[...]
[N 9, 1]
Um método científico se distingue pelo lato de, ao encontrar novos objetos, desenvolver “dos novos nétodos — exatamente como a forma na arte que. ao condutor a novos conteúdos, desenvolve novas formas. Apenas exteriormente urma obra de arte tem uma e somente uma forma, e um tratado científico tem um e somente um método.
[N 9, 2]
[...]
É bom dar uma conclusão não-aguçada a pesquisas materialistas.
[N 9a, 2]
Da salvação faz parte a apreensão firme, aparentemente brutal.
[N 9a, 3]
A imagem dialética é aquela forma do objeto histórico que satisfaz às exigências de Goethe para o objeto de uma análise: revelar uma síntese autêntica. É o fenômeno originário da história.
[N 9a, 4]
[...]
O materialismo histórico precisa renunciar ao elemento épico da história. Ele arranca, por uma explosão [sprengt ab], a época da “continuidade da história” reificada. Mas ele faz explodir [sprengt auf] também a homogeneidade dessa época, impregnando-a com ecrasita, isto é, com o presente.16
[N 9a, 6]
[...]
Para o historiador materialista, cada época com a qual ele se ocupa é apenas a história anterior da época que lhe interessa. Por isso mesmo, não existe para ele a aparência da repetição na história, uma vez que precisamente os momentos do curso da história que mais lhe importam tornam-se eles mesmos — em virtude de seu índice como “historia anterior” — momentos do presente, mudando seu próprio caráter conforme a definição catastrófica ou triunfante desse presente.
[N 9a, 8]
O progresso científico — assim como o progresso histórico — é sempre apenas o primeiro passo, nunca o segundo, terceiro ou enésimo + 1 — supondo que estes últimos pertençam não apenas ao exercício da ciência, mas também a seu corpus. Na verdade, porém, não é esse o caso, uma vez que cada etapa do processo dialético (como cada etapa no processo da própria história), por mais que seja condicionada pelos estágios precedentes, coloca em jogo uma tendência fundamentalmente nova, que exige um tratamento fundamentalmente novo. Portanto, o método dialético se distingue pelo fato de, ao encontrar novos objetos, desenvolver novos métodos — exatamente como a forma na arte que, ao conduzir a novos conteúdos, desenvolve novas formas. Apenas exteriormente uma obra de arte tem uma e somente uma forma, e um tratado dialético tem um e somente um método.
[N 10, 1]
Definições de conceitos históricos básicos: a catástrofe — ter perdido a oportunidade; o momento crítico — a ameaça de o status quo ser mantido; o progresso — a primeira medida revolucionária.
[N 10, 2]
Que o objeto da história seja arrancado, por uma explosão, do continuum do curso da história é uma exigência de sua estrutura monadológica. Esta torna-se visível apenas no próprio objeto arrancado. E isso ocorre sob a forma da confrontação histórica que constitui o interior (e, por assim dizer, as entranhas) do objeto histórico e da qual participam em uma escala reduzida todas as forças e interesses históricos. Graças a sua estrutura monadológica, o objeto histórico encontra representada em seu interior sua própria história anterior e posterior. (Assim, por exemplo, a história anterior de Baudelaire, conforme apresentado nesta pesquisa, encontra-se na alegoria, e sua história posterior, no Jugendstil)
[N 10, 3]
[...]
0 momento destrutivo ou crítico na historiografia materialista se manifesta através do fazer explodir a continuidade histórica; é assim que se constitui o objeto histórico. De fato, dentro do curso contínuo da história não é possível visar um objeto histórico. Tanto assim a historiografia, desde sempre, simplesmente selecionou um objeto desse curso contínuo. Mas isso ocorria sem um princípio, como expediente; e sua primeira preocupação sempre era a de reinserir o objeto no continuum que ela recriava através da empatia. A historiografia materialista não escolhe aleatoriamente seus objetos. Ela não os toma, e sim os arranca, por uma explosão, do curso da história. Seus procedimentos são mais abrangentes, seus acontecimentos mais essenciais.[N 10a, 1]
[Pois] O momento destrutivo na historiografia materialista deve ser entendido como reação a numa constelação de perigos que ameaça tanto o objeto da tradição quanto seus destinatários.17 É com esta constelação de perigos que se confronta a historiografia materialista; é neste confronto que reside sua atualidade; é neste instante que ela tem que sua presença de espírito. Uma tal apresentação da história tem por objetivo, para falar como Engels, “ultrapassar o domínio do pensamento”.[N 10a, 2]
Ao pensamento pertencem tanto o movimento quanto a imobilização dos pensamentos. Onde ele se imobiliza numa constelação saturada de tensões, aparece a imagem dialética. Ela é a cesura no movimento do pensamento. Naturalmente, seu lugar nao é arbritrário. Em uma palavra, ela deve ser procurada onde a tensão entre os opostos dialéticos é a maior possível. Assim, o objeto construído na apresentação materialista da história é ele mesmo uma imagem dialética. Ela é idêntica ao objeto histórico e justifica seu arrancamento do continuum da história.
[N 10a, 3]
A forma arcaica da história primeva, que é evocada em qualquer época, e agora, mais uma vez, por Jung, é aquela que torna a aparência na história ainda mais ofuscante ao designar-lhe a natureza como pátria.[N 11, 1]
Escrever a história significa dar às datas a sua fisionomia.
[N 11, 2]
Os acontecimentos que cercam o historiador, e dos quais ele mesmo participa, estarão na base de sua apresentação como um texto escrito com tinta invisível. A história que ele submete ao leitor constitui, por assim dizer, as citações deste texto, e somente elas se apresentam de uma maneira legível para todos. Escrever a história significa, portanto, citar a história. Ora, no conceito de citação está implícito que o objeto histórico em questão seja arrancado de seu contexto.
[N 11, 3]
Sobre a doutrina elementar do materialismo histórico. 1) Um objeto da história é aquele em que o conhecimento se realiza como sua salvação. 2) A história se decompõe em imagens, não em histórias. 3) Onde se realiza um processo dialético, estamos lidando com uma mônada. 4) A apresentação materialista da história traz consigo uma crítica imanente do conceito de progresso. 5) O materialismo histórico baseia seu procedimento na experiência, no bom senso, na presença de espírito e na dialética. (Sobre mônadas ver N 10a, 3)
[N 11, 4]
O presente determina no objeto do passado o ponto onde divergem sua história anterior e sua história posterior, a fim de circunscrever seu núcleo.
[N 11, 5]
Demonstrar por meio de exemplos que a grande filologia relativa aos escritos do século passado não pode ser praticada senão pelo marxismo.
[N 11, 6]
“As primeiras regiões que se tornaram esclarecidas não são aquelas em que elas [as ciências] tiveram maior progresso.” Turgot, Œuvres, vol. II, Paris, 1844, pp. 601-602. (“Second discours sur les progrès successifs de l’esprit humain”) (1750). Este pensamento desempenha um papel na literatura posterior, e também em Marx.
[N 11, 7]
No decorrer do século XIX, quando a burguesia consolidou sua posição de poder, o conceito de progresso foi perdendo cada vez mais as funções críticas que originalmente possuía. (A doutrina da seleção natural teve uma importância decisiva neste processo: com ela fortaleceu-se a opinião de que o progresso se realiza automaticamente. Ademais, ela favoreceu a extensão do conceito de progresso a todos os domínios da atividade humana.) Em Turgot. o conceito de progresso ainda tinha funções críticas. Isso permitiu sobretudo chamar a atenção das pessoas para os movimentos regressivos da história. E significativo que Turgot considerava o progresso garantido sobretudo no domínio das pesquisas matemáticas.
[N 11a, 1]
[...]
Existe ainda um limes [limite] do progresso em Turgot: “Nos últimos tempos ... era preciso «somar, pela reflexão, ao ponto onde os primeiros homens haviam sido conduzidos por um instinto cego; e quem sabe não seria este o supremo esforço da razão?” Turgot, op. cit., p. 610.18 Em Marx ainda existe este limes; mais tarde ele se perde.
[N 11 a, 3]
[...]
Concepção militante do progresso: “Não é o erro que se opõe ao progresso da verdade, mas a indolência, a teimosia, o espírito de rotina, tudo o que leva à inatividade. O progresso mesmo das artes mais pacíficas entre os povos antigos da Grécia e suas repúblicas era entremeado de guerras contínuas. Estavam ali como os judeus, construindo os muros de Jerusalém com uma mão e combatendo com a outra. Os espíritos estavam sempre em atividade, a coragem sempre excitada; as luzes do pensamento cresciam a cada dia.” Turgot, CEuvres, vol. II, Paris, 1844, p. 672 (“Pensées et fragments”).
[N 12, 3]
16 Cf. a tese XVII de W. Benjamin, “Über den Begriff der Geschichte”, GS I, 703: Teses, p. 130. (w.b.)
17 Cf. a tese VI de W. Benjamin, “Über den Begríff der Geschichte", GS I, 695; Teses, p. 65. (w.b.)
18 Os tradutores americanos corrigiram a transcrição de Benjamin,
verificando o texto de Turgot. Em lugar de “era preciso retornar, pela perfeição”, eles colocam “era preciso retornar, pela reflexão”. De fato, esta versão é mais plausível e foi aqui adotada, (w.b.; grifos meus)
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

Nenhum comentário:
Postar um comentário