O Vinho
CV
O vinho dos trapeiros
Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,
Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,
Num antigo arrabalde, informe labirinto,
Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,
Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,
Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,
E, alheio aos guardas e alcaguetes mais abjetos,
Abrir seu coração em gloriosos projetos.
Juramentos profere e dita leis sublimes,
Derruba os maus, perdoa as vitímas dos crimes,
E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,
Embriaga-se na luz de seu talento imenso.
Toda essa gente afeita às aflições caseiras,
Derreada pela idade e farta de canseiras,
Trôpega e curva ao peso atroz do asco infinito,
Vômito escuro de um Paris enorme e aflito,
Retorna, a trescalar do vinho as escorralhas,
Junto aos comparsas fatigados das batalhas,
Os bigodes lembrando insígnias espectrais.
Os estandartes, os pendões e arcos triunfais
Erguem-se ante essa gente, ó solene magia!
E na ensurdecedora e luminosa orgia
Dos gritos, dos clarins, do sol e do tambor,
Trazem eles a glória ao povo ébrio de amor!
Assim é que através da ingênua raça humana
O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;
Pela garganta do homem canta ele os seus feitos
E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.
E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo,
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado!
CVI
Le vin de l’assassin
Ma femme est morte, je suis libre!
Je puis donc boire tout mon soûl.
Lorsque je rentrais sans un sou,
Ses cris me déchiraient la fibre.
Autant qu’un roi je suis heureux;
L’air est pur, le ciel admirable...
Nous avions un été semblable
Lorsque j’en devins amoureux!
L’horrible soif qui me déchire
Aurait besoin pour s’assouvir
D’autant de vin qu’en peut tenir
Son tombeau; — ce n’est pas peu dire:
Je l’ai jetée au fond d’un puits,
Et j’ai même poussé sur elle
Tous les pavés de la margelle.
— Je l’oublierai si je le puis!
Au nom des serments de tendresse,
Dont rien ne peut nous délier,
Et pour nous réconcilier
Comme au beau temps de notre ivresse,
J’implorai d’elle un rendez-vous,
Le soir, sur une route obscure.
Elle y vint! — folle créature!
Nous sommes tous plus ou moins fous!
Elle était encore jolie,
Quoique bien fatiguée! Et moi,
Je l’aimais trop! voilà pourquoi
Je lui dis: Sors de cette vie!
Nul ne peut me comprendre. Un seul
Parmi ces ivrognes stupides
Songea-t-il dans ses nuits morbides
A faire du vin un linceul?
Cette crapule invulnérable
Comme les machines de fer
Jamais, ni l’été ni l’hiver,
N’a connu l’amour véritable,
Avec ses noirs enchantements,
Son cortège infernal d’alarmes,
Ses fioles de poison, ses larmes,
Ses bruits de chaîne et d’ossements!
— Me voilà libre et solitaire!
Je serai ce soir ivre mort;
Alors, sans peur et sans remord,
Je me coucherai sur la terre,
Et je dormirai comme un chien!
Le chariot aux lourdes roues
Chargé de pierres et de boues,
Le wagon enragé peut bien
Écraser ma tête coupable
Ou me couper par le milieu,
Je m’en moque comme de Dieu,
Du Diable ou de la Sainte Table!
O vinho do assassino
Livre, afinal! ela está morta!
Posso beber o tempo inteiro.
Quando eu voltava sem dinheiro,
Se ouviam gritos logo à porta.
Sou tão feliz quanto é um rei;
O ar é puro, o céu adorável...
Era um verão incomparável
Quando por ela me encantei!
A sede atroz que me põe louco
Para saciá-la exigiria
O que de vinho caberia
Em sua tumba. E não é pouco:
Atirei-a ao fundo de um poço,
E eu mesmo pus, para cobri-la,
De suas bordas toda a argila.
— Hei de esquecê-la, se é que posso!
Em nome das eternas juras,
Pois nada nos pode afastar,
E para nos reconciliar
Como no tempo das venturas,
Eu lhe implorei uma entrevista,
À noite, numa estrada escura.
Ela veio! — a louca criatura!
Talvez em nós um louco exista!
Ela era então ainda garrida,
Embora exausta e já sem viço!
Quanto eu a amava! e foi por isso
Que lhe ordenei: Sai desta vida!
Ninguém me entende. Algum canalha,
Dentre esses ébrios enfadonhos,
Conceberia em seus maus sonhos
Fazer do vinho uma mortalha?
Essa devassa indiferente,
Como qualquer engenho hodierno,
Jamais, no verão ou no inverno,
Sentiu do amor o apelo ardente,
Com suas negras seduções,
Seu cortejo infernal de horrores,
Seus venenos e dissabores,
Seus timbres de ossos e grilhões!
— Eis-me liberto e a sós comigo!
Serei à noite um ébrio morto;
Sem nenhum medo ou desconforto,
Farei da terra o meu abrigo,
E ali dormirei como um cão!
Podem as rodas da carroça,
Cheia de entulho e lama grossa,
Ou um colérico vagão
Esmagar-me a fronte culpada
Ou cortar-me ao meio, que ao cabo
Eu zombo de tudo, do Diabo,
De Deus ou da Ceia Sagrada!
CVIII
Le vin des amants
Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!
Comme deux anges que torture
Une implacable calenture,
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!
Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,
Ma sœur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves!
O vinho dos amantes
O espaço hoje esplende de vida!
Livres de esporas, freio ou brida,
Cavalguemos no vinho: adiante
Se abre um céu puro e fulgurante!
Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura,
No límpido azul da paisagem
Sigamos a fugaz miragem!
Embalados no íntimo anelo
De um lúcido e febril afã,
Qual num delírio paralelo,
Lado a lado nadando, irmã,
Chegaremos enfim, risonhos,
Ao paraíso de meus sonhos!
Fleurs du mal
CIX
La destruction
Sans cesse à mes côtés s’agite le Démon;
Il nage autour de moi comme un air impalpable;
Je l’avale et le sens qui brûle mon poumon
Et l’emplit d’un désir éternel et coupable.
Parfois il prend, sachant mon grand amour de l’Art,
La forme de la plus séduisante des femmes,
Et, sous de spécieux prétextes de cafard,
Accoutume ma lèvre à des philtres infâmes.
Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,
Haletant et brisé de fatigue, au milieu
Des plaines de l’Ennui, profondes et désertes,
Et jette dans mes yeux pleins de confusion
Des vêtements souillés, des blessures ouvertes,
Et l’appareil sanglant de la Destruction!
A destruição
Sem cessar a meu lado o Demônio se agita,
E nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
Inflando-os de um desejo eterno e condenável.
Às vezes, ao saber do amor que a arte me inspira,
Assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
E, qual tartufo afeito às tramas da mentira,
Acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.
Ele assim me conduz, alquebrado e ofegante,
10 Já dos olhos de Deus afinal tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas,
E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
— O aparato sangrento e atroz da Destruição!
CXI
Femmes damnées
Comme un bétail pensif sur le sable couchées,
Elles tournent leurs yeux
vers l’horizon des mers,
Et leurs pieds se cherchent et leurs mains
rapprochées
Ont de douces langueurs et des frissons amers.
Les unes, cœurs épris des longues confidences,
Dans le fond des bosquets
où jasent les ruisseaux,
Vont épelant l’amour des craintives enfances
Et creusent le bois vert des jeunes arbrisseaux;
D’autres, comme des soeurs, marchent lentes et graves
A travers les
rochers pleins d’apparitions,
Où saint Antoine a vu surgir comme des
laves
Les seins nus et pourprés de ses tentations;
II en est, aux lueurs des résines croulantes,
Qui dans le creux muet des
vieux antres païens
T’appellent au secours de leurs fièvres hurlantes,
O
Bacchus, endormeur des remords anciens!
Et d’autres, dont la gorge aime les scapulaires,
Qui, recélant un fouet
sous leurs longs vêtements,
Mêlent, dans le bois sombre et les nuits
solitaires,
L’écume du plaisir aux larmes des tourments.
O vierges, ô démons, ô monstres, ô martyres,
De la réalité grands
esprits contempteurs,
Chercheuses d’infini dévotes et satyres,
Tantôt
pleines de cris, tantôt pleines de pleurs,
Vous que dans votre enfer mon âme a poursuivies,
Pauvres soeurs, je vous
aime autant que je vous plains,
Pour vos mornes douleurs, vos soifs
inassouvies,
Et les urnes d’amour dont vos grands cœurs sont pleins!
Mulheres malditas
Como um rebanho absorto e na areia deitadas,
Elas volvem o olhar para o
espelho das águas;
Os pés em mudo afago e as mãos entrelaçadas,
Bebem o
fel do calafrio e o mel das mágoas.
Umas, o coração abrindo em
confidências,
Nos bosques onde se ouve um córrego em segredo,
Vão
soletrando o amor em cândidas cadências
E o pólen raspam aos rebentos do
arvoredo;
Outras, tais como irmãs, andam lentas e cavas
Por entre as rochas
apinhadas de ilusões,
Onde viu Santo Antônio aflorar como lavas
Os
rubros seios nus de suas tentações;
Outras há que, ao calor da líquida resina,
No côncavo sem voz de um velho antro pagão
Pedem por ti em meio à febre
que alucina,
Ó Baco, ao pé de quem dorme toda a aflição!
E
outras, que adoram pôr ao colo escapulários
E que, escondendo sob as
vestes um cilício,
Juntam à noite, pelos bosques solitários,
A espuma do
prazer ao gume do suplício.
Ó monstros, ó vestais, ó
mártires sombrias,
Espírito nos quais o real sucumbe aos mitos,
Vós que
buscais o além, na prece e nas orgias,
Ora cheias de pranto, ora cheias
de gritos,
Vós que minha alma perseguiu em vosso
inferno,
Pobres irmãs, eu vos renego e vos aceito,
Por vossa triste dor,
vosso desejo eterno,
Pelas urnas de amor que inundam vosso peito!
CXII
Les deux bonnes sœurs
La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.
Au poëte sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.
Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes sœurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs.
Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
O Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès?
As duas boas irmãs
A Orgia e a Morte são duas jovens graciosas,
Fartas de beijos e de frêmito incontido,
Cujo ventre engastado em ancas andrajosas
Jamais logrou um fruto em si ter concebido.
Ao poeta infausto, hostil às famílias virtuosas,
Favorito do inferno e cortesão falido,
Caves e tumbas oferecem, generosas,
Um leito em que o pesar jamais foi recebido.
A sepultura e a alcova, em blasfêmias fecundas,
Nos dão de quando em vez, como boas irmãs,
Os prazeres do horror e as carícias malsãs.
Hás de enterrar-me, Orgia, em tuas covas fundas?
Quando virás, ó Morte, envolta em negras vestes,
Sobre os mirtos em flor plantar os teus ciprestes?
CXIII
La fontaine de sang
Il me semble parfois que mon sang coule à flots,
Ainsi qu’une fontaine aux rhythmiques sanglots.
Je l’entends bien qui coule avec un long murmure,
Mais je me tâte en vain pour trouver la blessure.
A travers la cité, comme dans un champ clos,
Il s’en va, transformant les pavés en îlots,
Désaltérant la soif de chaque créature,
Et partout colorant en rouge la nature.
J’ai demandé souvent à des vins captieux
D’endormir pour un jour la terreur qui me mine;
Le vin rend l’œil plus clair et l’oreille plus fine!
J’ai cherché dans l’amour un sommeil oublieux;
Mais l’amour n’est pour moi qu’un matelas d’aiguilles
Fait pour donner à boire à ces cruelles filles!
A fonte de sangue
Sinto por vezes que meu sangue corre em fluxos,
Assim qual uma fonte em rítmicos soluços.
Eu bem que o escuto numa súplica perdida,
Mas me tateio em vão em busca da ferida.
Pela cidade vai, como entre espessos buxos,
As lajes transformando em ilhas e repuxos,
Matando a sede em cada boca ressequida
E a paisagem deixando em púrpura tingida.
Muitas vezes pedi a um vinho caviloso
10 Aplacar por um dia o horror que me domina;
O vinho aguça o ouvido e os olhos ilumina!
Busquei então no amor um sono descuidoso;
Mas o amor para mim é um leito de suplício
Que a sede há de saciar a essas ninfas do vício!
CXIV
Allégorie
C’est une femme belle et de riche encolure,
Qui laisse dans son vin traîner sa chevelure.
Les griffes de l’amour, les poisons du tripot,
Tout glisse et tout s’émousse au granit de sa peau.
Elle rit à la Mort et nargue la Débauche,
Ces monstres dont la main, qui toujours gratte et fauche,
Dans ses jeux destructeurs a pourtant respecté
De ce corps ferme et droit la rude majesté.
Elle marche en déesse et repose en sultane;
Elle a dans le plaisir la foi mahométane,
Et dans ses bras ouverts, que remplissent ses seins,
Elle appelle des yeux la race des humains.
Elle croit, elle sait, cette vierge inféconde
Et pourtant nécessaire à la marche du monde,
Que la beauté du corps est un sublime don
Qui de toute infamie arrache le pardon.
Elle ignore l’Enfer comme le Purgatoire,
Et quand l’heure viendra d’entrer dans la Nuit noire,
Elle regardera la face de la Mort,
Ainsi qu’un nouveau-né, — sans haine et sans remord.
Alegoria
É uma bela mulher, de aparência altaneira,
Que deixa mergulhar no vinho a cabeleira.
As tenazes do amor, os venenos da intriga,
Nada a epiderme de granito lhe fustiga.
Da Morte ela se ri e escarnece da Orgia,
Espectro cuja mão, que ceifa e suplicia,
Respeitaram, contudo, em seus jogos de horror,
Neste corpo elegante o rústico esplendor.
Caminha como deusa e dorme qual sultana,
E mantém no prazer uma fé maometana.
Braços em cruz, inflando os seios soberanos,
Com seu olhar convoca a raça dos humanos.
Ela sabe, ela crê, em seu ventre infecundo,
E no entanto essencial ao avanço do mundo,
Que a beleza do corpo é sempre um dom sublime
Que perdoa a sorrir qualquer infâmia ou crime.
O Inferno desconhece e o Purgatório ignora,
E quando a negra Noite anunciar sua hora,
Da Morte ela há de olhar o rosto apodrecido
— Sem remorso ou rancor, como um recém-nascido.
CXVII
O amor e o crânio
VELHA VINHETA
Sobre o crânio da raça humana
O amor faz seu ninho,
E nessa atitude profana,
Com riso escarninho,
Bolhas redondas lhe apetece
Deixar ir subindo,
Como se os sóis reunir quisesse
No vazio infindo.
A esfera tíbia e cristalina,Com súbito estouro,
Rebenta e cospe a alma franzina
Como um sonho de ouro.
Em cada bolha o crânio escuto
Gemer e implorar:
“Este jogo cômico e bruto
Quando há de acabar?
Pois o que a tua boca expele
No ar como destroços,
Monstro assassino, é minha pele,Meu sangue e meus ossos!”
Revolta
Abel e Caim
1
Raça de Abel, frui, come e dorme,
Deus te sorri bondosamente.
Raça de Caim, no lodo informe
Roja-te e morre amargamente.
Raça de Abel, teu sacrifício
Doce é ao nariz do Serafim!
Raça de Caim, teu suplício
Quando afinal há de ter fim?
Raça de Abel, tuas sementes
E teus rebanhos férteis são;
Raça de Caim, teus parcos dentes
Rangem de fome e de privação!
Raça de Abel, teu ventre aquece
Junto à lareira patriarcal;
Raça de Caim, treme e padece
Em teu covil, pobre chacal!
Raça de Abel, goza e pulula!
Teu ouro é pródigo em rebentos;
Raça de Caim, refreia a gula,
Ó coração que arde em tormentos!
Raça de Abel, cresces e brotas
Como os insetos do arvoredo;
Raça de Caim, por ínvias rotas,
Arrasta os teus à infâmia e ao medo.
2
Raça de Abel, tua carcaça
Aduba o solo fumegante!
Raça de Caim, tua argamassa
Jamais foi sólida o bastante;
Raça de Abel, eis teu fracasso:
Do ferro o chuço ganha a guerra!
Raça de Caim, sobe ao espaço
Deus enfim deita por terra!
CXX
As litanias de Satã
Ó tu, o anjo mais belo e sábio entre teus pares,
Deus que a sorte traiu e expulsou dos altares,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Ó Príncipe do exílio, a quem fizeram mal
E que, vencido, sempre te ergues mais triunfal,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que vês tudo, ó rei das trevas soberanas,
Charlatão familiar das angústias humanas,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
10 Tu que, mesmo ao leproso e ao pária, se preciso,
Ensinas por amor o amor do Paraíso,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que da Morte, tua antiga e fiel amante,
Engendraste a Esperança — a louca fascinante!
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que leva o povo ao pé da forca a desvairar,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que bem sabes em que terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras mais preciosas,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu cujo olhar desvela os fundos arsenais
Onde sepulto dorme o povo dos metais,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu cuja larga mão oculta os precipícios
Ao sonâmbulo a errar no alto dos edifícios,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que, magicamente, amacias os ossos
Do ébrio tardio que um tropel fez em destroços,
30 Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que, para o consolo eterno de quem sofre,
Nos ensinaste a unir o salitre ao enxofre,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Tu que infundes no olhar e na alma das donzelas
O amor aos trapos e a paixão pelas mazelas,
Tem piedade, o Satã, de minha atroz miséria!
Bastão do desterrado, archote do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
Pai adotivo dos que, em cólera sombria,
O Deus Padre baniu do Éden terrestre um dia,
Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!
ORAÇÃO
Glória e louvor a ti, Satã, lá nas alturas
Do Céu, onde reinaste, e nas furnas escuras
Do Inferno, onde, vencido, sonhas silencioso!
Sob a Árvore da Ciência, um dia, que o repouso
Minha alma encontre em ti, quando na tua testa
Seus ramos expandir qual no Templo em festa!
A Morte
CXXII
A morte dos pobres
A Morte é que consola e que nos faz viver;
É o alvo desta vida e a única esperança
Que, como um elixir, nos dá fé e confiança,
E forças para andar até o anoitecer.
Em meio à tempestade e à neve a se esfazer,
É a luz que em nosso lívido horizonte avança;
É a pousada que um livro diz como se alcança,
E onde se pode descansar e adormecer.
É um Arcanjo que tem nos dedos imantados
O sono eterno e o dom dos sonhos extasiados,
E arruma o leito para os nus e os desvalidos;
É dos Deuses a glória e o místico celeiro,
É a sacola do pobre e o seu lar verdadeiro,
O pórtico que se abre aos Céus desconhecidos!
CXXIV
La fin de la journée
Sous une lumière blafarde
Court, danse et se tord sans raison
La Vie, impudente et criarde.
Aussi, sitôt qu’à l’horizon
La nuit voluptueuse monte,
Apaisant tout, même la faim,
Effaçant tout, même la honte,
Le Poëte se dit: “Enfin!
Mon esprit, comme mes vertèbres,
Invoque ardemment le repos;
Le cœur plein de songes funèbres,
Je vais me coucher sur le dos
Et me rouler dans vos rideaux,
Ô rafraîchissantes ténèbres!”
O fim da jornada
Sob uma luz trêmula e baça,
Se agita, brinca e dança ao léu
A Vida, ululante e devassa.
Assim também, quando no céu
A noite voluptuosa sonha,
Tudo acalmando, mesmo a fome,
Tudo apagando, até a vergonha,
Diz o Poeta que a dor consome:
“Afinal, minha alma e meus ossos
Somente imploram por sossego;
O coração feito em destroços,
Procuro em meu leito aconchego
E às vossas cortinas me apego,
Ó treva oferta aos corpos nossos!”
NOUVELLES FLEURS DU MAL
As Flores do Mal
(Poemas acrescentados à terceira edição, 1868)
Épigraphe pour un livre condamné
Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.
Si tu n’as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette! tu n’y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hysthérique.
Mais si, sans se laisser charmer,
Ton œil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m’aimer;
Âme curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi... Sinon, je te maudis!
Epígrafe para um livro condenado
Leitor pacífico e bucólico,
Homem de bem, austero e lhano,
Joga fora este saturniano
Livro, orgíaco e melancólico.
Se não herdaste o dom hipnótico
De Satã, o astuto decano,
Irias ler-me por engano,
Ou me terias por neurótico.
Mas se, sem teus olhos piscar,
Do abismo os horrores conheces,
Lê-me afinal que me hás de amar;
Alma curiosa que padeces
E buscas no éden teu abrigo,
Tem dó de mim... Ou te maldigo!
Le gouffre
Pascal avait son gouffre, avec lui se mouvant.
— Hélas! tout est abîme, — action, désir, rêve,
Parole! et sur mon poil qui tout droit se relève
Mainte fois de la Peur je sens passer le vent.
En haut, en bas, partout, la profondeur, la grève,
Le silence, l’espace affreux et captivant...
Sur le fond de mes nuits Dieu de son doigt savant
Dessine un cauchemar multiforme et sans trêve.
J’ai peur du sommeil comme on a peur d’un grand trou,
Tout plein de vague horreur, menant on ne sait où;
Je ne vois qu’infini par toutes les fenêtres,
Et mon esprit, toujours du vertige hanté,
Jalouse du néant l’insensibilité.
— Ah! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres!
O abismo
Pascal em si tinha um abismo se movendo.
— Ai, tudo é abismo! — sonho, ação, desejo intenso,
Palavra! e sobre mim, num calafrio, eu penso
Sentir do Medo o vento às vezes se estendendo.
Em volta, no alto, embaixo, a profundeza, o denso
Silêncio, a tumba, o espaço cativante e horrendo...
Em minhas noites, Deus, o sábio dedo erguendo,
Desenha um pesadelo multiforme e imenso.
Tenho medo do sono, o túnel que me esconde,
Cheio de vago horror, levando não sei aonde;
Do infinito, à janela, eu gozo os cruéis prazeres,
E meu espírito, ébrio afeito ao desvario,
Ao nada inveja a insensibilidade e o frio.
— Ah, não sair jamais dos Números e Seres!
Poemas Condenados
V
A celle qui est trop gaie
Ta tête, ton geste, ton air
Sont beaux comme un beau paysage;
Le rire joue en ton visage
Comme un vent frais dans un ciel clair.
Le passant chagrin que tu frôles
Est ébloui par la santé
Qui jaillit comme une clarté
De tes bras et de tes épaules.
Les retentissantes couleurs
Dont tu parsèmes tes toilettes
Jettent dans l’esprit des poëtes
L’image d’un ballet de fleurs.
Ces robes folles sont l’emblème
De ton esprit bariolé;
Folle dont je suis affolé,
Je te hais autant que je t’aime!
Quelquefois dans un beau jardin,
Où je traînais mon atonie,
J’ai senti, comme une ironie,
Le soleil déchirer mon sein;
Et le printemps et la verdure
Ont tant humilié mon cœur
Que j’ai puni sur une fleur
L’insolence de la Nature.
Ainsi je voudrais, une nuit,
Quand l’heure des voluptés sonne,
Vers les trésors de ta personne
Comme un lâche, ramper sans bruit,
Pour châtier ta chair joyeuse,
Pour meurtrir ton sein pardonné,
Et faire à ton flanc étonné
Une blessure large et creuse,
Et, vertigineuse douceur!
A travers ces lèvres nouvelles,
Plus éclatantes et plus belles,
T’infuser mon venin, ma sœur!
A que está sempre alegre
Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.
A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.
As fulgurantes, vivas cores
De tuas vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.
Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!
Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;
E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.
Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,
Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu seio perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,
E, como em êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!
VI
Les bijoux
La très-chère était nue, et, connaissant mon cœur,
Elle n’ avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l’ air vainqueur
Qu’ ont dans leurs jours heureux esclaves des Mores.
Quand il jette dansant son bruit vif et moqueur,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me ravit en extase, et j’ aime à la fureur
Les choses où le son se mêle à la lumière.
Elle était donc coucheé et se laissait aimer,
Et du haut du divan elle souriait d’aise
A mon amour profond et doux come la mer,
Qui vers elle montait comme vers sa falaise.
Les yeux fixés sur moi, comme un tigre dompté,
D’un air vague et rêveur elle essayait des poses,
Et la candeur unie à la lubricité
Donnait un charme neyf à ses métamorphoses;
Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses reins,
Polis comme de l’huile, onduleux comme un cygne,
Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins;
Et son ventre et se seins, ces prappes de ma vigne,
S’ avançaient, plus câlins que les Anges du mal,
Pour troubler de repos où mon ame était mise,
Et pour la déranger du rocher de cristal
Où, calme et solitaire, elle s’était assise.
Je croyais voir unis par un nouveau dessin
Les hanches de l’ Antiope au buste d’ un imberbe,
Tant sa taille faisait ressortir son bassin.
Sur ce teint fauve et brun le fard était superbe!
Et la lampe s’étant résignée à mourir,
Comme le foyer seul illuminait la chambre,
Chaque fois qu’ il poussaint un flamboyant soupir,
Il inondait desang cette peau couler d’ ambre!
As joias
A amada estava nua e, por ser eu o amante,
Das joias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz fulgura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.
Ela estava deitada e se deixava amar,
10 E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, a imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então à rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontrara pouso.
Como se à luz de um novo esboço, unida eu via
De Antíope153 a cintura a um busto adolescente,
De tal modo os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!
— E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira,
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
VII
Les métamorphoses du vampire
La femme cependant, de sa bouche de fraise,
En se tordant ainsi qu’un serpent sur la braise,
Et pétrissant ses seins sur le fer de son busc,
Laissait couler ces mots tout imprégnés de musc:
— “Moi, j’ ai la lèvre humide, et je sais la science
De perdre au fond d’un lit l’antique conscience.
Je sèche tous les pleurs sur mes seins triomphants,
Et fais rire les vieux du rire des enfants.
Je remplace, pour qui me voit nue et sans voiles,
La lune, le soliel, le ciel et les étoiles!
Je suis, mon cher savant, si docte aux voluptés,
Lorsque j’étouffe un homme en mes bras redoutés,
Ou lorsque j’ abandonne aux morsures mon buste,
Timide et libertine, et fragile et robuste,
Que sur ces matelas quis se pâment d’émoi,
Les anges impuissants se damneraient pour moi!”
Quand elle eut mes os sucé toute la moelle,
Et que languissamment je me tournai vers elle
Pour lui rendre un baiser d’amour, je ne vis plus
Qu’une outre aux flancs gluants, toute pleine de pus!
Je fermai les deux yeux, dans ma froide épouvante,
Et quand je les rouvris à la clarté vivante,
A mes côtés, au lieu du mannequin puissant
Qui semblait avoir fait provision de sang,
Tremblaient confusément de squelette,
Qui d’ eux-mêmes rendaient le cri d’une girouette
Ou d’une enseigne, au bout d’une tringle de fer,
Que balance lê vent pendant les nuits d’hiver.
As metamorfoses do vampiro
E no entanto a mulher, com lábios de framboesa,
Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,
E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,
Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:
— “A boca úmida eu tenho e trago em mim a ciência
De no fundo de um leito afogar a consciência.
As lágrimas eu seco em meus seios triunfantes,
E os velhos faço rir com o riso dos infantes.
Sou como, a quem me vê sem véus a imagem nua,
As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!
Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,
Quando um homem sufoco à borda de meus lábios,
Ou quando o seio oferto ao dente que o mordisca,
Ingênua ou libertina, apática ou arisca,
Que sobre tais coxins macios e envolventes
Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!”
Quando após me sugar dos ossos a medula,
Para ela me voltei já lânguido e sem gula
À procura de um beijo, uma outra eu vi então
Em cujo ventre o pus se unia à podridão!
Os dois olhos fechei em trêmula agonia,
E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,
A meu lado, em lugar do manequim altivo,
No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,
Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,
Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos
Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança,
Que nas noites de inverno ao vento se balança.
Galanteios
XI
Les promesses d’un visage
J’aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,
D’où semblent couler des ténèbres;
Tes yeux, quoique très-noirs, m’inspirent des pensers
Qui ne sont pas du tout funèbres.
Tes yeux, qui sont d’accord avec tes noirs cheveux,
Avec ta crinière élastique,
Tes yeux, languissamment, me disent: “Si tu veux,
Amant de la muse plastique,
Suivre l’ espoir qu’en toi nous avons excité,
Et tous lês goûts que tu professes,
Tu pourras constater notre véracité
Depuis le nombril jusqu’aux fesses;
Tu trouveras, au bout de deux beaux seins bien lourds,
De larges médailles de bronze,
Et sous un ventre uni, doux comme du velours,
Bistré comme la peau d’un bonze,
Une riche toison qui, vraiment, est la soeur
De cette énorme chevelure,
Souple et frisée, et qui t’égale en épaisseur,
Nuit sans étoliles, Nuit obscure!”
As promessas de um rosto
Eu te amo as sobrancelhas que ao curvar-se imitam
Da treva os véus e os movimentos;
Embora negros, os teus olhos me suscitam
Nem sempre turvos pensamentos.
Teus olhos, cujo tom às cores se combina
De tua ondeante crina elástica,
Teus olhos lânguidos me dizem em surdina:
“Se tens, cultor da musa plástica,
Confiança nessa fé que em ti tanto exaltamos,
E nos prazeres que anuncias,
Poderás comprovar de fato o que afirmamos
Do umbigo às nádegas macias.
Verás nos bicos destes seios que desnudo
Dois brônzeos medalhões febris,
E sob um ventre cuja tez lembra o veludo,
Ou do bistre o negro matiz,
Um soberbo tosão que é o gêmeo, na verdade,
Dessa outra juba que fulgura,
Suave e frisada, e que te iguala em densidade,
Noite sem astros, noite escura!”
XII
O monstro
ou O padrinho de uma ninfa macabra
1
Sei que não és, minha querida,
O que Veuillot chama um botão.
O jogo, o amor, a boa vida.
Fervem em ti, meu caldeirão!
Não és mais jovem nem garrida,
Ó velha infanta! E todavia
As tuas caravanas fúteis
Deram-te o lustro e a serventia
Das coisas que, conquanto inúteis,
Sempre seduzem todavia.
Nunca me causam tédio ou sono
Os teus quarenta (ou os que tiveras);
Prefiro os teus frutos, outono,
À floração das primaveras!
Jamais me deste tédio ou sono!
Tua carcaça tem encantos
E singulares harmonias;
No oco dos ombros há recantos
Onde degusto especiarias;
Tua carcaça tem encantos!
Despreza as pessoas ridículas
Que amam a abóbora e o melão!
Prefiro o teu par de clavículas
Aos ossos do rei Salomão,
E odeio as pessoas ridículas!
Tua juba, azul capacete,
Sombreia-te a fonte voraz,
Que pouco cora e não reflete,
E após se alonga para trás
Nas crinas do azul capacete.
Teus olhos que lembram a lama,
Onde cintila algum fanal,
Vivos ao ruge que os inflama,
Dardejam um brilho infernal!
Teus olhos negros como a lama!
Pela luxúria e o fel do riso,
Teu lábio amargo nos instiga;
Esse teu lábio é um paraíso
Que nos seduz e nos fustiga.
Quanta luxúria no teu riso!
Tua perna robusta e aérea
Move-se à borda dos vulcões,
E em que pese a neve e a miséria,
Dança o cancã das ilusões,
Tua perna robusta e aérea;
A pele seca e já sem graça,
Como as que murcham e descoram,
Até do suor se fez escassa
E os olhos vítreos já não choram.
(E todavia ela tem graça!)
2
Ingênua, vais direta ao Diabo!
Contigo iria, de bom grado,
Se esta medonha pressa, ao cabo,
Não me deixasse emocionado.
Vai-te sozinha, pois, ao Diabo!
Meu rim, meu pulmão, meu jarrete,
Nada me deixa honrar, enfim,
A este Senhor; como compete.
“O que é uma lástima, ai de mim!”
Dizem meu rim e meu jarrete.
Mais do que eu sofro ninguém sofre
Por não poder ir aos sabás
E ver, quando ele solta o enxofre,
O imundo beijo que lhe dás!
Mais do que eu sofro ninguém sofre!
Pôs-me o Demônio em aflição
Por não servir-te de guarida
E por pedir-te demissão,
Tocha do inferno! Vê, querida,
Quanto me custa essa aflição,
Pois uma vez que há muito te amo,
Sempre razoável, procurando
Do Mal a essência que proclamo
E a um único monstro adorando,
Então, de fato, ó monstro te amo!
Edígrafes
XIV
Vers pour le portrait de M. Honoré Daumier
Celui dont nous t’offrons l’image,
Et dont l’ art, subtil entre tous,
Nous enseigue à rire de nous,
Celui-là, lecteur, est un sage.
C’est un satirique, un moqueur;
Mais l’énergie avec laquelle
Il peint le Mal e sa séquelle
Prouve la beauté de son cœur.
Son rire n’est pas la grimace
De Melmoth ou de Méphisto
Sous la torche de l’Alecto
Qui les brûle, mais qui nous glace,
Leur rire, hélas! de la gaité
N’est que la douloureuse charge;
Le sien rayonne, franc et large,
Comme un signe de sa bonté!
Versos para o retrato de Honoré Daumier
Este de quem te esboço o vulto
E que, com sua arte ferina,
Rir de nós mesmos nos ensina,
É um sábio ao qual se deve o culto.
Ele é um satírico, um bufão,
Mas a energia com a qual
Nos pinta as sequelas do Mal
Prova-lhe o imenso coração.
O seu sorriso não revela
De Melmoth o trejeito abjecto
Sob a feroz tocha de Alecto
Que os queima, mas também nos gela.
No riso destes, da alegria
Não há senão um travo amargo;
O seu, que se abre franco e largo,
De uma alma nobre se irradia.
Peças Várias
XVII
La voix
Mon berceau s’adossait à la bibliothèque,
Babel sombre, où roman, science, fabliau,
Tout, la cendre latine et la poussière grecque,
Se mêlaient. J’ étais haut comme un in-folio.
Deux voix me parlaient. L’une, insidieuse et ferme,
Disait: “La Terre est un gâteau plein de douceur;
Je puis (et ton plaisir serait alors san terme!)
Te faire un appétit d’une égale grosseur.”
Et l’autre: “Viens! oh! viens voyager dans les rêves,
Au delá du possible, au delà du connu!”
Et celle-là chantait comme le vent des grèves.
Fantôme vagissant, on ne sait d’où venu,
Qui caresse l’oreille et cependant l’effraie.
Je te répondis: “Oui! douce voix!” C’est d’alors
Que date ce qu’on peut, hélas! nommer ma plaie
Et ma fatalité. Drrière les décors
De l’existence immense, au plus noir de l’abîme,
Je vois distinctement des mondes singuliers,
Et, de ma clairvoyance extatique victime,
Je traîne des serpents qui mordent mes souliers.
Et c’est depuis ce temps que pareil aux prophètes,
J’aime si tedrement le désert et la mer;
Que je ris dans les deuils et pleure dans les fêtes,
Et je trouve un goût suave au vin le plus amer;
Que je prends très-souvent les faits pour des mensonges,
Et que, les yeux au ciel, je tombe dans des trous.
Mais la Voix me console et dit: “Garde tes songes:
Les sages n’en ont pas d’aussi beaux que les fous!”
A voz
Meu berço ao pé da biblioteca se estendia,
Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio
Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia.
Eu tinha ali a mesma altura de um in-fólio.
Duas vozes ouvi. Uma, insidiosa, a mim
Dizia: “A terra é um bolo apetitoso à goela;
Eu posso (e teu prazer seria então sem fim!)
Dar-te uma gula tão imensa quanto a dela.”
A outra: “Vem! vem viajar nos sonhos que semeais,
10 Além da realidade e do que além é infindo!”
E essa cantava como vento nas areias,
Fantasma não se sabe ao certo de onde vindo,
Que o ouvido ao mesmo tempo atemoriza e afaga.
Eu te respondi: “Sim, doce voz!” É de então
Que data o que afinal se diz ser minha chaga
Minha fatalidade. E por trás do telão
Dessa existência imensa, e no mais negro abismo,
Distintamente eu vejo os mundos singulares,
E, vítima do lúcido êxtase em que cismo,
Arrasto répteis a morder-me os calcanhares.
E assim como um profeta é que, desde esse dia,
Amo o deserto e a solidão do mar ao largo;
Que sorrio no luto e choro na alegria,
E apraz-me como suave o vinho mais amargo;
Que os fatos mais sombrios tomo por risonhos,
E que, de olhos no céu, tropeço e avanço aos poucos.
Mas a Voz me consola e diz: “Guarda teus sonhos:
Os sábios não os têm tão belos quanto os loucos!”
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa /
Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso;
traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio
Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto
Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira,
Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira,
Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni,
Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e
notas adicionais Ivo Barroso. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.