XIX
O BRINQUEDO DO POBRE
QUERO DAR A IDÉIA de uma distração inocente. Há tão poucos divertimentos que não sejam criminosos!
Quando saírdes, de manhã, com a firme intenção de vagabundear pela estradas, enchei os bolsos de pequeninas invenções de um soldo — tais como o polichinelo chato movido por um cordão, os ferreiros que batem na bigorna, o cavaleiro e seu cavalo cuja cauda é um apito — e pelas tavernas, ao pé das árvores, presenteai os meninos desconhecidos e pobres que fordes encontrando. Então vereis os seus olhos crescerem, crescerem... A princípio, não ousarão tocar no presente: duvidarão da própria felicidade. Depois, suas mãos agarrarão vivamente o brinquedo e eles fugirão, como fazem os gatos, que, tendo aprendido a desconfiar do homem, vão comer longe de nós o bocado que lhes damos.
Numa estrada, por trás das grades de um vasto jardim, ao fundo do qual surgia a brancura de um lindo castelo batido de sol, via-se uma criança fresca e bela, vestida de uma dessas roupas de campo, tão garridas
O luxo, a ociosidade e o espetáculo habitual da riqueza tornam meninos tão belos que nos parece terem sido feitos de outra massa que não a dos filhos da mediania ou da pobreza.
Ao lado dela, jazia sobre a relva um brinquedo esplêndido, tão quanto o seu dono, envernizado, dourado, com um traje cor de púrpura coberto de plumas e vidrilhos. O pequeno, porém, não se ocupava com seu brinquedos favorito, e eis o que ele observava:
Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia outro menino, sujo, raquítico, tisnado, um desses garotos-párias em que um olho imparcial descobriria a beleza, se, como o olho do entendido a vinha uma pintura ideal sob um verniz de carruagem, o limpasse da repugnante pátina da miséria.
Através daquelas vergas simbólicas, que separavam dois mundos, a estrada real e o castelo, o menino pobre mostrava o seu brinquedo ao menino rico, e este o examinava com avidez, como objeto raro e desconhecido. Ora esse brinquedo, que o pequeno porcalhão atraía com afagos, agitava e sacudia, uma espécie de gaiola, era um rato vivo! Os pais, decerto por economia, haviam tirado o brinquedo da própria Vida.
E as duas crianças, riram uma para a outra, fraternalmente, com dentes de uma brancura igual.
XXVI
OS OLHOS DOS POBRES
AH! VOCÊ QUER SABER por que a odeio hoje... Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo: pois você é, suponho, o mais belo exemplo de impermeabilidade feminina que se possa encontrar.
Havíamos passado juntos um longo dia, que me parecera curto. Tínhamos jurado um ao outro que todos os nossos pensamentos nos seriam comuns, e nossas duas almas, daquele dia em diante, não seriam mais do que uma só: sonho que, além de tudo, nada tem de original, a não ser que, sonhado por todos os homens, ainda não foi realizado por nenhum.
Ao anoitecer, um pouco fatigada, você desejou sentar-se diante de um café novo, na esquina de um novo bulevar que, ainda cheio de entulho, já ostentava glorioso os seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás mostrava ali todo o calor de uma estréia, e alumiava com todas as forças as paredes de uma brancura cegante, as toalhas rutilantes dos espelhos, os ouros dos astrágalos e das cornijas, os pajens de faces rechonchudas levados de rastos pelos cães atrelados, as damas rindo ao falcão encarapitado em seu punho, as ninfas e as deusas trazendo à cabeça frutas, pastéis e caças, as Hebes e os Ganimedes apresentando, de braço estendido, a pequena ânfora de bavaroises ou o obelisco bicolor dos sorvetes mistos: toda a história e toda a mitologia postas a serviço da gula.
Na calçada, diante de nós, víamos plantado um pobre homem dos seus quarenta anos, de ar fatigado, barba meio grisalha, que segurava por uma das mãos um menino e trazia no outro braço um pequenino ser ainda muito frágil, incapaz de caminhar. Servindo de ama, fazia os filhos respirarem o ar da noite. Todos em trapos. Eram três fisionomias extraordinariamente sérias, e seis olhos que contemplavam o novo café com admiração igual, mas diversamente colorida pela idade.
Os olhos do pai diziam: — “Como é belo! como é belo! Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo foi transportado para estas paredes.” Os olhos do menino: — “Como é belo! como é belo! Mas é uma casa onde só podem entrar as pessoas que não são como nós.” Os olhos do menorzinho, esses, de tão fascinados, revelavam apenas uma alegria estúpida e profunda.
Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e abranda o coração. Em relação a mim, tinham razão as canções, naquela noite. Eu não só me sentia enternecido com essa família de olhos, senão também um pouco envergonhado de nossos copos e nossas garrafas, maiores que à nossa sede. Voltava os meus olhares para os seus, querido amor, neles procurando ler meu pensamento; mergulhava nos seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes, habitados pelo Capricho e inspirados
pela Lua, quando você me disse:
— Que gente insuportável aquela, com uns olhos escancarados como porta-cocheiras! Você não poderia pedir ao dono do café que os afastasse daqui?
Tanto é difícil entenderem-se as criaturas, meu anjo querido, e tão incomunicável é o pensamento, mesmo entre aqueles que se amam!
XXVIII
A MOEDA FALSA
QUANDO nos íamos afastando da tabacaria, o meu amigo fez cuidadosa separação de suas moedas no bolso esquerdo do colete insinuou pequenas peças de ouro no direito, pequenas peças de prata; no bolso esquerdo da calça, um punhado de volumosos soldos; e enfim, no direito, uma peça de prata que ele particularmente examinara.
— “Singular e minuciosa distribuição!” — disse eu comigo.
Encontramos um pobre que nos estendeu o boné, a tremer. — Não conheço nada mais inquietante que a eloqüência muda desses olhos súplices que, para o homem sensível que neles sabe ler, encerram, ao mesmo tempo, tanta humildade e tantas censuras. Ele aí descobre algo que se aproxima de profundeza de sentimento complexo, própria dos olhos lacrimejantes dos cães batidos.
A dádiva do meu amigo foi muito mais considerável que a minha, e eu disse-lhe:
— Você tem razão: depois do prazer de surpreender-se, não há prazer maior do que causar uma surpresa.
— Era uma moeda falsa — respondeu sereno, como para se justificar da sua prodigalidade.
No entanto, em meu miserável cérebro, sempre ocupado em fazer de um
argueiro um cavaleiro (com que exaustiva faculdade me brindou a natureza!), entrou súbito a idéia de que tal procedimento, da parte do meu
amigo, só era desculpável pelo desejo de criar um acontecimento na vida
daquele pobre-diabo, talvez até de conhecer as conseqüências diversas,
fu- nestas ou de outra espécie, que uma moeda falsa pode engendrar
quando nas mãos de um mendigo. Não poderia ela multiplicar-se em moedas
verdadeiras? não poderia, também, arrastá-lo à prisão? Talvez um
taberneiro ou um padeiro, por exemplo, mandasse prendê-lo como
fabricante ou passador de moeda falsa. Também poderia acontecer que a
moeda falsa viesse a tornar-se, para um pobre, humilde especulador, o
germe de uma riqueza espírito do meu amigo e tirando todas as deduções
possíveis de todas as de alguns dias. E assim a minha fantasia se
espraiava, emprestando asas ao hipóteses possíveis. Ele, porém, cortou de repente o meu devaneio, retomando as minhas próprias palavras:
— Sim, você tem razão: não há prazer mais fino do que surpreender um homem dando-lhe mais do que ele espera. Fitei-o no branco do olho, e espantei-me de ver que nos seus olhos brilhava incontestável candura. Então percebi claro que ele quisera fazer, ao mesmo tempo, uma caridade e um bom negócio; ganhar quarenta soldos e coração de Deus; conquistar o Paraíso economicamente; enfim, pilhar de graça o diploma de homem caridoso. Quase lhe perdoaria o desejo do criminosos prazer de que pouco antes o supunha culpado; acharia curioso, singular, que ele se divertisse em comprometer os pobres; mas não
perdoarei jamais a inépcia do seu cálculo. Se nunca nos podemos escusar de ser maus, há, contudo, algum mérito em sabermos que o somos; porém o mais irreparável dos vícios é fazer o mal por estupidez.
XXIX
O JOGADOR GENEROSO
XXX
A CORDA
Charles Baudelaire. Fotografia de Nadar.
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris], tradução Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, tradução do poema epílogo de Manuel Bandeira / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso;
traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio
Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto
Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira,
Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira,
Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni,
Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e
notas adicionais Ivo Barroso. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.