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5.6.25

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G

[Exposições, Reclame, Grandville]

[...]

Certos modos de apresentação, cenas típicas etc. começam no século XIX a migrar para o reclame e, igualmente, para o obsceno. O estilo dos Nazarenos,1 tanto quanto o estilo Mackart,2 encontra seus parentes litográficos, em preto ou mesmo coloridos, no domínio da gravura obscena. Vi uma gravura que à primeira vista poderia representar algo como o banho de Sigfried no sangue do dragão: uma erma floresta verde, o manto púrpura do herói, plena nudez, um espelho d’água — era o mais complicado enlace de três corpos, digno da capa de uma revista barata para jovens. Esta é a linguagem colorida dos cartazes que floresceram nas passagens. Quando ficamos sabendo que lá estavam pendurados os retratos de famosas dançarinas do cancan, como Rigolette e Frichette — devemos imaginá-los assim coloridos. É possível encontrar cores mais artificiais nas passagens; ninguém se surpreende que pentes sejam vermelhos ou verdes. A madrasta da Branca de Neve possuía alguns assim, e se o pente não cumpria sua tarefa, lá estava a linda maçã fazendo sua parte, meio vermelha, meio verde-veneno, como os pentes de preço módico. Por toda parte, as luvas representam seu papel de atrizes convidadas; luvas coloridas, mas principalmente as luvas longas e negras, com as quais muitas sonharam com a felicidade  seguindo o exemplo de Yvette Guilbert3 , trazendo-a, como se espera, a Margo Lion.4 E na mesa vizinha de uma taberna, as meias formam um etéreo balcão de carnes.

[G 1a, 1]

[...]

Em 1867, um negociante de papel de paredes afixa seus cartazes nos pilares das pontes.

[G 1a, 3]

Há muitos anos vi num trem suburbano um cartaz que, se neste mundo as coisas tivessem o lugar que lhes cabe, teria encontrado seus admiradores, historiadores, exegetas e copistas tão certamente como qualquer grande poema ou grande pintura. Com efeito, esse cartaz era as duas coisas ao mesmo tempo. Mas como acontece às vezes com impressões muito profundas e inesperadas, o choque foi tão forte, a impressão, se assim posso dizer, causou- me tanto impacto, que transpassou o solo da consciência e permaneceu por anos escondida em algum lugar na escuridão. Sabia apenas que se tratava de um certo “Sal de Bullrich”, e que o entreposto original deste produto localizava-se num porão da rua Flottwell, pela qual passei anos a fio com a tentação de aí descer e perguntar pelo cartaz. Então, numa certa tarde desbotada de domingo, encontrei-me naquela parte norte (?) de Moabit que já me parecera, certa vez, há quatro anos, espectralmente construída justamente nesta hora do dia. Na ocasião, tive que pagar na rua Lützow5 os impostos alfandegários de uma cidade de porcelana chinesa que mandei vir de Roma, de acordo com o peso de seus quarteirões de casas esmaltadas. Desta vez, certos indícios já me levavam a crer, durante o caminho, que esta seria uma tarde significativa. De fato, ela terminou com a descoberta de uma passagem, uma história berlinense demais para poder ser contada neste espaço de lembranças parisienses. Antes, porém, estava eu com minhas duas belas acompanhantes diante de uma miserável destilaria, cuja vitrine estava enfeitada com um arranjo de cartazes. Num deles estava escrito "Sal de Bullrich”. Nada mais continha além destes dizeres; mas, em torno destas letras, formou-se de repente, com facilidade, aquela paisagem desértica do primeiro cartaz. Eu o tinha recuperado. Era assim: no primeiro plano do deserto, movia-se um veículo de carga puxado por cavalos. Estava carregado de sacos com a inscrição “Sal de Bullrich”. Um deles tinha um buraco do qual escorria o sal, formando uma trilha na terra. Ao fundo da paisagem desértica, dois postes exibiam uma grande tabuleta com as palavras: “É o melhor”. Mas o que fazia a trilha de sal na estrada que cortava o deserto? Ela formava letras, e estas formavam palavras, as palavras: “Sal de Bullrich”. Não era a harmonia preestabelecida de um Leibniz uma criancice, se comparada a esta predestinação inscrita com absoluta precisão no deserto? E não havia neste cartaz uma parábola para coisas que ninguém jamais experimentou nesta vida terrena? Uma parábola para o cotidiano da utopia?

[G 1a, 4]

1 Grupo de pintores alemães (Overbeck, Pforr, Cornelius) que se estabeleceram em Roma em 1810 e tiraram a sua inspiração patriótica, alemã e religiosa de Dürer, das primeiras obras de Rafaël e de Perugino. (cf.Ch.Baudelaire, LArt PhilosophiqueŒuvres Complètes, vol. II, p. 599.) (J.L.)

2 Hans Mackart (1840-1884), pintor vienense, autor de grandes quadros alegóricos e históricos em estilo “neobarroco. (J.L.)

3 Cantora francesa (1868-1944). (J.L.)

4 Artista alemã de cabaré (1899-1989) dos anos 1920. Intérprete da personagem Jenny na versão cinematográfica francesa da Ópera dos Três Vinténs, de G. W. Pabst (1931), baseada na peça de Brecht. (J.L.) 

5 A Lützowstraße desembocava na Flottwellstraße, ao sul do Tiergarten, o parque central de Berlim. Moabit  é um bairro ao norte desse parque. (J.L.; w.b.) 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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