13.7.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

 
Evocava-se ao mesmo tempo o gênio dos jacobinos e dos industriais , atribuía-se este dito a Luís Filipe: Deus seja louvado e minhas boutiques também. As passagens como templo do capital mercantil. 

[A 2, 2] 

 

A passagem como construção em ferro fica na fronteira do espaço largo (Breitraum). Esta é uma das razões decisivas de sua aparência “antiquada”. Ela ocupa aqui uma posição híbrida, que tem certa analogia com a da igreja barroca: “a cobertura (Halle) em abóbada, que admite até mesmo as capelas apenas como alargamento do seu próprio espaço, mais largo que nunca. Mas também nesta cobertura barroca prevalece a tendência ‘para o alto’, o êxtase dirigido às alturas, como rejubila nos afrescos do teto. Enquanto os espaços das igrejas pretendem servir a algo mais do que para fins de reunião, enquanto querem abrigar a idéia do eterno, o espaço único e contínuo apenas poderá satisfazê-los se a altura superar a largura.” A. G. Meyer, Eisenbauten , p. 74. Inversamente, pode-se dizer que permanece algo de sagrado, um resquício de nave de igreja, nesta fileira de mercadorias que é a passagem. Do ponto de vista funcional, a passagem já se encontra no domínio do espaço largo, porém, do ponto de vista arquitetônico, ainda está no espaço da antiga “cobertura”.

[F 4, 5]

 



Benjamin pretendia criar Passagens como a Torre Eiffel: 12000 peças de metal, milimetricamente ajustadas e ligadas por 2 1/2 milhões de parafusos. Uma “estrutura em aço da historiografia materialista.”
 

Sarah Bernhardt

 

Charles Baudelaire. Fotografia de Nadar.

 

Cocotes com crinolinas. Litografia de Honoré Daumier. 

 

 Litografia de Honoré Daumier do Nadar fotografando e os Esgotos de Paris, fotografados por Nadar (1861-1862).

 

Esquerda: Alexandre Dumas, pai, 1855. Fotografia de Nadar (esquerda). Dumas empregava mais de 8000 pessoas para os romances publicados com seu nome. 

Direita: “Esta obra é minha pois eu a assino.

Um pobre diabo observa com tristeza um jovem senhor que assina o quadro que ele havia pintado.

 

Barricada durante a Comuna de Paris, março de 1871.
 

Manuscrito das Passagens, em caracteres góticos. de [N 1, 1] até [N1, 11].

N
[Teoria do Conhecimento, Teoria do Progresso]
[...]

A reforma da consciência consiste apenas em despertar o mundo ... do sonho de si mesmo.

Karl Marx, Der historische MaterialismusDie Frühschriften, Leipzig, 1932, vol. I, p. 226 (Carta de Marx a Ruge, Kreuzenach, setembro de 1843.)

Nos domínios de que tratamos aqui, o conhecimento existe apenas em lampejos. O texto é o trovão que segue ressoando por muito tempo.

[N 1, 1]

Comparação das tentativas dos outros com empreendimentos de navegação, nos quais os navios são desviados do Pólo Norte magnético. Encontrar esse Pólo Norte. O que são desvios para os outros, são para mim os dados que determinam a minha rota. - Construo meus cálculos sobre os diferenciais de tempo - que, para outros, perturbam as “grandes linhas da pesquisa.

[N 1, 2]

Dizer algo sobre o próprio método da composição: como tudo em que estamos pensando durante um trabalho no qual estamos imersos deve ser-lhe incorporado a qualquer preço, Seja pelo fato de que sua intensidade aí se manifesta, seja porque os pensamentos de ão carregam consigo um télos em relação a esse trabalho. É o caso também deste projeto, que deve caracterizar e preservar os intervalos da reflexão, os espaços entre as partes essenciais deste trabalho, voltadas com máxima intensidade para fora.

[N 1, 3]

[…]

O pathos deste trabalho: não há épocas de decadência. Tentativa de ver o século XIX de maneira tão positiva quanto procurei ver o século XVII no trabalho sobre o drama barroco.1 Nenhuma crença em épocas de decadência. Assim também (fora dos limites) qualquer cidade para mim é bela; e, por isso, não acho aceitável qualquer discurso sobre o valor maior ou menor das línguas. 

1 W. Benjamin, Ursprung des deutschen Trauerspiels (1928), in: GS I, 203-430; Origem do Drama Barroco Alemão (ODBA). (R.T.; w.b.)

[N 1, 6]

[...]

Este trabalho deve desenvolver ao máximo a arte de citar sem usar aspas. Sua teoria está intimamente ligada à da montagem.  

[N 1, 10]

 

Referências topográficas das Passagens

 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.  

11.7.26

Charles Baudelaire/Poesia e prosa poética/Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris]/Aurélio Buarque de Holanda Ferreira/continua

 

VIII 

O Cão e o Frasco


 Meu belo cão, meu cãozinho, meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente perfume comprado no melhor perfumista da cidade .
E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal correspondente ao riso e ao sorriso, aproxima-se e, curioso, mete o nariz úmido no frasco destampado; porém subitamente, recuando de susto, late contra mim, à feição de reprimenda .
 Ah, miserável cão! Se eu te houvesse oferecido um embrulho de excremento, decerto o cheirarias com delícia e talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha triste vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem apresentar perfumes delicados, que o exasperam, mas imundíces cuidadosamente escolhidas. 


BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris], tradução Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, tradução do poema epílogo de Manuel Bandeira / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

Casablanca • Michael Curtiz • Humphrey Bogart • Ingrid Bergman • Claude Rains • Peter Lorre • Marcel Dalio • Cinesesc

CineSesc: Clássicos do Cinema de Rua 

Aquele filme bem Hollywood, onde, mesmo se você nunca assistiu, já assistiu muitas vezes. Mas este tem aquele interesse que os atores estrangeiros interpretam estrangeiros (mesmo que falando inglês, como disse na primeira frase). Mas, mesmo entre clichês, até chorei na sequencia da ajuda no jogo para o casal juntar dinheiro (e nem um pouco pela sequencia final).
 
Sexta-feira, 10 Julho 2026 | 20:00
CineSesc

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

p

[Materialismo Antropológico, História das Seitas] 
<fase tardia>
Extraído da constituição das Vesuvianas: “As cidadãs deverão formar um contingente para os exércitos de terra e mar... As recrutas formarão um exército designado como reserva, que será distribuído em três divisões: a das operárias, a das vivandeiras, a de caridade... Sendo o casamento uma associação, cada um dos dois esposos deve participar de todos os trabalhos. Todo marido que se recusar a fazer sua parte nos cuidados domésticos será condenado ... a assumir, em vez de seu serviço pessoal na Garde Nationale, o serviço de sua mulher na Guarda Cívica.” Firmin Maillard, La Légende de la Femme Émancipée, Paris, pp. 179 e 181.
[p 5, 1]
Os sentimentos contraditórios provocados por Hegel nos membros da Jovem Alemanha, que oscilavam entre uma forte atração e uma repulsa ainda mais forte, manifestam-se da maneira mais eloqüente em Quarantäne im Irrenhause [Quarentena no manicômio] de Gustav Kühne... Pelo fato de a Jovem Alemanha dar mais ênfase ao livre-arbítrio subjetivo que à liberdade objetiva, os jovens hegelianos desprezavam a ‘confusão sem princípios’ de seu egoísmo beletrista... Ouviu-se ecoar nas fileiras da Jovem Alemanha o temor de que a dialética implacável da doutrina hegeliana pudesse privar a juventude da força necessária ... para a ação, mas esta preocupação revelou-se injustificada.” Ao contrário, quando os membros da Jovem Alemanha, “após a proibição de seus escritos, precisaram reconhecer que já tinham queimado o bastante as próprias mãos, e esperavam ainda poder viver uma vida bem burguesa com seu trabalho diligente, o seu ímpeto arrefeceu rapidamente”. Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, pp. 37-39.
[p 5, 2]
[...]
Engels sobre a região de Wuppertal: “Aqui, prepara-se um terreno magnífico para nosso princípio, e assim que pudermos pôr em movimento nossos valentes e inflamados tintureiros e branqueadores, tu ainda te surpreenderás com Wuppertal. Já faz alguns anos que os trabalhadores atingiram o último estágio da velha civilização; com um aumento acelerado de crimes, roubos e assassinatos, eles protestam contra a velha organização social. As mas são muito inseguras à noite, a burguesia é surrada, ferida a facadas e roubada. Se os proletários daqui evoluírem segundo as mesmas leis dos proletários ingleses, logo perceberão que esta forma de protesto ... é inútil, e protestarão como homens em sua capacidade plena: com os meios do comunismo.” Engels a Marx, outubro de 1844, de Barmen, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Briefwechsel, ed. org. pelo Instituto Marx-Engels-Lenin, vol. I, Zurique, 1935, pp. 4-5.
[p 5, 4]
[...]
r

[École Polytechnique]

<fase média>
[...]
Marx sobre a Insurreição de Junho: “Para que se dissipasse a última ilusão do povo, para que se rompesse totalmente com o passado, era necessário que também os ingredientes poéticos habituais da rebelião francesa — a entusiasmada juventude burguesa, os alunos da École Polytechnique, os chapéus de três pontas — ficassem do lado dos opressores.” Karl Marx, “Dem Andenken der Juni-Kämpfer”, in: Karl Marx als Denker, Mensch und Revolutionär, ed. org. por D. Rjazanov, Viena-Berlim, 1928, p. 36.
[r 3a, 2]
Ainda em 1871, em sua estratégia para a defesa de Paris, Blanqui volta a falar da inutilidade das fortificações que Luís Filipe mandou construir em torno de Paris.
[r 3a, 3]

<fase tardia>

As tendências pós-revolucionárias da arquitetura, que se manifestam em Ledoux, são caracterizadas por estruturas separadas em forma de blocos, aos quais se acrescentam, muitas vezes, escadas e pedestais “modulares”. Talvez seja possível perceber neste estilo um reflexo da arte napoleônica da guerra. A isso se acrescenta o empenho de criar certos efeitos por meio de massas. Segundo Kaufmann, “a arquitetura revolucionária pretendia impressionar valendo-se de massas gigantescas, do ímpeto das formas 
 daí a preferência pelas formas egípcias, que se expressava já antes da campanha napoleônica — e, finalmente, do tratamento do material. A bossagem ciclópica das Salinas, a possante estrutura do Palais de Justice de Aix, a extrema severidade da penitenciária projetada para esta cidade ... dão uma idéia exata dessa aspiração.” Emil Kaufmann, Von Ledoux bis Le Corbusier, Viena-Leipzig, 1933, p. 29.
[r 4, 1] 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

10.7.26

Stage Struck / Este Mundo é um Teatro • Gloria Swanson • Allan Dwan • Cinesesc

CineSesc: Clássicos do Cinema de Rua 

Filme de 1925 que já tinha toda a estrutura repetida ad infinitum pelo cinema Hollywoodiano. Sem contar a qualidade de grandes narrações através de imagens, o que se perdeu no cinema comercial pós-som (e grande parte do não comercial do mundo também...). Bom filme.

As sequências de abertura e final foram filmadas em cor (Technicolor) (em 25!).

Com a famosa, na época, Gloria Swanson. Que todos atualmente conhecem como protagonista de Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses) do Billy Wilder.

Quinta-feira, 9 Julho 2026 | 20:30
CineSesc

entra/abel carlevaro/Carlos García Tolsa/Enriqueta (habanera)/sai

Carlos García Tolsa nasceu na Península Ibérica (1858) e morreu em Montevideo (1905). A música Enriqueta foi composta por ele, conhecia por este CD que tenho do Abel Carlevaro. Um dia eu encontrei esta partitura no IMSLP do Francisco Tárrega (1852-1902) com o nome, impreciso, de Tango (!?).

CARLEVARO, Abel. Música popular del Río de la Plata / Carlos García Tolsa (1858 - 1905): Enriqueta (habanera) 4. Montevideo: Ayui/Ediciones Tacuapé s.r.l; 2003.

8.7.26

continua/CATALVNYA ROMÀNICA XV EL PALLARS: EL PALLARS SOBIRÀ, EL PALLARS JVSSÀ/Antoni Pladevall i Font

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase tardia>
Sobre “Um rio subterrâneo em Paris”, que foi coberto em grande parte no começo do século XVII: “O rio ... assim ... descia gradualmente o declive em direção à casa que, já no século XV, tinha dois salmões como insígnia, e que deu lugar à passagem de mesmo nome. Lá, tendo se avolumado com as águas que vinham dos Halles, ele se afundava sob a terrà, no lugar em que hoje começa a rua Mandar, e onde a entrada do grande esgoto, que ficou aberta durante muito tempo, deu passagem aos bustos de Marat e de Saint-Fargeau ... depois do Termidor... O rio se perdia ... no Sena, bem embaixo da cidade... Foi o suficiente para que o rio lodoso empesteasse em sua passagem os bairros que atravessava, e que formavam uma das partes mais populosas de Paris... Quando irrompeu a peste, via-se que ela surgia primeiro nas ruas em que o rio, com sua vizinhança infecta, produzia antecipadamente fixos de pestilência.” Édouard Fournier, Énigmes des Rues de Paris, Paris, 1860, pp. 18-19, 21-22 (“Une rivière souterraine dans Paris”).
[l 2, 1]
[...]
m

[ÓCIO e Ociosidade]1
 
 1 Neste arquivo temático, o ócio tradicional, aristocrático, criativo (o otium dos Romanos; o alemão Muße: o francês loisir, o inglês leisure) é confrontado com a ociosidade moderna (respectivamente Müßiggang, oisiveté e idleness). No sistema de valores burguês, baseado no negócio (de nec-otiumnegação do ócio), o ócio dos antigos e da sociedade aristocrática  isto é, o privilégio de estar livre da obrigação de trabalhar  é visto como algo superado e depreciado como ociosidade, ou seja, “indolência e preguiça. Por outro lado, a ociosidade moderna é um protesto contra a fetichização burguesa do trabalho. Nossa distinção entre ociosidade e ócio procura reproduzir a diferenciação entre Müßiggang e Muße, tentando expressar, ao mesmo tempo, através da afinidade fonética, a dialética da mudança e da continuidade históricas. (J.L.; w.b.)
 
<fase tardia>

Entrecruzamento notável: na Grécia antiga, o trabalho prático era reprovado e proscrito; embora fosse executado essencialmente por mãos escravas, era condenado principalmente por revelar uma aspiração vulgar por bens terrenos (riqueza); ademais, esta concepção serviu para a difamação do comerciante, apresentando-o como servo de Maramon: “Platão prescreve, nas Leis (VIII, 846), que nenhum cidadão deve exercer profissão mecânica; a palavra banausos, que significa artesão, torna-se sinônimo de desprezível...; tudo o que é artesanal ou envolve trabalho manual traz vergonha e deforma a alma e o corpo ao mesmo tempo. Em geral, os que exercem tais ofícios ... só se empenham para satisfazer ... o ‘desejo de riqueza, que nos priva de todo tempo de ócio...’ Aristóteles, por sua vez, opõe aos excessos da crematística [arte de adquirir riquezas] ... a sabedoria da economia doméstica... Assim, o desprezo que se tem pelo artesão estende-se ao comerciante: em relação à vida liberal, ocupada pelo ócio do estudo (scolé, otium), o comércio e ‘os negócios (neg-otium, ascolía) não têm, na maioria das vezes, senão um valor negativo.” Pierre-Maxime Schuhl, Machinisme et Philosophie, Paris, 1938, pp. 11-12.
[m 1, 1]
Quem desfruta do ócio, escapa da Fortuna; quem se rende à ociosidade, não lhe escapa. A Fortuna que o aguarda na ociosidade é, contudo, uma deusa menor do que aquela da qual escapou quem se entregou ao ócio. Esta Fortuna não se sente mais em casa na vita activa; seu quartel general é a vida mundana. “Os imaginários da Idade Média representam os homens que se dedicam à vida ativa ligados à roda da Fortuna, elevando-se ou rebaixando-se segundo O sentido em que ela gira, enquanto o contemplativo permanece imóvel no centro.” P.-M. Schuhl, Machinisme et Philosophie, Paris, 1938, p. 30.
[m 1, 2]
Sobre a caracterização do ócio. Sainte-Beuve no ensaio sobre Joubert: ‘“Conversar e conhecer, era sobretudo nisso que consistia, segundo Platão, a felicidade da vida privada.’ Esta classe de conhecedores e amadores ... quase desapareceu na França depois que cada um assumiu um ofício.” Correspondance de Joubert, Paris, 1924, p. XCIX.
[m 1, 3]
Na sociedade burguesa, a preguiça — para usar uma palavra de Marx — tinha deixado de ser “heróica” (Marx fala da “vitória ... da indústria sobre a preguiça heróica”. Bilanz der preußischen Revolution, em Gesammelte Schriften von Karl Marx und Friedrich Engels, vol. III, Smrtgart, 1902, p. 211.)
[m 1a, 1]
Na figura do dândi, Baudelaire procura encontrar para a ociosidade uma utilidade como aquela que o ócio tinha anteriormente. A vita contemplativa é representada e substituída por algo que se poderia chamar de vita contemptiva. (Comparar com a parte III de meu manuscrito <“Das Paris des Second Empire bei Baudelaire”>.)2
 2 W. Benjamin, Die Moderne, GS 1, 570-604  A Modernidade, OE III, pp. 67-101. (w.b.)
[m 1a, 2]

A experiência [Erfahrung] é o fruto do trabalho, a vivência [Erlebnis] é a fantasmagoria do ocioso.
3
3 Um traço marcante do pensamento de Benjamin é a diferenciação entre experiência e vivência. Enquanto Erfahrung (do verbo erfahren, que originalmente significava viajar", atravessar) pressupõe tradição e continuidade: Erlebnis, que é algo mais espontâneo, implica em choque e descontinuidade. Em notas relacionadas com o ensaio Über einige Motive bei Baudelaire (Sobre Alguns Temas em Baudelaire), Benjamin escreve que as vivências são, por natureza, não utilizáveis para a produção poética e que se trata de transformar as vivências em experiências (GS I, 1183). (E/M)
[m 1a, 3]
No lugar do campo de força que a humanidade perde com a desvalorização da experiência, um novo campo se abre para ela na forma do planejamento. A massa das uniformidades desconhecidas é mobilizada para fazer face à diversidade comprovada do tradicional. “Planificar”, a partir de então, só é possível em grande escala. Não mais em escala individual, isto é, nem para o indivíduo, nem por meio dele. Valéry tem razão ao dizer: “Os projetos elaborados ao longo de muito tempo, os profundos pensamentos de um Maquiavel ou de um Richelieu teriam hoje a consistência e o valor de um bom palpite na Bolsa de Valores.” Paul Valéry, Œuvres Complètes, J, Paris, 1938, p. 30.
[m 1a, 4]
[...]
A ociosidade possui poucos elementos representativos, embora seja muito mais exibida que o ócio. O burguês começou a envergonhar-se do trabalho. Ele, para quem o ócio não tem mais um significado em si mesmo, gosta de exibir sua ociosidade.
[m 2, 2] 
[...]
Estudante e caçador. O texto é uma floresta na qual o leitor é o caçador. Rumores na floresta: a idéia — a presa arisca; a citação — uma peça do quadro. (Nem todo leitor consegue encontrar a idéia.)
[m 2a, 1]
[...]
Na sociedade feudal, o ócio a desobrigação do trabalho — era um privilégio reconhecido. Na sociedade burguesa não é mais assim. O que distingue o ócio, tal como o conhece o feudalismo, é o fato de ele se comunicar com dois tipos importantes de comportamento social. A contemplação religiosa e a vida na corte representam, por assim dizer, as matrizes em que podia ser moldado o ócio do nobre, do prelado, do guerreiro. Estas atitudes — tanto a da piedade quanto a da representação  traziam vantagens ao poeta. Sua obra as favorecia pelo menos indiretamente, ao preservar o contato com a religião e com a vida na corte. (Voltaire foi o primeiro dos grandes escritores a romper com a Igreja, mas não deixou de assegurar para si um lugar na corte de Frederico, o Grande.) Na sociedade feudal, o ócio do poeta é um privilégio reconhecido. É somente na sociedade burguesa que o poeta é considerado como alguém que vive na ociosidade.
[m 2a, 5]
A ociosidade procura evitar qualquer relação com o trabalho de quem é ocioso, e mesmo qualquer relação com o processo de trabalho em geral. Isto diferencia a ociosidade do ócio.
[m 3, 1] 
[...]
O abalo da experiência relaciona-se intimamente com o abalo das certezas jurídicas. “No período liberal, o poder econômico estava intimamente ligado à propriedade jurídica dos meios de produção... Mas a rápida concentração ... do capital no século passado, impulsionada pelo desenvolvimento da técnica, fez com que a maior parte dos proprietários, em termos legais, fosse afastada da direção dos negócios... Uma vez que os meros detentores de títulos de propriedade são separados da produção efetiva..., restringe-se o seu horizonte ... e, por fim, o benefício que ainda obtêm de sua propriedade ... parece socialmente inútil... A idéia de um direito autônomo, com um conteúdo estável e independente da sociedade como um todo, perde sua força.” Ocorre assim “a abolição de todo direito determinado pelo conteúdo..., que é levada a cabo nos Estados autoritários”. Max Horkheimer, “Traditionelle und kritische Theorie, Zeitschrift für Sozialforschung, <ano VI>, 1937, n° 2, pp. 285-287; cf. Horkheimer, “Bemerkungen zur philosophischen Anthropologie”, op. cit., <ano IV>, n° 1, p. 12.
[m 3, 3]
[...]
Sobre o folhetim. Tratava-se, por assim dizer, de injetar na experiência, por via intravenosa, o veneno da sensação; isto quer dizer: ressaltar na experiência comum o caráter de vivência. A isto se prestava, em primeiro lugar, a experiência do habitante das grandes cidades. O folhetinista tira proveito disso. Ele torna a grande cidade estranha para os seus habitantes. Desta forma, ele é um dos primeiros técnicos convocados pela necessidade premente de vivências. (A mesma necessidade manifesta-se com a teoria da “beleza moderna”, tal como proposta por Poe, Baudelaire e Berlioz. A surpresa constitui-se nela como um elemento dominante.)
[m 3a, 2]
O processo de estiolamento da experiência começa já na manufatura. Em outras palavras: ele coincide, em seus primórdios, com os primórdios da produção de mercadorias. (Cf. Marx, Das Kapital, vol. I, ed. Korsch, Berlim, 1932, p. 336.)
[m 3a, 3]
A fantasmagoria é o correlato intencional da vivência.
[m 3a, 4]
Assim como o processo de trabalho industrial se destaca do artesanato, também a forma de comunicação correspondente a esse processo de trabalho — a informação — destaca-se da forma de comunicação correspondente ao processo de trabalho artesanal, que é a narração. (Cf. Walter Benjamin, “Der Erzähler”, Orient und Occident , nova série, n° 3, outubro de 1936, p. 21, parágrafo 3 até p. 22, parágrafo 1, linha 3; p. 22, parágrafo 2, linha 1 ate o fim, da citação de Valéry).5 É preciso prestar atenção a esta correlação para se ter uma idéia da força explosiva contida na informação. Esta força explode na sensação. Com ela, arrasa-se tudo que ainda evoca a sabedoria, a tradição oral, o lado épico da verdade.
5 W. Benjamin, “Der Erzähler”, GS II, 447, linhas 13-20; e 448, linhas 16-33; 0 Narrador, OE I, p. 205, linhas 15-22; e p. 206, linhas 14-29. (R.T.; w.b.)
[m 3a, 5]
[...]
O verdadeiro “flâneur assalariado” (Henri Béraud) é o homem-sanduíche.
[m 4, 2]
[...]
Pode-se deixar em suspenso a questão de saber se e em que sentido o ócio é determinado pela ordem de produção que o torna possível. Em vez disso, deve-se procurar elucidar o quão profundamente arraigados na ociosidade estão os traços da ordem econômica capitalista em que ela viceja.  Por outro lado, a ociosidade na sociedade burguesa — que desconhece o ócio — é uma condição da produção artística. E freqüentemente é a própria ociosidade que marca aquela produção artística de forma drástica com os traços que evidenciam seu parentesco com o processo de produção econômico.
[m 4a, 4]
O estudante “nunca termina de aprender”, o jogador “nunca se contenta com o que tem”, o flâneur “sempre tem algo a mais para ver”. A ociosidade traz em si o desígnio de uma duração ilimitada, que a distingue do simples prazer sensorial de qualquer natureza. (Seria correto dizer que o “mau infinito”, que predomina na ociosidade, aparece em Hegel como marca da sociedade burguesa?)
[m 5, 1]  
[...]
As palavras de Flaubert  “poucas pessoas serão capazes de imaginar como foi preciso estar triste para ressuscitar Cartago”9 — tornam transparente a correlação entre estudo e melancolia. (Esta, decerto, ameaça não somente esta forma de ócio, como também toda forma de ociosidade.) Cf. “mon âme est triste et j’ai lu tous les livres” [minha alma está triste e li todos os livros] (Mallarmé); “Spleen II” e “La voix” (Baudelaire); “Habe nun ach” [Ai de mim!] (Goethe ).10
9 Cf. a tese VII de W. Benjamin, Über den Begríff der Geschíchte, GS I, 696; Teses, p. 70. (w.b.)
10 Benjamin cita de memória um verso do poema Brise Marine, de Mallarmé: La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.[A carne é triste, sim, e eu li todos os livros. Mallarmé, ed. org. e trad. por Augusto de Campos (, Decio Pignatari e Haroldo de Campos), São Paulo/Editora Perspectiva, 2002, p. 44]; cf. J 87,5.  A citação de Goethe é o início do primeiro monólogo (Noite) de Fausto: Ai de mim! Da filosofia / Medicina, jurisprudência, / E, mísero eu! da teologia, / 0 estudo fiz, com máxima insistência. Fausto, ed. org. por Marcus Mazzari, trad. de Jenny Klabin Segai, São Paulo/Editora 34, 2004, p. 63. (J.L.; w.b.)  
[m 5, 3]
O elemento especificamente moderno se manifesta em Baudelaire sempre como complemento do elemento especificamente arcaico. No flâneur, cuja ociosidade o faz percorrer uma cidade imaginária de passagens, o poeta encontra o dândi (o dândi que se movimenta pela multidão sem dar atenção aos esbarrões a que está exposto). Entretanto, existe também no flâneur uma criatura há muito desaparecida, que lança um olhar sonhador que atinge fundo o coração do poeta. Trata-se do “filho da selva”, o homem a quem uma natureza generosa outrora prometeu o ócio. O dandismo é o último lampejo do heróico em tempos de decadência. É com prazer que Baudelaire encontra em Chateaubriand uma referência a dândis índios, um testemunho do tempo de antigo esplendor dessas tribos.
[m 5, 4]
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.