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28.1.26

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira

O Vinho
 
CV
 
O vinho dos trapeiros

Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,
Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,
Num antigo arrabalde, informe labirinto,
Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,

Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,
Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,
E, alheio aos guardas e alcaguetes mais abjetos,
Abrir seu coração em gloriosos projetos.

Juramentos profere e dita leis sublimes,
Derruba os maus, perdoa as vitímas dos crimes,
E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,
Embriaga-se na luz de seu talento imenso.

Toda essa gente afeita às aflições caseiras,
Derreada pela idade e farta de canseiras,
Trôpega e curva ao peso atroz do asco infinito,
Vômito escuro de um Paris enorme e aflito,
 
Retorna, a trescalar do vinho as escorralhas,
Junto aos comparsas fatigados das batalhas,
Os bigodes lembrando insígnias espectrais.
Os estandartes, os pendões e arcos triunfais

Erguem-se ante essa gente, ó solene magia!
E na ensurdecedora e luminosa orgia
Dos gritos, dos clarins, do sol e do tambor,
Trazem eles a glória ao povo ébrio de amor!

Assim é que através da ingênua raça humana
O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;
Pela garganta do homem canta ele os seus feitos
E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.

E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo,
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado! 
 
CVI
 
Le vin de l’assassin

Ma femme est morte, je suis libre!
Je puis donc boire tout mon soûl.
Lorsque je rentrais sans un sou,
Ses cris me déchiraient la fibre. 
 
Autant qu’un roi je suis heureux;
L’air est pur, le ciel admirable...
Nous avions un été semblable
Lorsque j’en devins amoureux!

L’horrible soif qui me déchire
Aurait besoin pour s’assouvir
D’autant de vin qu’en peut tenir
Son tombeau; — ce n’est pas peu dire:

Je l’ai jetée au fond d’un puits,
Et j’ai même poussé sur elle
Tous les pavés de la margelle.
— Je l’oublierai si je le puis!

Au nom des serments de tendresse,
Dont rien ne peut nous délier,
Et pour nous réconcilier
Comme au beau temps de notre ivresse,

J’implorai d’elle un rendez-vous,
Le soir, sur une route obscure.
Elle y vint! — folle créature!
Nous sommes tous plus ou moins fous!

Elle était encore jolie,
Quoique bien fatiguée! Et moi,
Je l’aimais trop! voilà pourquoi
Je lui dis: Sors de cette vie!

Nul ne peut me comprendre. Un seul
Parmi ces ivrognes stupides
Songea-t-il dans ses nuits morbides
A faire du vin un linceul? 
 
Cette crapule invulnérable
Comme les machines de fer
Jamais, ni l’été ni l’hiver,
N’a connu l’amour véritable,

Avec ses noirs enchantements,
Son cortège infernal d’alarmes,
Ses fioles de poison, ses larmes,
Ses bruits de chaîne et d’ossements!

— Me voilà libre et solitaire!
Je serai ce soir ivre mort;
Alors, sans peur et sans remord,
Je me coucherai sur la terre,

Et je dormirai comme un chien!
Le chariot aux lourdes roues
Chargé de pierres et de boues,
Le wagon enragé peut bien

Écraser ma tête coupable
Ou me couper par le milieu,
Je m’en moque comme de Dieu,
Du Diable ou de la Sainte Table! 
 
O vinho do assassino

Livre, afinal! ela está morta!
Posso beber o tempo inteiro.
Quando eu voltava sem dinheiro,
Se ouviam gritos logo à porta. 
 
Sou tão feliz quanto é um rei;
O ar é puro, o céu adorável...
Era um verão incomparável
Quando por ela me encantei!

A sede atroz que me põe louco
Para saciá-la exigiria
O que de vinho caberia
Em sua tumba. E não é pouco:

Atirei-a ao fundo de um poço,
E eu mesmo pus, para cobri-la,
De suas bordas toda a argila.
— Hei de esquecê-la, se é que posso!

Em nome das eternas juras,
Pois nada nos pode afastar,
E para nos reconciliar
Como no tempo das venturas,

Eu lhe implorei uma entrevista,
À noite, numa estrada escura.
Ela veio! — a louca criatura!
Talvez em nós um louco exista!

Ela era então ainda garrida,
Embora exausta e já sem viço!
Quanto eu a amava! e foi por isso
Que lhe ordenei: Sai desta vida!

Ninguém me entende. Algum canalha,
Dentre esses ébrios enfadonhos,
Conceberia em seus maus sonhos
Fazer do vinho uma mortalha? 
 
Essa devassa indiferente,
Como qualquer engenho hodierno,
Jamais, no verão ou no inverno,
Sentiu do amor o apelo ardente,

Com suas negras seduções,
Seu cortejo infernal de horrores,
Seus venenos e dissabores,
Seus timbres de ossos e grilhões!

— Eis-me liberto e a sós comigo!
Serei à noite um ébrio morto;
Sem nenhum medo ou desconforto,
Farei da terra o meu abrigo,

E ali dormirei como um cão!
Podem as rodas da carroça,
Cheia de entulho e lama grossa,
Ou um colérico vagão

Esmagar-me a fronte culpada
Ou cortar-me ao meio, que ao cabo
Eu zombo de tudo, do Diabo,
De Deus ou da Ceia Sagrada! 
 
CVIII
 
Le vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture,
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,
 
Ma sœur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves! 
 
O vinho dos amantes
 
O espaço hoje esplende de vida!
Livres de esporas, freio ou brida,
Cavalguemos no vinho: adiante
Se abre um céu puro e fulgurante!
 
Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura,
No límpido azul da paisagem
Sigamos a fugaz miragem!
 
Embalados no íntimo anelo
De um lúcido e febril afã,
Qual num delírio paralelo,
 
Lado a lado nadando, irmã,
Chegaremos enfim, risonhos,
Ao paraíso de meus sonhos! 
 
Fleurs du mal
 
CIX
 
La destruction

Sans cesse à mes côtés s’agite le Démon;
Il nage autour de moi comme un air impalpable;
Je l’avale et le sens qui brûle mon poumon
Et l’emplit d’un désir éternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l’Art,
La forme de la plus séduisante des femmes,
Et, sous de spécieux prétextes de cafard,
Accoutume ma lèvre à des philtres infâmes.

Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,
Haletant et brisé de fatigue, au milieu
Des plaines de l’Ennui, profondes et désertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion
Des vêtements souillés, des blessures ouvertes,
Et l’appareil sanglant de la Destruction! 
 
A destruição

Sem cessar a meu lado o Demônio se agita,
E nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
Inflando-os de um desejo eterno e condenável.

Às vezes, ao saber do amor que a arte me inspira,
Assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
E, qual tartufo afeito às tramas da mentira,
Acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.

Ele assim me conduz, alquebrado e ofegante,
10 Já dos olhos de Deus afinal tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas,

E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
— O aparato sangrento e atroz da Destruição! 
 
CXI
 
Femmes damnées
 
Comme un bétail pensif sur le sable couchées, 
Elles tournent leurs yeux vers l’horizon des mers, 
Et leurs pieds se cherchent et leurs mains rapprochées 
Ont de douces langueurs et des frissons amers. 
 
Les unes, cœurs épris des longues confidences, 
Dans le fond des bosquets où jasent les ruisseaux, 
Vont épelant l’amour des craintives enfances 
Et creusent le bois vert des jeunes arbrisseaux; 
 
D’autres, comme des soeurs, marchent lentes et graves 
A travers les rochers pleins d’apparitions, 
Où saint Antoine a vu surgir comme des laves 
Les seins nus et pourprés de ses tentations; 
 
II en est, aux lueurs des résines croulantes, 
Qui dans le creux muet des vieux antres païens 
T’appellent au secours de leurs fièvres hurlantes, 
O Bacchus, endormeur des remords anciens! 
 
Et d’autres, dont la gorge aime les scapulaires, 
Qui, recélant un fouet sous leurs longs vêtements, 
Mêlent, dans le bois sombre et les nuits solitaires, 
L’écume du plaisir aux larmes des tourments. 
 
O vierges, ô démons, ô monstres, ô martyres, 
De la réalité grands esprits contempteurs, 
Chercheuses d’infini dévotes et satyres, 
Tantôt pleines de cris, tantôt pleines de pleurs,

Vous que dans votre enfer mon âme a poursuivies, 
Pauvres soeurs, je vous aime autant que je vous plains, 
Pour vos mornes douleurs, vos soifs inassouvies, 
Et les urnes d’amour dont vos grands cœurs sont pleins! 
 
Mulheres malditas
 
Como um rebanho absorto e na areia deitadas,
Elas volvem o olhar para o espelho das águas; 
Os pés em mudo afago e as mãos entrelaçadas, 
Bebem o fel do calafrio e o mel das mágoas.
 
Umas, o coração abrindo em confidências, 
Nos bosques onde se ouve um córrego em segredo, 
Vão soletrando o amor em cândidas cadências 
E o pólen raspam aos rebentos do arvoredo;
 
Outras, tais como irmãs, andam lentas e cavas 
Por entre as rochas apinhadas de ilusões, 
Onde viu Santo Antônio aflorar como lavas 
Os rubros seios nus de suas tentações;
 
Outras há que, ao calor da líquida resina, 
No côncavo sem voz de um velho antro pagão 
Pedem por ti em meio à febre que alucina, 
Ó Baco, ao pé de quem dorme toda a aflição!
 
E outras, que adoram pôr ao colo escapulários 
E que, escondendo sob as vestes um cilício, 
Juntam à noite, pelos bosques solitários, 
A espuma do prazer ao gume do suplício.
 
Ó monstros, ó vestais, ó mártires sombrias, 
Espírito nos quais o real sucumbe aos mitos, 
Vós que buscais o além, na prece e nas orgias, 
Ora cheias de pranto, ora cheias de gritos,
 
Vós que minha alma perseguiu em vosso inferno, 
Pobres irmãs, eu vos renego e vos aceito, 
Por vossa triste dor, vosso desejo eterno, 
Pelas urnas de amor que inundam vosso peito! 
 
CXII
 
Les deux bonnes sœurs

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

Au poëte sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.

Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes sœurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs. 
 
Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
O Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès?
 
As duas boas irmãs

A Orgia e a Morte são duas jovens graciosas,
Fartas de beijos e de frêmito incontido,
Cujo ventre engastado em ancas andrajosas
Jamais logrou um fruto em si ter concebido.

Ao poeta infausto, hostil às famílias virtuosas,
Favorito do inferno e cortesão falido,
Caves e tumbas oferecem, generosas,
Um leito em que o pesar jamais foi recebido.

A sepultura e a alcova, em blasfêmias fecundas,
Nos dão de quando em vez, como boas irmãs,
Os prazeres do horror e as carícias malsãs. 
 
Hás de enterrar-me, Orgia, em tuas covas fundas?
Quando virás, ó Morte, envolta em negras vestes,
Sobre os mirtos em flor plantar os teus ciprestes?
 
CXIII
 
La fontaine de sang

Il me semble parfois que mon sang coule à flots,
Ainsi qu’une fontaine aux rhythmiques sanglots.
Je l’entends bien qui coule avec un long murmure,
Mais je me tâte en vain pour trouver la blessure.

A travers la cité, comme dans un champ clos,
Il s’en va, transformant les pavés en îlots,
Désaltérant la soif de chaque créature,
Et partout colorant en rouge la nature.

J’ai demandé souvent à des vins captieux
D’endormir pour un jour la terreur qui me mine;
Le vin rend l’œil plus clair et l’oreille plus fine!

J’ai cherché dans l’amour un sommeil oublieux;
Mais l’amour n’est pour moi qu’un matelas d’aiguilles
Fait pour donner à boire à ces cruelles filles! 
 
A fonte de sangue

Sinto por vezes que meu sangue corre em fluxos,
Assim qual uma fonte em rítmicos soluços.
Eu bem que o escuto numa súplica perdida,
Mas me tateio em vão em busca da ferida.

Pela cidade vai, como entre espessos buxos,
As lajes transformando em ilhas e repuxos,
Matando a sede em cada boca ressequida
E a paisagem deixando em púrpura tingida.

Muitas vezes pedi a um vinho caviloso
10 Aplacar por um dia o horror que me domina;
O vinho aguça o ouvido e os olhos ilumina!

Busquei então no amor um sono descuidoso;
Mas o amor para mim é um leito de suplício
Que a sede há de saciar a essas ninfas do vício! 
 
CXIV
 
Allégorie

C’est une femme belle et de riche encolure,
Qui laisse dans son vin traîner sa chevelure.
Les griffes de l’amour, les poisons du tripot,
Tout glisse et tout s’émousse au granit de sa peau.
Elle rit à la Mort et nargue la Débauche,
Ces monstres dont la main, qui toujours gratte et fauche,
Dans ses jeux destructeurs a pourtant respecté
De ce corps ferme et droit la rude majesté.
Elle marche en déesse et repose en sultane;
Elle a dans le plaisir la foi mahométane,
Et dans ses bras ouverts, que remplissent ses seins,
Elle appelle des yeux la race des humains.
Elle croit, elle sait, cette vierge inféconde
Et pourtant nécessaire à la marche du monde,
Que la beauté du corps est un sublime don
Qui de toute infamie arrache le pardon.
Elle ignore l’Enfer comme le Purgatoire,
Et quand l’heure viendra d’entrer dans la Nuit noire,
Elle regardera la face de la Mort,
Ainsi qu’un nouveau-né, — sans haine et sans remord. 
 
Alegoria

É uma bela mulher, de aparência altaneira,
Que deixa mergulhar no vinho a cabeleira.
As tenazes do amor, os venenos da intriga,
Nada a epiderme de granito lhe fustiga.
Da Morte ela se ri e escarnece da Orgia,
Espectro cuja mão, que ceifa e suplicia,
Respeitaram, contudo, em seus jogos de horror,
Neste corpo elegante o rústico esplendor.
Caminha como deusa e dorme qual sultana,
E mantém no prazer uma fé maometana.
Braços em cruz, inflando os seios soberanos,
Com seu olhar convoca a raça dos humanos.
Ela sabe, ela crê, em seu ventre infecundo,
E no entanto essencial ao avanço do mundo,
Que a beleza do corpo é sempre um dom sublime
Que perdoa a sorrir qualquer infâmia ou crime.
O Inferno desconhece e o Purgatório ignora,
E quando a negra Noite anunciar sua hora,
Da Morte ela há de olhar o rosto apodrecido
— Sem remorso ou rancor, como um recém-nascido. 
 
CXVII 
 
O amor e o crânio

VELHA VINHETA

Sobre o crânio da raça humana
O amor faz seu ninho,
E nessa atitude profana,
Com riso escarninho,

Bolhas redondas lhe apetece
Deixar ir subindo,
Como se os sóis reunir quisesse
No vazio infindo.

A esfera tíbia e cristalina,
Com súbito estouro,
Rebenta e cospe a alma franzina
Como um sonho de ouro.

Em cada bolha o crânio escuto
Gemer e implorar:
“Este jogo cômico e bruto
Quando há de acabar?

Pois o que a tua boca expele
No ar como destroços,
Monstro assassino, é minha pele,
Meu sangue e meus ossos!” 
 
Revolta
 
 Abel e Caim
 
1

Raça de Abel, frui, come e dorme,
Deus te sorri bondosamente.

Raça de Caim, no lodo informe
Roja-te e morre amargamente.

Raça de Abel, teu sacrifício
Doce é ao nariz do Serafim!

Raça de Caim, teu suplício
Quando afinal há de ter fim?

Raça de Abel, tuas sementes
E teus rebanhos férteis são;

Raça de Caim, teus parcos dentes
Rangem de fome e de privação!

Raça de Abel, teu ventre aquece
Junto à lareira patriarcal;

Raça de Caim, treme e padece
Em teu covil, pobre chacal!

Raça de Abel, goza e pulula!
Teu ouro é pródigo em rebentos;

Raça de Caim, refreia a gula,
Ó coração que arde em tormentos!

Raça de Abel, cresces e brotas
Como os insetos do arvoredo;

Raça de Caim, por ínvias rotas,
Arrasta os teus à infâmia e ao medo.

2

Raça de Abel, tua carcaça
Aduba o solo fumegante!

Raça de Caim, tua argamassa
Jamais foi sólida o bastante;

Raça de Abel, eis teu fracasso:
Do ferro o chuço ganha a guerra!

Raça de Caim, sobe ao espaço
Deus enfim deita por terra!
 
CXX
 
As litanias de Satã

Ó tu, o anjo mais belo e sábio entre teus pares,
Deus que a sorte traiu e expulsou dos altares,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Ó Príncipe do exílio, a quem fizeram mal
E que, vencido, sempre te ergues mais triunfal,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das trevas soberanas,
Charlatão familiar das angústias humanas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

10 Tu que, mesmo ao leproso e ao pária, se preciso,
Ensinas por amor o amor do Paraíso,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que da Morte, tua antiga e fiel amante,
Engendraste a Esperança — a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que leva o povo ao pé da forca a desvairar,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que bem sabes em que terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras mais preciosas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu cujo olhar desvela os fundos arsenais
Onde sepulto dorme o povo dos metais,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios
Ao sonâmbulo a errar no alto dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que, magicamente, amacias os ossos
Do ébrio tardio que um tropel fez em destroços,

30 Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que, para o consolo eterno de quem sofre,
Nos ensinaste a unir o salitre ao enxofre,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que infundes no olhar e na alma das donzelas
O amor aos trapos e a paixão pelas mazelas,

Tem piedade, o Satã, de minha atroz miséria!
 
Bastão do desterrado, archote do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Pai adotivo dos que, em cólera sombria,
O Deus Padre baniu do Éden terrestre um dia,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria! 
 
ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, lá nas alturas
Do Céu, onde reinaste, e nas furnas escuras
Do Inferno, onde, vencido, sonhas silencioso!
Sob a Árvore da Ciência, um dia, que o repouso
Minha alma encontre em ti, quando na tua testa
Seus ramos expandir qual no Templo em festa! 
 
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. 

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