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24.1.26

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira

Quadros Parisienses
 
LXXXVII 
 
Le soleil

Le long du vieux faubourg, où pendent aux masures
Les persiennes, abri des secrètes luxures,
Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés
Sur la ville et les champs, sur les toits et les blés,
Je vais m’exercer seul à ma fantasque escrime,
Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,
Trébuchant sur les mots comme sur les pavés,
Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés.
 
Ce père nourricier, ennemi des chloroses,
Éveille dans les champs les vers comme les roses;
Il fait s’évaporer les soucis vers le ciel,
Et remplit les cerveaux et les ruches de miel.
C’est lui qui rajeunit les porteurs de béquilles
Et les rends gais et doux comme des jeunes filles,
Et commande aux moissons de croître et de mûrir
Dans le cœur immortel qui toujours veut fleurir! 
 
Quand, ainsi qu’un poëte, il descend dans les villes,
Il ennoblit le sort des choses les plus viles,
Et s’introduit en roi, sans bruit et sans valets,
Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais. 
 
 
O sol

Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros
Persianas acobertam beijos sorrateiros,
Quando o impiedoso sol arroja seus punhais
Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,
Exercerei a sós a minha estranha esgrima,
Buscando em cada canto os acasos da rima,
Tropeçando em palavras como nas calçadas,
Topando imagens desde há muito já sonhadas.

Este pai generoso, avesso à tez morbosa,
No campo acorda tanto o verme quanto a rosa;
Ele dissolve a inquietação no azul do céu,
E cada cérebro ou colmeia enche de mel.
É ele quem remoça os que já não se movem
E os torna doces e febris qual uma jovem,
Ordenando depois que amadureça a messe
No eterno coração que sempre refloresce!

Quando às cidades ele vai, tal como um poeta,
Eis que redime até a coisa mais abjeta,
E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,
Quer os palácios, quer os tristes hospitais. 
 
LXXXVIII 
 
A UMA MENDIGA RUIVA

Moça de ruivo cabelo,

Cuja roupa em demazelo

Deixa ver tanto a pobreza

Quanto a beleza,

 

Para mim, poeta sem viço,

Teu jovem corpo enfermiço,

Cheio de sardas e agruras,

Tem só doçuras.

 

Calças com pés mais ligeiros

Os teus tamancos grosseiros

Do que essas damas tão finas

Suas botinas.

 

Em lugar de exíguo andrajo

Que te envolva um régio trajo

Das espáduas singulares

Aos calcanhares;

 

Em vez da meia em pedaços,

Que aos olhares dos devassos

Te brilhe à perna o tesouro

De um punhal de ouro;

 

Que laços pouco apertados

Mostrem aos nossos pecados

Teus seios por entre os folhos

Como dois olhos;

 

E que para desnudar-te

Teus braços com lábia e arte,

Sustem golpes vivazes

Dedos audazes,

 

Corais de oceanos secretos

E de Belleau os sonetos

Por teus amantes rendidos

Oferecidos,

 

Escória de rimadores

A consagrar-te louvores

E a perseguir-te as passadas

Sob as escadas,

 

Muito servo ébrio de amor,

Muito Ronsard e senhor

Rondariam o postigo

De teu abrigo!

 

Em teu leito contarias

Menos lírios do que orgias

E a teus pés mais de um Valois

Sempre haverá

 

– Contudo vais mendigando

A sombra que foi fincando

Por um Véfour atirada

À encruzilhada;

 

Olhas de esguelha e sem jeito

Jóias de brilho suspeito

Que não posso (hás de perdoar!)

Jamais te dar.

 

Segue, pois, nua de tudo

– Pérola, incenso, veludo –,

Só de teu corpo vestida,

Minha querida!

BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

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