produtiva, eles o consomem como força motriz de seu próprio processo de vida... Altos- fornos e fábricas que ficam parados durante a noite, não absorvendo trabalho vivo algum, são puro prejuízo’ para o capitalista. Por isso, os altos-fornos e as fabricas constituem uma reivindicação ao trabalho noturno’ dos operários.”17 Estas considerações devem servir para analisar Grandville. Em que medida o trabalhador assalariado é a “alma” dos objetos de Grandville, animados de forma fetichista?
[G 12a, 3]
Sobre a instalação do Conselho Geral da Internacional Operária19 em Londres corria a frase: “A criança nascida nas oficinas de Paris tinha sua ama seca em Londres.” Ver Ch. Benoist, “Le inythe’ de la classe ouvrière”, Revue des Deux Mondes, 1o de março de 1914, p. 104.
[G 13, 3]
[...]
Extraído do primeiro capítulo de O Capital: “Uma mercadoria parece ser à primeira vista uma coisa óbvia, trivial. Sua análise mostra que ela é uma coisa complicada, cheia de sutilezas metafísicas e argúcias teológicas. Enquanto valor de uso, não há nada de místico nela... A forma da madeira é modificada quando se faz uma mesa com ela; não obstante, a mesa continua sendo madeira, uma coisa sensível e comum. Porém, tão logo ela se apresenta como mercadoria, torna-se uma coisa sensível supra-sensível. Não só se coloca com suas pernas sobre o chão, mas se põe de cabeça para baixo em relação a todas as outras mercadorias e inventa maluquices em sua cabeça de madeira que são mais estranhas do que se começasse repentinamente a dançar.” Cit. em Franz Mehring, “Karl Marx und das Gleichnis”, in: Karl Marx ais Denker, Mensch und Revolutionär, ed. org. por Rjazanov, Viena / Berlim, 1928, p. 57 (originalmente publicado em Die Neue Zeit, 13 de março de 1908).
[G 13a, 2]
[...]
Fourier evoca a sabedoria popular, que definiu há muito a civilização como le monde à rebours (“o mundo às avessas”).
[G 14a, 4]
[...]
19 A Associação Internacional dos Operários (a Primeira Internacional), cujo Conselho Geral tinha sua sede em Londres, foi fundada em setembro de 1864. (E/M)
 
<fase tardia> 
Pobres estrelas! Seu papel de esplendor não é senão um papel de sacrifício. Criadoras e servas da potência produtora dos planetas, elas mesmas não a possuem e devem resignar-se à carreira ingrata e monótona de tochas. Elas têm o brilho sem o prazer; atrás delas se escondem invisíveis, as realidades vivas. Essas rainhas-escravas são, entretanto, da mesma massa que suas felizes súditas... Agora chamas resplandecentes, elas serão um dia trevas e gelo e só poderão renascer para a vida como planetas, depois do choque que volatilizará o cortejo e sua rainha em nebulosa.” A. Blanqui, LEternité par les Astres, Paris, 1872, pp. 69-70. Cf. Goethe: “Euch bedaurich, unglückselge Sterne”20 (“Lamento por vós, estrelas desditosas”).
[G 15, 1]
“A sacristia, a Bolsa e o quartel, esses três antros associados para vomitar sobre as nações a noite, a miséria e a morte. Outubro de 1869.” Auguste Blanqui, Critique Sociale, vol. II, Paris, 1885, p. 351 (“Fragments et notes”).
[G 15, 2]
“Um rico morto é um abismo fechado.” Dos anos cinqüenta. A. Blanqui, Critique Sociale, vol. II, Paris, 1885, p. 315 (“Fragments et notes”).
[G 15, 3]
[...]
Elementos inebriantes21 no romance policial, cujo mecanismo (que lembra o universo do comedor de haxixe) é assim descrito por Caillois: “Os caracteres do pensamento infantil, o artificialismo em primeiro lugar, regem esse universo estranhamente presente; nada se passa aí que não seja premeditado de longa data; nada responde às aparências; tudo está preparado para, no momento certo, ser utilizado pelo herói todo-poderoso, que é o senhor de tudo. Reconhecemos a Paris das publicações de Fantômas.” Roger Caillois, “Paris, mythe moderne”, Nouvelle Revue Française, XXV, n° 284, 1° de maio de 1937, p. 688.
[G 15, 5]
“Vejo diariamente passar sob minha janela um certo número de calmucos, osagianos, indianos, chineses e gregos antigos, todos mais ou menos parisianizados.” Charles Baudelaire, Œuvres, ed. org. por Y.-G. Le Dantec, Paris, 1932, vol. II, p. 99 (“Salon de 1846 — De l’idéal et du modèle”).22
[G 15, 6]
[...]
As modas planetárias de Grandville são outras tantas paródias, desenhadas pela natureza, da história da humanidade. As arlequinadas de Grandville tornam-se baladas morais em Blanqui.
[G 16, 4]
[...]
A indústria do entretenimento refina e multiplica as variedades do comportamento reativo das massas. Ela as prepara, assim, para serem adestradas pelo reclame. A ligação desta indústria com as exposições universais é, portanto, bem fundada.
[G 16, 7]
[...]
20 Goethe, Gedenkausgabe, ed. org. por Ernst Beutler, vol. I, Sämtliche Gedichte, I, 2a ed., Zurique, 1961, p. 339 ("Nachtgedanken"). (R.T.)
21 Cf. Baudelaire, que fala da embriaguez provocada pelo haxixe (Les Paradis Artificieis, in: Œuvres Completes, vol. I, p. 408). (J.L.)
22 Baudelaire, OC II, p. 456. (J.L) 

G

[O Colecionador]

[...]

É decisivo na arte de colecionar que o objeto seja desligado de todas as suas funções primitivas, a fim de travar a relação mais íntima que se pode imaginar com aquilo que lhe é semelhante. Esta relação é diametralmente oposta à utilidade e situa-se sob a categoria singular da completude. O que é esta “completude” <?> É uma grandiosa tentativa de superar o caráter totalmente irracional de sua mera existência através da integração em um sistema histórico novo, criado especialmente para este fim: a coleção. E para o verdadeiro colecionador, cada uma das coisas torna-se neste sistema uma enciclopédia de toda a ciência da época, da paisagem, da indústria, do proprietário do qual provém. O mais profundo encantamento do colecionador consiste em inscrever a coisa particular em um círculo mágico no qual ela se imobiliza, enquanto a percorre um último estremecimento (o estremecimento de ser adquirida). Tudo o que é lembrado, pensado, consciente torna-se suporte, pedestal, moldura, fecho de sua posse. Não se deve pensar que o tópos hyperouranios, que, segundo Platão,7 abriga as imagens primevas e imutáveis das coisas, seja estranho para o colecionador. Ele se perde, certamente. Mas possui a força de erguer-se novamente apoiando-se em uma tábua de salvação, e a peça recém-adquirida emerge como uma ilha no mar de névoas que envolve seus sentidos. — Colecionar é uma forma de recordação prática e de todas as manifestações profanas da “proximidade”, a mais resumida. Portanto, o ato mais diminuto de reflexão política faz, de certa maneira, época no comércio antiquário. Construímos aqui um despertador, que sacode o kitsch do século anterior, chamando-o à “reunião”.8

[H 1a, 2]

[...] 

É preciso reexaminar as Fleurs du Mal para ver como as coisas são elevadas à condição de alegoria. Deve ser observado o emprego de letras maiúsculas.

[H 1a, 4]

Ao final de Matière et Mémoire, Bergson desenvolve a idéia de que a percepção é uma função do tempo.9 Poder-se-ia dizer que, se vivêssemos segundo um outro ritmo — mais serenos diante de certas coisas, mais rápidos diante de outras não existiria para nós nada “duradouro”, mas tudo se desenrolaria diante de nossos olhos, tudo viria de encontro a nós. Ora, é exatamente isso que se passa com o grande colecionador em relação às coisas. Elas vão de encontro a ele. Como ele as persegue e as encontra, e que tipo de modificação é provocada no conjunto das peças por uma nova peça que se acrescenta, tudo isto lhe mostra suas coisas em um fluxo contínuo. Aqui se observam as passagens parisienses como se fossem possessões na mão de um colecionador. (No fundo, pode-se dizer, o colecionador vive um pedaço de vida onírica. Pois também no sonho o ritmo da percepção e da experiência modificou-se de tal maneira que tudo - mesmo o que é aparentemente mais neutro - vai de encontro a nós, nos concerne. Para compreender as passagens a fundo, nós as imergimos na camada mais profunda do sonho, falamos delas como se tivessem vindo de encontro a nós.)

[H 1a, 5]

“A compreensão da alegoria assume para vocês proporções que vocês mesmos ignoram; notaremos, en passant, que a alegoria, esse gênero tão espiritual, que os pintores canhestros nos acostumaram a desprezar, mas que é verdadeiramente uma das formas primitivas e mais naturais da poesia, retoma sua legitima dominação na inteligência iluminada pela embriaguez.” Charles Baudelaire, Les Paradis Artificieis, Paris, 1917, p. 73. (Do que se segue resulta indubitavelmente que Baudelaire de fato tem em mente a alegoria, não o símbolo. O trecho foi extraído do capitulo sobre o haxixe.) O colecionador como alegorista. ■ Haxixe ■

[H 2, 1]

[...]

Pode-se partir do fato de que o verdadeiro colecionador retira o objeto de suas relações funcionais. Esse olhar, porém, não explica a fundo esse comportamento singular. Pois não é esta a base sobre a qual se constrói uma contemplação “desinteressada” no sentido de Kant e de Schopenhauer, de tal modo que o colecionador consegue lançar um olhar incomparável sobre o objeto, um olhar que vê mais e enxerga diferentes coisas do que o olhar do proprietário profano, e o qual deveria ser melhor comparado ao olhar de um grande fisiognomonista. Entretanto, o modo como este olhar se depara com o objeto deve ser presentificado de maneira ainda mais aguda através de uma outra consideração. Pois é preciso saber: para o colecionador, o mundo está presente em cada um de seus objetos e, ademais, de modo organizado. Organizado, porém, segundo um arranjo surpreendente, incompreensível para uma mente profana. Este arranjo está para o ordenamento e a esquematização comum das coisas mais ou menos como a ordem num dicionário está para uma ordem natural. Basta que nos lembremos quão importante é para cada colecionador não só o seu objeto, mas também todo o passado deste, tanto aquele que faz parte de sua gênese e qualificação objetiva, quanto os detalhes de sua história aparentemente exterior: proprietários anteriores, preço de aquisição, valor etc. Tudo isso, os dados “objetivos”, assim como os outros, forma para o autêntico colecionador em relação a cada uma de suas possessões uma completa enciclopédia mágica, uma ordem do mundo, cujo esboço é o destino de seu objeto. Aqui, portanto, neste âmbito estreito, é possível compreender como os grandes fisiognomonistas11 (e colecionadores são fisiognomonistas do mundo das coisas) tornam-se intérpretes do destino. Basta que acompanhemos um colecionador que manuseia os objetos de sua vitrine. Mal segura-os nas mãos, parece estar inspirado por eles, parece olhar através deles para o longe, como um mago. (Seria interessante estudar o colecionador de livros como o único que não necessariamente desvinculou seus tesouros de seu contexto funcional.)

[H 2, 7; H 2a, 1]

[...]

<fase média> 

[...]

O tipo positivo oposto ao colecionado, que, ao mesmo tempo, representa seu aperfeiçoamento à medida que realiza a libertação das coisas da servidão de serem úteis, deve ser apresentado segundo esta formulação de Marx: “A propriedade privada, tornou-nos tão tolos e inertes que um objeto é nosso apenas quando o possuímos, portanto, quando existe para nós como capital ou quando é ... utilizado por nós.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed.org. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1923, vol.1, p.299 (“Nationalökonomie und Philosophie”).

[H 3a, 1J

“O lugar de todos os sentidos físicos e espirituais ... foi tomado pela simples alienação de todos estes sentidos do ter ... (Sobre a categoria do ter, ver Hess em “21 Bogen” (21 Folhas).) Karl Marx, Der historische Materialismus, Leipzig, vol. I, p. 300 (“Nationalõkonomie und Philosophie”).

[H 3a, 2]

“Praticamente, só posso ter um comportamento humano em relação à coisa quando a coisa tem um comportamento humano em relação ao homem.” Karl Marx, Der historische Materialismus, Leipzig, I, p. 300 (“Nationalökonomie und Philosophie”).

[H 3a, 3]

[...]

Trechos de Marx, extraídos de “Nationalökonomie und Philosophie”: “A propriedade privada tornou-nos tão tolos e inertes que um objeto é nosso apenas quando o possuímos.” “O lugar de todos os sentidos físicos e espirituais ... foi tomado pela simples alienação de todos estes sentidos, o sentido do ter.” Cit. por Hugo Fischer, Karl Marx und sein Verhältnis zu Staat und Wirtschaft, Jena, 1932, p. 64.

[H 3a, 7]

[...]

<fase tardia> 

[...]

Colecionar é um fenômeno primevo do estudo: o estudante coleciona saber.

[H 4, 3]

[...] 

Lugar supraceleste; cf. Platão, Fedro, 247c. (w.b.; E/M)

8 Jogo de palavras entre Sammelncolecionar, e Versammlungreunião, com a conotação de reunião das coisas colecionadas", (w.b.)

9 Cf. provavelmente H. Bergson, Matière et Mémoire, in: Œuvres, Paris, P.U.F., Éd. du Centenaire, 1970, p. 359. (J.L.) [sem dúvida, obviamente é Henri Bergson! (PVdC/VP)]

11 0 termo fisiognomonista (physiognomoniste) é empregado também por Baudelaire e Proust (À la Recherche du Temps Perdu, I, p. 855). (J.L.)

I
[0 Intérieur, o Rastro]
“Em 1830, o Romantismo triunfava na literatura. Invadiu a arquitetura e exibiu na fachada das casas um gótico de fantasia, exibição muitas vezes moldada em gesso. Impôs-se à ebanisteria. ‘De repente’, diz o relator da exposição de 1834, ‘surge um entusiasmo pelo mobiliário de formas estranhas: foram copiadas dos velhos castelos, dos antigos guarda- móveis e dos depósitos de móveis usados, a fim de decorar salões, modernos quanto a todo o resto...’ Os fabricantes seguiam essa inspiração e eram pródigos em utilizar em seus móveis ‘ogivas e balestreiros’: viam-se camas e armários guarnecidos de ameias, como fortalezas do século XIII.” E. Levasseur, Histoire des Classes Ouvrières et de L’Industrie en France de 1780 à 1870, Paris, 1904, vol. II, pp. 206-207.
[I 1, 1]
Em Behne, esta boa observação a propósito de um armário medieval: “O mobiliário desenvolveu-se muito claramente a partir do imobiliário.” Além disso, o armário é comparado a uma “fortificação medieval. Da mesma forma em que nesta um diminuto compartimento habitável é circundado por muros, valas e fossos, que se ampliam em anéis cada vez mais largos ao seu redor, como uma poderosa obra exterior, também aqui o conteúdo de gavetas e prateleiras está comprimido sob uma forte obra exterior.” Adolf Behne, Neues Wohnen, Neues Bauen, Leipzig, 1927, pp. 59, 61-62.
[I 1, 2 ]
[...]
O confronto com o mobiliário em Poe. Luta pelo despertar do sonho coletivo.
[I 1, 4]
[...]
Hessel fala da “época sonhadora do mau gosto”. Sim, esta época estava decorada para o sonho, estava mobiliada de sonho. A alternância de estilos - gótico, persa, renascença etc. - significava: ao intérieur da sala de jantar burguesa sobrepunha-se uma sala de banquetes de César Bórgia, do boudoir da dona da casa emerge uma capela gótica, o escritório do dono da casa transmuda-se de forma irisante no aposento de um sheik persa. A fotomontagem que fixa tais imagens para nós corresponde à forma de intuição mais primitiva destas gerações. Apenas gradualmente as imagens sob as quais elas viviam desligaram-se e depuseram-se em anúncios, etiquetas, cartazes, como as figuras da publicidade.
[I 1, 6]
[...] 
“Vimos o que nunca acontecera antes: o casamento de estilos que podíamos pensar que jamais ‘se casariam’: chapéus do Primeiro Império ou da Restauração com jaquetas Luís XV; vestidos no estilo Diretório com botas de salto alto - melhor ainda, redingotes de cintura baixa enfiados sobre vestidos de cintura alta.” John Grand-Carteret, Les Elégances de la Toilette, Paris, p. XVI.
[I 1a, 1]
Nome de diferentes tipos de vagões de trem dos primórdios da estrada de ferro: berlindas (fechadas ou abertas), diligências, vagões decorados, vagões não decorados. ■ Construção em ferro ■
[1 1a, 2]
[...]
Sobre o intérieur sonhador, se possível, oriental: “Todos aqui sonham com a felicidade repentina, todos querem obter de uma só vez tudo aquilo que se conquistaria, em tempos de paz e de trabalho, com o esforço de toda uma vida. As invenções dos poetas estão cheias de súbitas metamorfoses de existências domésticas; todos vibram por marquesas, princesas, pelos milagres das mil e uma noites. Há uma embriaguez de ópio que acometeu o povo inteiro. A indústria fez mais estragos nesse sentido do que a poesia. A indústria produziu o logro das ações da Bolsa, a exploração de todas as coisas que se queira transformar em necessidades artificiais, e os ... dividendos.” Gutzkow, Briefe aus Paris, Leipzig, 1842, vol. I, p. 93.
[I 1a, 5]
[...] 
O caráter de fortificação permanece tanto nos móveis quanto nas cidades sob a burguesia: “A cidade fortificada foi até aqui o empecilho que sempre paralisou o urbanismo.” Le Corbusier, Urbanisme, Paris, 1925, p. 249.
[I 1a, 8]
[...]
O intérieur do século XIX. O espaço se disfarça, assumindo a roupagem dos estados de ânimo como um ser sedutor. O pequeno-burguês satisfeito consigo mesmo deve experimentar algo da sensação de que no aposento ao lado pudessem ter ocorrido tanto a coroação do imperador Carlos Magno como o assassinato de Henrique IV, a assinatura do Tratado de Verdun ou o casamento de Otto e de Teófano. Ao final, as coisas são apenas manequins, e mesmo os grandes momentos da história universal são apenas roupagens sob as quais elas trocam olhares de conivência com o nada, com o trivial e o banal. Semelhante niilismo é o cerne do aconchego burguês; um estado de espírito que se condensa na embriaguez do haxixe em satisfações satânicas, em saber satânico, em quietude satanica, mas que assim revela como o intérieur dessa época é, ele mesmo, um estimulante da embriaguez e do sonho. Aliás, este estado de espírito implica uma aversão contra o espaço aberto, por assim dizer, uraniano, que lança uma nova luz sobre a extravagante arte decorativa dos espaços interiores da época. Viver dentro deles era como ter se enredado numa teia de aranha espessa, urdida por nós mesmos, na qual os acontecimentos do mundo ficam suspensos, esparsos, como corpos de insetos ressecados. Esta é a toca que não queremos abandonar.
[I 2, 6]
[...] 
“As golas pontudas e os enchimentos nas mangas ... que se imaginava erroneamente ser o traje das antigas damas medievais.” Jacob Falke, Geschichte des modernen Geschmacks, Leipzig, 1866, p. 347.
[I 2a, 2]
[...]
“Como uma odalisca em um divã de bronze reluzente, a orgulhosa cidade alonga-se pelas tépidas colinas do vale sinuoso do Sena, cobertas de vinhedos.” Friedrich Engels, “Von Paris nach Bem”, Die Neue Zeit, XVII, n° 1, Stuttgart, 1899, p. 10.
[I 4, 3]
[...] 

<fase média>

[...] 

“Dissemos ... que o homem retorna à caverna etc., mas retorna a ela sob uma forma alienada, hostil. O selvagem em sua caverna ... sente-se ... em casa... Mas o porão em que vive o pobre é um domicílio hostil, um poder estranho que só se entrega a ele na medida em que ele lhe entrega seu sangue e suor, domicílio que ele não pode considerar como seu lar   onde finalmente poderia dizer aqui estou em casa. Ao contrário, ele se encontra na casa de um outro ... que fica diariamente à espreita e o despeja quando não paga o aluguel. O pobre está igualmente ciente da diferença de qualidade entre seu domicílio e a da outra moradia humana, situada no além, no céu da riqueza.” Karl Marx, Der histonsche Materialismus, ed. org. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 325 (“Nationalökonomie und Philosophie”). 

[I 5a, 4] 

Valéry sobre Poe. Ele enfatiza a incomparável percepção deste em relação às condições e às leis do efeito da obra literária em geral: “O próprio do que é verdadeiramente geral é ser fecundo... Não surpreende, pois, que Poe, possuindo um método tão poderoso e tão seguro, tenha sido o inventor de vários gêneros, tenha dado os primeiros ... exemplos do conto científico, do poema cosmogônico moderno, do romance de instrução criminal, da introdução na literatura dos estados psicológicos mórbidos.   Valéry, Introduction a Baudelaire, Les Fleurs du Mal, Paris, 1926, p. XX. 
[I 5a, 5]
<fase tardia> 
Nesta descrição de um salão parisiense, Gautier expressa de maneira drástica a integração do homem ao intérieur : “O olho fascinado volta-se para o grupo de mulheres que, agitando o leque, escutam os que conversam, meio inclinados; os olhos cintilam como diamantes, os ombros brilham como cetim, os lábios se abrem como flores.” (Imaginam-se flores artificiais!) Paris et les Parisiens aux XIXe Siècle, Paris, 1856. (Théophie Gautier, “Introducdon”, p. IV.)
[I 6, 1]
[...]
Talvez exista uma correlação entre a diminuição do espaço habitável e a crescente decoração do intérieur. A propósito do primeiro, Balzac faz considerações importantes: “Existe uma demanda apenas para quadros pequenos, porque não é mais possível pendurar os grandes! Acomodar sua biblioteca logo se tornará um grave problema... Não se acha mais lugar para guardar mantimentos! Compram-se, portanto, mercadorias que durem pouco. As camisas e os livros não serão duráveis, eis tudo. A solidez dos produtos desaparece em toda parte’.” Emst Robert Curtius, Balzac, Bonn, 1923, pp. 28-29.
[I 6, 5]
“Os crepúsculos que dão cores tão ricas à sala de jantar ou ao salão são filtrados por belos Becidos ou por estas janelas altas, trabalhadas, que o chumbo divide em inúmeros compartimentos. Os móveis são grandes, curiosos, bizarros, ornados de fechaduras e de segredos como almas refinadas. Os espelhos, os metais, os tecidos, a ourivesaria e a faiança ai executam para os olhos uma sinfonia muda e misteriosa.” Charles Baudelaire, “Linvitation ao voyage”, Le Spleen de Paris, Ed. Simon, Paris, p. 27.
[I 6a. 1]
Etimologia de “conforto”: “O termo significava outrora, em inglês, consolação (Comforter é o epíteto do Espírito Santo, Consolador); depois o sentido tornou-se, de preferência, bem-estar. Hoje, em todas as línguas do mundo, a palavra não designa senão a comodidade racional.” Wladimir Weidlé, Les Abeilles dAristée , Paris, 1936, p. 175 (Lagonie de l’art”).
[I 6a, 2]
“As midinettes-artistes (costureirinhas-artistas) ... não moram mais em quartos, mas em studios (aliás, cada vez mais designa-se por studio qualquer moradia de um só cômodo, como se os homens se tornassem cada vez mais artistas ou estudantes).” Henri Pollès, “Lart du commerce” ( Vendredi, 12 de fevereiro de 1937). 
[I 6a, 3] 
Baudelaire na introdução à “Filosofia do mobiliário” (de Poe), originalmente publicada em outubro de 1852, em Le Magasin des Familles: “Qual dentre nós, nas longas horas de lazer, não experimentou um delicioso prazer em construir para si um apartamento modelar, um domicílio ideal, um ‘sonhadouro’?” Charles Baudelaire, Œuvres Complètes , Ed. Crépet, Histoires Grotesques et Sérieuses par Poe, Paris, 1937, p. 304.13
 [I 8, 3]
 
13 Baudelaire, OC II, p. 290. (J.L.) 
 
J
[Baudelaire]
[...]
Nadar descreve o traje de Baudelaire, a quem encontra nas proximidades do Hotel Pimodan, onde este morava: “Uma calça preta bem apertada sobre a bota de verniz, um blusão gola rulê azul de pregas novas bem esticadas; como único penteado seus longos cabelos negros, naturalmente cacheados, a roupa branca de algodão brilhante, rigorosamente sem goma, algumas penugens nascendo sob o nariz e no queixo, e luvas cor-de-rosa bem novas... Assim vestido e não penteado, Baudelaire percorria seu bairro e a cidade com um andar aos trancos, nervoso e lânguido ao mesmo tempo, como o de um gato, e escolhendo cada paralelepípedo como se evitasse esmagar um ovo.” Cit. em Firmin Maillard, La Cité des Intellectuels, Paris, 1905, p. 362.
[J 1a, 3]
Baudelaire foi  depois da viagem além-mar à qual o obrigaram3  um homem que viajou o mundo.
[J 1a, 4]
[...] 
“A cúpula spleenática do céu”... Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Éd. Simon, p. 8 <OC I, p. 283> (“Chacun sa chimère”).
[J 2a, 6]
“O catolicismo ... filosófico e literário de Baudelaire precisava de um lugar intermediário ... onde se alojar entre Deus e o Diabo. O título Les Limbes (Os Limbos) marcava essa localização geográfica dos poemas de Baudelaire; permitia perceber melhor a ordem que Baudelaire quis estabelecer entre eles, que é a ordem de uma viagem e, precisamente, de uma quarta viagem, uma quarta viagem depois das três viagens dantescas do Inferno, do Purgatório e do Paraíso. O poeta de Florença continua no poeta de Paris.” Albert Thibaudet, Histoire de la Littérature Française de 1789 à nos Jours, Paris, 1936, p. 325.
[J 3, 1]
Sobre o elemento alegórico. “Dickens ... falando dos cafés para onde se retirava nos dias ruins ... comenta sobre um deles que se achava na Saint-Martins Lane: ‘Só me lembro de uma coisa: que ele se situava perto de uma igreja e, na porta, havia um emblema oval de vidro, com a palavra COFFEE ROOM voltada para os transeuntes. Ocorre me ainda hoje, quando me encontro num café completamente diferente, mas onde há também essa inscrição em espelho, que a leio ao inverso (MOOR EEFFOC), como o fazia muitas vezes em meus devaneios sombrios, e o sangue me sobe à cabeça. Esta palavra barroca MOOR EEFFOC é o lema de todo verdadeiro realismo.” G. K. Chesterton, Dickens (Vies des Hommes Illustres, n° 9), traduzido do inglês por Laurent e Martin-Dupont, Paris, 1927, p. 32.
[J 3, 2]
Dickens e a estenografia: “Ele conta como, depois de ter aprendido todo o alfabeto, ‘encontrou uma procissão de novos enigmas, os caracteres ditos convencionais, os mais inimagináveis que jamais conheci. Não tinham a pretensão de significar; um deles, por exemplo, que parecia um começo de teia de aranha, significava antecipação; e um outro, espécie de foguete voador, desvantajoso. Ele concluiu: Era quase desesperador. Mas e de se notar que um de seus colegas declarou: Nunca houve um estenografia assim!G. K. Chesterton, Dickens (Vies des Hommes Illustres, n° 9), traduzido do inglês por Laurent e Martin-Dupont, Paris, 1927, pp. 40-41.
[j 3, 3]
Valéry, na “Introduction aux Fleurs du Mal” , Paris, 1926, p. XXV, fala de uma combinação de “eternidade e intimidade” em Baudelaire.
[J 3, 4]
Extraído do artigo de Barbey dAurevilly in Articles Justificatifs pour Charles Baudelaire, Auteur des Fleurs du Mal (Paris, 1857)  um opúsculo de 33 páginas, com contribuições também de Dulamon, Asselineau e Thierry, publicado às expensas de Baudelaire em vista do processo: “O poeta, terrível e terrificado, quis nos fazer respirar a abominação por esta medonha corbelha que ele carrega, pálida canéfora, sobre sua cabeça eriçada de horror... Seu talento ... é, ele mesmo, uma flor do mal vinda das estufas quentes de uma Decadência... Com efeito, existe um Dante no autor das Fleurs du Mal, mas é o Dante de uma época decaída, um Dante ateu e moderno, um Dante vindo depois de Voltaire.” Cit. em W. T. Bandy, Baudelaire Judged by bis Contemporaries, Nova York, 1933, pp. 167-168.
[J 3a, 1]
Anotação de Gautier sobre Baudelaire em Les Poètes Français: Recueil des Chefs-dŒuvres de la Poésie Française, ed. org. por Eugène Crépet, Paris, 1862, vol. IV, Les Contemporains: “Nunca lemos as Fleurs du Mal ... sem pensar, involuntariamente, neste conto de Hawthorne (“A filha de Rappucinni”)... Sua musa se parece com a filha do doutor a quem nenhum veneno podia atingir, mas cuja pele, por sua palidez exangue, trai a influência do meio em que vive.” Cit. em W. T. Bandy, Baudelaire Judged by bis Contemporaries, Nova York, p. 174.
[J 3a, 2]
Temas principais da estética de Poe segundo Valéry: filosofia da composição, teoria do artificial, teoria da modernidade, teoria do excepcional e do estranho.
[J 3a, 3]
“O problema de Baudelaire podia, pois  devia, pois — colocar-se assim: ‘ser um grande poeta, mas não ser nem Lamartine, nem Hugo, nem Musset. Não digo que esse propósito tenha sido consciente, mas estava necessariamente em Baudelaire  era até mesmo essencialmente Baudelaire. Era sua razão de Estado. Nos domínios da criação, que são também os domínios do orgulho, a necessidade de se distinguir é inseparável da própria existência.” Paul Valéry, “Introduction aux Fleurs du Mal, Paris, 1928, p. X.
[J 3a, 4]
[...]
Baudelaire confessa “ter tido, enquanto criança, a felicidade ou infelicidade de ler somente livros de adultos”. Charles Baudelaire, LArt Romantique, Paris, p. 298 <OC II, p. 42>(“Les drames et les romans honnêtes”).
[J 4, 3]
[...]
Um motivo que se desgarrou do Spleen de Paris para a École païennePor que, então, os pobres não calçam luvas para mendigar? Eles fariam fortuna. Charles Baudelaire, LArt Romantique, Paris, p. 309 <OC II, p. 49>. 
[J 4, 5] 
“Não está longe o tempo em que se compreenderá que toda literatura que se recuse a caminhar fraternalmente com a ciência e a filosofia será uma literatura homicida e suicida. Baudelaire, LArt Romantique, Paris, p. 309  <OC II, p. 49> (Conclusão de “L’École païenne ).
[ J 4, 6]
[...]
Uma passagem do retrato de Victor Hugo na qual Baudelaire, como um gravurista numa observação, desenhou a si mesmo, numa frase incidental. “Se ele pinta o mar, nenhuma marinha igualará as suas. Os navios que sulcam a superfície ou que atravessam suas agitações terão, mais que em qualquer outro pintor, este aspecto de lutadores apaixonados, este caráter de vontade e de animalidade que se desprende tão misteriosamente de um aparelho geométrico e mecânico de madeira, de ferro, de cordas e de tecido; animal monstruoso criado pelo homem, ao qual o vento e a onda acrescentam a beleza do movimento.  Baudelaire, LArt Romantique, Paris, p. 321  <OC II, p. 135> (“Victor Hugo ).
 
3 A fim de afastar o jovem Baudelaire da vida desregrada que levava em Paris, seu padrasto, o general Aupick, o enviou em junho de 1841 para uma viagem a Calcutá. Depois de ter passado cerca de dois meses na Ilha de Réunion, Baudelaire regressou à França em fevereiro de 1842. (E/M) 
 
A figura do “moderno” e a da “alegoria” devem ser relacionadas entre si. “Ai daquele que estuda na Antiguidade outra coisa senão a arte pura, a lógica, o método geral! Por mergulhar demais nela ... ele abdica ... dos privilégios fornecidos pela circunstância; pois quase toda a nossa originalidade vem da marca que o tempo imprime em nossas sensações.” Baudelaire, LArt Romantique, p. 72 (“Le peintre de la vie moderne”). O privilégio do qual fala Baudelaire entra em vigor, porém, de forma mediata, também com respeito à Antigüidade: o cunho do tempo que se imprime nela faz surgir a sua configuração alegórica.
[J 6a, 2]
[...]
Nouveauté: “A criança vê tudo como novidade; está sempre embriagada. Nada se parece mais ao que se chama inspiração que a alegria com a qual a criança absorve a forma e a cor... É a essa curiosidade profunda e alegre que se deve atribuir o olhar fixo e extático, como o de um animal, das crianças diante do novo” Baudelaire, LArt Romantique, Paris, p. 62 (“Le peintre de la vie moderne”). Talvez isto explique a observação sombria em “Lœuvre et la vie d’Eugène Delacroix”: “Pode-se dizer que a criança, em geral, é, relarivamente ao homem, em geral, muito mais próxima do pecado original.” (LArt Romantique, p. 41 <OC II, p. 767>)
[J 7, 1]
[...]
Seria importante investigar a relação de Poe com a latinidade. O interesse de Baudelaire pela técnica de composição deveria - em última instância - tê-lo vinculado de maneira tão duradoura ao mundo latino quanto seu interesse pelo artificial o direcionou para a cultura anglo-saxã. Este círculo cultural determina, através de Poe, em primeira instância, também a teoria baudelairiana da composição. Tanto mais premente a questão se esta teoria, em última instância, não possui uma marca latina.
[J 7, 7]
As Lésbicas - um quadro de Courbet.
[J 7, 8]
[...] 
Carta extremamente notável de Baudelaire a Toussenel: “Segunda-feira, 21 de janeiro de 1856. Meu caro Toussenel. Quero muito lhe agradecer o presente que me enviou. Não aochecia a qualidade de seu livro; confesso-o ingenuamente e abertamente... Ha muito tempo que rejeito quase todos os livros com desgosto.  Há muito tempo também nao ia aisuma coisa tão absolutamente instrutiva e divertida O capítulo sobre o falcão e os passaros que caçam para o homem é, por si só, uma obra.  Há palavras que fazem lembrar os grandes mestres, gritos de verdade, toques filosóficos irresistíveis, tais como: Todo animal e uma esfinge’, e a propósito dessa analogia: como o espírito se repousa numa doce quietude ao abrigo de uma doutrina tão fecunda e tão simples para a qual nada é mistério nas obras de Deus!...’ O positivo é que você é poeta. Há muito tempo digo que o poeta e soberanamente inteligente ... e que a imaginação é a mais científica das faculdades, porque só ela compreende a analogia universal, ou aquilo que uma religião mística denomina correspondance. Mas quando quero imprimir essas coisas, dizem-me que sou louco... O que há de ceito, entretanto, é que tenho um espírito filosófico que me faz ver claramente o que é verdade, mesmo em zoologia, embora eu não seja nem caçador nem naturalista... Uma idéia me preocupa desde início deste livro  porque você é um verdadeiro espírito perdido numa seita; em resumo  o que você deve a Fourier? Nada ou bem pouca coisa.  Sem Fourier, você teria sido o que você é. O homem sensato não esperou que Fourier viesse à terra para compreender sue a natureza é um verbo, uma alegoria, um molde, um relevo, se você quiser... Seu livro desperta em mim muitas idéias adormecidas - e a respeito do pecado original, e da forma moldada segundo a idéia, pensei muitas vezes que os insetos nocivos e nojentos não seriam talvez a vivificação, a corporificação ... dos maus pensamentos do homem  Assim, a natureza inteira participa do pecado original. Nao me queira mal por minha audacia e minha liberdade, e creia-me seu devoto Ch. Baudelaire.” Henri Cordier, Notules sur Baudelaire, Paris, 1900, pp. 5-7. A parte central da carta polemiza contra a crença no progresso de Toussenel e sua difamação de De Maistre.
[J 8]
Origem do nome de Baudelaire. Eis o que escreveu a esse respeito o Sr Georges Barrai, na Revue des Curiosités Révolutionnaires: Baudelaire me expôs a etimologia de seu nome, que não veio absolutamente de bel ou beau, mas de band ou bald, ‘Meu nome é terrível, continuou ele. Na verdade, o badelaire era um sabre de lâmina curta e larga, de corte convexo, a ponta voltada para o dorso da arma... Introduzido na França depois das Cruzadas, foi empregado em Paris até aproximadamente 1560, como arma de execução. Ha alguns anos, em 1861, encontrou-se, durante as escavações feitas perto da Pont-au-Change, o badelaire que serviu ao carrasco do Grand Châtelet, ao longo do século XII. Ele foi consigna o no museu Cluny. Veja-o. Seu aspecto é terrível. Estremeço ao pensar que o perfil de meu rosto aproxima-se do perfil do badelaire Mas seu nome é Baudelaire, repliquei, e não Badelaire Badelaire, Baudelaire é uma corruptela. É a mesma coisa.  De modo algum, disse, seu nome vem de Baud (alegre), Baudiment (alegremente), sébaudir (alegrar-se). Você é bom e alegre.  Não, não, eu sou do mal e triste.” Louis Thomas, Curiosités sur Baudelaire, Paris, 1912, pp. 23-24.
[J8a, 1]
[...]
“Quando eu ficar absolutamente só, escrevia em 1864, procurarei uma religião (tibetana ou japonesa), porque desprezo demais o Corão, e, no momento da morte, abjurarei esta última religião para mostrar bem meu nojo da tolice universal.” Louis Thomas, Curiosités sur Baudelaire, Paris, 1912, PP- 57-58.
[J 8a, 5]
Á produção de Baudelaire se estabelece de maneira magistral e determinada desde o início.
(J 9, 1]
Datas: Les Fleurs du Mal, 1857, 1861, 1866; Poe, 1809-1849; descoberta de Poe, em fins de 1846.
[J 9, 2]
[...]
“Baudelaire gato, hindu, ianque, episcopal, alquimista.  Gato: sua maneira de dizer ‘minha querida, nesta passagem solene que se abre com ‘Seja sensata, ó minha dor’”.  Ianque: seus ‘muito’, diante de um adjetivo; suas paisagens abruptas - e este verso: ‘Meu espírito, tu te moves com agilidade’, que os iniciados escandem com uma voz metálica; seu ódio da eloqüência e das confidências poéticas; ‘O prazer efêmero fugirá para o horizonte! Assim como...’ O quê? Antes dele, Hugo, Gautier etc. ... teriam feito uma comparação francesa, oratória; ele a fez ianque, sem tomar posição firme, mantendo-se aéreo: Assim como uma sílfide no fundo dos bastidores’. Yêem-se os fios dos andaimes e toda a parafernália teatral... — Hindu: ele tem essa poesia mais que Leconte de Lisle com toda sua erudição e seus poemas carregados e ofuscantes. ‘Jardins, fontes chorando nos alabastros, / Beijos, pássaros cantando noite e dia’. Nem coração grande nem grande espírito, mas que nervos lastimosos! Que narinas abertas a tudo! Que voz mágica!” Jules Laforgue, Mélanges Posthumes, Paris, 1903, pp. 118-119 (“Notes sur Baudelaire”).
[J 9a, 1]
[...]
“O dândi, disse Baudelaire, deve aspirar a ser sublime ininterruptamente. Deve viver e dormir em frente a um espelho.” Louis Thomas, Curiosités sur Baudelaire, Paris, 1912, pp. 33-34.
[J 10, 8]
Duas estrofes de Baudelaire que teriam sido encontradas na folha de um álbum: 
 
“Nobre mulher de braço forte, que durante os longos dias,
Sem pensar bem nem mal dormes ou sonhas sempre,
Altivamente vestida à moda antiga,
Tu que há dez anos, lentos para mim
Minha boca experiente em beijos suculentos
Acalentou com um amor monástico.
 
Sacerdotisa de orgia e minha irmã no prazer,
Que sempre desprezou carregar e nutrir
Um homem em tuas cavidades santas.
Tanto temes e foges o estigma alarmante
Que a virtude cavou com seu arado infamante
No ventre das matronas grávidas. ”
 
Louis Thomas, Curiosités sur Baudelaire , Paris, 1912, p. 37.
[J 10, 9]
“Ele foi o primeiro a falar de si de forma moderada, como num confessionário, c não representou o papel de poeta inspirado. O primeiro que falou de Paris como um condenado coddiano da capital (os bicos de gás, que sc acendem nas ruas e que atormenta o vento da Prostituição, os restaurantes e suas clarabóias, os hospitais, o jogo, a madeira serrada em tmh a que recai no calçamento dos pátios, e a lareira, e os gatos, cantas, meias, bêbedos e perfumes de fabricação moderna), mas isso de maneira nobre, longínqua, superior... O primeiro que não se faz triunfante, mas se acusa, mostra suas chagas, sua preguiça, sua inutilidade entediada, no meio deste século trabalhador e devoto. O primeiro que trouxe a nossa literatura o tédio na volúpia e seu cenário bizarro: a alcova triste ... e nela se compraz ... a Maquilagem que se prolonga até os céus, aos crepúsculos ... o spleen e a doença (não a Tísica poética, mas a neurose), sexn ter escrito este termo uma só vez.” Laíoreue, Mélanges Posthumes, Paris, 1903, pp. 111-112.
[J 1Oa, 1]
[...]
Apollinaire: “Baudelaire é filho de Laclos e de Edgar Poe." Cir. em Roger Allard, Baudelaire et LEsprit Nouveau”, Paris, 1918, p. 8. 
 [J 11 , 6 ]
O texto “Choix de maximes consolantes sur l’amour” traz um excurso sobre a feiúra (3 de março de 1846, no Corsaire-Satan). A amada teria sido acometida de varíola, da qual ficaram cicatrizes que, a partir de então, constituíram a felicidade do amante. “Você corre um grande risco, se sua amante que tem varíola o trai, de só poder se consolar com uma mulher que tem varíola. Para alguns espíritos mais curiosos e blasés, o prazer da feiúra provém de um sentimento ainda mais misterioso, que é a sede do desconhecido, o gosto do horrível. É esse sentimento ... que leva certos poetas às clínicas e às salas de cirurgia, e certas mulheres às execuções públicas. Eu lamentaria muito quem não o compreendesse;  uma harpa à qual faltaria uma corda grave!” Baudelaire, Œuvres, ed. org. por Y.-G. Le Dantec, vol. II, p. 612 <OC I, pp. 548-549>.
[J 11, 7]
[...]
“Ele usa uma gravata vermelho-sangue e luvas cor-de-rosa. Sim, estamos em 1840... Em certos anos, tivemos até luvas verdes. Foi somente a contragosto que a cor desapareceu da roupa. Ora, Baudelaire não era o único a usar essa gravata púrpura ou brique. Nem o único a se enluvar de rosa. Sua marca está na combinação desses dois efeitos sobre o preto da roupa.” Eugène Marsan, Les Cannes de M. Paul Bourget et le Bon Choix de Philinte, Paris, 1923, pp. 236-237.
[J 11a, 2] 
[...] 
Sobre a estréia de Baudelaire em Bruxelas existem duas versões diferentes, sendo que Georges Rency, que reproduz ambas, dá preferência à do cronista Tardieu. “Baudelaire”, escreve este, “tomado de um medo terrível, lia e gaguejava, tremendo e batendo os dentes, com 0 nariz no manuscrito. Foi um desastre.” Camille Lemonnier, ao contrario, fala da impressão de um magnífico conversador”. Georges Rency, Physionomies Littéraires, Bruxelas, 1907, pp. 267-268 (“Charles Baudelaire”). 
[J 12, 1] 
“Ele ... nunca se esforçou seriamente em compreender o que lhe era exterior. Rency, Physionomies Littéraires, Bruxelas, 1907, p. 274 (“Charles Baudelaire”). 
[J 12, 2] 
“Baudelaire é tão impotente para o amor quanto para o trabalho. Ele ama como escreve, aos trancos, depois recai no seu egoísmo flâneur e debochado. Nunca teve curiosidade pelo homem ou o sentido da evolução humana... Sua arte devia, pois, ... pecar por sua estreiteza e singularidade: e são exatamente esses defeitos que afastam dele os espíritos sadios e retos, que amam as obras claras e de alcance universal.” Georges Rency, Physionomies Littéraires, Bruxelas, 1907, p. 288 (“Charles Baudelaire”).
[J 12, 3]
[...] 
“Somente sessenta pessoas seguiram o carro fúnebre debaixo de um calor sufocante; Banville, Asselineau pronunciaram, sob a ameaça de uma tempestade, belos discursos que não foram ouvidos. A imprensa, exceto Veuillot no LUnivers, foi cruel. Tudo se encarniçava sobre seu cadáver; uma tromba d’ água dispersava seus amigos; seus inimigos ... o trataram de ‘louco’.” U.-V. Chatelain, Baudelaire, lHomme et le Poète, Paris, p. 16.
[J 12a, 4]
Com respeito à experiência das correspondances, Baudelaire remete ocasionalmente a Swedenborg e também ao haxixe.
[J 12a, 5]
Baudelaire no concerto: “Dois olhos negros agudos, penetrantes, cintilavam com um brilho particular, animando, só eles, o personagem que parecia paralisado em sua concha.” Lorédan Larchey, Fragments et Souvenirs, Paris, 1901, p. 6 (“Le boa de Baudelaire — Limpeccable Banville”).
[J 12a, 6] 
“Baudelaire talvez não tenha sido senão um espírito laborioso que sentiu e compreendeu, através de Poe, coisas novas e esforçou-se durante toda sua vida em se especializar.” Maurice Barrès, La Folie de Charles Baudelaire, Paris, p. 98.
[J 13,3]
“Evitemos aclamar, apressadamente, esses poetas como cristãos. A liturgia, os anjos, os satãs ... são apenas uma encenação para o artista que julga que o pitoresco vale bem uma missa.” Maurice Barrès, La Folie de Charles Baudelaire, Paris, pp. 44-45.
[J 13,4]
“Suas melhores páginas nos esmagam. Ele punha em versos difíceis uma prosa magnífica.” Maurice Barrès, La Folie de Charles Baudelaire, Paris, p. 54.
[J 13, 5]
“As estrelas espalhadas pelo céu como sementes cintilantes, douradas e prateadas, brilhando na profunda escuridão da noite, simbolizam [para Baudelaire] o ardor e a força da fantasia humana.” Elisabeth Schinzel, Natur und Natursymbolik bei Poe, Baudelaire und den französischen Symbolisten, Düren (Renânia), 1931, p. 32.
[J 13, 6]
[...]
“No início, a obra de Baudelaire pareceu pouco fecunda Espíritos inteligentes compararam-na a um tanque d’água estreito, cavado com esforço, num lugar sombrio e coberto de vapores... A influência de Baudelaire se revelou no Pamasse Contemporain ... em 1865... Três figuras se destacam... Stephane Mallarmé, Paul Verlaine e Maurice Rollinat.” Maurice Barrès, La Folie de Charles Baudelaire, Paris, pp. 61, 63, 65.
[J 13, 8]
[...]
“Passando de todos esses poetas românticos a Baudelaire, passa-se de um cenário de natureza a um cenário de pedra e de carne... O temor religioso da natureza, que fazia parte, para os românticos, de sua familiaridade com a natureza, tornou-se em Baudelaire ódio à natureza.” [?]
[ J 13a, 4]
Baudelaire sobre Musset: “Exceto na idade da primeira comunhão, isto é, numa idade em que tudo que diz respeito às prostitutas e às meias de seda tinha o efeito de uma religião, nunca pude suportar este mestre dos afetados, sua impudência de criança mimada que invoca o céu e o inferno para aventuras narradas na mesa de jantar, sua torrente lamacenta de erros de gramática e de prosódia, enfim, sua incapacidade total de compreender o trabalho pelo qual um devaneio se torna um objeto de arte. Thibaudet, que cita esta observação (Intérieurs, p. 15), dá-lhe como paralelo (p. 16) a observação de Brunetière sobre Baudelaire: “Não é mais que um Satã de quarto mobiliado, um Belzebu de mesa de jantar.”
[J 13a, 5]
[...]
“‘Não foi para minhas mulheres, minhas filhas ou minhas irmãs que foi escrito este livro’, diz ele, falando das Fleurs du Mal. Que necessidade tem ele de nos prevenir? Por que essa frase? Oh! Simplesmente pelo prazer de afrontar a moral burguesa com esta palavra ‘minhas mulheres’, inserida ali como por negligência, mas que foi colocada de propósito, uma vez que a reencontramos em seu diário íntimo: ‘Isso não poderá escandalizar minhas mulheres, nem minhas filhas nem minhas irmãs’.” André Gide, “Introduction” a Charles BaudelaireLes Fleurs du Mal, Paris, Édouard Pelletan, 1917, p. XIV.
[J 14a, 4]
[...]
Bourget tece uma comparação entre Leonardo e Baudelaire: “Uma perigosa curiosidade força a atenção e convida aos longos devaneios diante desses enigmas de pintor e de poeta. Olhado por muito tempo, o enigma libera seu segredo.” Paul Bourget, Essais de Psychologie Contemporaine, vol. I, Paris, 1901, p. 4. (“Baudelaire”)
[J 15, 3]
[...]
Em 1849 ou 1850, Baudelaire desenha de memória a cabeça de Blanqui. (Ver Philippe Soupault, Baudelaire, Paris, 1931, ilustração à p. 15.)
[J 15,6]
“Baudelaire tinha a arte de transformar sua máscara como um criminoso que fugiu da prisão.” Champfleury, Souvenirs et Portraits de Jeunesse, Paris, 1872, p. 135 (“Rencontre avec Baudelaire”).  Courbet queixou-se de não poder levar a cabo o retrato de Baudelaire; a cada dia tinha uma fisionomia diferente.
[J 16a, 9]
[...]
Poe (cit. em R. de Gourmont, Promenades Littéraires, Paris, 1904, p. 371, “Marginalia sur Edgar Poe et sur Baudelaire”): “A certeza do pecado ou do erro contido num ato é, muitas vezes, a única força, invencível, que nos arrasta para sua execução.”
[J 17, 3]
Estrutura de LÉchec de Baudelaire, de René Laforgue, Paris, 1931. Baudelaire teria presenciado o coito de sua babá ou de sua mãe com seu (primeiro ou segundo?) marido; colocado, dessa forma, na posição da terceira pessoa no relacionamento amoroso, ele teria se fixado nesse papel e se tornado voyeur ; possivelmente teria freqüentado bordéis, basicamente como voyeur; por causa dessa fixação no olhar, teria se tornado um crítico que sente a necessidade de ser objetivo, “para não ‘perder nada de vista’”. Perrenceria a um tipo claramente definido de paciente. “Ver, para eles, significa planar como as águias acima de tudo, com toda segurança, e realizar uma espécie de onipotência pela identificação, ao mesmo tempo, com o homem e com a mulher... São esses os seres que desenvolvem então o gosto funesto do absoluto ... e que, refugiando-se no domínio da pura imaginação, perdem o uso de seu coração.” (pp. 201 e 204).
[J 17,4]
“Inconscientemente Baudelaire amou Aupick, e ... talvez fosse para conseguir ser amado por seu padrasto, que ele o teria provocado incessantemente... Se, para a afetividade do poeta, Jeanne Duval desempenhou um papel análogo ao de Aupick, compreendemos porque Baudelaire foi ... sexualmente possuído por ela. E essa união representaria, assim, ... antes de mais nada uma união homossexual, em que Baudelaire desempenhava sobretudo um papel passivo, o da mulher. ” René Laforgue, LÉchec de Baudelaire, Paris, 1931, pp. 175, 177.
[ J 17, 5] 
“Baudelaire, como escritor, cinha um grande defeito do qual não se dava conta: era ignorante. O que sabia, sabia-o bem, mas sabia pouco. A história, a fisiologia, a arqueologia, a filosofia lhe escapavam... O mundo exterior pouco lhe interessava; talvez o percebesse, mas certamente não o estudava.” Maxime du Camp, Souvenirs Littéraires, vol. II, Paris, 1906, p. 65.
[J 18, 4]
Extraído de avaliações de professores do colégio Louis-le-Grand sobre Baudelaire: “É espirituoso. Um pouco de mau gosto” (em Retórica). “Conduta algumas vezes bastante dispersa. Este aluno, e ele mesmo o diz, parece persuadido de que a história é perfeitamente inútil” (em História). — Carta ao padrasto, de 1 1 de agosto de 1839, após ser aprovado: “Meu exame foi bem medíocre, exceto o de latim e o de grego - muito bem -, foi o que me salvou.” Charles Baudelaire, Vers Latins, ed. org. por Tules Mouquet, Paris, 1933, pp. 17, 18, 26.
[J 18, 5]
[...]
Passagens principais sobre a inconveniência da paixão na arte: o segundo prefácio a Poe, o estudo sobre Gautier.
[J 18a, 2]
[...]
Seillière observa que os poemas apócrifos, atribuídos a Baudelaire, seriam todos necrófilos (p 152).
[J 18a, 9]
[...]
Baudelaire, 1846: “Vocês já experimentaram, todos vocês, cuja curiosidade de flâneur muitas vezes já os meteu em alguma manifestação pública, a mesma alegria que eu ao ver um guardião do sono público, um sargento de cidade ou municipal, espancar um republicano? E, como eu, vocês disseram em seu coração: espanca, espanca um pouco mais ... o homem que você espanca é um inimigo das artes e dos perfumes, um fanático das ferramentas; é um inimigo de Watteau, um inimigo de Rafael.” Cit. em R. Trial, La Maladie de Baudelaire, Paris, 1926, p. 51.
[J 19a, 2]
[...]
Poe: “Eu só poderia amar, dirá ele claramente, se a morte misturasse seu alento ao da Beleza!” Cit. em Ernest Seillière, Baudelaire, Paris, 1931, p. 229- O autor lembra que aos quinze anos, após a morte da Sra. Jane Stanard, Poe passava longas noites, muitas vezes sob chuva, no cemitério, junto ao túmulo dela.
[J 19a, 8]
[...]
Jules Romains (Les Hommes de Bonne Volonté, vol. II, Crime de Quinette , Paris, 1932, p. 171) compara o flâneur ao “bom nadador de Baudelaire, ‘que se extasia nas ondas’.”
[J 20a, 5]
“Le mort joyeux” <OC I, p. 70> é provavelmente uma réplica às fantasias de putrefação em Poe. “E diga-me se há ainda alguma tortura...”
[J 21a, 2]
[...]
“‘O olhar singular de uma mulher galante / Que desliza até nós como o raio branco / Que a lua ondulosa envia ao lago trêmulo.’ Assim se inicia o último poema, e Berg respondeu longa e avidamente a este olhar singular, que faz jorrar lágrimas copiosas nos olhos daquele que o encontra desarmado. Porém, assim como para Baudelaire, também para Berg o olhar venal tornou-se um olhar vindo da história primeva. A lua da grande cidade, em forma de lâmpada em arco, parece-lhe vir do tempo das heteras.14  Ele precisa apenas refleti-lo, assim como o lago, e o banal apresenta-se como algo ocorrido há muito tempo; a mercadoria do século XIX revela seu tabu mítico. Foi com esse espírito que Berg compôs a Lulu.” Wiesengrund-Adorno, “Konzertarie: ‘Der Weih” (em Willi Reich, Alban Berg, com os escritos do próprio Berg e contribuições de Theodor Wiesengrund-Adorno e Ernst Krenek, Viena, Leipzig, Zurique, 1937), p. 106.
 
Em Blanqui, o espaço cósmico tornou-se abismo. O abismo de Baudelaire não possui estrelas. Não deve ser definido como espaço cósmico. Não é tampouco o abismo exótico da teologia. E um abismo secularizado: o do saber e dos significados. O que constitui o seu índice histórico? Em Blanqui, o abismo tem o índice histórico da ciência mecanicista da natureza. Será que em Baudelaire o abismo não possui o índice social da nouveauté. ? Não seria o arbítrio da alegoria um irmão gêmeo da moda?
[J 24, 2]
[...]
Total desligamento de Poe da grande poesia. Ele troca cinqüenta Molières por um Fouqué.19 A Ilíada e Sófocles não lhe dizem nada. Esta perspectiva está provavelmente relacionada com a teoria da arte pela arte. Qual era a posição de Baudelaire?
[J 24,6]
[...]
Les aveugles <OC I, p. 92>  Crépet dá como fonte uma passagem sobre a postura da cabeça dos cegos, extraído de Des Vetters Eckfenster” (A janela de esquina do meu primo). Hoffmann considera edificante o olhar voltado para cima.
[J 24a, 2]
[...]
A famosa observação de Valéry sobre Baudelaire remonta no fundo às sugestões de Sainte- Beuve enviadas a Baudelaire para sua defesa. “No domínio da poesia, tudo era tomado. Lamartine havia tomado os céus. Victor Flugo, a terra e mais que a terra. Laprade, as florestas. Musset, a paixão e a orgia fascinante. Outros, o lar, a vida rural etc. Théophile Gautier, a Espanha e suas cores vivas. O que restava? O Baudelaire pegou. Ele foi como que forçado a isso...” Cit. em Porché, La Vie Douloureuse de Charles Baudelaire, Paris, 1926, p. 205.
[24a, 5]
[...]
“Uma noite em que entrou num baile público, Charles Monselet o abordou: ‘O que você faz aqui? — Meu caro, respondeu Baudelaire, Vejo passar cabeças de mortos!’” Alphonse Séché. La Vie des Fleurs du Mal, Amiens, 1928, p. 32.
[J 25, 1]
[...]
O Figaro publica (data?) um artigo de Gustave Burdin, escrito a pedido de Billaut. Pouco antes, Billaut tinha sofrido — como juiz ou promotor - uma derrota por conta da absolvição ie Flaubert no processo devido a Madame Bovary. Poucos dias depois, o artigo de Thierry no Moniteur. “Por que Sainte-Beuve ... deixou a Thierry o cuidado de falar aos leitores do Moniteur sobre as Fleurs du Mal? Sainte-Beuve teria se recusado a escrever sobre o livro de Baudelaire porque julgava que devia manter prudência, para apagar o efeito negativo produzido junto ao governo por seu artigo sobre Madame Bovary. Alphonse Séché, La Vie des Fleurs du Mal, 1928, pp. 156-157.
[J 25a, 5]
[...]
Seillière cita (p. 234) d’Aurevilly: “A finalidade oculta de Poe era aterrorizar a imaginação de seu tempo... Hoffmann não possui esse terrível poder.” Isto provavelmente também vale para Baudelaire.
[J 27, 5]
19 Cf. Edgar Allan Poe, The Complete Works [Virgínia Edition], vol. XI, Nova York, 1902, pp. 89-90. (R.T)  
Porché chama a atenção para o fato de Baudelaire ter mantido durante toda a vida a mentalidade de um filho de boa família.  Muito instrutivo neste sentido: “Há em toda transformação alguma coisa de infame e de agradável ao mesmo tempo, um elemento de deslealdade e de mudança de situação. Isso basta para explicar a Revolução Francesa.” A observação faz lembrar Proust  que também foi um filho de boa família. O histórico projetado no íntimo.
[J 28a, 3]
Encontro entre Baudelaire e Proudhon em 1848, no escritório do jornal Le Représentant du Peuple; este encontro é casual e termina com um jantar comum na Rue Neuve-Vivienne.
[J 28a, 4]
[...]
Em 1845, “The Gold Bug” é traduzido por Alphonse Borghers como “Le scarabée d’or” (O escaravelho de ouro) na Revue Britannique. No ano seguinte, aparece uma adaptação, com o nome do autor em código, do “Duplo assassinato na Rue Morgue” em La Quotidienne, onde o nome de Poe não é mencionado. Para Baudelaire, segundo Asselineau, foi decisiva a tradução de “O gato negro”, em La Démocratie Pacifique, por Isabelle Meunier (1847). É significativo que, a julgar pela publicação, a primeira tradução de Poe por Baudelaire foi a “Revelação magnética”.
[J 28a, 8]
[...]
“Foi graças ao lazer que, em parte, cresci. — Para meu prejuízo, porque o lazer sem fortuna aumenta as dívidas... Mas também para meu grande proveito, relativamente a sensibilidade, à meditação... Os outros homens de letras são, na maior parte, vis picaretas muito ignorantes.” Cit. em Porché, La Vie Douloureuse de Charles Baudelaire, Paris, 1926, p 116.
[J 29, 5]
[...]
Do necrológio de Gautier, Le Moniteur, 9 de setembro de 1867: “Nascido na índia e conhecendo a fundo a língua inglesa, ele começou por traduções de Edgar Poe.” Théophile Gautier, Portraits Contemporains, Paris, 1847, p. 159.
[J 29a, 2]
O necrológio de Gautier é dedicado pelo menos em sua metade a Poe. A parte dedicada às Fleurs du Mal repousa nas metáforas que Gautier toma emprestadas a um conto de Hawthorne: “Nunca lemos as Fleurs du Mal, de Ch. Baudelaire sem pensar, involuntariamente, neste conto de Hawthorne; elas têm essas cores sombrias e metálicas, essas folhagens verde-acinzentadas e esses odores que sobem à cabeça. Sua musa se parece com a filha do doutor, que nenhum veneno poderia atingir, mas cuja tez, por sua palidez exangue, revela o ambiente em que habita.” Théophile Gautier, Portraits Contemporains, Paris, 1874, p. 163.
[J 29a, 3]
[...]
A “Revelação magnética”, que certamente não tem grande peso na obra de Poe, é a única novela do autor traduzida por Baudelaire enquanto Poe ainda vivia. Em 1852, biografia de Poe na Revue de Paris, em 1854, início do trabalho de tradução.
[J 30, 7]
Lembrar que Jeanne Duval foi o primeiro amor de Baudelaire.
[J 30, 8]
Durante os anos de desavença com Aupick, encontros com a mãe no Louvre.
[J 30, 9]
[...]
Porché (p. 98) chama a atenção sobre o fato de que os encontros de Baudelaire com Saliz, Ancelle, Aupick eram de tipo específico.
[J 30, 11]
Preocupação sexual, como o revelam os títulos dos romances planejados: “Os Ensinamentos de um Monstro”, “Uma Infame Adorada”, “A Amante do Idiota”, “As Lésbicas”, “O Cafetão”.
[J 30, 12]
[...]
Extraído de Schaunard, Souvenirs, Paris, 1887 (cit. em Crépet, p. 160): “Detesto o campo, diz Baudelaire, para explicar sua pressa em deixar Honfleur, sobretudo no bom tempo. A persistência do sol me oprime... Ah! fele-me dos céus parisienses sempre mutáveis, que riem e choram ao sabor do vento, e sem que jamais suas alternâncias de calor e de umidade possam ser úteis a estúpidos cereais... Eu ofenderei talvez suas convicções de paisagista, mas lhe direi que a água em liberdade é, para mim, insuportável; quero-a prisioneira, na canga, nos muros geométricos de um cais. Meu passeio preferido é a margem do canal de l’Ourcq.”
[J 31, 2]
[...]
A incomparável força da descrição da multidão cm Poe. Pensa-se nas primeiras litografias de Senefelder, como O Clube de Jogo, A Multidão Após o Cair da Noite: “Os raios dos bicos de gás, fracos de início, quando lutavam com a luz do poente, tinham agora intensidade e lançavam sobre todas as coisas uma luz cintilante e agitada. Tudo era escuro, mas brilhante - como este ébano ao qual se comparou o estilo de Tertuliano.” Edgar Poe, Nouvelles Histoires Extraordinaires, tradução de Charles Baudelaire, Paris, 1886, p. 94. ■ Flâneur ■
[J 31a, 4]
“A imaginação não é a fantasia... A imaginação é uma faculdade quase divina que percebe ... as relações íntimas e secretas das coisas, as correspondances e as analogias.” Baudelaire, “Nouvelles notes sur Edgar Poe” (Nouvelles Histoires Extraordinaires, pp. 13-14).
[J 31a, 5]
Jules Troubat  o secretário de Sainte-Beuve , em 10 de abril de 1866, a Poulet-Malassis: “Eis, pois, como sempre hão de acabar os poetas! Embora a máquina social esteja a serviço dos burgueses, dos profissionais, dos operários e se ajuste a eles ... nenhuma lei benfazeja se estabelecerá para dar a essas naturezas indisciplinadas e avessas a qualquer jugo, com o que, pelo menos, assegurar sua morte em seu próprio leito. — Mas a aguardente, dirão?  Boa solução! Vocês a bebem, vocês, burgueses, merceeiros, vocês têm tantos vícios e mesmo mais que o poeta... Balzac se excita com café, Musset se embrutece com absinto e produz ainda assim suas mais belas estrofes, Murger está morrendo em uma casa de saúde, como Baudelaire neste momento, aqui. E nenhum desses escritores é socialista!” (Cit. em Crépet. Baudelaire, Paris, 1906, pp. 196-197). O mercado literário.
[J 32, 2] 
[...] 
“Toda intenção épica resulta ... de um sentido imperfeito da arte.” (Baudelaire, “Notes nouvelles sur Edgar Poe” (Nouvelles Histoires Extraordinaires), Paris, 1886, p. 18. Eis aqui em germe toda a teoria da poesia pura. (Imobilização!)
[J 32, 5]
[...] 
“Hoje, de todos os livros do mundo, com exceção apenas da Bíblia, Les Fleurs du Mal é o mais editado, o mais traduzido em todas as línguas.” André Suarás, Trois Grands Vivants, Paris 1938, p. 269 (“Baudelaire et Les Fleurs du Mal). 
[J 32a, 2]
 
“Talvez somente Leopardi, Edgar Poe e Dostoiévski tenham experimentado um tal despojamento de felicidade, semelhante poder de desolação. Em torno dele, este século que parece, aliás, florescente e múldplo, apresenta o terrível aspecto de um deserto.” Edmond Jaloux, “Le centenaire de Baudelaire”, La Remte Hebdomadaire, ano 30, n° 27, 2 jul. 1921, p. 77.
[J 33, 2] 
[...] 
Influência das “Correspondances” sobre Mallarmé.
[J 33, 6]
[...]
Claudel: “Baudelaire cantou a única paixão que o século XIX pôde experimentar com sinceridade: o Remorso.” Cit. em Le Cinquantenaire de Charles Baudelaire, Paris, 1917, p 43.
[J 33, 8]
[...]
Barbey dAurevilly colocou Rollinat entre Poe e Baudelaire; e diz: “um poeta da família de Dante”, op. cit., p. 8.
[J 33a, 10]
[...] 
“Você atravessa uma cidade grande envelhecida na civilização, uma dessas que contêm os arquivos mais importantes da vida umversal, e seus olhos são atraídos para o alro, sursm, ad sidera; porque nas praças públicas, nos ângulos dos cruramentos, personagens imóveis, maiores que aqueles que passam a seus pés, lhe contam, numa linguagem muda, as pomposas lendas da glória, da guerra, da ciência e do martírio. Uns mostram o céu, a que incessantemente aspiram; outros designam o solo de onde se elevaram. Eles agitam ou contemplam o que foi a paixão de suas vidas e que se totnou seu emblema: uma ferramenta, uma espada, um livro, uma tocha, vitäi lampada! Seja você o mais negligente dos homens, o mais infeliz ou mais vil, mendigo ou banqueiro, o fantasma de pedra o invade durante alguns minutos, e lhe ordena, em nome do passado, pensar em coisas que não são da terra. / Esta é a função da escultura.” Ch B; Œuvres, “Salon de 1859”, ed. Le Dantec, vol.II, pp.274-275 <OC II, p.670>. [...]
[J 34, 3]
A teoria da imaginação e, igualmente, a doutrina do poema curto e da novela, em Baudelaire, são influenciadas por Poe. A teoria da arte pela arte aparece, em sua formulação, como plágio.
[J 36, 7]
[...]
Camille Lemonnier, em sua célebre descrição da conferência de Baudelaire sobre Gautier, em Bruxelas, apresenta de maneira fascinante a perplexidade que percorreu o público, provocada pela glorificação desmedida de Gautier pelo orador. O publico ficara na expectativa de que Baudelaire iria revelar, com uma única observação sarcástica, que tudo o que acabara de dizer não era mais do que um faz-de-conta, para então se voltar para uma outra concepção de poesia. E esta expectativa paralisava os ouvintes.
[J 36a, 3]
[...] 
[...] No capítulo XVII (“Des écoles et des ouvriers”), Baudelaire fala da atomização como sintoma de fraqueza; ele elogia as escolas: “Lá, escolas, e aqui, operários emancipados... — uma escola, isto é ... a impossibilidade da dúvida.” Ch. B., Œuvres, vol. II, p. 131 <OC II, pp. 472-474, 477-579 e 491>. Cf. le poncif!
“Quando ouço levarem até as nuvens homens como Rafael e Veronese, com uma intenção visível de diminuir o mérito que se produziu depois deles..., eu me pergunto se um mérito, que é pelo menos igual ao deles (admitamos, por um instante, por pura complacência, que lhe seja inferior), nao é infinitamente mais meritório , uma vez que se desenvolveu vitoriosamente numa atmosfera e num terreno hostis?” Ch. B., Œuvres , vol. II, p. 239 <OC II, pp. 633-634> (“Salon de 1859”). Lukács diz que, para fabricar uma mesa decente hoje em dia, um homem precisa do mesmo gênio que bastou a Michelângelo para arquear a cúpula da igreja de São Pedro. 
[J 39a, 1]
[...]
“Se um poeta pedisse ao Estado o direito de ter alguns burgueses na sua estrebaria, isto iria rançar grande espanto, ao passo que, se um burguês pedisse um poeta assado, seria muito natural.” Ch. B., Œuvres, vol. II, p. 635 (“Fusées”).
[J 40,3]
[...] 
Assim, a França, contrariando a sua essência, tornou-se  como demonstrou Baudelaire  portadora da desespiritualização, da animalização’ do povo e de seu Estado. Peter Klassen, Baudelaire, Weimar, 1931, p. 33.
[J 40a, 3]
 
“Quando ouço levarem até as nuvens homens como Rafael e Veronese, com uma intenção visível de diminuir o mérito que se produziu depois deles..., eu me pergunto se um mérito, que é pelo menos igual ao deles (admitamos, por um instante, por pura complacência, que lhe seja inferior), nao é infinitamente mais meritório , uma vez que se desenvolveu vitoriosamente numa atmosfera e num terreno hostis?” Ch. B., Œuvres , vol. II, p. 239 <OC II, pp. 633-634> (“Salon de 1859”). Lukács diz que, para fabricar uma mesa decente hoje em dia, um homem precisa do mesmo gênio que bastou a Michelângelo para arquear a cúpula da igreja de São Pedro. 
[J 39a, 1]
[...]
“Se um poeta pedisse ao Estado o direito de ter alguns burgueses na sua estrebaria, isto iria rançar grande espanto, ao passo que, se um burguês pedisse um poeta assado, seria muito natural.” Ch. B., Œuvres, vol. II, p. 635 (“Fusées”).
[J 40,3]
[...] 
Assim, a França, contrariando a sua essência, tornou-se  como demonstrou Baudelaire  portadora da desespiritualização, da animalização’ do povo e de seu Estado. Peter Klassen, Baudelaire, Weimar, 1931, p. 33.
[J 40a, 3]
Em 1850, Asselineau viu na casa de Baudelaire um exemplar dos poemas, escrito por um calígrafo, em dois volumes in-quarto, cartonados e dourados.
[J 45, 4]
[...]
Mallarmé: “Outrora, à margem de um Baudelaire”: “Essa torrente de lágrimas iluminadas pelo fogo de artifício do pirotécnico Satã que se move atrás?’ Stéphane Mallarmé, Divagations, Paris, 1897, p. 60.
[J 45a, 7]
[...]
Passagem problemática de uma carta de 9 de julho de 1857, relativa às Fleurs du Mal: “Aliás, assustado, eu mesmo, com o horror que ia inspirar, eliminei um terço delas nas provas.” Lettres à sa Mère, p. 110.
[J 46,7]
[...]
5 de março de 1866: “O que mais amo é estar só. Mas não é possível e parece que a escola Baudelaire existe.” Lettres á sa Mère, p. 301.
[J 46a, 9]
 
Próximo do final do Segundo Império, quando o regime abranda sua pressão, a teoria da arte pela arte perde prestígio.
[J 47, 3]
[...]
Deve-se valorizar de maneira decisiva o esforço de Baudelaire para captar o olhar no qual se apagou a magia do longínquo (cf. “Lamour du mensonge” <OC I, pp. 98-99>). Em relação a isto, minha definição da aura como a distância do olhar que desperta no objeto observado.35
[J 47, 6]
[...]
O fragmento “Le monde va finir” (“Fusées”, XXII) contém, nas malhas de uma visão apocalíptica, uma crítica terrivelmente acerba da sociedade do Segundo Império (talvez inspirada, em alguns pontos, na idéia nietzscheana do “último homem”). Esta crítica possui certos traços proféticos. Sobre a sociedade fritura escreve Baudelaire: Nada, em meio aos devaneios sanguinários, sacrílegos ou antinaturais dos utopistas, poderá comparar-se a seus resultados positivos ... os governantes serão forçados, para guardar o poder e criar ema aparência de ordem, a recorrer a meios que fariam estremecer nossa humanidade atual, no entanto tão endurecida?... A justiça, se é que nesta época afortunada pode ainda existir uma justiça, interditará os cidadãos que não souberem fazer fortuna... Tal época pode estar bem próxima, quem sabe se já não chegou, e se a grosseria de nossa natureza não é o único obstáculo que nos impede de nos apercebermos da atmosfera na qual já respiramos? Ch Baudelaire, Œuvres, vol. II, pp. 640-641 <OC I, pp. 665-667>.
[J 47a, 3]
Em resumo, diante da história e diante do povo francês, a grande glória de Napoleão III terá sido provar que o primeiro recém-chegado pode, apoderando-se do telégrafo e da Imprensa nacional, governar uma grande nação. Imbecis são os que pensam que semelhantes coisas podem se realizar sem a permissão do povo.” Ch. B., Œuvres, vol. II, p. 655 <OC I, p 692> (“Mon cœur mis à nu”, XLIV).
[J 48, 1]
[...]
A verdade, por ser múltipla, náo é dupla.” Ch. B., Œuvres, vol. II, “Salon de 1846”, p. 63 <OC II, p. 4l6> (“Aux bourgeois”).
[J 48, 3]
35 Cf. GS I, 646-647 e nota; W. Benjamin. Sobre Alguns Temas em Baudelaire, OE III, p. 140 e nota  (R.T.; w.b.)  
O que pretendo é mostrar como Baudelaire está incrustado no século XIX. A impressão que nele deixou deve surgir tão nítida e intacta como a de uma pedra que, certo dia, é movida de seu lugar depois de aí ter jazido por décadas.

[J 51a, 5]

A importância única de Baudelaire consiste no fato de ele ter sido o primeiro — e da maneira mais imperturbável possível — a apreender o homem estranho a si mesmo no duplo sentido da palavra 
36 — ele o identificou e o muniu de uma couraça contra o mundo coisificado.

[J 51a, 6]

Na concepção de Baudelaire, nada se aproxima tanto da tarefa do herói antigo em seu século do que dar uma forma à modernidade.

[J 51a, 7]

No “Salon de 1846” ( 
Œuvres, vol. II, p. 134 <OC II, p. 494>), Baudelaire descreveu sua classe a partir da roupa. Fica claro nesta descrição que o heroísmo se situa não no sujeito descrito, mas naquele que descreve. O heroísmo da vida moderna representa uma maneira de captar a benevolência do leitor — ou, caso se queira, um eufemismo. A idéia da morte, da qual Baudelaire jamais se livrou, é a forma (Hohlform) destinada a receber um saber que não era o seu. Sua concepção da modernidade heróica talvez fosse principalmente esta: uma enorme provocação. Analogia a Daumier.

[J 52, 1]

A postura mais autêntica de Baudelaire não é afinal a de Hércules em repouso, e sim a do mímico que tirou a maquiagem. Essa mesma postura encontra-se-se nas deficiências estruturais de seu verso, que pareceu a alguns observadores ser o elemento mais valioso de sua arte poética.

[J 52, 2]
[...]
Uma imagem à qual Baudelaire recorre como explicação de sua teoria do poema curto, principalmente do soneto, em carta a Armand Fraisse, de 19 de fevereiro de 1860, serve melhor do que qualquer outra descrição para caracterizar a maneira como o céu aparece em Meryon: “Você já observou que um pedaço do céu visto através de uma clarabóia, ou entre duas chaminés, duas rochas, ou através de uma arcada, dava uma idéia mais profunda do infinito que o grande panorama visto do alto de uma montanha? Ch. B., Lettres, Paris, 1915, pp. 238-239. 
[...]
Sobre a fuga de imagens (Bilderflucht) e sobre a teoria da surpresa, que Baudelaire compartilhou com Poe: “As alegorias envelhecem porque faz parte de sua essência provocar a estupefação.”40 A seqüência de publicações alegóricas no Barroco representa uma espécie de fuga de imagens.

[J 54, 2]
[...]
É errôneo querer julgar a força de pensamento de Baudelaire segundo suas digressões filosóficas, como o fez Jules Lemaître. Baudelaire foi um filósofo ruim, foi melhor como teórico da arte, porém, foi incomparável como homem meditativo (Grübler). Do homem meditativo ele tem a estereotipia dos temas, a capacidade imperturbável de afastar tudo que pudesse incomodá-lo, a disposição de colocar a qualquer momento a imagem a serviço da idéia. O meditativo sente-se em casa entre as alegorias.

[J 55a, 1] 
[...]
De Lessence du rire contém a teoria da gargalhada satânica. Neste ensaio, Baudelaire chega a considerar mesmo o sorriso como satânico por natureza. Alguns contemporâneos chamaram a atenção para o caráter assustador da maneira de rir do próprio Baudelaire.

[J 55a, 8]  
36 Trocadilho: o original ding-fest machen significa, ao mesmo tempo, apreender e tornar resistente às coisas, isto é, ao mundo coisificado (die verdinglichte Welt). (w.b.) 
40 GS I, 359; ODBA, p. 205, com interpolações. (R.T.; w.b.) 
 [...]
O retrato da multidão em Poe mostra que a descrição da confusão não e o mesmo que uma descrição confusa.
[J 56a, 7]
[...]
A dialética da produção dc mercadorias no auge do capitalismo: a novidade do produto adquire — como estímulo da demanda — uma importância até então desconhecida. Ao mesmo tempo, o retorno do sempre igual manifesta-se de maneira patente na produção de massa.
[J 56a, 10] 
[...] 
A propósito da imagem da multidão em Poe: que imagem da cidade grande se pode ter quando o registro de seus perigos físicos — sem falar dos perigos a que ela mesma está exposta  permanece ainda tão incompleto quanto na época de Poe ou Baudelaire? A multidão expressa um pressentimento desses perigos.

[J 57, 8]
O traço com que a modernidade se aparenta definitivamente e da maneira mais íntima à Antiguidade é seu caráter fugaz. A ressonância ininterrupta que as Fleurs du Mal encontraram até hoje vincula-se a um aspecto peculiar sob o qual a cidade grande apareceu pela primeira vez na poesia. E o aspecto menos esperado. Quando evoca Paris em seus versos, Baudelaire faz ressoar a decrepitude e a caducidade de uma cidade grande. Talvez seu mais perfeito exemplo esteja no “Crépuscule du matin” que é a reprodução, a partir dos materiais da cidade, do soluçar do homem prestes a despertar. Este aspecto, porém, é mais ou menos comum a todo o ciclo dos “Tableaux Parisiens”. Ele vem à tona, magicamente, na cidade translúcida, em um poema como “Le soleil”, assim como aparece também na evocação alegórica do Louvre em “Le cygne”.
[J 57a, 3]
Sobre a fisionomia de Baudelaire como a do mímico: Courbet relata que o poeta, todos os dias, tinha uma aparência diferente.
[J 57a, 4]
Entre os povos latinos, o refinamento sensorial não diminui a energia da apreensão sensível. Entre os alemães, o refinamento, a crescente cultura do prazer dos sentidos, é pago geralmente com uma perda na arte da apreensão; a aptidão ao prazer perde em consistência aquilo que ganha em sutileza. (Cf. “o cheiro dos tonéis” em “Le vin des chiffonniers” <OC I, p. 106>).
[J 57a, 5]
A extraordinária capacidade de sentir prazer de um Baudelaire é totalmente desprovida de aconchego na intimidade. Esta incompatibilidade fundamental entre o prazer sensível e o aconchego é o traço distintivo da verdadeira cultura dos senddos. O esnobismo de Baudelaire é a renúncia excêntrica ao aconchego, e seu “satanismo” é a resoluta disposição de perturbálo onde e quando ele vier a se instalar.
[J 58, 1]
Em Meryon, as mas parisienses são poças sobre as quais, bem acima, vagueiam as nuvens.
[J 58, 2]
Baudelaire queria criar espaço para seus poemas e por isso teve que deslocar outros. Depreciou certas liberdades poéticas dos românticos por meio do seu manejo clássico da rima e desvalorizou o alexandrino clássico por meio da inserção de irregularidades e pontos de ruptura. Em suma, seus poemas continham disposições específicas para eliminar poemas concorrentes.
[J 58, 3]
[...]
De que adianta falar de progresso para um mundo tomado por uma rigidez cadavérica? Baudelaire encontrou a experiência de tal mundo, configurada com força incomparável, na obra de Poe. O que tornou Poe insubstituível para Baudelaire foi ele ter descrito um mundo no qual a poesia e o comportamento de Baudelaire encontraram sua razão de ser.
[J 58, 6]
[...]
A poética da art pour lart insere-se sem solução de continuidade na paixão estética das Fleurs du Mal.
[J 59, 6]
A perda da auréola concerne em primeiro lugar ao poeta. Ele é obrigado a expor-se pessoalmente no mercado. Baudelaire empenhou-se nisso com toda energia. Sua célebre mitomania foi um artifício publicitário.

[J 59, 7] 
[...]
A propósito da reflexão de Valéry sobre a situação de Baudelaire. É importante que Baudelaire tenha descoberto a relação de concorrência na produção poética. Naturalmente, as rivalidades entre poetas são antiquíssimas. Desde 1830, entretanto, essas rivalidades começaram a ser resolvidas no mercado. Era o mercado que precisava ser conquistado, e não mais a proteção da nobreza, dos príncipes ou do clero. Esta condição pesou mais para a poesia lírica do que para outras formas da poesia. A desorganização de estilos e escolas poéticas é o complemento do mercado que se abre ao poeta como “o público”. Baudelaire não se baseou em nenhum estilo e não se apoiou em nenhuma escola. Foi uma autêntica descoberta dele o fato de estar competindo com indivíduos.
[J 59a, 2]
As Fleurs du Mal podem ser consideradas um arsenal. Baudelaire escreveu certos poemas para destruir outros que tinham sido escritos antes dele.
[J 59a, 3]
Ninguém se sentiu tão pouco em casa, em Paris, como Baudelaire. Toda intimidade com as coisas é estranha à intenção alegórica. Tocar as coisas significa para ela: violentá-las. Reconhecêlas significa traspassá-las com o olhar. Onde ela reina, não é possível que se formem hábitos. Mal a coisa ou a situação é apreendida, logo é rejeitada pela intenção alegórica. Envelhecem mais rápido do que um novo corte para uma modista. Envelhecer, porém, significa tornarse estranho. O spleen coloca séculos entre o momento presente e aquele que acabou de ser vivido. É ele que, incansavelmente, fabrica a “antigüidade”. E, de fato, em Baudelaire, a modernidade nada mais é do que a "mais nova antigüidade. A modernidade não e, para ele, única ou principalmente o objeto de sua sensibilidade: é, antes, o objeto de uma conquista; ela tem como armadura o modo de visão alegórica.
[J 59a, 4]
A correspondência entre antigüidade e modernidade é a única concepção construtiva da história em Baudelaire. Por sua armadura rígida, excluiu toda concepção dialética.
[J 59a, 5] 
[...]
Para a passagem “Onde tudo, mesmo o horror, torna-se encantamento” <OC I, p. 89> dificilmente pode-se encontrar uma exemplificação melhor do que o retrato da multidão em Poe.
[J 60, 2] 
[...]
Em meados do século, modificaram-se as condições da produção artística. A modificação consistiu no fato de que, pela primeira vez, a forma da mercadoria impôs-se de maneira radical à obra de arte, e a forma da massa a seu público. A poesia lírica mostrou-se especialmente vulnerável a esta modificação, como ficou patente em nosso século. O caráter único das Fleurs du Mal advém de que Baudelaire respondeu a esta modificação com um livro de poemas. É o melhor exemplo de atitude heróica que se pode encontrar em sua vida.
[J 60, 6]
A atitude heróica de Baudelaire tem afinidade com a de Nietzsche. Mesmo que Baudelaire goste de mencionar o catolicismo, sua experiência histórica é aquela que Nietzsche condensou na frase: “Deus está morto.” Esta experiência, em Nietzsche, projeta-se cosmologicamente na tese: não advirá mais nada de novo. Em Nietzsche, a ênfase recai sobre o eterno retorno que o homem enfrenta com atitude heróica. Já para Baudelaire, trata-se sobretudo do “novo”, que deve ser extraído com esforço heróico do sempre igual.
[J 60, 7]
As experiências históricas que Baudelaire foi um dos primeiros a fazer  não por acaso ele pertence à geração de Marx, cuja obra principal foi publicada no ano de sua morte  expandiramse cada vez mais e de forma mais duradoura. Os traços ostentados pelo capital, em junho de 1848, gravaram-se desde então mais profundamente nos poderosos. E as dificuldades específicas de apropriar-se da poesia de Baudelaire são o reverso da facilidade de entregar-se a esta poesia. Em poucas palavras: nada ainda envelheceu nesta poesia. Isto determina o caráter da maioria dos livros que dela se ocuparam; trata-se de folhetins ampliados.
[J 60a, 1] 
[...]
É de supor que a multidão, tal como aparece em Poe, com movimentos precipitados e intermitentes, seja descrita de maneira particularmente realista. Sua descrição contém uma verdade superior. Estes movimentos são menos os de pessoas que se ocupam de seus negócios d0 que os movimentos das máquinas por elas operadas. Poe parece ter modelado, premonitoriamente, a atitude e as reações das multidões ao ritmo das máquinas. De qualquer modo, o flâneur não compartilha este comportamento. Ao contrário, interrompe-o, e sua morosidade não seria senão um protesto inconsciente contra a velocidade do processo de produção. (Cf. D 2a, 1).
[J 60a, 6]
A neblina é o consolo do solitário. Ela preenche o abismo que o cerca.
[J 60a, 7]
A candidatura de Baudelaire à Academia foi uma experiência sociológica.
[J 61, 1]

Uma série de tipos desde o guarda nacional Mayeux, passando por Gavroche, até o Trapeiro, Vireloque e Ratapoil.
45
[J 61, 2]
Nenhum contemporâneo compreendeu o modo de visão alegórica de Baudelaire, razão pela qual passou inteiramente despercebida.
[J 61, 3]
As proclamações surpreendentes e as maquinações, os ataques inesperados e a ironia rei fazem parte da razão de Estado do Segundo Império e foram traços característicos de Napoleão III. Encontram-se, igualmente, nos escritos teóricos de Baudelaire.
[J 61, 4] 
45 Mayeux e o Trapeiro (le Chiffonnier) são personagens criados pelo desenhista Charles Joseph Traviès de VilIers (1804-1859) (cf. Baudelaire, "Quelques Caricaturistes Français", OC II, p. 562), Thomas Vireloque é um personagem de Gavarni, e o bonapartista Ratapoil é uma criação de Daumier. 0 menino Gavroche é um personagem de Victor Hugo, Les Misérables (1862). Cf. b 1, 9. (J.L., E/M) 
 
Sobre a impotência. Em meados do século, a classe burguesa deixa de preocupar-se com o futuro das forças produtivas que ela mesma engendrou. (Surgem, assim, as obras que correspondem às grandes utopias de um Thomas Morus ou de um Campanella, que saudaram a ascensão desta classe e a identidade entre seus interesses e as exigências da Herdade e da justiça  surgem, portanto, as utopias de um Bellamy ou de um Moilin, empenhados, sobretudo, em fazer retoques no consumo e seus atrativos.) 48 Para poder continuar a ocupar-se com as forças produtivas que ela mesma pôs em andamento, a Imrguesia teria de renunciar, antes de mais nada, à idéia de renda. Que o hábito do “aconchego”, típico do prazer burguês em meados do século, esteja intimamente relacionado com o enfraquecimento da imaginação burguesa; e que seja idêntico à satisfação de “jamais precisar pensar vir a saber como as forças produtivas tiveram que desenvolver-se em suas mãos — sobre isto não há qualquer dúvida. O sonho de ter filhos é um estímulo pobre, quando não vem impregnado pelo sonho de uma nova natureza das coisas, na qual estas crianças um dia hão de viver ou pela qual deverão lutar. Mesmo o sonho dc uma “humanidade melhor”, na qual nossos filhos possam ter “uma vida mais feliz”, é apenas uma quimera ao pasto de Spitzweg, se, no fundo, não for o sonho de uma natureza melhor na qual eles doam viver. (Aí reside o direito inalienável da utopia de Fourier, que Marx reconhecera [e que a Rússia começara a pôr em prática].) Este último sonho é a fonte viva da força biológica da humanidade, enquanto aquele primeiro sonho nada mais é que o lago turvo de onde a cegonha vem retirar as crianças. A tese desesperada de Baudelaire, segundo a qual as criaturas mais próximas do pecado original, é um complemento em nada impróprio para esta imagem. 
[J 63a, 1]
A respeito das danças macabras: “Os artistas modernos negligenciam demais essas magnificas alegorias da Idade Média. Ch.B., Œuvres, vol. II, p. 257 <OC II, p. 652> (Salon de 1859”). 
[J 63a, 21]
[...]
Marx e Engels naturalmcnte ironizaram a fé absoluta dos idealistas no progresso. (Engels elogia Fourier por ter introduzido, em sua reflexão sobre a história, também o desaparecimento fiituro da humanidade, como Kant o fez em relação ao desaparecimento futuro do sistema solar.) Neste contexto, Engels zomba também da conversa fiada sobre a ilimitada perfectibilidade do homem’.”50 Carta de Hermann Duncker a Grete Steffin, e 18 de julho de 1938. 
[J 64, 2]
A noção mítica da tarefa do poeta deve ser definida a partir da noção profana do utensílio (Werkzeug).  O grande poeta nunca se coloca diante de sua obra (Werk) como um simples produtor; ele é ao mesmo tempo seu consumidor. Na verdade, diferentemente do publico, ele não a consome como um estímulo, e sim como um utensílio. Este carater de utensi io representa um valor de uso que dificilmente se insere no valor de troca. 
[J 64, 3]
Sobre o “Crépuscule du soir” <OC I, p. 94>: a cidade grande não conhece um verdadeiro crepúsculo da tarde. Em todo caso, a iluminação artificial impede sua lenta transformaçao em noite. A mesma circunstância faz com que as estrelas desapareçam do ceu na cidade orande; e menos ainda percebe-se seu surgimento. A maneira como Kant descreve o sublime através “da lei moral dentro de mim e do céu estrelado acima de mim51 não poderia ter sido concebida por um habitante da cidade grande.
[J 64, 4]
O spleen de Baudelaire é o sofrimento devido ao declínio da aura. “A primavera adorável perdeu seu perfume” <OC I, p. 7 6>. 
[ J 64, 5]  
A produção em massa é a principal causa econômica, a luta de classes, a principal causa social do declínio da aura.
[J 64a, 1]

48 Edward Bellamy (1850-1898), Looking Backward, 2000-1887 (1888): Tony Moilin (1832-1871), Paris en lAn 2000 (1869). (J.L.) 
50 Friedrich Engels, Herrn Eugen Dührings Umwälzung der Wissenschaft, in: MEW, vol, XX. 2 a ed., Berlim, 1968, p. 243. (R.T.)
51 Cf. Immanuel Kant, Kritik der praktischen Vernunft. (R.T.) 
Sobre a impotência. Em meados do século, a classe burguesa deixa de preocupar-se com o futuro das forças produtivas que ela mesma engendrou. (Surgem, assim, as obras que correspondem às grandes utopias de um Thomas Morus ou de um Campanella, que saudaram a ascensão desta classe e a identidade entre seus interesses e as exigências da Herdade e da justiça  surgem, portanto, as utopias de um Bellamy ou de um Moilin, empenhados, sobretudo, em fazer retoques no consumo e seus atrativos.) 48 Para poder continuar a ocupar-se com as forças produtivas que ela mesma pôs em andamento, a burguesia teria de renunciar, antes de mais nada, à idéia de renda. Que o hábito do “aconchego”, típico do prazer burguês em meados do século, esteja intimamente relacionado com o enfraquecimento da imaginação burguesa; e que seja idêntico à satisfação de “jamais precisar pensar vir a saber como as forças produtivas tiveram que desenvolver-se em suas mãos — sobre isto não há qualquer dúvida. O sonho de ter filhos é um estímulo pobre, quando não vem impregnado pelo sonho de uma nova natureza das coisas, na qual estas crianças um dia hão de viver ou pela qual deverão lutar. Mesmo o sonho de uma “humanidade melhor”, na qual nossos filhos possam ter “uma vida mais feliz”, é apenas uma quimera ao pasto de Spitzweg, se, no fundo, não for o sonho de uma natureza melhor na qual eles doam viver. (Aí reside o direito inalienável da utopia de Fourier, que Marx reconhecera [e que a Rússia começara a pôr em prática].) Este último sonho é a fonte viva da força biológica da humanidade, enquanto aquele primeiro sonho nada mais é que o lago turvo de onde a cegonha vem retirar as crianças. A tese desesperada de Baudelaire, segundo a qual as criaturas mais próximas do pecado original, é um complemento em nada impróprio para esta imagem. 
[J 63a, 1]
A respeito das danças macabras: “Os artistas modernos negligenciam demais essas magnificas alegorias da Idade Média. Ch.B., Œuvres, vol. II, p. 257 <OC II, p. 652> (Salon de 1859”). 
[J 63a, 21]
[...]
Marx e Engels naturalmente ironizaram a fé absoluta dos idealistas no progresso. (Engels elogia Fourier por ter introduzido, em sua reflexão sobre a história, também o desaparecimento futuro da humanidade, como Kant o fez em relação ao desaparecimento futuro do sistema solar.) Neste contexto, Engels zomba também da conversa fiada sobre a ilimitada perfectibilidade do homem’.”50 Carta de Hermann Duncker a Grete Steffin, e 18 de julho de 1938. 
[J 64, 2]
A noção mítica da tarefa do poeta deve ser definida a partir da noção profana do utensílio (Werkzeug).  O grande poeta nunca se coloca diante de sua obra (Werk) como um simples produtor; ele é ao mesmo tempo seu consumidor. Na verdade, diferentemente do publico, ele não a consome como um estímulo, e sim como um utensílio. Este carater de utensi io representa um valor de uso que dificilmente se insere no valor de troca. 
[J 64, 3]
Sobre o “Crépuscule du soir” <OC I, p. 94>: a cidade grande não conhece um verdadeiro crepúsculo da tarde. Em todo caso, a iluminação artificial impede sua lenta transformação em noite. A mesma circunstância faz com que as estrelas desapareçam do céu na cidade grande; e menos ainda percebe-se seu surgimento. A maneira como Kant descreve o sublime através “da lei moral dentro de mim e do céu estrelado acima de mim51 não poderia ter sido concebida por um habitante da cidade grande.
[J 64, 4]
O spleen de Baudelaire é o sofrimento devido ao declínio da aura. “A primavera adorável perdeu seu perfume” <OC I, p. 7 6>. 
[ J 64, 5]  
A produção em massa é a principal causa econômica, a luta de classes, a principal causa social do declínio da aura.
[J 64a, 1]

48 Edward Bellamy (1850-1898), Looking Backward, 2000-1887 (1888): Tony Moilin (1832-1871), Paris en lAn 2000 (1869). (J.L.) 
50 Friedrich Engels, Herrn Eugen Dührings Umwälzung der Wissenschaft, in: MEW, vol, XX. 2 a ed., Berlim, 1968, p. 243. (R.T.)
51 Cf. Immanuel Kant, Kritik der praktischen Vernunft. (R.T.) 
 
Sobre processos judiciais: “Sob o império da lei maometana, a autoridade pune até mesmo com a morte o homem que ela julga merecê-la, no próprio lugar e momento do flagrante; e essas súbitas execuções, às quais não faltam cegos admiradores, são, entretanto, uma das incontáveis provas do embrutecimento e da devida reprovação desses povos. Entie nós, a ordem é bem outra: é preciso que o culpado seja preso; que seja acusado; que se defenda; é preciso, sobretudo, que se volte para sua consciência e pense em seus negócios; é preciso preparativos materiais para seu suplício; é preciso, enfim, para dar conta de tudo, um certo tempo para conduzido ao local do castigo, que é determinado. O cadafalso é um altar: ele, portanto, só pode ser colocado ali ou deslocado pela autoridade; e esses atrasos, respeitáveis até em seus excessos, aos quais ilgualmente não faltam cegos detratores, não deixam de ser uma prova de nossa superioridade.” De Maistre, Les Soirées de Saint-Pétersbourg, Paris, Ed. Hatier, p. 78 (Décimo diálogo).
[J 65, 2]
Deus aparece em De Maistre como mysterium tremendum.
[J 65, 3]
[...]
Quem ensina melhor o que é realmente “o novo” é sem dúvida o flâneur. O que aplaca a sede do flâneur pelo “novo” é a aparência de uma multidão animada pelo seu próprio movimento e tendo sua própria alma. Na verdade, este coletivo não é senão aparência. Esta “multidão”, com a qual se deleita o flâneur, é o molde oco (Hohlform) que serviu setenta anos mais tarde para forjar “a comunidade do povo” (Volksgemeinschaft).52 O flâneur, que tanto se orgulhava de sua vivacidade de espírito e de seu não-conformismo, precedeu seus contemporâneos também no fato de ter sido a primeira vítima de uma ilusão que, a partir de então, ofuscou milhões depessoas.
[J 66, 1]
Baudelaire idealiza a experiência da mercadoria ao indicar-lhe como cânone a experiência da alegoria.
[J 66, 2]
Se é a fantasia que oferece as correspondances à recordação, é o pensamento que lhe consagra a alegoria. A recordação faz com que a fantasia e o pensamento se encontrem.
[J 66, 3]
Com os novos processos de fabricação, que dão ensejo a todo tipo de imitações, a aparência se consolida na mercadoria.
[J 66, 4]

Entre a teoria das correspondências naturais e a renúncia à natureza subsiste uma contradição. Ela se resolve quando, na recordação, as impressões se desligam da vivência, de maneira que a experiência vinculada a essas impressões se liberta e pode ser acrescida ao patrimônio alegórico.
[J 66, 5] 
52 Referência ao vocabulário político do nacional-socialismo. (J.L.)
A experiência que o proletariado faz na cidade grande é muito específica. A ela assemelha-se, sob vários aspectos, a do emigrante. 
[J 66 a, 5]
[...]
Trata-se da mesma noite da história, em cujo anoitecer a coruja de Minerva (com Hegel) alça seu vôo, e Eros (com Baudelaire) diante do leito vazio, a tocha apagada, sonha com os babraços de outrora.
[J 67, 3]
A experiência da alegoria que se apega às ruínas é, na verdade, a da fugacidade eterna.
[J 67, 4] 
 
A tensão entre emblema e imagem publicitária permite medir as transformações que ocorreram a partir do século XVII no mundo das coisas.
[J 67a, 2]
[...]
O trapeiro é a figura mais provocadora da miséria humana. Lumpemproletário num duplo sentido: vestindo trapos e ocupando-se de trapos. “Eis um homem encarregado de recolher o lixo de cada dia da capital. Tudo o que a cidade grande rejeitou, tudo o que ela perdeu, tudo o que desdenhou, tudo o que ela destruiu, ele cataloga e coleciona. Ele consulta os arquivos da orgia, o cafarnaum dos detritos. Faz uma triagem, uma escolha inteligente; recolhe, como um avaro um tesouro, as imundícies que, ruminadas pela divindade da Indústria, tornar-se-ão objetos de utilidade ou de prazer.” (“Du vin et du hachisch”, Œuvres, vol.I, pp. 249-250 <OC 1, p. 381>). Como se constata nesta descrição em prosa de 1851, Baudelaire se reconhece no trapeiro. No poema <“Le vin des chiffonniers”, OC I, p. 106>, é apresentada ainda uma outra afinidade com o poeta, de forma explícita: “Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta, / Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta, E, alheio aos guardas e alcagüetes mais abjetos, / Abrir seu coração em gloriosos projetos.”
[J 68, 4]
Muitos indícios levam a crer que “Le vin des chiffonniers” tenha sido escrito quando Baudelaire declarou-se favorável ao “belo útil”. (Não é possível detalhar mais a respeito, apareceu pela primeira vez somente na edição das Fleurs du Mal. — “Le vin de lassassin” foi publicado pela primeira vez em 1848  em LÉcho des Marchands de Vins!) O poema sobre o trapeiro refuta veementemente as profissões de fé reacionárias de Baudelaire. A literatura sobre o poeta o negligenciou.
[J 68a, 1]
“Creiam-me, os impostos sobre o vinho nas barreiras da cidade pouparam de muitos as estruturas governamentais.” Édouard Foucaud, Paris Inventeur: Physiologie de lIndustrie Française, Paris, 1844, p. 10.
[J 68a, 2] 
consciência do tempo que escoa no vazio e o taedium vitae são os dois pesos que mantêm em movimento a engrenagem da melancolia. Nesse sentido, há uma correspondência exata entre o último poema do ciclo “Spleen et idéal” e o ciclo “La mort”.
[J 69, 5]
O poema “Lhorloge” <OC I, p. 81> vai a fundo no tratamento alegórico. Em tomo do relógio  que ocupa uma posição especial na hierarquia dos emblemas  o poema agrupa o Prazer, o Agora, o Tempo, o Acaso, a Virtude e o Arrependimento. (A propósito da “sílfide”, cf. o “teatro banal” em “Lirréparable”, e a propósito de “o albergue”, o Albergue no mesmo poema <OC I, p. 55>).
[J 69, 6]
[...]
Sobre o “seccionamento do tempo”, em particular em “Lhorloge” <OC I, p. 81>, confira-se o “Colóquio entre Monos e Una”, de Poe: “Parecia que em meu cérebro havia nascido esta alguma coisa, para a qual não há palavras que possam transmitir à inteligência meramente humana nem mesmo uma noção confusa. Permita-me denominá-lo uma pulsação do pêndulo mental. Era a personificação moral da idéia humana abstrata do Tempo... Foi assim que medi as irregularidades do pêndulo sobre a lareira e dos relógios das pessoas presentes. Seus tique-taques enchiam meus ouvidos com suas sonoridades. Os mais leves desvios da medida exata ... afetavam-me do mesmo modo como, entre os vivos, as violações da verdade abstrata afetavam meu senso moral.” (Edgar Allan Poe, Nouvelles Histoires Extraordinaires, Paris, 1886, pp. 336-337). Esta descrição nada mais é do que um único e grande eufemismo do vazio total do decurso do tempo à mercê do qual se encontra o homem no spleen.
[J 69a, 1]
 
A propósito do catálogo de emblemas representado pelo poema “Lirrérnédiable”, Crépet cita uma passagem das Soirées de Sãint-Pétersbourg: "Este rio que só se atravessa uma vez; este tonel das Danaides sempre cheio e sempre vazio; este fígado de Tityus sempre renascendo sob o bico do abutre que sempre o devora ... são outros tantos hieróglifos eloqüentes sobre os quais é impossível enganar-se.”57
[J 70, 5]
O gesto da bênção com os braços erguidos, em Fidus (também em Zaratustra?)   o gesto de alguém que carrega um fardo.
[ J 70, 6]
No “Projet d’un épilogue”: “Teus paralelepípedos mágicos erguidos em fortalezas, / Teus pequenos oradores, empolados à maneira barroca, / Pregando o amor, e depois teus esgotos cheios de sangue, / Abismando-se no Inferno como Orenocos.” (vol. I, p. 229 <OC I, p. 192>).
[J 70a, 1]
“Bénédiction” apresenta a vida do poeta como uma paixão. “Ele se embriaga cantando a via crucis <OC I, p. 8>. Em certas passagens, o poema lembra vagamente a visão na qual Apollinaire em Le Poète Assassiné descreveu o extermínio dos poetas pelo filisteu desenfreado: “E os imensos clarões de seu espírito lúcido / Dissimulam-lhe o aspecto dos povos furiosos.”
[J 70a, 2]
Um olhar à Blanqui sobre a humanidade (ao mesmo tempo, um dos raros versos de Baudelaire que desenvolvem um aspecto cósmico): “Ó Céu! / tampa sombria da imensa marmita / Onde ferve a imperceptível e vasta Humanidade.” (“Le couvercle” <OC I, p. 141>).
[J 70a, 3]
São sobretudo os suvenires aos quais se aplica o “olhar familiar” (este olhar, que não é senão o olhar de certos retratos, lembra Poe).
[J 70a, 4]
[...]
“Cibele, que os ama, aumenta suas verduras” <OC I, p. 18>  segundo a bela tradução de Brecht: “Cybele, die sie liebt, legt mehr Grün vor” (Cibele, que os ama, aumenta o verde). Eis aqui um deslocamento do elemento orgânico.
[J 70a, 6]
57 Ch. Baudelaire, Œuvres Complètes, vol. I: Les Fleurs du Mal. Les Épaves, ed. org. por Jacques Crépet, 2 a ed., Paris, 1930, p. 449. (R.T.) 
E quem, nestas noites douradas em que se sente reviver <OC I, p. 91> — a segunda metade do verso recai sobre si mesmo. Do ponto de vista prosódico, ela contradiz aquilo que enuncia. É um procedimento característico de Baudelaire.
[J 71a, 2]
“... da qual o auxiliar de cena / Enterrado, conhece o nome” <OC 1, p. 90> — isto provém do universo de Poe. (Cf. “Remords posthume”, “Le mort joyeux”.)
[J 71a, 3]
 
Marx sobre a Segunda República: “Paixões sem verdade, verdades sem paixão, heróis sem feitos heróicos, história sem acontecimentos; desenvolvimento cuja única força motora parece ser o calendário, monótono pela constante repetição das mesmas tensões e distensões... Se existe um período histórico pintado de cinzento sobre cinzento, foi bem este.” Karl Marx, Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte, ed. Rjazanov, Viena-Berlim, 1927, pp. 45-46.
[J 72a, 4]
[...]
Carta de Engels a Marx em 3 de dezembro de 1851: “Pelo menos por hoje este asno está tão solto ... quanto o velho na noite do 18 Brumário; está tão completamente sem escrúpulos que não pode deixar de exibir o seu ser asnal em todas as direções. Terrível perspectiva a ausência de oposição!”62 Karl Marx, Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte, ed. Rjazanov, Viena-Berlim, p. 9.
[J 73, 1]
Engels a Marx, em 11 de dezembro de 1851: “Se o proletariado desta vez não lutou em massa”, isto se deu “por estar completamente consciente de sua impotência e se resignou com fatalismo ao círculo repetitivo de República, Império, Restauração, e nova Revolução, até ... poder renovar suas forças.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 10.
[J 73, 2]
“Como se sabe, o 15 de maio [1848] não teve outro resultado senão o de afastar da cena pública, e pelo tempo inteiro do ciclo, Blanqui e companheiros, ou seja, os verdadeiros líderes do partido proletário, os comunistas revolucionários.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, p. 28.
[J 73, 3]
O mundo dos espíritos da América desempenha um papel na descrição da multidão em Poe. Matx fala da república que na Europa “significa, de maneira geral, apenas a forma política de transformação da sociedade burguesa, e não a sua forma de vida conservadora, como, por exemplo, nos Estados Unidos da América do Norte, onde ... classes ... ainda não se fixaram..., onde os modernos meios de produção ... compensam... a falta relativa de cabeças e braços, e onde, finalmente, o movimento jovem e febril da produção material ... não deixou nem tempo, nem oportunidade para se abolir o antigo mundo dos espíritos”. Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 30. E curioso que Marx lance mão do mundo dos espíritos para explicar a República americana.
[J 73, 4]
[...]
As eleições revolucionárias suplementares de 10 de março de 1850, em Paris, conduziram ao parlamento apenas representantes social-democratas. Mas elas deveriam encontrar “na eleição posterior de abril, quando foi eleito Eugène Sue, um comentário sentimental atenuante”. Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 68.
[J 73, 6]
A propósito do “Crépuscule du matin”: Marx vê em Napoleão III “não um homem que decide à noite para executar durante o dia, e sim um homem que decide durante o dia para executar à noite.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, p. 79.
[J 73a, 1]
A propósito do “Crépuscule du matin”: “Rumores de golpe de Estado assolam Paris. Dizse que a capital será ocupada por tropas durante a noite e que no dia seguinte serão publicados decretos.” Citado segundo a imprensa diária européia de setembro e outubro de 1851. Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 105.
[J 73a, 2]
Marx chama os líderes do proletariado parisiense de “chefes de barricadas”. Der achtzehnte Brumaire, p. 113.
[J 73a, 3]
A observação de Sainte-Beuve sobre Lamartine, cujos poemas representariam o céu das paisagens de André Chénier (J 51a, 3), deve ser comparada com esta formulação de Marx: “Se a parcela recém-constituída, em seu acordo com a sociedade, em sua dependência das forças da natureza e sua submissão à autoridade que a protegia do alto, era naturalmente religiosa, a parcela endividada, em conflito com a sociedade e a autoridade, impelida para além de suas próprias limitações, torna-se naturalmente irreligiosa. O céu foi um agradável suplemento ao estreito e recém-adquirido pedaço de terra, ainda mais que é ele que faz o bom e o mau tempo; mas ele se torna um insulto tão logo se queira impô-lo como substituto para a parcela.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 122. A observação de Sainte-Beuve, combinada com esta passagem de Marx, fornece a chave para a natureza e a duração da influência política que Lamartine derivou de sua poesia. Cf., sobre isso, suas negociações com o embaixador da Rússia, tal como relatadas por Pokrowski. <Cf. d 12, 2>.
[J 73a, 4]
[...]
Marx sobre os parasitas do Segundo Império: Para não se atrapalhar com o cálculo dos anos, eles contam por minutos.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 126.
[J 73a, 6]
Ambigüidade da concepção do heróico oculta na imagem baudelaireana do poeta: O ponto culminante das ‘idéias napoleônicas’... é a preponderância do exército. O exército foi o ponto de honra’ dos pequenos camponeses parcelares, eles mesmos transformados em heróis... Porém, os inimigos contra os quais o camponês francês precisa agora defender sua propriedade ... são os cobradores de impostos. A parcela de terra não se situa mais na assim chamada pátria, e sim no registro de hipotecas. O próprio exército não é mais a fina flor da juventude camponesa, é a flor de lodo do lumpemproletariado rural. Ele se compõe em boa parte dc substitutos assim como o segundo Bonaparte foi, ele também, apenas o substituto, o sucedâneo de Napoleão... Como se vê: todas as ‘idéias napoleônicas são idéias afins aos interesses da parcela ainda não desenvolvida, tendo ainda o frescor da juventude. Mas são um contrasenso em relação à parcela que envelheceu.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, pp 122-123. 
[J74, 1]

A propósito do satanismo: “Quando os puritanos queixaram-se, no concílio de Constança, da vida dissoluta dos papas..., o cardeal Pierre d
Ailly vociferou contra eles: Só o diabo em pessoa pode salvar a Igreja católica e vós exigis anjos. Assim clamou a burguesia francesa após o golpe de Estado: Só o chefe da Sociedade do 10 de Dezembro pode salvar a sociedade burguesa! Só o roubo pode ainda salvar a propriedade, só o perjúrio pode salvar a religião; a bastardia, a família; a desordem, a ordem.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, p 124.
[J 74, 2]
“Pode-se ter uma idéia concreta desta camada superior da Sociedade do 10 de Dezembro, se considerarmos que seu moralista é Véron-Crevel, e seu pensador: Granier de Cassagnac.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 127.
[J 74, 3]
Os “paralelepípedos mágicos erguidos em fortalezas , do Projet dun épilogue <OC I, p 92>, indicam o limite da poesia de Baudelaire no tratamento direto dos temas sociais. O poeta não diz uma palavra sequer das mãos que manusearam estes paralelepípedos. Em “Le vin des chiffonniers”, Baudelaire conseguiu ultrapassar este limite.
[J 74, 4]
[...]
Nietzsche sobre o inverno de 1882-1883, na baía de Rapallo: “Pela manhã segui em direção ao sul pela estrada magnífica subindo até Zoagli, em meio aos pinheiros e contemplando o vasto mar; à tarde ... fiz a volta de toda a baía ... até ... Porto Fino. Este lugar e esta paisagem tocaram-me o coração mais de perto pelo grande amor que nutria por eles o Imperador Frederico III... Nestes dois caminhos veio-me à mente o primeiro Zaratustra, sobretudo o próprio Zaratustra, como dpo: mais precisamente, ele me tomou de assalto.” Friedrich Nietzsche, Also sprach Zarathustra, Leipzig: Kröner, pp. XX-XXI. Confrontar com uma descrição do Forte do Taureau.
[J 74a, 4]
Nietzsche distingue sua “filosofia do meio-dia”  a doutrina do Eterno Retorno  dos primeiros estágios de seu pensamento: a filosofia da aurora e da manhã. Também ele conhece o “seccionamento do tempo” e suas grandes divisões. É legítimo perguntar se esta apercepção do tempo não foi um elemento do Jugendstil. Se assim fosse, talvez compreendêssemos melhor que o Jugendstil fez nascer, com Ibsen, um dos maiores técnicos do gênero dramático. 
[J 74a, 4]
 [...]
A moda fixa a cada instante o último padrão da empatia. 
[J 75, 3]
O desdobramento do trabalho no jogo pressupõe forças produtivas altamente desenvolvidas, como aquelas de que a humanidade dispõe apenas hoje, mas que são empregadas em sentido oposto ao de suas possibilidades, a saber: para o caso de emergência. Todavia, também em tempos de forças produtivas pouco desenvolvidas, a concepção criminosa da exploração da natureza, dominante desde o século XIX, não foi de forma alguma decisiva. Certamente ela não teve espaço enquanto a imagem predominante da natureza foi aquela da mãe dadivosa, de que Bachofen mostrou a importância para as sociedades matriarcais.64 Esta imagem sobreviveu, na figura da mãe, a todas as outras transformações da história. Porém, é evidente que esta imagem é mais confusa em épocas nas quais muitas mães se transformam, diante do filho, em agentes da classe social que dispõe da vida deste por interesses comerciais. Vários indícios sugerem que o segundo casamento da mãe de Baudelaire não se tornou mais aceitável a ele pelo fato de ela ter optado por um general. Este casamento provavelmente desempenhou um papel na evolução da vida pulsional do poeta e no fato de o modelo dele ter-se tornado a prostituta. Evidentemente, a prostituta é, por essência, a encarnação de uma natureza impregnada pela aparência de mercadoria. Ela até mesmo intensificou sua força de ofuscamento, porque no comércio com ela está incluído o prazer sempre fictício que deve corresponder àquele de seu parceiro. Em outras palavras: neste comércio, a própria capacidade de sentir prazer figura como valor — como o objeto de uma exploração tanto por ela quanto por seu cliente. Por outro lado, porém, coloca-se aqui, distorcida, mas em proporções desmedidas, a imagem de uma solicitude que se oferece a todos e não se deixa desencorajar por ninguém. Esta imagem foi captada pela luxúria idealizada e abstrata do poeta barroco Lohenstein em um sentido bastante próximo de Baudelaire: “Uma bela mulher feita de mil encantos, / Uma mesa farta que satisfaz a muitos. / Uma fonte inesgotável sempre a distribuir água a mão-cheia, / Até mesmo o doce leite do amor; ainda que, por cem condutos / Escoe a suave doçura.” (Daniel Caspers von Lohenstein, Agrippina, Leipzig, 1724, p. 33). O além da escolha, vigente entre mãe e filho, e o aquém da escolha entre a prostituta e seu cliente, encontram-se num único ponto. Este ponto caracteriza a situação pulsional de Baudelaire. (Cf. X 2, 1, Marx sobre a prostituição).
[J 75a]
[...]
A fórmula de LÉternité par les Astres  “É o novo sempre velho e o velho sempre novo”66  corresponde rigorosamente à experiência do spleen tal qual descrita em Baudelaire.  
[J 76, 2]
[...]
Com amarga ironia, Blanqui demonstra o que seria uma “humanidade melhor” em uma natureza que não pode ser melhorada.
[J 76,5]
[...]
No processo histórico que o proletariado impõe à classe burguesa, Baudelaire é uma testemunha, mas Blanqui é o perito.
[J 76a, 1]
Se Baudelaire for citado diante do tribunal da história, ele precisaria tolerar várias interrupções, pois o que motiva os questionamentos deste tribunal é determinado por interesses que lhe são, por diversos motivos, estranhos e incompreensíveis. Blanqui, ao contrário, se pronuncia sobre uma causa que sempre foi a sua. Por isso ele comparece como perito onde quer que ela seja debatida. Portanto, não e no mesmo sentido que Baudelaire e Blanqui são citados diante do tribunal da história.
[J 76a, 2]
Abandono do momento épico: um tribunal não é uma sala de fiandeiras. Ou melhor: a audiência acontece, mas nada é relatado.
[J 76a, 3]
O interesse que o historiador materialista nutre pelo ocorrido é, por um lado, sempre um interesse apaixonado pelo que já passou, pelo que está terminado e pelo totalmente morto. O pré-requisito indispensável para qualquer citação (vivificação) de partes deste fenômeno e de estar seguro, em geral e por inteiro, de seu caráter encerrado. Em uma palavra: para o interesse histórico específico  cuja legitimidade o historiógrafo materialista tem a incumbência de provar  precisa ser demonstrado, com sucesso, que se trata de um objeto eue. de forma inteira, efetiva e irrevogável, “pertence à história”. 
[J 76a, 4]
A comparação com Dante pode tanto servir de exemplo para a perplexidade dos primeiros comentadores de Baudelaire quanto como ilustração da formula atribuída a De Maistre, segundo a qual os primeiros julgamentos sobre um autor se perpetuam nas interpretações posteriores.
[J 76a, 5]
Aiem da comparação com Dante, a noção de decadência é a palavra-chave da recepção de Baudelaire. Ela se encontra em Barbey dAurevilly, Pontmartin, Brunetière, Bourget.
[J 76a, 6]
Para o dialético materialista, a descontinuidade é a idéia reguladora da tradição das classes dominantes (portanto, em primeiro lugar, da burguesia), a continuidade é a idéia reguladora da tradição dos oprimidos (portanto, principalmente, do proletariado). O proletariado vive mais lentamente do que a classe burguesa. Os exemplos de seus combatentes, os conhecimentos de seus líderes não envelhecem. Em todo caso, envelhecem muito mais lentamente do que as épocas e as grandes figuras da classe burguesa. As ondas da moda arrebentam-se na massa compacta dos oprimidos. Os movimentos da classe dominante, ao contrário, uma vez que chegou ao poder, possuem algo que tem a ver com a moda. As ideologias dos poderosos, em particular, sáo por natureza mais mutáveis que as idéias dos oprimidos. Pois elas não apenas têm que se adaptar, como as idéias destes últimos, a cada situação específica de conflito social, mas ainda tem que transfigurar essa situação como sendo, no fundo, harmoniosa. Neste negócio é preciso proceder de forma excêntrica e aos saltos  um procedimento que é, no sentido pleno da palavra, próprio da moda. “Salvar” as grandes figuras da burguesia, consiste principalmente em compreendê-las nesta parte mais débil e caduca de sua ação para, justamente extrair e citar aquilo que jazia discretamente sepultado sob ela, porque servia muito pouco aos poderosos. Confrontar Baudelaire e Blanqui significa retirar a venda que cobria a sua luz.
[J 77, 1]
62 O asno em questão é Luís Bonaparte, que acabou então de dissolver a Assembléia Nacional e o Conselho de Estado, fazendo-se proclamar o Imperador Napoleão III. O 18 Brumário (9 de novembro de 1799) é a data do golpe de Estado de Napoleão I, que extinguiu o Diretório e dissolveu o Conselho dos Quinhentos. (E/M) 
64 J. J. Bachofen, Das Mutterrecht (1861). (J.L.) 
66 Auguste Blanqui, LÉternité par les Astres, Paris, 1872, p. 74. (R.T.)
“Eu páro, de repente sinto cansaço. Adiante, ao que parece, começa a rápida descida, por todos os lados abismo — não ouso olhar. Nietzsche, WerkeGroße- und Kleinoktavausgabe, XII, p. 223 (cit. em Karl Löwith, Nietzsches Philosuphie der ewigen Wiederkunft des Gleichen, Berlim, 1935, p. 33).
[J 77a, 2]
[...]
A alegoria conhece muitos enigmas, porém, nenhum mistério. O enigma é um fragmento que, combinando com outro fragmento, forma um todo. O mistério, ao contrário, sempre foi evocado pela imagem do véu, este velho cúmplice da distância. A distância aparece velada. Ao contrário da pintura renascentista, por exemplo, a pintura barroca jamais se comprometeu com este véu. Mais do que isto, ela o rasga de maneira ostensiva e, como demonstram os afrescos de suas abóbadas, traz a própria distância celestial para uma proximidade que deve surpreender e confundir. Isto sugere que o grau de saturação aurática da percepção humana esteve sujeito a oscilações no decorrer da história. (No barroco, poderia-se-ia dizer, a disputa entre o valor de culto e o valor de exposição69 ocorreu, de múltiplas formas, dentro dos limites da arte sacra.) Mesmo que estas oscilações devam ainda ser explicadas  surge a hipótese de que épocas tendentes à expressão alegórica sofreram uma crise da aura.
[J 77a, 8]
[...]
No Barroco, o emblema  uma parte até então marginal da alegoria  é desenvolvido de forma exuberante. Enquanto a origem medieval da alegoria ainda precisa ser elucidada para o historiador materialista, encontra-se um indício para a compreensão de sua forma barroca no próprio Marx. Escreve ele em Das Kapital (Hamburgo, 1922, p. 344): “A máquina de operação combinada ... c tanto mais perfeita quanto mais contínuo for seu processo total, isto é, quanto menos for interrompido o processo pelo qual a matéria-prima passa da primeira fase à última, ou seja, quanto mais esta passagem for efetuada pela própria máquina e não pela mão humana. Se na manufatura o isolamento dos processos particulares é um princípio da própria divisão do trabalho, na fábrica plenamente desenvolvida, ao contrário, domina a continuidade ininterrupta destes mesmos processos.” Aqui se poderia encontrar a chave do procedimento barroco, que consiste em conferir significados ao fragmento, às partes, que provêm menos da decomposição do todo, quanto do processo de produção desse todo. Os emblemas barrocos podem ser concebidos como produtos semi-acabados que, de etapas de um processo de produção, tornaram-se monumentos de um processo de destruição. A “interrupção que, segundo Marx, caracteriza cada um dos estágios deste processo de trabalho podia estender-se por um tempo extremamente longo, na época da Guerra dos Trinta Anos, que paralisava a produção aqui, ou ali. Ora, o triunfo propriamente dito da emblemática barroca, cuja peça de cenário mais importante é a caveira, consistia em integrar o próprio ser humano neste processo. A caveira, na alegoria barroca, é um produto semi-acabado do processo da história da salvação, interrompido por Satã, sempre que lhe é dada a oportunidade.
[J 78, 4]
A ruína econômica de Baudelaire foi a conscqüência de uma luta quixotesca contra as circunstâncias que determinavam o consumo à sua época. O consumidor individual, que diante do artesão aparece como o comitente, figura como comprador no mercado, onde contribui para a liqüidação de um estoque de mercadorias sobre cuja produção seus desejos particulares não tiveram nenhuma influencia. Baudelaire quis impor tais desejos individuais não apenas com sua vestimenta — sendo a confecção, dentre todos os ramos de negócios, o que mais longamente tem de levar em conta os pedidos do consumidor individual —, mas quis estendê-los também a seu mobiliário e a outros objetos de uso cotidiano. Assim, veio a tornar-se dependente de um antiquário pouco escrupuloso que lhe fornecia mobília e quadros antigos, alguns dos quais se revelaram mais tarde falsificações. As dívidas que contraiu nestes negócios pesaram sobre ele até o fim de sua vida.
[J 78a, 1]
Definitivamente a imagem da inquietação petrificada, representada pela alegoria, é uma imagem histórica. Ela mostra as forças da Antigüidade e do Cristianismo subitamente paralisadas em sua disputa, petrificadas em plena batalha, quando esta ainda não fora decidida. Em seu poema à “musa doente”, Baudelaire, em versos perfeitos  que nada revelam da natureza quimérica de seu desejo , forneceu como imagem ideal da saúde da musa justamente aquilo que é uma formulação do distúrbio dela: Gostaria... /...que teu sangue cristão se derramasse em ondas rítmicas / Como os inúmeros sons das sílabas antigas. <OC I, pp. 14-15>
[J 78a, 2]
Independentemente da marca, em si mesma nova e original, que a alegoria tem na poesia de Baudelaire, aparece, subjacente à camada barroca, a camada fundadora medieval. Ela consiste naquilo que Bezold denominou de “sobrevivência dos deuses antigos no humanismo medieval”.70 A alegoria é a forma viável desta sobrevivência.
[J 79, 1]
No instante em que o processo de produção escapa das pessoas, abre-se diante delas o depósito — na loja de departamentos.
[J 79, 2]
Sobre a teoria do dandismo. A confecção é o ultimo ramo de negócios no qual o freguês ainda é tratado individualmente. História dos doze fraques. O papel do comitente tornase cada vez mais heróico.
[J 79, 3]
[...]
A propósito de “alquebrados pelos trabalhos” <OC I, p. 104>: Entre os saint-simonianos, o trabalho industrial aparece à luz do ato sexual; a idéia da alegria no trabalho e concebida segundo a imagem do prazer da procriação. Duas décadas mais tarde, a relação se inverteu: o próprio ato sexual é marcado pela falta de alegria que oprime o operário da indústria.
[J 79, 5]
Seria um erro considerar a experiência contida nas correspondances como simples equivalente de certas experimentações realizadas em laboratórios psicológicos com a sinestesia (a audição de cores ou a percepção visual de sons). Em Baudelaire, trata-se menos das conhecidas reações, em torno das quais a crítica de arte dos estetas ou dos esnobes fez tanto alarde, do que do medium no qual ocorrem tais reações. Este medium é a recordação, sendo que em Baudelaire cia teve uma densidade incomum. É nela que correspondem os dados dos sentidos que se encontram em correspondência; estão prenhes de recordações que afluem com tal densidade que não parecem se originar desta vida, e sim de uma vida anterior mais vasta e mais ampla. A esta vida fazem alusão os “olhares familiares” <OC I, p. 11> com os quais tais experiências olham aquele que foi por elas afetado.
[J 79, 6]
O que distingue basicamente o homem meditativo do pensador é o fato de que ele não medita a respeito de uma coisa, e sim a respeito de sua meditação sobre essa coisa. A situação do meditativo é a do homem que já encontrou a solução do grande problema, mas, em seguida, a esqueceu. E agora medita não tanto sobre a coisa, mas sobre a meditação que outro ra fez sobre ela. O pensamento do homem meditativo situa-se, pois, sob o signo da recordação. O meditativo e o alegorista são feitos da mesma matéria.
[J 79a, 1]
Se ... o partido parlamentar da ordem, na luta contra as outras classes da sociedade, destruiu com as próprias mãos todas as condições de seu próprio regime, do regime parlamentar; por outro lado, a massa extra-parlamentar da burguesia..., com o tratamento que deu a sua própria imprensa, exortava Bonaparte ... a aniquilar seus oradores e escritores, seus políticos e literatos, ... a fim de poder dedicar-se agora a seus negócios privados, com plena confiança, sob a proteção de um governo forte e absoluto. Karl Marx, Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte, ed. Rjazanov, Viena-Berlim, 1927, p. 100.
[J 79a, 2]
Baudelaire encontra-se tão isolado no mundo literário de seu tempo quanto Blanqui no mundo dos conspiradores.
[J 79a, 3]
Com o aumento das vitrines e sobretudo dos magasins de nouveautés, mostrou-se cada vez mais nitidamente a fisionomia da mercadoria. Baudelaire, por mais viva que fosse sua disposição sensitiva, jamais teria registrado este acontecimento, se este não tivesse agido como um imã sobre o “rico metal de nossa vontade” <OC I, p. 5>, sobre as jazidas minerais de sua fantasia. Seu modelo, a alegoria, de fato correspondia de maneira perfeita ao fetiche da mercadoria.
[J 79a, 4]
A postura do herói moderno, prefigurado no trapeiro: seu “andar aos trancos, o isolamento necessário em que se dedica a seu trabalho, o interesse que nutre pelos dejetos e pelos detritos da cidade grande. (Cf. Baudelaire, “De lhéröisme de la vie moderne”, vol. II, p. 135, <OC II, p. 495> “O espetáculo da vida...”)
[J 79a, 5]
A descoberta dos aspectos mecânicos do organismo é uma tendência obstinada do sádico. Pode-se dizer que o sádico visa atribuir a imagem da maquinaria ao organismo humano. Sade é filho de uma época que se encantou pelos autômatos. E o “homem-máquina” de La Mettrie é precursor da guilhotina, que comprovou de modo rudimentar as suas verdades. Em suas fantasias mais sangüinárias, Joseph de Maistre, a autoridade de Baudelaire em máteria de política, é um parente próximo do Marquês de Sade.
[J 80, 1]
A recordação do homem meditativo dispõe da massa desordenada do saber morto. Para ele, o saber humano é despedaçado em um sentido particularmente significativo: ou seja, como a quantidade de peças arbitrariamente recortadas a partir das quais se monta um puzzle. Uma época avessa à meditação conservou seu comportamento no puzzle. Este gesto é sobretudo o do alegorista. O alegorista pega uma peça aqui e ali do depósito desordenado que seu saber põe à sua disposição, coloca-a ao lado de uma outra e tenta ver se ambas combinam: aquele significado para esta imagem ou esta imagem para aquele significado. O resultado nunca pode ser previsto, pois não existe uma mediação natural entre os dois. Dá-se o mesmo com a mercadoria e o preço. As “argúcias metafísicas” nas quais se compraz a mercadoria, segundo Marx, são sobretudo as argúcias da estipulação do preço. Nunca se poderá saber ao certo por que tal mercadoria tem tal preço, nem no curso de sua fabricação, nem mais tarde quando ela se encontra no mercado. Ocorre exatamente o mesmo com o objeto em sua existência alegórica. Nenhuma fada determinou em seu nascimento qual o significado que lhe atribuirá a meditação absorta do alegorista. Porém, uma vez adquirido tal significado, este pode ser substituído por outro a qualquer momento. As modas dos significados mudam quase tão rapidamente quanto o preço das mercadorias. De fato, o significado da mercadoria é seu preço; como mercadoria, ela não possui nenhum outro significado. Por isso, o alegorista está em seu elemento com a mercadoria. Como flâneur, ele se identificou com a alma da mercadoria; como alegorista, reconhece na “etiqueta com o preço”, com a qual a mercadoria entra no mercado, o objeto de sua meditação: o significado. O mundo em cuja intimidade o faz ingressar este novíssimo significado, nem por isso se tornou mais amável. Um inferno se debate na alma da mercadoria, por mais que pareça que ela tenha encontrado no preço a sua paz.
[ J 80, 2 / J 80a, 1]
Sobre o fetichismo: “É possível que o símbolo da pedra represente apenas os aspectos mais óbvios da terra, enquanto elemento frio e seco. Mas é também concebível, e até provável..., que exista na massa inerte uma referência ao conceito teológico do melancólico, contido num dos pecados capitais: a acedia, <a inércia do coração>.” Walter Benjamin, Ursprung des deutschen Trauerspiels, Berlim, 1928, p. 151.71
[J 80a, 2]
Sobre a exploração da natureza (J 75, 2): nem sempre a exploração da natureza foi vista como o fundamento do trabalho humano. Com razão, Nietzsche achou significativo o fato de Descartes ter sido o primeiro físico filósofo a comparar as “descobertas de um cientista a uma seqüência de batalhas que se trava contra a natureza”. Cit. em Karl Löwith, Nietzsches Philosophie der ewigen Wiederkunft des Gleichen, Berlim, 1935, p. 121 (Nietzsche, WerkeGroße- und Kleinoktavausgabe, vol. XIII, p. 55).
[J 80a, 3]
Nietzsche considera Heráclito “um astro sem atmosfera”. Cit. em Lõwith, Nietzsches Philosophie, p. 1 10 (X, 45f).
[J 80a, 4]
[...]
A propósito do suicídio como marca da modernidade. “Não se pode condenar suficientemente o cristianismo, por ter depreciado ... o valor de um grande movimento de niilismo purificador, como talvez estivesse em curso: ... sempre através de um impedimento do ato do niilismo, o suicídio.” (Cit. em Löwith, Nietzsches Philosophie, p 108; XV 325 e 186).
[J 81, 1]
A propósito do abismo e de Tenho medo do sono como se tem medo de um grande buraco (Le gouffre <OC I, p. 143>), Nietzsche: “Conheceis o terror do homem prestes a adormecer? — Ele se aterroriza dos pés à cabeça porque o chão lhe escapa e começa o sonho.” Nietzsche, Zarathustra, ed. Kröner, Leipzig, p. 215.
[J 81, 2]
Comparação do rico tosão com a “Noite sem astros, Noite escura!”, verso final de “Les promesses d’un visage” <OC I, p. 163>.
[J 81, 3]
A especificidade da imprensa sensacionalista torna-se mais tarde a informação da bolsa. A pequena imprensa prepara esta informação da bolsa através do papel que confere às fofocas da cidade.
[J 81, 4]
Os outros conspiradores escondem a realidade ao conspirador, como as massas fazem com o flâneur.
[J 81, 5]
A propósito da fuga de imagens na alegoria. Ela freqüentemente privou Baudelaire de parte do benefício de suas imagens alegóricas. Uma coisa, sobretudo, falta no uso da alegoria em Baudelaire. Percebe-se isto quando se tem presente a grandiosa alegoria de Shelley sobre Londres: o terceiro canto de “Peter Bell the Third” <cf. M, 18>, no qual Londres é apresentada ao leitor como um inferno. A eficácia completa deste poema deve-se, em grande parte, ao fato de ser perceptível o impulso de Shelley de lançar mão da alegoria. Este impulso não ocorre em Baudelaire. Justamente este gesto, que faz sentir a distância entre o poeta moderno e a alegoria, permite integrar a esta as realidades mais imediatas. O poema de Shelley dá o melhor exemplo da maneira direta com que isto pode acontecer. Nele figuram oficiais de justiça, parlamentares, especuladores da bolsa e muitos outros tipos. A alegoria, cujo caráter arcaizante é enfatizado, dá-lhes uma firme consistência, que falta, por exemplo, aos homens de negócio no poema “Le crépuscule du soir”, de Baudelaire. — Shelley domina a alegoria, Baudelaire é dominado por ela.
[J 81, 6]
[...]
A propósito da introdução da heroína: a Antigüidade de Baudelaire é a Antigüidade romana. Em um único lugar aparece a Antigüidade grega cm seu universo. Esta é de fato insubstituível. A Grécia concede-lhe aquela imagem da heroína que lhe pareceu digna e capaz de ser transposta para a modernidade. Nomes gregos dão o título <?> a um de seus maiores poemas: “Delphine et Hippolyte” <OC I, p. 152>. Os traços da heroína são determinados, com efeito, pelo amor lésbico.
[J 81a, 2] 

Deusa da vitória, 408 a.C., Museu da Acrópole

Museu arqueológico de Atenas • Εθνικό Αρχαιολογικό Μουσείο

 

Athena, Parthenos, 447-432 a.C.
cópia em mármore, e reduzida, do original em madeira.
Museu arqueológico nacional Atenas 

 
 
 

Museu de Delfos:

 

Museu Arqueológico, Delfos

Auriga. Escultura de atleta Olímpico descoberto em escavações. 475 a.C. Museu arqueológico, Delfos

 

Museu de Arte Cicládica • Μουσείο Κυκλαδικής Τέχνης • Atenas • 

 [...]
Cidade. Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole tida como moderna, porque todo gosto conhecido foi eludido nos mobiliários e no exterior das casas tanto quanto no plano da cidade. Aqui você não perceberia os traços de nenhum monumento de superstição. Em suma: a moral e a língua são reduzidas à sua expressão mais simples. Essas milhões de pessoas, que não têm necessidade de se conhecerem, lidam com a educação, a profissão e a velhice de forma tão semelhante, que seu tempo de vida deve ser muitas vezes menos longo que aquele atribuído por uma estatística desvairada aos povos do continente.” Arthur Rimbaud, Œuvres, Paris, 1924, pp. 229-230 (Les Illuminations) . Desencantamento da “modernidade”!
[J 82, 3]
“Os criminosos enojam como castrados.” Arthur Rimbaud, Œuvres, 1924, p. 258 (Une Saison en Enfer, “Mauvais sang”).
[J 82, 4]
A modernidade, nesta obra, é o mesmo que a marca registrada em um talher ou em um instrumento óptico. Este pode ser tão durável quanto quiser; se a firma de onde provém deixar de existir, ele dá a impressão de ser obsoleto. Ora, a intenção explícita de Baudelaire era impregnar a sua obra com uma marca registrada. Seu propósito era “criar um poncif”. E talvez não haja para Baudelaire glória maior do que ter imitado, ter reproduzido com sua obra, este estado de coisas, um dos mais profanos da economia de mercado. Talvez seja esta a realização maior de Baudelaire e, certamente, trata-se de uma realização consciente — a de ter envelhecido tão rapidamente, conservando uma durabilidade tão grande.
[J 82, 6 / J 82a, 1]
A atividade dos conspiradores pode ser considerada uma espécie de dépaysement, tal como o criaram a monotonia e o terror do Segundo Império também sob outros aspectos.
[J 82a, 2]
As fisiologias foram o primeiro espólio que o flâneur trouxe do mercado. Por assim dizer, ele foi organizar sua coleção de botânica no asfalto.
[J 82a, 3]
Para a modernidade, a antigüidade é como um pesadelo que lhe veio durante o sono.
[J 82a, 4]
Durante grande parte do século passado, a Inglaterra permaneceu a grande escola do conhecimento social. De lá, Barbier trouxera o ciclo de poemas intitulado Lazare, Gavarni, a seqüência O que se pode ver de graça em Londres e o personagem Thomas Vireloque, a ffigura do homem caído em miséria sem qualquer esperança.
[J 82a, 5]
 
69 Cf. as considerações de Benjamin sobre o valor de culto (Kultwert) e o valor de exposição (Ausstellungswert) em Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit, GS I, 443-445; A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, OE I, pp. 172-174. (J.L.; w.b.) 
70 Friedrich von Bezold, Das Fortleben der antiken Götter im mittelalterlichen Humanismus, Bonn / Leipzig, 1922. (R.T.) 
71 GS I, 332; ODBA, p. 177 (R.T.; w.b.)  
A observação de Lotze sobre o trabalhador, que não mais maneja a ferramenta mas opera a máquina, presta-se a esclarecer o comportamento do consumidor em relação à mercadoria produzida nestas condições. “Nos produtos acabados, em cada detalhe de sua forma, ele podia ainda reconhecer a força e a precisão dos movimentos que ele investiu, trabalhando em sua fabricação. A participação do homem no trabalho das máquinas limita-se, ao contrário, a ... movimentos manuais que de imediato não dão forma a coisa alguma, mas apenas concedem a um mecanismo mal conhecido uma oportunidade incompreendida para realizações invisíveis. Hermann Lotze, Mikrokosmos, vol. III, Leipzig, 1864, pp. 272-273.
[J 83a, 2]
A alegoria, como signo claramente distinto de seu significado, ocupa seu lugar na arte como antagonista da bela aparência, na qual significado c significante se misturam. Se esta aspereza da alegoria desaparece, ela perde sua autoridade. E o caso da pintura de gênero. Ela introduz um elemento de “vida” nas alegorias, que agora irão fanar como flores. Sternberger fez menção a este fato (Panorama , Hamburgo, 1938, p. 66): “a alegoria que se tomou aparentemente viva, que sacrificou sua duração e rigorosa validade pelo prato de lentilhas” da vida,72 aparece com razão como uma criação da pintura de gênero. No Jugendstil parece ter início um processo inverso. A alegoria recupera a sua aspereza.
[J 83a, 3]
Sobre a observação de Lotze, vista acima: O ocioso, o flâneur, que nada mais entende da produção, quer tornar-se o perito do mercado (dos preços).
[J 83a, 4]
“Os capítulos ‘Perseguição’ e Assassinato’ do Poeta Assassine, de Apollinaire, contêm a famosa descrição de um pogrom contra os poetas. As editoras são assaltadas, os livros de poemas atirados ao fogo, os poetas, massacrados. E as mesmas cenas se repetem ao mesmo tempo ma mundo inteiro. Em Aragon, a Imaginação’, ao pressentir tais atrocidades, conclama seus adeptos para uma última cruzada.” Walter Benjamin, “Der Sürrealismus”, Die literarische, V, 7, 15 fev. 1929.73

72 Cf. a história de Esaú e Jacó em Gênesis 25: 29-34. (E/M)

73 GS II, 303; cf OE I, p. 29 e DCDB, p. 1 11. (R.T.; w.b.)
Comparação entre Blanqui e Baudelaire, em parte, a partir de formulações de Brecht:74 a derrota de Blanqui foi a vitória de Baudelaire  a da pequena burguesia. Blanqui sucumbiu, Baudelaire teve sucesso. Blanqui aparece como figura trágica; sua traição possui grandeza trágica; foi vencido pelo inimigo interior. Baudelaire aparece como figura cômica: como o galo cuio estridente canto triunfal anuncia a hora da traição.
[J 84a, 2]
[...]
Baudelaire reúne a pobreza do trapeiro, o sarcasmo do malandro, o desespero do parasita.
[J 84a, 4] 
74 B. Brecht, Gesammelte Werke in acht Bànden, vol. VIII, pp. 408-410 ("Die Schõnheit in den Gedichten des Baudelaire"). - Também as observações em J 84a, 3 e J 84a, 4 são derivadas de formulações de Brecht: cf. op. c/f., pp. 410 e 408. (R.T.)
m uma passagem significativa de Joseph de Maistre, não apenas aparece a alegoria, expressando sua proveniência satânica, de acordo com a perspectiva posterior de Baudelaire, como também aparecem as correspondances — inspiradas pelo misticismo de Saint- Martin ou de Svedenborg. Elas constituem, de maneira reveladora, uma oposição à alegoria. O texto encontra-se no oitavo diálogo das Soirées e diz o seguinte: “Pode-se formar uma idéia perfeitamente justa do universo, vendo-o sob o aspecto de um vasto gabinete de história natural abalado por um terremoto. A porta está aberta e quebrada; não há mais janelas; armários inteiros estão por terra, outros pendurados ainda em travas prestes a se soltar. Conchas rolaram na sala dos minerais, e o ninho de um colibri repousa na cabeça de um crocodilo. Entretanto, que insensato poderia duvidar da intenção primitiva, ou pensar que o edifício fosse construído nesse estado?... A ordem é tão visível quanto a desordem; e o olhar, passeando por esse vasto templo da natureza, reconstitui, sem dificuldade, tudo o que um agente funesto quebrou, ou falseou, ou sujou, ou deslocou. Há mais: olhai de perto e logo reconhecereis a presença de uma mão reparadora. Algumas vigas estão reforçadas; abriram-se caminhos entre os escombros; e, em meio à confusão geral, uma quantidade de análogos já retomaram seu lugar e se tocam.”76 
[J 86, 2] 
[...] 
O conspirador profissional e o dândi encontram-se na noção do herói moderno. Este herói representa, para si mesmo e em sua própria pessoa, toda uma sociedade secreta. 
[J 87, 2]
[...]
A propósito do “estudo”: “A carne é triste, ai! e já li todos os livros.” Mallarmé, Poésies, Paris, 1917, p. 43 (“Brise marine”).
[J 87 , 5] 
[...]
Baudelaire menciona [onde?] “o hábito de deixar passar os anos, deixando sempre as coisas para depois”.
[J 87, 7]
[...]
Sobre o ócio. “Hércules ... também trabalhou..., mas o objetivo de sua carreira sempre foi um nobre ócio e por isso chegou ao Olimpo. Não foi o caso de Prometeu, o inventor da educaçáo e do Iluminismo... Por ter induzido os homens ao trabalho, ele também tem que trabalhar, queira ou não. Ele ainda sentirá muito tédio e nunca se libertará de suas correntes. Friedrich Schlegel, Lucinde, Lripzig, pp. 34-35 (“Idylle über den Müßiggang (Idílio sobre o ócio”))
[J 87a, 1]
[...]
“Entretanto, demônios doentios na atmosfera

Despertam pesadamente, como homens de negócio <OC I, p. 94>

— Deve ser permitido reconhecer, aqui, uma reminiscência da descrição da multidão por Poe.
[J 87a, 5]
 [...]
Diferentemente de Cabet, de Fourier e dos fantasiosos utopistas saint-simonianos, só se pode imaginar Blanqui em Paris. Também ele só vê a si mesmo e à sua obra em Paris, lado oposto, a concepção de Proudhon relativa às grandes cidades (A 11a, 2).
[J 87a, 7]
Extratos do prefácio escrito por Pyat para a edição de 1884 do Chijfonnier de Paris (O trapeiro de Paris). São importantes como referência indireta às relações entre a obra de Baudelaire e o socialismo radical. “Esse drama penoso, mas salutar ... não foi, aliás, senão a evolução lógica de meu pensamento, precedendo... a própria evolução do povo... É o pensamento republicano na minha primeira peça. Une révolution dautrefois (Uma revolução de outrora); republicano democrático em Ango, le marin (Ango, o marinheiro); democrático e social em Les deux serruriers (Os dois serralheiros), Diogène e Le chiffonnier: pensamento sempre progressivo em direção ao ideal, tendendo ... a completar a obra de 89... Sem dúvida, a unidade nacional foi realizada...! a unidade política também...! Mas a unidade social resta por fazer. Há ainda duas classes não tendo em comum senão o ar natal ... e não podendo estar unidas senão pela estima e pelo amor. Quantos franceses ricos esposam francesas pobres? Aí está o problema... Voltemos a Jean... Concebi esse drama na prisão, onde estava condenado em 44, por ter vingado a República contra a Monarquia. Sim, é um produto da prisão, como esses outros protestos populares: Dom Quixote e Robinson. Jean tem pelo menos isso em comum com essas obras-primas que não envelhecem. Eu concebi essa peça na mesma noite da representação da peça anterior, Diogène, que foi encenada enquanto eu estava atrás das grades. Por uma seqüência direta de idéias, o Cínico me sugeriu Le chiffonnier; a lanterna do filósofo, a vela do pária; o barril, o cesto de vime; o desinteresse por Atenas, o devotamento por Paris. Jean era o Diógenes de Paris, como Diógenes, o Jean de Atenas. A inclinação natural de meu espírito me levava ao povo; sou atraído pela massa; minha poética, sempre de acordo com minha política, nunca separou o autor do cidadão. A arte, a meu ver ... não a arte pela arte, mas a arte para a humanidade, devia ... culminar no povo. A arte, na verdade, segue o soberano, começando pelos deuses, continuando pelos reis, os nobres e os burgueses, e terminando no povo. E a iniciativa para esse fim, em Les serruriers, devia chegar, em princípio, em seu próprio centro de gravidade, no Chiffonnier. Logo, enquanto a arte burguesa ... brilhava em Hernani, Ruy Blas e outros enamorados de rainhas..., a arte republicana ... anunciava uma outra dinastia, a dos trapeiros... E em 24 de fevereiro, ao meio-dia, depois da vitória, o drama dos “trapos” foi representado gratuitamente diante do povo vencedor e armado. E nessa representação memorável que o ator ... reencontrou a coroa no cesto de vime. Que dia! Efeito indescritível! Autor, atores, diretor e espectadores, todos juntos, de pé, aplaudindo ao som da Marselhesa, ao som dos canhões... Falei do nascimento e da vida de Jean. Eis sua morte. Jean caiu como a República sob o golpe de dezembro. O drama teve a honra de ser condenado, assim como o autor, que pôde vê-lo aplaudido em Londres, em Bruxelas, por toda pane, exceto em Paris. Assim, numa sociedade baseada na família — quando tinham campo livre ... o direito ao incesto, em René, o direito ao adultério, em Antony, o direito ao bordel, em Rola —, o direito à família era proscrito pelos salvadores da família e da Sociedade.” Félix Pyat, Le Chiffonnier de Paris: Drame en Cinq Actes, Paris, 1884, pp. IV-VIII.
[J 88 / J 88a, 1]
[...]
Retrato de Blanqui por Cassou: “Blanqui era feito para agir sem declamação nem sentimentalismo, apreendendo em cada circunstância o que é estritamente real e autêntico. Mas a obscuridade, a pobreza e a fraqueza da circunstância obrigaram-no a agir apenas à força, por golpes estéreis e a se confinar na prisão. Ele se sabe condenado a uma postura puramente preparatória e simbólica, uma atitude de paciência nas trevas e nos grilhões. E toda sua vida se passará assim. Ele se tornará um velho amarelado e desvairado. Mas não será vencido. Ele não pode ser vencido.” Jean Cassou, Quarante-huit, Paris, 1939, p. 24.
[J 89, 1]
A propósito de Hugo, mas também de “Les petites vieilles” (ambos não citados por Cassou): “Pois esta é mesmo a novidade do século romântico: a aparição escandalosa do Sátiro à mesa dos deuses, a manifestação pública dos seres sem nome, sem possibilidade de existência, os escravos, os negros, os monstros, a aranha, a urtiga.” Jean Cassou, Quarante-huit, Paris, 9. p. 27. (Pode-se pensar aqui também na descrição de Marx do trabalho infantil na Inglaterra.)
[J 89,2] 
76 Joseph De Maistre, Œuvres Complètes, vol. V, Lyon, 1884, pp. 102-103. (R.T.) 
Fazer uma comparação entre o trapeiro e as condições de vida na Inglaterra, como Marx as descreve em O Capital no capítulo “A manufatura moderna” (ed. Korsch, Berlim, 1932, p. 438).
[J 89a, 4]
 [...]
Na teoria da arte de Baudelaire, o motivo do choque não intervém apenas como máxima da prosódia. Pelo contrário, o mesmo motivo está em jogo quando Baudelaire apropria-se da teoria de Poe relativa ao significado da surpresa na obra de arte. — Sob outra perspectiva, o motivo do choque aparece na “gargalhada sarcástica do inferno”, que faz com que o alegonsca se sobressalte e interrompa suas meditações.
[J 90, 2] 
[...]
Na introdução à publicação de uma das Nouvelles Histoires Extraordinaires, em LIllustration de 17 de abril de 1852, Baudelaire caracteriza os domínios de interesse de Poe, citando, entre outros, a “análise dos excêntricos e dos párias da vida sublimar (Charles Baudelaire, Œuvres Complètes, ed. Crépet, Traductions: Nouvelles Histoires Extraordinaires, Paris, 1933, p. 378 <OC II, p. 289>). A expressão corresponde de modo surpreendente ao auto-retrato que Blanqui incorporou à LÉternité par les Astres, por assim dizer, à maneira de uma imagem oculta dentro de outra imagem (Vexierbild): “Blanqui ... reconhecia ser ele mesmo o pária’ de uma época.” Maurice Dommanget, Auguste Blanqui à Belle-Ile, Paris, 1935, pp. 140-141.  
[J 91a, 2] 
[...]
A proclamação da igualdade como princípio da constituição representou desde o início não apenas um progresso para o pensamento, mas também um perigo. (Max Horkheimer, “Materiahsmus und Moral”, Zeitschrift für Sozialforschung, 1933, n° 2, p. 188). Na zona  deste perigo situam-se as uniformidades absurdas na descrição da multidão por Poe; as alucinações dos sete anciãos são da mesma estirpe.
[J 92, 3]
É somente enquanto mercadoria que a coisa exerce o efeito de alienar os homens uns em relação aos outros. Ela exerce essa influência através de seu preço. A empatia com o valor de troca da mercadoria, com seu substrato de igualdade  eis o elemento decisivo. (A absoluta igualdade qualitativa do tempo, no qual se desenrola o trabalho que produz o valor de troca, é o fundo cinzento a partir do qual se destacam as cores berrantes da sensação.)
[J 92, 4]
Sobre o spleen. Blanqui, em 16 de setembro de 1835, a Lacambre: “Do verdadeiro Império dos Mortos, as notícias seriam certamente mais interessantes do que deste triste vestíbulo do Reino das almas, onde estamos de quarentena. Nada tão lamentável como esta existência de prisioneiros agitando-se e girando no fundo de um bocal como aranhas procurando uma saída.” Maurice Dommanget, Blanqui à Belle-Ile, Paris, 1935, p. 250.
[J 92, 5]
 
K
[Cidade de Sonho, Sonhos de Futuro, Niilismo Antropológico, Jung]
 “Biblioteca onde os livros se fundiram uns nos outros e os títulos se apagaram.
Doutor Pierre Mabille,
 Préface à IÉloge des Préjugés Populaires, Minotaure, II, n° 6, inverno de 1935, p. 2.
O despertar como um processo gradual que se impõe na vida tanto do indivíduo quanto das gprações. O sono é seu estágio primário. A experiência da juventude de uma geração tem iito em comum com a experiência do sonho. Sua configuração histórica é configuração ca. Cada época tem um lado voltado para os sonhos, o lado infantil. Para o século passado, isto aparece claramente nas passagens. Porém, enquanto a educação de gerações "ores interpretava esses sonhos segundo a tradição, no ensino religioso, a educação atual se simplesmente à distração das crianças. Proust pôde surgir como um fenômeno sem lentes apenas em uma geração que perdera todos os recursos corpóreo-naturais da oração e que, mais pobre do que as gerações anteriores, estivera abandonada à própria e, por isso, conseguira apoderar-se dos mundos infantis apenas de maneira solitária, e patológica. O que é apresentado a seguir é um ensaio sobre a técnica do despertar, tentativa de compreender a revolução dialética, copernicana, da rememoração.
[K 1, 1]
A revolução copernicana na visão histórica é a seguinte: considerava-se como o ponto fixo “o ocorrido” e conferia-se ao presente o esforço de se aproximar, tateante, do conhecimento desse ponto fixo. Agora esta relação deve ser invertida, e o ocorrido, tornar-se a reviravolta dialética, o irromper da consciência desperta. Atribui-se à política o primado sobre a história. Os fatos tornam-se algo que acaba de nos tocar, e fixá-los é tarefa da recordação. E, de fato, o despertar é o caso exemplar da recordação: o caso no qual conseguimos recordar aquilo que é mais próximo, mais banal, mais ao nosso alcance. O que Proust quer dizer com a mudança experimental dos móveis no estado de semidormência matinal,1 o que Bloch percebe como a obscuridade do instante vivido, nada mais é do que aquilo que se estabelecerá aqui no plano da história, e coletivamente. Existe um saber ainda  não-consciente do ocorrido, cuja promoção tem a estrutura do despertar.
[K 1, 2] 
1 0 texto de Proust é citado em K 8a, 2. (J.L.)
Existe uma experiência da dialética totalmente singular. A experiência compulsória, drástica, que desmente toda “progressividade” do devir e comprova toda aparente “evolução” como reviravolta dialética eminente e cuidadosamente composta, é o despertar do sonho. Para o esquematismo dialético, que está na base deste processo, os chineses encontraram freqüentemente em sua literatura de contos maravilhosos e novelas expressões altamente acertadas. O método novo, dialético, de escrever a história apresenta-se como a arte de experienciar o presente como o mundo da vigília ao qual se refere o sonho que chamamos de o ocorrido. Elaborar o ocorrido na recordação do sonho!  Quer dizer: recordação e despertar estão intimamente relacionados. O despertar é, com efeito, a revolução copernicana e dialética da rememoração.
[K 1, 3]
O século XIX, um espaço de tempo [Zeitraum] (um sonho de tempo [Zeit-traum]), no qual a consciência individual se mantém cada vez mais na reflexão, enquanto a consciência coletiva mergulha em um sonho cada vez mais proliindo. Ora, assim como aquele que dorme  e que nisto se assemelha ao louco  dá início à viagem macrocósmica através de seu corpo, e assim como os ruídos e sensações de suas próprias entranhas, como a pressão arterial, os movimentos peristálticos, os batimentos cardíacos e as sensações musculares - que no homem sadio e desperto se confundem no murmúrio geral do corpo saudável — produzem, graças à inaudita acuidade de sua sensibilidade interna, imagens delirantes ou oníricas que traduzem e explicam tais sensações, assim também ocorre com o coletivo que sonha e que, nas passagens, mergulha em seu próprio interior. É a ele que devemos seguir, para interpretar o século XIX, na moda e no reclame, na arquitetura e na política, como a consequência de suas visões oníricas. 
[K 1, 4]
[...]
É notável o fato de que as construções nas quais o especialista reconhece antecipações da arquitetura atual não pareçam ter nada de precursor aos olhos de um observador atento, mas não versado em arquitetura, e que, ao contrário, tenham para ele um aspecto especialmente antiquado, como pertencentes a um sonho. (Velhas estações de trem, ações de gás, pontes.)
[K 1a, 4]
“O século XIX: mistura singular de tendências individualistas e coletivistas. Como nenhuma época anterior, ele cola em todas as ações a etiqueta individualista (o Eu, a Nação, a Arte), mas, subterraneamente, nos mais desprezados domínios cotidianos, ele precisa criar, como em uma vertigem, os elementos para uma configuração coletiva... Eis a matéria-prima de que devemos nos ocupar: construções cinzentas, mercados cobertos, lojas de departamentos, exposições.” Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich, Leipzig-Berlim, p. 15.
[K 1a, 5]
Não só as formas em que se manifestam os sonhos coletivos do século XIX não podem ser negligenciadas, não só elas o caracterizam de maneira muito mais decisiva do que aconteceu em qualquer século anterior: elas são também — se bem interpretadas — da maior importância pratica, permitindo-nos conhecer o mar em que navegamos e a margem da qual nos afastamos. É aqui, em suma, que precisa começar a “crítica ao século XIX. Não a crítica ao seu mecanismo e maquinismo, e sim ao seu historicismo narcótico e a sua mania de se mascarar, na qual existe, contudo, um sinal de verdadeira existência histórica, que os surrealistas foram os primeiros a captar. Decifrar este sinal é a proposta da presente pesquisa. E a base revolucionária e materialista do Surrealismo é uma garantia suficiente para o fato de que, no sinal da verdadeira existência histórica, de que se trata aqui, o século XIX fez sua base econômica alcançar sua mais alta expressão.
[K 1a, 6]
 

Tentativa de avançar a partir das teses de Giedion. Ele diz: A construção desempenha no século XIX o papel do subconsciente.”3 Não seria melhor dizer: “o papel do processo corpóreo”, em torno do qual se colocam as arquiteturas “artísticas” como os sonhos em torno do arcabouço do processo fisiológico? 

[K 1a, 7]

O capitalismo foi um fenômeno natural com o qual um novo sono, repleto de sonhos, recaiu sobre a Europa e, com ele, uma reativação das forças míticas.

[K 1a, 8]

Os primeiros estímulos do despertar aprofundam o sono.


[K 1a, 9]

“É estranho, além do mais, constatar que, ao observar este movimento intelectual em seu conjunto, Scribe tenha sido o único a tratar do presente de forma direta e profunda. Todos os outros ocupam-se mais com o passado do que com os poderes e interesses que põem em movimento seu próprio tempo... Foi igualmente do passado, da história da filosofia, que a doutrina eclética tirou suas forças; e foi finalmente a história da literatura, cujos tesouros a crítica descobriu com Villemain, sem aprofundar-se na vida literária de sua própria época.” Julius Meyer, Geschichte der modernen franzosischen Malerei, Leipzig, 1867, pp. 415-416.

[K2, 1]

O que a criança (e na lembrança esmaecida, o homem) encontra nas dobras dos velhos vestidos, nas quais ela se comprimia ao agarrar-se às saias da mãe - eis o que estas páginas devem conter. ■ Moda ■

[K 2, 2]

Diz-se que o método dialético consiste em levar em conta, a cada momento, a respectiva situação histórica concreta de seu objeto. Mas isto não basta. Pois, para esse método, é igualmente importante levar em conta a situação concreta e histórica do interesse por seu objeto. Esta situação sempre se funda no fato de o próprio interesse já se encontrar préformado naquele objeto e, sobretudo, no fato de ele concretizar o objeto em si, sentindo-o elevado de seu ser anterior para a concretude superior do ser agora (do ser desperto!). A questão de como este ser agora (que é algo diverso do ser agora do “tempo do agora”, já que é um ser agora descontínuo, intermitente) já significa em si uma concretude superior, entretanto, não pode ser apreendida pelo método dialético no âmbito da ideologia do progresso, mas apenas numa visão da história que ultrapasse tal ideologia em todos os aspectos. Aí deveria se falar de uma crescente condensação (integração) da realidade, na qual tudo o que é passado (em seu tempo) pode adquirir um grau mais alto de atualidade do que no próprio momento de sua existência. O passado adquire o caráter de uma atualidade superior graças à imagem como a qual e através da qual é compreendido. Esta perscrutação dialética e a presentificação das circunstâncias do passado são a prova da verdade da ação presente. Ou seja: ela acende o pavio do material explosivo que se situa no ocorrido (cuja figura autêntica é a moda). Abordar desta maneira o ocorrido significa estudálo não como se fez até agora, de maneira histórica, mas de maneira política, com categorias Dolíticas. ■ Moda ■

[K 2, 3]

O despertar iminente é como o cavalo de madeira dos gregos na Tróia dos sonhos.

[K 2. 4]

Sobre a doutrina da superestrutura ideológica. A primeira vista, parece que Marx pretendia somente estabelecer uma relação causal entre superestrutura e infra-estrutura. Mas a observação de que as ideologias da superestrutura refletem as condições de maneira falsa e deformada já vai além. A questão é, de fato, a seguinte: se a infra-estrutura determina de certa forma a superestrutura no material do pensamento e da experiência, mas se esta determinação não se reduz a um simples reflexo, como ela deve então ser caracterizada, independentemente da questão da causa de seu surgimento? Como sua expressão. A superestrutura é a expressão da infra-estrutura. As condições econômicas, sob as quais a sociedade existe, encontram na superestrutura a sua expressão — exatamente como o estômago estufado de um homem que dorme, embora possa “condicioná-lo” do ponto de vista causal, encontra no conteúdo do sonho não o seu reflexo, mas a sua expressão. O coletivo expressa primeiramente suas condições de vida. Estas encontram no sonho a sua expressão e no despertar a sua interpretação.

[K 2, 5]

O Jugendstil — uma primeira tentativa de confrontação com o ar livre. Ele encontra uma primeira expressão característica, por exemplo, nos desenhos da revista Simplizissimus, que mostram claramente como era preciso recorrer à sátira para se conseguir respirar. Por outro lado, o Jugendstil pôde se desenvolver naquela luminosidade e naquele isolamento artificiais nos quais o reclame apresenta seus objetos. Este nascimento do “ar livre” a partir do espírito do intérieur é a expressão sensível da situação do Jugendstil do ponto de vista da filosofia da história: ele significa sonhar que despertamos. ■ Reclame ■

[K 2, 6]

Assim como a técnica mostra a natureza em uma perspectiva sempre nova, assim também, mo que toca ao homem, ela mobiliza de forma sempre variada seus mais primitivos afetos, angústias e imagens de desejo [Sehnsuchtsbilder]. Neste trabalho, quero conquistar para a história primeva uma parte do século XIX. A face atraente e ameaçadora da história primeva aparece claramente para nós nos primórdios da técnica, no estilo de morar do século XIX; naquilo que está temporalmente mais próximo de nós, essa face ainda não se revelou. Ela aparece mais intensamente na técnica  em razão da causa natural desta  do que em domínios. E por isso que fotografias antigas —diferentemente do que acontece com gravuras antigas — possuem algo de espectral.

[K 2a, 1]

Sobre quadro de Wiertz, Pensamentos e visões de um decapitada, e sua explicação. A primeira que chama a atenção nesta experiência magnetopática é o salto magnífico que a ência dá na morte. “Estranho! Aqui debaixo do cadafalso está a cabeça no chão, pensando que ainda está em cima, acredita que ainda faz parte do corpo, ainda está esperando o golpe que deve separá-la do tronco. A. J. Miertz., Œuvres Littéraires, Paris, 1870, p. 492. Trata-se, em Wiertz, da mesma inspiração que permitiu a Bierce criar a grandiosa narrativa do rebelde que é enforcado. No instante de sua morte, este rebelde vive a fuga que o liberta de seus carrascos.5

[K 2a, 2]

Cada corrente de moda ou de visão do mundo tem seu declive determinado por aquilo que caiu no esquecimento. O declive é tão forte que normalmente só o grupo pode se entregar a ele; o indivíduo — o precursor — corre o risco de sucumbir sob a violência da correnteza, como ocorreu com Proust. Em outras palavras: o que Proust, enquanto indivíduo, viveu em termos de fenômeno da rememoração, nós somos obrigados a experimentar (em relação ao século XIX) como “corrente”, “moda”, “tendência”  como uma espécie de castigo pela indolência que nos impediu de assumirmos esta rememoração.

[K 2a, 3]

A moda, como a arquitetura, situa-se na penumbra do instante vivido, pertence à consciência onírica do coletivo. Este desperta, por exemplo, no reclame.

[K 2a, 4]

“Muito interessante..., observar como a influência do fascismo no domínio da ciência teve que modificar justamente aqueles elementos em Freud que provinham ainda do período iluminista e materialista da burguesia... Em Jung, ... o inconsciente ... não é mais individual — não é, portanto, um estado adquirido no homem ... isolado — , e sim um tesouro da humanidade primitiva, que volta a ser atual; tampouco seria um recalque, mas um bem-sucedido retorno.” Ernst Bloch, Erbschaft dieser Zeit, Zurique, 1935, p. 254.

[K 2a, 5]

Índice histórico da infância segundo Marx. Em sua dedução do caráter normativo da arte grega (como arte nascida da infância da espécie humana), Marx diz: “Cada época não vê reviver, na natureza da criança, seu próprio caráter em sua forma verdadeira e natural?” Cit. em Max Raphael, Proudhon, Marx, Picasso, Paris, 1933, p. 175.

[K 2a, 6]

Mais de um século antes de tornar-se plenamente manifesta, a tremenda intensificação do ritmo da vida anuncia-se no ritmo da produção, mais precisamente na forma da maquina. “O número de instrumentos de trabalho com os quais o homem pode operar ao mesmo tempo é limitado pelo número de seus instrumentos naturais de produção, seus próprios órgãos corporais... A Jenny, ao contrário, tece desde o início com doze ou dezoito fusos; o tear de meias tece com milhares de agulhas de uma só vez etc. Desde o início, o numero de instrumentos com os quais trabalha simultaneamente a mesma máquina de operações independe do limite orgânico que restringe o instrumento artesanal de um operário.” Karl Marx, Das Kapital, vol. I, Hamburgo, 1922, p. 337. O ritmo do trabalho mecanizado tem como conseqüência modificações no ritmo da economia. Neste pais, o ponto essencial e fazer fortuna no menor tempo possível. Antigamente, o projeto de fazer fortuna de uma empresa começada pelo avô somente era concluído pelo neto. Hoje, as coisas não são mais assim; todo mundo quer fruir sem esperar, sem ter paciência.” Louis Rainier Lanfranchi, Voyage à Paris, ou Esquisses des Hommes et des Choses dans Cette Capitale, Paris, 1830, p. 110.

[K 3 , 1]

Também a simultaneidade, esta base do novo estilo de vida, provém da produção mecânica: “Cada máquina, em sua parte, fornece matéria-prima à máquina seguinte e, como todas dias funcionam simultaneamente, o produto se encontra assim constantemente tanto nos diversos graus de seu processo de fabricação quanto na transição de uma fase de produção à outra... A máquina de operação combinada, agora um sistema articulado de diferentes máquinas isoladas e de grupos de máquinas, é tanto mais perfeita quanto mais contínuo for seu processo total, isto é, quanto menos interrupções ocorrerem na passagem da matéria-prima da primeira à última fase de produção, portanto quanto mais o mecanismo, e não a mão humana, conduzir o material de uma fase de produção à outra. Se o princípio da manufatura é o isolamento dos processos particulares pela divisão do trabalho, na fábrica desenvolvida reina a continuidade ininterrupta destes mesmos processos.” Karl Marx, Das Kapital vol. I, Hamburgo, 1922, p. 344.

[K 3, 2]

O cinema: desdobramento [Auswicklung] cresultado [Auswirkung]?> de todas as formas de percepção, velocidades e ritmos já pré-formados nas máquinas atuais, de tal maneira que mandas as problemas da arte contemporânea encontram sua formulação definitiva apenas no contexto do cinema. ■ Precursores ■

[K 3, 3]

Um pequeno exemplo de análise materialista, mais valioso que a maioria das coisas que neste domínio: “Amamos estes materiais pesados que a frase de Flaubert eleva e deixa cair com o barulho intermitente de uma escavadeira. Pois, se, como alguém escreveu, a lâmpada de Flaubert acesa na noite servia de farol para os marinheiros, pode-se dizer n que quando ‘descarregou suas frases, estas vinham com o ritmo regular de uma máquinas de terraplanagem. Felizes os que sentem esse ritmo obsedante.” Marcel Proust, Chroniques, Paris, 1927, p. 204 (“À propos du style de Flaubert”).

[K 3, 4]

Em seu capítulo sobre o caráter fetiche da mercadoria, Marx demonstrou quão ambíguo ser o mundo econômico do capitalismo  uma ambigüidade fortemente acentuada intensificação da gestão capitalista. Isto é claramente perceptível, por exemplo, nas que agravam a exploração em vez de amenizarem o fardo dos homens. Não se relaciona a isto, de maneira geral, a ambivalência dos fenômenos com o que temos que lidar no século XIX? Um significado até então desconhecido da embriaguez para a percepção, da ficção para o pensamento? “Uma coisa desapareceu na desordem geral, o que é uma grande perda para a arte: a ingênua e, portanto, fortemente marcada harmonia entre a vida e a aparência, é o que se lê significativamente em Julius Meyer, Geschichte der modemen franzöischen Malerei seit 1789, Leipzig, 1867, p. 31.

[K 3, 5]

Sobre o significado político do filme. O socialismo jamais teria surgido no mundo se tivesse pretendido despertar o entusiasmo do operariado simplesmente por uma melhor ordem das coisas. O que constituiu a força e a autoridade do movimento foi o fato de Marx ter conseguido despertar o interesse dos operários por uma ordem na qual as condições de vida deles seriam melhores, mostrando que esta seria também uma ordem justa. Exatamente o mesmo vale para a arte. Em nenhuma época, por mais utópica que seja, será possível conquistar as massas para uma arte superior, mas apenas para uma arte que lhes seja mais próxima. E a dificuldade consiste justamente em dar a esta arte uma forma tal que se possa afirmar, em plena consciência, que se trata de uma arte superior. Ora, algo desse gênero dificilmente será alcançado por aquilo que é propagado pela vanguarda burguesa. Neste ponto, é perfeitamente correta a argumentação de Berl: “A confusão da palavra revolução, que significa para um leninista a conquista do poder pelo proletariado, e para outros a reviravolta dos valores espirituais estabelecidos, é acentuada pelos surrealistas por seu desejo de mostrar Picasso como um revolucionário... Picasso os decepciona ... um pintor não é mai s revolucionário por ter ‘revolucionado’ a pintura que um costureiro como Poiret por ter ‘revolucionado’ a moda, ou algum médico por ter ‘revolucionado’ a medicina.” Emmanuel Berl, “Premier pamphlet” (Europe , n° 75, 1929, p. 401). As massas decididamente exigem da obra de arte (que se situa, para elas, no domínio dos objetos de uso) algo que as aqueça. Aqui, a chama mais fácil para ser acesa é o ódio. O ardor do ódio, porém, fere ou queima, e não oferece o “conforto ao coração” que torna a arte própria para o consumo. O kitsch, ao contrário, nada mais é do que a arte em seu pleno, absoluto e instantâneo caráter de consumo. Assim, o kitsch e a arte, justamente em suas formas de expressão consagradas, se situam em uma oposição irreconciliável. Ora, o que importa para as formas vivas e em desenvolvimento é que tenham em si algo que aqueça, que seja utilizável, enfim, algo que traga felicidade, para que possam abrigar em si, dialeticamente, o kitsch, aproximando-se assim das massas e conseguindo, todavia, superá-lo. Atualmente, talvez apenas o cinema esteja à altura desta tarefa  de qualquer modo, é ele que se encontra mais próximo dela que qualquer outra forma de arte. E quem reconhecer isto estará inclinado a rebater as pretensões do filme abstrato, por mais importantes que sejam seus experimentos. Ele solicitará um período de resguardo, uma proteção natural para aquele kitsch que encontra no cinema seu lugar providencial. Somente o cinema pode detonar as substâncias explosivas que o século XIX acumulou nesta matéria estranha, talvez desconhecida anteriormente, que é o kitsch. Mas, assim como para a estrutura política do filme, a abstração pode também se tomar perigosa para os outros meios modernos de expressão (iluminação, técnica de construção etc.).

[K 3a, 1]

O problema formal da nova arte pode ser expressado exatamente desta maneira: quando e como os universos de formas que, sem a nossa interferência, surgiram na mecânica, no cinema, na construção de máquinas, na nova física etc., e que nos subjugaram, revelarão o que, neles, pertence à natureza? Quando será atingido o estado da sociedade em que essas formas, ou as que delas surgiram, revelar-se-ão para nós como formas naturais? De fato, isso evidencia apenas um momento na essência dialética da técnica. (É difícil dizer qual momento: a antítese, se não for a síntese.) De qualquer modo, também está presente na técnica um outro momento: o cumprimento de objetivos estranhos à natureza com meios que lhe são também estranhos e hostis, meios que se emancipam da natureza e a submetem.

[K 3a, 2]

<fase média>


Sobre Grandville: “Ele vivia uma vida imaginária sem limites, num domínio prodigioso de poesia primária, entre a visão inábil da rua e os conhecimentos de uma vida secreta de cartomante ou de astrólogo, sinceramente atormentados pela fauna, pela flora e pela humanidade dos sonhos... Grandville talvez tenha sido o primeiro desenhista a dar a vida larvar dos sonhos uma forma plástica razoável. Mas sob essa aparência ponderada surge esse flebile néscio quid 6 que desconcerta e provoca uma inquietude, às vezes bastante constrangedora.” Mac-Orlan, “Grandville le précurseur”, Arts et Métiers Graphiques, 44, 15 dez. 1934, pp. 20-21. O ensaio apresenta <Grandville> como precursor do Surrealismo, e sobretudo do cinema surrealista (Méliès, Walt Disney).

[K 4, 1]

Confronto entre o “inconsciente visceral” e o “inconsciente do esquecimento , sendo o primeiro predominantemente individual, e o segundo predominantemente coletivo. A outra parte do inconsciente é feita da massa de coisas aprendidas ao longo dos anos ou ao longo da vida, que foram conscientes e que por difusão entraram no esquecimento... Vasto fundo submarino onde todas as culturas, todos os estudos, todas as diligências dos espíritos e das vontades, todas as revoltas sociais, todas as lutas empreendidas encontram-se reunidas num recipiente informe... Os elementos passionais da vida dos indivíduos se retiraram, extinguiram-se. Subsistem apenas os dados provenientes do mundo exterior, mais ou menos transformados e digeridos. É do mundo externo que é feito esse inconsciente... Nascido da vida social, esse humus pertence às sociedades. A espécie e o indivíduo contam pouco, as únicas referências são as raças e o tempo. Esse enorme trabalho confeccionado na sombra reaparece nos sonhos, nos pensamentos, nas decisões; sobretudo durante os períodos importantes e das reviravoltas sociais, ele é o grande fundo comum, reserva dos povos e dos indivíduos. A revolução e a guerra, como a febre, acionam melhor seu movimento... Estando ultrapassada a psicologia individual, recorramos a uma espécie de história natural dos ritmos vulcânicos e dos cursos d 5 água subterrâneos. Nada há na superfície do globo que não tenha sido subterrâneo (água, terra, fogo). Não há nada na inteligência que nao tenha sido digerido e que não tenha circulado nas profundezas.” Docteur Pierre Mabille, Préface à l’Éloge des Préjugés Populaires”, Minotaure, II, n° 6, inverno de 1935, p. 2. 

[K 4, 2]

“O passado mais recente apresenta-se sempre como se tivesse sido destruído por uma série de catástrofes.” Wiesengrund, em uma carta <de 5 de junho de 1935>. 7

A propósito das memórias de juventude de Henry Bordeaux: Em resumo, o século XIX transcorria sem parecer absolutamente anunciar o século XX.” André Thérive, 
Les livres, Le Temps, 27 jun. 1935. 

[K 4, 4]

3 Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich: Eisen, Eisenbeton, Leipzig-Berlim, 1928, p. 3. (R.T.) 


4 Ver o texto completo, “Antoine Wiertz: Gedanken und Gesichte eines Geköpften, in: GS IV, 805-808; tradução in: DCDB, pp. 176-178. (w.b.)

5 Sobre Bierce, cf. 0°, 19 e nota. (w


6 Tradução: 
algo plangente; cf. Ovídio, Metamorfoses, XI, v. 52. (w.b.)

7 Esta carta não se conservou; cf-, no entanto, Adorno, Gesammelte Schriften, vol. IV, Mínima Moralia. Frankfurt a. M., 1980, p. 55; e vol. III, Max Horkheimer e Th. W. Adorno, Dialektik der Aufklärung, Frankfurt a. M„ 1981, p. 309. (R.T.) 

<fase tardia>

“A Paris dos Saint-Simonianos.” Do projeto enviado por Charles Duveyrier a LAdvocat, para ser integrado ao Livre des Cent-et-un (o que acabou não ocorrendo): Quisemos dar forma humana à primeira cidade sob a inspiração de nossa fé. O bom Deus disse pela boca do homem que ele envia... Paris! É nas margens de teu rio e sobre o território dentro de teus muros que imprimirei o selo de minha generosidade... Teus reis e teus povos caminharam com a lentidão dos séculos e se detiveram numa praça magnífica. É ali que repousará a cabeça da minha cidade... Os palácios de teus reis serão sua fronte... Conservarei sua barba de altos castanheiros... Varrerei o velho templo cristão do alto dessa cabeça ... e sobre esse terreno limpo estenderei uma cabeleira de árvores... Sobre o peito de minha cidade, nesse lar simpático de onde irradiam e para onde convergem todas as paixões, ali onde vibram as dores e as alegrias, construirei meu templo..., plexo solar do colosso... As colinas do Roule e de Chaillot serão seus flancos; colocarei ali o banco e a universidade, os mercados e as gráficas... Estenderei o braço esquerdo do colosso sobre a margem do Sena; ele estará ... no lado oposto ... a Passy. A associação dos engenheiros ... constituirá a parte superior, que se estenderá em direção a Vaugirard; formarei o antebraço da reunião de todas as escolas especiais das ciências físicas... No vão do braço ... agruparei todos os liceus, para que minha cidade os aperte contra o seio esquerdo, onde fica a Universidade... Estenderei o braço direito do colosso em sinal de força até a estação de Saint-Ouen... Encherei esse braço das oficinas da pequena indústria, de passagens, galerias, bazares... Formarei a coxa e a perna direita com todos os estabelecimentos das grandes fábricas. O pé direito pousará em Neuilly. A coxa esquerda oferecerá aos estrangeiros longas filas de hotéis. A perna esquerda se estenderá até o Bois de Boulogne... Minha cidade está na atitude de um homem prestes a caminhar; seus pés são de bronze e se apoiam sobre uma dupla estrada de pedra e de ferro. Aqui se fabricam ... os veículos de transporte e os aparelhos de comunicação; aqui as carruagens disputam em velocidade... Entre os joelhos esrá uma arena de equitação, em forma de elipse; entre as pernas, um imenso hipódromo.” Henry-René dAllemagne, Les Saint-Simoniens 1827-1837, Paris, 1930, pp. 309-310. A idéia desse projeto deve-se a Enfantin, que utilizou pranchas anatômicas para a planificação da cidade do futuro. 
[K 5]
[...]
Chateaubriand sobre o obelisco da Place de la Concorde: “Chegará a hora em que o obelisco do deserto encontrará, na Praça dos Assassinos, o silêncio e a solidão de Luxor.”8 Cit. em Louis Bertrand, “Discours sur Chateaubriand”, Le Temps, 18 set. 1935.
[K 5a, 3]
Saint-Simon propôs “transformar uma montanha da Suíça em uma estátua de Napoleão, que teria em uma das mãos uma cidade habitada, e na outra, um lago.” Conde Gustav von Schlabrendorf, em Paris, sobre acontecimentos e personalidades de sua época [em Cari Gustav Jochmann, Reliquien: Aus seinen nachgelassenen Papieren, ed. org. por Heinrich Zschokke, vol. I, Hechingen, 1836, p. 146.]
[K 5a, 4]
A Paris noturna em LHomme Qui Rit.9 “O pequeno errante sentia a paixão indefinível da cidade adormecida. Esses silêncios de formigueiros paralisados emanam vertigem. Todas essas letargias misturam seus pesadelos, esses sonos são uma multidão.” Cit. em R. Caillois, “Paris, mythe moderne”, Nouvelle Revue Française, XXV, n° 284, 1 maio 1937, p. 691.
[K 5a, 5]
“Sendo o inconsciente coletivo uma manifestação da história do mundo que se expressa ... na estrutura do cérebro e do simpático, ele significa ... uma espécie de imagem do mundo atemporal, de certa forma, eterna, que se opõe à nossa imagem consciente momentânea.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 326 (“Analytische Psychologie und Weltanschauung”).
[K 6, 1]
Jung denomina a consciência  ocasionalmente!  como “nossa conquista prometéica”. C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 249 (“Die Lebenswende”). E em outro contexto: “O pecado prometéico é o de ser a-histórico. O homem moderno, neste sentido, vive no pecado. Um grau maior de consciência é, portanto, culpa.” Op. cit.. p. 404 (“Das Seelenproblem des modernen Menschen”).
[K 6, 2]
“Não há dúvida que ... desde a época memorável da Revolução Francesa, o psíquico passou pouco a pouco para o primeiro plano da consciência geral..., devido à sua força crescente de atração. Aquele gesto simbólico de entronização da Deusa Razão em Notre-Dame parece ter significado para o mundo ocidental algo análogo ao abate dos carvalhos de Wotan pelos missionários cristãos, pois tanto naquela ocasião quanto hoje nenhum raio atingiu os blasfemadores.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 4 1 9 (“Das Seelenproblem des modernen Menschen”). A “vingança” para estes dois gestos históricos fundadores parece estar iminente hoje, simultaneamente! O nacionalsocialismo se encarrega do primeiro, Jung, do segundo.
[K 6, 3]
Enquanto ainda houver um mendigo, ainda haverá mito.
[K 6, 4]
“Aliás, um aperfeiçoamento engenhoso foi introduzido na construção das praças. A administração comprava-as já prontas, sob encomenda. Arvores em papelão colorido e flores em tafetá desempenhavam muito bem seu papel nestes oásis, onde se tinha até mesmo a precaução de esconder nas folhagens pássaros artificiais que cantavam o dia todo. Assim, conservou-se o que há de agradável na natureza, evitando o que ela tem de sujo e de irregular.” Victor Fournel, Paris Nouveau et Paris Futur, Paris, 1 868, p. 252. 
[K 6, 5]
“Os trabalhos do Sr. Haussmann deram impulso, pelo menos no início, a uma grande quantidade de planos bizarros ou grandiosos. . . Por exemplo, o Sr. Herard, arquiteto, publica em 1855 um projeto de passarelas a serem construídas no cruzamento dos boulevards Saint-Denis e Sébastopol: essas passarelas com galerias desenhariam um quadrado contínuo, em que cada lado seria determinado pelo ângulo que formam, ao se cruzarem, os dois boulevards. O Sr. J. Brame expõe em 1856, numa série de litografias, seu plano ferroviário para as cidades, particularmente Paris, com um sistema de arcos sustentando os trilhos, de vias laterais para os pedestres e de pontes móveis para colocar essas vias laterais em comunicação... Mais ou menos na mesma época ainda, um advogado pede, por uma “Carta ao Ministro do Comercio , o estabelecimento de toldos em todo o comprimento das ruas, a fim de evitar que o pedestre ... tenha que pegar uma carruagem ou um guarda-chuva. Um pouco mais tarde, um arquiteto propõe reconstruir a Cité inteira em estilo gótico, para harmonizá-la com Notre-Dame.” Victor Fournel, Paris Nouveau et Paris Futur, Paris, 1868, pp. 384-386.
[K 6a, 1]
Do capítulo de Fournel intitulado “Paris futura”: “Havia ... cafés de primeira, de segunda c de terceira classes ... e para cada categoria estava previsto o número de salas, de mesas, de bilhares, de espelhos, de ornamentos e de peças douradas... Havia ruas para os patrões e p m de serviço, como há escadas sociais e escadas de serviço nas casas bem organizadas... No frontão do quartel, um baixo-relevo ... representava, com esplendor, a Ordem Pública fardada como um soldado de infantaria, com uma auréola na fronte, abatendo a Hidra de cem cabeças da Descentralização... Cinqüenta sentinelas posicionadas nas cinqüenta guaritas do quartel, frente aos cinqüenta boulevards, podiam ver, com uma luneta, a quinze ou vinte quilômetros dali, as cinqüenta sentinelas das cinqüenta barreiras... Montmartre era coroada uma cúpula ornada com um imenso relógio elétrico visível a oito e audível a dezesseis ‘metros de distância, servindo de referência para todos os demais relógios da cidade. Tinha-se enfim atingido o grande objetivo perseguido há tanto tempo: fazer de Paris um de luxo e curiosidade mais que de uso, uma cidade em exposição, numa redoma de ... objeto de admiração e inveja para os estrangeiros, e insuportável para seus habitantes.” V. Fournel, op. cit., pp. 235-237, 240-241. 
[K óa, 2 ]

Crítica de Fournel à cidade saint-simoniana de Ch. Duveyrier: 
Não podemos continuar acompanhando a exposição dessa metáfora atrevida que o Sr. Duveyrier desenvolve ... com fleuma cada vez mais estupeficante, sem nem mesmo perceber que sua engenhosa distribuição levaria Paris, por força do progresso, de volta até a época da Idade Média, cada indústria e cada ramo do comércio eram confinados num mesmo bairro. Fournel, Paris Nouveau et Pans Futur, Paris, 1868, pp. 374-375 (“Les précurseurs de M. Haussmann”). 
[K 7, 1]
Vamos falar de um monumento que estimamos particularmente, e que parece de primeira necessidade quando se tem um céu como o nosso ... um Jardim de inverno!.. Quase no centro da cidade, um lugar vasto, muito vasto, capaz de receber, como o Coliseu em Roma, pane da população, seria rodeado por uma imensa cúpula luminosa, mais ou
menos como o Palácio de Cristal de Londres ou como nossos mercados de hoje: colunas de ferro, algumas pedras para assentar as fundações... Ah! Meu jardim de inverno, que partido tiraria de ti para meus Novutopianos; enquanto em Paris, na grande cidade, eles construíram um grande monumento de pedra, pesado e feio, que não serve para nada, e onde, neste ano, os quadros de nossos artistas, a contraluz aqui, escaldavam um pouco mais ao longe sob um sol ardente.” F. A Coumrier de Vienne, Paris Modeme: Plan d
une Ville Modèle que lAuteur a Appelée Novutopie, Paris, 1 860, pp. 263-265.
[K 7, 2]
[...]
Não seria possível comparar a diferenciação social na arquitetura (cf. a descrição dos cafés por Fournel em K 6a, 2, ou a oposição entre escada social e escada de serviço) com aquela presente na moda?
[K 7a, 1]
Sobre o niilismo antropológico, cf. N 8a, 1: Céline, Benn.
[K 7a, 2]
“O século XV ... é uma época em que os cadáveres, os crânios e os esqueletos eram ultrajosamente populares. Na pintura, na escultura, na literatura e nas representações dramáticas, a Dança Macabra estava onipresente. Para o artista do século XV, a atração pela morte, bem tratada, era uma chave tão segura para atingir a popularidade quanto o é, em nossa época, um bom sex appeal. Aldous Huxley, Croisière dHiver: Voyage en Amérique Centrale, Paris, 1935, p. 58.10
[K 7a, 3]
Sobre o interior do corpo. “Este tema e sua elaboração remontam ao modelo de João Chrysóstomo, ‘Sobre as mulheres e a beleza (Opera, ed. B. de Montfaucon, Paris, 1735, tomo 12, p. 523).” “A beleza do corpo não reside senão na pele. Com efeito, se os homens vissem o que está debaixo da pele — assim como o lince da Beócia, que dizem que pode ver o interior , a vista das mulheres dar-lhes-ia náuseas. Toda aquela graça consiste de muco e sangue, de humores e fel. Se alguém considerar o que se esconde nas narinas, na garganta e no ventre, encontrará sempre sujeira. E se nos repugna tocar o muco e a sujeira mesmo só com a ponta do dedo, como então poderíamos desejar abraçar o próprio saco de excrementos?” Odon de Cluny, Collationum, livro III, Migne, tomo 133, p. 556), cit. em J. Huizinga, Herbst des Mittelalters, Munique, 1928, p. 197.
[K 7a, 4]
Sobre a teoria psicanalítica da recordação: As pesquisas posteriores de Freud mostraram que esta concepção [ou seja, a do recalque (Verdrängung)] deveria ser ampliada. . . O mecanismo do recalque ... é ... um caso particular do processo mais geral e significativo que tem início quando nosso Eu não consegue corresponder de forma adequada às exigências feitas ao aparelho psíquico. O mecanismo geral de defesa não anula as fortes impressões; ele apenas as põe de lado... Em favor da clareza, seria útil formular de maneira intencionalmente simples a oposição entre memória e recordação; a função da memória [o autor idendfica a esfera do esquecimento’ com a da memória inconsciente’, p. 130] é proteger as nossas impressões; a recordação visa a sua dissolução. A memória [Gedächtnis] é essencialmente conservadora, a recordação [Erinnerung] é destrutiva.” Theodor Reik, Der überraschte Psychologe, Leiden, 1935, pp. 130-132.
[K 8, 1]
[...]
O que foi depositado no inconsciente como conteúdo da memória. Proust fala do “sono muito vivo e criador do inconsciente ... onde acabam de se gravar as coisas que apenas nos afloraram, onde as mãos adormecidas se apoderam da chave certa, inutilmente procurada até então.” Marcei Proust, La Prisonnière, vol. II, Paris, 1923, p. 189.
[K 8, 3]
A passagem clássica sobre a “memória involuntária” em Proust  prelúdio ao momento em jgue é descrito o efeito da madeleine sobre o autor: “Foi assim que, durante muito tempo, qjeando acordado no meio da noite eu me lembrava de Combray, nada me vinha à mente mão essa espécie de painel luminoso... Para dizer a verdade, teria podido responder, a quem me perguntasse, que Combray tinha ainda outra coisa... Mas como aquilo de que me teria lembrado teria sido fornecido somente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela dá sobre o passado não conservam nada dele, eu nunca teria tido vontade de pensar nesse resíduo de Combray... Assim é com o nosso passado. É trabalho petdido procurar evocá-lo; todos os esforços de nossa inteligência são inúteis. Ele está escondido finta de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material ... de que nós não suspeitamos, ato a esse objeto, depende do acaso se o encontramos ou não o encontramos, antes de morrer.” Marcel Proust, Du Côté de Chez Swann, vol. I, pp. 67-69.
[K 8a, 1]

A passagem clássica sobre o despertar durante a noite, no quarto escuro, e a orientação do autor dentro dele: “Quando eu acordava assim, e meu espírito se agitava, sem sucesso, tentando saber onde eu me encontrava, tudo girava ao meu redor na escuridão: as coisas, os países, as anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mover, procurava reconhecer, pela forma de seu cansaço, a posição de seus membros, para perceber a partir deles a direção da parede, o lugar dos móveis, para reconstruir e nomear o local em que se encontrava. Sua memória, a memória de suas costelas, de seus joelhos, de seus ombros, apresentava-lhe sucessivamente os vários quartos em que dormira, enquanto em torno dele rodopiavam nas trevas as paredes invisíveis, mudando de lugar conforme o cômodo
imaginado. E antes mesmo que meu pensamento ... tivesse identificado o aposento..., ele — meu corpo - lembrava-se, para cada quarto, do tipo de cama, do lugar das portas, de como a luz do dia entrava pelas janelas, da existência de um corredor, com o pensamento que tivera ao adormecer e que reencontrava ao despertar.” Marcel Proust, Du Côté de Chez Swann, vol. 1, p. 15.
[K 8a, 2]
Proust sobre noites de sono profundo após um grande cansaço: “Elas nos fazem reencontrar, ali onde nossos músculos fincam e retorcem suas ramificações aspirando a vida nova, o jardim onde fomos crianças. Não é preciso viajar para revê-lo; é preciso descer para reencontrá-lo. O que um dia cobriu a terra não está mais sobre ela, mas abaixo; para visitar a cidade morta, não basta uma mera excursão  é preciso fazer escavações.” As palavras contradizem a orientação de sair à procura dos lugares onde fomos crianças. Elas mantêm, no entanto, seu significado também como crítica à memória voluntária. Marcei Proust, Le Côté de Guermantes, vol. I, Paris, 1920, p. 82.
[K 9, 1]

Articulação entre a obra proustiana e a obra de Baudelaire: “Uma das obras-primas da literatura francesa, Sylvie, de Gérard de Nerval, assim como o livro Mémoires dOutre-Tombe ... oferece uma sensação do mesmo tipo que a do gosto da madeleine... Em Baudelaire, enfim, essas reminiscências, mais numerosas ainda, são evidentemente menos fortuitas e, portanto, a meu ver, decisivas. É o próprio poeta que, com uma escolha mais ampla e com mais preguiça, procura voluntariamente, no perfume de uma mulher, por exemplo, de sua cabeleira e de seu seio, as analogias inspiradoras que lhe evocarão o azul do céu imenso e redondo’, e um porto cheio de velas e mastros’. Eu ia procurar lembrar-me das peças de Baudelaire que se baseiam, da mesma forma, em uma sensação transposta, para colocar-me decididamente numa filiação tão nobre, e assim assegurar-me de que a obra, que não hesitaria empreender, merecia o esforço que iria lhe consagrar, quando, tendo chegado ao fim da escada..., encontrei-me ... no meio de uma festa.” Marcel Proust, Le Temps Retrouvé, vol. II, Paris, 1927, pp. 82-83.
[K 9, 2]
“O homem só é homem na superfície. Levante a pele, disseque: aqui começam as máquinas. Depois, você se perde numa substância inexplicável, estranha a tudo o que você conhece e que é, entretanto, o essencial.” Paul Valéry, Cahier B, 1910, Paris, 1930, pp. 39-40.
[K 9, 3]
 
8 Originalmente erguido na cidade egípcia de Luxor, durante o reinado do faraó Ramses II, o obelisco foi transportado em 1831 para a Place de la Concorde, em Paris. Nesta praça, a antiga Place de la Révolution, funcionava de 1793 a 1795 a guilhotina. (E/M) 
9 Romance escrito por Victor Hugo entre 1866 e 1868. (E/M; w.b.)
10 Aldous Huxley, Beyond the Mexique Bay, Londres, Chatto and Windus, 1934, pp. 56 e 60. (E/M) 
L
[Morada de Sonho, Museu, Pavilhão Termal]
[...]
A obra de Le Corbusier parece constituir o epílogo da “casa” enquanto configuração mitológica. Cf. a seguinte observação: “Por que a casa deve ser constmída da maneira mais lese e aérea possível? Porque só assim pode-se pôr término a uma fatal monumentalidade, de caráter patrimonial. Enquanto o jogo de suporte e carga — real ou como exagero simbólico "no Barroco) — adquiriu sentido com os muros de arrimo, seu aspecto pesado se justificava. Mas hoje, que o muro exterior não precisa mais suportar tanto peso, o jogo de suporte e carga, sublinhado pelo ornamento, é uma mísera farsa (os arranha-céus americanos).” Giedion, Bauen in Frankreich, p. 85.
[L la, 4]
[...]
“A habitação coletiva [Mietskaserne] é o último castelo feudal. Ela deve sua existência e forma à batalha brutal e egoísta de alguns proprietários de terra pela posse de um terreno, que é desmembrado e recortado em parcelas durante esta disputa. Assim, não nos espanta ver ressurgir também a forma do castelo feudal — com o pátio cercado de muros. Cada proprietário se isola do outro, e esta é uma das razões por que, no fim, subsiste um resto casual de todo o conjunto.” Adolf Behne, Neues Wohnen — Neues Bauen, Leipzig, 1927, pp. 93-94.
[L la, 6]
[...]
Em junho de 1837 é inaugurado o museu histórico de Versailles  “para a glória perene da França”. Uma série de salões que exigem quase duas horas para serem percorridos. Cenas de batalhas e de sessões parlamentares. Entre os pintores: Gosse, Larivière, Heim, Devéria, Gérard, Ary Scheffer etc. Aqui a coleção de quadros converte-se em pintar quadros para o museu.
[L 2, 1]
[...]
“Gosto muito desses homens que se deixam trancar à noite num museu para poder contemplar à vontade, em tempo ilícito, um retrato de mulher, à luz tênue de uma lanterna. Depois disso, inevitavelmente, deverão saber muito mais dessa mulher do que nós.” André Breton, Nadja, Paris, 1928, p.150.3 Mas por quê? Porque no medium desta imagem realizou-se a metamorfose do museu em intérieur.
[L 2 , 3]
[...]
“A Opera é uma das criações características do Segundo Império. Entre cento e sessenta projetos apresentados, foi escolhido o de um jovem desconhecido, Charles Garnier. Seu teatro, construído entre 1861 e 1867, foi concebido como um local de ostentação ... é o palco em que a Paris imperial se contempla com satisfação; classes que recentemente chegaram ao poder e à fortuna, misturas de elementos cosmopolitas — é um mundo novo, que exige um novo nome: não se diz mais a Corte, diz-se Toda-Paris... Um teatro concebido como centro de vida social e urbana, eis mais uma nova idéia, um sinal dos tempos.” Dubech e D’Espezel, op. cit. , pp. 411-412.
[L 2a, 5]
[...]
[fase média]
[...]
Sobre a criação do museu de Versailles: “O Sr. de Montalivet tinha pressa em ter um grande número de pinturas. Ele as queria por toda parte, mas como as Câmaras denunciavam o excesso de gastos, era preciso comprar barato, a economia andava de vento em popa... O Sr. de Montalivet ... deixaria ... pensar de bom grado que era ele próprio que, nos cais e junto aos revendedores, fora comprar os quadros de terceira categoria.. Mas não... Foram os príncipes da arte dessa época que se entregaram a essa operação hedionda... As cópias e os pastiches do museu de Versailles são a prova mais pungente da cobiça dos mestres artistas que se transformaram em empreiteiros e negociantes de arte... O comércio e a indústria decidiram elevar-se até a arte. O artista, para satisfazer às necessidades do luxo que começava a tentá-lo, prostituía a arte na especulação e fazia degenerar a tradição artística, reduzindo-a à condição de mero ofício.” Esta observação refere-se ao fato de que (por volta de 1837) os pintores confiavam as encomendas assumidas a seus discípulos. Gabriel Pélin, Les Laideurs du Beau Paris, Paris, 1861, pp. 85, 87-90.
[L 3, 5]
[...]
Esgotos: “Fantasmas de todas as espécies assombram esses longos corredores solitários; em toda parte, podridão e miasma; aqui e ali um respiradouro, por onde Villon, do lado dc dentro, conversa com Rabelais, do lado de fora.” Victor Hugo, Œuvres Complètes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, p. 160 (Les Misérables).
[L 3a, 2] 
[...]
Esgoto: “Paris . . . chamava-o de Trou punais. . . O Buraco Fedorento não era menos repugnante peia higiene que pela lenda. O Monge empanturrado aparecera sob o arco fétido do esgoto Mouffetard; os cadáveres dos Marmousets tinham sido jogados no esgoto da Barillerie. . . A boca do esgoto da Rue de la Mortellerie era mal-afamada pelas pestes que espalhava... Bruneseau havia dado o primeiro impulso, mas foi preciso o cólera para determinar a vasta reconstrução que se realizou em seguida.” Victor Hugo, Œuvres Complètes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, pp. 166 e 180 (Les Misérables, “L’intestin de Léviathan”).
[L 3a, 4]
A descida de Bruneseau aos esgotos, em 1805: “Assim que Bruneseau ultrapassou as primeiras articulações da rede subterrânea, oito dos vinte trabalhadores recusaram-se a ir mais longe... Avançava-se penosamente. Não era raro que as escadas para a descida mergulhassem em três pés de lama. As lanternas agonizavam nos miasmas. De tempos em tempos carregava-se um trabalhador desmaiado. Em certos lugares, um precipício. O solo tinha afundado, a pavimentação tinha desmoronado, o esgoto tinha se transformado em um poço perdido; não se achava mais o chão firme; um homem desapareceu de repente; foi uma grande dificuldade recuperá-lo. Por conselho de Fourcroy, iluminava-se cada ponto, nos lugares suficientemente saneados, com grandes gaiolas cheias de estopa embebida em resina. A muralha, em determinados lugares, estava coberta de fungos disformes — tumores, diziam; a própria pedra parecia doente nesse ambiente irrespirável... Pensou-se reconhecer aqui e ali, sobretudo sob o Palais de Justice, celas de antigos cárceres construídos no próprio esgoto... Uma corrente de ferro pendia numa dessas celas. Todas elas foram muradas. A visita completa ao sistema viário da imundície subterrânea de Paris durou sete anos, de 1805 a 1812... Nada igualava o horror dessa velha cripta supurosa ... antro, fossa, abismo cortado de ruas, monte gigantesco de toupeiras, onde o espírito imagina ver rondar através das sombras ... essa enorme toupeira cega, o passado.” Victor Hugo, CEuvres Completes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, pp. 169-171 e 173-174 (Les Misêrables, “Tintestin de Léviathan”).
[L 4, 1]
[...]
Proudhon defende os quadros de Courbet como causa própria e deles se apropria através de definições nebulosas (“da moral em ação”).
[L 4, 3] 
 [...]
Enquanto a viagem normalmente dá ao burguês a ilusão de transcender seus vínculos de classe, a estação termal reforça a sua consciência de pertencer à classe superior. E isto acontece não só porque ela o põe em contato com as camadas feudais. Mornand chama a atenção para uma circunstância mais elementar: “Em Paris, sem dúvida, as multidões sao maiores mas nenhuma é homogênea como esta: porque a maior parte dos tristes humanos que as compõem jantaram mal ou não jantaram... Em Baden não é assim: todo mundo e feliz, porque todo mundo está em Baden.” Felix Mornand, La Vie des Eaux, Paris, 1855, pp. 256-257. 
[L 4a, 1] 
 [...]
 [fase tardia]
Existem relações entre a loja de departamentos e o museu, sendo que o bazar serve de meio-termo. O acúmulo de obras-de-arte no museu as aproxima das mercadorias que, quando oferecidas ao transeunte em grandes quantidades, despertam nele a idéia de que uma parte delas deveria lhe caber.
[L 5, 5] 
 
3 André Breton, Nadja, Paris, Gallimard, 1980, pp. 132-133. (J.L.)
M
[O Flâneur]1
Uma paisagem obsedante, intensa como o ópio.
Mallarmé 
[...]
A rua conduz, o flâneur em direção a um tempo que desapareceu. Para ele, qualquer rua é íngreme. Ela vai descendo, quando não em direção às Mães,3 pelo menos rumo a um passado que pode ser tão mais enfeitiçante por não ser seu próprio passado, seu passai» particular. Entretanto, este permanece sempre o tempo de uma infância. Mas por que o tempo de sua vida vivida? No asfalto sobre o qual caminha, seus passos despertam trama surpreendente ressonância. A iluminação a gás que recai sobre o calçamento lança uma Le ambígua sobre este duplo chão.
[M 1, 2]
Uma embriaguez apodera-se daquele que, por um longo tempo, caminha a esmo pelas ruas. A cada passo, o andar adquire um poder crescente; as seduções das lojas, dos bistrôs e das mulheres sorridentes vão diminuindo, cada vez mais irresistível torna-se o magnetismo da próxima esquina, de uma longínqua massa de folhagem, de um nome de rua. Então chega a fome. Ele nem quer saber das mil e uma possibilidades de saciá-la. Como m animal ascético, vagueia por bairros desconhecidos até desmaiar de exaustão em seu quarto, que o recebe estranho e frio.
[M 1, 3]
[...]
Deve-se tentar compreender a constituição moral absolutamente fascinante do flâneur apaixonado. A polícia  que se revela aqui, como em tantos outros assuntos de que tratamos como um verdadeiro perito — fornece a seguinte indicação, no relatório de um agente secreto parisiense, de outubro de 1798 (?): “É quase impossível lembrar dos bons costumes e mantê-los numa população amontoada, em que cada indivíduo, de certa forma desconhecido de todos os outros, esconde-se na multidão e não precisa enrubescer diante dos olhos de ninguém.” Cit. em Adolf Schmidt, Pariser Zustände während der Revolution, vol. III, lena, 1876. O caso em que o flâneur se distancia totalmente do tipo do passeador filosófico e assume os traços do lobisomem a vagar irrequieto em uma selva social foi fixado pela primeira vez — e de maneira definitiva — por Poe em seu conto “O homem da multidão.
[M 1, 6]
As manifestações de superposição, de sobreposição (Überdeckung), que aparecem sob o efeito do haxixe devem ser compreendidas através do conceito de semelhança. Quando dizemos que um rosto se assemelha a outro, isto quer dizer que certos traços deste segundo rosto se manifestam no primeiro, sem que este deixe de ser o que era. As possibilidades de que as coisas assim se manifestem, porém, não estão sujeitas a nenhum critério, sendo, portanto, ilimitadas. A categoria da semelhança, que tem uma importância muito restrita para a consciência desperta, adquire uma importância ilimitada no mundo do haxixe. Neste, com efeito, tudo é rosto-e-visão (Gesicht), tudo tem a intensidade de uma presença encarnada, que permite procurar nele, como em um rosto, os traços manifestos. Sob tais circunstâncias mesmo uma proposição adquire um rosto (sem falar da palavra isolada), e este rosto assemelha-se àquele da proposição oposta. Assim, cada verdade remete de maneira evidente a seu contrário, e com base neste fenômeno explica-se a dúvida. A verdade torna-se algo vivo, existindo apenas no ritmo em que a proposição e seu contrário trocam de lugar para se pensarem.4
[M 1a, 1]
 [...]
 [...] ■ Hoje, o lema não é mistura e sim transparência. (Le Corbusier!)
[M 1a, 4] 
Com o aumento constante do tráfego, foi somente graças à “macadamização das ruas que se podia conversar nos terraços dos cafés sem precisar gritar nos ouvidos das pessoas.
[M 2, 6]
 [...]
Dialética da flânerie: de um lado, o homem que se sente olhado por tudo e por todos, como um verdadeiro suspeito; de outro, o homem que dificilmente pode ser encontrado, o escondido. É provavelmente esta dialética que se desenvolve em “O homem da multidão”.
[M 2, 8]
[...]
O princípio da flânerie em Proust. “Então, longe de todas essas preocupações literárias e sem me prender a nada, de repente um teto, o reflexo do sol em uma pedra, o cheiro de um caminho detinham-me pelo prazer singular que me proporcionavam, e também porque pareciam esconder, para além do que eu via, algo que me convidavam a buscar e que, apesar de meus esforços, não consegui descobrir.” Du Côté de Chez Swann, vol. I, Paris, 1939, p. 256.7  Esta passagem permite reconhecer claramente como o antigo sentimento romântico da paisagem se desfaz e como surge uma nova visão romântica dela, que parece ser sobretudo uma paisagem urbana, se é verdade que a cidade é o autêntico solo sagrado da flânerie. É isto que deverá ser exposto aqui pela primeira vez desde Baudelaire (em cuja obra não aparecem as passagens, embora fossem tantas em seu tempo).
[M 2a, 1]
Assim o flâneur passeia em seu quarto: “Quando Johannes, às vezes, pedia licença para sair, o mais das vezes isso lhe era negado; vez por outra, entretanto, seu pai lhe propunha, como compensação, passear pelo assoalho, segurando-o pela mão. À primeira vista, isto poderia parecer um pobre sucedâneo, no entanto, ali se ocultava algo totalmente diferente. A sugestão era aceita e Johannes era livre para decidir por onde caminhar. Saíam então pela entrada rumo a um palacete próximo, ou dirigiam-se à praia, ou apenas perambulavam pelas mas, exatamente como desejava Johannes; pois o pai era capaz de tudo. Enquanto passeavam pelo assoalho, o pai relatava tudo o que viam; cumprimentavam os transeuntes, veículos passavam por eles fazendo um ruído tão forte que encobria a voz do pai; as frutas carameladas da confeiteira eram mais convidativas do que nunca...” Um texto do jovem Kierkegaard, segundo Eduard Geismar, Sören Kierkegaard, Göttingen, 1929, pp. 12-13. Eis a chave para o esquema de Voyage Autour de ma Chambre.8
[M 2a, 2]
“O industrial passa sobre o asfalto apreciando sua qualidade; o velho procura-o com cuidado, seguindo por ele tanto quanto possível e fazendo alegremente ressoar nele sua bengala, lembrando-se com orgulho que viu consrruir as primeiras calçadas; o poeta ... anda pelo asfalto indiferente e pensativo, mastigando versos; o corretor da bolsa o percorre calculando as oportunidades da última alta da farinha; e o desatento, escorrega.” Aléxis Martin, “Physiologie de l’asphaite”, Le Bohème, I, n° 3, 15 abr. 1855  Charles Pradier, redator-chefe.
[M 2a, 3]
[...]
Mas, definitivamente, só a revolução cria o ar livre na cidade. O ar pleno das revoluções. A revolução desencanta a cidade. A Comuna na Éducation sentimentale. A imagem da rua na guerra civil.
[M 3, 3]

A rua como intérieur. Vistas da Passage du Pont-Neuf (entre a Rue Guénégaud e a Rue de Seine), “as boutiques parecem armários”. Nouveaux Tableaux de Paris, ou Observations sur les Maeurs et Usages des Parisiens au Commencement du XIX
e Siècle, Paris, 1828, vol. I, p. 34.
[M 3, 4]
O pátio das Tulherias: “imensa savana plantada com bicos-de-gás em vez de bananeiras. Paul-Ernest de Rattier, Paris Nexiste Pas, Paris, 1857. ■ Gás ■
[M 3, 5]
Passage Colbert: “O candelabro que a ilumina parece um coqueiro no meio de uma savana...” ■ Gás ■ Le Livre des Cent-et-un, vol. X, Paris, 1833, p. 57 (Amédée Kermel, Les Passages de Paris).
[M 3, 6]
Iluminação na Passage Colbert: “Admiro a série regular desses globos de cristal de onde emana uma claridade ao mesmo tempo viva e suave. Náo se diría que são cometas em ordem de batalha, esperando o sinal de partida para ir vagar no espaço? Le Livre des Centet-un, vol. X, p. 57. Comparar esta metamorfose da cidade em universo astral com Un Autre Monde, de Grandville. ■ Gás ■
[M 3, 7]
Em 1839, era elegante levar consigo uma tartaruga quando se passeava. Isto dá uma idéia do ritmo do flanar nas passagens.
[M 3, 8]
 [...]
O cardápio do restaurante “Les Trois Frères Provençaux”: 36 páginas para a cozinha, 4 as para a adega  mas páginas muito extensas, in-fólio pequeno, com um texto comprimido e muitas observações em letras miúdas.” O livro está encadernado em veludo. 20 entradas e 33 tipos de sopa. “46 pratos de carne bovina, entre os quais 7 de bifes diversos e 8 tipos de filé.” “34 pratos de carne de caça, 47 pratos de legumes e 71 taças de compotas de frutas.” Julius Rodenberg, Paris bei Sonnenschein und Lampenicht, Leipzig, 7, pp. 43-44. Flânerie gastronômica.
[M 3a, 1]

A melhor arte de capturar, sonhando, a tarde nas malhas da noite, é fazer planos. O flâneur a feazer planos. 
[M 3a 2]
“As casas de Le Corbusier não são definidas nem pela espadalidade, nem pela plasticidade: o ar as atravessa! O ar torna-se fator constituinte! Para tanto, não contam nem o espaço, nem a forma plástica, apenas a relação e o entrecruzamento! Existe apenas um espaço une s e indivisível. Caem os invólucros entre o interior e o exterior.” Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich, Berlim, 1928, p. 85.
[M 3a, 3]
 [...]
“O último ônibus puxado por cavalos funcionou na linha La Villette-Saint-Sulpice em janeiro de 1913; o último bonde puxado por cavalos, na linha Pantin-Opéra, em abril do mesmo ano.” Dubech e D’Espezel, op. cit., p. 463.
[M 3a, 7]
“Em 30 de janeiro de 1828, funcionou o primeiro ônibus na linha dos boulevards, da Bastilha à Madeleine. O percurso custava vinte e cinco ou trinta centavos, o veículo parava onde se quisesse. Ele comportava de dezoito a vinte lugares, e seu trajeto dividia-se em duas etapas, sendo a Porte Saint-Martin o ponto divisório. A voga dessa invenção foi extraordinária: em 1829, a Compagnie explorava quinze linhas e companhias rivais lhe faziam concorrência: Tricycles, Écossaises, Béarnaises, Dames Blanches.” DubecnD’Espezel, op. cit., pp. 358-359.
[M 3a, 8] 
 [...]
Sobre os ônibus. “O cocheiro pára, sobem-se os poucos degraus da pequena e cômoda escada e se procura um lugar no veículo, no qual há bancos para 14 ou 16 pessoas à direita c à esquerda, no sentido do comprimento. Mal se coloca os pés no veículo e este já prossegue a viagem, o condutor já puxou novamente o cordão e, com um golpe sonoro, ele avança o ponteiro em um mostrador transparente, indicando que mais um passageiro subiu; é o controle dc arrecadação. Com o veículo em movimento, pega-se calmamcntc a carteira e paga-se o bilhete. Quando se está sentado longe do condutor, o dinheiro passa dc mão cm mão entre os passageiros; a dama bem vestida toma-o do operário de macacão azul e passao adiante; tudo isso ocorre facilmente, como por hábito e sem problema. Para descer, o condutor puxa novamente o cordão e faz o veículo parar. Se for uma subida, o que não é raro em Paris, e o veículo anda mais vagarosamente, os cavaleiros costumam subir e descer mesmo com ele em movimento.” Eduard Devrient, Briefe aus Paris, Berlim, 1840, pp. 61-62.
[M 4, 2] 
 [...]
E. T. A. Hoffmann como tipo do flâneur. Seu conto “Des Vetters Eckfenster” (“A janela de esquina do primo”) é o testamento do flâneur. Daí o grande êxito de Hoffmann na França, onde este tipo gozava de especial compreensão. Nas observações biográficas da edição em cinco volumes de seus últimos escritos (Brodhag?)11 lê-se: “Hoffmann nunca foi um grande aficcionado da natureza. Os seres humanos  a comunicação com eles, sua observação, o simples fato de olhá-los  importavam-lhe mais que qualquer outra coisa. Quando saía a passeio no verão, o que, com bom tempo, ocorria diariamente no entardecer ... não era fácil encontrar uma taverna ou confeitaria, onde ele não tivesse entrado para ver se lá havia pessoas, e de que espécie.”
[M 4a, 2]
Ménilmontant. “Neste imenso bairro, cujos magros salários condenam crianças e mulheres a eternas privações, a Rue de la Chinc e as que se encontram com ela e a cruzam, como a Rue des Partants c esta surpreendente Rue Orfila, tão fantástica com seus circuitos e suas voltas bruscas, com seus tapumes de madeira mal cortada, seus caramanchões desabitados, seus jardins desertos regressando ao estado de pura natureza, com ervas daninhas e arbustos selvagens, respiram o sossego e uma rara calma... E, sob um grande céu, uma trilha no campo, onde a maioria das pessoas que passam parece ter comido e bebido.” J. K. Huysmans, Croquis Parisiens, Paris, 1886, p. 95 (“La rue de la Chine”).
[M 4a, 3]
Dickens. “Em suas cartas ... queixa-se sempre, quando em viagem, mesmo nas montanhas da Suíça ... sobre a falta do burburinho das ruas que era indispensável para sua produção poética. ‘Não saberia dizer como as ruas me fazem falta’, escreveu ele em 1846 de Lausanne, onde elaborou um de seus maiores romances (Dombey and Son). ‘Parece que elas fornecem a meu cérebro algo que lhe c imprescindível quando precisa trabalhar. Durante uma semana, quinze dias, consigo escrever maravilhosamente em um lugar afastado; um dia em Londres é então suficiente para me refazer e me inspirar de novo. Mas o esforço e o trabalho de escrever dia após dia sem essa lanterna mágica são enormes... Meus personagens parecem paralisados quando não têm uma multidão ao redor... Em Gênova ... eu tinha ao menos duas milhas de ruas iluminadas por onde eu podia vagar durante a madrugada, e um grande teatro todas as noites.’” Franz Mehring, “Charles Dickens”, Die Neue Zeit, Stuttgart, 1912, XXX, n° 1, pp. 621-622.
[M 4a, 4] 
[...]
— O que é, então, este maldito guisado que cheira tão mal e que cozinha neste grande caldeirão? ... diz um tipo provinciano a uma velha porteira. — Isso, caro senhor, são lajes que eles cozinham para pavimentar nosso pobre boulevard, que passaria muito bem sem elas! ... Pergunte- me, antes, se o passeio não era mais agradável quando se caminhava sobre a terra, como num jardim.” La Grande Ville: Nouveau Tableau de Paris, Paris, 1844, vol. I, p. 334 (“Le bitume” — “O betume”).
[M 5, 3]
Sobre os primeiros ônibus: “Acaba de se criar uma concorrência, as Dames Blanches’... Esses veículos são inteiramente pintados de branco, e os cocheiros, vestidos de ... branco, tocam com o pé num fole a ária de La Dame BlancheA dama de branco olha para você...’” Nadar, Quand Jétais Photographe: 1830 et Environs, Paris, 1900, pp. 301-302.
[M 5, 4]
O flâneur é o observador do mercado. Seu saber está próximo da ciência oculta da conjuntura. Ele é o espião que o capitalismo envia ao reino do consumidor.
[M 5, 6]
O flâneur e a massa: o respeito. “Rêve parisien” de Baudelaire poderia ser muito instrutivo a esse respeito.
[M 5, 7]
A ociosidade do flâneur é um protesto contra a divisão do trabalho.
[M 5, 8|
O asfalto foi primeiramente utilizado nas calçadas.
[M 5, 9]
“Uma cidade como Londres, onde se pode caminhar durante horas sem chegar sequer ao início do fim, sem encontrar o mínimo sinal que indique a proximidade do campo, é algo realmente singular. Esta centralização enorme, esta aglomeração de dois milhões e meio de seres humanos, em um único lugar, centuplicou a força destes dois milhões e meio; elevou Londres à condição de capital comercial do mundo, criou as gigantescas docas e reuniu os milhares de navios que navegam continuamente no Tâmisa... Só mais tarde, descobrir-se-á o número de sacrifícios que isto custou. Depois de percorrer durante alguns dias as calçadas das ruas principais..., percebe-se que estes londrinos tiveram que sacrificar a melhor parte de suas qualidades humanas para realizar todos estes milagres da civilização... O próprio tumulto das ruas possui algo de repugnante, algo que revolta a natureza humana. Estas centenas de milhares de pessoas de todas as classes e camadas sociais, que se comprimem ao passar umas pelas outras, não são todas elas seres humanos com as mesmas qualidades e capacidades e o mesmo interesse de serem felizes? E não devem elas finalmente buscar sua felicidade da mesma forma e com os mesmos meios? No entanto, estas pessoas passam apressadas umas pelas outras, como se nada tivessem em comum, como se nada as unisse, mantendo apenas um único acordo tácito, o de que cada uma se mantenha no lado direito da calçada para que as duas correntes da multidão, ao passar por ali, não se detenham mutuamente; a ninguém ocorre conceder ao outro o mais simples olhar. A indiferença brutal, o isolamento insensível de cada indivíduo em seus interesses particulares, vem à tona de maneira tanto mais repugnante e ofensiva quanto mais estes indivíduos são confinados naquele espaço reduzido. Embora saibamos que este isolamento do indivíduo, este egoísmo tacanho é por toda parte o princípio básico da nossa sociedade atual, ele não se manifesta em nenhum lugar de maneira tao descarada e evidente, tão presunçosa, como justamente aqui no tumulto da cidade grande.” Friedrich Engels, Die Lage der arbeitenden Klasse in England, 2 a ed., Leipzig, 1848, pp. 36-37 (“Die grofien Städte”  “As grandes cidades”).
[M 5a, 1]
“Entendo por boêmios esta classe de indivíduos cuja existência é um problema, cuja condição é um mito, cuja fortuna é um enigma; que não têm endereço certo, nenhum abrigo reconhecido, que não se encontram em parte alguma e que encontramos por toda parte! Aqueles que não têm nenhuma situação e exercem cinquenta profissões; cuja maioria se levanta de manhã sem saber onde jantará à noite; ricos hoje, famintos amanhã; prontos para viver honestamente se puderem, e de outro modo se não puderem.” Adolphe d’Ennerv et Grangé, Les Bohémiens de Paris (LAmbigu-Comique, 27 de setembro de 1843), Paris (série Magasin Théatral), pp. 8-9.
[M 5 a, 2]
 
 
1 Na revisão da tradução deste arquivo temático foi consultada também a tradução de José Carlos Martins Barbosa, publicada em OE III, pp. 185-236. (w.b.)
3 Cf. nota para M°, 25. (w.b.) 
4 A palavra denkenpensar, no manuscrito, é provavelmente um erro, em lugar de [sich] decken[se] sobrepor. Neste caso, haveria uma retomada e um reforço da idéia de Überdeckungsobreposição da frase inicial. (R.T.; E/M)
7 M. Proust, À la Recherche du Temps Perdu, I, p. 178. (J.L.)  
8 Voyage Autour de ma Chambre: título de obra publicada em 1794 por Xavier de Maistre (1763-1852). (E/M) 
11 Os volumes XI-XV dos Ausgewählte Schriften de E. T. A. Hoffmann foram publicados em 1839 pela Editora Fr. Brodhag, Stuttgart. A citação que segue, de autoria de Julius Eduard Hitzig, encontra-se no vol. XV, pp. 32-34. (R.T.)
<fase média>
[...]
Sobre o fenômeno da colportagem do espaço: “O senso do mistério — escreveu Odilon lisdon, que havia aprendido seu segredo em Da Vinci — é estar o tempo todo no equívoco, fanes aspectos duplos, triplos, nas suspeitas de aspecto (imagens dentro de imagens), nas formas que podem vir a ser, ou que virão a ser, segundo o estado de espírito do observador. Todas as coisas mais que sugestivas, pelo fato de aparecerem.” Cit. cm Raymond Escholier, Artiste, in: Arts et Métiers Graphiques, n° 47, 01 jun. 1935, p. 7.
[M 6a, 1] 
[...]
A cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto. O flâneur, sem o saber, persegue esta realidade. Sem o saber — por outro lado, nada é mais insensato do que a tese convencional que racionaliza seu comportamento e é a base inconteste da ilimitada literatura que descreve o flâneur em seu comportamento e aparência. Trata-se da tese de que o flâneur teria escolhido como objeto de seu estudo a aparência fisionômica das pessoas, a fim de fazer a partir do andar, da estrutura física e das expressões faciais a leitura da nacionalidade e do status social, do caráter e do destino. O interesse em dissimular as reais motivações do flâneur deveria ser bastante premente para dar crédito a teses tão inconsistentes.
[M 6a, 4]
[...]
Litografia. “Os cocheiros dos Fiacres brigando com os dos Ônibus”. Cabinet des Estampes.
[M 7, 2]
Em 1853 já existiam estatísticas oficiais sobre o tráfego de veículos em certos pontos principais de Paris. “Em 1853, trinta e uma linhas de ônibus serviam Paris, e é interessante observar que, com pouca diferença, essas linhas eram designadas com as mesmas letras que nossos ônibus atuais. Assim, a ‘Madeleine-Bastille’ já era a linha E.” Paul d’Ariste, La Vie et le Monde du Boulevard, 1830-1870, Paris, 1930, p. 196.
[M 7, 3]
Nos pontos de baldeação dos ônibus, os passageiros eram chamados por um número de ordem e tinham que se apresentar para garantir seu direito a um lugar. (1855)
[M 7, 4]
[...]
Louis Lurine, Le Treizième Arrondissement de Paris, Paris, 1850, é um dos testemunhos mais significativos da fisionomia própria do bairro. O livro possui características de estilo peculiares. Personifica o bairro; não são raras as fórmulas do tipo: “O décimo terceiro arrondissement não se dedica ao amor de um homem, a não ser quando que lhe proporciona vícios para amar” (p. 216).12 
[M 7, 6]

A expressão de Diderot “Como é bela a rua!” é muito cara aos cronistas da flânerie.
[M 7, 7]
Sobre a lenda do flâneur: “Com a ajuda de uma palavra que escuto ao passar, reconstituo soda uma conversa, toda uma vida; o tom de uma voz é suficiente para unir o nome de um pecado capital ao homem com quem acabo de cruzar, de quem só vislumbrei o perfil." Victor Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 270.
[M 7, 8]
Ainda no ano de 1857, partia às seis horas da manhã da Rue Pavée-Saint-André uma diligência para Veneza, numa viagem que durava seis semanas. Cf. Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, p. 273.
[M 7, 9]
Nos ônibus, um mostrador que indicava o número de passageiros. Para quê? Como aviso ao cobrador que distribuía os bilhetes.
[M 7, 10]
“Observa-se ... que o ônibus parece apagar e petrificar todos os que dele se aproximam. As pessoas que ganham a vida com os viajantes ... são reconhecidas, em geral, por sua agitação grosseira..., da qual os empregados dos ônibus são praticamente os únicos que não apresentam traços. Pode-se dizer que dessa pesada máquina emana uma influência plácida soporífica, semelhante àquela que faz adormecer as marmotas e as tartarugas no começo do inverno.” Vicior Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 283 (“Cochers de fiacres, cochers de remise et cochers d’omnibus”).
[M 7a, 1]
[...]
A primeira sugestão de um sistema de ônibus deve-se a Pascal, e ela foi concretizada sob Luís XIV, embora com a restrição significativa de “que os soldados, pajens, lacaios e outras pessoas de libré, inclusive os serventes e trabalhadores braçais não poderíam subir nas ditas carruagens”. Em 1828, a introdução dos ônibus, sobre os quais lê-se em um cartaz: “Esses veículos ... avisam quando vão passar, acionando um jogo de cornetas recentemente inventado.” Eugène D’Auriac, Histoire Anecdotique de lIndustrie Française, Paris, 1861, pp. 250 e 281.
[M 7a, 3]
[...]
A figura de um camponês no cenário urbano é descrita por Delvau em Les Lions du Jour, no capítulo “Le pauvre à cheval”. “Este cavaleiro era um pobre diabo, cujos meios impediamno de andar a pé, e que pedia esmola como um outro teria pedido uma informação sobre o caminho. Esse mendigo..., com seu pequeno poldro de crinas selvagens, de pêlo áspero como o de um asno do campo, me ficou durante muito tempo no espírito e diante dos olhos... Ele morreu  rentista.” Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, pp. 1 16-1 17 (“Le pauvre à cheval”).
[M 7a, 5] 
[...]
“A oposição entre a cidade e o campo ... é a expressão mais flagrante da subsunção do indivíduo à divisão do trabalho e à uma determinada atividade que lhe é imposta — uma subsunção que transforma um em obtuso animal urbano, e o outro em obtuso animal campestre.” (Karl Marx e Friedrich Engels, Die deutsche Ideologie, Marx-Engels Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, pp. 271-272)
[M 8, 3]
No Arco do Triunfo: “Incessantemente circulam nessas ruas, para cima e para baixo, cabriolés, ônibus, hirondelles , velocíferos, citadinas, Dames blanches, seja qual for o nome desses diversos veículos públicos; e além deles os inumeráveis whiskys, carruagens, carroças, cavaleiros e amazonas.” L. Rellstab, Paris im Frühjahr 1843, Leipzig, 1844, vol. I, p. 212. O autor menciona também um ônibus que trazia sua destinação escrita numa bandeira.
[M 8, 4]
Por volta de 1857 (cf. H. de Pène, Paris Intime, Paris, 1859, p. 224), a parte superior dos ônibus  a impériale  era proibida às mulheres.
[M 8, 5]
 [...]
Sobre Victor Hugo: “A manhã, para ele, constituía o trabalho imóvel; a tarde, o trabalho Man te Adorava as impériales dos ônibus, esses ‘balcões ambulantes, como ele as chamava, de onde podia estudar à vontade os aspectos diversos da gigantesca cidade. Dizia que o barulho ensurdecedor de Paris lhe produzia o mesmo efeito que o mar.” Édouard Drumont, Figures de Bronze ou Statues de Neige, Paris, 1900, p. 25 (“Victor Hugo”).
[M 8a, 3]
Existência autônoma dos quartiers: ainda em meados do século, dizia-se da Île Saint-Louis, que uma moça de lá, caso não gozasse de boa reputação, teria que procurar o futuro marido fora do quartier.
[M 8a, 4] 
 [...]
“O ônibus, este Leviata da carroceria, e essas viaturas tão numerosas, entrecruzando-se com a rapidez de um raio!” Théophile Gautier [in: Edouard Fournier, Paris Démoli, 2a ed., com prefácio de Théophile Gautier, Paris, 1855, p. IV]. (Este prefácio foi publicado em Le Moniteur Universel de 21 de janeiro de 1854, provavelmente como crítica à primeira edição. Parece que é total ou parcialmente idêntico ao “Mosaïque de ruines”, de Gautier, in: Paris et les Parisiens au XIX Siècle, Paris, 1856.)
[M 9, 3]
“Os elementos temporais mais heterogêneos coexistem, portanto, na cidade. Quando se sai de uma casa do século XVIII e se entra em outra do século XVI, cai-se em um declive temporal; bem ao lado há uma igreja da época gótica, e afundamos em um abismo; mais alguns passos e chegamos a uma rua da época dos Gründerjahre ... e subimos a montanha do tempo. Quem entra em uma cidade sente-se como em um tecido de sonho, onde um acontecimento de hoje se articula com o mais remoto. Uma casa associa-se a uma outra, não importa de que camada temporal se originam, e assim surge uma rua. E mais adiante, quando esta ma, digamos, da época de Goethe, desemboca em uma outra, por exemplo, da época guilhermina, forma-se o bairro... Os pontos culminantes da cidade são suas praças, onde desembocam não só muitas mas, mas também as correntes de sua história. Mal estas afluem e já são cercadas; as bordas da praça são as margens, de modo que a forma exterior da praça fornece informações sobre a história que nela se passa. . . Coisas que encontram pouca ou nenhuma expressão nos acontecimentos políticos desenrolam-se nas cidades; elas constituem um instrumento muito preciso, apesar de seu peso de pedra, sensível como uma harpa eólica às vivas vibrações históricas do ar.” Ferdinand Lion, Geschichte biologisch gesehen, Zurique-Leipzig, 1935, pp. 125-126, 128 (“Notiz über Städte” “Nota sobre cidades”).
[M 9, 4]
Delvau pretende reconhecer no flanar as camadas sociais da sociedade parisiense com a mesma facilidade que um geólogo identifica as camadas do solo.
[M 9a, 1] 
[...]
“Sair, quando nada nos obriga a fazê-lo, e seguir nossa inspiração como se o simples fato de virar à direita ou à esquerda já constituísse um ato essencialmente poético.” Edmond laloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 4]
“Dickens ... não conseguia viver em Lausanne porque precisava, para compor seus romances, do imenso labirinto das ruas de Londres, por onde rondava sem parar ... Thomas de Quincey... Baudelaire nos diz que ele era ‘uma espécie de peripatético, um filósofo da rua, meditando sem cessar através do turbilhão da cidade grande’.” Edmond Jaloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 5]
[...]
“Se Deus imprimiu ... o destino de cada homem em sua fisionomia ... por que a mão não resumiria a fisionomia, uma vez que a mão é a ação humana inteira, e seu único modo de manifestação? Daí a quiromancia... Predizer a um homem os acontecimentos de sua vida pelo aspecto de sua mão não é um fato mais extraordinário ... que dizer a um soldado que ele combaterá, a um advogado que ele discursará, a um sapateiro que ele fará sapatos ou botas, a um agricultor que ele adubará e cultivará a terra. Tomemos um exemplo marcante: o gênio é de tal forma visível no homem que, ao passearem em Paris, até as pessoas mais ignorantes adivinham um grande artista quando passa... A maioria dos observadores da natureza social e parisiense pode dizer a profissão de um transeunte ao vê-lo aproximar-se.’ Honoré de Balzac, Le Cousin Bons, in: Œuvres Complètes, vol. XVIII, Scènes de la Vie Parisienne, VI, Paris, 1914, p. 130.
[M 10, 4]
“Aquilo a que os homens chamam amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma que se entrega por inteiro, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Ed. R. Simon, p. 16 (“Les foules”).
[M 10a, 1]
“Quem entre nós, em seus dias de ambição, já não terá sonhado com o sortilégio de uma prosa poética, musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante áspera para adaptar-se aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência? / É sobretudo da freqüentação das cidades gigantescas, é do cruzamento de suas inúmeras relações que nasce este ideal obsedante.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, pp. 1-2 (“A Arsène Houssaye”). 
[M 10a, 2]
“Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante que uma janela iluminada por uma candeia.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, p. 62 (“Les fenêtres”).
[M 10a, 3]
“O artista procura a verdade eterna e ignora a eternidade que existe à sua volta. Admira a coluna do templo babilônico e despreza a chaminé da fábrica. Qual é a diferença de Unhas? Quando tiver terminado a era da energia obtida a partir do carvão, os vestígios das últimas chaminés altas serão admirados como hoje se admiram os destroços das colunas de templos... O vapor, tão amaldiçoado pelos escritores, permite-lhes deslocar sua admiração... Em vez de esperar chegar ao golfo de Bengala para ali procurar um tema empolgante, poderiam desenvolver uma curiosidade em relação ao cotidiano que os toca. Um carregador da Gare de l’Est é tão pitoresco quanto um estivador de Colombo... Sair de sua casa como quem chega de longe; descobrir um mundo que é aquele no qual se vive; começar o dia como quem desembarca de Cingapura, como se nunca tivesse visto o capacho diante de sua porta nem o rosto dos vizinhos de seu andar...; eis o que revela a humanidade presente e até então ignorada.” Pierre Hamp, “La littérature, image de la société’, in: Encyclopédie Française, vol. XVI, Arts et Littératures dans Ia Société Contemporaine, 1, p. 64.
 [M 10a, 4]
[...]
Dickens quando criança: “Quando terminava de trabalhar, não tinha outro recurso senão andar à solta, e então perambulava por meia Londres. Era um menino sonhador, preocupado sobretudo com seu triste destino.... Não se dedicou à observação, como fazem os pedantes; não olhou Charing Cross para se instruir; não contou os lampiões de Holborn para aprender aritmética; mas inconscientemente colocou nesses lugares as cenas do drama torturante que se elaborava em sua pequena alma oprimida. Achava-se na escuridão sob os lampiões de Holborn e sofria o martírio em Charing Cross. Para ele, mais tarde, todos esses bairros tiveram o interesse que só pertence aos campos de batalha.” G. K. Chesterton, Dickens, vol. IX da série Vies des Hommes Illustres, traduzido do inglês por Laurent e Matin-Dupont, Paris, 1927, pp. 30-31. 
[M 11, 2]
[...]
Vem ao caso relacionar o conto policial com o gênio metódico de Poe, como o faz Valéry (Fleurs du Mal, ed. de 1928, introdução de Paul Valéry, p. XX): “Chegar a um ponto do qual se domine o campo inteiro de uma atividade é perceber necessariamente uma quantidade de possibilidades... Assim, não é de se admirar que Poe, de posse de um método tão poderoso..., tenha se tornado o inventor de vários gêneros, tenha dado os primeiros ... exemplos do conto científico, do poema cosmogônico moderno, do romance de investigação policial, da introducão dos estados psicológicos mórbidos na literatura.”
[M 12a, 1] 
Sobre o “Homem da multidão”, esta passagem de um artigo de La Semaine, de 4 de outubro de 1846, atribuído a Balzac ou a Hippolyte Castille (cit. em Messac, Le “Detective Novelet lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 424): “O olhar se fixa nesse homem que caminha na sociedade entre leis, emboscadas e traições de seus cúmplices como um selvagem do Novo Mundo entre répteis, animais ferozes e tribos inimigas.”
[M 12a, 2]
Sobre o “Homem da multidão”: Bulwer acrescenta à sua descrição da multidão da cidade grande em Eugen Aram (parte IV, capítulo 5) a referência a uma observação de Goethe, segundo a qual todo ser humano, do melhor ao mais miserável, carrega consigo um segredo que despertaria o ódio de todos os outros se fosse descoberto. Além disso, encontra-se já em Bulwer o confronto entre cidade e campo, com vantagem para a cidade.
[M 12a, 3]
Sobre o romance policial: “Na fantasia dos americanos acerca do héroi, o carárer do índio representa um papel fundamental... Somente as iniciações indígenas conseguem competir com a agressividade e a crueldade de um rigoroso treinamento americano... Em tudo o que o americano realmente deseja aparece o índio; na extraordinária concentração em um objetivo determinado, na tenacidade da perseguição e na firmeza com a qual suporta as maiores dificuldades manifestam-se plenamente todas as virtudes legendárias do índio.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 207 (“Seele und Erde”  “Alma e terra”).
[M 12a, 4]
Capítulo II, “Physionomie de la me”, in: Argument du Livre sur la Belgique: “Lavagem das fachadas e das calçadas, mesmo quando chove a cântaros. Mania nacional, universal... Nenhuma vitrine nas boutiques. A flânerie, tão cara aos povos dotados de imaginação, é impossível em Bruxelas; nada para se ver, e caminhos impossíveis.” Baudelaire, Œuvres, ed. org. por Y.-G. Le Dantec, vol. II, Paris, 1932, pp. 709-710.
[M 12a, 5]
Le Breton censura Balzac, afirmando que haveria em sua obra “um excesso de moicanos de spencer e iroqueses de redingote”. Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 1]
Extraído das primeiras páginas de Les Mystères de Paris: “Todo mundo leu essas admiráveis páginas nas quais Cooper, o Walter Scott americano, retratou os costumes ferozes dos selvagens, sua língua pitoresca, poética, as mil astúcias com as quais fogem de seus inimigos ou os perseguem... Tentaremos colocar diante dos olhos do leitor alguns episódios da vida de outros bárbaros, tão afastados da civilização quanto as tribos selvagens, tão bem representadas por Cooper.” Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel”, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 2]
Associação memorável entre a flânerie e o romance policial no começo de Les Mohicans de Paris. “Desde o início, Salvator diz ao poeta Jean Robert: ‘Você quer escrever um romance? Pegue Lesage, Walter Scott e Cooper...’ Em seguida, tal como os personagens das Mil e Uma Noites, eles jogam ao vento um fragmento de papel e o seguem, convencidos de que ele os levará a um tema de romance, o que de fato acontece.” Cit. em Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 429.
[M 13, 3]
Sobre os epígonos de Sue e de Balzac “que vão pulular no romance de folhetim. A influencia de Cooper se fia z sendr aqui ora diretamente, ora por intermédio de Balzac ou de outros imitadores. Paul Féval, desde 1856, em Les Couteaux dOr, transpõe ousadamente os hábitos e mesmo os habitantes da pradaria para o cenário parisiense: vê-se ali um cão maravilhosamente dotado que se chama Moicano, um duelo de caçadores à americana no subúrbio de Paris, e um pele-vemelha de nome I owah, que mata e escalpa quatro de seus inimigos em plena Paris, num fiacre, tão habilmente que o cocheiro nem mesmo percebe. Um pouco mais tarde, em Les Habits Noirs (1863), ele multiplica as comparações ao gosto de Balzac: *... os selvagens de Cooper em plena Paris! A cidade grande não e por acaso tão misteriosa quanto as florestas do Novo Mundo?’” Em uma observação subseqüente: Cf. também os capítulos II e XIX, onde ele põe em cena dois vagabundos, Echalot e Similor, ‘huronianos de nossos lamaçais, iroqueses da sarjeta’.’ Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, da série Bibliothèque de la Revue de Littérature Comparée, tomo 59, pp. 425-426.
[M 13, 4]
“A poesia de terror que os estratagemas das tribos inimigas em guerra espalham no seio das florestas da América, e da qual tanto se aproveitou Cooper, ligava-se aos menores detalhes da vida parisiense. Os transeuntes, as boutiques , os fiacres, uma pessoa à janela, tudo isso interessava aos homens a quem era confiada a proteção da vida do velho Peyrade, tão intensamente quanto um tronco de árvore, uma toca de castor, um rochedo, uma pele de búfalo, uma canoa imóvel, uma folha flutuante interessam ao leitor dos romances de Cooper.” Balzac, À Combien lAmour Revient aux Vieillards.13 
[M 13a, 1]
A figura do flâneur prenuncia a do detetive. O flâneur devia procurar uma legitimação social para seu comportamento. Convinha-lhe perfeitamente ver sua indolência apresentada ao aparência, por detrás da qual se esconde de fato a firme atenção de um observador ado implacavelmente o criminoso que de nada suspeita. 
[M 13a, 2] 
[...]
Do velho Victor Hugo, quando morava na Rue Pigalle, relata Jules Clarerie que gostava de passear em Paris nas impériales dos ônibus. Adorava contemplar lá de cima a agitação das ruas. (Cf. Raymond Escholier, Victor Hugo Raconté par Ceux qui lont Vu, Paris, 1931, p. 350  Jules Claretie, “Victor Hugo”.)
[M 13a, 4] 
 
12 Na época em que Paris contava apenas com as doze circunscrições da região central, ou seja, antes da reforma administrativa de 1859, o “décimo-terceiro arrondissement” designava o lugar dos amores ilícitos. (J.L.)

13 Trata-se do título da parte II de Splendeurs et Miséres des Courtisanes; a citação encontra-se em Balzac, Œuvres Complètes, vol XV, Paris, Ed. Conard, 1913, pp. 310-311.
<fase média>
[...]
Sobre o fenômeno da colportagem do espaço: “O senso do mistério — escreveu Odilon lisdon, que havia aprendido seu segredo em Da Vinci — é estar o tempo todo no equívoco, fanes aspectos duplos, triplos, nas suspeitas de aspecto (imagens dentro de imagens), nas formas que podem vir a ser, ou que virão a ser, segundo o estado de espírito do observador. Todas as coisas mais que sugestivas, pelo fato de aparecerem.” Cit. cm Raymond Escholier, Artiste, in: Arts et Métiers Graphiques, n° 47, 01 jun. 1935, p. 7.
[M 6a, 1] 
[...]
A cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto. O flâneur, sem o saber, persegue esta realidade. Sem o saber — por outro lado, nada é mais insensato do que a tese convencional que racionaliza seu comportamento e é a base inconteste da ilimitada literatura que descreve o flâneur em seu comportamento e aparência. Trata-se da tese de que o flâneur teria escolhido como objeto de seu estudo a aparência fisionômica das pessoas, a fim de fazer a partir do andar, da estrutura física e das expressões faciais a leitura da nacionalidade e do status social, do caráter e do destino. O interesse em dissimular as reais motivações do flâneur deveria ser bastante premente para dar crédito a teses tão inconsistentes.
[M 6a, 4]
[...]
Litografia. “Os cocheiros dos Fiacres brigando com os dos Ônibus”. Cabinet des Estampes.
[M 7, 2]
Em 1853 já existiam estatísticas oficiais sobre o tráfego de veículos em certos pontos principais de Paris. “Em 1853, trinta e uma linhas de ônibus serviam Paris, e é interessante observar que, com pouca diferença, essas linhas eram designadas com as mesmas letras que nossos ônibus atuais. Assim, a ‘Madeleine-Bastille’ já era a linha E.” Paul d’Ariste, La Vie et le Monde du Boulevard, 1830-1870, Paris, 1930, p. 196.
[M 7, 3]
Nos pontos de baldeação dos ônibus, os passageiros eram chamados por um número de ordem e tinham que se apresentar para garantir seu direito a um lugar. (1855)
[M 7, 4]
[...]
Louis Lurine, Le Treizième Arrondissement de Paris, Paris, 1850, é um dos testemunhos mais significativos da fisionomia própria do bairro. O livro possui características de estilo peculiares. Personifica o bairro; não são raras as fórmulas do tipo: “O décimo terceiro arrondissement não se dedica ao amor de um homem, a não ser quando que lhe proporciona vícios para amar” (p. 216).12 
[M 7, 6]

A expressão de Diderot “Como é bela a rua!” é muito cara aos cronistas da flânerie.
[M 7, 7]
Sobre a lenda do flâneur: “Com a ajuda de uma palavra que escuto ao passar, reconstituo soda uma conversa, toda uma vida; o tom de uma voz é suficiente para unir o nome de um pecado capital ao homem com quem acabo de cruzar, de quem só vislumbrei o perfil." Victor Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 270.
[M 7, 8]
Ainda no ano de 1857, partia às seis horas da manhã da Rue Pavée-Saint-André uma diligência para Veneza, numa viagem que durava seis semanas. Cf. Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, p. 273.
[M 7, 9]
Nos ônibus, um mostrador que indicava o número de passageiros. Para quê? Como aviso ao cobrador que distribuía os bilhetes.
[M 7, 10]
“Observa-se ... que o ônibus parece apagar e petrificar todos os que dele se aproximam. As pessoas que ganham a vida com os viajantes ... são reconhecidas, em geral, por sua agitação grosseira..., da qual os empregados dos ônibus são praticamente os únicos que não apresentam traços. Pode-se dizer que dessa pesada máquina emana uma influência plácida soporífica, semelhante àquela que faz adormecer as marmotas e as tartarugas no começo do inverno.” Vicior Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 283 (“Cochers de fiacres, cochers de remise et cochers d’omnibus”).
[M 7a, 1]
[...]
A primeira sugestão de um sistema de ônibus deve-se a Pascal, e ela foi concretizada sob Luís XIV, embora com a restrição significativa de “que os soldados, pajens, lacaios e outras pessoas de libré, inclusive os serventes e trabalhadores braçais não poderíam subir nas ditas carruagens”. Em 1828, a introdução dos ônibus, sobre os quais lê-se em um cartaz: “Esses veículos ... avisam quando vão passar, acionando um jogo de cornetas recentemente inventado.” Eugène D’Auriac, Histoire Anecdotique de lIndustrie Française, Paris, 1861, pp. 250 e 281.
[M 7a, 3]
[...]
A figura de um camponês no cenário urbano é descrita por Delvau em Les Lions du Jour, no capítulo “Le pauvre à cheval”. “Este cavaleiro era um pobre diabo, cujos meios impediamno de andar a pé, e que pedia esmola como um outro teria pedido uma informação sobre o caminho. Esse mendigo..., com seu pequeno poldro de crinas selvagens, de pêlo áspero como o de um asno do campo, me ficou durante muito tempo no espírito e diante dos olhos... Ele morreu  rentista.” Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, pp. 1 16-1 17 (“Le pauvre à cheval”).
[M 7a, 5] 
[...]
“A oposição entre a cidade e o campo ... é a expressão mais flagrante da subsunção do indivíduo à divisão do trabalho e à uma determinada atividade que lhe é imposta — uma subsunção que transforma um em obtuso animal urbano, e o outro em obtuso animal campestre.” (Karl Marx e Friedrich Engels, Die deutsche Ideologie, Marx-Engels Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, pp. 271-272)
[M 8, 3]
No Arco do Triunfo: “Incessantemente circulam nessas ruas, para cima e para baixo, cabriolés, ônibus, hirondelles , velocíferos, citadinas, Dames blanches, seja qual for o nome desses diversos veículos públicos; e além deles os inumeráveis whiskys, carruagens, carroças, cavaleiros e amazonas.” L. Rellstab, Paris im Frühjahr 1843, Leipzig, 1844, vol. I, p. 212. O autor menciona também um ônibus que trazia sua destinação escrita numa bandeira.
[M 8, 4]
Por volta de 1857 (cf. H. de Pène, Paris Intime, Paris, 1859, p. 224), a parte superior dos ônibus  a impériale  era proibida às mulheres.
[M 8, 5]
 [...]
Sobre Victor Hugo: “A manhã, para ele, constituía o trabalho imóvel; a tarde, o trabalho Man te Adorava as impériales dos ônibus, esses ‘balcões ambulantes, como ele as chamava, de onde podia estudar à vontade os aspectos diversos da gigantesca cidade. Dizia que o barulho ensurdecedor de Paris lhe produzia o mesmo efeito que o mar.” Édouard Drumont, Figures de Bronze ou Statues de Neige, Paris, 1900, p. 25 (“Victor Hugo”).
[M 8a, 3]
Existência autônoma dos quartiers: ainda em meados do século, dizia-se da Île Saint-Louis, que uma moça de lá, caso não gozasse de boa reputação, teria que procurar o futuro marido fora do quartier.
[M 8a, 4] 
 [...]
“O ônibus, este Leviata da carroceria, e essas viaturas tão numerosas, entrecruzando-se com a rapidez de um raio!” Théophile Gautier [in: Edouard Fournier, Paris Démoli, 2a ed., com prefácio de Théophile Gautier, Paris, 1855, p. IV]. (Este prefácio foi publicado em Le Moniteur Universel de 21 de janeiro de 1854, provavelmente como crítica à primeira edição. Parece que é total ou parcialmente idêntico ao “Mosaïque de ruines”, de Gautier, in: Paris et les Parisiens au XIX Siècle, Paris, 1856.)
[M 9, 3]
“Os elementos temporais mais heterogêneos coexistem, portanto, na cidade. Quando se sai de uma casa do século XVIII e se entra em outra do século XVI, cai-se em um declive temporal; bem ao lado há uma igreja da época gótica, e afundamos em um abismo; mais alguns passos e chegamos a uma rua da época dos Gründerjahre ... e subimos a montanha do tempo. Quem entra em uma cidade sente-se como em um tecido de sonho, onde um acontecimento de hoje se articula com o mais remoto. Uma casa associa-se a uma outra, não importa de que camada temporal se originam, e assim surge uma rua. E mais adiante, quando esta ma, digamos, da época de Goethe, desemboca em uma outra, por exemplo, da época guilhermina, forma-se o bairro... Os pontos culminantes da cidade são suas praças, onde desembocam não só muitas mas, mas também as correntes de sua história. Mal estas afluem e já são cercadas; as bordas da praça são as margens, de modo que a forma exterior da praça fornece informações sobre a história que nela se passa. . . Coisas que encontram pouca ou nenhuma expressão nos acontecimentos políticos desenrolam-se nas cidades; elas constituem um instrumento muito preciso, apesar de seu peso de pedra, sensível como uma harpa eólica às vivas vibrações históricas do ar.” Ferdinand Lion, Geschichte biologisch gesehen, Zurique-Leipzig, 1935, pp. 125-126, 128 (“Notiz über Städte” “Nota sobre cidades”).
[M 9, 4]
Delvau pretende reconhecer no flanar as camadas sociais da sociedade parisiense com a mesma facilidade que um geólogo identifica as camadas do solo.
[M 9a, 1] 
[...]
“Sair, quando nada nos obriga a fazê-lo, e seguir nossa inspiração como se o simples fato de virar à direita ou à esquerda já constituísse um ato essencialmente poético.” Edmond laloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 4]
“Dickens ... não conseguia viver em Lausanne porque precisava, para compor seus romances, do imenso labirinto das ruas de Londres, por onde rondava sem parar ... Thomas de Quincey... Baudelaire nos diz que ele era ‘uma espécie de peripatético, um filósofo da rua, meditando sem cessar através do turbilhão da cidade grande’.” Edmond Jaloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 5]
[...]
“Se Deus imprimiu ... o destino de cada homem em sua fisionomia ... por que a mão não resumiria a fisionomia, uma vez que a mão é a ação humana inteira, e seu único modo de manifestação? Daí a quiromancia... Predizer a um homem os acontecimentos de sua vida pelo aspecto de sua mão não é um fato mais extraordinário ... que dizer a um soldado que ele combaterá, a um advogado que ele discursará, a um sapateiro que ele fará sapatos ou botas, a um agricultor que ele adubará e cultivará a terra. Tomemos um exemplo marcante: o gênio é de tal forma visível no homem que, ao passearem em Paris, até as pessoas mais ignorantes adivinham um grande artista quando passa... A maioria dos observadores da natureza social e parisiense pode dizer a profissão de um transeunte ao vê-lo aproximar-se.’ Honoré de Balzac, Le Cousin Bons, in: Œuvres Complètes, vol. XVIII, Scènes de la Vie Parisienne, VI, Paris, 1914, p. 130.
[M 10, 4]
“Aquilo a que os homens chamam amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma que se entrega por inteiro, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Ed. R. Simon, p. 16 (“Les foules”).
[M 10a, 1]
“Quem entre nós, em seus dias de ambição, já não terá sonhado com o sortilégio de uma prosa poética, musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante áspera para adaptar-se aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência? / É sobretudo da freqüentação das cidades gigantescas, é do cruzamento de suas inúmeras relações que nasce este ideal obsedante.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, pp. 1-2 (“A Arsène Houssaye”). 
[M 10a, 2]
“Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante que uma janela iluminada por uma candeia.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, p. 62 (“Les fenêtres”).
[M 10a, 3]
“O artista procura a verdade eterna e ignora a eternidade que existe à sua volta. Admira a coluna do templo babilônico e despreza a chaminé da fábrica. Qual é a diferença de Unhas? Quando tiver terminado a era da energia obtida a partir do carvão, os vestígios das últimas chaminés altas serão admirados como hoje se admiram os destroços das colunas de templos... O vapor, tão amaldiçoado pelos escritores, permite-lhes deslocar sua admiração... Em vez de esperar chegar ao golfo de Bengala para ali procurar um tema empolgante, poderiam desenvolver uma curiosidade em relação ao cotidiano que os toca. Um carregador da Gare de l’Est é tão pitoresco quanto um estivador de Colombo... Sair de sua casa como quem chega de longe; descobrir um mundo que é aquele no qual se vive; começar o dia como quem desembarca de Cingapura, como se nunca tivesse visto o capacho diante de sua porta nem o rosto dos vizinhos de seu andar...; eis o que revela a humanidade presente e até então ignorada.” Pierre Hamp, “La littérature, image de la société’, in: Encyclopédie Française, vol. XVI, Arts et Littératures dans Ia Société Contemporaine, 1, p. 64.
 [M 10a, 4]
[...]
Dickens quando criança: “Quando terminava de trabalhar, não tinha outro recurso senão andar à solta, e então perambulava por meia Londres. Era um menino sonhador, preocupado sobretudo com seu triste destino.... Não se dedicou à observação, como fazem os pedantes; não olhou Charing Cross para se instruir; não contou os lampiões de Holborn para aprender aritmética; mas inconscientemente colocou nesses lugares as cenas do drama torturante que se elaborava em sua pequena alma oprimida. Achava-se na escuridão sob os lampiões de Holborn e sofria o martírio em Charing Cross. Para ele, mais tarde, todos esses bairros tiveram o interesse que só pertence aos campos de batalha.” G. K. Chesterton, Dickens, vol. IX da série Vies des Hommes Illustres, traduzido do inglês por Laurent e Matin-Dupont, Paris, 1927, pp. 30-31. 
[M 11, 2]
[...]
Vem ao caso relacionar o conto policial com o gênio metódico de Poe, como o faz Valéry (Fleurs du Mal, ed. de 1928, introdução de Paul Valéry, p. XX): “Chegar a um ponto do qual se domine o campo inteiro de uma atividade é perceber necessariamente uma quantidade de possibilidades... Assim, não é de se admirar que Poe, de posse de um método tão poderoso..., tenha se tornado o inventor de vários gêneros, tenha dado os primeiros ... exemplos do conto científico, do poema cosmogônico moderno, do romance de investigação policial, da introducão dos estados psicológicos mórbidos na literatura.”
[M 12a, 1] 
Sobre o “Homem da multidão”, esta passagem de um artigo de La Semaine, de 4 de outubro de 1846, atribuído a Balzac ou a Hippolyte Castille (cit. em Messac, Le “Detective Novelet lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 424): “O olhar se fixa nesse homem que caminha na sociedade entre leis, emboscadas e traições de seus cúmplices como um selvagem do Novo Mundo entre répteis, animais ferozes e tribos inimigas.”
[M 12a, 2]
Sobre o “Homem da multidão”: Bulwer acrescenta à sua descrição da multidão da cidade grande em Eugen Aram (parte IV, capítulo 5) a referência a uma observação de Goethe, segundo a qual todo ser humano, do melhor ao mais miserável, carrega consigo um segredo que despertaria o ódio de todos os outros se fosse descoberto. Além disso, encontra-se já em Bulwer o confronto entre cidade e campo, com vantagem para a cidade.
[M 12a, 3]
Sobre o romance policial: “Na fantasia dos americanos acerca do héroi, o carárer do índio representa um papel fundamental... Somente as iniciações indígenas conseguem competir com a agressividade e a crueldade de um rigoroso treinamento americano... Em tudo o que o americano realmente deseja aparece o índio; na extraordinária concentração em um objetivo determinado, na tenacidade da perseguição e na firmeza com a qual suporta as maiores dificuldades manifestam-se plenamente todas as virtudes legendárias do índio.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 207 (“Seele und Erde”  “Alma e terra”).
[M 12a, 4]
Capítulo II, “Physionomie de la me”, in: Argument du Livre sur la Belgique: “Lavagem das fachadas e das calçadas, mesmo quando chove a cântaros. Mania nacional, universal... Nenhuma vitrine nas boutiques. A flânerie, tão cara aos povos dotados de imaginação, é impossível em Bruxelas; nada para se ver, e caminhos impossíveis.” Baudelaire, Œuvres, ed. org. por Y.-G. Le Dantec, vol. II, Paris, 1932, pp. 709-710.
[M 12a, 5]
Le Breton censura Balzac, afirmando que haveria em sua obra “um excesso de moicanos de spencer e iroqueses de redingote”. Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 1]
Extraído das primeiras páginas de Les Mystères de Paris: “Todo mundo leu essas admiráveis páginas nas quais Cooper, o Walter Scott americano, retratou os costumes ferozes dos selvagens, sua língua pitoresca, poética, as mil astúcias com as quais fogem de seus inimigos ou os perseguem... Tentaremos colocar diante dos olhos do leitor alguns episódios da vida de outros bárbaros, tão afastados da civilização quanto as tribos selvagens, tão bem representadas por Cooper.” Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel”, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 2]
Associação memorável entre a flânerie e o romance policial no começo de Les Mohicans de Paris. “Desde o início, Salvator diz ao poeta Jean Robert: ‘Você quer escrever um romance? Pegue Lesage, Walter Scott e Cooper...’ Em seguida, tal como os personagens das Mil e Uma Noites, eles jogam ao vento um fragmento de papel e o seguem, convencidos de que ele os levará a um tema de romance, o que de fato acontece.” Cit. em Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 429.
[M 13, 3]
Sobre os epígonos de Sue e de Balzac “que vão pulular no romance de folhetim. A influencia de Cooper se fia z sendr aqui ora diretamente, ora por intermédio de Balzac ou de outros imitadores. Paul Féval, desde 1856, em Les Couteaux dOr, transpõe ousadamente os hábitos e mesmo os habitantes da pradaria para o cenário parisiense: vê-se ali um cão maravilhosamente dotado que se chama Moicano, um duelo de caçadores à americana no subúrbio de Paris, e um pele-vemelha de nome I owah, que mata e escalpa quatro de seus inimigos em plena Paris, num fiacre, tão habilmente que o cocheiro nem mesmo percebe. Um pouco mais tarde, em Les Habits Noirs (1863), ele multiplica as comparações ao gosto de Balzac: *... os selvagens de Cooper em plena Paris! A cidade grande não e por acaso tão misteriosa quanto as florestas do Novo Mundo?’” Em uma observação subseqüente: Cf. também os capítulos II e XIX, onde ele põe em cena dois vagabundos, Echalot e Similor, ‘huronianos de nossos lamaçais, iroqueses da sarjeta’.’ Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, da série Bibliothèque de la Revue de Littérature Comparée, tomo 59, pp. 425-426.
[M 13, 4]
“A poesia de terror que os estratagemas das tribos inimigas em guerra espalham no seio das florestas da América, e da qual tanto se aproveitou Cooper, ligava-se aos menores detalhes da vida parisiense. Os transeuntes, as boutiques , os fiacres, uma pessoa à janela, tudo isso interessava aos homens a quem era confiada a proteção da vida do velho Peyrade, tão intensamente quanto um tronco de árvore, uma toca de castor, um rochedo, uma pele de búfalo, uma canoa imóvel, uma folha flutuante interessam ao leitor dos romances de Cooper.” Balzac, À Combien lAmour Revient aux Vieillards.13 
[M 13a, 1]
A figura do flâneur prenuncia a do detetive. O flâneur devia procurar uma legitimação social para seu comportamento. Convinha-lhe perfeitamente ver sua indolência apresentada ao aparência, por detrás da qual se esconde de fato a firme atenção de um observador ado implacavelmente o criminoso que de nada suspeita. 
[M 13a, 2] 
[...]
Do velho Victor Hugo, quando morava na Rue Pigalle, relata Jules Clarerie que gostava de passear em Paris nas impériales dos ônibus. Adorava contemplar lá de cima a agitação das ruas. (Cf. Raymond Escholier, Victor Hugo Raconté par Ceux qui lont Vu, Paris, 1931, p. 350  Jules Claretie, “Victor Hugo”.)
[M 13a, 4] 
 
12 Na época em que Paris contava apenas com as doze circunscrições da região central, ou seja, antes da reforma administrativa de 1859, o “décimo-terceiro arrondissement” designava o lugar dos amores ilícitos. (J.L.)

13 Trata-se do título da parte II de Splendeurs et Miséres des Courtisanes; a citação encontra-se em Balzac, Œuvres Complètes, vol XV, Paris, Ed. Conard, 1913, pp. 310-311.
<fase tardia>
[...]
Seria útil descobrir certos traços precisos da fisionomia do habitante da cidade. Por exemplo: a calçada, reservada ao pedestre, estende-se ao longo da rua. Assim, em seus afazeres diários, o habitante da cidade, quando anda a pé, tem constantememe diante dos olhos a imagem do concorrente que o ultrapassa dentro de um veículo.  As calçadas cenamente foram construídas no interesse daqueles que andavam de carruagem ou a cavalo. Quando?
[M 14, 6]
[...]
A Paris de 1908. “Um parisiense habituado à multidão, aos veículos, e a escolher as ruas, chegava a fazer longas caminhadas com um passo regular e muitas vezes distraído. De um modo geral, a abundância dos meios de circulação ainda não havia dado a três milhões de homens a idéia ... de que poderiam deslocar-se com qualquer propósito e de que a distância é o que menos conta.” Jules Romains, Les Hommes de Bonne Volonté, livro I, Le 6 Octobre, Paris. 1932, p. 204.
[M 14a, 2]
[...]
Encontramos em Jules Romains, Crime de Quinette (Les Hommes de Bonne Volonté, livro II), algo como o negativo da solidão, que é, na maioria das vezes, a companheira do flâneur. Que a amizade tem a força suficiente para quebrar essa solidão, este talvez seja o argumento ate da tese de Romains. “A meu ver, é sempre um pouco assim que nos tornamos . Presenciamos, juntos, um momento do mundo, talvez um de seus segredos fugidios  uma aparição jamais vista e que talvez não se veja nunca mais. Mesmo se for algo pequeno. Imagine, por exemplo, dois homens que passeiam, como nós. E de repente, graças a um vão entre as nuvens, uma luz vem bater no alto de um muro, e o alto do muro se transforma por um instante em algo de extraordinário. Um dos homens toca o ombro do outro, que ergue a cabeça e vê o mesmo, compreende o que aconteceu. Depois a coisa se desmancha no ar. Mas eles saberão in aeternum que ela existiu.” Jules Romains, Les Hommes de Bonne Volonté, livro II, Crime de Quinette, Paris, 1932, pp. 175-176.
[M 15, 1]
Mallarmé. “Ele tinha atravessado a Place e a Pont de l’Europe quase todos os dias — confidenciou ele a Georges Moore — tomado pela tentação de se jogar do alto da ponte sobre as vias férreas, sob os trens, a fim de escapar dessa mediocridade da qual era prisioneiro.” Daniel Halévy, Pays Parisiens, Paris, 1932, p. 105.
[M 15, 2]
[...]
Carta que acompanha os dois “Crépuscules” dirigida a Fernand Desnoyers, que os publicou em seu Fontainebleau, Paris, 1855: “Envio-lhe dois poemas que representam, mais ou menos, a soma dos devaneios que me assaltam nas horas crepusculares. Na profundeza dos bosques, afundado nessas criptas semelhantes às das sacristias e catedrais, penso em nossas surpreendentes cidades, e a prodigiosa música que rola sobre seus pontos mais altos soa para mim como a tradução das lamentações humanas.” Cit. em A. Séché, La Vie des Fleurs du Mal, Paris, 1928, p. 110. ■ Baudelaire ■
[M 15a, 1]
A clássica primeira descrição da multidão em Poe: “A maioria dos que passavam tinha um ar convencido, característico dos negócios; eles não pareciam ocupados senão com o caminho que procuravam abrir através da multidão. Franziam as sobrancelhas e moviam os olhos vivamente; quando eram acotovelados pelos transeuntes ao lado, não mostravam nenhum sinal de impaciência, mas ajustavam suas roupas e seguiam apressados. Outros, uma classe também bastante numerosa, tinham movimentos inquietos e o rosto sangüíneo, falavam sozinhos e gesticulavam, como se se sentissem sós justamente por causa da multidão que os envolvia. Quando seu caminho era interrompido, eles paravam de murmurar, mas redobravam seus gestos enquanto esperavam, com um sorriso distraído e despropositado, a passagem das pessoas que impediam seu curso. Se eram empurrados, saudavam exageradamente quem neles esbarrou, e pareciam aflitos com a confusão.” Poe, Nouvelles Histoires Extraordinaires, trad. Ch. B, Paris, 1886, p. 89. 
[M 15a, 2]
[...]
Descrição da multidão em Baudelaire, a comparar com a de Poe:

“O rio, leito fúnebre por onde escoam os desgostos, Carrega espumando os segredos dos esgostos;
Ele bate em cada casa com suas ondas deletetias,
Tinge de limão o Sena que ele altera,
E apresenta suas vagas aos joelhos dos transeuntes.
Cada um, esbarrando em nós nas calçadas ondulantes.
Egoísta e brutal, nos respinga ao passar,
Ou, para ir mais depressa, nos empurra ao se afastar.
Por toda parte lama, dilúvio, escuridão do céu:
Negro quadro que teria sonhado o negro Ezequiel!

Charles Baudelaire, 
Œuvres, vol. I, Paris, 1931, p. 211 (Poèmes Divers, “Un jour de phuie”).
[M 16, 1]
Sobre o romance policial:

“Quem não assinou, quem não deixou retrato 
Quem não esteve presente, quem nada falou 
Como poderão apanhá-lo! 
Apague as pegadas!”

Bcecht, Versuche, 4-7 [Caderno 2], Berlim, 1930, p. 116 (Lesebuch für Städtebewohner, I).
19
[...]
Sobretudo eu que, fiel ao meu velho hábito,
Faço muitas vezes da rua gabinete de estudo,
Quantas vezes, levando ao acaso meus passos sonhadores,
Caio de imprevisto no meio dos pavimentadores!”

Barthélemy, Paris: Revue Satirique à M.G. Delessert, Paris, 1838, p. 8.
[M 16a, 5]
[...]
Sobre a embriaguez da emparia no flâneur, pode-se lançar mão de uma passagem magnífica de Flaubert. Ela se origina provavelmente da época da elaboração de Madame Bovary. “Hoje, por exemplo, homem e mulher ao mesmo tempo, amante e amada, eu passeei a cavalo numa floresta, durante uma tarde de outono, sob folhas amareladas, e eu era os cavalos, as folhas, o vento, as palavras que foram ditas, e o sol vermelho que fazia se entrefecharem as pálpebras inundadas de amor...” Cit. em Henri Grappin, “Le mysticisme poétique et l’imagination de Gustave Flaubert”, Revue de Paris, 15 dez. 1912, p. 856.
[M 17a, 4]
Sobre a embriaguez da empatia no flâneur, tal como aparece também em Baudelaire, esta passagem de Flaubert: “Vejo-me com muita nitidez em diferentes épocas da história... Fui barqueiro no Nilo, cáften em Roma no tempo das guerras púnicas, depois orador grego em Subura, onde fui devorado pelas pulgas. Morri durante uma cruzada, por ter comido uvas em excesso nas praias da Síria. Fui pirata e monge, saltimbanco e cocheiro, talvez também imperador do Oriente...” Grappin, op. cit., p. 624.
[M 17a, 5] 
 [...]
Em de julho de 1838, G. E. Guhrauer escreve a Varnhagen a respeito de Heine: “Ele sofria muito, na primavera, com problemas nos olhos. Da última vez, acompanhei-o em um trecho dos boulevards. O esplendor e a vida desta via única em seu gênero provocavam em mim uma admiração incansável, à qual Heine desta vez contrapôs enfaticamente o que havia de horrível neste centro do mundo.” Cf. Engels sobre a multidão. Heinrich Heine, Gespräche, ed. org. por Hugo Biebcr, Berlim, 1926, p. 183.
[M 19, 4]
Esta cidade, onde reina uma vida, uma circulação, uma atividade sem igual, é também, por um singular contraste, aquela onde se encontra o maior número de ociosos, preguiçosos e vagabundos.” Pierre Larousse, Grand Dictionnaire Universel, Paris, 1872, vol. VIII, p. 436 (verbete: “Flâneur”).
[M 19, 5]
Hegel à sua mulher, em 3 de setembro de 1827, de Paris: “Quando ando pelas ruas, as pessoas se parecem com as de Berlim — vestidas da mesma maneira, praticamente os mesmos rostos —, o mesmo aspecto, mas em meio a uma massa populosa.” Briefe von und an Hegel, ed. org. por Karl Hegel, Leipzig, 1887, Parte II, p. 257 (Werke, vol. XIX, tomo 2).
[M 19, 6]
[...]
Se comparamos o texto de Baudelaire sobre Meryon com “Londres”, de Barbier, surge a pergunta se a imagem lúgubre da “mais inquietante das capitais”, ou seja, a imagem de Paris não foi fortemente determinada pelos escritos de Barbier e de Poe. Certamente Londres estava à frente de Paris, quanto ao desenvolvimento industrial.
[M 19a, 2]
[...]
"'London Bridge. Passei há algum tempo sobre a Ponte de Londres e me detive para olhar o que amo: o espetáculo de uma água rica, pesada e complexa, ornada de lençóis de nácar, perturbada por manchas de lama, confusamente carregada de tantos navios... Apoiei-me... A volúpia da visão me invadia com a força de uma sede, e me prendia àquela luz deliciosamente composta, cuja riqueza eu não podia esgotar. Mas sentia atrás de mim o trotar e o escorrer incessante de todo um povo invisível, de cegos eternamente impelidos ao objeto imediato de suas vidas. Parecia-me que essa multidão não se compunha de seres individuais, cada um com sua história, seu deus único, seus tesouros e suas taras, um monólogo e um destino; eu fazia deles, sem o saber, à sombra de meu corpo, ao abrigo de meus olhos, um fluxo de grãos todos idênticos, identicamente aspirados por não sei qual vazio, e cuja corrente surda e precipitada eu escutava passar monotonamente sobre a ponte. Nunca experimentei tamanha solidão, e misturada com orgulho e angústia.” Paul Valéry, Choses Tues, Paris, 1930, pp. 122-124.
[M 20, 2]
A flânerie se baseia, entre outras coisas, no pressuposto de que o fruto do ócio é mais precioso <?> que o do trabalho. Como se sabe, o flâneur realiza “estudos”. O Larousse do século XIX diz a esse respeito o seguinte: “Seu olho aberto e seu ouvido atento procuram coisa diferente daquilo que a multidão vem ver. Uma palavra lançada ao acaso lhe revela um desses traços de caráter que não podem ser inventados e que é preciso captar ao vivo; essas fisionomias tão ingenuamente atentas vão fornecer ao pintor uma expressão com a qual ele sonhava; um ruído, insignificante para qualquer outro ouvido, vai tocar o do músico e lhe dar a idéia de uma combinação harmônica; mesmo ao pensador, ao filósofo perdido em seu devaneio, essa agitação exterior é proveitosa: ela mistura e sacode suas idéias, como a tempestade mistura as ondas do mar... Os homens de gênio, em sua maioria, foram grandes flâneurs; mas flâneurs laboriosos e fecundos... Muitas vezes, é na hora em que o artista e o poeta parecem menos ocupados com sua obra que eles estão mais profundamente imersos nela. Nos primeiros anos deste século, via-se todo dia um homem dar a volta nas fortificações da cidade de Viena, não importando o tempo que fizesse, neve ou sol: era Beethoven que, flanando, repetia em sua cabeça suas admiráveis sinfonias antes de lançá-las no papel; para ele, o mundo não existia mais; em vão o cumprimentavam respeitosamente em sua caminhada  ele não percebia; seu espírito estava em outro lugar.” Pierre Larousse, Grand Dictionnaire Universel, Paris, 1872, vol. VIII, p. 436 (verbete: “Flâneur”).
[M 20a, 1]
 
19 Bertolt Brecht, Poemas: 1913-195 6, 5a ed., São Paulo. Editora 34, 2000; tradução de Paulo Cesar de Souza. (w.b.)

N
[Teoria do Conhecimento, Teoria do Progresso]
[...]

A reforma da consciência consiste apenas em despertar o mundo ... do sonho de si mesmo.

Karl Marx, Der historische MaterialismusDie Frühschriften, Leipzig, 1932, vol. I, p. 226 (Carta de Marx a Ruge, Kreuzenach, setembro de 1843.)

Nos domínios de que tratamos aqui, o conhecimento existe apenas em lampejos. O texto é o trovão que segue ressoando por muito tempo.

[N 1, 1]

Comparação das tentativas dos outros com empreendimentos de navegação, nos quais os navios são desviados do Pólo Norte magnético. Encontrar esse Pólo Norte. O que são desvios para os outros, são para mim os dados que determinam a minha rota. - Construo meus cálculos sobre os diferenciais de tempo - que, para outros, perturbam as “grandes linhas da pesquisa.

[N 1, 2]

Dizer algo sobre o próprio método da composição: como tudo em que estamos pensando durante um trabalho no qual estamos imersos deve ser-lhe incorporado a qualquer preço, Seja pelo fato de que sua intensidade aí se manifesta, seja porque os pensamentos de ão carregam consigo um télos em relação a esse trabalho. É o caso também deste projeto, que deve caracterizar e preservar os intervalos da reflexão, os espaços entre as partes essenciais deste trabalho, voltadas com máxima intensidade para fora.

[N 1, 3]

[…]

O pathos deste trabalho: não há épocas de decadência. Tentativa de ver o século XIX de maneira tão positiva quanto procurei ver o século XVII no trabalho sobre o drama barroco.1 Nenhuma crença em épocas de decadência. Assim também (fora dos limites) qualquer cidade para mim é bela; e, por isso, não acho aceitável qualquer discurso sobre o valor maior ou menor das línguas. 

[N 1, 6]

[...]

Este trabalho deve desenvolver ao máximo a arte de citar sem usar aspas. Sua teoria está intimamente ligada à da montagem.  

[N 1, 10]

[...]

“Nos degraus da Torre Eiffel, varridos pelo vento, ou melhor ainda, nas pernas de aço de uma pont transbordeur, confrontamo-nos com a experiência estética fundamental da arquitetura de hoje: através da fina rede de ferro estendida no ar, passa o fluxo das coisas — navios, mar, casas, mastros, paisagem, porto. Elas perdem sua forma delimitada: quando descemos, elas rodopiam umas nas outras, e simultaneamente se misturam.” Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich, Leipzig-Berlim, p. 7. Assim também o historiador hoje tem ijpc construir uma estrutura — filosófica — sutil, porém resistente, para capturar em sua acde os aspectos mais atuais do passado. No entanto, assim como as magníficas vistas das cidades oferecidas pelas novas construções de ferro — ver também as ilustrações 61-63 de Giedion — ficaram durante muito tempo reservadas exclusivamente aos operários e engenheiros, também o filósofo que deseja captar aqui suas primeiras visões deve ser um operário independente, livre de vertigens e, se necessário, solitário.

[N 1a, 1]

[...]

Pequena proposta metodológica para a dialética da história cultural. É muito fácil estabelecer dicotomias para cada época, em seus diferentes “domínios”, segundo determinados pontos de vista: de modo a ter, de um lado, a parte “fértil”, “auspiciosa”, “viva” e “positiva”, e de outro, a parte inútil, atrasada e morta de cada época. Com efeito, os contornos da parte ppnnva só se realçarão nitidamente se ela for devidamente delimitada em relação à parte negativa. Toda negação, por sua vez, tem o seu valor apenas como pano de fundo para os contornos do vivo, do positivo. Por isso, é de importância decisiva aplicar novamente uma divisão a esta parte negativa, inicialmente excluída, de modo que a mudança de ângulo de visão (mas não de critérios!) faça surgir novamente, nela também, um elemento positivo e diferente daquele anteriormente especificado. E assim por diante ad infinitum, até que rodo o passado seja recolhido no presente em uma apocatástase4 histórica.

[N 1a, 3)

O que foi dito anteriormente, em outros termos: a indestrutibilidade da vida suprema em todas as coisas. Contra os profetas da decadência. E, com efeito: não se trata de uma afronta a Goethe filmar o Fausto, e não existe um mundo entre o Fausto enquanto obra literária e o filme? Sem dúvida. Entretanto, não existe também um mundo entre uma adaptação boa e uma adaptação ruim do Fausto para o cinema? O que interessa não são os “grandes” contrastes, e sim os contrastes dialéticos, que frequentemente se confundem com nuances. A partir deles, no entanto, recria-se sempre a vida de novo.

[N 1a, 4]

Compreender juntos Breton e Le Corbusier — isto significaria estender o espírito da França atual como um arco, com o qual o conhecimento atinge o instante bem no coração.

[N 1a, 5]

Marx expõe a relação causal entre economia e cultura. O que conta aqui é a relação expressiva. Não se trata de apresentar a gênese econômica da cultura, e sim a expressão da economia na cultura. Em outras palavras, trata-se da tentativa de apreender um processo econômico como fenômeno primevo perceptível, do qual se originam todas as manifestações de sida das passagens (e, igualmente, do século XIX).

[N 1a, 6]

Este estudo, que trata fundamental mente do caráter expressivo dos primeiros produtos industriais, das primeiras construções industriais, das primeiras máquinas, mas também das primeiras lojas de departamentos, reclames etc., torna-se com isso duplamente importante parai o marxismo. Primeiramente, o estudo apontará de que maneira o contexto no qual surgiu a doutrina de Marx teve influência sobre ela através de seu caráter expressivo, portanto, não só através de relações causais. Em segundo lugar, deverá mostrar sob que aspectos também o marxismo compartilha o caráter expressivo dos produtos materiais que lhe são contemporâneos. 

[N 1a, 7]

Método deste trabalho: montagem literária. Não tenho nada a dizer. Somente a mostrar. Não surrupiarei coisas valiosas, nem me apropriarei de formulações espirituosas. Porém, os farrapos, os resíduos: não quero inventaria-los, e sim fazer-lhes justiça da única maneira possível: utilizando-os.

[N 1a, 8]

Ter sempre em mente que o comentário de uma realidade (pois trata-se aqui de um comentário, de uma interpretação de seus pormenores) exige um método totalmente diferente daquele requerido para um texto. No primeiro caso, a ciência fundamental é a teologia, no segundo, a filologia.

[N 2, 1]

Pode-se considerar um dos objetivos metodológicos deste trabalho demonstrar um materialismo histórico que aniquilou em si a idéia de progresso. Precisamente aqui o materialismo histórico tem todos os motivos para se diferenciar rigorosamente dos hábitos de pensamento burgueses. Seu conceito fundamental não e o progresso, e sim a atualização.

[N 2, 2]

A “compreensão” histórica deve ser fundamentalmente entendida como uma vida posterior do que é compreendido e, por isso, aquilo que foi reconhecido na análise da “vida posterior das obras”, de sua “fortuna crítica”, deve ser considerado como o fundamento da história em geral.

[N 2, 3]

Como este trabalho foi escrito: degrau por degrau, à medida que o acaso oferecia um estreito ponto de apoio, e sempre como alguém que escala alturas perigosas e que em momento algum deve olhar em volta a fim de não sentir vertigem (mas também para reservar para o fim toda a majestade do panorama que se lhe oferecerá). 

[N 2, 4]

A superação dos conceitos de “progresso” e de “época de decadência” são apenas dois lados de uma mesma coisa.

[N 2, 5]

Um problema central do materialismo histórico a ser finalmente considerado: será que a compreensão marxista da história tem que ser necessariamente adquirida ao preço da visibilidade [Anschaulichkeit] da história? Ou: de que maneira seria possível conciliar um incremento da visibilidade com a realização do método marxista? A primeira etapa desse caminho será aplicar à história o princípio da montagem. Isto é: erguer as grandes construções a partir de elementos minúsculos, recortados com clareza e precisão. E, mesmo, descobrir na análise do pequeno momento individual o cristal do acontecimento total. Portanto, romper com o naturalismo histórico vulgar. Apreender a construção da história como tal. Na estrutura do comentário. ■ Resíduos da historia ■ 

[N 2, 6]

Uma citação de Kierkegaard em Wiesengrund, com este comentário: “‘Pode-se também chegar a uma mesma consideração do mítico quando se parte do elemento imagético. Quando, numa época de reflexão, numa representação reflexiva, vê-se o elemento imagético sobressair de maneira muito comedida e quase imperceptível, como um fóssil antediluviano, lembrando uma outra forma de existência que apagou a dúvida, talvez fiquemos surpresos com o fato de que o imagético tenha um dia desempenhado um papel tão importante.’ Esse ‘surpreender-se’ é refutado em seguida por Kierkegaard. No entanto, isso anuncia a mais profunda intuição sobre as relações entre dialética, mito e imagem. Pois não é como algo sempre vivo e atual que a natureza se impõe na dialética. A dialética detém-se na imagem e cita, no acontecimento histórico mais recente, o mito como passado muito antigo: a natureza como história primeva. Por isso, as imagens, como as do intérieur, que conduzem a dialética e o mito a um ponto de indistinção, são verdadeiramente ‘fósseis antediluvianos’. Podem ser denominadas, segundo uma expressão de Benjamin, imagens dialéticas, cuja concludente definição da alegoria vale também para a intenção alegórica de Kierkegaard como figura da dialética histórica e da natureza mítica. Segundo ela, ‘na alegoria, a facies hippocratica da história revela-se ao observador como paisagem primeva petrificada’5.” Theodor Wiesengrund-Adorno, Kierkegaard, Tübingen, 1933, p. 60. ■ Resíduos da historia ■

[N 2, 7]

Somente um observador superficial pode negar que existem correspondências entre o mundo da tecnologia moderna e o mundo arcaico dos símbolos da mitologia. Num primeiro momento, de fato, a novidade tecnológica produz efeito somente enquanto novidade. Mas logo nas seguintes lembranças da infância transforma seus traços. Cada infância realiza algo grande e insubstituível para a humanidade. Cada infância, com seu interesse pelos fenômenos tecnológicos, sua curiosidade por toda a sorte de invenções e máquinas, liga as conquistas tecnológicas aos mundos simbólicos antigos. Não existe nada no domínio da natureza que seja por essência subtraído de tal ligação. Só que ela não se forma na aura da novidade, e sim naquela do hábito. Na recordação, na infância e no sonho. ■ Despertar ■

[N 2a, 1]

O momento histórico primevo no passado não é mais encoberto, como antes — isto também é uma conseqüência e uma condição da tecnologia —, pela tradição da Igreja e da família. O antigo horror pré-histórico já envolve o mundo de nossos pais porque não estamos mais ligados a esse mundo pela tradição. Os universos de memória [Merkwelten] decompõem-se mais rapidamente, o elemento mítico neles contido vem à tona mais pronta e brutalmente, de maneira mais veloz deve ser erigido um novo universo de memória, totalmente diferente e contraposto ao anterior. Eis como o ritmo acelerado da tecnologia se apresenta do ponto de vista da história primeva atual. ■ Despertar ■

[N 2a, 2]

Não é que o passado lança sua luz sobre o presente ou que o presente lança sua luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando uma constelação. Em outras palavras: a imagem é a dialética na imobilidade. Pois, enquanto a relação do presente com o passado é puramente temporal e contínua, a relação do ocorrido com o agora é dialética — não é uma progressão, e sim uma imagem, que salta. - Somente as imagens dialéticas são imagens autênticas (isto é: não-arcaicas), e o lugar onde as encontramos é a linguagem. ■ Despertar ■

[N 2a, 3]

Ao estudar, em Simmel, a apresentação do conceito de verdade de Goethe,6 ficou muito claro para mim que meu conceito de origem [Ursprung] no livro sobre o drama barroco é uma transposição rigorosa e concludente deste conceito goetheano fundamental do domínio da natureza para aquele da história. Origem — eis o conceito de fenômeno originário transposto do contexto pagão da natureza para os contextos judaicos da história. Agora, nas Passagens, empreendo também um estudo da origem. Na verdade, persigo a origem das formas e das transformações das passagens parisienses desde seu surgimento até seu ocaso, e a apreendo nos fatos econômicos. Estes fatos, do ponto de vista da causalidade — ou seja, como causas —, não seriam fenômenos originários; tornam-se tais apenas quando, em seu próprio desenvolvimento — um termo mais adequado seria desdobramento — fazem surgir a série das formas históricas concretas das passagens, assim como a folha, ao abrir-se, desvenda toda a riqueza do mundo empírico das plantas.

[N 2a, 4]

“Estudando essa época tão próxima e tão longínqua, comparo-me a um cirurgião que opera com anestesia local: trabalho em regiões insensíveis, mortas, e o doente, entretanto, vive e ainda pode falar.” Paul Morand, 1900, Paris, 1931, pp. 6-7.

[N 2a, 5]

O que distingue as imagens das “essências” da fenomenologia é seu índice histórico. (Heidegger procura em vão salvar a história para a fenomenologia, de maneira abstrata, através da “historicidade”.) Estas imagens devem ser absolutamente distintas das categorias das “ciências do espírito”, do assim chamado habitus, do estilo etc. O índice histórico das imagens diz, pois, não apenas que elas pertencem a uma determinada época, mas, sobretudo, que elas só se tornam legíveis numa determinada época. E atingir essa “legibilidade” constitui um determinado ponto crítico específico do movimento em seu interior. Todo presente é determinado por aquelas imagens que lhe são sincrônicas: cada agora é o agora de uma determinada cognoscibilidade. Nele, a verdade está carregada de tempo até o ponto de explodir. (Esta explosão, e nada mais, é a morte da intentio, que coincide com o nascimento do tempo histórico autêntico, o tempo da verdade.) Não é que o passado lança sua luz sobre a presente ou que o presente lança sua luz sobre o passado; mas a imagem é aquilo em que o ocorrido encontra o agora num lampejo, formando tuna constelação. Em outras palavras: a imagem é a dialética na imobilidade. Pois, enquanto a relação do presente com o passado é paramente temporal, a do ocorrido com o agora é dialética — não de natureza temporal, mas imagética. Somente as imagens dialéticas são autenticamente históricas, isto é, imagens não-arcaicas. A imagem lida, quer dizer, a imagem no agora da cognoscibilidade, carrega no mais alto grau a marca do momento crítico, perigoso, subjacente a toda leitura.

[N 3, 1]

É importante afastar-se resolutamente do conceito de “verdade atemporal”. No entanto, a nerdade não é — como afirma o marxismo — apenas uma função temporal do conhecer, mas é ligada a um núcleo temporal que se encontra simultaneamente no que é conhecido e naquele que conhece. Isto é tão verdadeiro que o eterno, de qualquer forma, é muito mais um drapeado em um vestido do que uma idéia.

[N 3, 2]

Esboçar a história das Passagens conforme o seu desenvolvimento. Seu componente propriamente problemático: não renunciar a nada que possa demonstrar que a representação materialista da história é imagética [bildhaft] num sentido superior que a representação tradicional.

[N 3, 3]

Formulação de Ernst Bloch sobre o trabalho das Passagens: “A história mostra seu distintivo da Scotland-Yard.” Foi no contexto de uma conversa na qual eu explicava como este trabalho — comparável ao método da fissão nuclear — libera as forças gigantescas da história que firam presas no “era uma vez” da narrativa histórica clássica. A historiografia que mostrou “como as coisas efetivamente aconteceram”, foi o narcótico mais poderoso do século.7

[N 3, 4]

[...]

Seria o despertar a síntese da tese da consciência onírica e da antítese da consciência desperta? Nesse caso, o momento do despertar seria idêntico ao “agora da cognoscibilidade”, no qual as coisas mostram seu rosto verdadeiro — o surrealista. Assim, em Proust, é importante a mobilização da vida inteira em seu ponto de ruptura, dialético ao extremo: o despertar. Proust inicia com uma apresentação do espaço daquele que desperta.

[N 3a, 3]

1 W. Benjamin, Ursprung des deutschen Trauerspiels (1928), in: GS I, 203-430; Origem do Drama Barroco Alemão (ODBA). (R.T.; w.b.)

4 Apocatastasis = a “admissão de todas as almas no Paraíso”. Cf. W. Benjamin, GS II, 458 (“Der Erzähler”); OE I, p. 216 ("0 narrador"). (J.L.; w.b.)  

5 W. Benjamin, Ursprung des deutschen Trauerspiels, in: GS I, 343; ODBA, p. 188. (w.b.)
6 Georg Simmel, Goethe, Leípzig, 1913, pp. 56-61; cf. GS I, 953-954. (R.T.) 

7 Cf. 0°, 71 e nota. (w.b.) 

<fase média>

[...]

A utilização dos elementos do sonho ao despertar é o cânone da dialética. Tal utilização é exemplar para o pensador e obrigatória para o historiador.
[n 4, 4]
Raphael procura corrigir a concepção marxista do caráter normativo da arte grega: “Se o caráter normativo da arte grega é ... um fato histórico explicável..., devemos ... determinar ... quais foram as condições especiais que levaram a cada renascimento e, portanto, quais os fatores especiais da ... arte grega que esses renascimentos aceitaram como modelo. De fato, a arte grega em sua totalidade nunca possuiu um caráter normativo, os renascimentos ... têm sua própria história... Somente uma análise histórica pode indicar a época na qual nasceu a noção abstrata de uma norma ... da Antigüidade... Esta só foi criada pela Renascença, isto é, pelo capitalismo primitivo e, em seguida, foi aceita pelo classicismo, que ... começou a determinar seu lugar no encadeamento dos fatos históricos. Marx não avançou nessa via com a plena medida das possibilidades do materialismo histórico. Mas Raphael, Proudhon, Marx, Picasso, Paris, 1933, pp. 178-179.
[N 4, 5]

É próprio das formas técnicas de construção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu êxito sejam proporcionais à transparência de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura em vidro.)
[N 4, 6]
Uma passagem importante em Marx: “É reconhecido, no que concerne ... por exemplo, a epopéia ... que ... certas expressões importantes da arte não são possíveis senão num grau pouco desenvolvido da evolução artística. Se isso é válido para as relações entre as diferentes espécies de arte, no domínio da própria arte, já será menos surpreendente que isso também seja válido para as relações entre a totalidade do domínio das artes e o desenvolvimento geral da sociedade.” Citado sem referências (talvez Theorien des Mehrwerts, vol. I?)9 em Max Raphael, Proudhon, Marx, Picasso, Paris, 1933, p. 160.
[N 4a, 1]
A teoria marxista da arte: ora presunçosa, ora escolástica.
[N 4a, 2]
[...]
Curiosa afirmação de Engels sobre as “forças sociais”: “Uma vez compreendida sua natureza, elas podem, nas mãos dos produtores associados, scr transformadas de soberanos demoníacos em servos obedientes.”10 (!) Engels, Die Entwicklung des Sozialismus von der Utopie zur Wissenschafi, 1882.
[N 4a, 4]
Marx, no posfácio da segunda edição de O Capital. “A pesquisa deve apropriar-se da matéria no detalhe, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e descobrir seu concatenamento interno. Somente depois de realizado este trabalho é que o movimento real pode ser apresentado adequadamente. Se isso for alcançado, de modo que a vida do material seja refletida agora de maneira ideal, então pode parecer que se está diante de uma construção a priori.” Karl Marx, Das Kapital, ed. org. por K. Korsch, Berlim (1932), p. 45.
[N 4a, 5]
É necessário expor a dificuldade particular do trabalho historiográfico para o período posterior ao fim do século XVIII. Depois do surgimento da grande imprensa, as fontes tornam-se ilimitadas.
[N 4a, 6}
Michelet gosta de dar ao povo o nome de “bárbaros” — “Bárbaros. A palavra me agrada, aceito-a” — e afirma a respeito de seus escritores: “Eles amam infinitamente, e até demais, entregando-se às vezes até aos detalhes, com a santa inabilidade de Albrecht Dürer, ou com o polimento excessivo de Jean-Jacques, que não esconde o bastante sua arte; pelo detalhe minucioso, comprometem o conjunto. É preciso não repreendê-los demais; é ... a extravagância da verve: essa seiva ... quer alcançar tudo ao mesmo tempo, as folhas, os frutos e as flores; ela verga e torce os ramos. Os defeitos destes grandes trabalhadores encontram-se freqüentemente em meus livros, que não têm aquelas boas qualidades. Não importa!” Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, pp. XXXVI-XXXVII.
[N 5, 1]
Carta de Wiesengrund, de 5 de agosto de 1935. “A tentativa de reconciliar o momento do sonho mencionado pelo senhor — como o elemento subjetivo na imagem dialética — com a concepção desta última como modelo ensejou-me algumas considerações... À medida que o valor de uso morre nas coisas, as coisas alienadas são esvaziadas, atraindo para si significados, como cifras. A subjetividade se apossa delas à medida que as investe de intenções de desejo e temor. Pelo fato de as coisas mortas responderem, enquanto imagens, pelas intenções subjetivas, estas se apresentam como imemoriais e eternas. Imagens dialéticas são constelações entre coisas alienadas e o significado incipiente, detendo-se no instante de indiferença entre a morte e o significado. Enquanto na aparência as coisas são despertadas para o que é o mais novo, a morte transforma os significados no que é o mais antigo.” Com respeito a estas considerações, deve-se ter em conta que, no século XIX, o número das coisas “esvaziadas” aumenta numa medida e num ritmo antes desconhecidos, uma vez que o progresso tecnológico retira continuamente de circulação os novos objetos de uso.
[N 5, 2]
“O crítico pode tomar ... como ponto de partida qualquer forma da consciência teórica e prática e desenvolver, a partir das próprias formas da realidade existente, a realidade verdadeira como seu dever-ser e sua intenção final.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 225 (Marx a Ruge; Kreuzenach, setembro de 1843). O ponto de partida do qual Marx fala aqui não corresponde necessariamente ao último estágio do desenvolvimento. Ele pode ser empregado para épocas muito remotas, cujo dever-ser e intenção final podem ser apresentados não em relação ao estágio subseqüente ao desenvolvimento, e sim nele mesmo e como pré-formação do objetivo final da história.
[N 5, 3]
Engels diz (Marx und Engels über Feuerbach: Aus dem Nachlass, Marx-Engels-Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. I, Frankfurt am Main (1928), p. 300): “Não esquecer que o direito, como a religião, não tem uma história própria.” O que vale para ambos vale principalmente, e de maneira decisiva, para a cultura. Pensar as formas de existência da sociedade sem classes, segundo a imagem da humanidade civilizada, seria um contra-senso.
[N 5, 4]
“Nosso lema ... deve ser: reforma da consciência, não por meio de dogmas, e sim pela análise da consciência mística, obscura a si mesma, seja em sua manifestação religiosa ou política. Ficará claro que o mundo há muito possui o sonho de uma coisa, da qual precisa apenas possuir a consciência para possuí-la realmente.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. org. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 226-227 (Carta de Marx a Ruge; Kreuzenach, setembro de 1843).
[N 5a, 1]

A humanidade deve despedir-se de seu passado reconciliada — e uma forma de reconciliação é a alegria. “O regime alemão atual..., a nulidade do Antigo Regime exibida aos olhos do mundo, ... nada mais é que o comediante de uma ordem mundial cujos heróis verdadeiros morreram. A história é radical e atravessa muitas fases quando leva para o túmulo uma forma antiga. A última fase de uma forma da história universal é sua comédia. Os deuses da Grécia que, de maneira trágica, já haviam sido feridos de morte no Prometeu Acorrentado de Esquilo, tinham de morrer mais uma vez, de maneira cômica, nos Diálogos de Luciano. Por que esta marcha da história? Para que a humanidade se despeça alegremente de seu passado.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. org. por Landshut e Mayer, Leipzig, vol. I, p. 268 (“Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie” — “Sobre a crítica da Filosofia do Direito de Hegel”). O Surrealismo é a morte do século XIX na comédia.

[N 5a, 2]

Marx (Marx und Engels über Feuerbach: Aus dem Nachlass. Marx-Engels-Archiv, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, p. 301): “Não existe história da política, do direito, da ciência etc., da arte, da religião etc.”

[N 5a, 3]

Em A Sagrada Família, diz-se do materialismo de Bacon: “A matéria, mostrando-se em seu esplendor poético e sensual, sorri ao homem inteiro.”11 

[N 5a, 4]

“Lamento só ter podido tratar de maneira muito incompleta os fatos da vida cotidiana —alimentação, vestuário, habitação, costumes de família, direito privado, divertimentos, relações sociais — que sempre constituíram o interesse principal da vida para a imensa maioria dos indivíduos.” Charles Seignobos, Histoire Sincère de la Nation Française, Paris, 1933, p. XI.

[N 5a, 5]

Ad notam uma frase de Valéry: “O que distingue aquilo que é verdadeiramente geral é sua fertilidade.”

[N 5a, 6]

A barbárie está inserida no próprio conceito de cultura: como conceito de um tesouro de valores considerado de forma independente, não do processo de produção no qual nasceram os valores, mas do processo no qual eles sobrevivem. Desta maneira, servem à apoteose deste último <?>, não importando o quão bárbaro possa ser.

[N 5a, 7]


Investigar como surgiu o conceito de cultura, qual seu sentido nas diferentes épocas e a que necessidades correspondeu sua elaboração. Poderia evidenciar-se que, na medida em que designa a soma dos “bens culturais”, ele seja de origem recente; certamente era desconhecido, por exemplo, pelo clero, que no início da Idade Média promoveu uma guerra de aniquilamento contra os testemunhos da Antigüidade.

[N 6, 1]

[...]

É de se enfatizar a apresentação gráfica particularmente cuidadosa dos primeiros escritos sobre os problemas sociais e assistenciais, como Naville, De la Charité Légale, Frégier, Des Classes Dangereuses etc.

[N 6, 3]

“Eu não saberia insistir demais sobre o fato de que, para um materialista esclarecido como Lafargue, o determinismo econômico não é a ‘ferramenta absolutamente perfeita’ que ‘pode tornar-se a chave de todos os problemas da história’.” André Breton, Position Politique du Surréalisme, Paris, 1935, pp. 8-9.

[N 6, 4]

Todo conhecimento histórico pode ser representado pela imagem de uma balança em equilíbrio, que tem sobre um de seus pratos o ocorrido e sobre o outro o conhecimento do presente. Enquanto no primeiro prato os fatos reunidos nunca serão insignificantes e numerosos demais, o outro deve receber apenas alguns poucos pesos — grandes e maciços.

[N 6, 5]

“A única atitude digna da filosofia ... na era industrial é ... o retraimento. O ‘cientificismo’ de um Marx não significa que a filosofia renuncia a sua tarefa ... e sim que ela se retrai até que se tenha posto um fim à dominação de uma realidade inferior.” Hugo Fischer, Karl Marx und sein Verhältnis zu Staat und Wirtschafi, Jena, 1932, p. 59.

[N 6, 6]

Não é irrelevante a ênfase que Engels dá à “classicidade” no contexto da concepção materialista da história. Para demostrar a dialética do desenvolvimento, ele evoca as leis que “o próprio curso histórico fornece, na medida em que cada momento pode ser observado no ponto de desenvolvimento de sua maturidade plena, de sua classicidade”. Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Engels und der Aufitieg der Arbeiterbewegung in Europa, Berlim, 1922, pp. 434-435.

[N 6, 7]

Engels em carta a Mehring, de 14 de julho de 1893: “É sobretudo esta aparência de uma história autônoma das constituições de Estado, dos sistemas jurídicos e das representações ideológicas em cada domínio particular que ofusca a maioria das pessoas. Quando Lutero e Calvino ‘superam’ a religião católica oficial, quando Hegel ‘supera’ Fichte e Kant, e Rousseau, com seu Contrato Social, indiretamente ‘supera’ o constitucional Montesquieu, trata-se de um processo que, mantendo-se no âmbito da teologia, da filosofia, da ciência política, representa uma etapa na história destes domínios do pensamento, sem ultrapassar a esfera do pensamento. E desde que se somou a isso a ilusão burguesa relativa ao caráter eterno e definitivo da produção capitalista, até mesmo a superação dos mercantilistas pelos fisiocratas e Adam Smith é considerada uma mera vitória do pensamento — não o reflexo intelectual de fatos econômicos transformados, mas a visão correta, finalmente conquistada, de condições reais, sempre presentes em todos os lugares.” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Friedrich Engels und der Aufstieg der Arbeiterbewegung in Europa, Berlim, pp. 450-451.

[N 6a, 1]

[...]

É preciso estabelecer a relação entre a presença de espírito e o “método” do materialismo dialético. Não se trata apenas de sempre poder demonstrar um processo dialético na presença de espírito, considerada como uma das formas mais elevadas de comportamento apropriado. O que é decisivo é que o dialético não pode considerar a história senão como uma constelação de perigos, que ele — que acompanha seu desenvolvimento com o pensamento — está sempre prestes a desviar.

[N 7, 2]

“A Revolução talvez seja mais um drama que uma história, e o patético nela é uma condição mãe imperiosa quanto a autenticidade.” Blanqui, cit. em Gefifroy, LEnfermé, vol. I, Paris, 1926, p. 232.

[N 7, 3] 

Necessidade de prestar atenção, durante muitos anos, a qualquer citação casual, qualquer menção fortuita de um livro. 

[N 7, 4]

Contrastar a teoria da história com a observação de Grillparzer, traduzida por Edmond Jaloux nos “Joumaux intimes” (Le Temps, 23 maio 1937): “Ler o futuro é difícil, mas enxergar puramente o passado é mais difícil ainda — digo puramente, isto é, sem misturar a esse olhar retrospectivo tudo o que aconteceu no intervalo.” A “pureza” do olhar não só é difícil, mas também impossível de ser alcançada. 

[N 7, 5]

É importante para o historiador materialista distinguir, com máximo rigor, a construção de um estado de coisas histórico daquilo que se costuma denominar sua “reconstrução”. A “reconstrução” através da empatia é unidimensional. A “construção” pressupõe a “destruição”. 

[N 7, 6]

Para que um fragmento do passado seja tocado pela atualidade não pode haver qualquer continuidade entre eles.

[N 7, 7]

A história anterior [Vorgeschichte] e a história posterior [Nachgeschichte] de um fato históncn aparecem nele graças a sua apresentação dialética. Além disso: cada fato histórico apresentado dialeticamente se polariza, tornando-se um campo de forças no qual se processa o confronto entre sua história anterior e sua história posterior. Ele se transforma neste campo de forças quando a atualidade penetra nele. E assim o fato histórico se polariza em sua história anterior e posterior sempre de novo, e nunca da mesma maneira. Tal polarização ocorre fora do fato, na própria atualidade — como numa linha, dividida segundo o corte apolíneo,12 em que a divisão é feita fora da linha. '

[N 7a, 1]

O materialismo histórico não aspira a uma apresentação homogêna nem tampouco contínua da história. Do fato de a superestrutura reagir sobre a infra-estrutura resulta que não existe uma história homogêna, por exemplo, a história da economia, nem tampouco existe uma história da literatura ou do direito. Por outro lado, uma vez que as diferentes épocas do passado são tocadas pelo presente do historiador em graus bem diversos (sendo muitas vezes o passado mais recente nem sequer tocado pelo presente; este “não lhe faz justiça”), uma continuidade da apresentação histórica é inviável. 

[N 7a, 2] 

 [...]

A apresentação materialista da história leva o passado a colocar o presente numa situação crítica.

[N 7a, 5]

É minha intenção resistir àquilo que Valéry chama de “uma leitura lenta e pontuada de resistências de um leitor difícil e refinado”. Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, Introdução de Paul Valéry, Paris, 1928, p. XIII.

[N 7a, 6 ]

Meu pensamento está para a teologia como o mata-borrão está para a tinta. Ele está completamente embebido dela. Mas se fosse pelo mata-borrão, nada restaria do que está escrito.

[N 7a, 7]

É o presente que polariza o acontecimento em história anterior e história posterior.

[N 7a, 8] 

9 A passagem encontra-se na Introdução de Kritik der politischen Ökonomie, de 1857; cf. Marx e Engels, MEW, vol. XIII, 2 a ed., Berlim, 1964, pp. 640-641. (R.T.)
10 Marx e Engels, MEW, vol. XIX, Berlim, 1962, p. 223. (R.T.) 
11 Marx e Engels, MEW, vol. II, Berlim, 1957, p. 135. (R.T.)
12 Trata-se provavelmente do “segmento áureo” (ou “proporção áurea”, golden section), elaborado na Grécia antiga e retomado pelo matemático italiano Leonardo de Pisa (Fibonacci). Cf. H. E. Huntley, A Divina Proporção: Um Ensaio sobre a Beleza na Matemática, Brasília, Ed. UnB, 1985. (w.b.) 
<fase tardia>

[...]

Wilhelm von Humboldt desloca o centro de gravidade para as línguas, Marx e Engels deslocam-no para as ciências naturais. Mas também o estudo das línguas possui funções econômicas. Ele vai ao encontro do comércio mundial, enquanto o estudo das ciências naturais vai ao encontro do processo de produção.
[N 9, 1]
Um método científico se distingue pelo lato de, ao encontrar novos objetos, desenvolver “dos novos nétodos  exatamente como a forma na arte que. ao condutor a novos conteúdos, desenvolve novas formas. Apenas exteriormente urma obra de arte tem uma e somente uma forma, e um tratado científico tem um e somente um método. 
[N 9, 2]
[...]
É bom dar uma conclusão não-aguçada a pesquisas materialistas.
[N 9a, 2]

Da salvação faz parte a apreensão firme, aparentemente brutal.
[N 9a, 3]
A imagem dialética é aquela forma do objeto histórico que satisfaz às exigências de Goethe para o objeto de uma análise: revelar uma síntese autêntica. É o fenômeno originário da história.
[N 9a, 4]
[...]
O materialismo histórico precisa renunciar ao elemento épico da história. Ele arranca, por uma explosão [sprengt ab], a época da “continuidade da história” reificada. Mas ele faz explodir [sprengt auf] também a homogeneidade dessa época, impregnando-a com ecrasita, isto é, com o presente.16
[N 9a, 6] 
[...]
Para o historiador materialista, cada época com a qual ele se ocupa é apenas a história anterior da época que lhe interessa. Por isso mesmo, não existe para ele a aparência da repetição na história, uma vez que precisamente os momentos do curso da história que mais lhe importam tornam-se eles mesmos — em virtude de seu índice como historia anterior”  momentos do presente, mudando seu próprio caráter conforme a definição catastrófica ou triunfante desse presente.
[N 9a, 8]
O progresso científico  assim como o progresso histórico  é sempre apenas o primeiro passo, nunca o segundo, terceiro ou enésimo + 1 — supondo que estes últimos pertençam não apenas ao exercício da ciência, mas também a seu corpus. Na verdade, porém, não é esse o caso, uma vez que cada etapa do processo dialético (como cada etapa no processo da própria história), por mais que seja condicionada pelos estágios precedentes, coloca em jogo uma tendência fundamentalmente nova, que exige um tratamento fundamentalmente novo. Portanto, o método dialético se distingue pelo fato de, ao encontrar novos objetos, desenvolver novos métodos — exatamente como a forma na arte que, ao conduzir a novos conteúdos, desenvolve novas formas. Apenas exteriormente uma obra de arte tem uma e somente uma forma, e um tratado dialético tem um e somente um método.
[N 10, 1]
Definições de conceitos históricos básicos: a catástrofe  ter perdido a oportunidade; o momento crítico — a ameaça de o status quo ser mantido; o progresso  a primeira medida revolucionária. 
[N 10, 2]
Que o objeto da história seja arrancado, por uma explosão, do continuum do curso da história é uma exigência de sua estrutura monadológica. Esta torna-se visível apenas no próprio objeto arrancado. E isso ocorre sob a forma da confrontação histórica que constitui o interior (e, por assim dizer, as entranhas) do objeto histórico e da qual participam em uma escala reduzida todas as forças e interesses históricos. Graças a sua estrutura monadológica, o objeto histórico encontra representada em seu interior sua própria história anterior e posterior. (Assim, por exemplo, a história anterior de Baudelaire, conforme apresentado nesta pesquisa, encontra-se na alegoria, e sua história posterior, no Jugendstil)
[N 10, 3] 
[...]
0 momento destrutivo ou crítico na historiografia materialista se manifesta através do fazer explodir a continuidade histórica; é assim que se constitui o objeto histórico. De fato, dentro do curso contínuo da história não é possível visar um objeto histórico. Tanto assim a historiografia, desde sempre, simplesmente selecionou um objeto desse curso contínuo. Mas isso ocorria sem um princípio, como expediente; e sua primeira preocupação sempre era a de reinserir o objeto no continuum que ela recriava através da empatia. A historiografia materialista não escolhe aleatoriamente seus objetos. Ela não os toma, e sim os arranca, por uma explosão, do curso da história. Seus procedimentos são mais abrangentes, seus acontecimentos mais essenciais.
[N 10a, 1] 
[Pois] O momento destrutivo na historiografia materialista deve ser entendido como reação a numa constelação de perigos que ameaça tanto o objeto da tradição quanto seus destinatários.17 É com esta constelação de perigos que se confronta a historiografia materialista; é neste confronto que reside sua atualidade; é neste instante que ela tem que sua presença de espírito. Uma tal apresentação da história tem por objetivo, para falar como Engels, “ultrapassar o domínio do pensamento.
[N 10a, 2]
Ao pensamento pertencem tanto o movimento quanto a imobilização dos pensamentos. Onde ele se imobiliza numa constelação saturada de tensões, aparece a imagem dialética. Ela é a cesura no movimento do pensamento. Naturalmente, seu lugar nao é arbritrário. Em uma palavra, ela deve ser procurada onde a tensão entre os opostos dialéticos é a maior possível. Assim, o objeto construído na apresentação materialista da história é ele mesmo uma imagem dialética. Ela é idêntica ao objeto histórico e justifica seu arrancamento do continuum da história.
[N 10a, 3]
A forma arcaica da história primeva, que é evocada em qualquer época, e agora, mais uma vez, por Jung, é aquela que torna a aparência na história ainda mais ofuscante ao designar-lhe a natureza como pátria.
[N 11, 1]
Escrever a história significa dar às datas a sua fisionomia. 
[N 11, 2]
Os acontecimentos que cercam o historiador, e dos quais ele mesmo participa, estarão na base de sua apresentação como um texto escrito com tinta invisível. A história que ele submete ao leitor constitui, por assim dizer, as citações deste texto, e somente elas se apresentam de uma maneira legível para todos. Escrever a história significa, portanto, citar a história. Ora, no conceito de citação está implícito que o objeto histórico em questão seja arrancado de seu contexto.
[N 11, 3]
Sobre a doutrina elementar do materialismo histórico. 1) Um objeto da história é aquele em que o conhecimento se realiza como sua salvação. 2) A história se decompõe em imagens, não em histórias. 3) Onde se realiza um processo dialético, estamos lidando com uma mônada. 4) A apresentação materialista da história traz consigo uma crítica imanente do conceito de progresso. 5) O materialismo histórico baseia seu procedimento na experiência, no bom senso, na presença de espírito e na dialética. (Sobre mônadas ver N 10a, 3)
[N 11, 4]
O presente determina no objeto do passado o ponto onde divergem sua história anterior e sua história posterior, a fim de circunscrever seu núcleo.
[N 11, 5]
Demonstrar por meio de exemplos que a grande filologia relativa aos escritos do século passado não pode ser praticada senão pelo marxismo.
[N 11, 6]
“As primeiras regiões que se tornaram esclarecidas não são aquelas em que elas [as ciências] tiveram maior progresso.” Turgot, Œuvres, vol. II, Paris, 1844, pp. 601-602. (Second discours sur les progrès successifs de lesprit humain”) (1750). Este pensamento desempenha um papel na literatura posterior, e também em Marx.
[N 11, 7]
No decorrer do século XIX, quando a burguesia consolidou sua posição de poder, o conceito de progresso foi perdendo cada vez mais as funções críticas que originalmente possuía. (A doutrina da seleção natural teve uma importância decisiva neste processo: com ela fortaleceu-se a opinião de que o progresso se realiza automaticamente. Ademais, ela favoreceu a extensão do conceito de progresso a todos os domínios da atividade humana.) Em Turgot. o conceito de progresso ainda tinha funções críticas. Isso permitiu sobretudo chamar a atenção das pessoas para os movimentos regressivos da história. E significativo que Turgot considerava o progresso garantido sobretudo no domínio das pesquisas matemáticas.
[N 11a, 1]
[...]
Existe ainda um limes [limite] do progresso em Turgot: “Nos últimos tempos ... era preciso «somar, pela reflexão, ao ponto onde os primeiros homens haviam sido conduzidos por um instinto cego; e quem sabe não seria este o supremo esforço da razão?” Turgot, op. cit., p. 610.18 Em Marx ainda existe este limes; mais tarde ele se perde.
[N 11 a, 3]
[...]
Concepção militante do progresso: “Não é o erro que se opõe ao progresso da verdade, mas a indolência, a teimosia, o espírito de rotina, tudo o que leva à inatividade. O progresso mesmo das artes mais pacíficas entre os povos antigos da Grécia e suas repúblicas era entremeado de guerras contínuas. Estavam ali como os judeus, construindo os muros de Jerusalém com uma mão e combatendo com a outra. Os espíritos estavam sempre em atividade, a coragem sempre excitada; as luzes do pensamento cresciam a cada dia.” Turgot, CEuvres, vol. II, Paris, 1844, p. 672 (“Pensées et fragments”).
[N 12, 3]

16 Cf. a tese XVII de W. Benjamin, 
Über den Begriff der Geschichte, GS I, 703: Teses, p. 130. (w.b.) 
17 Cf. a tese VI de W. Benjamin, “Über den Begríff der Geschichte", GS I, 695; Teses, p. 65. (w.b.) 
18 Os tradutores americanos corrigiram a transcrição de Benjamin, verificando o texto de Turgot. Em lugar de “era preciso retornar, pela perfeição”, eles colocam “era preciso retornar, pela reflexão”. De fato, esta versão é mais plausível e foi aqui adotada, (w.b.; grifos meus)
<fase tardia>

[...]

Wilhelm von Humboldt desloca o centro de gravidade para as línguas, Marx e Engels deslocam-no para as ciências naturais. Mas também o estudo das línguas possui funções econômicas. Ele vai ao encontro do comércio mundial, enquanto o estudo das ciências naturais vai ao encontro do processo de produção.
[N 9, 1]
Um método científico se distingue pelo lato de, ao encontrar novos objetos, desenvolver “dos novos nétodos  exatamente como a forma na arte que. ao condutor a novos conteúdos, desenvolve novas formas. Apenas exteriormente urma obra de arte tem uma e somente uma forma, e um tratado científico tem um e somente um método. 
[N 9, 2]
[...]
É bom dar uma conclusão não-aguçada a pesquisas materialistas.
[N 9a, 2]

Da salvação faz parte a apreensão firme, aparentemente brutal.
[N 9a, 3]
A imagem dialética é aquela forma do objeto histórico que satisfaz às exigências de Goethe para o objeto de uma análise: revelar uma síntese autêntica. É o fenômeno originário da história.
[N 9a, 4]
[...]
O materialismo histórico precisa renunciar ao elemento épico da história. Ele arranca, por uma explosão [sprengt ab], a época da “continuidade da história” reificada. Mas ele faz explodir [sprengt auf] também a homogeneidade dessa época, impregnando-a com ecrasita, isto é, com o presente.16
[N 9a, 6] 
[...]
Para o historiador materialista, cada época com a qual ele se ocupa é apenas a história anterior da época que lhe interessa. Por isso mesmo, não existe para ele a aparência da repetição na história, uma vez que precisamente os momentos do curso da história que mais lhe importam tornam-se eles mesmos — em virtude de seu índice como historia anterior”  momentos do presente, mudando seu próprio caráter conforme a definição catastrófica ou triunfante desse presente.
[N 9a, 8]
O progresso científico  assim como o progresso histórico  é sempre apenas o primeiro passo, nunca o segundo, terceiro ou enésimo + 1 — supondo que estes últimos pertençam não apenas ao exercício da ciência, mas também a seu corpus. Na verdade, porém, não é esse o caso, uma vez que cada etapa do processo dialético (como cada etapa no processo da própria história), por mais que seja condicionada pelos estágios precedentes, coloca em jogo uma tendência fundamentalmente nova, que exige um tratamento fundamentalmente novo. Portanto, o método dialético se distingue pelo fato de, ao encontrar novos objetos, desenvolver novos métodos — exatamente como a forma na arte que, ao conduzir a novos conteúdos, desenvolve novas formas. Apenas exteriormente uma obra de arte tem uma e somente uma forma, e um tratado dialético tem um e somente um método.
[N 10, 1]
Definições de conceitos históricos básicos: a catástrofe  ter perdido a oportunidade; o momento crítico — a ameaça de o status quo ser mantido; o progresso  a primeira medida revolucionária. 
[N 10, 2]
Que o objeto da história seja arrancado, por uma explosão, do continuum do curso da história é uma exigência de sua estrutura monadológica. Esta torna-se visível apenas no próprio objeto arrancado. E isso ocorre sob a forma da confrontação histórica que constitui o interior (e, por assim dizer, as entranhas) do objeto histórico e da qual participam em uma escala reduzida todas as forças e interesses históricos. Graças a sua estrutura monadológica, o objeto histórico encontra representada em seu interior sua própria história anterior e posterior. (Assim, por exemplo, a história anterior de Baudelaire, conforme apresentado nesta pesquisa, encontra-se na alegoria, e sua história posterior, no Jugendstil)
[N 10, 3] 
[...]
0 momento destrutivo ou crítico na historiografia materialista se manifesta através do fazer explodir a continuidade histórica; é assim que se constitui o objeto histórico. De fato, dentro do curso contínuo da história não é possível visar um objeto histórico. Tanto assim a historiografia, desde sempre, simplesmente selecionou um objeto desse curso contínuo. Mas isso ocorria sem um princípio, como expediente; e sua primeira preocupação sempre era a de reinserir o objeto no continuum que ela recriava através da empatia. A historiografia materialista não escolhe aleatoriamente seus objetos. Ela não os toma, e sim os arranca, por uma explosão, do curso da história. Seus procedimentos são mais abrangentes, seus acontecimentos mais essenciais.
[N 10a, 1] 
[Pois] O momento destrutivo na historiografia materialista deve ser entendido como reação a numa constelação de perigos que ameaça tanto o objeto da tradição quanto seus destinatários.17 É com esta constelação de perigos que se confronta a historiografia materialista; é neste confronto que reside sua atualidade; é neste instante que ela tem que sua presença de espírito. Uma tal apresentação da história tem por objetivo, para falar como Engels, “ultrapassar o domínio do pensamento.
[N 10a, 2]
Ao pensamento pertencem tanto o movimento quanto a imobilização dos pensamentos. Onde ele se imobiliza numa constelação saturada de tensões, aparece a imagem dialética. Ela é a cesura no movimento do pensamento. Naturalmente, seu lugar nao é arbritrário. Em uma palavra, ela deve ser procurada onde a tensão entre os opostos dialéticos é a maior possível. Assim, o objeto construído na apresentação materialista da história é ele mesmo uma imagem dialética. Ela é idêntica ao objeto histórico e justifica seu arrancamento do continuum da história.
[N 10a, 3]
A forma arcaica da história primeva, que é evocada em qualquer época, e agora, mais uma vez, por Jung, é aquela que torna a aparência na história ainda mais ofuscante ao designar-lhe a natureza como pátria.
[N 11, 1]
Escrever a história significa dar às datas a sua fisionomia. 
[N 11, 2]
Os acontecimentos que cercam o historiador, e dos quais ele mesmo participa, estarão na base de sua apresentação como um texto escrito com tinta invisível. A história que ele submete ao leitor constitui, por assim dizer, as citações deste texto, e somente elas se apresentam de uma maneira legível para todos. Escrever a história significa, portanto, citar a história. Ora, no conceito de citação está implícito que o objeto histórico em questão seja arrancado de seu contexto.
[N 11, 3]
Sobre a doutrina elementar do materialismo histórico. 1) Um objeto da história é aquele em que o conhecimento se realiza como sua salvação. 2) A história se decompõe em imagens, não em histórias. 3) Onde se realiza um processo dialético, estamos lidando com uma mônada. 4) A apresentação materialista da história traz consigo uma crítica imanente do conceito de progresso. 5) O materialismo histórico baseia seu procedimento na experiência, no bom senso, na presença de espírito e na dialética. (Sobre mônadas ver N 10a, 3)
[N 11, 4]
O presente determina no objeto do passado o ponto onde divergem sua história anterior e sua história posterior, a fim de circunscrever seu núcleo.
[N 11, 5]
Demonstrar por meio de exemplos que a grande filologia relativa aos escritos do século passado não pode ser praticada senão pelo marxismo.
[N 11, 6]
“As primeiras regiões que se tornaram esclarecidas não são aquelas em que elas [as ciências] tiveram maior progresso.” Turgot, Œuvres, vol. II, Paris, 1844, pp. 601-602. (Second discours sur les progrès successifs de lesprit humain”) (1750). Este pensamento desempenha um papel na literatura posterior, e também em Marx.
[N 11, 7]
No decorrer do século XIX, quando a burguesia consolidou sua posição de poder, o conceito de progresso foi perdendo cada vez mais as funções críticas que originalmente possuía. (A doutrina da seleção natural teve uma importância decisiva neste processo: com ela fortaleceu-se a opinião de que o progresso se realiza automaticamente. Ademais, ela favoreceu a extensão do conceito de progresso a todos os domínios da atividade humana.) Em Turgot. o conceito de progresso ainda tinha funções críticas. Isso permitiu sobretudo chamar a atenção das pessoas para os movimentos regressivos da história. E significativo que Turgot considerava o progresso garantido sobretudo no domínio das pesquisas matemáticas.
[N 11a, 1]
[...]
Existe ainda um limes [limite] do progresso em Turgot: “Nos últimos tempos ... era preciso «somar, pela reflexão, ao ponto onde os primeiros homens haviam sido conduzidos por um instinto cego; e quem sabe não seria este o supremo esforço da razão?” Turgot, op. cit., p. 610.18 Em Marx ainda existe este limes; mais tarde ele se perde.
[N 11 a, 3]
[...]
Concepção militante do progresso: “Não é o erro que se opõe ao progresso da verdade, mas a indolência, a teimosia, o espírito de rotina, tudo o que leva à inatividade. O progresso mesmo das artes mais pacíficas entre os povos antigos da Grécia e suas repúblicas era entremeado de guerras contínuas. Estavam ali como os judeus, construindo os muros de Jerusalém com uma mão e combatendo com a outra. Os espíritos estavam sempre em atividade, a coragem sempre excitada; as luzes do pensamento cresciam a cada dia.” Turgot, CEuvres, vol. II, Paris, 1844, p. 672 (“Pensées et fragments”).
[N 12, 3]

16 Cf. a tese XVII de W. Benjamin, 
Über den Begriff der Geschichte, GS I, 703: Teses, p. 130. (w.b.) 
17 Cf. a tese VI de W. Benjamin, “Über den Begríff der Geschichte", GS I, 695; Teses, p. 65. (w.b.) 
18 Os tradutores americanos corrigiram a transcrição de Benjamin, verificando o texto de Turgot. Em lugar de “era preciso retornar, pela perfeição”, eles colocam “era preciso retornar, pela reflexão”. De fato, esta versão é mais plausível e foi aqui adotada, (w.b.; grifos meus)  
“A ... paisagem profundamente transformada do século XIX permanece visível até hoje, pelo menos em seus rastros. Ela foi formada pela estrada de ferro... Os lugares onde se concentra essa paisagem histórica são aqueles em que montanha e túnel, desfiladeiro e viaduto, torrente e teleférico, rio e ponte de ferro ... revelam seu parentesco... Em sua singularidade, atestam que a natureza não se degradou, diante do triunfo da civilização técnica, em algo que não tem nome nem imagem, que a mera construção da ponte ou do túnel em si mesma ... não se tornou a característica da paisagem, e sim que o rio ou a montanha tomaram imediatamente um lugar a seu lado, não como um derrotado aos pés do vencedor, mas como uma potência amiga... O trem de ferro que desaparece em um túnel dentro das montanhas ... parece ... retornar à sua própria origem, onde repousa a matéria da qual ele próprio foi feito.” Dolf Sternberger, Panorama oder Ansichten vom 19. Jahrhundert, Hamburgo, 1938, pp. 34-35.
[N 12a, 2]
[...]
Lotze, como crítico do conceito de progresso: “Diante da afirmação bem aceita de um progresso retilíneo da humanidade..., uma reflexão mais prudente viu-se há muito obrigada a constatar que a história avança em espirais; outros preferem falar em epiciclóides. Em suma, nunca faltaram, mesmo sob a forma de obscuros travestimentos, testemunhos de que a impressão geral da história não é puramente edificante, mas predominantemente melancólica. Um observador isento nunca deixará de se espantar e se lamentar de quantos bens culturais e quanta beleza singular da vida ... desapareceram, para nunca mais voltar.” Hermann Lotze, Mikrokosmos, vol. III, Leipzig, 1864, p. 21.
[N 13, 2]
[...]
À concepção segundo a qual “há progresso suficiente quando ... a cultura [Bildung] de uma pequena minoria procura se sofisticar cada vez mais, enquanto a grande maioria permanece em uma condição de perene incultura [Unbildung], Lotze contrapõe a pergunta: “como seria possível falar em tais condições de uma historia da humanidade como um todo?” Lotze, Mikrokosmos, vol. III, p. 25.
[N 14a, 2]
“A maneira como a educação da Antigüidade é quase que exclusivamente transmitida”, leva, como diz Lotze, “diretamente de volta a algo que é o contrário daquilo que deveria ser o objetivo do trabalho histórico; quero dizer, ela leva à formação de um instinto de cultura que abrange cada vez mais elementos da vida moral e os subtrai da ação autonoma, para transformá-los em uma propriedade já sem vida.” (p. 28) De maneira análoga: “O progresso da ciência não é ... de imediato um progresso da humanidade; ele o seria se, com o crescimento dos conteúdos de verdade acumulados, aumentasse igualmente a participação dos seres humanos nestes conhecimentos, e a clara compreensão do que significa para eles o seu conjunto.” Lotze, op. cit., p. 29.
[N 14a, 3]
[...]
Uma fórmula que Baudelaire cria para a consciência do tempo própria de quem se encontra sob o efeito do haxixe pode ser aplicada à definição de uma consciência histórica revolucionária; ele fala de uma noite na qual estava tomado pelos efeitos do haxixe: “Por mais longa que ela tenha parecido ... eu tinha a impressão, entretanto, de que ela não havia curado mais que alguns segundos, ou mesmo de que ela não havia tomado um lugar na eternidade.” Baudelaire, Œuvres, ed. I e Dantec, Paris, 1931, vol. I, pp. 298-299.21 
[N 15, 1]
Em qualquer época, os vivos descobrem-se no meio-dia da história. Espera-se deles que preparem um banquete para o passado. O historiador é o arauto que convida os defuntos à mesa.
[N 15, 2]
Sobre a dietética dos livros de história. O contemporâneo que reconhece por meio deles há quanto tempo a miséria que se abate sobre ele vem sendo preparada — e mostrar-lhe isto deve ser o desejo caro ao historiador — adquire uma alta opinião a respeito de suas próprias forças. Uma história que assim o instrui não o entristece; ao contrário, ela lhe fornece armas. E tampouco ela provém da tristeza, ao contrário daquela que Flaubert tinha em mente quando escreveu a seguinte confissão: “Poucos suspeitarão o quanto foi preciso estar triste para empreender a ressureição de Cartago.” A pura “curiosidade nasce da tristeza, e a aprofunda.
[N 15, 3] 
[...]
“O passado deixou nos textos literários imagens de si mesmo, comparáveis às imagens que a luz imprime sobre uma chapa sensível. Só o futuro possui reveladores suficientemente ativos para examinar perfeitamente tais clichês. Várias páginas de Marivaux ou de Rousseau contêm um sentido misterioso que os primeiros leitores não podiam decifrar plenamente.” André Monglond, Le Préromantisme Français, vol. I, Le Héros Préromantique, Grenoble, 1930, p. XII.
[N 15a, 1] 
[...]
Sobre o estilo a que se deve aspirar: “É através das palavras comuns que o estilo morde e invade o leitor. E através delas que circulam e são considerados genuínos os grandes pensamentos, como o ouro e a prata marcados com um selo conhecido. Elas inspiram a confiança naquele que se serve delas para tornar seus pensamentos mais inteligíveis, pois reconhecemos no emprego da língua comum um homem que sabe da vida e das coisas, e que se mantém em contato com elas. Além do mais, essas palavras tornam o estilo franco. Elas mostram que o autor por muito tempo remoeu o pensamento ou o sentimento expresso, que se apropriou deles e os tornou de tal forma familiares, que as expressões mais comuns lhe sao suficientes para exprimir idéias que, para ele, se rornaram banais, graças a uma longa meditação. Enfim, o que se diz parece mais verdadeiro, porque nada é tão claro, no domínio das palavras, quanto aquelas que chamamos de familiares; e a clareza é um elemento tão distintivo da verdade que, muitas vezes, tomamos uma pela outra.” Nada mais sutil que o conselho de ser claro para, pelo menos, parecer verdadeiro. O conselho de escrever com simplicidade, na maioria das vezes fruto do ressentimento, quando dado desta maneira, adquire a máxima autoridade. J. Joubert, Œuvres, vol. II, Paris, 1883, p. 293 (“Du style”, XCIX).
[N 15a, 3]
Aquele que pudesse desenvolver a dialética dos preceitos de Joubert obteria uma estilística digna de nota. Assim, Joubert aconselha o uso das “palavras familiares”, mas adverte contra a “língua particular” que “só exprime coisas relativas a nossos costumes presentes”. Op. cit., p. 286 (“Du style”, LXVII).
[N 16, 1] 
[...]
Considerando a economia política, Marx caracteriza magnificamente como “seu elemento vulgar” “o elemento que nela é mera reprodução da aparência como representação a aparência”. Cit. em Korsch, Karl Marx (manuscrito), vol. II, p. 22.23 Este elemento vulgar deve ser igualmente denunciado nas outras ciências. 
[N 16, 3]
Conceito de natureza em Marx: “Se em Hegel ... ‘também a natureza física intervém na história universal’, Marx concebe a natureza desde o início segundo categorias sociais. A natureza física não intervém de maneira imediata na história universal, e sim de maneira mediata, como um processo de produção material que se desenvolve desde a sua origem não só entre o homem e a natureza, mas também entre o homem e o homem. Ou, para usar uma linguagem compreensível também para os filósofos: a natureza pura, pressuposto de toda atividade humana (a natura naturans econômica), é substituída, em toda parte enquanto matéria social, na ciência rigorosamente social de Marx  pela natureza como produção material (a natura naturata econômica), mediada e transformada pela atividade humana social, e, com isso, ao mesmo tempo, suscetível de ser modificada e transformada no presente e no futuro.” Korsch, op. cit.., vol. III, p. 3.24
[N 16, 4]
Korsch menciona as seguintes reformulações da tríade de Hegel nos termos de Marx: “A ‘contradição’ hegeliana é substituída pela luta das classes sociais, a ‘negação’ dialética pelo proletariado e a ‘síntese’ dialética pela revolução proletária.” Korsch, op. cit., vol. 111, p. 45.25
[N 16, 5]
Restrições à concepção materialista da história por parte de Korsch: “Com as transformações do modo de produção material, transforma-se também o sistema de mediações existente entre a base material e sua superestrutura política e jurídica, com suas correspondentes formas sócias de consciência. Por isso, as proposições gerais da teoria social materialista, concernentes às relações entre economia e política ou economia e ideologia, ou conceitos gerais como classes e luta de classes, ... têm um significado diferente para cada época especifica, e, na forma específica em que foram enunciadas por Marx em relação à atual sociedade burguesa, estas proposições são válidas a rigor somente para esta sociedade... Apenas para a atual sociedade burguesa, na qual as esferas da economia e da política estão formalmente e totalmente separadas uma da outra e onde os trabalhadores, na qualidade de cidadãos, são livres e iguais quanto a seus direitos, a demonstração cientifica de sua efetiva e continua falta de liberdade na esfera econômica tem o caráter de uma descoberta teórica.” Korsch, Op. cit., vol. III, p. 21-22.26
 [M 16 a, 1]
Korsch faz a “constatação aparentemente paradoxal, mas pertinente para a ultima e mais madura forma da ciência marxista, de que na teoria social materialista de Marx aquele todo das relações sociais, que é tratado pelos sociólogos burgueses como um domínio de pesquisas independente, ... já é tratado pela ciência histórica e social da economia segundo seu conteúdo objetivo... Nesse sentido, a ciência social materialista de Marx não é sociologia, e sim economia.” Korsch, op. cit., vol. III, p. 103.27 
[N 16a, 2]
Uma citação de Marx sobre a mutabilidade da natureza (em Korsch, op. cit., vol. III p. 9): “Mesmo as diferenças naturais das espécies, como as diferenças de raça etc., ... podem e devem ser abolidas no processo histórico.”28
[N 16a, 3]
  
21 Baudelaire, OC I, p. 424. (J.L.) 
23 Paralelamente às referências à versão manuscrita do livro de Korsch  que foi o texto utilizado por Benjamin indicam-se aqui as citações da edição em livro: Karl Korsch, Karl Marx, ed. org. por Götz Langkau, Frankfurt a. M. - Viena, 1967, p. 74. (R.T.)
24 Korsch , 1967 , pp. 128-129. A obra de Hegel atada por Korsch é Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte (Introdução geral, 2, 1 , a). (R.T.; E/M)
25 Op. cit., p. 160. (R.T.) 
26 Op. cit., p. 1 39. (R.T.)
27 Op. cit., pp. 128-129. (R.T.)
28 Op. cit, p. 1 33. Korsch cita de Marx e Engels, Gesamtausgabe (Berlim, 1927-1930), vol. I, parte V, p. 403. (R.T.; E/M) 
Teoria da superestrutura segundo Korsch: “Para a determinação do tipo particular de conexões e relações que existem entre a ‘base’ econômica e a ‘superestrutura’ jurídica e política, com as ‘correspondentes’ formas de consciência, não bastam, nesta forma geral, nem a definição filosófica de causalidade ‘dialética’, nem a ‘causalidade’ científica completada por ‘interações’. A ciência natural do século XX aprendeu que as relações ‘causais’ a serem definidas por um pesquisador em sua área específica, não podem absolutamente ser definidas na forma de um conceito geral ou de uma lei geral de causalidade, mas devem ser determinadas ‘especificamente’ para cada área particular.* [* Cf. Philipp Frank, Das Kausalgesetz und seine Grenzen, Viena, 1932]... A maior parte dos resultados a que chegaram Marx e Engels não consiste nas formulações teóricas do novo princípio, e sim em sua utilização específica em uma série de questões, ora de importância prática fundamental, ora de natureza teórica extremamente difícil* [* Situam-se aqui as questões levantadas ao final da ‘Introdução’ <para os Grundrisse> de 1857, PP - 779 et seq., relativas ao ‘desenvolvimento desigual’ dos diferentes âmbitos da vida social: desenvolvimento desigual da produção material em relação à produção artística (e das diversas formas de arte entre si), diferença entre as condiçoes culturais nos Estados Unidos e na Europa, desenvolvimento desigual das relações de produção enquanto relações de direito etc.] A determinação científica exata das conexões aqui citadas é ainda hoje uma tarefa para o futuro..., tarefa cujo centro de gravidade não deve se situar na formulação teórica, e sim na constante aplicação e experimentação dos princípios implícitos na obra de Marx. Nisso, não se deve, de forma alguma, tomar ao pé da letra as expressões muitas vezes empregadas em sentido figurado, com as quais Marx descreveu as conexões especiais aqui existentes como uma relação de ‘base’ e ‘superestrutura’, como ‘correspondências’ etc. ... Em todos estes casos, os conceitos de Marx, tal como, entre os marxistas posteriores, o entenderam de maneira mais clara Sorel e Lenin, não são tomados como novos entraves dogmáticos: não como condições estabelecidas a pnon para serem aplicadas por uma pesquisa verdadeiramente materialista, segundo uma ordem determinada, e sim como um guia inteiramente não-dogmático para a pesquisa e para a ação.” Korsch, Karl Marx (manuscrito), vol. III, pp. 93-96.29
[N 17]
Concepção materialista da história e filosofia materialista: “As fórmulas da concepção materialista da história — aplicadas por Marx e Engels ... apenas ... à análise da sociedade burguesa e transpostas para outras épocas históricas apenas com a devida modificação — foram desvinculadas pelos epígonos de Marx desta aplicação específica, e aliás, de qualquer aplicação histórica, e o assim chamado ‘materialismo histórico’ foi transformado em uma teoria sociológica geral. A partir deste ... nivelamento ... da teoria social matenaLsta era apenas um passo para se chegar à idéia — defendida ainda hoje ou justamente hoje — de que é necessário alicerçar a ciência histórica e econômica de Marx não apenas com uma filosofia social geral, mas até mesmo com uma visão de mundo universal materialista que abrange a totalidade da natureza e da sociedade. Ou, retomando uma expressão de Marx, de reduzir as formas científicas nas quais se havia desenvolvido o conteúdo verdadeiro do materialismo filosófico do século XVIII, novamente ‘às frases filosóficas dos materialistas sobre a matéria’. A ciência social materialista ... não necessita ... de tal fundamento filosófico. Este progresso mais importante ... alcançado por Marx escapou em seguida também a seus intérpretes ... ‘ortodoxos’... Com isso, reintroduziram seu próprio atraso filosófico na teoria de Marx, que progredira, transformando-se conscientemente de filosofia em ciência. O destino histórico da ortodoxia marxista aparece assim, de forma quase grotesca: ao defender-se dos ataques revisionistas, ela acaba por chegar, em todas as questões capitais, ao mesmo ponto de vista dos adversários... Quando, por exemplo, Plekhanov, o principal representante desta tendência, ..., em sua busca obstinada da ‘filosofia’ que subjaz ao marxismo, acabou apresentando o marxismo como uma forma de ‘spinozismo, libertado por Feuerbach de seus componentes teológicos’.” Korsch, op. cit., vol. III, pp. 29-31.30
[N 17a]
Korsch cita o Novum Organum de Bacon: “‘Recte enim veritas temporis filia dicitur non auctoritas.’ Ele fundou sobre esta autoridade de todas as autoridades, o tempo, a superioridade da nova ciência empírica burguesa face à ciência dogmática da Idade Média.” Korsch, op. cit., vol. I, p. 72.31 
[N 18, 1]
Para o uso positivo, Marx substitui o postulado exagerado de Hegel, segundo o qual a verdade deve ser concreta, pelo princípio racional da especificação... O verdadeiro interesse encontra-se ... nos traços específicos através dos quais cada sociedade histórica determinada diferenciasse das características comuns a cada sociedade em geral, e nos quais, portanto, consiste o seu desenvolvimento... Assim, uma ciência social rigorosa não pode formar seus conceitos gerais pela simples abstração de algumas características de uma dada forma histórica da sociedade burguesa e a conservação de outras, escolhidas de modo mais ou menos arbitrário. Ela pode atingir o conhecimento do universal contido nesta forma social particular apenas por meio do estudo minucioso de todas as condições históricas de seu surgimento a partir de um outro estágio da sociedade, e das modificações de sua forma presente sob condições rigorosamente estabelecidas... As únicas leis autênticas na ciência social são, portanto, as leis do desenvolvimento.” Korsch, op. cit., pp. 49-52.32
[N 18, 2]
O conceito autêntico da história universal é um conceito messiânico. A história universal, como compreendida hoje, é um assunto de obscurantistas.
[N 18, 3]
O agora da cognoscibilidade é o momento do despertar. (Jung quer manter o despertar longe do sonho.) 
[N 18, 4)
[...]
Observações críticas sobre o progresso técnico aparecem bem cedo. O autor do tratado Da Arte (Hipócrates?): “Penso que o desejo ... da inteligência é descobrir algumas das coisas que são ainda desconhecidas, se for melhor descobri-las do que não tê-las descoberto.” Leonardo da Vinci: “Como e por que não escrevo sobre meu método de permanecer embaixo d agua por tanto tempo quanto é possível ficar sem comer: se nao o publico nem o divulgo, é em razão da maldade dos homens que se serviriam dele para assassinar no fundo dos mares, abrindo os navios e submergindo-os com sua tripulação.” Bacon: “Na Nova Atlântida, ... ele confia a uma comissão especialmente escolhida o cuidado de decidir quais das novas invenções serão divulgadas e quais serão mantidas em segredo”. Pierre-Maxime Schuhl, Machinisme et Phihsophie, Paris, 1938, pp. 7 e 35. — “Os aviões bombardeiros nos lembram o que Leonardo da Vinci esperava do homem em vôo: que se elevasse para buscar a neve no cume das montanhas e retornar espalhando-a sobre o pavimento escaldante da cidade, no verão’.” Op. cit., p. 95.
[N 18a, 2] 
[...]
 
O

[Prostituição, Jogo]1 
 
 
[...]
 
 “Ao evocar minhas lembranças do Salon des Étrangers, tal como era na segunda década de nosso século, vejo diante de mim os traços nobres e a figura cavalheiresca do conde húngaro Hunyady, o maior jogador daquela época, que alvoroçava então toda a sociedade... A sorte de Hunyady foi excepcional durante muito tempo; nenhuma banca pôde resistir a suas investidas, e seus ganhos devem ter atingido aproximadamente dois milhões de francos. Seu comportamento era surpreendentemente calmo e extremamente distinto; ficava sentado, aparentemente impassível, a mão direita pousada sobre o peito da casaca, enquanto milhares de francos dependiam de uma carta de baralho ou de um lance de dados. Seu camareiro, no entanto, confidenciou a um amigo indiscreto que os nervos de seu senhor não eram assim tão fortes quanto ele procurava demonstrar, e que, bem ao contrário, pela manha o conde trazia no peito as marcas sangrentas de suas unhas, que ele, durante a agitação do jogo, quando este tomava um rumo perigoso, cravava em sua carne.” Captain Gronow, Aus der grossen Welt, Stuttgart, 1908, p. 59.3 
[O 1, 2]
[...]
É apenas em comparação com o Antigo Regime que se pode dizer que, no século XIX, o burguês passa a jogar. 
[O 1, 4] 
[...]
Sobre o mofo (Veuillot: “Paris cheira a mofo”) da moda: o “glauco clarão” sob as saias, de que fala Aragon.4 O espartilho como passagem do tronco. O imenso contraste com o mundo ao ar livre de hoje em dia. Aquilo que hoje é comum nas prostitutas baratas — não se despir — pode ter sido outrora a praxe mais distinta. Apreciava-se o retroussée — a saia levantada — na mulher. Hessel supõe ter encontrado aqui a origem do erotismo de Wedekind, cujo páthos do ar livre teria sido um blefe. E que mais? ■ Moda ■
[O 1a, 3]
Sobre a função dialética do dinheiro na prostituição. Ele compra o prazer e ao mesmo tempo torna-se expressão da vergonha. “Eu sabia”, diz Casanova a respeito de uma alcoviteira, “que eu não teria a força de partir sem dar-lhe alguma coisa”. Esta expressão singular revela seu conhecimento do mecanismo mais secreto da prostituição. Moça alguma decidiria tornar-se prostituta se contasse apenas com a remuneração tarifária dada por seus clientes. Também a gratidão deles, que talvez represente o acréscimo de alguma porcentagem, mal seria considerada por ela uma base suficiente. Como funciona, então, seu cálculo inconsciente do homem? Não se pode compreender esse mecanismo enquanto se considerar o dinheiro somente como um meio de pagamento ou como um presente. Com certeza, o amor da prostituta é venal. Mas não a vergonha de seu cliente. Esta procura um esconderijo para estes quinze minutos, e o encontra no lugar mais genial: no dinheiro. Há tantas nuanças do pagamento quanto há nuanças do jogo amoroso: indolentes e rápidas, furtivas ou brutais. O que isto quer dizer? A ferida vermelha de vergonha no corpo da sociedade secreta dinheiro e sara. Ela se reveste de uma crosta metálica. Deixemos ao espertalhão o prazer barato de imaginar-se livre de vergonha. Casanova sabia das coisas: o atrevimento lança a primeira moeda sobre a mesa, a vergonha cobre cem vezes a aposta, para ocultá-la.
[O 1a, 41 
  
 
29 Op. cit, pp. 199-202. Korsch refere-se ao prefácio de Marx à Kritik der politischen Ökonomie (1859). (R.T., E/M)
30 Op. cit, pp. 145-146. Korsch cita frases de Marx e Engels, Die deutsche Ideologie (1845-1846) e de George Plekhanov, Fundamental Problems of Marxism (1908). (R.T.; E/M)
31 Op. cit., p. 54. Tradução da citação de Bacon: Pois é correto dizer que a verdade é filha do tempo, não da autoridade.” (R.T.; w.b.) 
32 Op. cit., pp. 48-51 e 252. (R.T.) 
1 Na revisão da tradução deste arquivo temático foi consultada também a tradução de Emerson Alves Batista, publicada em OE III, pp. 237-271. (w.b.) 
3 O original da tradução alemã utilizada por Benjamin intitula-se The Reminiscences and Recollections of Captain Gronow: Being Anecdotes of the Camp, Court, Clubs, and Sodety, 1810-1860, vol. I, Nova York, Scribner and Welford, 1889, pp. 122-123 (The Salon des Étrangers in Paris”). Sobre o Salon des Étrangers, ver também L°, 19. (E/M). 
 
Passagens/Walter Benjamin
Em 1953, poucos anos depois da tentativa de atentado, Chtcheglov escreveu seu Formulário para um Novo Urbanismo¹.
 
Estamos entediados na cidade, não há mais qualquer Templo do Sol.
Uma doença mental tomou o planeta: a banalização. Todos estão hipnotizados pela produção e o conforto  sistema de esgotos, elevadores, banheiros, máquinas de lavar.
A escuridão e obscuridade foram banidas pela iluminação artificial, e as estações do ano, pelo ar-condicionado. A noite e o verão perdem seu charme e a aurora desaparece. A população urbana pensa que escapou da realidade cósmica, mas não há uma correspondente expansão de seus sonhos. A razão é óbvia: os sonhos surgem da realidade e se realizam nela.
[...]
Contra o atual estado das coisas, Chtcheglov aponta para um caminho de resistência: a deriva urbana (dérive urbaine), o deambular como ação política².
Guy Debord era um pouco mais velho que ele. Tinha 22 anos em 1953. E já era o líder de um dos tantos grupos da vanguarda parisiense: a Internacional Letrista, dissidência dos Letristas, que por sua vez eram uma dissidência dos Surrealistas. Debord, cujo tamanho do ego ainda hoje nos impressiona, rendeu-se a Chtcheglov. Viu nele uma espécie de profeta, um visionário, aquele que tem a chave, o guardião dos segredos das atitudes mais significativas... Enfim, Chtcheglov foi talvez a pessoa que Debord mais elogiou na vida, depois de si próprio. Durante um ano, entre 1953 e 1954, os dois foram inseparáveis. Debord incentivou Chtcheglov a desenvolver suas ideias, entusiasmou-se com suas derivas
pela cidade, e Chtcheglov fornece as bases para a evolução da Internacional Letrista para outra coisa, a Internacional Situacionista: a transformação de um movimento que queria revolucionar a arte para outro, mais ambicioso, que queria revolucionar a cidade e a vida. E ele que dá todas as bases da nova internacional, a sintese que lhes permite crer hoje em si mesmos, diz o escritor Patrick Straram, então membro do grupo.
Debord, entusiasmado, observa o amigo criar uma nova ciência: a psicogeografia. Em seu filme In girum imus nocte et consumimur igni (1978), enquanto a tela mostra uma foto de Chtcheglov, Debord relembra: “Mas como poderei esquecer aquele que veio em toda parte no ponto mais alto de nossas aventuras? Aquele que, nesses dias incertos, abriu uma nova estrada e avançou rápido por ela, escolhendo os que viriam. Ninguém se comparava a ele naquele ano. Parecia que bastava contemplar a cidade, contemplar a vida, para modificá-las. Em um só ano ele descobriu os motivos para as reivindicações de um século, conquistou as profundezas e os mistérios do espaço urbano”.
Em 1954, porém, Debord excluiu o amigo da Internacional Letrista, por “falta de consciência revolucionária” e excesso de problemas mentais (“mythomanie, délire, d’interprétation, manque de consciense révolutionnaire”). O problema é que, além de Debord gostar muito de expulsar membros por supostas manifestações de falta de espírito revolucionário (quando a Internacional Situacionista fechou as portas, tinha apenas três membros), talvez precisasse da ausência de Chtcheglov para desenvolver as ideias de Chtcheglov para além do ninho surrealista onde elas tinham nascido, transformando-as de poesia em teoria política.
Quando, em 1955, escreve o texto “Introduction à une critique de la géographie urbaine”, Debord atribuiu a criação do termo “psicogeografia” a um cabila analfabeto”, mas foi ele quem definiu pela primeira vez o conceito:
 
“O estudo dos efeitos específicos do ambiente geográfico, conscientemente organizado ou não, nas emoções e comportamento dos indivíduos.
O psicogeógrafo é aquele que pesquisa e transmite as realidades psicogeográficas”.4

Anos depois, Debord, com sua constante ambição de escapar ao mundo da arte e tornar-se uma espécie de líder revolucionário, irá trocar a psicogeografia pela crítica da sociedade do espetáculo”, uma teoria política com mais jeito de séria”, mais adequada para explicar o estágio atual do capitalismo. E, se o objetivo era passar a ser levado a sério, a troca foi bem sucedida. Hoje, para diversos grupos de acadêmicos, Debord ocupa alto posto no panteão dos grandes mestres do século xx. É quase um Adorno. “Ele foi o mais inovador marxista na Europa depois de 1945”, diz o cientista político Jan-Werner Müller.
Mas talvez seja esse “momento Chtcheglov” de Debord o mais rico em possibilidades. Inclusive para o ativismo político. Quando, em seu livro Future Tense: A New Art for the Nineties (Methuen, Londres, 1990), o historiador britânico Robert Newison sustenta que os situacionistas tiveram de fato influência no Maio de 1968 francês, diz que  “carros, árvores e mesas dos cafés foram détourned em barricadas... foi uma derivade ummês que reáesêobriu a psicogeografia revolucionária da cidade”.
“Enquanto as ideias situacionistas sobre o “espetáculo' e o detournement soam cada vez mais ingênuas, existem legítimos paralelos entre a psicogeografia e os movimentos políticos, genuinamente subversivos,contemporâneos”, escreve Alastair Bonnett, professor de geografia social e editor da revista inglesa Trangressions.“O que é sedutora respeito dessas explorações é que elas têm menos relação com a estética do extremismo e muito mais com as reais possibilidades da transformação social que abrem para nós”.
Assim, enquanto o termo “sociedade do espetáculo”, esvaziado de qualquer conteúdo crítico radical, foi incorporado ao discurso dos mais rasos comentaristas da televisão, a psicogeografia, mesmo sem ser nomeada, pode estar bem viva na forma, por exemplo, das ocupações das escolas brasileiras pelos secundaristas.
 
[...]
 
Mas a influência situacionista sobre o Reino Unido vai, é claro, além da cultura pop. E resultou, por exemplo, em um grupo bem mais punk que os Sex Pistols: o grupo guerrilheiro Angry Brigade, cujos integrantes, em parte inspirados em leituras do Sociedade do Espetáculo, resolveram, em 1970, fazer algo mais espetacular que manifestos ou discos de rock: lançaram bombas de verdade em bancos, nas embaixadas dos EUA e da Espanha (um dos integrantes do Angry Brigade chegou a ser preso em uma tentativa de assassinar o ditador Franco) em escritórios de companhias aéreas da Espanha e da África do Sul, em sedes do partido Conservador, postos policiais e até em um concurso de Miss Universo.8
 
[...] 

Rumney é uma dessas personagens fascinantes que sempre encontramos nas beiradas das histórias de revoluções. Quando jovem foi amigo do historiador marxista E.P.Thompson, dez anos mais velho. Thompson o abrigou em sua casa, quando Rumney fugiu do pai, um pastor anglicano furioso porque, além de pretender escapar do alistamento militar, o filho andava com livros do Marquês de Sade. Na Europa continental, conviveu com Georges Bataille, o pintor Yves Klein, William Burroughs, Marcel Duchamp, Félix Guattari... Ora estava em Paris, ora em Milão, ou Veneza ou novamente em Londres, ou na pequena ilha de Linosa, no sul da Itália. Casou-se com uma herdeira milionária, Pegeen Guggenheim (filha de Peggy Guggenheim), mas anos depois estava trabalhando como telefonista em Londres. O escritor e artista plástico Guy Atkins diz que o amigo vivia entre a penúria e a mais absurda riqueza. Uma hora estava dividindo um quarto miserável com desempregados em uma rua pobre de Londres, em outra o encontrávamos no Harrys Bar em Veneza, ou em uma vernissage de uma exposição de Max Ernst em Paris.
No obituário de Rumney que escreveu para o The Guardian, Malcolm Imrie resume: uma vida de permanente aventura e eterna experimentação. Seu apelido era Consul, inspirado no enlouquecido protagonista de Sob a Sombra do Vulcão
9, que vai ao extremo mortal da bebedeira num Dia dos Mortos de uma pequena cidade mexicana. O Consul, o gentil estrangeiro. Sire, je suis de lautre pays (Majestade, eu sou de outro país) é a epígrafe do famoso texto de Chtcheglov. Rumney era um estrangeiro, outsider, um nômade, um psicogeógrafo.
Rumney diz que inventou a London Psychogeography Committee em uma das bêbadas reuniões preparatórias da conferência de Cosio dArroscia, como uma brincadeira, para dar a impressão que a Interna- cional Situacionista era de fato uma grande organização com base em vários países. Mas, retrospectivamente, o nome não poderia ser mais adequado: foi na Grã-Bretanha que a psicogeografia mais se desenvolveu nas décadas seguintes. Talvez porque fosse um conceito de "agradável imprecisão", como precisado por Debord (assez plaisant vague), foi flexível o bastante para se fundir a tradições locais. Debord, em um texto que escreveu originalmente para ser o prefácio do relatório psi- cogeográfico de Rumney, chega mesmo a localizar a invenção da psicogeografia em Londres, mais especificamente no livro Confissões de um Comedor de Ópio (1821), de Thomas de Quincey:
 
A história de amor entre Thomas de Quincey e a pobre Ann10  que são separados pelo acaso e tentam em vão encontrar um ao outro dentro do imenso labirinto formado pelas ruas de Londres, talvez a poucos passos de distância  marca o momento histórico da descoberta das influências psicogeográficas sobre os movimentos da paixão humana e a importância desse momento só pode ser comparada à lenda de Tristão, que registra a verdadeira formação do conceito amor-paixão.

O IV Congresso da Internacional Situacionista, em 1960, aconteceu no Limehouse, leste de Londres, quartier célèbre par ses criminels, escreve Debord, encantado com a escolha psicogeográfica.
 
[...]

Mas em 1975, mesmo ano em que os Sex Pistols fizeram sua estreia, as livrarias britânicas receberam Lud Heat, no qual o escritor Iain Sinclair desenvolve, em forma de poema, a ideia de que as igrejas londrinas proje- tadas pelo arquiteto Nicholas Hawksmoor (1661-1736) criam um ambiente de malevolência que leva a crimes violentos. Hoje, Sinclair é celebrado pela respeitável crítica literária como um dos maiores escritores britânicos contemporâneos
11. Mas ele é muito mais importante que isso: Sinclair reinventou a psicogeografia inglesa com Lud Heat e sua obra posterior.
A psicogeografia de Londres deve quase tudo a Iain Sinclair, diz Phil Baker
12, para quem o autor se apoia menos em Guy Debord que no esoterismo liberado pelo movimento hippie. Os anos 1960 viram a ressurgência do interesse na vida rural, na supostamente antiga mitologia da terra e na geometria sagrada. Para Merlin Coverley, Sinclair funde o ocultismo paranoico com a investigação histórica em um novo formato que dispensa completamente a teoria situacionista em favor de um retorno a antigas tradições literárias e esotéricas13. Acho que Coverley exagera nesse completamente (completely). Primeiro porque Sinclair é um leitor de Guy Debord e dos situacionistas. Segundo porque a produção destes deixa claro a ligação deles com tradições literárias e até mesmo, algumas vezes, senão com o esoterismo pelo menos com certo misticismo, mesmo que de maneira crítica14. Mas, de fato, Sinclair parece levar a magia bem a sério. Até como arma de contra-ataque na guerra contra bruxas como a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher: só se pode entender Thatcher em termos de magia ruim. Essa bruxa perversa concentrou toda a crueldade existente na sociedade. A única maneira de entendê-la é percebendo que estava demoniacamente possuída pelas forças maléficas do mundo da política (...). Ela se tornou a divindade daqueles que querem destruir o poder da cidade. Uma divindade criada por um sistema que a destruiu, como sempre acontece (...). Mas permanece o fato que ela introduziu o ocultismo na política britânica e o papel do escritor é se contrapor a essa cultura política.15
Sinclair define sua psicogeografia como a crença de que algo que aconteceu em um lugar afeta permanentemente esse lugar. E parece citar Chtcheglov quando diz para mim, é a maneira de fazer a psicanálise da psicose de um lugar no qual eu vivo.
Com ele, a palavra psicogeografia entrou na moda no mundo literário inglês (o escritor Will Self até criou uma coluna com esse nome para uma revista de bordo!), ao ponto de Sinclair desistir de usá-la: Se tornou uma marca comercial nojenta. Nos últimos anos, prefere então falar em geografia psicótica ou topografia profunda. Para ele, a palavra psicogeografia tinha relevância quando usada agressivamente pelos situacionistas ou quase satiricamente por Stewart Home, contracultural brasileiro deste século. Home fez parte do grupo que, autor de Assalto à Cultura, livro que tanta influência teve no ativismo no início dos anos 1990, ressuscitou o London Psychogeographical Committee, agora com o nome London Psychogeographical Association. Karen Elliot, Luther Blissette Bob Jones, nomes dos personagens da HQ Tarde demais, de Home e Jonathan Edwards, são exemplos de nomes múltiplosidentidades coletivas inventadas, nomes pessoais usados coletivamente por grupos de vanguarda a partir dos anos 1970. Deles, o mais famoso foi Luther Blissett, que assinou várias ações de guerrilha cultural na Europa e até no Brasil, e também best-sellers como Q  O Caçador de Hereges e 5416. Blissett foi responsável pela criação da Associazione Psicogeografica di Bologna.
No final dos anos 1980, depois de fazer Watchmen, Alan Moore queria estar tão longe quanto o possível dos gibis de super-heróis. Naquele mo- mento, inspirado na Teoria do Caos, escrevia Big Numbers, a respeito das consequências da construção de um shopping center em uma cidade do interior da Inglaterra. Foi quando ele ganhou um presente de um amigo:

Neil Gaiman me enviou a cópia do extraordinário Lud Heat, de Iain. Aquilo catalisou algo dentro de mim. Eu já estava preocupado com a questão do ambiente urbano, particularmente o ambiente em que vivia, mas a abordagem do conceito por Iain em Lud Heat e em seu trabalho subsequente era extraordinário. Deu-me um foco, um rumo, que eu não sei, e provavelmente nunca vou saber, se conseguiria atingir sozinho17.

Alan Moore retomou a teoria de Sinclair a respeito do arquiteto Nicholas Hawksmoor, usou a psicogeografia para seguir as pistas do Jack, o Estripador18 e escreveu aquela que talvez seja sua obra-prima: Do Inferno. E a psicogeografia é uma chave indispensável para entender o que ele produziu de mais importante depois disso, como os livros Voz do Fogo e Jerusalém.
Durante a produção de Do Inferno, Alan Moore tornou-se amigo de Iain Sinclair e chegou a participar do filme The Cardinal and the Corpse, escrito por Sinclair e dirigido por Chris Petit (do cultuado filme Radio On, de 1979).
 
[...]
 
Mas, usando ou não os métodos psicogeográficos, os autores deste livro têm todos a ambição de retratar uma Londres não só distante daquela turística, mas uma que a própria cidade tenta esconder de si. Neste sentido, A Vida Secreta de Londres é um guia da capital inglesa. Não um guia de lugares onde tirar selfies ou a respeito dos quais nos vangloriamos de conhecer em nossas conversas com amigos descolados. Mas um guia das entranhas da cidade.
 
 
1 Chtcheglov assina o texto com um pseudônimo: Gilles Ivain.
2 Dez anos depois, na clinica psiquiátrica na qual estava internado, Chtcheglov escreveu
uma carta para a revista da Internacional Situacionista na qual aprofunda sua ideiaa deriva (com seu fluxo de atos, gestos, passeios e encontros) é para a totalidade exatamente o que a (boa) psicanálise é para a linguagemSiga com seu fluxo de palavras, diz o psicanalista. Ele ouve até o momento no qual rejeita ou modifica (alguém
pode dizer que détourne) uma palavra, uma expressão ou uma definição. A deriva é certamente uma técnica, quase terapéuticaLettres de loin”, Internationale Situationniste n°9, agosto de 1964 (Librairie Arthème Fayard, 1997). O détournement (desvio”, “o dar outro sentido para mencionado por Chtcheglov torna-se a ferramenta favorita dos situacionistas.
3 Conforme citado em Ivan Chicheglov, Profil perdu, de Jean Marie Apostolidis e Boris Donné (Allia, Paris, 2006).
4 De lá para cá, a psicogeografia recebeu centenas de outras definições. Minha preferida talvez seja a do situacionista dinamarquês Asger Jorné a ficção científica do urbanismo”. 
8Were not beautiful, were not ugly”, dizia o slogan.
9 Romance do inglês Malcolm Lowry publicado em 1947. Foi filmado em 1984 por John Houston.
10 Aos 17 anos, o menino rico Thomas de Quincey fugiu do colégio de elite e foi passar fome nas ruas de Londres. Encontrou Ann, uma prostituta de 15 anos, que o protegeu e o alimentou. De Quincey, então, viajou para ver se arrumava algum dinheiro emprestado e quando voltou Ann havia desaparecido. Todas as suas buscas foram em vão e De Quincey passou o resto da vida lamentando o desaparecimento da amiga.
11 Sinclair é o mago demente da frase, diz James Woods, da The New Yorker. Ele supera qualquer escritor da Inglaterra, segundo James WalshSua mistura de mitologia, literatura e atenta análise social combina George Orwell e Ezra Pound, diz o escritor Michael Moorcock.
12 Em Secret City: Psychogeography and the End of London, do livro London from Punk to Blair (Reaktion Books, Londres, 2003).
13 Psychogeography, de Merlin Coverley (Oldcastle Books, Harpenden, 2006).
14 Chtcheglov escreve com um furor que bem pode ser chamado de místico. E é interessante lembrar que Raoul Vaneigem tornou-se um grande especialista da história das heresias cristãs.
15 Entrevista para o jornal The Guardian, em abril de 2004. 
16 Ambos publicados no Brasil pela editora Conrad. Tanto Luther Blissett quanto Stewart Home foram importantes conselheiros em nosso trabalho na coleção Baderna, pela qual sairam dois livros deles: Guerrilha Psíquica, de Blissett, e Manifestos Neoístas e Greve da Arte, de Home.
17 Entrevista realizada por Nick Talbot em junho de 2014 para o site The Quietus.
18 Aliás, é interessante lembrar que Guy Debord tinha grande interesse na figura do Jack lÉventreur. 
Rogério de Campos
 
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