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19.12.25

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L
[Morada de Sonho, Museu, Pavilhão Termal]
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A obra de Le Corbusier parece constituir o epílogo da “casa” enquanto configuração mitológica. Cf. a seguinte observação: “Por que a casa deve ser constmída da maneira mais lese e aérea possível? Porque só assim pode-se pôr término a uma fatal monumentalidade, de caráter patrimonial. Enquanto o jogo de suporte e carga — real ou como exagero simbólico "no Barroco) — adquiriu sentido com os muros de arrimo, seu aspecto pesado se justificava. Mas hoje, que o muro exterior não precisa mais suportar tanto peso, o jogo de suporte e carga, sublinhado pelo ornamento, é uma mísera farsa (os arranha-céus americanos).” Giedion, Bauen in Frankreich, p. 85.
[L la, 4]
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“A habitação coletiva [Mietskaserne] é o último castelo feudal. Ela deve sua existência e forma à batalha brutal e egoísta de alguns proprietários de terra pela posse de um terreno, que é desmembrado e recortado em parcelas durante esta disputa. Assim, não nos espanta ver ressurgir também a forma do castelo feudal — com o pátio cercado de muros. Cada proprietário se isola do outro, e esta é uma das razões por que, no fim, subsiste um resto casual de todo o conjunto.” Adolf Behne, Neues Wohnen — Neues Bauen, Leipzig, 1927, pp. 93-94.
[L la, 6]
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Em junho de 1837 é inaugurado o museu histórico de Versailles  “para a glória perene da França”. Uma série de salões que exigem quase duas horas para serem percorridos. Cenas de batalhas e de sessões parlamentares. Entre os pintores: Gosse, Larivière, Heim, Devéria, Gérard, Ary Scheffer etc. Aqui a coleção de quadros converte-se em pintar quadros para o museu.
[L 2, 1]
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“Gosto muito desses homens que se deixam trancar à noite num museu para poder contemplar à vontade, em tempo ilícito, um retrato de mulher, à luz tênue de uma lanterna. Depois disso, inevitavelmente, deverão saber muito mais dessa mulher do que nós.” André Breton, Nadja, Paris, 1928, p.150.3 Mas por quê? Porque no medium desta imagem realizou-se a metamorfose do museu em intérieur.
[L 2 , 3]
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“A Opera é uma das criações características do Segundo Império. Entre cento e sessenta projetos apresentados, foi escolhido o de um jovem desconhecido, Charles Garnier. Seu teatro, construído entre 1861 e 1867, foi concebido como um local de ostentação ... é o palco em que a Paris imperial se contempla com satisfação; classes que recentemente chegaram ao poder e à fortuna, misturas de elementos cosmopolitas — é um mundo novo, que exige um novo nome: não se diz mais a Corte, diz-se Toda-Paris... Um teatro concebido como centro de vida social e urbana, eis mais uma nova idéia, um sinal dos tempos.” Dubech e D’Espezel, op. cit. , pp. 411-412.
[L 2a, 5]
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[fase média]
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Sobre a criação do museu de Versailles: “O Sr. de Montalivet tinha pressa em ter um grande número de pinturas. Ele as queria por toda parte, mas como as Câmaras denunciavam o excesso de gastos, era preciso comprar barato, a economia andava de vento em popa... O Sr. de Montalivet ... deixaria ... pensar de bom grado que era ele próprio que, nos cais e junto aos revendedores, fora comprar os quadros de terceira categoria.. Mas não... Foram os príncipes da arte dessa época que se entregaram a essa operação hedionda... As cópias e os pastiches do museu de Versailles são a prova mais pungente da cobiça dos mestres artistas que se transformaram em empreiteiros e negociantes de arte... O comércio e a indústria decidiram elevar-se até a arte. O artista, para satisfazer às necessidades do luxo que começava a tentá-lo, prostituía a arte na especulação e fazia degenerar a tradição artística, reduzindo-a à condição de mero ofício.” Esta observação refere-se ao fato de que (por volta de 1837) os pintores confiavam as encomendas assumidas a seus discípulos. Gabriel Pélin, Les Laideurs du Beau Paris, Paris, 1861, pp. 85, 87-90.
[L 3, 5]
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Esgotos: “Fantasmas de todas as espécies assombram esses longos corredores solitários; em toda parte, podridão e miasma; aqui e ali um respiradouro, por onde Villon, do lado dc dentro, conversa com Rabelais, do lado de fora.” Victor Hugo, Œuvres Complètes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, p. 160 (Les Misérables).
[L 3a, 2] 
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Esgoto: “Paris . . . chamava-o de Trou punais. . . O Buraco Fedorento não era menos repugnante peia higiene que pela lenda. O Monge empanturrado aparecera sob o arco fétido do esgoto Mouffetard; os cadáveres dos Marmousets tinham sido jogados no esgoto da Barillerie. . . A boca do esgoto da Rue de la Mortellerie era mal-afamada pelas pestes que espalhava... Bruneseau havia dado o primeiro impulso, mas foi preciso o cólera para determinar a vasta reconstrução que se realizou em seguida.” Victor Hugo, Œuvres Complètes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, pp. 166 e 180 (Les Misérables, “L’intestin de Léviathan”).
[L 3a, 4]
A descida de Bruneseau aos esgotos, em 1805: “Assim que Bruneseau ultrapassou as primeiras articulações da rede subterrânea, oito dos vinte trabalhadores recusaram-se a ir mais longe... Avançava-se penosamente. Não era raro que as escadas para a descida mergulhassem em três pés de lama. As lanternas agonizavam nos miasmas. De tempos em tempos carregava-se um trabalhador desmaiado. Em certos lugares, um precipício. O solo tinha afundado, a pavimentação tinha desmoronado, o esgoto tinha se transformado em um poço perdido; não se achava mais o chão firme; um homem desapareceu de repente; foi uma grande dificuldade recuperá-lo. Por conselho de Fourcroy, iluminava-se cada ponto, nos lugares suficientemente saneados, com grandes gaiolas cheias de estopa embebida em resina. A muralha, em determinados lugares, estava coberta de fungos disformes — tumores, diziam; a própria pedra parecia doente nesse ambiente irrespirável... Pensou-se reconhecer aqui e ali, sobretudo sob o Palais de Justice, celas de antigos cárceres construídos no próprio esgoto... Uma corrente de ferro pendia numa dessas celas. Todas elas foram muradas. A visita completa ao sistema viário da imundície subterrânea de Paris durou sete anos, de 1805 a 1812... Nada igualava o horror dessa velha cripta supurosa ... antro, fossa, abismo cortado de ruas, monte gigantesco de toupeiras, onde o espírito imagina ver rondar através das sombras ... essa enorme toupeira cega, o passado.” Victor Hugo, CEuvres Completes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, pp. 169-171 e 173-174 (Les Misêrables, “Tintestin de Léviathan”).
[L 4, 1]
[...]
Proudhon defende os quadros de Courbet como causa própria e deles se apropria através de definições nebulosas (“da moral em ação”).
[L 4, 3] 
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Enquanto a viagem normalmente dá ao burguês a ilusão de transcender seus vínculos de classe, a estação termal reforça a sua consciência de pertencer à classe superior. E isto acontece não só porque ela o põe em contato com as camadas feudais. Mornand chama a atenção para uma circunstância mais elementar: “Em Paris, sem dúvida, as multidões sao maiores mas nenhuma é homogênea como esta: porque a maior parte dos tristes humanos que as compõem jantaram mal ou não jantaram... Em Baden não é assim: todo mundo e feliz, porque todo mundo está em Baden.” Felix Mornand, La Vie des Eaux, Paris, 1855, pp. 256-257. 
[L 4a, 1] 
 [...]
 [fase tardia]
Existem relações entre a loja de departamentos e o museu, sendo que o bazar serve de meio-termo. O acúmulo de obras-de-arte no museu as aproxima das mercadorias que, quando oferecidas ao transeunte em grandes quantidades, despertam nele a idéia de que uma parte delas deveria lhe caber.
[L 5, 5] 
 
3 André Breton, Nadja, Paris, Gallimard, 1980, pp. 132-133. (J.L.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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