12.6.26

entra/abel carlevaro/bach/bwv 998/Preludio BWV 999, Bourrée BWV 996, Zarabanda BWV 997, Gavota en rondó BWV 1006, Allegro BWV 998/sai

CARLEVARO, Abel (1916-2001). En Estudios de Grabación 1949/1980 Johann Sebastian Bach: Preludio, fuga y allegro BWV 998; Cinco piezas para laúd: Preludio BWV 999, Bourrée BWV 996, Zarabanda BWV 997, Gavota en rondó BWV 1006, Allegro BWV 998.  5/6. Montevideo: Ayui/Ediciones Tacuapé s.r.l; 2010.

 

BACH, Joh.Seb (1685-1750). Kompositionen für die Laute/ Johann Sebastian Bach; Este vollständige und Kritisch durchgesehene Ausgabe. Nach Altem Quellenmaterial für die heutige Laute übertragem und herausgegeben von Hans Dagobert Bruger. Präludium mit Fuge BWV 998; Präludium BWV 999, Bourrée BWV 996 (Suite I), Sarabanda BWV 997 (Suite II), Gavotte en Rondeau BWV 1006 (Suite IV), Allegro BWV 998.  Leipzig: Julius Zwißlers Verlag, 1921.

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
<fase média>
[...] 
“Acreditem, o vinho das barreiras salvou de muitos abalos as estruturas governamentais.” Edouard Foucaud, Paris Inventeur: Physiologie de lIndustrie Française. Paris, 1844, p. 10.
[a 7a, 4]
[...] 
Lamennais e Proudhon queriam ser enterrados em uma vala comum. (Delvau, Heures Parisiennes, Paris, 1866, pp. 50-51).
[a 7a, 7] 
[...]
A questão dos operários, assim como a questão dos pobres, colocou-se logo na porta de entrada da Revolução. Como os filhos das famílias de operários e artesãos não conseguiam suprir a demanda da indústria voraz pelo trabalho, partiu-se para a mão-de-obra das crianças órfãs... A exploração industrial da criança e da mulher ... é uma das conquistas mais gloriosas da filantropia. Também a alimentação de baixo custo para os operários, como meio de diminuir seus salários, foi uma das idéias filantrópicas preferidas dos donos de fábricas e dos economistas do século XVIII... Quando os franceses estudarem a Revolução com fria serenidade e sem preconceitos de classe, constatarão que as idéias que contribuíram para sua grandeza vieram da Suíça, onde a burguesia já tinha se apossado do poder: foi a partir de Genebra que A. P. de Candolle introduziu as chamadas ‘sopas econômicas’ ... que fizeram furor em Paris durante a Revolução... Até mesmo Volney, sempre tão seco e impassível, não conseguia conter a emoção ao ver esta associação de homens de posição respeitável empenhados em cuidar de um caldeirão de sopa fervente.” Paul Lafargue, “Die christliche Liebestätigkeit”, Die Neue Zeit, XXIII, n° 1, Stuttgart, pp. 148-149.
[a 8a, 1]
“Basta que três homens estejam na rua conversando sobre salários, que eles peçam ao empresário, enriquecido graças ao trabalho deles, um pequeno aumento, e o burguês logo se assusta, grita, chama pela polícia... A maior parte dos governos ... especulou sobre esse triste progresso do medo... Tudo o que posso dizer é que ... nossos grandes Terroristas’ não eram absolutamente homens do povo, mas burgueses, nobres, espíritos cultivados, sutis, bizarros, sofistas e escolásticos.” J. Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, pp. 153-154.
[a 8a, 2]
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

11.6.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/ZURIQUE/BERLIM ORIENTAL [1947-1956]

6. ZURIQUE/BERLIM ORIENTAL [1947-1956]
 
Die Freunde
 
Mich, den Stückschreiber
Hat der Krieg getrennt von meinem Freund, dem Bühnenbauer.
Die Städte, in denen wir arbeiteten, sind nicht mehr.
Wenn ich durch die Städte gehe, die noch sind
Sage ich mitunter: dieses blaue Stück Wäsche dort
Hätte mein Freund besser plaziert. [1948]

Os amigos
 
A mim, o escritor de peças
A guerra separou do meu amigo, o construtor de cenas.
As cidades em que trabalhávamos não existem mais.
Quando passo pelas cidades que ainda estão de pé
Digo às vezes: essa peça de pano azul ali
Meu amigo teria posicionado melhor.
.
Paul Dessau, music; Bertold Brecht, lyrics 
  • I. Grabschrift für Rosa Luxembourg, pour chœur mixte et orchestre.
  • II. Grabschrift für Liebknecht, pour chœur mixte et orchestre.
  • Grabschrift Liebknecht
     
    Hier liegt
    Karl Liebknecht
    Der Kämpfer gegen den Krieg.
    Als er erschlagen wurde
    Stand unsere Stadt noch. [1948]

    Epitafio Liebknecht
     
    Aqui jaz
    Karl Liebknecht
    Guerreiro contra a guerra.
    Quando foi trucidado
    Esta cidade estava de pé.
    Grabschrift Luxemburg
     
    Hier liegt begraben
    Rosa Luxemburg
    Eine Jüdin aus Polen
    Vorkämpferin deutscher Arbeiter
    Getötet im Auftrag
    Deutscher Unterdrücker. Unterdrückte
    Begrabt eure Zwietracht! [1948]
     
    Epitafio Luxemburgo
     
    Aqui está enterrada
    Rosa Luxemburgo
    Uma judia da Polônia
    Paladina dos trabalhadores alemães
    E morta por ordem
    De alemães opressores: oprimidos
    Enterrai vossa discórdia!
    .
    Durch die Trümmer der Luisenstrasse
    Fuhr eine Frau auf dem Fahrrad
    Über der Lenkstange hielt sie Weintrauben
    Und aß im Fahren. Angesichts
    Ihres Appetits bekam auch ich Appetit
    Und nicht nur auf Weintrauben. [1949]
     
    Através dos escombros da Luisenstrasse
    Passou uma mulher de bicicleta
    Levava no guidão um cacho de uvas
    Que ela comia a pedalar. Face
    A seu apetite, também fiquei com apetite
    E não apenas por uvas.
    . 
     
    An den Schauspieler P. L. im Exil
     
    Höre, wir rufen dich zurück. Verjagter
    Jetzt sollst du wiederkommen. Aus dem Land
    Da einst Milch und Honig geflossen ist
    Bist du verjagt worden. Zurückgerufen
    Wirst du in das Land, das zerstört ist.
    Und nichts anderes mehr
    Können wir dir bieten, als daß du gebraucht wirst.
     
    Arm oder reich
    Gesund oder krank
    Vergiss alles
    Und komm. [1950]
     
    Ao ator P. L. no exílio
     
    Ouve, te chamamos de volta. Expulso
    Deves regressar agora. Da terra
    Onde outrora corria leite e mel
    Te expulsaram. És chamado de volta
    Para a terra que está devastada.
    E nada mais podemos
    Te oferecer senão que precisamos de ti.
     
    Pobre ou rico
    Sadio ou doente
    Esquece tudo
    E vem.
    . 
    An R.
     
    Geh ich zeitig in die Leere
    Komm ich aus der Leere voll.
    Wenn ich mit dem Nichts verkehre
    Weiß ich wieder, was ich soll.
     
    Wenn ich liebe, wenn ich fühle
    Ist es eben auch Verschleiß
    Aber dann, in der Kühle
    Werd ich wieder heiß. [1950]
     
    Para R.

    Se vou cedo pro vazio
    Do vazio volto cheio.
    Quando ao nada me associo
    Sei de novo o que eu anseio.
     
    Quando eu sinto, quando amo
    É um desgaste isso também
    No frio, porém
    De novo me inflamo.
    . 
    Paul Dessau, music; Bertold Brecht, lyrics; vocals and guitar:  
    Nr4 Der Liebste Gab Mir Einen Zweig
    Die Liebste gab mir einen Zweig
    Mit gelbem Laub daran.
    Das Jahr, es geht zu Ende
    Die Liebe fängt erst an. [1950]
     
    A mais amada me deu um ramo
    Com folhagem amarela.
    O ano chega ao fim. O amor
    Começa a aflorar por ela.
    .  
    Begegnung mit dem Dichter Auden
     
    Lunchend mich, wie sich's gehört
    In a Brauhaus (unzerstört)
    Saß er gleichend einer Wolke
    Ober dem bebierten Volke
     
    Und erwies die Referenz
    Auch der nackten Existenz
    Ihrer Theorie zumindst
    Wie du sie in Frankreich findst. [Ic. 1950]
     
    Encontro com o poeta Auden
     
    Rangando-me, como se preza
    Numa cervejaria (ilesa)
    Ele, feito uma nuvem sobre
    Aquela multidão insóbria.
     
    E a deferência atribuía
    Igualmente à existência nua
    Ao menos pela teoria
    Que na França você situa.
     
    Athlet und Virtuose sind willkommen
    Pfaff und Bonze werden nicht angenommen.
    Dies ist nicht Tempel noch Warenhaus
    Schwindel und Schacher bleiben draus. [c. 1950]
     
    São bem-vindos aqui: virtuose e atleta
    Burocrata e presbítero a gente ejeta.
    Isto não é uma igreja, tampouco armazém
    Picareta e patife, não vem que não tem!
     
    Auf einen chinesischen Theewurzellöwen
     
    Die Schlechten fürchten deine Klaue.
    Die Guten freuen sich deiner Grazie.
    Derlei
    Hörte ich gern
    Von meinem Vers. [1951]
     
    A um leão de raiz-de-chá chinês
     
    Os maus temem tuas garras.
    Os bons prezam tua graça.
    Quem dera
    Ouvir isso
    Dos meus versos.

    Frage
     
    Wie soll die große Ordnung aufgebaut werden
    Ohne die Weisheit der Massen? Unberatene
    Können den Weg für die vielen
    Nicht finden.
    Ihr großen Lehrer
    Wollet hören beim Reden! [1952]
     
    Pergunta
     
    Como há de ser construída a grande ordem
    Sem a sabedoria das massas? Desinformados
    Não podem achar o caminho
    Para os muitos.
    Vocês, grandes mestres
    Querem escutar discursando!
     
    Die sieben Leben der Literatur
     
    Daß die Literatur keine Mimose ist
    Hat sich herumgesprochen. Wie oft schon
    Ward sie als Göttin geladen und
    Als Vettel behandelt. Ihre Herren
    Fickten sie nachts und spannten sie tags vor den Holzpflug. [c. 1953]

    As sete vidas da literatura
     
    Que a literatura não é nenhuma melindrosa
    Está falado e dito por aí. Quantas vezes já foi
    Carregada como deusa e
    Tratada como vadia. Seus senhores
    Fodiam-na de noite e a atrelavam no arado de dia.

    Ach wie solln wir nun die kleine Rose buchen
    Plötzlich dunkelrot und jung und nah
    Ach wir kamen nicht, sie zu besuchen
    Aber als wir kamen, war sie da
     
    Vor sie da war, war sie nicht erwartet
    Als sie da war, war sie kaum geglaubt
    Ach, zum Ziele kam, was nie gestartet
    Aber war es so nicht überhaupt? [1954]

    Ah, a pequena rosa, como registrar?
    Súbito rubra, jovem e tão perto
    Não vínhamos visitá-la, mas ao chegar
    Ali, o seu botão já estava aberto
     
    Antes de estar ali, inesperada
    Depois de estar, por pouco não se crê;
    Chega à meta o que nem teve largada
    Ah, mas não foi assim, sem mais nem quê?
     
    BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)  

    9.6.26

    continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SANTA MONICA [1941-1947]/ZURIQUE/BERLIM ORIENTAL [1947-1956]

    5. SANTA MONICA [1941-1947] 
    HOLLYWOODELEGIEN / ELEGIAS HOLLYWOODIANAS
     
    1
     
    Das Dorf Hollywood ist entworfen nach der Vorstellungen
    Die man hierorts vom Himmel hat. Hierorts
    Hat man ausgerechnet, daß Gott
    Himmel und Hölle benötigend, nicht zwei
    Etablissements zu entwerfen brauchte, sondern
    Nur ein einziges, nämlich den Himmel. Dieser
    Dient für die Unbemittelten, Erfolglosen
    Als Hölle. [1942]
     
    1
     
    A aldeia Hollywood foi projetada segundo a ideia
    Que ali se faz do céu. Ali
    Calculou-se que Deus
    Necessitando de céu e inferno, não precisava
    Projetar dois estabelecimentos, mas
    Apenas um único, o céu. Este
    Serve aos desprovidos e fracassados
    De inferno.
     
    2
     
    Am Meer stehen die Oltürme. In den Schluchten
    Bleichen die Gebeine der Goldwäscher. Ihre Söhne
    Haben die Traumfabriken von Hollywood gebaut.
    Die vier Städte
    Sind erfüllt von dem Olgeruch
    Der Filme. [1942]
     
    2
     
    Defronte ao mar, há torres de petróleo. Nos desfiladeiros
    Descoram ossadas de garimpeiros. Seus filhos
    Construíram as fábricas de sonho de Hollywood.
    As quatro cidades
    Estão infestadas do ranço
    Dos filmes.

    3
     
    Die Engel von Los Angeles
    Sind müde vom Lächeln. Am Abend
    Kaufen sie hinter den Obstmärkten
    Verzweifelt kleine Fläschchen
    Mit Geschlechtsgeruch. [1942]
     
    3
     
    Os anjos de Los Angeles
    Estão fartos de sorrir. À noite
    Desesperados compram, atrás das
    Bancas de frutas, frascos
    Com cheiro de sexo.

    4
     
    Unter den grünen Pfefferbäumen
    Gehen die Musiker auf den Strich, zwei und zwei
    Mit den Schreibern. Bach
    Hat ein Strichquartett im Täschchen. Dante schwenkt
    Den dürren Hintern. [1942]
     
    4
     
    A sombra das pimenteiras verdes
    Os músicos fazem trottoir, dois a dois
    Com os roteiristas. Bach
    Leva uma cantata na bolsinha. Dante mexe
    Seu esquálido traseiro.

    Die Stadt ist nach den Engeln genannt
     Und man begegnet allenthalben Engeln.
    Sie riechen nach Ol und tragen goldene Pessare
    Und mit blauen Ringen um die Augen
    Füttern sie allmorgendlich die Schreiber in ihren Schwimmpfühlen. [1942]
     
    A cidade deve o seu nome aos anjos
    E com anjos se esbarra em todo lugar.
    Cheiram a petróleo e usam pessários dourados
    E com olheiras roxas ao redor dos olhos
    Alimentam todas as manhãs os escritores em suas pool-cilgas.
     
    Jeden Morgen, mein Brot zu verdienen
    Fahre ich zum Markt, wo Lügen gekauft werden.
    Hoffnungsvoll
    Reihe ich mich ein unter die Verkäufer. [1942]
     
    Toda manhã, para ganhar meu pão
    Dirijo até o mercado onde se compra mentiras.
    Esperançoso
    Eu me ponho na fila dos vendedores.

    Die Stadt Hollywood hat mich belehrt
    Paradies und Hölle
    Können eine Stadt sein: für die Mittellosen
    Ist das Paradies die Hölle. [1942]
     
    A cidade de Hollywood ensinou-me
    Inferno e paraíso
    Podem ser uma cidade: para os desprovidos
    É um inferno o paraíso.
     
    In den Hügeln wird Gold gefunden
    An der Küste findet man Öl.
    Größere Vermögen bringen die Träume vom Glück
    Die man hier auf Zelluloid schreibt. [1942]
     
    Nas colinas ouro é encontrado
    Na costa se encontra petróleo.
    Maiores fortunas trazem os sonhos de felicidade
    Que são escritos aqui no celuloide.
     
    Über den vier Städten kreisen die Jagdflieger.
    Der Verteidigung. In großer Höhe
    Damit der Gestank der Gier und des Elends
    Nicht bis zu ihnen heraufdringt. [1942]

    Sobre as quatro cidades circunvoam as caças.
    Da salvaguarda. Em grande altitude
    A fim de que o fedor da ganancia e misério
    Não consiga chegar até eles.
    In der Chinesenstadt von Los Angeles

    Ein Tropfen der rechten Essenz
    Andert den Geschmack des Wassers
    Einer ganzen Meeresbucht. [1942]
     
    Na Chinatown de Los Angeles
     
    Uma gota da essência propicia
    Muda o sabor da água
    De toda uma baía.
    .
    Lied einer deutschen Mutter
     
    Mein Sohn, ich hab dir die Stiefel
    Und dies braune Hemd geschenkt:
    Hätt ich gewußt, was ich heute weiß
    Hätt ich lieber mich aufgehängt.
     
    Mein Sohn, als ich deine Hand sah
    Erhoben zum Hitlergruß
    Wußte ich nicht, daß dem, der ihn grüßet
    Die Hand verdorren muß.
     
    Mein Sohn, ich hörte dich reden
    Von einem Heldengeschlecht.
    Wußte nicht, ahnte nicht, sah nicht:
    Du warst ihr Folterknecht.
     
    Mein Sohn, und ich sah dich marschieren
    Hinter dem Hitler her
    Und wußte nicht, daß, wer mit ihm auszieht
    Zurück kehrt er nimmermehr.
     
    Mein Sohn, du sagtest mir, Deutschland
    Wird nicht mehr zu kennen sein.
    Wußte nicht, es würd werden
    Zu Asche und blutigem Stein.
     
    Sah das braune Hemd dich tragen
    Habe mich nicht dagegen gestemmt.
    Denn ich wußte nicht, was ich heut weiß:
    Es war dein Totenhemd. [1943]
     
    Canção de uma mãe alemã
     
    Meu filho, a camisa marrom
    E a bota te dei comovida
    Mas se soubesse o que sei hoje
    Tirava a minha vida.
     
    Meu filho, ao ver a tua mão
    Erguida a Hitler, não sabia
    Que a mão daquele que o saúda
    Há de secar um dia.
     
    Meu filho, te ouvi exaltando
    A tal raça superior.
    Não vi nem soube ou suspeitei:
    Foste o torturador.

    Meu filho, te vi desfilando 
    À frente o Führer, tu atrás.
    Não sabia que quem o segue
    Não vai voltar jamais.
     
    Meu filho, disseste: a Alemanha
    Há de ganhar outra feição.
    Eu não sabia que eram cinzas
    E sangue sobre o chão.
     
    Meu filho, te vi de camisa
    Marrom, não movi uma palha.
    Não sabia o que eu hoje sei:
    Era a tua mortalha.
     .
    Vom Sprengen des Gartens
     
    O Sprengen des Gartens, das Grün zu ermutigen!
    Wässern der durstigen Bäume! Gib mehr als genug und
    Vergiß nicht das Strauchwerk, auch
    Das beerenlose nicht, das ermattete
    Geizige! Und übersieh mir nicht
    Zwischen den Blumen das Unkraut, das auch
    Durst hat. Noch gieße nur
    Den frischen Rasen oder den versengten nur:
    Auch den nackten Boden erfrische du. [1943]
     
    Do regar o jardim
     
    Regar o jardim, para encorajar o verde!
    Aguar as árvores sedentas! Dê mais do que o bastante e
    Não esqueça os arbustos, mesmo
    Os que não têm bagos, os desbotados
    Sovinas! E não me passe batido pela
    Erva daninha entre as flores, ela também
    Tem sede. Nem molhe apenas
    O gramado viçoso ou o ressequido apenas:
    O solo nu você refresque também.

    Die Verwandlung der Götter
     
    Die alten heidnischen Götter  das ist ein Geheimnis 
    Waren die ersten, die sich zum Christentum bekehrten
    Durch die grauen Eichenhaine gingen sie vor allem Volk
    Murmelten volkstümliche Gebete und bekreuzten sich.
     
    Durch das ganze Mittelalter stellten sie sich
    Wie zerstreut in die steinernen Nischen der Gotteshäuser
    Überall, wo göttliche Gestalten gebraucht wurden.
     
    Und zur Zeit der französischen Revolution
    Legten sie als erste die goldenen Masken der reinen Vernunft an
    Und als mächtige Begriffe
    Gingen sie, alte Blutsäufer und Gedankenknebler
    Über die gebeugten Rücken der schuftenden Menge. [1943]
     
    A metamorfose dos deuses
     
    Os antigos deuses pagãos  isto é um segredo 
    Foram os primeiros a se converterem ao Cristianismo
    lam, através dos carvalhais cinzas, até o povo
    Murmuravam rezas fortes, faziam o sinal da cruz.
     
    Durante toda a Idade Média se mostravam
    Como que dispersos em nichos de pedra nas igrejas
    Onde quer que se demandasse efígies divinas
     
    E na época da Revolução Francesa
    Foram os primeiros a pôr as máscaras de ouro da razão puro
    E, como conceitos poderosos, andavam
    Velhos sanguessugas e mordaças do pensamento
    Por sobre as costas curvadas da multidão que trabalha.
    .
    Der Bauch Laughtons
     
    Sie alle verschleppen ihre Bäuche
    Als war es Raubgut, als würde gefahndet danach
    Aber der große Laughton trug ihn vor wie ein Gedicht
    Zu seiner Erbauung und niemandes Ungemach.
    Hier war er: nicht unerwartet, doch nicht gewöhnlich
    Und gebaut aus Speisen, ausgekürt
    In Muße, zur Kurzweil.
    Und nach gutem Plan, vortrefflich ausgeführt. [1944]
     
    A barriga de Laughton
     
    Eles todos carregam suas barrigas
    Como se fosse um butim, sob a mira da polícia
    Mas o grande Laughton a expunha como um poema
    Para edificação própria e desgosto de ninguém.
    Aqui estava: não inesperada, mas invulgar
    E construída de iguarias selecionadas
    No ócio, como passatempo.
    E conforme um bom plano, realizado com primor.
    .
    Wenn ich auf dem Kirchhof liegen werde
    Bring die Liebeste mir eine Handvoll Erde.
    Sagt: Hier ruhn die Füße, die zu mir gegangen
    Hier die Arme, die mich oft umfangen. [1944]
     
    Quando forem me deitar no cemitério
    A amada trará um punhado de terra.
    Dirá: aqui jazem os pés que o trouxeram
    Até mim, dois braços que ainda me apertam.
     
    Bei der Nachricht von der Erkrankung
    eines mächtigen Staatsmanns
     
    Wenn der unentbehrliche Mann die Stirn runzelt
    Wanken zwei Weltreiche.
    Wenn der unentbehrliche Mann stirbt
    Schaut die Welt sich um wie eine Mutter, die keine Milch für ihr Kind hat.
    Wenn der unentbehrliche Mann eine Woche nach seinem Tod zurückkehrte
    Fände man im ganzen Reich für ihn nicht mehr die Stelle eines Portiers. [1944]
     
    A notícia do adoecimento de
    um poderoso estadista
     
    Quando o homem imprescindível franze a testa
    Dois impérios estremecem.
    Quando o homem imprescindível morre
    O mundo se olha feito uma mãe que não tem leite para o filho.
    Se o homem imprescindível voltasse uma semana após a sua morte
    Não arranjaria, em todo o império, sequer uma vaga de porteiro.
     
    Alles wandelt sich. Neu beginnen
    Kannst du mit dem letzten Atemzug.
    Aber was geschehen, ist geschehen. Und das Wasser
    Das du in den Wein gossest, kannst du
    Nicht mehr herausschütten.
     
    Was geschehen, ist geschehen. Das Wasser
    Das du in den Wein gossest, kannst du
    Nicht mehr herausschütten. Aber
    Alles wandelt sich. Neu beginnen
    Kannst du mit dem lezten Atemzug. [1944]

    Tudo se transforma. Recomeçar
    Você vai poder com o último fôlego.
    Mas o que passou, passou. E a água
    Que você entornou no vinho, essa
    Não dá mais para separar.
     
    O que passou, passou. A água
    Que você entornou no vinho, essa
    Não dá mais para separar. Mas
    Tudo se transforma. Recomeçar
    Você vai poder com o último fôlego.

    Abgesang
     
    Soll die letzte Tafel dann so lauten
    Die zerbrochene, ohne Leser?
     
    Der Planet wird zerbersten
    Die er erzeugt hat, werden ihn vernichten.
     
    Zusammen zu leben, erdachten wir nur den Kapitalismus.
    Erdenkend die Physik, erdachten wir mehr.
    Da war es, zusammen zu sterben. [1945]
     
    Canto final
     
    Então a tábua derradeira há de ser
    A despedaçada, sem leitor?
     
    O planeta irá pelos ares
    Os que ele criou vão destruí-lo.
     
    Para vivermos juntos, inventamos só o capitalismo.
    Inventando a física, inventamos mais.
    Foi isso, para morrermos juntos.
     
    Seht doch die Leichtigkeit
    Mit der der gewaltige
    Fluß die Dämme zerreißt!
    Das Erdbeben
    Schüttelt mit lässiger Hand den Bodens.
    Das entsetzliche Feuer
    Greift mit Anmut nach der vielhäusrigen Stadt
    Und verzehrt sie behaglich
    Eine geübte Esserin. [c. 1945]

    Vejam só a facilidade
    Com que o enorme rio
    Arrebenta as represas!
    O terremoto
    Sacode o chão com mão displicente.
    O fogo hediondo agarra
    Com garbo a cidade multiedificado
    E a devora à vontade
    Uma versada comedora.
    .
    Der Sumpf
     
    Manchen der Freunde sah ich, und den geliebsten
    Hilflos versinken im Sumpfe, an dem ich
    Täglich vorbeigeh.
     
    Und es geschah nicht an einem
    Einzigen Vormittag. Viele
    Wochen nahm es oft;
    Dies machte es schrecklicher.
    Und das Gedenken an die gemeinsamen
    Langen Gespräche über den Sumpf, der
    So viele schon birgt.
     
    Hilflos nun sah ich ihn zurückgelehnt
    Bedeckt von den Blutegeln
    In den schimmernden
    Sanft bewegten Schlamm. Auf dem versinkenden
    Antlitz das gräßliche
    Wonnige Lächeln. [1947]
     
    O pântano
     
    Quantos amigos eu vi, e os mais amados
    Afundarem desamparados no pantano
    Por onde passo todo dia.
     
    E não se passou numa
    Única manhã. Levou
    Muitas vezes semanas;
    Tornando isso mais macabro.
    E a lembrança das nossas longas
    Conversas sobre o pantano
    Que tantos já abriga.
     
    Desamparado o vi então, caído
    E coberto de sanguessugas
    Na lama cintilante
    Suavemente movediça. No semblante
    Que afunda, o medonho
    E ledo sorriso.

    6. ZURIQUE/BERLIM ORIENTAL [1947-1956]
    [DOS DIÁRIOS]
    [...] 
    13.4.48
    Agora as tentativas de isolar espiritualmente o nacional-socialismo, como certos exageros, hipertrofias, mas o que foi exagerado, hipertrofiado? As câmaras de gás do truste IG Farben são monumentos da cultura burguesa destas décadas.
    O líder das SS Heydrich (ou foi Kaltenbrunner) era um excelente conhecedor de Bach; Einstein toca quarteto e é um humanista, e em algum lugar há fábricas de bombas atômicas trabalhando dia e noite. Nós líamos histórias do oeste selvagem; nossos bisnetos deveriam ler histórias do leste selvagem; pioneiros em luta contra certas tribos.
    [como as ideologias que, se observarmos as eleições, continuam atuais, em todo o mundo. No Brasil tem até candidatos que se dizem bozonaritas de bem. Benjamim e o eterno retorno]
    [...] 
    12.11.48
    Na estação Friedrichstraße há uma livraria com livros velhos. Pertence a um comunista. Escolho uma edição de Goethe e ele recusa-se a me deixar pagá-la.
    [...]
    17.12.48
    Deixo-me ser seduzido a comprar uma primeira edição dos poemas de Hölderlin e uma segunda edição de Hermann e Dorothea, Pode-se mostrar isso para os impressores! Que bom gosto! Como os poemas são tratados com sensibilidade! No conjunto como no detalhe. O impressor deixa incessantemente que os poemas lhe proponham problemas, e corajosamente os resolve. E não há aí nem o papel feito à mão para os ricos, nem o muito barato para as massas. Aliás, tempo não significa ainda lucro.
     
    3.1.49
    Em resposta à minha pergunta, Walcher me diz que o túmulo de Karl e Rosa em um subúrbio (no setor russo), que os nazistas destruíram, não havia sido reconstruído; Pieck the disse que haviam decidido não fazer nada sobre isso.
    Os alemães não têm qualquer senso para história, provavelmente porque não
    têm história.
     
    3.1.49
    Gostaria de publicar os volumes de poesia numa forma de impressão diferente da habitual, pelo menos no zona oriental. Menor para caber no bolsa, à maneira das edições de cerca de 1820. Só no Antiqua e são no estilo Biedermeier, naturalmente.
     
    18.1.49
    Ao longo de todas estas semanas, não me sai da cabeça a vitória das comunistas chineses, que altera completamente a face do mundo. Isto está interruptamente presente para mim e me ocupa de hora em hora.
     
    20.1.49
    Traduzo, de Mao Tse-Tung, Pensamentos ao Sobrevoar a Grande Muralha”.
    [...] 
    8.7.54
    Steff me envia, por meio de desvios, a longa e fundamentada defesa de Oppenheimer, Esse homem infeliz ajudou a fazer a primeira bomba atômica quando, na Guerra a Hitler, os físicos americanos ouviram que Hitler teria mandado trabalhar numa bomba atômica. Para seu terror e de seus colegas, ela foi jogada depois sobre o Japão. Ele tinha preocupações morais com a bomba de hidrogênio, e agora será enviado ao deserto. A sua escrita parece a de um homem acusado por uma tribo canibal de ter se recusado a comer carne. E que, agora, para se desculpar, afirma que estava recolhendo lenha para o caldeirão durante a caçada ao homem! Que trevas!
     
    BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)