as armas e os barões assinalados.
Canto
as arcas e os baús de Minas Gerais
já sem ouro e diamantes,
sem escrituras de terras e escravos,
sem belbutinas, veludos,
chamalotes,
rendas.
As arcas e os baús despojados
de turvos segredos familiares,
mas guardando ainda e sempre
um não sei quê de eterno,
a respiração discreta, o silêncio,
a vida recolhida
dos mineiros do Setecentos,
que Iara Tupinambá, o lindo nome,
veio mostrar na Galeria Chica da Silva
recriando com flores? criando
o tempo-e-alma em forma de objeto.
imóvel na planura do passado,
a ruminar o verde-azul-dourado
silêncio do que é de quando foi.
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta - ainda esplendor - da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã - quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: "Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?"
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil.
Sem o lirismo das orquídeas,
Sem o charme decorativo das samambaias,
Nua de liquens e bromélias do litoral,
A mata da Caratinga, protegida dos ventos,
Espera de nós
A proteção maior contra o machado,
A serra mecânica, o fogo.
II
Samambaias, palmeiras... São alfaias
Da casa vegetal de Itatiaia.
São tesouros, bem mais que barras de ouro,
A guardar com amor para os vindouros.
III
Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados
Dia seguinte.
O ranúnculo da esperança não brota
No dia seguinte.
O vazio da noite, o vazio de tudo
Será o dia seguinte.
IV
Muriqui, muriqui, tu estavas aqui
bem antes do europeu, bem antes do
progresso.
Teu alegre saltar entre ramos e ventos
vai ficando tão longe.
Onde estás, muriqui?
És apenas uma lembrança
De um tempo que eu não vi.
V
De cada cem árvores antigas
Restam cinco testemunhas acusando
O inflexível carrasco secular.
Restam cinco, não mais. Resta o fantasma
Da orgulhosa floresta primitiva.
VI
A água serpeia entre musgos seculares
Leva um recado de existência a homens surdos
E vai passando, vai dizendo
Que esta mata em redor é nossa companheira,
É pedaço de nós florescendo no chão.
XII
Xaxim, teu nome raro não te deixa
Arborescer no mato em flor.
És enfeite doméstico. Nos lares,
Mulheres maltratam com amor.
IX
Uma espuma de azul bóia nas névoas da altura,
Um resto de sonho perdura na resina dos caules.
Manhã-quase-manhã, a terra acorda
Do seu sono de perfumes e lianas.
X
Na mata de caratinga,
Tem paca, tem capivara,
Tem anta e mais jacutinga,
Tem silêncio tem arara,
E nas ramarias densas
De suas copas imensas,
Paira um segredo mineiro
Que dura um século inteiro…
XI
Riacho de Campo Belo,
Crivado de pedras lisas,
Como rápido deslizas
Modulando um ritornelo:
“Mais amar sabe quem ama
Sua terra e sua dama.”
XII
No esforço de fugir à mata obscura,
Bromélias em família buscam luz
E em suas folhas uma gota d’água,
Puro diamante líquido, reluz.
XIII
Um som de flauta rude se derrama
No que restou da terra comburida.
O
sanhaço é nostálgica lembrança
De outro tempo, outra mata, noutra vida.
XV
Penúltima jacutinga do Brasil?
Ou última, talvez?
Sem coco de
palmito-juçara para comer,
Sem galho forte para pouso,
Sem ambiente para
viver,
A jacutinga espera o fim de toda a fauna.
XVII
Meu gavião-de-penacho,
Meu rei aéreo da mata,
Meu rapinante
invencível
De hálux certeiro e cruel,
Quem diria, quem diria
Que um dia
se acabaria
Na floresta ressecada
Teu domínio, teu poder?
XVIII
Meu verdoengo tucano
De bico leve e guloso,
Escuta este teu amigo:
Te arriscas, se não me engano,
A ter um fim doloroso
Se não te pões ao abrigo
Do destruidor ser humano.
XIX
O canto-risada
do japuguaçu
No alto da embaúbs
Me deixa intrigado.
Ele ri de Quê?
Da mão que derruba
Seu ninho cuidado?
Vou adivinhar:
Se a ave ri, coitada.
É que, por destino,
Não sabe chorar.
XX
Como é palrador este chauá!
Imita voz de gente, é bom ator,
Porém no oco do pau logo se esconde
Se percebe o sinistro caçador.
XXII
Olha o barbado, olha o bando do barbado!
Olha o coro de barbados na
floresta!
À sua maneira.
Está berrando, aos deuses implorando
Que
detenham a fúria arrasadora
Da sacrificada mata brasileira.
XXIII
Leãozinho dourado, o mico
É joia-animal raríssima.
Deixai-o viver,
arisco.
Com seu vermelho sedoso,
Seu ouro nativo, seu
Focinho
avioletado.
Salve, mico-leão dourado!
XXIV
Tigrina
Beleza
Felina.
Elástica,
Plástica
Imagem
Selvagem
Da vida
Inserida
Noverso-
Universo
Da mata!
XXV
Que rumor é esse na mata?
Por que se alarma a natureza?
Ai…é a moto-serra que mata,
Cortante, oxigênio e beleza.
ANDRADE, Mario Drummond de. 1902-1987. Poesia Completa / Dispersos / Viola de Bolso III / Carlos Drummond de Andrade. (conforme as disposições do autor) Fixação de textos e notas de Gilberto Mendonça Teles. Introdução de Silviano Santiago. Biblioteca Luso-brasileira / Série Brasileira. — 1a tiragem da primeira edição, 2002 — Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 2003.






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