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8.1.26

No Centro da cidade, onde quase tudo parece urgente, aprendi a reconhecer outra cadência. Entre o vai e vem das ruas, entre as sombras antigas de ruínas e os reflexos dos prédios, há algo que permanece – uma respiração mais lenta, feita de memórias e presenças. Descobri que o Centro não é apenas passagem, mas permanência. Um lugar onde o tempo se acumula em camadas, revelando novas formas de fazer e pertencer.

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Por trás do comércio e do trânsito incessante, surge o exercício de viver nesta rede de vidas que se cruzam diariamente: trabalhadores, artistas, moradores antigos, pessoas que, ao longo desses quase quatro anos em que atuo na unidade, reconheço pelo olhar. Neste território, o fazer deixou de ser apenas ação planejada para ser convivência, escuta e partilha. O ato de oferecer tornou-se, acima de tudo, um ato de aprender com o entorno, com as pessoas, com o cenário fragmentado e com as possibilidades que ele revela, como o próprio tempo que se move devagar.

Poeira e fragmento atravessam meu olhar e me ensinam a ver beleza onde antes via desgaste. A poeira não é sinal de abandono, mas de resistência, vestígio do que persiste, mesmo depois que o novo se instala. Cada fragmento encontrado nas ruas – como um bunker (tem na unidade), caixa forte (bar cofre), uma janela antiga, uma conversa interrompida, o som de um sino distante – é parte de uma narrativa ainda viva. Recolher esses pedaços é um gesto de cuidado, uma tentativa de recompor pertencimentos.

Mario Luiz Alves de Matos é contabilista, administrador de empresas, gestor cultural e gerente do Sesc São Bento.

Revista E / dezembro de 2025

No 6 / ano 32

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