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30.12.25

neil gaiman/sai


 

GAIMAN, Neil (1960- ); BELARDINELLI, Massimo (1938-2007). Choques Futuristas de Tharg / eu acredito / 2000 AD / Neil Gaiman, Massimo Belardinelli; em JUIZ DREDD MEGAZINE; No 7; 1981, 1986, 2000, 2005, 2012 e 2013; Rebellion A/S.  — São Paulo: Mythos Editora. 

GAIMAN, Neil (1960- ). BOLTON, John (1951- ). A paixão do ArlequimHarlequin Valentine / Neil Gaiman, John Bolton; textos de Gaiman sobre a obra e sobre Bolton; 2001; diretor editorial Rogério de Campos.  — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2002.

GAIMAN, Neil (1960- ); BOLTON, John (1951- ); HAMPTON, Scott (1959- ); VESS, Charles (1951- ); JOHNSON, Paul (1958- ). Os livros da magia / Books of magic / edição de luxo / Neil Gaiman, John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess, Paul Johnson; capa John Bolton; letrista original Todd Klein; introdução Roger Zelazny, 1993; Apocrypha Neil Gaiman; Mood Indigo canção de Duke Ellington e Barney Bigard e letra de Irving Mills; Vertigo/DC Comics. — 1a ed— Barueri, SP: Panini Brasil, 2013.

pois é,
é pior
do que
me lem-
brava

GAIMAN, Neil (1960- ). Dias da meia-noitemidnight days / edição de luxo / Neil Gaiman, Teddy Kristiansen, Dave McKean, Mike Mignola, Stephen R.Bissette, John Totleben, Sergio Aragonés, &c; introdução e textos de Gaiman sobre cada história; 1999; Vertigo/DC Comics 1989, 1995, 1998, 1999, 2013. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2013. 

Estou relendo o que tenho do Gaiman, depois de toda a polêmica em torno dos seus abusos sexuais.

É curioso com nunca gostei muito do seu trabalho, mas ele é e foi amigo dos maiores da segunda metade do séc xx, de Will Eisner até Alan Moore. Todos os bons desenhistas, os mais diferentes e com total liberdade, trabalharam para ele.

Este, talvez, seja o trabalho dele que mais gosto (junto com A Paixão do Arlequim). Caras como Teddy Kristiansen, Dave McKean, Mike Mignola, Stephen R.Bissette, John Totleben, até chegar no divertido Sergio Aragonés.

GAIMAN, Neil (1960- ); KIETH, Sam (1963- ); DRINGENBERG, Mike (1965- ); JONES III, Malcolm (1959-1996). Sandman / volume i / Prelúdios & Noturnos / Preludes & Nocturnes /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Sam KiethMike DringenbergMalcolm Jones III; capa Dave McKean; introdução Patrick Rothfuss; prefácio Karen Berger; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1989; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.

GAIMAN, Neil (1960- ); DRINGENBERG, Mike (1965- ); JONES III, Malcolm (1959-1996); BACHALO, Chris (1965- ) ZULLI, Michael (1952–2024); PARKHOUSE, Steve (1948- ). Sandman / volume 2 / Casa de Bonecas / The Dolls House /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Sam Kieth, Mike Dringenberg, Malcolm Jones III; Chris Bachalo; Michael Zulli; Steve Parkhouse; capa(s) Dave McKean; introdução Kelly DeConnick; prefácio e Envoi Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1989; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.

GAIMAN, Neil (1960- ); JONES, Kelley (1962- ); JONES III, Malcolm (1959-1996); VESS, Charles (1951- ) DORAN, Colleen (1963– ). Sandman / volume 3 / Terra de Sonhos / Dream Country /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Kelley Jones, Malcolm Jones III, Charles Vess, Colleen Dorancapa(s) Dave McKean; prefácio Steve Erickson; introdução Paul Dini; prefácio e roteiro de Calíope de Neil Gaiman; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1990; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.
GAIMAN, Neil (1960- ); JONES, Kelley (1962- ); JONES III, Malcolm (1959-1996); DRINGENBERG, Mike (1965- ); WAGNER, Matt (1961- ); DIORDANO, Dick (1932-2010); PRATT, George (1960- ); RUSSEL, P.Graig (1951- ). Sandman / volume 4 / Estação das Brumas / Seasons of Mists /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Kelley Jones, Malcolm Jones III, Mike Dringenberg, Matt Wagner, Dick Giordano, George Pratt, P.Gaig Russelcapa(s) Dave McKean; prefácio Harlan Ellison; introdução Patton Oswalt; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1991; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.
GAIMAN, Neil (1960- ); McMANUS, Shawn (1958- ); DORAN, Colleen (1963– )TALBOT, Bryan (1952- ); WOCH, Stan (1959- ). Sandman / volume 5 / Um Jogo de Você /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Shawn McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, Stan Wochcapa(s) Dave McKean; prefácio Samuel R.Delany; introdução Orlando Jones; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1992; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2020.
GAIMAN, Neil (1960- ); TALBOT, Bryan (1952- ); WOCH, Stan (1959- ); RUSSEL, P.Graig (1951- ); McMANUS, Shawn (1958- ); WATKISS, John (1961-2017); THOMPSON, Jill (1966- ); EAGLESON, Duncan (?- ); WILLIAMS, Kent (1962- ). Sandman / volume 6 / Fábulas e Reflexões / Fables & Reflections / edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Bryan Talbot, Stan Woch, P.Graig Russel, Shawn McManus, John Watkiss, Jill Thompson, Duncan Eagleson, Kent Williamscapa(s) Dave McKean; prefácio Gene Wolfe; introdução Clive Barker; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1992; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2020.
Em 1953, poucos anos depois da tentativa de atentado, Chtcheglov escreveu seu Formulário para um Novo Urbanismo¹.
 
Estamos entediados na cidade, não há mais qualquer Templo do Sol.
Uma doença mental tomou o planeta: a banalização. Todos estão hipnotizados pela produção e o conforto  sistema de esgotos, elevadores, banheiros, máquinas de lavar.
A escuridão e obscuridade foram banidas pela iluminação artificial, e as estações do ano, pelo ar-condicionado. A noite e o verão perdem seu charme e a aurora desaparece. A população urbana pensa que escapou da realidade cósmica, mas não há uma correspondente expansão de seus sonhos. A razão é óbvia: os sonhos surgem da realidade e se realizam nela.
[...]
Contra o atual estado das coisas, Chtcheglov aponta para um caminho de resistência: a deriva urbana (dérive urbaine), o deambular como ação política².
Guy Debord era um pouco mais velho que ele. Tinha 22 anos em 1953. E já era o líder de um dos tantos grupos da vanguarda parisiense: a Internacional Letrista, dissidência dos Letristas, que por sua vez eram uma dissidência dos Surrealistas. Debord, cujo tamanho do ego ainda hoje nos impressiona, rendeu-se a Chtcheglov. Viu nele uma espécie de profeta, um visionário, aquele que tem a chave, o guardião dos segredos das atitudes mais significativas... Enfim, Chtcheglov foi talvez a pessoa que Debord mais elogiou na vida, depois de si próprio. Durante um ano, entre 1953 e 1954, os dois foram inseparáveis. Debord incentivou Chtcheglov a desenvolver suas ideias, entusiasmou-se com suas derivas
pela cidade, e Chtcheglov fornece as bases para a evolução da Internacional Letrista para outra coisa, a Internacional Situacionista: a transformação de um movimento que queria revolucionar a arte para outro, mais ambicioso, que queria revolucionar a cidade e a vida. E ele que dá todas as bases da nova internacional, a sintese que lhes permite crer hoje em si mesmos, diz o escritor Patrick Straram, então membro do grupo.
Debord, entusiasmado, observa o amigo criar uma nova ciência: a psicogeografia. Em seu filme In girum imus nocte et consumimur igni (1978), enquanto a tela mostra uma foto de Chtcheglov, Debord relembra: “Mas como poderei esquecer aquele que veio em toda parte no ponto mais alto de nossas aventuras? Aquele que, nesses dias incertos, abriu uma nova estrada e avançou rápido por ela, escolhendo os que viriam. Ninguém se comparava a ele naquele ano. Parecia que bastava contemplar a cidade, contemplar a vida, para modificá-las. Em um só ano ele descobriu os motivos para as reivindicações de um século, conquistou as profundezas e os mistérios do espaço urbano”.
Em 1954, porém, Debord excluiu o amigo da Internacional Letrista, por “falta de consciência revolucionária” e excesso de problemas mentais (“mythomanie, délire, d’interprétation, manque de consciense révolutionnaire”). O problema é que, além de Debord gostar muito de expulsar membros por supostas manifestações de falta de espírito revolucionário (quando a Internacional Situacionista fechou as portas, tinha apenas três membros), talvez precisasse da ausência de Chtcheglov para desenvolver as ideias de Chtcheglov para além do ninho surrealista onde elas tinham nascido, transformando-as de poesia em teoria política.
Quando, em 1955, escreve o texto “Introduction à une critique de la géographie urbaine”, Debord atribuiu a criação do termo “psicogeografia” a um cabila analfabeto”, mas foi ele quem definiu pela primeira vez o conceito:
 
“O estudo dos efeitos específicos do ambiente geográfico, conscientemente organizado ou não, nas emoções e comportamento dos indivíduos.
O psicogeógrafo é aquele que pesquisa e transmite as realidades psicogeográficas”.4

Anos depois, Debord, com sua constante ambição de escapar ao mundo da arte e tornar-se uma espécie de líder revolucionário, irá trocar a psicogeografia pela crítica da sociedade do espetáculo”, uma teoria política com mais jeito de séria”, mais adequada para explicar o estágio atual do capitalismo. E, se o objetivo era passar a ser levado a sério, a troca foi bem sucedida. Hoje, para diversos grupos de acadêmicos, Debord ocupa alto posto no panteão dos grandes mestres do século xx. É quase um Adorno. “Ele foi o mais inovador marxista na Europa depois de 1945”, diz o cientista político Jan-Werner Müller.
Mas talvez seja esse “momento Chtcheglov” de Debord o mais rico em possibilidades. Inclusive para o ativismo político. Quando, em seu livro Future Tense: A New Art for the Nineties (Methuen, Londres, 1990), o historiador britânico Robert Newison sustenta que os situacionistas tiveram de fato influência no Maio de 1968 francês, diz que  “carros, árvores e mesas dos cafés foram détourned em barricadas... foi uma derivade ummês que reáesêobriu a psicogeografia revolucionária da cidade”.
“Enquanto as ideias situacionistas sobre o “espetáculo' e o detournement soam cada vez mais ingênuas, existem legítimos paralelos entre a psicogeografia e os movimentos políticos, genuinamente subversivos,contemporâneos”, escreve Alastair Bonnett, professor de geografia social e editor da revista inglesa Trangressions.“O que é sedutora respeito dessas explorações é que elas têm menos relação com a estética do extremismo e muito mais com as reais possibilidades da transformação social que abrem para nós”.
Assim, enquanto o termo “sociedade do espetáculo”, esvaziado de qualquer conteúdo crítico radical, foi incorporado ao discurso dos mais rasos comentaristas da televisão, a psicogeografia, mesmo sem ser nomeada, pode estar bem viva na forma, por exemplo, das ocupações das escolas brasileiras pelos secundaristas.
 
[...]
 
Mas a influência situacionista sobre o Reino Unido vai, é claro, além da cultura pop. E resultou, por exemplo, em um grupo bem mais punk que os Sex Pistols: o grupo guerrilheiro Angry Brigade, cujos integrantes, em parte inspirados em leituras do Sociedade do Espetáculo, resolveram, em 1970, fazer algo mais espetacular que manifestos ou discos de rock: lançaram bombas de verdade em bancos, nas embaixadas dos EUA e da Espanha (um dos integrantes do Angry Brigade chegou a ser preso em uma tentativa de assassinar o ditador Franco) em escritórios de companhias aéreas da Espanha e da África do Sul, em sedes do partido Conservador, postos policiais e até em um concurso de Miss Universo.8
 
[...] 

Rumney é uma dessas personagens fascinantes que sempre encontramos nas beiradas das histórias de revoluções. Quando jovem foi amigo do historiador marxista E.P.Thompson, dez anos mais velho. Thompson o abrigou em sua casa, quando Rumney fugiu do pai, um pastor anglicano furioso porque, além de pretender escapar do alistamento militar, o filho andava com livros do Marquês de Sade. Na Europa continental, conviveu com Georges Bataille, o pintor Yves Klein, William Burroughs, Marcel Duchamp, Félix Guattari... Ora estava em Paris, ora em Milão, ou Veneza ou novamente em Londres, ou na pequena ilha de Linosa, no sul da Itália. Casou-se com uma herdeira milionária, Pegeen Guggenheim (filha de Peggy Guggenheim), mas anos depois estava trabalhando como telefonista em Londres. O escritor e artista plástico Guy Atkins diz que o amigo vivia entre a penúria e a mais absurda riqueza. Uma hora estava dividindo um quarto miserável com desempregados em uma rua pobre de Londres, em outra o encontrávamos no Harrys Bar em Veneza, ou em uma vernissage de uma exposição de Max Ernst em Paris.
No obituário de Rumney que escreveu para o The Guardian, Malcolm Imrie resume: uma vida de permanente aventura e eterna experimentação. Seu apelido era Consul, inspirado no enlouquecido protagonista de Sob a Sombra do Vulcão
9, que vai ao extremo mortal da bebedeira num Dia dos Mortos de uma pequena cidade mexicana. O Consul, o gentil estrangeiro. Sire, je suis de lautre pays (Majestade, eu sou de outro país) é a epígrafe do famoso texto de Chtcheglov. Rumney era um estrangeiro, outsider, um nômade, um psicogeógrafo.
Rumney diz que inventou a London Psychogeography Committee em uma das bêbadas reuniões preparatórias da conferência de Cosio dArroscia, como uma brincadeira, para dar a impressão que a Interna- cional Situacionista era de fato uma grande organização com base em vários países. Mas, retrospectivamente, o nome não poderia ser mais adequado: foi na Grã-Bretanha que a psicogeografia mais se desenvolveu nas décadas seguintes. Talvez porque fosse um conceito de "agradável imprecisão", como precisado por Debord (assez plaisant vague), foi flexível o bastante para se fundir a tradições locais. Debord, em um texto que escreveu originalmente para ser o prefácio do relatório psi- cogeográfico de Rumney, chega mesmo a localizar a invenção da psicogeografia em Londres, mais especificamente no livro Confissões de um Comedor de Ópio (1821), de Thomas de Quincey:
 
A história de amor entre Thomas de Quincey e a pobre Ann10  que são separados pelo acaso e tentam em vão encontrar um ao outro dentro do imenso labirinto formado pelas ruas de Londres, talvez a poucos passos de distância  marca o momento histórico da descoberta das influências psicogeográficas sobre os movimentos da paixão humana e a importância desse momento só pode ser comparada à lenda de Tristão, que registra a verdadeira formação do conceito amor-paixão.

O IV Congresso da Internacional Situacionista, em 1960, aconteceu no Limehouse, leste de Londres, quartier célèbre par ses criminels, escreve Debord, encantado com a escolha psicogeográfica.
 
[...]

Mas em 1975, mesmo ano em que os Sex Pistols fizeram sua estreia, as livrarias britânicas receberam Lud Heat, no qual o escritor Iain Sinclair desenvolve, em forma de poema, a ideia de que as igrejas londrinas proje- tadas pelo arquiteto Nicholas Hawksmoor (1661-1736) criam um ambiente de malevolência que leva a crimes violentos. Hoje, Sinclair é celebrado pela respeitável crítica literária como um dos maiores escritores britânicos contemporâneos
11. Mas ele é muito mais importante que isso: Sinclair reinventou a psicogeografia inglesa com Lud Heat e sua obra posterior.
A psicogeografia de Londres deve quase tudo a Iain Sinclair, diz Phil Baker
12, para quem o autor se apoia menos em Guy Debord que no esoterismo liberado pelo movimento hippie. Os anos 1960 viram a ressurgência do interesse na vida rural, na supostamente antiga mitologia da terra e na geometria sagrada. Para Merlin Coverley, Sinclair funde o ocultismo paranoico com a investigação histórica em um novo formato que dispensa completamente a teoria situacionista em favor de um retorno a antigas tradições literárias e esotéricas13. Acho que Coverley exagera nesse completamente (completely). Primeiro porque Sinclair é um leitor de Guy Debord e dos situacionistas. Segundo porque a produção destes deixa claro a ligação deles com tradições literárias e até mesmo, algumas vezes, senão com o esoterismo pelo menos com certo misticismo, mesmo que de maneira crítica14. Mas, de fato, Sinclair parece levar a magia bem a sério. Até como arma de contra-ataque na guerra contra bruxas como a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher: só se pode entender Thatcher em termos de magia ruim. Essa bruxa perversa concentrou toda a crueldade existente na sociedade. A única maneira de entendê-la é percebendo que estava demoniacamente possuída pelas forças maléficas do mundo da política (...). Ela se tornou a divindade daqueles que querem destruir o poder da cidade. Uma divindade criada por um sistema que a destruiu, como sempre acontece (...). Mas permanece o fato que ela introduziu o ocultismo na política britânica e o papel do escritor é se contrapor a essa cultura política.15
Sinclair define sua psicogeografia como a crença de que algo que aconteceu em um lugar afeta permanentemente esse lugar. E parece citar Chtcheglov quando diz para mim, é a maneira de fazer a psicanálise da psicose de um lugar no qual eu vivo.
Com ele, a palavra psicogeografia entrou na moda no mundo literário inglês (o escritor Will Self até criou uma coluna com esse nome para uma revista de bordo!), ao ponto de Sinclair desistir de usá-la: Se tornou uma marca comercial nojenta. Nos últimos anos, prefere então falar em geografia psicótica ou topografia profunda. Para ele, a palavra psicogeografia tinha relevância quando usada agressivamente pelos situacionistas ou quase satiricamente por Stewart Home, contracultural brasileiro deste século. Home fez parte do grupo que, autor de Assalto à Cultura, livro que tanta influência teve no ativismo no início dos anos 1990, ressuscitou o London Psychogeographical Committee, agora com o nome London Psychogeographical Association. Karen Elliot, Luther Blissette Bob Jones, nomes dos personagens da HQ Tarde demais, de Home e Jonathan Edwards, são exemplos de nomes múltiplosidentidades coletivas inventadas, nomes pessoais usados coletivamente por grupos de vanguarda a partir dos anos 1970. Deles, o mais famoso foi Luther Blissett, que assinou várias ações de guerrilha cultural na Europa e até no Brasil, e também best-sellers como Q  O Caçador de Hereges e 5416. Blissett foi responsável pela criação da Associazione Psicogeografica di Bologna.
No final dos anos 1980, depois de fazer Watchmen, Alan Moore queria estar tão longe quanto o possível dos gibis de super-heróis. Naquele mo- mento, inspirado na Teoria do Caos, escrevia Big Numbers, a respeito das consequências da construção de um shopping center em uma cidade do interior da Inglaterra. Foi quando ele ganhou um presente de um amigo:

Neil Gaiman me enviou a cópia do extraordinário Lud Heat, de Iain. Aquilo catalisou algo dentro de mim. Eu já estava preocupado com a questão do ambiente urbano, particularmente o ambiente em que vivia, mas a abordagem do conceito por Iain em Lud Heat e em seu trabalho subsequente era extraordinário. Deu-me um foco, um rumo, que eu não sei, e provavelmente nunca vou saber, se conseguiria atingir sozinho17.

Alan Moore retomou a teoria de Sinclair a respeito do arquiteto Nicholas Hawksmoor, usou a psicogeografia para seguir as pistas do Jack, o Estripador18 e escreveu aquela que talvez seja sua obra-prima: Do Inferno. E a psicogeografia é uma chave indispensável para entender o que ele produziu de mais importante depois disso, como os livros Voz do Fogo e Jerusalém.
Durante a produção de Do Inferno, Alan Moore tornou-se amigo de Iain Sinclair e chegou a participar do filme The Cardinal and the Corpse, escrito por Sinclair e dirigido por Chris Petit (do cultuado filme Radio On, de 1979).
 
[...]
 
Mas, usando ou não os métodos psicogeográficos, os autores deste livro têm todos a ambição de retratar uma Londres não só distante daquela turística, mas uma que a própria cidade tenta esconder de si. Neste sentido, A Vida Secreta de Londres é um guia da capital inglesa. Não um guia de lugares onde tirar selfies ou a respeito dos quais nos vangloriamos de conhecer em nossas conversas com amigos descolados. Mas um guia das entranhas da cidade.
 
 
1 Chtcheglov assina o texto com um pseudônimo: Gilles Ivain.
2 Dez anos depois, na clinica psiquiátrica na qual estava internado, Chtcheglov escreveu
uma carta para a revista da Internacional Situacionista na qual aprofunda sua ideiaa deriva (com seu fluxo de atos, gestos, passeios e encontros) é para a totalidade exatamente o que a (boa) psicanálise é para a linguagemSiga com seu fluxo de palavras, diz o psicanalista. Ele ouve até o momento no qual rejeita ou modifica (alguém
pode dizer que détourne) uma palavra, uma expressão ou uma definição. A deriva é certamente uma técnica, quase terapéuticaLettres de loin”, Internationale Situationniste n°9, agosto de 1964 (Librairie Arthème Fayard, 1997). O détournement (desvio”, “o dar outro sentido para mencionado por Chtcheglov torna-se a ferramenta favorita dos situacionistas.
3 Conforme citado em Ivan Chicheglov, Profil perdu, de Jean Marie Apostolidis e Boris Donné (Allia, Paris, 2006).
4 De lá para cá, a psicogeografia recebeu centenas de outras definições. Minha preferida talvez seja a do situacionista dinamarquês Asger Jorné a ficção científica do urbanismo”. 
8Were not beautiful, were not ugly”, dizia o slogan.
9 Romance do inglês Malcolm Lowry publicado em 1947. Foi filmado em 1984 por John Houston.
10 Aos 17 anos, o menino rico Thomas de Quincey fugiu do colégio de elite e foi passar fome nas ruas de Londres. Encontrou Ann, uma prostituta de 15 anos, que o protegeu e o alimentou. De Quincey, então, viajou para ver se arrumava algum dinheiro emprestado e quando voltou Ann havia desaparecido. Todas as suas buscas foram em vão e De Quincey passou o resto da vida lamentando o desaparecimento da amiga.
11 Sinclair é o mago demente da frase, diz James Woods, da The New Yorker. Ele supera qualquer escritor da Inglaterra, segundo James WalshSua mistura de mitologia, literatura e atenta análise social combina George Orwell e Ezra Pound, diz o escritor Michael Moorcock.
12 Em Secret City: Psychogeography and the End of London, do livro London from Punk to Blair (Reaktion Books, Londres, 2003).
13 Psychogeography, de Merlin Coverley (Oldcastle Books, Harpenden, 2006).
14 Chtcheglov escreve com um furor que bem pode ser chamado de místico. E é interessante lembrar que Raoul Vaneigem tornou-se um grande especialista da história das heresias cristãs.
15 Entrevista para o jornal The Guardian, em abril de 2004. 
16 Ambos publicados no Brasil pela editora Conrad. Tanto Luther Blissett quanto Stewart Home foram importantes conselheiros em nosso trabalho na coleção Baderna, pela qual sairam dois livros deles: Guerrilha Psíquica, de Blissett, e Manifestos Neoístas e Greve da Arte, de Home.
17 Entrevista realizada por Nick Talbot em junho de 2014 para o site The Quietus.
18 Aliás, é interessante lembrar que Guy Debord tinha grande interesse na figura do Jack lÉventreur. 
prefácio de Rogério de Campos

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