14.5.26

entra/Boris Schnaiderman/Tradução, Ato Desmedido

 

SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). Tradução, Ato Desmedido / Boris Schnaiderman; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. — São Paulo: Perspectiva, 2011. (Debates 321)

Rokurou Ogaki 大柿ロクロウ/Crazy food truck クレイジーフードトラック/sai

OGAKI, Rokurou 大柿ロクロ. Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 1 / Rokurou Ogaki; tradução de Drik Sada; edição Ferréz e Thiago Ferreira. São Paulo: Comix Zone!, 2024.
_________________.
Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 2 / Rokurou Ogaki; tradução de Drik Sada; edição Ferréz e Thiago Ferreira. — São Paulo: Comix Zone!, 2024.

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  

 X

[MARX]

[...]

Origem da falsa consciência: “A divisão do trabalho só se torna realmente uma divisão a partir do momento em que se dá uma divisão do trabalho ... material e espiritual. A partir desse momento, a consciência pode realmente imaginar ser algo diferente da consciência da práxis existente..., e que ela realmente representa algo, sem representar algo real.” Marx und Engels über Feuerbach: Aus dem literarischen Nachlaß von Marx und Engels”, Marx-Engels-Archiv, org. por D. Rjazanov, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, p. 248.

[X 1, 4] 

[...]

Auto-alienação: “O operário produz o capital, o capital o produz; portanto, ele produz a si mesmo e ... suas qualidades humanas existem apenas ..., na medida em que elas existem para o capital alheio a ele... O operário existe como operário apenas enquanto ele existe para si como capital, e ele existe como capital apenas enquanto algum capital existe para ele. A existência do capital é sua existência..., e esta determina o conteúdo de sua vida de uma maneira que lhe é indiferente... A produção produz o homem ... como um ... ser desumanizado.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. org. por S. Landshut e J. P. Mayer, Leipzig, vol. I, pp. 361-362 (“Nationalõkonomie und Philosophie”).

[X 1a, 1]

[...]

“A natureza que se constitui na história humana  no ato de criação da sociedade humana — é a natureza real do homem; por isso a natureza, tal como se constitui através da indústria — ainda que sob uma forma alienada , é a verdadeira natureza antropológica.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. org. por S. Landshut e J. P. Mayer, Leipzig, vol. I, p. 304 (“Nationalökonomie und Philosophie”).

[X 1a, 3]   

Ponto de partida para uma crítica da “cultura”: “A superação positiva da propriedade privada enquanto apropriação da vida humana é ... a superação positiva de toda alienação  portanto, o retorno do homem da religião, da família, do Estado etc., para sua existência humana, isto é, social.” Karl Marx, Der historische Materialismus, ed. org. por Mayer e Landshut, Leipzie, vol. I, p. 296 (“Nationalökonomie und Philosophie”).

[X 1a, 4]

Uma derivação do ódio de classe, que se refere a Hegel: “A superação da objetividade sob a forma da alienação  que vai necessariamente da estranheza indiferente até a alienação hostil real  significa para Hegel ao mesmo tempo, e principalmente, que a objetividade deve ser superada, porque não é o caráter determinado do objeto, e sim seu caráter de objeto que é, para a autoconsciência, o elemento ofensivo na alienação.” Karl Marx, Der historische Materialismus, Leipzig, vol. I, p. 335 (“Nationalökonomie und Philosophie”).

[X 1a, 5] 

[...]

Seria um erro desenvolver a psicologia da burguesia a partir da atitude do consumidor. O ponto de vista do consumidor é representado apenas pela camada social dos esnobes. As bases para uma psicologia da classe burguesa encontram-se antes na seguinte frase de Marx, que permite descrever também — e principalmente — a influência que esta classe exerce sobre a arte, como modelo e como comitente: “Um certo grau de desenvolvimento da produção capitalista exige que o capitalista possa utilizar todo o tempo em que ele funciona como capitalista, isto é, como capital personificado, para a apropriação e, portanto, para o controle do trabalho alheio e para a venda dos produtos desse trabalho.” Karl Marx, Das Kapital, vol. I, ed. org. por K. Korsch, Berlim, 1932, p. 298.

 [X 2, 2] 

[...]

O tempo na técnica. “Como em uma verdadeira ação política, a escolha ... do momento certo é decisiva. ‘A ordem do capitalista no campo da produção torna-se agora tão indispensável quanto a ordem do general no campo de batalha’ (I, p. 278). ...O ‘tempo’ possui aqui, na técnica, um significado diferente daquele que possui no decorrer dos acontecimentos históricos da mesma época, em que ... as ‘ações coincidem sem mais nem menos’. O ‘tempo’ possui ainda, na técnica ... um significado diferente daquele que possui na economia moderna, que ... mede o tempo do trabalho pelo relógio.” Hugo Fischer, Karl Marx und sein Verhältnis zu Staat und Wirtschaft, Jena, 1932, p. 42; citando Das Kapital, vol. I, 1923.
[X 2, 4]

2 Na revisão das passagens extraídas de Karl Marx, Das Kapital, foi consultada a edição brasileira: O CapitalCrítica da Economia Política, vol. I, tomo 1, trad. de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe, São Paulo, Abril Cultural, 1983; a passagem citada encontra-se na p. 243. (w.b.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

12.5.26

Rokurou Ogaki 大柿ロクロウ/Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 2/entra

OGAKI, Rokurou 大柿ロクロ. Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 2 / Rokurou Ogaki; tradução de Drik Sada; edição Ferréz e Thiago Ferreira. São Paulo: Comix Zone!, 2024.

Rokurou Ogaki 大柿ロクロウ/Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 1/sai

OGAKI, Rokurou 大柿ロクロ. Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 1 / Rokurou Ogaki; tradução de Drik Sada; edição Ferréz e Thiago Ferreira. São Paulo: Comix Zone!, 2024.

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/LIDINGÖ HELSINQUE [1939-1941]/[DOS DIÁRIOS 1939-1941]

4. LIDINGÖ HELSINQUE [1939-1941] 
 
10.1.41
A razão pela qual poetas como Gelsted fracassam assim na política: para eles, a exploração ou a luta de classes não é uma categoria poética, mas moral. Há muito que consideram tais coisas como naturais, ainda que para fins inestéticos. Agora veem-no como antinatural, e o antinatural nunca é um campo da estética. Na poesia, a moralidade não consiste na indignação, mas na verdade. Além disso, esses poetas gostam de impor uma alta missão aos trabalhadores. O que enche os trabalhadores de uma suspeita justificada, porque eles não querem ser bucha de canhão para missões éticas. Seu objetivo não é a ética, ainda que seja ético. Eles não precisam prometer nada a ninguém além de a si mesmos. Esses poetas são contra o capitalismo porque este não é tão inofensivo quanto eles. Aos trabalhadores, parecem uns pobres coitados.

[ANOTAÇÕES AUTOBIOGRÁFICAS 1940]
 
Brecht é ariano, seu irmão ainda é professor universitário na Alemanha. A mulher de Brecht, que foi atriz do Staatstheater e do Teatro de Max Reinhardt sob seu nome de solteira Helene Weigel, é judia; o que por si só já teria sido um motivo para Brecht emigrar da Alemanha. No entanto, anos antes de Hitler chegar ao poder, ele já era um dos que combatiam os nazis, e toda a sua produção literária seria impossível sob o regime nazista. Ele nunca pertenceu a um partido político e não pertence a nenhum agora. Contra os nazistas, publicou poemas e escreveu a peça Terror e Miséria do Terceiro Reich, que mostra em 27 cenas independentes, que se passam em residências, clínicas, tribunais, campos de concentração, escolas, fábricas, casernas etc., a escravidão de quase todos os estratos do povo alemão sob a ditadura. Atualmente, está trabalhando num romance histórico satírico sobre o fim da República Romana, Os Negócios do Sr Júlio César. É membro do PEN Clube. É amigo pessoal de Lion Feuchtwanger. W.H.Auden e Archibald MacLeish provavelmente o defenderão também. Assim como a atriz americana Stella Adler, Fritz Kortner e o diretor de cinema Fritz Lang. Não tem agentes comerciais. Além da peça Terror e Miséria do Terceiro Reich, ele completou a peça Vida do Físico Galileu (a partir de pesquisa livre) e uma peça-parábola A Boa Alma de Setsuan (que mostra como é difícil e dispendioso ser uma pessoa boa em nosso tempo). Além disso, um pequeno livro satírico (mais semelhante em estilo ao Cândido de Voltaire) no qual um refugiado foge de um país para outro porque em toda parte virtudes demais são exigidas. Num país, para se poder comer três vezes ao dia, é necessária uma energia com a qual daria outrora para se conquistar reinos; num outro, para que o regime continue governando é necessário ajudá-lo a conquistar o mundo inteiro; no terceiro, é preciso ter bastante amor à liberdade, porque lá impera a proibição em demasia etc. etc. O refugiado procura um país onde se possa, num meio termo, viver com virtudes medianas e alguns vícios modestos.

Provavelmente na Suécia, em 1939
 
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)

9.5.26

almeida prado/música contempôranea brasileira/sai

Balada para violino e piano Bnai brith  (1993) 

Dedicada a Meri e Natan Schwartzmann

violino: Constanza Almeida Prado • piano: Achille Picchi

ALMEIDA PRADO (1943-2010). Música contemporânea brasileira: Almeida Prado / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.1) 

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  

Após 70.000 anos, o fim da harmonia virá sob a forma de um novo período da civilização, com tendência ao declínio, ao qual sucederão novamente os limbos obscuros. Assim, fugacidade e felicidade estão intimamente ligadas em Fourier. Engels observa: “Assim como Kant introduz o fim vindouro da terra na ciência da natureza, Fourier introduz o fim vindouro da humanidade no estudo da história.” Engels, Anti-Dühring, vol. III, p. 12.11

[W 15a, 1]

[...]

Um grande número de universos (como um universo, depois do homem e do planeta, constitui o terceiro escalão... Fourier chama-o de tri-verso) forma um quatri-verso; e assim por diante até o octo-verso, que representa a ... natureza inteira, a totalidade dos seres de harmonia. Fourier se entrega a cálculos minuciosos e proclama que o octo-verso se compõe de 10% universos.” Armand e Maublanc, Fourier, Paris, 1937, vol. I, p. 112.

[W 15a, 3]

[...]

 A maçã de Fourier — o correspondente daquela de Newton — que no restaurante Février custa cem vezes mais do que na província de onde ela é proveniente. Também Proudhon se compara a Newton.

[W 16, 3]

[...]

<fase tardia>

 [...]

Sob a rubrica “O garantismo do ouvido”, Fourier, além de se ocupar da elevação da linguagem do povo e de sua educação musical (coros de operários do teatro de Toulouse!). trata de medidas contra o barulho. Ele quer ver as oficinas isoladas e transferidas em sua maior parte para as periferias.

[W 17, 2] 

[...]

Marx faz referência a Fourier em Die heilige Familie [A Sagrada Família] (onde?).

[W 17a, 2] 

Toussenel foi um dos fundadores da Société Républicaine Centrale (o clube de Blanqui) em 1848.

[W 17a. 3]

11 Friedrich Engels, Herm Eugen Dührings Umwäzung der Wissenschaft, in: MEW, vol. XX. 2aed., Berlim 1968, p. 243. (R.T.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

7.5.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SVENDBORG

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 

An die Nachgeborenen

1
 
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
 
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.
 
Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?
 
Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)
 
Man sagt mir: iss und trink dul Sei froh, dass du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen.
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten! [1937-1938]
 
2
 
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zur Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
 
Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten.
Schlafen legte ich mich unter die Mörder.
Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
 
Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.
 
Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war. [1934]
 
3
 
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.
Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.
 
Dabei wissen wir doch:
Auch der Hass gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.
 
Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Dass der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht. [1937-1938]
 
 
Aos pósteros
 
1
 
Verdade, vivo em tempos sombrios!
 
A palavra inofensiva é tola. Uma testa lisa
Sinal de insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A notícia terrível.
 
Que tempos são esses, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Pois implica em calar-se sobre tanta atrocidade!
Quem atravessa calmamente a rua
Não está mais disponível para seus amigos
Necessitados?
 
É verdade: ainda ganho o meu sustento
Mas creiam-me: isso é mero acaso. Nada
Do que faço me permite comer até me saciar.
Fui poupado por acaso. (Quando acabar a minha sorte, estou perdido.)
 
Dizem para mim: coma e beba! Alegre-se de ter
Mas como posso comer e beber, se
Tiro aquilo que como do faminto, e
Meu capo d'água falta a quem tem sede?
E, contudo, bebo e como.
 
Quem me dera ser sábio também,
Nos velhos livros se lê o que é sábio:
Afastar-se da peleja do mundo e passar
O breve tempo sem medo.
Também evitar a violência
Pagar a maldade com o bem
Não satisfazer seus desejos, mas esquecê-los
É tido por sábio.
Nada disso eu consigo:
Verdade, vivo em tempos sombrios!
 
2
 
Vim para as cidades no tempo da desordem
Quando a fome imperava.
Cheguei entre os homens no tempo da revolta
E com eles me insurgi.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.
 
Minha comida comi entre batalhas.
Fui dormir entre assassinos.
Do amor cuidei desatento
E a natureza olhei sem paciência.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.
 
As estradas levavam ao pântano no meu tempo.
A linguagem me entregou ao carniceiro.
Eu pouco podia. Mas sem mim os poderosos
Sentavam-se mais seguros, esperava.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.

As forças eram poucas. O alvo
Estava a uma grande distância
Visível o bastante, ainda que para mim
Quase inatingível.
Assim transcorreu o tempo
Que na Terra me foi dado.
 
3
 
Vocês que emergirão da enchente
Em que nós soçobramos
Lembrem-se
Quando falarem das nossas fraquezas
Também do tempo sombrio
Do qual fugiram.
Mas fomos, trocando de países mais do que de sapatos
Através das guerras de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.
 
E contudo sabemos:
O ódio contra a baixeza
Também desfigura o semblante.
A ira contra a injustiça
Também enrouquece a voz. Oh, nós
Que queríamos preparar o solo para a gentileza
Não conseguimos nós mesmos ser gentis.
 
Mas vocês, quando então chegar a hora
Do ser humano ser do ser humano amparo
Lembrem-se de nós
Com benevolência.

Schlechte Zeit für Lyrik
 
Ich weiß doch: nur der Glückliche
Ist beliebt. Seine Stimme
Hört man gern. Sein Gesicht ist schön.
 
Der verkrüppelte Baum im Hof
Zeigt auf den schlechten Boden, aber
Die Vorübergehenden schimpfen ihn einen Krüppel
Doch mit Recht.
 
Die grünen Boote und die lustigen Segel des Sundes
Sehe ich nicht. Von allem
 
Sehe ich nur der Fischer rissiges Garnnetz.
Warum rede ich nur davon
Daß die vierzigjährige Häuslerin gekrümmt geht?
Die Brüste der Mädchen
Sind warm wie ehedem.
 
In meinem Lied ein Reim
Käme mir fast vor wie Übermut.
In mir streiten sich
Die Begeisterung über den blühenden Apfelbaum
Und das Entsetzen über die Reden des Anstreichers.
Aber nur das zweite
Drängt mich zum Schreibtisch. [1939]
 
Mau tempo para poesia
 
Eu sei: só quem é feliz
É amado. Sua voz
Se ouve com prazer. Seu rosto é belo.
 
A árvore atrofiada no pátio
Indica um solo ruim, mas
Os passantes a insultam por seu aleijão
E com razão.
 
Os barcos verdes e as divertidas velas do estreito
Eu não vejo. De tudo
 
Vejo apenas a rede esgarçada do pescador.
Por que só falo disso
Que a criada quarentona caminha encurvada?
Os seios das meninas
Estão quentes como antes.
 
Na minha canção uma rima
Me soaria quase uma arrogância.
 
Brigam dentro de mim:
O entusiasmo pela macieira florindo
A ojeriza aos discursos do pintor de paredes.
Mas somente a última
Me impele à escrivaninha.

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos) 

6.5.26

entra/Rokurou Ogaki 大柿ロクロウ/Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 1

OGAKI, Rokurou 大柿ロクロ. Crazy food truck クレイジーフードトラック — volume 1 / Rokurou Ogaki; tradução de Drik Sada; edição Ferrez e Thiago Ferreira. São Paulo: Comix Zone, 2024.

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Juvenília e Poemas Diversos/Ivan Junqueira/sai

 .

Não tenho por amante uma leoa ilustre;
A fusa de minha alma empresta-me o seu lustre.
Arredia ao olhar de um mundo que escarnece,
É no meu peito que a beleza lhe floresce.
 
Para ter borzeguins, sua alma pôs à venda, 
Mas Deus riria se, ante essa infame oferenda,
Eu me tornasse de Tartufo um impostor,
Eu, que vendo a minha arte e quero ser autor.

Vicio até bem mais grave: ela usa uma peruca.
Negros cabelos cobrem sua branca nuca,
Mas mesmo assim lhe chovem beijos amorosos
Sobre a fronte mais calva do que a dos leprosos.
 
Ela é zarolha, e o estranho olhar com que nos fita,
Sob a pestana esguia que a de um anjo imita,
É tal que os olhos para quem já se perdeu
Não me valem seu olho encovado e judeu.
 
Sequer vinte anos tem; os seios — que desgraça! —
De cada lado pendem como uma cabaça,
E contudo me arrastam ao seu corpo estreito,
Em cujas tetas eu, como um bebê, me aleito.
 
E embora ela não ganhe às vezes uma esmola
Para esfregar-se em quem a sua carne esfola,
Eu a lambo em silêncio até com mais fervor
Que Madalena em fogo os pés do Salvador.

A mísera Criatura que ao prazer sucumbe
Tem no peito uma gosma que sufoca e zumbe,
E percebo no som desse espasmo brutal
Que ela mordeu amiúde a côdea do Hospital.
 
Seus olhos cujo brilho à noite nunca cessa
Crêem ver outros olhos no ermo da travessa,
Pois tendo a todo mundo aberto o coração,
Sente medo no escuro e crê em assombração.
 
Eis que por isso tem-lhe o sebo mais valia
Que para um sábio a ler seus livros noite e dia
E lhe apazígua sobremodo a fome e a dor
Que a aparição de seus amantes já sem cor.
 
Se acaso a virdes, em bizarra indumentária,
Rente às esquinas de uma rua solitária,
Os olhos contra o chão — como um pombo ferido 
Arrastando no arroio um calcanhar despido,
 
Senhores, não lanceis nenhuma infâmia dura
Ao rosto espaventado dessa pobre impura
Que a deusa Fome, por uma noite de frio,
Fez levantar as saias e exibir-se em cio.
 
Ela é meu tudo, minha rainha e duquesa,
Minha pérola e jóia — enfim, minha riqueza,
Aquela que ao regaço em triunfo me acolheu
E em suas mãos o coração me reaqueceu.

. 

O CACHIMBO DA PAZ
Imitado de Longfellow
 1
 
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
O Poderoso, veio à planície florida,
Ao prado imenso rente ao cerro montanhoso,
E ali, sobre as escarpas da Rubra Pedreira,
O espaço dominando e ardendo à luz primeira,
Eis que se ergueu, onipotente e vigoroso.
 
E convocou então os povos incontáveis,
Mais do que as ervas e as areias infindáveis.
Com sua mão tremenda uma lasca arrancou
A rocha, e fez com ela um cachimbo disforme;
Depois, junto ao regato, num bambual enorme,
Para servir de tubo, um caniço apanhou.
 
Para enchê-lo tomou um bálsamo oloroso;
E, criador da Energia, o Todo-Poderoso.
De pé, eis que acendeu, qual divino fanal,
O Cachimbo da Paz. De pé sobre a Pedreira,
Fumou, soberbo e ereto, ardendo à luz primeira.
E para as tribos esse era o grande sinal.
 
E em círculo subia a fumaça sagrada
No ar doce da manhã, sensual e perfumada.
E agora o que se via era um sombrio véu;
Logo o vapor se fez mais azulado e intenso,
Depois branqueou, sempre engrossando no ar suspenso,
Para extinguir-se aos pés da abóbada do céu.
 
Dos distantes confins das Montanhas Rochosas,
Desde os lagos do Norte às ondas impetuosas,
De Tawasentha, a várzea amena e sem igual,
A Tuscaloosa, erma floresta trescalante,
Avistou-se o sinal e a fumaça ondulante
Lentamente a subir no incêndio matinal.

Os Profetas diziam: Vedes essa estria
De vapores, que, igual ao braço que chefia,
Oscila e se recorta em negro no ar vermelho?
É Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Que proclama por toda a planície florida:
Guerreiros meus, eu vos convoco ao real conselho!
 
Pelas sendas do rio ou pelo ermo poeirento,
Pelas quatro vertentes de onde sopra o vento,
Vós, fiéis guerreiros, vós das tribos em porfia,
Entendendo o sinal da nuvem caminheira,
Viestes dóceis até junto à Rubra Pedreira
Onde sempre Gitchi Manitu vos ouvia.

Os guerreiros de pé se erguiam na paisagem,
Armas na mão, a face impávida e selvagem,
Matizados tal como uma folha outonal;
O odio que à luta impele a todos os mortais,
O ódio que ardia nos olhares ancestrais
No olhar lhes acendia uma flama fatal.
 
Em seus olhos brilhava a maldição da guerra.
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Terra,
Tinha por eles uma infinda compaixão,
Como um pai extremoso, indisposto às disputas,
Que vè seus filhos a morder-se em árduas lutas.
Tal Gitchi Manitu por toda uma nação.
 
E ergueu sobre eles sua forte mão direita
Para dobrar-lhes a alma e a natureza estreita,
Para esfriar-lhes a febre à sombra dessa mão;
Depois lhes disse, a voz solene e majestosa,
Comparável à voz de uma água tormentosa,
Que tomba e ecoa mais hedionda que um trovão:
 
2
 
Minha posteridade, odiosa mas querida!
O filhos meus, ouvi a divina razão!
É Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Quem vos fala! o que em vossa planície florida
Pós a rena, o castor, a raposa e o bisão.
 
Eu vos tornei a caça e a pesca generosas;
Por que se fez então o caçador tão vil?
De pássaros povoei as várzeas mais lodosas;
Por que não sois felizes, crianças belicosas?
Por que ao vizinho o homem dá caça e faz-se hostil?
 
Bem longe estou de vossa arena de inimigos.
Promessas e orações de vós não ouço mais!
Domina vosso gênio o amor pelos perigos,
E vossa força está na união. Quais bons amigos
Vivei, pois, e aprendei a vos manter em paz.
 
Um Profeta virá de minha mão em breve
Para vos dar conforto e convosco sofrer,
E seu verbo fará a existência mais leve; 
Mas se a menosprezá-lo algum de vós se atreve,
Terei então, filhos malditos, que morrer!
 
Às ondas apagai a cor dos ódios vãos.
O caniço é abundante e a rocha não se esfaz;
Cada um pode entalhar o seu cachimbo. As mãos
Limpai o sangue! Agora vivei como irmãos,
E unidos, pois, fumai o Cachimbo da Paz!
 
3
 
E eles então, depondo as armas sobre a terra,
Lavam nas águas as brutais cores da guerra
Que às frontes lhes ardiam triunfantes e cruéis.
Cada um faz seu cachimbo e às margens do regato
Colhe um longo caniço e dá-lhe o corte exato.
E o Espírito sorria ante os seus filhos fiéis.
 
Todos se foram, a alma quieta e enternecida,
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Uma vez mais galgou a escada celestial.
-Através do vapor que em nuvens se desdobra
Ergueu-se o Poderoso, ébrio de sua obra,
Sublime, perfumado, infinito, triunfal!

BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.