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Sobre a figura do colecionador. Pode-se partir do pressuposto de que o verdadeiro colecionador retira o objeto de suas relações funcionais. Esse olhar, todavia, não explica a fundo esse comportamento singular. Pois não é esta a base sobre a qual se constrói uma contemplação “desinteressada” no sentido de Kant c de Schopenhauer, de tal modo que o colecionador consegue lançar um olhar incomparável sobre o objeto, um olhar que vê mais e enxerga coisas diferentes do que o olhar do proprietário profano, e o qual deveria ser melhor comparado ao olhar de um grande fisiognomonista. Entretanto, o modo como este olhar sc depara com o objeto deve ser presentificado de maneira ainda mais aguda através de <uma outra> consideração. [cf. H 2, 7 e H 2a, 1]
<O°, 6>
É preciso saber: para o colecionador, o mundo está presente em cada um de seus objetos e, ademais, de modo organizado. Organizado, porém, segundo um arranjo surpreendente, incompreensível para uma mente profana. Este arranjo está para o ordenamento e a esquematização comum das coisas mais ou menos como a ordem num dicionário está para uma ordem natural. Basta que nos lembremos quão importante é para cada colecionador não só o seu objeto, mas também todo o passado deste, tanto aquele que faz parte de sua gênese e de sua qualificação objetiva, quanto os detalhes advindos de sua história, aparentemente exterior: proprietários anteriores, preço de aquisição, valor etc. Tudo isso, os dados “objetivos”, como os outros, forma para o autêntico colecionador em relação a cada uma de suas possessões uma completa enciclopédia mágica, uma ordem do mundo, cujo esboço é o destino de seu objeto. Aqui, portanto, neste âmbito estreito, é possível compreender como os grandes fisiognomonistas (e colecionadores são fisiognomonisras do mundo das coisas) tornam-se intérpretes do destino. Basta que acompanhemos um colecionador que manuseia os objetos de sua vitrine. Mal segura-os nas mãos, parece estar inspirado por eles, parece olhar através deles para o longe, como um mago. (Seria interessante situar o colecionador de livros como o único que não necessariamente desvinculou seus tesouros de seu contexto funcional.) [cf. H 2, 7 e H 2a, 1]
<O°, 7>
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Ter sempre em mente que o comentário de uma realidade (tal como o escrevemos aqui) exige um método totalmente diferente do que aquele requerido para um texto. No primeiro caso, a ciência fundamental é a teologia, no segundo, a filologia. [cf. N 2, 1]
<O°, 9>
A perscrutação como princípio no filme, na nova arquitetura, na colportagem.
<O°, 1o>
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Gabinete de figuras de cera: misto do efêmero e do que está na moda. “Mulher que prende sua liga.” [André Breton,] Nadja, Paris, 1928, p. 200. [cf B 3, 4 e E 2a, 2]
<O°, 30>
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Poder-se-ia dizer que há duas orientações neste trabalho: a que vai do passado até o presente e apresenta as passagens etc. como precursoras, e a que vai do presente até o passado a fim de fazer explodir no presente a completude revolucionária destes “precursores”, sendo que esta orientação entende também a observação elegíaca, enlevada, do passado recente como sua explosão revolucionária.
<O°, 56>
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Uma diferença notável entre Saint-Simon e Marx. O primeiro amplia do modo mais abrangente possível a classe dos explorados (os produtores), incluindo entre eles até os empresários, uma vez que estes pagam juros a seus credores. Marx, ao contrário, inclui na burguesia todos aqueles que de alguma forma são exploradores, ainda que estes também sejam vítimas de exploração. [cf. U 4, 2]
<O°, 64>
Agravamento dos antagonismos de classe: a ordem social como uma escada na qual a distância entre os degraus aumenta de ano para ano. O número infinito de degraus intermediários entre a riqueza e a miséria na França do século passado.
<O°, 65>
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Não foi Marx quem ensinou que a burguesia como classe nunca poderia atingir uma consciência perfeitamente clara de si mesma? E, caso isso seja verdade, não seria legítimo complementar a sua tese com a idéia do coletivo onírico (que é o coletivo burguês)? [cf. S 2, 1]
<O°, 67>
Não seria possível, ademais, comprovar como todos os fatos de que trata este trabalho se esclarecem no processo de autoconscientização do proletariado?
<O°, 68>
Os primeiros estímulos do despertar aprofundam o sono — (estímulos do despertar), [cf. K 1a, 9]
<O°, 69>
Os Comptes Fantastiques d’Haussmann66 foram publicados primeiramente como série de artigos no Temps.
66 Trocadilho entre o gênero dos “contos” fantásticos (contes), típico do escritor alemão E.T.A. Hoffmann (1776-1822), e a prestação de “contas” (comptes) do Barão de Haussmann, prefeito de Paris, (w.b.)
<O°, 70>
Boa formulação de Bloch sobre o trabalho das Passagens: a história mostra seu distintivo da Scodand Yard. Foi no contexto de uma conversa na qual eu explicava como este trabalho — comparável ao método da fissão nuclear que libera as forças gigantescas que mantêm unidos os átomos — deve liberar as forças gigantescas da história que são acalentadas no “era uma vez” da narrativa histórica clássica. A historiografia que se empenhou em mostrar “como as coisas efetivamente aconteceram”,67 foi o narcótico mais poderoso do século XIX. [cf. N 3, 4]
67 “Mostrar como as coisas efetivamente aconteceram” foi o lema do historiador Leopold Ranke (1795-1886), que representa a posição do historicismo. Cf. a critica de Benjamin ao historicismo em “Sobre o Conceito de História”, tese XVI. (J.L.)
<O°, 71 >
A concretude apaga o pensamento, a abstração o acende. Toda antítese é abstrata, toda síntese, concreta. (A síntese apaga o pensamento.)
<O°, 72>
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Não é preciso fazer o tempo passar, é preciso carregá-lo em si. Passar o tempo (expulsar o tempo, matá-lo): drenar-se. Tipo: o jogador, o tempo jorra-lhe dos poros. — Carregar-se de tempo como uma bateria: tipo: o tipo flâneur. Por fim, o tipo sintético: ele carrega e transmite a energia “tempo” sob uma outra forma: aquele que espera. [cf. D 3, 4]
<O°, 78>
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BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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