4.7.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

g

[A Bolsa de Valores, História Econômica]

“Napoleão representou a última batalha do terrorismo revolucionário contra a sociedade burguesa, proclamada pela revolução, e contra sua política. Napoleão, na verdade, já tinha compreendido a essência do Estado moderno e o fato de este ter como base o livre desenvolvimento da sociedade burguesa, o livre jogo de interesses particulares etc. ... Entretanto, ao mesmo tempo, Napoleão ainda via o Estado como fim em si mesmo e a sociedade burguesa como mera guardiã do tesouro... Ele aperfeiçoou o terrorismo colocando a guerra permanente no lugar da revolução permanente... Se ele oprimiu de maneira despótica o liberalismo da sociedade burguesa — o idealismo político de sua práxis cotidiana —, ele não foi mais indulgente com os interesses materiais essenciais dela, comércio e indústria, cada vez que estes entravam em conflito com seus próprios interesses políticos. Seu desprezo pelos homens de negócios ligados à indústria era o complemento ao seu desprezo pelos ideólogos... Da mesma forma que, sob Napoleão, o terrorismo revolucionário se contrapôs, mais uma vez, à burguesia liberal, assim também na Restauração, sob os Bourbons, a contra-revolução mais uma vez se opôs a ela. Em 1830, a burguesia finalmente realizou seus desejos de 1789, porém com a diferença de que então seu esclarecimento [Aufklärung] político já estava concluído, e ela agora não considerava mais o Estado representativo constitucional como meio de alcançar o Estado ideal, tampouco o bem-estar do mundo ou objetivos humanos universais; ao contrário, ela o reconhecia como a expressão oficial de seu poder exclusivo e como o reconhecimento político de seus interesses particulares.” Karl Marx e Friedrich Engels, Die heilige Familie, cit. em Die Neue Zeit, Stuttgart, III, 1883, pp. 388-389.
[g 1, 1]
[...]
 <fase média>
[...]
“O protestantismo ... aboliu os santos no céu a fim de poder suprimir na terra os feriados a eles dedicados. A Revolução de 1789 foi ainda mais longe. A religião reformada havia conservado o domingo; os burgueses revolucionários achavam que um dia de descanso em cada sete era demais, e instituíram, no lugar da semana de sete dias, a década, para que houvesse um dia de descanso só a cada dez dias. E para enterrar de vez a lembrança dos feriados religiosos..., substituíram no calendário republicano os nomes dos santos pelos nomes de metais, plantas e animais.” Paul Lafargue, “Die christliche Liebestätigkeit”, Die Neue Zeit, Stuttgart, XXIII, n° 1, pp. 145-146.
[g 2, 2]
“A questão dos pobres assumiu logo nos primeiros dias da Revolução ... o caráter de máxima gravidade e urgência. Bailly, que acabara de ser eleito prefeito de Paris com o propósito de aplacar a miséria ... dos operários, agrupou-os e formou uma massa — cerca de 18.000 pessoas — e os encurralou como animais selvagens na colina de Montmartre; aqueles que haviam tomado a Bastilha de assalto vigiavam os operários com canhões, segurando nas mãos as mechas acesas... Se a guerra não tivesse empurrado os operários das cidades e os camponeses desempregados e desamparados ... para o exército, e não os tivesse lançado às fronteiras, teria havido uma sublevação popular ... na França inteira. Paul Lafargue, “Die chrisdiche Liebestätigkeit”, Die Neue Zeit, Stuttgart, XXIII, n° 1, p. 147.
[g 2, 3]
“Nosso século, em que o soberano está em toda parte, menos no trono.” Balzac, prefacio de Un Grand Homme de Province à Paris, cit. em Georges Batault, Le Pontife de la Démagogie, Motor Hugo, Paris, 1934, pp. 230-231.
[g 2a, 1]
[...]
Sobre a Bolsa de Valores: “A Bolsa data somente da época do Sr. de Villèle; havia mais iniciativa e saint-simonismo na cabeça desse ministro de Toulouse do que se poderia imaginar... Sob sua administração, os cargos de agente de câmbio chegaram a ser vendidos por um milhão de francos. A especulação, entretanto, apenas balbuciava seus primeiros lucros; os quatro pequenos bilhões da dívida francesa, alguns milhões da dívida espanhola e da dívida napolitana eram o alfabeto no qual ela aprendia a ler... Acreditava-se na propriedade rural e na casa... Dizia-se de um homem rico: ele possui terras no campo e casas na cidade!... Foi a partir de 1832, depois das ... prédicas do saint-simonismo..., que o país encontrou-se maduro para seu grande destino financeiro. Em 1837, um entusiasmo irresistível arrastou todos os espíritos para a Bolsa; a criação das ferrovias deu uma nova força a este elã... A petite-coulisse3 [o pregão paralelo] ocupa-se dos negócios da pequena burguesia; a contre-petite-coulisse [o pequeno pregão paralelo] movimenta os capitais do proletariado. Um pregão opera para os porteiros, os cozinheiros, os cocheiros, os donos de rotisseria, os comerciantes de aviamentos, os garçons de café; o outro desce um degrau abaixo na hierarquia social. Um dia dissemos a nós mesmos: ‘O sapateiro, o vendedor de fósforos, o limpador de fossas, o vendedor de batatas fritas, não sabem como utilizar seus capitais; podemos abrir para eles o grande mercado da Bolsa’... Abrimos então o pequeno pregão paralelo. Vendíamos por 3 francos, 50 centavos de renda fixa; fazíamos lucros de um centavo; os negócios eram abundantes no pequeno pregão paralelo, quando sobreveio a debacle do mês passado.”’ [Taxile Delord,] Les Petits Paris, vol. I, Paris-Boursier, Paris, 1854, pp. 6-8, 56-57.
[g 3, 2]
[...]
Retrato do agiota Diard, por Balzac, em Les Marana. “Ele pediu tantos por cento sobre a compra de quinze vozes legislativas que, no espaço de uma noite, passaram da bancada da Esquerda para a bancada da Direita. Esse tipo de ação não é mais nem crime, nem roubo, é um modo de governar, ser um comanditado da indústria.” Cit. em Abbé Charles Calippe, Balzac: Ses Idées Sociales, Reims-Paris, 1906, p. 100.
[g 3a, 2] 
 [...]
“Não era a burguesia francesa como tal que dominava sob o rei burguês, mas unicamente ... a aristocracia financeira. A indústria inteira, por sua vez, estava na oposição.” Eduard Ernchs. Die Karikatur der europäischen Völker, Munique, 1921, vol. I, p. 365.
[g 3a, 4]
 “Antes de 1830, a grande agricultura detinha o poder público. Depois de 1830, a indústria tomou esse lugar, mas seu reinado já tinha sido preparado sob o regime que foi derrubado barricadas... Enquanto em 1814 havia 15 fábricas que possuíam máquinas, eram 65 em 1820, e 625 em 1830.” Paul Louis, Histoire de la Classe Ouvrière en France de la Révolution à nos Jours, Paris, 1927, pp. 48-49.
[g 3a, 5]
<fase tardia>

“A escravidão dos governos cresce, e o poder dos especuladores chegou a tal ponto que o jogo da Bolsa tornou-se bússola da opinião pública.” Cit. em F. Armand e R. Maublanc, Fourier, Paris, 1937, vol. II, p. 32. 
[g 4, 1]
A Bolsa de Fourier: “A Bolsa de uma Falange é bem mais animada e mais complexa que as de Londres ou de Amsterdam, uma vez que cada indivíduo tem que organizar uma grande quantidade de encontros para os dias seguintes — encontros de negócios ou de prazeres... Supondo que haja 1.200 indivíduos presentes e 20 sessões de tratativas por indivíduo, há nessa reunião um total de 24.000 negociações a concluir, sendo que cada uma pode envolver 20, 40, 100 indivíduos, que precisam ser consultados nominalmente, em uma luta cabalística... Negocia-se por sinais e sem barulho. Cada negociador exibe em [    ]5 os escudos dos grupos ou das falanges para quem ele negocia, e certos sinais convencionais indicam em que ponto estão as negociações, se já se alcançou a metade, ou um terço, ou um quarto das adesões.” Publication des Manuscrits de Fourier, Paris, 1851-1858, 4 vols., ano 1851, pp. 191-192. 
[g 4, 2]
A designação “Bolsa de trabalho” foi inventada por Fourier, ou por um de seus adeptos.
[g 4, 3]
Em 1816, sete valores foram listados na Bolsa; em 1847, mais de 200.
[g 4, 4]
Em 1825, segundo Marx, a primeira crise da indústria moderna, isto é, a primeira crise do capitalismo.
[g 4, 5]
 
3 Ver arquivo “O”, nota 10. (w.b.)
5 O espaço vazio encontra-se desta forma no livro citado. (R.T.)  
 
i

[Técnica de Reprodução, Litografia]1 
<fase tardia>
[...]
Pigal descreve o povo; Monnier, a pequena-burguesia; Lami, a aristocracia.
[i 1, 2]
Nos primeiros tempos da litografia, observa-se a ação significativa dos amadores — exatamente como ocorreu mais tarde no caso da fotografia.
[i 1, 3]
“A luta entre a litografia e a gravura pontilhada se acentuava a cada dia, e desde o fim de 1817 a vitória coube à litografia, graças à caricatura.” Henri Bouchot, La Lithographie, Paris, 1895, p. 50.
[i 1, 4]
[...]
Raffet realizou uma reportagem litográfica na Criméia.
[i 1, 7] 
[...]
Sobre as contribuições de Doré ao Journal Illustré e ao Journal pour Tous: “Estas publicações baratas — Journal pour Tous, Journal Illustré, Tour du Monde — , nas quais Doré se dedicava com uma prodigalidade e uma verve espantosas, serviam-lhe, antes de tudo, como laboratório de pesquisas. Com efeito, nas grandes edições das livrarias, produzidas a custo elevado (para a época) por Hachette ou Garnier, a imaginação, a fantasia e a verve de Gustave Doré eram..., em certa medida, regulamentadas e limitadas pelas próprias exigências de uma edição de luxo.” Roger Dévigne, “Gustave Doré, illustrateur de journaux à deux sous et repórter du crayon”, Arts et Métiers Graphiques, n° 50, 15 dez. 1935, p. 35.
[i 1a, 2] 
“O operário da Paris em revolução continua sendo apresentado nos livros e nas imagens como um velho soldado da guerra das ruas, um revolucionário experiente, circulando meio nu, com uma cartucheira e um sabre a tiracolo sobre a camisa, a cabeça coberta, como a de um rei da África, com um quepe adornado ou um chapéu de plumas, sem dinheiro, alquebrado, magnânimo, enegrecido de pólvora e suando sob o sol, pedindo ostensivamente água quando lhe oferecem um copo de vinho, instalando-se sobre a almofada do trono à moda dos sans-culottes de 93, revistando seus companheiros ao saírem dos apartamentos reais e fuzilando os ladrões. Olhem os desenhos de Charlet e de Raffet, leiam os relatórios em forma de apoteose que foram vendidos, alguns dias depois da batalha, em benefício das viúvas, dos órfãos e dos feridos.” Gustave Geffroy, LEnfermé, Paris, 1926, vol. 1, p. 51.
[i la, 3]
Certos panfletos de Marx eram litografados. (Conforme Cassou, Quarante-huit, Paris, 1939, §148.)
[i 2] 
 
1 Estas pesquisas de Benjamin sobre a litografia estão relacionadas com seu ensaio “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner tedinischen Reproduzierbarkeit” (A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica): 1a versão (1935): GS I, 431-469; trad. brasileira: OE I, pp. 165-196; 2a versão (1935/1936): GS VII, 350-384; versão francesa: “LŒuvre dArt à lÉpoque de sa Reproduction Mécanisée” (1936), GS I, 709-739; 3 a versão (1936/1939), GS I, 471-508; trad. brasileira: W. Benjamin et al, Textos Escolhidos, São Paulo, Abril Cultural, 1975, pp. 9-34 (Coleção Os Pensadores, XLVIII). — Os artistas mencionados neste arquivo temático são os seguintes: o caricaturista Nicolas Charlet (1792-1862) (cf. Ch. Baudelaire, “Quelques Caricaturístes Français”, in: Œuvres Complètes, vol. II, pp. 546-549), Gustave Doré (1832-1883), o pintor Eugène Lami (1800-1890) (cf. Charles Baudelaire, “Le Peintre de la Vie Moderne”, in: op. cit, vol. II, p. 687), Henri Monnier (1805-1877) (cf. “Quelques Caricaturistes Français”, in: op. cit., vol. II, pp. 557-558), Edme-Jean Pigal (1798-1872) (op. cit, pp. 545-546), Auguste Raffet (1804-1860), especialista em cenas militares, e Alois Senefelder (1771-1834), inventor da litografia. (J.L.; w.b.)  
 
 k

[A Comuna]
[...]
“Em algumas encruzilhadas nosso caminho se alarga inesperadamente em vastas cúpulas... Certamente cada um destes Coliseus clandestinos ofereceria pontos muito úteis para a concentração de forças em algumas eventualidades, assim como o infinito da rede subterrânea, com suas mil galerias, abre uma mina pronta sob todos os pontos da capital... O golpe fulminante que aniquilou o Império não lhe deixou o tempo para que utilizasse este recurso. É ainda mais difícil explicar por que os chefes da Comuna..., determinados a tudo, não tenham recorrido a esse formidável meio de destruição diante da entrada das tropas.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, 1900, p. 121 (“Paris souterrain”). Referência a “Carta de N... (Paris) a Louis Blanc (Versailles), maio de 1871”, que expressa tal expectativa.
[k la, 1]
“Se Rimbaud é, de fato, admirável, não é por ter se calado, mas por ter falado. Se ele se calou, foi certamente por falta de uma audiência verdadeira. E que a sociedade em que vivia não podia lhe oferecer essa audiência. Devemos nos lembrar do fato muito simples de que Arthur Rimbaud veio a Paris, em 1871, naturalmente para se engajar no exército da Comuna... No quartel do Château-d’Eau, o jovem Rimbaud não duvidava ainda da utilidade do escrever, e cantava as mãos da Mendiga, da Jeanne-Marie das periferias, que não é a Marianne de gesso das prefeituras:

‘Não são as mãos de primas
Mas de operárias de fronte larga
Que bronzeia no bosque cheirando a usina
Um sol ébrio de betume.
.....
Elas empalideceram, maravilhosas,
Ao sol pleno, de amor carregado,
Sobre o bronze das metralhadoras
Através da Paris insurreta...’ 
 
Então, nas Assembléias da Comuna ... viam-se ao lado das operárias de Paris..., dos combatentes do socialismo, o poeta da Internacional, Potier; o autor de LInsurgé, Jules Vallès; o pintor do Enterrement à Ornans, Courbet; e o genial experimentador da fisiologia do cerebelo, o grande Flourens.” Aragon, “D’Alfred de Vigny à Avdeenko’, Commune, II, 20 abr. 1935, pp. 810 e 815.
[k la, 2] 
  
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.  

3.7.26

entra/marcus siqueira/contraluz/sai

 Trio V (Haikai)/2011: Simona Cavuoto violino, Ruben Zuniga crotales, Ricardo Bologna vibrafone
 
Trio I (Quadros)/2010: Simona Cavuoto violino, Peter Pas viola, Pedro Gadelha contrabaixo
 
 Trio III (Linhas)/2010: Simona Cavuoto violino, Marcos Kiehl flauta em sol, Sérgio Burgani requinta
 Bouquet/2003: Simona Cavuoto violino, Horácio Gouveia piano (1 pedaço de Willy Corrêa de Oliveira)
 
Trio II (Ressonâncias): Simona Cavuoto violino, Gabriel Levy acordeão, Horácio Gouveia piano
 
Trio VI (Um Sopro): Simona Cavuoto violino, Marcus Siqueira conduítes, Thiago Cury escaleta
Trio IV (Sijô): Simona Cavuoto violino, Adenilson Telles trompete, Ricardo Bologna percussão
Trio VII (Gestos): Simona Cavuoto violino, Maurício De Bonis cravo, Alex Buck percussão
   Prigionieri di un Sogno nelle Carceri di Piranesi: Simona Cavuoto violino, Cassia Carrascoza flautas, Sérgio Burgani clarinete, Horácio Gouveia piano, Marcus Alessi Bittencourt programação PD + Live electronics
    
Signo Sopro III: Cassia Carrascoza flautas, Peter Apps oboé, Sérgio Burgani clarinete, Ruben Zuniga vibrafone crotales, Lliuba Klevtsova harpa, Gilson Antunes violão, Felipe Scagliusi piano, Simona Cavuoto violino, Elisa Monteiro viola, Douglas Kier violoncelo, Cláudio Torezan contrabaixo. Percorso Ensemble regência de Ricardo Bologna
  
Egrégoras: Edson Beltrami flauta, Peter Apps oboé, Sérgio Burgani clarinete, Samuel Hamzem trompa, Francisco Formiga fagote 
 
SIQUEIRA, Marcus. Contraluz / Marcus Siqueira; Projeto Gráfico: Paulo Vidal de Castro & Thais Vilanova; Tipo: Rialto. — São Paulo: Água Forte, Sesc, 2013.
 
 
Capa
A capa é construída com linhas brancas (como a luz) sobre a ausência de luz.
A sua estrutura é feita a partir de pontos separados em pequenos grupos. Cada um deles é um símbolo simples de instrumentos musicais, e cada pequeno grupo representa uma obra. Como são 12 obras no CD dividimos a sua seqüência visual – como a espacialização da violonista nas instruções das 12 peças que formam a obra Bouquet (a 12a na frente [baixo], a 9a atras [cima], etc).
Cada instrumento se conecta com a sua aparição nas outras obras, ou seja: cada violino se liga com todos os violinos; mas o violão – que aparece apenas duas vezes – só tem um traço ligando ambos.
Quartacapa
Na divisão entre o texto dos instrumentos tocados e do ano de composição de cada obra, fizemos uma quantidade de círculos coloridos que representam o timbre dos instrumentos (assim como ao lado de cada obra no encarte – para representar os timbres –, e do nome de cada instrumento).
Cor
Para cada instrumento escolhemos uma cor seguindo o espectro de divisão do branco (luz) – como o arco-íris. Cada padrão de cor representa uma série de timbres semelhantes dos instrumentos tocados no CD. O padrão timbrístico: cordas (do violino até o cravo – timbre indo para o percussivo); percussão (dos timbres mais claros aos mais complexos); instrumentos que vão entre teclas e sopros; e instrumentos de sopro (do metal à madeira). Do timbre puro de um lado (violino) ao timbre mais puro do outro (flauta).
  
Capas abertas (interior)
Fundo branco, da luz completa. Olhando por dentro, cada instrumento está em sua cor. Já o CD é o oposto, sem a ligação dos instrumentos; apenas eles separados nas suas formações (com exceção da obra que o Marcus toca, que está ligada a ele). 
No centro do CD, é visível a ligação dos instrumentos, pois, quando ele é retirado, ficam apenas os traços, sem os círculos dos instrumentos (que estão no CD).
Fonte/Rialto
Nas gravuras de Giovanni Battista Piranesi (que influenciaram Prigioneri di un sogno nelle Carceri di Piranesi) existe uma tipografia de versais. A partir desta influencia, utilizamos uma tipografia realizada em 1999 por um grande calígrafo veneziano (Giovanni de Faccio) e um tipógrafo austríaco (Lui Karner). O primeiro é de Veneza – como o Piranesi –, e esta tipografia de uma beleza impressionante foi realizada a partir da própria arquitetura de Veneza. Ela tem a estrutura semelhante a de Piranesi, mas com uma beleza mais complexa e com uma grande família tipográfica.

Roma
Como Piranesi fez estas gravuras em Roma, acabamos por utilizar todo um padrão de um grande admirador de Roma: Le Corbusier (mas não a Roma de Piranesi, mas a Roma de Michelangelo). Toda a distribuição das obras na capa do CD (a partir do Bouquet) foram distribuídas a partir de um padrão de duas séries de Fibonacci (Modulor), assim como a escala de tamanho do texto e o seu entrelinhamento.
 
 
 

2.7.26

entra/Frank Zappa/Studio Tan/sai

Frank Zappa • Studio Tan

The Adventures of Greggery Peccary (This was written in 1972)

Revised Music For Guitar and Low-Budget Orchestra 

Lemme Take You To The Beach

RDNZL

Produced/composed/Arranged by Frank Zappa

1978

CD: 1995 

Série Jazz/12 episódios/sai

Jazz. Série de  episódios sobre a História do Jazz. No geral, tanto as imagens como, principalmente, a montagem é bem interessante. Não entendo porque algumas figuras, que eu já vi tocando, não aparecem falando:

Ornette Coleman, por exemplo, não aparece, aparece apenas o Charlie Haden, baixista da fase mais radical.

Ou figuras como o Lester Bowie que aparece falando sobre caras que influenciaram ele, mas não sobre o gigante Art Ensemble of Chicago.

E, depois da época do Coleman, vai para o lado fusion e brega do jazz. Até Coltrane, que aparece bem nos programas, some quando vai para este extremo. 

Mas dá bastante destaque para as figuras que acho as maiores a partir de 1920/30: Duke Ellington, Louis Armstrong e Sidney Bechet.

E depois dá um grande destaque para o gigante Thelonious Monk.

4 DVDs com os 12 programas. O diretor, no extra, é bem arrogantnorthamerican.

O Wynton Marsalis comenta todos os tópicos, tocando os temas e dando exemplos com seu trompete. As primeiras vezes que eu vi não gostava muito disso. Depois que passei um dos muitos dias que ele veio nos Sescs de São Paulo ensaiar e dar uma palestra (antes de quase um mês de cursos e apresentações, onde ele ficou impressionado com o Sesc), comecei a ver(ouvir) ele de outra forma. Ele tocando Monk no trompete é muito impressionante!

1.7.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase tardia>
[...]
Como precursores do folhetim podem ser considerados os romances publicados em fascículos. Em 1836, uma revista de Karr foi a primeira a propor a seus leitores um suplemento com fascículos desse tipo, que mais tarde podiam ser reunidos em um só volume.
[d 15, 3]
[...]
Laforgue sobre La Fin de Satan: “Eu me lembro de uma observação do Sr. Mallarmé: Hugo sentava-se diante do órgão todas as manhãs, assim que deixava o leito, como o grande Bach, que empilhava partitura sobre partitura sem se preocupar com outras conseqüências.” Antes, na mesma página: “O órgão continua enquanto a partitura do mundo visível se abrir diante de seus olhos vivos, e enquanto houver vento para os tubos.” Jules Laforgue, Mélanges Posthumes, Paris, 1903, pp. 130-131.
[d 15a, 4]
 [...]
“Lembramo-nos que a China e as mesas começaram a dançar quando todo o resto do mundo parecia estar imóvel  para encorajar os outros.” Karl Marx, Das Kapital, vol. I, ed. organizada por Korsch, Berlim, 1932, p. 83.22
[d 17a, 5]
Em uma nota de Das Kapital (ed. Korsch, p. 541), Marx fala de “Balzac, que perscrutou tão profundamente todas as nuanças da avareza”.
[d 17a, 6]
 
22 À derrota da Revolução de 1848/49 seguiu-se na Europa um período de reacionarismo político. Enquanto nos círculos aristocráticos e burgueses na Europa surgiu um entusiasmo pelo espiritismo, principalmente pelas mesas giratórias, ocorreu na China, sobretudo entre os camponeses, um poderoso movimento de libertação antifeudal, que entrou para a história como a Revolução Taiping. Nota à referida citação, em Karl Marx, Das Kapital, MEW, vol. XXIII, Berlim, 1962, p. 848. (w.b.)
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

30.6.26

entra/Flavio Colin/Edição de artista #1: aventuras do Anjo/Aventuras do Anjo #5: O Lenhador Maldito

COLIN, Flavio (1930-2002). Edição de artista #1: aventuras do Anjo / Flavio Colin, Álvaro Aguiar; prefácio Rodrigo Rosa; introdução Gonçalo Junior; volume com fac-símile da obra em lápis, finalizados com pinceladas a nanquim, aplicação de guache branca como correção e efeitos, grafia do texto nos balões, anotações nos cantos das páginas e, tudo, no formato original da página: 29,7 x 42 cm; direção da edição e projeto gráfico Rodrigo Rosa; edição e produção Ivette Giraldo; título original: Aventuras do Anjo #5: O Lenhador Maldito; 1959. — São Paulo: Figura, 2021.

continua/drummond/Dispersos/Viola de Bolso III/sai

A Outra Face
 
O cômico, um enigma. Oscarito era sério
e agora faz chorar seus amigos diletos.
Se vive acaso numa estrela, está rindo
dessa combinação de contrastes secretos.
 
 DEDICATÓRIAS PARA BROTOS
 
I
Sílvia, cicio em si, brisa levinha,
sussurro no silvado, silva poética.
No silêncio de um vôo de andorinha,
a esquiva graça e a sugestão estética.
II
É Tânia, é Tânia, é Tânia
Maria.
Espontânea
como o sol e o dia.
É Tânia, é Tânia, é Tânia
Maria.
Contemporânea
dos astronautas,
da informática,
da cibernética.
E não abstrusa
nem circuncisfláutica.
É Tânia, é Tânia, é Tânia
simples: Maria 

Exposição
 
Não canto
as armas e os barões assinalados.
Canto
as arcas e os baús de Minas Gerais
já sem ouro e diamantes,
sem escrituras de terras e escravos,
sem belbutinas, veludos,
chamalotes,
rendas.
As arcas e os baús despojados
de turvos segredos familiares,
mas guardando ainda e sempre
um não sei quê de eterno,
a respiração discreta, o silêncio,
a vida recolhida
dos mineiros do Setecentos,
que Iara Tupinambá, o lindo nome,
veio mostrar na Galeria Chica da Silva
recriando com flores? criando
o tempo-e-alma em forma de objeto.
 
Livro
 
Boitempo, ou seja, aquele vago boi
imóvel na planura do passado,
a ruminar o verde-azul-dourado
silêncio do que é de quando foi.
 
Mata Atlântica
 
A Câmara Viajante
 
Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta - ainda esplendor - da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã - quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: "Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?"
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil. 
 

Sem o lirismo das orquídeas,
Sem o charme decorativo das samambaias,
Nua de liquens e bromélias do litoral,
A mata da Caratinga, protegida dos ventos,
Espera de nós
A proteção maior contra o machado,
A serra mecânica, o fogo.

 II 

Samambaias, palmeiras... São alfaias
Da casa vegetal de Itatiaia.
São tesouros, bem mais que barras de ouro,

A guardar com amor para os vindouros. 

III 

Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados
Dia seguinte.
O ranúnculo da esperança não brota
No dia seguinte.
O vazio da noite, o vazio de tudo
Será o dia seguinte.

IV

Muriqui, muriqui, tu estavas aqui
bem antes do europeu, bem antes do progresso.
Teu alegre saltar entre ramos e ventos
vai ficando tão longe. Onde estás, muriqui?

És apenas uma lembrança
De um tempo que eu não vi.

V

De cada cem árvores antigas
Restam cinco testemunhas acusando
O inflexível carrasco secular.
Restam cinco, não mais. Resta o fantasma
Da orgulhosa floresta primitiva.

VI 

A água serpeia entre musgos seculares
Leva um recado de existência a homens surdos
E vai passando, vai dizendo
Que esta mata em redor é nossa companheira,
É pedaço de nós florescendo no chão.

XII

Xaxim, teu nome raro não te deixa
Arborescer no mato em flor.
És enfeite doméstico. Nos lares,
Mulheres maltratam com amor. 

IX 

Uma espuma de azul bóia nas névoas da altura,
Um resto de sonho perdura na resina dos caules.
Manhã-quase-manhã, a terra acorda
Do seu sono de perfumes e lianas.

Na mata de caratinga,
Tem paca, tem capivara,
Tem anta e mais jacutinga,
Tem silêncio tem arara,
E nas ramarias densas
De suas copas imensas,
Paira um segredo mineiro
Que dura um século inteiro… 

XI 

Riacho de Campo Belo,
Crivado de pedras lisas,
Como rápido deslizas
Modulando um ritornelo:
Mais amar sabe quem ama
Sua terra e sua dama.” 

XII 

No esforço de fugir à mata obscura,
Bromélias em família buscam luz
E em suas folhas uma gota d’água,
Puro diamante líquido, reluz.

XIII

Um som de flauta rude se derrama
No que restou da terra comburida.
O sanhaço é nostálgica lembrança
De outro tempo, outra mata, noutra vida. 

XV

Penúltima jacutinga do Brasil?
Ou última, talvez?
Sem coco de palmito-juçara para comer,
Sem galho forte para pouso,
Sem ambiente para viver,
A jacutinga espera o fim de toda a fauna. 

XVII 

Meu gavião-de-penacho,
Meu rei aéreo da mata,
Meu rapinante invencível
De hálux certeiro e cruel,
Quem diria, quem diria
Que um dia se acabaria
Na floresta ressecada
Teu domínio, teu poder? 

XVIII

Meu verdoengo tucano
De bico leve e guloso,
Escuta este teu amigo:
Te arriscas, se não me engano,

A ter um fim doloroso
Se não te pões ao abrigo
Do destruidor ser humano. 

 XIX

O canto-risada
do japuguaçu
No alto da embaúbs 
Me deixa intrigado.
Ele ri de Quê?
Da mão que derruba
Seu ninho cuidado?
Vou adivinhar:
Se a ave ri, coitada.
É que, por destino,
Não sabe chorar.

XX 

Como é palrador este chauá!
Imita voz de gente, é bom ator,
Porém no oco do pau logo se esconde
Se percebe o sinistro caçador.

XXII

Olha o barbado, olha o bando do barbado!
Olha o coro de barbados na floresta!
À sua maneira.
Está berrando, aos deuses implorando
Que detenham a fúria arrasadora
Da sacrificada mata brasileira. 

XXIII 

Leãozinho dourado, o mico
É joia-animal raríssima.
Deixai-o viver, arisco.
Com seu vermelho sedoso,
Seu ouro nativo, seu
Focinho avioletado.
Salve, mico-leão dourado! 

XXIV

Tigrina
Beleza
Felina.
Elástica,
Plástica
Imagem
Selvagem
Da vida
Inserida
Noverso-
Universo
Da mata! 

XXV 

Que rumor é esse na mata?
Por que se alarma a natureza?
Ai…é a moto-serra que mata,
Cortante, oxigênio e beleza.

M.T.A.
 
Imagino o puro semblante:
Maria Teresa Amarante.

Em sua graça natural
lembra andorinha no beiral.

Lembra flor, lembra luz, que sei?
O diamante oculto do rei.

E me pergunto: que poesia
lhe darei, que não seja fria

imitação do melhor verso:
uma garota no universo?

(E além do mais, com esta rima:
neta querida de Herman Lima.)

 

PAPO COM LUMiÈrE

Oi, Louis Lumière, que alegria falar com você
através do tempo e dos seus filmes-relâmpago!
Vou assistir agora, 89 anos depois,
à saída dos operários do seu estúdio
(que você modestamente chamava de fábrica)
em Lyon Monplaisir para o prazer de todo mundo
que mediante um franco de entrada, no subsolo do Salão Indiano do Grand Café
curtia dez filmezinhos de 17 metros cada um.
— Maravilha!
Vão saindo as mulheres de chapéus emplumados
e bustos generosos, como para uma festa,
mas vão para casa de subúrbio preparar o magro jantar de família,
operárias da ilusão, que até hoje distribuem quimeras.
Só você e o mano Augusto não perceberam:
pensavam ter lançado uma simples curiosidade científica
de breve duração, brincadeira sem conseqüências
e criaram um outro mundo dentro do mundo velho e bocejante.
Libertaram as paisagens, soltaram as imagens:
elas agora entram em nossas casas, misturam-se com as nossas vidas.
— Maravilha...
Olha a locomotiva que salta da tela, espalhando susto e fumaça na sala de projeções,
olha Madame Lumière pescando delicadamente peixinhos vermelhos
e o jardineiro levando banho do regador descontrolado...
A invenção ingênua transformou-se em formidável indústria universal
que chega até à lua e embala o sonho dos seres humanos.
Obrigado, meu velho! 
 
Ressonâncias da Poesia de Henriqueta Lisboa

Airosos ares de Minas:
em vós procuro a violeta
com as cambiantes mais finas
para Henriqueta.

Bosques, veredas, colinas:
recolho na caçoleta
vossas discretas resinas
para Henriqueta.

Sons de seresta e matinas,
vou traduzir na espineta
vossas falas cristalinas
para Henriqueta. 
 
Versos de fim de ano
I
Você sabia que a lua
ainda não foi visitada?
Que há sempre uma lua nova
dentro de outra, e encantada?

É lá que vivem as graças
que nesta quadra do ano
a gente sonha e deseja
a todo o gênero humano.

Mas a lua, preguiçosa,
nem sempre atende à pedida?
A gente pede assim mesmo
até melhorar a vida.
II
É tempo de pesquisar no tempo
uma estrela nova, um sorriso;
de dizer à nuvem: sê escultura;
e à escultura: sê nuvem.

Tempo de desejar, tempo de pensar
madura e docemente o bom tempo de acontecer
(e mesmo não acontecendo fica desejado),
pássaro-mensageiro, traço
entre vida e esperança
como satélite no espaço.
III
Na volta da esperança,
um princípio de vida:
ser outra vez criança
por toda, toda a vida.
IV
 
Vinhetas de Carnaval
 
PAIXÂO
 
Não amei Colombina.
Amei, de amor baiano, uma porta-estandarte
que nem sequer me olhava, tão violenta
era a sua paixão pelo estandarte.
A ele se entregava, com ele dormia,
e quando um fósforo consumiu o objeto de seu amor,
também a consumiu, papoula ardente.
 
ERA UMA VEZ
 
O velho mascarado
contempla-se no espelho
e não se reconhece.
A máscara do tempo recobriu
os gloriosos disfarces dos Tenentes do Diabo.
 
SEMPRE LAMARTINE
 
O bom Lalá sorri no espaço indefinido.
Sua canção abafa o inexpressivo ruído
que faz do carnaval uma festa enfadonha.
O povo, a recordá-lo, canta, ri e sonha.
 
SAMBA-SAUDADE

Nasce dos pés o pé de samba
e pela quadra florescendo
vai Mangueira se tornando
sambal em flor,
jardim movente, múltipla corola
esparsa no ar;
exalado a saudade de Cartola.
 
MEMÓRIA NO CHÃO
 
O confete de quarta-feira no asfalto
cisma de continuar o carnaval.
Pisado, repisado, tema
em lembrar a batalha que não houve.
O confete-fantasma
liga-se à amarrotada serpentina,
junto à página da Revista da Semana de 1921
que voou de uma janela nostálgica.
 
O OUTRO CARNAVAL
 
Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em min,
que ninguém percebe, e todos dos dias
exibo na passarela sem espectadores?
 
VISÃO DE PATCHWORK

Como se faz a moda patchwork? A receita é simples,
tomem nota:
o matraquear da metralhadora em serviço;
o canto gregoriano;
as tintas passionais de Van Gogh;
os bigodes do Dr Schweitzer;
o choro do bebê reclamando que não lhe trocaram a fralda;
a Carolina de Chico Buarque na janela;
o grito da vitória de Tarzan;
os objetos e não objetos da Bienal;
o pôr-de-sol de primeira classe do Leblon;
o buzinar dos carros no engarrafamento da manhã;
o chute em gol de Pelé;
o silêncio gelatinoso da pílula;
os pregões na Bolsa de Valores;
o concerto de música experimental serial concreta de vanguarda;
misture bem misturado num coquetel.
junte numa colcha de retalhos,
faça um bolo de cor, som e expressão
e aguarde
— pum — a magnífica explosão.
 
AMIGOS
 
Tenho tantos amigos! Hoje
almocei com Mickey Mouse,
brinquei com Kid Farofa,
joguei bola com Pafúncio,
passeci com Cebolinha,
falei com Recruta Zero
e lanchei com Dick Tracy.
Belinda telefonou.
Brucutu deixou recado.
Onde anda Modesty Blaise,
Steve Roger voltou?
As cobras me convidaram
pra jantar com o Superman.
Os Flintstones chegaram
e Nick Holmes roncando.
Vou chamar o Mago de Id,
Flash Gordon e Charlie Brown
prum cineminha legal.
Tantos amigos que eu tenho!
E nem me lembro de todos...
Até já perdi a conta...
 
DESEJO
 
— Mammy, eu queria ser Mandrake.
Filhinho, pare com essa de almanaque.

— Mammy, eu queria tanto ser Tarzan
— Meu bem, deixe isso pra amanhã
 
Mammy, compra pra mim um disco-voador.
— Querido, você não disse qual a cor.
 
Mammy, é tão difícil ser criança!
Tudo que eu peço a vista não alcança...
  
ANDRADE, Mario Drummond de. 1902-1987. Poesia Completa / Dispersos / Viola de Bolso III / Carlos Drummond de Andrade. (conforme as disposições do autor) Fixação de textos e notas de Gilberto Mendonça Teles. Introdução de Silviano Santiago. Biblioteca Luso-brasileira / Série Brasileira.  1a tiragem da primeira edição, 2002  Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 2003.