16.6.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
Luta de barricadas em Les Misérables. Do capítulo “Originalité de Paris”: “Fora dos bairros insurrectos, nada é, de costume, mais estranhamente calmo que a fisionomia de Paris durante uma rebelião... Troca de tiros num cruzamento, numa passagem, numa rua sem saída ... os cadáveres atravancam o calçamento. A algumas ruas dali, ouve-se o choque das bolas de bilhar nos cafés... Os fiacres rodam; os transeuntes vão jantar na cidade, às vezes no mesmo bairro onde se combate. Em 1831, um tiroteio foi interrompido para deixar passar um cortejo de casamento. Durante a insurreição de 12 de maio de 1839, na Rua Saint-Martin, um velhinho doente, puxando uma carroça que levava uma bandeira tricolor e garrafas cheias de um líquido qualquer, ia e vinha da barricada à tropa e da tropa à barricada, oferecendo imparcialmente copos com água de côco... Nada é mais estranho; e este é o caráter próprio das rebeliões de Paris, que não se encontra em nenhuma outra capital. Para isso é preciso duas coisas: a grandeza de Paris e sua alegria. F. preciso ser a cidade de Voltaire e de Napoleão.” Victor Hugo, Œuvres Completes, Roman, VIII, Paris, 1881, pp. 429-431.
[a 11a, 2]
[...]
Por volta de 1840, o suicídio fazia parte do imaginário dos operários. Disputam-se os exemplares de uma litografia que representa 0 suicídio de um operário inglês desespera o por não poder ganhar sua vida. Na casa do próprio Sue, um trabalhador chegou a se enforcar, com este bilhete na mão: ‘Eu me mato por desespero: achei que a morte seria menos dura para mim se eu morresse sob o teto daquele que nos ama e nos defende. O autor operário que escreveu um pequeno livro muito lido pelos operários, o tipógrafo Adolphe Boyer, também suicidou-se por desespero.” Charles Benoist, Lhomme de 1848”, parte I, Revue des Deux Mondes, 1 fev. 1914, p. 667.
[a 12a, 7]
 [...]
Charles Benoist afirma encontrar em Corbon, Le Secret du Peuple de Paris, a consciência orgulhosa da superioridade numérica sobre as outras classes. Benoist, “Le ‘mythe’ de la classe ouvrière”, Revue des Deux Mondes, 1 mar. 1914, p. 99.
[a 13a, 2]
Nos panfletos do ano de 1848, predomina o conceito de organização.
[a 13a, 3]
Em 1867, era possível realizar conferencias em que 400 delegados operários pertencentes a 117 profissões ... discutiam ... sobre a organização de Câmaras de operários em sindicatos mistos... Ate então, entretanto, os sindicatos operários eram bem raros ... apesar de existirem, por outro lado, em aliança com os patrões, 42 câmaras sindicais. Antes de 1867 são citados, à margem da lei e desafiando-a, somente os tipógrafos (1839), os modeladores (1863), os encadernadores (1864) e os chapeleiros (1865). Depois das conferências da Passage Raoult19 ... esses sindicatos se multiplicaram. Charles Benoist, Le ‘mythe’ de la classe ouvrière”, Revue des Deux Mondes, 1 mar. 1914, p. 111.
[a 13a, 4]
[...]
Em seu 18 Brumário, Marx diz que, nas cooperativas, os operários “em princípio renunciam a transformar o velho mundo com seus próprios e imensos recursos; em vez disso, procuram realizar a sua salvação atrás das costas da sociedade, de modo particular, dentro dos limites restritos de suas condições de existência. Cit. em E. Fuchs, Die Karikatur der europäischen Völker, vol. II, Munique, 1921, p. 472.
[a 13a, 7]
[...]
Adolphe Boyer, De lÉtat des Ouvriers et de son Amélioration par lOrganisation du Travail, Paris, 1841. O autor deste texto era tipógrafo. Sua obra não obteve sucesso. Ele cometeu suicídio e exortou (segundo Lerminier) os operários a seguir seu exemplo. Em 1844, o texto foi publicado em Estrasburgo, em língua alemã. Era bastante moderado e procurava colocar o compagnonnage a serviço das associações de operários.
[a 14, 2]
[...]
As associações de operários depositavam seus fundos na caixa econômica ou em bônus do tesouro. Lerminier, em “De la littérature des ouvriers” (Revue des Deux Mondes, Paris, 1841, p. 963), elogia este procedimento. Segundo ele, os institutos de previdência dos operários diminuem os custos da assistência pública.
[a 14, 4]
Proudhon recebe do financista Millaud o convite para um jantar. “Proudhon desculpou-se ... dizendo que vivia inteiramente no seio de sua família e que costumava deitar-se às 9 horas da noite.” Firmin Maillard, La Cité des Intellectuels, Paris, 1905, p. 383.
[a 14, 5]
 [...]
Heine sobre a burguesia na Revolução de Fevereiro: “O rigor com que o povo investia contra ... os ladrões capturados em flagrante era excessivo para alguns, e certas pessoas ficaram muito apreensivas ao tomar conhecimento de que os ladrões eram fuzilados no ato. Sob tal regime, pensavam consigo, no fim das contas, não se pode estar seguro nem mesmo da própria vida.” Heinrich Heine, “Die Februarrevolution”, Sämtliche Werke, ed. org. por Wilhelm Bölsche, Leipzig, vol. V, p. 363.
[a 14a, 2]
A América na filosofia de Hegel: “Hegel ... não elaborou uma expressão direta para a consciência do fim de uma época da história, mas uma expressão indireta. Ele a manifesta pelo fato de pensar  lançando um olhar sobre o passado, na ‘velhice do espírito’, ao mesmo tempo que procura uma descoberta possível no domínio do espírito  sem revelar expressamente o conhecimento dessa descoberta. As raras indicações sobre a América, que já nessa época aparecia como o futuro país da liberdade” [Nota: A. Ruge, Aus früherer Zeit, vol. IV, pp. 72 a 84: “Fichte já pensara em emigrar para a América, na ocasião da derrocada da velha Europa; carta a sua mulher de 28 de maio de 1807.”], “e sobre o mundo eslavo, visavam a possibilidade de o espírito universal emigrar para fora da Europa, a fim de preparar novos protagonistas do princípio do espírito ... que se completou com Hegel. A América é, pois, o país do futuro, no qual a importância da história universal deve se manifestar, numa época próxima, por exemplo, na luta entre a América do Norte e a do Sul.’... Mas o que até hoje se passa aqui, no Novo Mundo, não é senão um eco do Velho Mundo e a expressão de uma vivacidade estrangeira; e enquanto país do futuro, ele não nos diz respeito. O filósofo não tem nada a ver com as profecias.’” [Hegel, Philosophie der Geschichte, ed. org. por G. Lasson, p. 200 (e 779?).] K. Löwith, “L’achèvement de la philosophie classique par Hegel et sa dissolution chez Marx et Kierkegaard”, Recherches Philosophiques, fundadas por Koyré, H.-Ch. Puech, A. Spaier, ano IV (1934-1935), Paris, pp. 246-247.
[a 14a, 3]
 [...]
A maior parte das sondagens sobre a condição dos operários foi realizada, nos primeiros tempos, por donos de indústrias, seus representantes, inspetores de fabrica e funcionários administrativos. Quando os médicos e filantropos responsáveis pelas pesquisas visitavam as famílias dos operários, eram geralmente acompanhados pelos patrões ou por seus representantes. Le Play, por exemplo, sugere que as visitas às famílias operárias ‘sejam feitas com a recomendação de uma autoridade escolhida a dedo’; ele aconselha um comportamento extremamente diplomático para com os diferentes membros da família, até mesmo o pagamento de pequenas somas a título de indenização ou mesmo a distribuição de presentes: deve-se elogiar ‘de maneira criteriosa a inteligência dos homens, a graça das mulheres, o bom comportamento das crianças, e distribuir de modo sensato pequenos presentes a todos’. (Les Ouvriers Parisiens, Paris, vol. I, p. 223.) Na crítica detalhada aos métodos de pesquisa, introduzida por Audiganne nas discussões do grupo de operários de que participa, diz-se o seguinte a respeito de Le Play: ‘Não obstante as melhores intenções, nunca se escolheu um caminho mais equivocado. Tudo se resume no sistema. Um falso ponto de vista, um método equivocado de observação conduzem a uma série total mente arbitrária de idéias que não têm qualquer relação com a realidade social, e que deixam transparecer uma incorrigível tendência ao despotismo e à rigidez.’ (Audiganne, op. cit., p. 61.) Como erro recorrente na condução das pesquisas, Audiganne menciona a atitude cerimoniosa dos pesquisadores nas visitas às famílias operárias: ‘Se nenhuma das pesquisas realizadas durante o Segundo Império deu algum resultado palpável, isto se deve principalmente à pompa com que se recobriam os pesquisadores.’ (Op. cit., p. 93.) Também Engels e Marx descrevem os métodos com que essas pesquisas sociais induziam os depoimentos dos operários e os constrangiam até mesmo a apresentar petições contra a redução do tempo de trabalho. Hilde Weiss, “Die ‘Enquête Ouvrière von Karl Marx”, Zeitschrift für Sozialforschung, ed. por Max Horkheimer, ano V, n° 1, Paris, 1936, pp. 83-84. O livro citado de Audiganne intitula-se Mémoires dun Ouvriere de Paris, Paris, 1873.
[a 15 a, 2]
Em 1854, ocorreu o Caso dos Carpinteiros, em que uma decisão de greve tomada pelos car pinteiros de Paris deu ensejo a uma acusação contra seus líderes, por violarem a proibição de coalizões. Eles foram defendidos em primeira instância e na apelação por Berryer. Eis algumas passagens da argumentação de defesa durante a apelação: “Não pode ter sido esta sag rad a resolução, esta resolução livre de abandonar o trabalho por não conseguir retirar dele seu justo salário, o motivo para uma punição pela lei. Não! É, na verdade, a resolução de constranger a liberdade de outrem; é a interdição do trabalho, o impedimento de ir às oficinas... É preciso, pois, para que haja uma coalizão, que haja um constrangimento da liberdade do homem, uma violência contra a liberdade de outrem. E, com efeito, se não fosse este o verdadeiro sentido dos artigos 415 e 4l6, não haveria em nossa lei uma desigualdade monstruosa entre a condição dos operários e a dos empresários? Estes podem deliberar entre si, decidir que o preço do trabalho está elevado demais... A lei ... não pune a coalizão dos empresários, a não ser quando há acordo injusto e abusivo... Sem reproduzir as mesmas palavras, a lei reproduz o mesmo pensamento em relação aos operários. E pela interpretação sadia desses artigos que os senhores consagrarão a igualdade de condição que deve existir entre essas duas classes de indivíduos.” Berryer, Œuvres: Plaidoyers 1836-1856, vol. II, Paris, 1876, pp. 245-246.
[a 16, 1]
Caso dos carpinteiros: “O Sr. Berryer termina sua defesa levantando a questão de se considerar ... a posição atual, na França, das classes inferiores, condenadas, diz ele, a ver dois quintos de seus membros perecendo num hospital, ou sendo depositados sobre o mármore do necrotério.” Berryer, Œuvres: Plaidoyers 1836-1856, vol. II, Paris, 1876, p. 250. (O réu principal no processo foi condenado a três anos de prisão  sentença confirmada na apelação.) 
 [a 16, 2]
[...]
“Quando, em Paris, Engels pôs no papel a ‘profissão de fé que lhe fora solicitada pela seção local da Liga Comunista, ele desaprovou a designação que Schapper e Moll tinham dado a seu projeto. Também pareceu-lhe inapropriada a forma de catecismo, comum naquela época, nos manifestos programáticos destinados aos operários, e ainda usada por Considérant e Cabet.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Berlim, 1933, p. 283.20
[a 16, 4] 
 [...]
“Uma vez que Marx, desde sua expulsão, era proibido de entrar em território francês, Engels decidiu, em agosto de 1846, transferir seu domicílio para a capital francesa, com a intenção de conquistar para a causa do comunismo revolucionário os proletários alemães que lá viviam. No entanto, aqueles alfaiates, marceneiros e aprendizes de curtume, que Grün procurava aliciar, não correspondiam ao tipo de proletário com o qual Engels ... contava. A maior parte daqueles que tinham vindo para Paris, enquanto centro da moda e do artesanato, a fim de se tornarem mais competitivos em sua profissão, ainda tinha uma mentalidade fortemente ligada ao antigo espírito das guildas.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2a ed., Berlim, 1933, pp. 249-250.
[a 16a, 2]
O “Comitê Comunista de Correspondência” de Marx e Engels, em Bruxelas, no ano de 1846: “Marx e ele tentaram em vão ... conquistar Proudhon. Soubemos que Engels empreendeu uma tentativa malsucedida de convencer o velho Cabet, líder do comunismo utópico experimental no continente, ... a participar do Comitê de Correspondência. Somente alguns meses mais tarde ele conseguiu estabelecer um contato mais estreito com o círculo do La Réforme, com Louis Blanc e, principalmente, com Flocon.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2 a ed., Berlim, 1933, p. 254.
[a 16a, 3]
 [...]
“Para que uma agitação tenha verdadeiro sucesso, o indivíduo deve se apresentar em nome de uma coletividade... Engels teve que passar por esta experiência durante seu primeiro período de atuação em Paris. As portas em que ele bateu anteriormente, como abriram-se muito mais facilmente para ele na segunda vez! Como o socialismo francês em quase todas as suas nuanças rejeitava a luta política, Engels só pôde procurar os companheiros de luta para a iminente batalha decisiva em Paris entre aqueles democratas mais ou menos propensos ao socialismo de Estado, que se agrupavam em torno do La Réforme, e que, como ele, viam a conquista do poder político pela democracia, sob a liderança de um Louis Blanc e de um Ferdinand Flocon, como pressuposto para qualquer transformação social. Disposto a seguir de mãos dadas com a burguesia, cada vez que ela tomasse decididamente um caminho democrático, Engels não precisava temer a colaboração com este partido, cujo programa previa a abolição do trabalho assalariado, embora soubesse que Ledru-Rollin, seu líder parlamentar, era contrário ao comunismo... Escaldado por experiências anteriores, apresentou-se a Louis Blanc como enviado oficial dos democratas de Londres, de Bruxelas c dos alemães da Renânia, e como agente dos cartistas’.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, pp. 280-281.21
[a 17, 1]
“Sob o governo provisório era de bom-tom  e sobretudo uma necessidade  imprimir, nos milhares de cartazes oficiais, que os generosos operários tinham posto três meses de miséria à disposição da República’. Era um misto de política e de arroubo pregar aos operários que a Revolução de Fevereiro acontecera para seu próprio interesse, e que se tratava nessa Revolução principalmente do interesse dos operários. Depois da abertura da Assembléia Nacional, no entanto, os políticos tornaram-se prosaicos. Tratava-se então apenas de fazer o trabalho voltar a suas antigas condições, como disse o ministro Trélat.” Karl Marx, “Dem Andenken der Juni-Kämpfer”, in: Karl Marx als Denker, Mensch und Revolutionär, ed. org. por D. Rjazanov, Viena-Berlim, 1928, p. 38 — publicado originalmente em Neue Rheinische Zeitung, por volta de 28 de junho de 1848.22
[a 17, 2]
Ultimo parágrafo do texto sobre os combatentes de junho, após a apresentação das medidas com que o Estado honraria a memória das vítimas da burguesia: “Os plebeus, porém, foram maltratados pela fome, humilhados pela imprensa, abandonados pelos médicos, discriminados pela gente de bem’ como ladrões, incendiários, escravos nas galeras; viram suas mulheres e filhos lançados a uma miséria ainda mais profunda, e os seus melhores representantes deportados para além-mar — é a prerrogativa, o direito especial da imprensa democrática de colocar a coroa de louros sobre sua fronte sombria.” Karl Marx, “Dem Andenken der Juni-Kämpfer , in: Karl Marx ais Denker, Mensch und Revolutionür, ed. org. por D. Rjazanov, Viena-Berlim, 1928, p. 40 — publicado originalmente em Neue Rheinische Zeitung, por volta de 28 de junho de 1848.23
[a 17, 3]
Sobre o livro de Buret, De la Misère des Classes Laborieuses en Angleterre et en France, e o de Engels, Lage der arbeitenden Klasse in England: “Charles Andler apresenta o livro de Engels apenas como uma refundição e um aperfeiçoamento’ do texto de Buret. Para nós, no entanto, o único ponto de convergência das duas obras é o fato de ambas ... se apoiarem nas mesmas fontes... Os critérios de avaliação do francês permanecem ancorados no direito natural..., enquanto o alemão recorre em suas explanações às tendências do desenvolvimento econômico e social. Enquanto Engels vê como única salvação para a situação presente a evolução para o comunismo, Buret aposta na mobilização completa da propriedade territorial, na política social e em um sistema constitucional para as fábricas.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, p. 195.
[a 17a, 1]
Engels sobre a Insurreição de Junho. “Em um diário de viagem, provavelmente destinado à publicação no folhetim do Neue Rheinische Zeitung, ele escreveu: ‘Entre a Paris daquele tempo e a de agora havia o 1 5 de maio e o 25 de junho... As granadas de Cavaignac tinham destruído a insuperável alegria parisiense; a ‘Marselhesa e ‘O canto da partida haviam silenciado, e apenas os burgueses ainda cantarolavam entre os dentes o seu ‘Morrer pela pátria’; os operários, sem pão e sem armas, rangiam os dentes segurando a raiva.’” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, p. 317.24
[a 17a. 2]
Durante a Insurreição de Junho, Engels considerava “o Leste e o Oeste de Paris os símbolos dos dois grandes campos inimigos em que se dividiu aqui a sociedade inteira pela primeira vez”. Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, p. 312.
[a 17a, 3]
Marx chama a revolução de “nosso bom amigo, nosso Robin Hood, a velha toupeira que sabe trabalhar tão rapidamente sob a terra — a revolução”. No mesmo discurso, ao final: “Na Idade Média havia na Alemanha um tribunal secreto, o Femgericht, para vingar os desmandos dos poderosos. Quando se via um sinal vermelho em uma casa, aquilo significava que seu proprietário caíra nas garras do Femgericht. Hoje há em todas as casas da Europa uma misteriosa cruz vermelha. A própria história é o juiz — e quem executa a sentença é o proletariado.” Karl Marx, “Die Revolutionen von 1848 und das Proletariat”, discurso proferido durante a comemoração do quarto aniversário de Peoples Paper, que o publicou em 19 de abril de 1856 [em Karl Marx als Denker, Mensch und Revolutionär, ed. org. por D. Rjazanov, Viena-Berlim, 1928, pp. 42 e 43].
[a 17a, 4]
Marx defende Cabet contra Proudhon, considerando-o “respeitável devido à sua posição prática diante do proletariado”. Marx a Schweitzer, Londres, 24 de janeiro de 1865, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, p. 143.
[a 18, 1]
Marx a respeito de Proudhon: “A Revolução de Fevereiro foi, de fato, muito inoportuna para Proudhon, pois justamente algumas semanas antes ele havia comprovado de maneira irrefutável que a era das revoluções’ estava encerrada para sempre. Embora tenha demonstrado uma limitada compreensão da situação existente, seu discurso na Assembléia Nacional merece elogios. Foi um ato de grande coragem depois da Insurreição de Junho. Além disso, de teve uma conseqüência feliz, já que o Sr Thiers, em seu discurso contra as propostas de Proudhon  depois publicado cm forma de brochura , demostrou para toda a Europa que o catecismo infantil servia de pedestal para este pilar espiritual da burguesia francesa. Em comparação com o Sr Thiers, Proudhon assumiu de fato as proporções de um colosso antediluviano... Seus ataques contra a religião, contra a Igreja etc tiveram um enorme mérito local em uma época em que os socialistas franceses julgavam adequado mostrar, através de sua religiosidade, sua superioridade em relação ao voltairianismo burguês do século XVIII e ao ateísmo alemão do século XIX. Se Pedro, o Grande derrotou a barbárie russa por meio da barbárie, também Proudhon fez o melhor que pôde para abater a fraseologia francesa por meio de frases de efeito. Marx a Schweitzer, Londres, 13 de janeiro de 1865, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, pp. 143-144. 
[a 18, 2]
“Para o seu divertimento: no Journal des Économistes de agosto deste ano, foi publicado um artigo sobre o comunismo..., onde se lê: ‘... O Sr Marx é um sapateiro, assim como um outro comunista alemão, Weitling, é um alfaiate... Marx não sai ... nunca ... das fórmulas abstratas e evita abordar qualquer questão verdadeiramente prática. Segundo ele (veja este disparate) a emancipação do povo alemão será o sinal da emancipação do gênero humano; a cabeça dessa emancipação será a filosofia e seu coração será o proletariado. Quando tudo estiver preparado, o galo gaulês anunciará a ressurreição germânica... Marx diz que é preciso criar na Alemanha um proletariado universal (!!) a fim de realizar o pensamento filosófico comunista.”’ Engels a Marx, por volta de 1 6 de setembro de 1846, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Briefwechsel, vol. I, 1844-1853, ed. org. pelo Instituto Marx-Engels-Lenin, Moscou-Leningrado-Zurique, 1935, pp. 45-46.
[a 18, 3]
“O esquecimento total da causalidade revolucionária e contra-revolucionária é consequência necessária de qualquer reação vitoriosa.” Engels a Marx, Manchester, 18 de dezembro de 1868, a propósito dos livros de Eugène Ténot sobre o golpe de Estado de 1851; in: Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, p. 209.
[a 18, 4]
[...]
Luís Filipe a Guizot: “Jamais conseguiremos realizar nada na França, e aproxima-se o dia em que meus filhos não terão pão para comer.” S. Kracauer, Jacques Offenbach und das Paris seiner Zeit, Amsterdam, 1937, p. 139.
[a 18a, 8]
Muitos manifestos precederam o Manifesto Comunista. (Por exemplo, o Manifeste de la Démocratie Pacifique, de Consideram, em 1843.)
[a 19, 1]
Fourier considera os sapateiros “pessoas tão polidas quanto as outras, quando reunidas numa associação”. Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, Paris, 1829, p. 221.
[a 19, 2]
[...]
Proudhon sobre Hegel: “A antinomia não se resolve: eis o vício fundamental de toda a filosofia hegeliana. Os dois termos do qual ela se compõe se equilibram... Um equilíbrio não é uma síntese.” “... Não nos esqueçamos”, complementa Cuvillier, “que Proudhon foi contador durante muito tempo”. Em outra passagem, Proudhon fala dos pensamentos que determinam sua filosofia como “idéias elementares, comuns à manutenção dos livros e à metafísica”. Armand Cuvillier, “Marx et Proudhon”, in: À la Lumière du Marxisme, vol. II, Paris, 1937, pp. 180-181.
[a 19, 4]
Em Die heilige Familie, Marx afirma que o princípio enunciado por Proudhon no texto seguinte já tinha sido apresentado em 1830 pelo economista inglês Sadler. Proudhon diz: ‘“Esta força imensa, que resulta da união e da harmonia dos trabalhadores, da convergência e da simultaneidade de seus esforços, o capitalista não a pagou.’ Foi assim que 200 granadeiros conseguiram, em algumas horas, erguer na Place de la Concorde o obelisco de Luxor, enquanto um só, trabalhando 200 dias, não teria chegado a nenhum resultado. ‘Separai os operários uns dos outros, e pode ser que a jornada paga a cada um ultrapasse o valor de cada produto individual; mas não é disso que se trata. Uma força de mil homens, agindo durante vinte dias, foi paga como a força de um só seria paga durante 55 anos; mas essa força de mil fez em vinte dias o que a força de um só, repetindo seu esforço durante um milhão de séculos, não conseguiria concluir: será que este é um negócio justo?’” Armand Cuvillier, “Marx et Proudhon”, in: À la Lumiere du Marxisme, vol. II, Paris, 1937, p. 196.
[a 19, 5] 

19 O Passage Raoult  ou: Raoul  abrigava nos anos 1860 reuniões de comissões operárias; cf. Jean Tulard, org., Dictionnaire du Second Empire, Paris, Fayard, 1995, p. 592 (verbete Greves et droit de grève). (w.b.)
20 O que está em questão é o esboço do Manifesto Comunista. (E/M) 
21 A segunda visita de Engels a Paris deu-se em outubro e novembro de 1847. (E/M)
22 O artigo foi publicado em 29 de junho de 1848. (R.T.)
23 Ver nota anterior. (R.T.) 
24 Em 15 de maio de 1848, após uma manifestação em favor da Polônia, uma multidão invadiu o recinto da recém-eleita Assembléia Constituinte, de maioria conservadora: a ordem foi restabelecida pela Garde Nationale. 25 de junho foi o último dia em que a insurreição demonstrou seu poder; os generais Bréa e Négrier, assim como o deputado Charbonnel foram mortos pelos rebeldes. Na manhã seguinte, o general Cavaignac, depois de ter rejeitado as propostas de negociação dos rebeldes, lançou contra eles um ataque esmagador em seu último reduto, no faubourg Saint-Antoine. (E/M) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.   

14.6.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SANTA MONICA [1941-1947]

 
 
E.P. ODE POUR L’ELECTION DE SON SEPULCHRE
  
Por três anos tentou, à parte
De sua idade, restaurar a arte
Morta da poesia; manter o sublime
Dos velhos tempos. Este seu crime −

Se tanto. Mas vendo que surgira
Fora do tempo, num país semi-selvagem,
Passou a arrancar lírios de uma vagem;
Capaneu; truta para uma isca de mentira;

ἴδμεν γάρ τοι πάν πάνθ', όσ' ένι Τροίη
No ouvido desobstruído;
Dando, nas rochas, pouco pano,
O oceano o apanhou nesse ano.
 
Sua real Penélope: Flaubert.
Pescou por ilhas obsedantes,
Observando o penteado de Circe
Antes que os lemas dos quadrantes.
 
Indene à marcha dos acontecimentos,
Passou de memória no an trentiesme
De son eage. Ao diadema
Das musas nenhum aditamento.
II
A Idade exigia uma imagem
De sua ágil maquilagem,
Tablado para um novo ato,
Nada do ático artefato;
 
Não, nada dos confusos pesadelos
Do olhar introspectivo;
Melhor paliativo
Que os clássicos por modelos!
 
Idade exigia um molde em gesso
Feito com rapidez, não obra-prima,
Cinema em prosa, o avesso
Do alabastro, a escultura da rima.
III
Rosa-chá pó-de-arroz
Suplantam a musselina de Cós,
A pianola abafa
O bárbitos de Safo.
 
Cristo sucede a Dioniso,
O falus e o mel
Dão lugar ao cilício;
Caliban bane Ariel.
 
Tudo flui − dizia
O inclito Heracleitos;
Mas ouropéis perfeitos
Restarão destes dias.
 
Mesmo o Belo cristão
Decai face a Samotrácia;
Já vemos το καλόν
Cotado no mercado.
 
Carne de fauno é-nos defesa
Como a sacra visão;
Temos por hóstia a imprensa,
O voto por circuncisão.
 
Todos iguais perante a lei.
Livres de Pisistrato,
Um eunuco ou um rato
Será nosso rei.
 
Ó lúcido Apolo,
τίν᾽ ἄνδρα, τίν' ἥρωα, τίνα θεόν
A que deus, homem, herói
Destina-se a coroa de latão!
IV
Esses, afinal, combateram,
e alguns acreditando,
pro domo, afinal...

Alguns por amor às armas.
alguns por aventura,
alguns por medo da fraqueza,
alguns por medo da censura,
alguns por amor à mortandade, em pensamento, 
aprendendo mais tarde...
alguns com medo, aprendendo a amar a mortandade;

Morreram uns, pro patria,
não dulce, não et decor...
andaram de olhos fundos pelos inferno,
acreditando nas mentiras dos mais velhos,
depois, descrentes, voltaram
para casa, voltaram para uma mentira,
para muitos engodos,
para velhas mentiras e nova infâmia;
a usura decrépita e adiposa
e os mentirosos nos postos públicos.
 
Audácia como nunca antes,
desperdício como nunca antes.
Sangue jovem e sangue quente,
belas faces e corpos sãos;
 
vigor como nunca antes
 
franqueza como nunca antes,
desilusões como nunca se ouviu nos velhos dias,
histerias, confissões de trincheira,
riso frouxo de ventres mortos.
V
Ali jaz uma miríade,
E dos melhores, entre eles,
Por uma velha cadela desdentada,
Por uma civilização de remendos,
 
Viço nos lábios sorridentes,
Faísca de olhos sob a pálpebra da terra,
 
Por duas grosas de cotos de estátuas,
Por algumas pilhas de livros rotos.
 
POUND, Ezra Loomis (1885-1972). E.P. ODE POUR L’ELECTION DE SON SEPULCHRE; traduzido por Augusto de Campos em: Poesia / Ezra Pound; tradução, organização e notas de Augusto de Campos; traduções de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino; textos críticos de Haroldo de Campos São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed.Universidade de Brasília, 1993. 
6. ZURIQUE/BERLIM ORIENTAL [1947-1956] 
5. SANTA MONICA [1941-1947] 
 
E. P. Auswahl seines Grabstein
 
Die Herstellung von Versteinerungen
Ist ein mühsames Geschäft und
Kostspielig. Ganze Städte
Müssen in Schutt gelegt werden
Und unter Umständen umsonst
Wenn die Fliege oder der Farn
Schlecht plaziert wurde. Überdies
Ist der Stein unserer Städte nicht haltbar
Und auch Versteinerungen
Halten sich nicht sicher. [c. 1954]
 
E. P. escolhe sua lápide
 
A produção de petrefatos
um empreendimento árduo e
Dispensioso. Cidades inteiras
Precisam virar escombros e, sob
Certas circunstâncias, em vão
Se a mosca ou feto tiver sido
Mal posicionado. Além disso
A pedra de nossas cidades não é durável
E petrefatos tampouco
Perduram seguros.

Wie es war
 
Deine Sorg war meine Sorg
Meine Sorg war deine
Hattest du eine Freude nicht mit
Hatt ich selber keine. [1956]
 
Como era
 
Teu zelo era meu zelo
Meu zelo era teu
Não tivesses nisso tua alegria
A minha eu não teria.


Der Zar hat mit ihnen gesprochen
Mit Gewehr und Peitsche
Am blutigen Sonntag. Dann
Sprach zu ihnen mit Gewehr und Peitsche
Alle Tage der Woche, alle Werktage
Er verdiente Mörder des Volkes.
 
Die Sonne der Völker
Verbrannte ihre Anbeter.
Der größte Gelehrte der Welt
Hat das kommunistische Manifest vergessen.
Der genialste Schüler Lenins
Hat ihn aufs Maul geschlagen.
 
Aber jung war er tüchtig
Aber alt war er grausam
Jung
War er nicht Gott.
 
Der zum Gott wird
wird dumm. [1956]
 
O Czar falou a eles
Com armas e açoites
No domingo sangrento. Depois
Falou a eles com armas e açoites
Todos os dias da semana, todo dia útil
Ele, benemérito algoz do povo.
 
O sol dos povos
Torrou os seus adoradores
O maior mestre do mundo
Esqueceu o Manifesto Comunista.
O aluno mais genial de Lênin
Deu-lhe um murro na boca.
 
Mas, quando jovem, era ativo
Mas, quando velho, era atroz
Jovem
Não era Deus.
 
Quem vira Deus
Emburrece.

Die Gewichte auf der Waage 
Sind groß. Hinausgeworfen
Wird auf die andere Skale die Klugheit
Und als nötige Zuwaag
Die Grausamkeit.
 
Die Anbeter sehen sich um:
Was war falsch? Der Gott?
Oder das Beten?
 
Aber die Maschinen?
Aber die Siegestrophäen?
Aber das Kind ohne Brot?
Aber der blutenden Genossen
Ungehörter Angstschrei?
 
Der alles befohlen hat
Hat nicht alles gemacht.
 
Versprochen worden sind Äpfel
Ausgeblieben ist Brot. [1956]
 
Os pesos na balança
São grandes. Serão jogados
Na outra escala a perspicácia
E como contrapeso necessário
A crueldade.
 
Os devotos olham ao redor:
O que era falso? O deus?
Ou a reza?
 
Mas, e as máquinas?
Mas, e os troféus da vitória?
Mas, e a criança sem pão?
Mas, e o grito de medo inaudito
Dos camaradas sangrando?
 
Quem tudo ordenou
Não fez isso tudo.
 
O prometido foram maçãs
O que ficou de fora, pão.
 
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)  

entra/CATALVNYA ROMÀNICA XV EL PALLARS: EL PALLARS SOBIRÀ, EL PALLARS JVSSÀ/Antoni Pladevall i Font

FONT, Antoni Pladevall i. CATALVNYA ROMÀNICA XV EL PALLARS: EL PALLARS SOBIRÀ, EL PALLARS JVSSÀ / Coordinador científic de lobra Joan-Albert Adell i Gisbert Arquitecte. Amb la col·laboració de la Generalitat de Catalunya i sota l’alt patrocini de L’Organització de les Nacions Unides per a l’educació, la ciència i la cultura (UNESCO). — Barcelona: Fundació Enciclopèdia Catalana, 1993. 

Demônio da mão de vidro/Harlan Ellison/Marshall Rogers/sai

ELLISON, Harlan (1934-2018); Rogers, Marshall (1950-2007). Demônio da mão de vidro / Demon with a Glass Hand / escrito por Harlan Ellison; desenhado por Marshall Rogers; cores Chris Goldberg, Rene Reynolds, Marshall Rogers; 1986. — São Paulo: Editora Globo; DC Comics, 1989.

Trólebus IMC/E-Trol: a solução que a prefeitura de São Paulo insiste em ignorar • Thiago Silva • 11/06/2026

PLAMURB

A eletrificação do transporte coletivo tornou-se uma prioridade em diversas cidades do mundo. Em São Paulo, esse movimento ganhou força nos últimos anos com a adoção crescente de ônibus movidos exclusivamente por baterias. No entanto, enquanto a administração municipal concentra seus esforços nessa tecnologia, uma alternativa mais eficiente, flexível e madura acaba sendo deixada de lado: o trólebus IMC, também conhecido como E-Trol.

Essa escolha levanta um questionamento importante: por que apostar exclusivamente em ônibus a bateria quando existe uma tecnologia capaz de combinar as vantagens dos trólebus tradicionais com a flexibilidade operacional dos veículos autônomos? A resposta mostra que há espaço, e muito espaço, para os trólebus IMC/E-Trol na mobilidade paulistana.

A substituição dos ônibus movidos a diesel é uma necessidade ambiental e operacional. A redução das emissões de poluentes e dos gases de efeito estufa é fundamental para melhorar a qualidade do ar e cumprir metas climáticas.

Entretanto, a eletrificação baseada apenas em baterias apresenta alguns desafios importantes. Os veículos precisam carregar grandes conjuntos de baterias, que aumentam o peso total do ônibus, reduzem a capacidade de passageiros e possuem vida útil limitada. Além disso, a recarga demanda infraestrutura específica e, dependendo da operação, pode exigir longos períodos fora de serviço ou investimentos elevados em carregadores de alta potência.

Outro fator relevante é que as baterias representam uma parcela significativa do custo do veículo. Quanto maior a autonomia exigida, maior precisa ser o conjunto de baterias, elevando os custos de aquisição e reposição.

Em uma metrópole como São Paulo, onde algumas linhas operam durante praticamente 24 horas por dia e percorrem grandes distâncias, essas limitações não podem ser ignoradas.

O que é o trólebus IMC/E-Trol?

O conceito de In Motion Charging (IMC), ou carregamento em movimento, representa uma evolução natural do trólebus tradicional.

Diferentemente dos modelos convencionais, que dependem integralmente da rede aérea, os veículos IMC possuem baterias embarcadas de menor capacidade. Enquanto trafegam sob a rede elétrica, alimentam seus motores diretamente pela infraestrutura aérea e, simultaneamente, recarregam as baterias.

Ao deixar os trechos eletrificados, o veículo continua operando normalmente utilizando a energia armazenada. Quando retorna à rede aérea, as baterias voltam a ser carregadas.

Na prática, trata-se da combinação de um trólebus com um ônibus elétrico, reunindo o melhor dos dois mundos.

Diversas cidades europeias vêm adotando exatamente essa solução. Em vez de abandonar os trólebus, muitas redes foram modernizadas para o padrão IMC, permitindo a expansão da operação sem a necessidade de eletrificar integralmente todos os trajetos.

O resultado tem sido a redução dos custos de infraestrutura, menor dependência de grandes baterias e melhor eficiência energética. Enquanto diversas cidades avançam nessa direção, São Paulo corre o risco de seguir o caminho oposto, abrindo mão de uma tecnologia já consolidada e adaptada à realidade urbana.

A infraestrutura já existe

Um dos maiores equívocos quando se discute a expansão dos trólebus em São Paulo é a ideia de que seria necessário começar do zero. A cidade possuiu uma das maiores redes de trólebus da América Latina, construída ao longo de décadas. Mesmo hoje, a rede é a maior da América do Sul, apesar das reduções ocorridas anos atrás. Eixos importantes como a Celso Garcia, Rio das Pedras, Regente Feijó e Avenida Nazaré, além do Corredor Paes de Barros, já contam com infraestrutura elétrica instalada. Essa rede poderia funcionar como uma espinha dorsal para a expansão gradual da operação IMC. Linhas que atualmente exigiriam ônibus totalmente dependentes de baterias poderiam utilizar trechos eletrificados para alimentação e recarga, reduzindo significativamente a necessidade de grandes bancos de baterias nas garagens. Em vez de abandonar uma infraestrutura já existente, seria possível modernizá-la e aproveitá-la de maneira muito mais eficiente.

Uma das principais vantagens do modelo IMC é justamente a redução da dependência das baterias. Como o veículo passa parte significativa do tempo alimentado pela rede aérea, não há necessidade de transportar enormes quantidades de baterias para garantir autonomia durante todo o percurso. Isso traz diversos benefícios:

  • Menor peso do veículo;
  • Menor consumo energético;
  • Menor desgaste dos componentes;
  • Maior capacidade de transporte de passageiros;
  • Menores custos de substituição de baterias;
  • Menor impacto ambiental associado à fabricação e descarte desses equipamentos.

Em outras palavras, o IMC utiliza as baterias de forma inteligente, reservando sua utilização apenas para os trechos onde elas realmente são necessárias. A seguir, produzimos uma tabela mostrando uma situação cotidiana adversa e como o trólebus IMC pode ser a melhor alternativa:

Tabela com os benefícios do Trólebus IMC/E-trol (Foto: Thiago Silva)

Outro aspecto frequentemente ignorado é a confiabilidade. Um ônibus elétrico convencional depende integralmente do estado de carga de suas baterias. Qualquer problema relacionado à autonomia pode impactar diretamente a operação. Já o trólebus IMC possui uma fonte contínua de energia sempre que está sob a rede aérea. Isso reduz os riscos operacionais e garante maior previsibilidade ao serviço.

Além disso, em situações de emergência, desvios ou interrupções temporárias, o veículo pode circular fora da rede utilizando suas baterias, algo impossível nos antigos trólebus convencionais. Essa flexibilidade elimina uma das principais críticas históricas ao sistema.

O debate frequentemente é apresentado como uma disputa entre trólebus e ônibus a bateria. Na realidade, essa oposição não faz sentido. As duas tecnologias podem coexistir e atender necessidades diferentes. Linhas periféricas ou de menor demanda podem ser perfeitamente atendidas por ônibus elétricos convencionais. Já corredores estruturais, de alta frequência e elevada demanda energética, são candidatos naturais para a utilização de trólebus IMC/E-Trol.

Não se trata de escolher uma tecnologia e descartar a outra, mas sim de utilizar cada solução onde ela oferece o melhor resultado.

Conclusão

A busca por um transporte coletivo mais limpo não deve ser guiada apenas por tendências ou modismos tecnológicos, mas por critérios de eficiência, custo-benefício e sustentabilidade de longo prazo.

Nesse contexto, o trólebus IMC/E-Trol surge como uma das soluções mais completas disponíveis atualmente. Ele combina a alimentação contínua dos trólebus tradicionais com a flexibilidade dos ônibus elétricos a bateria, reduzindo custos operacionais, diminuindo a dependência de grandes bancos de baterias e aproveitando uma infraestrutura que São Paulo já possui.

Ao concentrar seus esforços exclusivamente nos ônibus a bateria, a cidade corre o risco de desperdiçar décadas de investimento em eletrificação do transporte coletivo. Em vez de abandonar os trólebus, São Paulo deveria enxergar no IMC/E-Trol a evolução natural de um sistema que sempre esteve à frente de seu tempo.

O futuro da mobilidade elétrica sobre pneus não precisa escolher entre fios ou baterias. A melhor solução pode estar justamente na combinação inteligente dos dois.

Thiago Silva