7.5.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SVENDBORG

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 

An die Nachgeborenen

1
 
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
 
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.
 
Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?
 
Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)
 
Man sagt mir: iss und trink dul Sei froh, dass du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen.
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! [1937-1938]
 
2
 
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zur Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
 
Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten.
Schlafen legte ich mich unter die Mörder.
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
 
Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
 
Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war. [1934]
 
3
 
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.
Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.
 
Dabei wissen wir doch:
Auch der Hass gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.
 
Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Dass der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht. [1937-1938]
 
 
Aos pósteros
 
1
 
Verdade, vivo em tempos sombrios!
 
A palavra inofensiva é tola. Uma testa lisa
Sinal de insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A notícia terrível.
 
Que tempos são esses, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Pois implica em calar-se sobre tanta atrocidade!
Quem atravessa calmamente a rua
Não está mais disponível para seus amigos
Necessitados?
 
É verdade: ainda ganho o meu sustento
Mas creiam-me: isso é mero acaso. Nada
Do que faço me permite comer até me saciar.
Fui poupado por acaso. (Quando acabar a minha sorte, estou perdido.)
 
Dizem para mim: coma e beba! Alegre-se de ter
Mas como posso comer e beber, se
Tiro aquilo que como do faminto, e
Meu capo d'água falta a quem tem sede?
E, contudo, bebo e como.
 
Quem me dera ser sábio também,
Nos velhos livros se lê o que é sábio:
Afastar-se da peleja do mundo e passar
O breve tempo sem medo.
Também evitar a violência
Pagar a maldade com o bem
Não satisfazer seus desejos, mas esquecê-los
É tido por sábio.
Nada disso eu consigo:
Verdade, vivo em tempos sombrios!
 
2
 
Vim para as cidades no tempo da desordem
Quando a fome imperava.
Cheguei entre os homens no tempo da revolta
E com eles me insurgi.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.
 
Minha comida comi entre batalhas.
Fui dormir entre assassinos.
Do amor cuidei desatento
E a natureza olhei sem paciência.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.
 
As estradas levavam ao pântano no meu tempo.
A linguagem me entregou ao carniceiro.
Eu pouco podia. Mas sem mim os poderosos
Sentavam-se mais seguros, esperava.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

As forças eram poucas. O alvo
Estava a uma grande distância
Visível o bastante, ainda que para mim
Quase inatingível.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.
 
3
 
Vocês que emergirão da enchente
Em que nós soçobramos
Lembrem-se
Quando falarem das nossas fraquezas
Também do tempo sombrio
Do qual fugiram.
Mas fomos, trocando de países mais do que de sapatos
Através das guerras de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
 
E contudo sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também desfigura o semblante.
A ira contra a injustiça
Também enrouquece a voz. Oh, nós
Que queríamos preparar o solo para a gentileza
Não conseguimos nós mesmos ser gentis.
 
Mas vocês, quando então chegar a hora
Do ser humano ser do ser humano amparo
Lembrem-se de nós
Com benevolência.

Schlechte Zeit für Lyrik
 
Ich weiß doch: nur der Glückliche
Ist beliebt. Seine Stimme
Hört man gern. Sein Gesicht ist schön.
 
Der verkrüppelte Baum im Hof
Zeigt auf den schlechten Boden, aber
Die Vorübergehenden schimpfen ihn einen Krüppel
Doch mit Recht.
 
Die grünen Boote und die lustigen Segel des Sundes
Sehe ich nicht. Von allem
 
Sehe ich nur der Fischer rissiges Garnnetz.
Warum rede ich nur davon
Daß die vierzigjährige Häuslerin gekrümmt geht?
Die Brüste der Mädchen
Sind warm wie ehedem.
 
In meinem Lied ein Reim
Käme mir fast vor wie Übermut.
In mir streiten sich
Die Begeisterung über den blühenden Apfelbaum
Und das Entsetzen über die Reden des Anstreichers.
Aber nur das zweite
Drängt mich zum Schreibtisch. [1939]
 
Mau tempo para poesia
 
Eu sei: só quem é feliz
É amado. Sua voz
Se ouve com prazer. Seu rosto é belo.
 
A árvore atrofiada no pátio
Indica um solo ruim, mas
Os passantes a insultam por seu aleijão
E com razão.
 
Os barcos verdes e as divertidas velas do estreito
Eu não vejo. De tudo
 
Vejo apenas a rede esgarçada do pescador.
Por que só falo disso
Que a criada quarentona caminha encurvada?
Os seios das meninas
Estão quentes como antes.
 
Na minha canção uma rima
Me soaria quase uma arrogância.
 
Brigam dentro de mim:
O entusiasmo pela macieira florindo
A ojeriza aos discursos do pintor de paredes.
Mas somente a última
Me impele à escrivaninha.

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos) 

6.5.26

entra/Rokurou Ogaki 大柿ロクロウ/Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 1

OGAKI, Rokurou 大柿ロクロ. Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 1 / Rokurou Ogaki; tradução de Drik Sada; edição Ferrez e Thiago Ferreira. São Paulo: Comix Zone, 2024.

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Juvenília e Poemas Diversos/Ivan Junqueira/sai

 .

Não tenho por amante uma leoa ilustre;
A fusa de minha alma empresta-me o seu lustre.
Arredia ao olhar de um mundo que escarnece,
É no meu peito que a beleza lhe floresce.
 
Para ter borzeguins, sua alma pôs à venda, 
Mas Deus riria se, ante essa infame oferenda,
Eu me tornasse de Tartufo um impostor,
Eu, que vendo a minha arte e quero ser autor.

Vicio até bem mais grave: ela usa uma peruca.
Negros cabelos cobrem sua branca nuca,
Mas mesmo assim lhe chovem beijos amorosos
Sobre a fronte mais calva do que a dos leprosos.
 
Ela é zarolha, e o estranho olhar com que nos fita,
Sob a pestana esguia que a de um anjo imita,
É tal que os olhos para quem já se perdeu
Não me valem seu olho encovado e judeu.
 
Sequer vinte anos tem; os seios — que desgraça! —
De cada lado pendem como uma cabaça,
E contudo me arrastam ao seu corpo estreito,
Em cujas tetas eu, como um bebê, me aleito.
 
E embora ela não ganhe às vezes uma esmola
Para esfregar-se em quem a sua carne esfola,
Eu a lambo em silêncio até com mais fervor
Que Madalena em fogo os pés do Salvador.

A mísera Criatura que ao prazer sucumbe
Tem no peito uma gosma que sufoca e zumbe,
E percebo no som desse espasmo brutal
Que ela mordeu amiúde a côdea do Hospital.
 
Seus olhos cujo brilho à noite nunca cessa
Crêem ver outros olhos no ermo da travessa,
Pois tendo a todo mundo aberto o coração,
Sente medo no escuro e crê em assombração.
 
Eis que por isso tem-lhe o sebo mais valia
Que para um sábio a ler seus livros noite e dia
E lhe apazígua sobremodo a fome e a dor
Que a aparição de seus amantes já sem cor.
 
Se acaso a virdes, em bizarra indumentária,
Rente às esquinas de uma rua solitária,
Os olhos contra o chão — como um pombo ferido 
Arrastando no arroio um calcanhar despido,
 
Senhores, não lanceis nenhuma infâmia dura
Ao rosto espaventado dessa pobre impura
Que a deusa Fome, por uma noite de frio,
Fez levantar as saias e exibir-se em cio.
 
Ela é meu tudo, minha rainha e duquesa,
Minha pérola e jóia — enfim, minha riqueza,
Aquela que ao regaço em triunfo me acolheu
E em suas mãos o coração me reaqueceu.

. 

O CACHIMBO DA PAZ
Imitado de Longfellow
 1
 
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
O Poderoso, veio à planície florida,
Ao prado imenso rente ao cerro montanhoso,
E ali, sobre as escarpas da Rubra Pedreira,
O espaço dominando e ardendo à luz primeira,
Eis que se ergueu, onipotente e vigoroso.
 
E convocou então os povos incontáveis,
Mais do que as ervas e as areias infindáveis.
Com sua mão tremenda uma lasca arrancou
A rocha, e fez com ela um cachimbo disforme;
Depois, junto ao regato, num bambual enorme,
Para servir de tubo, um caniço apanhou.
 
Para enchê-lo tomou um bálsamo oloroso;
E, criador da Energia, o Todo-Poderoso.
De pé, eis que acendeu, qual divino fanal,
O Cachimbo da Paz. De pé sobre a Pedreira,
Fumou, soberbo e ereto, ardendo à luz primeira.
E para as tribos esse era o grande sinal.
 
E em círculo subia a fumaça sagrada
No ar doce da manhã, sensual e perfumada.
E agora o que se via era um sombrio véu;
Logo o vapor se fez mais azulado e intenso,
Depois branqueou, sempre engrossando no ar suspenso,
Para extinguir-se aos pés da abóbada do céu.
 
Dos distantes confins das Montanhas Rochosas,
Desde os lagos do Norte às ondas impetuosas,
De Tawasentha, a várzea amena e sem igual,
A Tuscaloosa, erma floresta trescalante,
Avistou-se o sinal e a fumaça ondulante
Lentamente a subir no incêndio matinal.

Os Profetas diziam: Vedes essa estria
De vapores, que, igual ao braço que chefia,
Oscila e se recorta em negro no ar vermelho?
É Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Que proclama por toda a planície florida:
Guerreiros meus, eu vos convoco ao real conselho!
 
Pelas sendas do rio ou pelo ermo poeirento,
Pelas quatro vertentes de onde sopra o vento,
Vós, fiéis guerreiros, vós das tribos em porfia,
Entendendo o sinal da nuvem caminheira,
Viestes dóceis até junto à Rubra Pedreira
Onde sempre Gitchi Manitu vos ouvia.

Os guerreiros de pé se erguiam na paisagem,
Armas na mão, a face impávida e selvagem,
Matizados tal como uma folha outonal;
O odio que à luta impele a todos os mortais,
O ódio que ardia nos olhares ancestrais
No olhar lhes acendia uma flama fatal.
 
Em seus olhos brilhava a maldição da guerra.
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Terra,
Tinha por eles uma infinda compaixão,
Como um pai extremoso, indisposto às disputas,
Que vè seus filhos a morder-se em árduas lutas.
Tal Gitchi Manitu por toda uma nação.
 
E ergueu sobre eles sua forte mão direita
Para dobrar-lhes a alma e a natureza estreita,
Para esfriar-lhes a febre à sombra dessa mão;
Depois lhes disse, a voz solene e majestosa,
Comparável à voz de uma água tormentosa,
Que tomba e ecoa mais hedionda que um trovão:
 
2
 
Minha posteridade, odiosa mas querida!
O filhos meus, ouvi a divina razão!
É Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Quem vos fala! o que em vossa planície florida
Pós a rena, o castor, a raposa e o bisão.
 
Eu vos tornei a caça e a pesca generosas;
Por que se fez então o caçador tão vil?
De pássaros povoei as várzeas mais lodosas;
Por que não sois felizes, crianças belicosas?
Por que ao vizinho o homem dá caça e faz-se hostil?
 
Bem longe estou de vossa arena de inimigos.
Promessas e orações de vós não ouço mais!
Domina vosso gênio o amor pelos perigos,
E vossa força está na união. Quais bons amigos
Vivei, pois, e aprendei a vos manter em paz.
 
Um Profeta virá de minha mão em breve
Para vos dar conforto e convosco sofrer,
E seu verbo fará a existência mais leve; 
Mas se a menosprezá-lo algum de vós se atreve,
Terei então, filhos malditos, que morrer!
 
Às ondas apagai a cor dos ódios vãos.
O caniço é abundante e a rocha não se esfaz;
Cada um pode entalhar o seu cachimbo. As mãos
Limpai o sangue! Agora vivei como irmãos,
E unidos, pois, fumai o Cachimbo da Paz!
 
3
 
E eles então, depondo as armas sobre a terra,
Lavam nas águas as brutais cores da guerra
Que às frontes lhes ardiam triunfantes e cruéis.
Cada um faz seu cachimbo e às margens do regato
Colhe um longo caniço e dá-lhe o corte exato.
E o Espírito sorria ante os seus filhos fiéis.
 
Todos se foram, a alma quieta e enternecida,
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Uma vez mais galgou a escada celestial.
-Através do vapor que em nuvens se desdobra
Ergueu-se o Poderoso, ébrio de sua obra,
Sublime, perfumado, infinito, triunfal!

BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Juvenília e Poemas Diversos/Ivan Junqueira/entra

BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

Carlos Giménez/Barrio/sai

GIMÉNEZ, Carlos (1941- ). Barrio / Carlos Giménez; 1980; prefácio Antonio Martin; tradução Jana Bianchi; edição Ferréz e Thiago Ferreira.  São Paulo: Comix Zone!, 2022.
 
Já li algumas vezes os outros livros que tenho do Carlos Giménez, principalmente o Paracuelos 1, por ser a primeira edição da Camix Zone!, mas nunca tinha lido este. Gigante como todos os outros!

4.5.26

almeida prado/música contempôranea brasileira/continua

Cantiga da Amizade (1978) 

Dedicada a Max Feffer

violino: Constanza Almeida Prado • piano: Achille Picchi

Diálogos (1967) 

Dedicada a Oswaldo e Adelci Paulino 

violino: Constanza Almeida Prado • piano: Achille Picchi

ALMEIDA PRADO (1943-2010). Música contemporânea brasileira: Almeida Prado / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.1)  

3.5.26

almeida prado/música contempôranea brasileira/continua

Sonata para violino e piano n.3 (1991) 

Dedicada a Maria Constanza Audi de Almeida Prado 

violino: Constanza Almeida Prado • piano: Achille Picchi

ALMEIDA PRADO (1943-2010). Música contemporânea brasileira: Almeida Prado / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.1)  

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
“O empreendimento das Estradas de ferro ... levaria a Humanidade ... à necessidade de combater a obra da natureza sobre toda a Terra, de encher os vales, de cortar e pefurar as montanhas, ... de lutar, enfim, em todas as frentes, contra as condições naturais do solo de seu planeta ... e substituí-las universalmente por condições opostas. Victor Considérant, Déraison et Dangers de lEngouement pour les Chemins en Fer, Paris, 1838, pp. 52-53.
 [e depois, incomparavelmente pior; os carros e caminhões. Todos em estradas individualistas (e, cada vez mais, privatizadas])
[W9a, 2]
Charles Gide sobre o gênio divinatório de Fourier: “Quando ele escreve: ‘tal navio que partiu de Londres chega hoje à China; o planeta Mercúrio, avisado pelos astronomos da Ásia das chegadas e dos movimentos, transmitirá uma lista aos astronomos de Londres, basta transpor essa profecia para o estilo atual e ler: ‘quando um navio chegar a China, a T.S F transmitirá a notícia à Torre Eiffel ou a Londres; encontramos ai, penso eu, uma antecipação extraordinária. É exatamente o que ele quis dizer; o planeta Mercúrio está ali para representar uma força, ainda ignorada, que permitiria transmitir as mensagens — uma força que ele pressentiu.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, 1924, pp. 10-11.
[W 9a, 3]
Charles Gide sobre as absurdas especulações astrológicas de Fourier; “Como aquela sobre o papel dos três pequenos planetas, Palas, Juno e Ceres, que engendraram três espécies de groselhas, e de Phoebe (a lua), que devia ter engendrado uma quarta espécie, ainda mais saborosa - se infelizmente ‘ela não tivesse falecido’!” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 10.
[W 9a, 4]
“Quando ele fala ... de um exército celeste que o Conselho sideral resolveu enviar em socorro da Humanidade, exército que já está a caminho há 1.700 anos e que não tem mais que 300 anos de caminho a fazer para chegar aos confins do sistema solar ... isso dá um pouco da sensação de calafrio do Apocalipse. Em outras ocasiões, essa loucura se mostra amável, beirando quase a sabedoria, abundante em observações refinadas e engenhosas, um pouco como as de Dom Quixote, quando este recitava suas arengas sobre a Idade de Ouro aos pastores maravilhados.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 11.
[W 10, 1]
“Pode-se dizer, e ele mesmo o diz, que seu observatório — ou seu laboratório, se preferirmos — é a cozinha. É de lá que ele parte para se irradiar em todos os domínios da vida social.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 20.
[W 10, 2]
[...]
Relação entre o Manifesto Comunista e o projeto de Engels; “A organização do trabalho uma concessão a Louis Blanc — e a edificação de grandes palácios comunitários em propriedades nacionais, que deveriam ajudar a superar a oposição entre cidade e campo — uma concessão aos fourieristas da Démocratie Pacifique — eram elementos tomados de empréstimo do projeto de Engels, mas que ficaram fora do Manifesto.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2a ed., Berlim, 1933, p. 288.
[W 10, 4] 
Engels sobre Fourier: ‘“A crítica de Fourier à civilização emerge em toda a sua genialidade apenas graças ao estudo de Morgan’, afirmou Engels a Kautsky, enquanto trabalhava em Der Ursprung der Familie [A origem da família]. Neste mesmo livro, porém, escreveu: ‘São os interesses mais baixos ... que inauguram a nova dominação civilizada — a das classes —; são os meios mais vergonhosos ... que provocaram a queda da antiga sociedade gentilícia, sem classes.’” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Engels und der Aufitieg der Arbeiterbewemng in Europa, Berlim, 1933, p. 439.
[W 10a, 1]
Marx sobre Proudhon em carta a Kugelmann de 9 de outubro de 1 866: “Sua pseudocrítica e sua pseudo-oposição aos utopistas (sendo ele mesmo apenas um utopista pequeno-burguês, enquanto nas utopias de um Fourier, Owen etc. percebem-se o pressentimento e a expressão fantástica de um novo mundo) primeiro conquistaram e seduziram a ‘juventude brilhante’, os estudantes, depois, os operários, principalmente os parisienses que, como operários de luxo, participavam efetivamente, sem o saber, do velho lixo.” Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, p. 174.
[W 10a, 2]
“Estes berlinenses superespertos ainda vão fundar uma Démocratie Pacifique no Hasenheide,9 quando a Alemanha inteira abolir a propriedade... Preste atenção, logo aparecerá um novo Messias na região de Uckermark que moldará Fourier segundo Fiegel, construirá o falanstério a partir de categorias eternas e fará dele uma lei eterna da idéia que toma consciência de si mesma, segundo a qual o capital, o talento e o trabalho participam do lucro em proporções definidas. Será o Novo Testamento da ‘hegelmania’: o velho Hegel tornar-se-á o Velho Testamento; o ‘Estado’, a lei, será um preceptor da cristandade’; e o falanstério, em que serão dispostas as latrinas conforme a necessidade lógica, será o ‘novo céu’ e a ‘nova terra’, a nova Jerusalém, que descerá do céu enfeitada como uma noiva.” Engels a Marx, Barmen, em 19 de novembro de 1844, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Briefwechsel, vol. I, 1844-1853, ed. org. pelo Instituto Marx-Engels-Lenin, Moscou-Leningrado, 1935, p. 11.
[W 10a, 3]
Apenas no alto estio do século XIX, apenas sob a luz desse sol é possível imaginar realizada a fantasia de Fourier.
[W 10a, 4]
“Cultivar nas crianças a audição aguçada dos rinocerontes e dos cossacos.” Ch. Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, ou Invention du Procédé d’Industrie Attrayante et Naturelle Distribuée en Séries Passionnées, Paris, 1829, p. 207.
[W 10a, 5]
Compreende-se facilmente o significado da culinária em Fourier; a felicidade possui receitas como qualquer pudim. Ela nasce a partir de uma dosagem exata de diversos ingredientes. Trata-se de um efeito. A paisagem, por exemplo, não significa nada para Fourier: ele não se interessa por seu aspecto romântico, já os miseráveis casebres dos camponeses o deixam indignado. Mas se a agriculture composée sente-se aí em casa, se as pequenas hordas e os pequenos bandos10 a percorrem, se nela acontecem os inebriantes desfiles militares do exército industrial, então conseguiu-se a dosagem da qual resulta a felicidade.
[W 11, 1]
A afinidade entre Fourier e Sade reside no momento construtivo que é próprio de todo sadismo. Fourier associa de forma singular o jogo de cores da fantasia com o jogo de números de sua idiossincrasia. É preciso compreender que as harmonias de Fourier não se baseiam em nenhuma das místicas numéricas tradicionais, como a de Pitágoras ou a de Kepler. Elas são um produto exclusivo de sua imaginação e conferem à harmonia algo de inacessível e protegido: é como se elas envolvessem os harmonianos com um fio dc atame farpado. A felicidade do falanstério é uma felicidade farpada. Por outro lado, pode-se perceber traços de Fourier em Sade. As experiências do sádico, que representam seus 120 Dias de Sodoma, constituem em sua crueldade exatamente aquele extremo que é tocado pelo idílio extremo de Fourier. Os extremos se tocam. O sádico poderia encontrar em suas experiências um parceiro que anseia justamente por aquelas humilhações e sofrimentos que seu torturador lhe inflige. De um único golpe ele se encontraria no centro de uma das harmonias que a utopia de Fourier persegue. 
[W 11, 2]
O simplismo aparece em Fourier como marca da “civilização”.
[W 11, 3] 
[...]
O sistema de Fourier se apoia, como ele mesmo esclarece, em duas descobertas: a da atração e a dos quatro movimentos. Estes são: o movimento material, o orgânico, o animal e o social.
[W 11a, 2] 
Fourier fala de uma transmission miragique que possibilitaria receber em Londres noticias da Índia em quatro horas. Cf. Fourier, La Fausse Industrie, Paris, 1836, vol. II, p. 711.
[W 11a, 3] 
“O movimento social é o padrão para os outros três movimentos; o animal, o orgânico e o material são coordenados com o movimento social, que é o primeiro na ordem. Ou seja, as propriedades de um animal, de um vegetal, de um mineral, e mesmo de um turbilhão de astros, representam algum efeito das paixões humanas na ordem social, e TUDO — desde os átomos até os astros — forma o quadro das propriedades das paixões humanas.” Charles Fourier, Théorie des Quatre Mouvements, Paris, 1841, p. 47.
[W 11a, 4] 
A observação de mapas geográficos era uma das ocupações favoritas de Fourier.
[W 11a, 5]
Cronograma messiânico: em 1822, preparação do cantão experimental; em 1823, sua instalação e aprovação; em 1824, a imitação por todos os civilizados; em 1825, adesão dos bárbaros e selvagens; em 1826, organização da hierarquia esférica; em 1826, enxameamento dos destacamentos coloniais. — Deve-se entender como hierarquia esférica a “distribuição dos cetros de soberanias”. (Conforme E. Silberling, Dictionnaire de Sociologie Phalansténenne, Paris, 1911, p. 214).
[W 11a, 6]
O modelo do falanstério compreende 1.620 pessoas, ou seja: um exemplar masculino e um feminino de cada um dos 810 caracteres que, segundo Fourier, esgotam todas as possibilidades.
[W 11a, 7]
Em 1828, os pólos deveriam estar livres do gelo.
[apenas um pequeno erro de 2 séculos. Praticamente nada pelo tempo da terra e suas transformações]
[W 11a, 8]
[...]
“Os gostos dominantes em todas as crianças são: 1. Mexer, ou tendência a tudo manipular, tudo visitar, tudo percorrer, variar constantemente de função; 2. O ruído industrial, gosto pelos trabalhos barulhentos; 3. A macaquice, ou mania de imitar; 4. A miniatura industrial, gosto pelas pequenas oficinas; 5. O treinamento progressivo do fraco ao forte.” Charles Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, Paris, 1829, p. 213.
[W 12, 1]
9 Parque popular no bairro operário de Neukölln, em Berlim. (w.b.)
10 Dois terços das pequenas hordas são constituídos por meninos, dois terços dos pequenos bandos, por meninas. (E/M) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.