A Morte
CXXII
A morte dos pobres
A Morte é que consola e que nos faz viver;
É o alvo desta vida e a única esperança
Que, como um elixir, nos dá fé e confiança,
É o alvo desta vida e a única esperança
Que, como um elixir, nos dá fé e confiança,
E forças para andar até o anoitecer.
Em meio à tempestade e à neve a se esfazer,
É a luz que em nosso lívido horizonte avança;
É a pousada que um livro diz como se alcança,
E onde se pode descansar e adormecer.
É a luz que em nosso lívido horizonte avança;
É a pousada que um livro diz como se alcança,
E onde se pode descansar e adormecer.
É um Arcanjo que tem nos dedos imantados
O sono eterno e o dom dos sonhos extasiados,
E arruma o leito para os nus e os desvalidos;
E arruma o leito para os nus e os desvalidos;
É dos Deuses a glória e o místico celeiro,
É a sacola do pobre e o seu lar verdadeiro,
O pórtico que se abre aos Céus desconhecidos!
CXXIV
La fin de la journée
Sous une lumière blafarde
Court, danse et se tord sans raison
La Vie, impudente et criarde.
Aussi, sitôt qu’à l’horizon
La nuit voluptueuse monte,
Apaisant tout, même la faim,
Effaçant tout, même la honte,
Le Poëte se dit: “Enfin!
Mon esprit, comme mes vertèbres,
Invoque ardemment le repos;
Le cœur plein de songes funèbres,
Je vais me coucher sur le dos
Et me rouler dans vos rideaux,
Ô rafraîchissantes ténèbres!”
Et me rouler dans vos rideaux,
Ô rafraîchissantes ténèbres!”
O fim da jornada
Sob uma luz trêmula e baça,
Se agita, brinca e dança ao léu
A Vida, ululante e devassa.
Assim também, quando no céu
A noite voluptuosa sonha,
Tudo acalmando, mesmo a fome,
Tudo apagando, até a vergonha,
Diz o Poeta que a dor consome:
“Afinal, minha alma e meus ossos
Somente imploram por sossego;
O coração feito em destroços,
O coração feito em destroços,
Procuro em meu leito aconchego
E às vossas cortinas me apego,
Ó treva oferta aos corpos nossos!”
E às vossas cortinas me apego,
Ó treva oferta aos corpos nossos!”
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa /
Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso;
traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio
Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto
Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira,
Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira,
Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni,
Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e
notas adicionais Ivo Barroso. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

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