3.5.26

almeida prado/música contempôranea brasileira/continua

Sonata para violino e piano n.3 (1991) 

Dedicada a Maria Constanza Audi de Almeida Prado 

violino: Constanza Almeida Prado • piano: Achille Picchi

ALMEIDA PRADO (1943-2010). Música contemporânea brasileira: Almeida Prado / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.1)  

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
“O empreendimento das Estradas de ferro ... levaria a Humanidade ... à necessidade de combater a obra da natureza sobre toda a Terra, de encher os vales, de cortar e pefurar as montanhas, ... de lutar, enfim, em todas as frentes, contra as condições naturais do solo de seu planeta ... e substituí-las universalmente por condições opostas. Victor Considérant, Déraison et Dangers de lEngouement pour les Chemins en Fer, Paris, 1838, pp. 52-53.
 [e depois, incomparavelmente pior; os carros e caminhões. Todos em estradas individualistas (e, cada vez mais, privatizadas]
[W9a, 2]
Charles Gide sobre o gênio divinatório de Fourier: “Quando ele escreve: ‘tal navio que partiu de Londres chega hoje à China; o planeta Mercúrio, avisado pelos astronomos da Ásia das chegadas e dos movimentos, transmitirá uma lista aos astronomos de Londres, basta transpor essa profecia para o estilo atual e ler: ‘quando um navio chegar a China, a T.S F transmitirá a notícia à Torre Eiffel ou a Londres; encontramos ai, penso eu, uma antecipação extraordinária. É exatamente o que ele quis dizer; o planeta Mercúrio está ali para representar uma força, ainda ignorada, que permitiria transmitir as mensagens — uma força que ele pressentiu.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, 1924, pp. 10-11.
[W 9a, 3]
Charles Gide sobre as absurdas especulações astrológicas de Fourier; “Como aquela sobre o papel dos três pequenos planetas, Palas, Juno e Ceres, que engendraram três espécies de groselhas, e de Phoebe (a lua), que devia ter engendrado uma quarta espécie, ainda mais saborosa - se infelizmente ‘ela não tivesse falecido’!” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 10.
[W 9a, 4]
“Quando ele fala ... de um exército celeste que o Conselho sideral resolveu enviar em socorro da Humanidade, exército que já está a caminho há 1.700 anos e que não tem mais que 300 anos de caminho a fazer para chegar aos confins do sistema solar ... isso dá um pouco da sensação de calafrio do Apocalipse. Em outras ocasiões, essa loucura se mostra amável, beirando quase a sabedoria, abundante em observações refinadas e engenhosas, um pouco como as de Dom Quixote, quando este recitava suas arengas sobre a Idade de Ouro aos pastores maravilhados.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 11.
[W 10, 1]
“Pode-se dizer, e ele mesmo o diz, que seu observatório — ou seu laboratório, se preferirmos — é a cozinha. É de lá que ele parte para se irradiar em todos os domínios da vida social.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 20.
[W 10, 2]
[...]
Relação entre o Manifesto Comunista e o projeto de Engels; “A organização do trabalho uma concessão a Louis Blanc — e a edificação de grandes palácios comunitários em propriedades nacionais, que deveriam ajudar a superar a oposição entre cidade e campo — uma concessão aos fourieristas da Démocratie Pacifique — eram elementos tomados de empréstimo do projeto de Engels, mas que ficaram fora do Manifesto.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2a ed., Berlim, 1933, p. 288.
[W 10, 4] 
Engels sobre Fourier: ‘“A crítica de Fourier à civilização emerge em toda a sua genialidade apenas graças ao estudo de Morgan’, afirmou Engels a Kautsky, enquanto trabalhava em Der Ursprung der Familie [A origem da família]. Neste mesmo livro, porém, escreveu: ‘São os interesses mais baixos ... que inauguram a nova dominação civilizada — a das classes —; são os meios mais vergonhosos ... que provocaram a queda da antiga sociedade gentilícia, sem classes.’” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Engels und der Aufitieg der Arbeiterbewemng in Europa, Berlim, 1933, p. 439.
[W 10a, 1]
Marx sobre Proudhon em carta a Kugelmann de 9 de outubro de 1 866: “Sua pseudocrítica e sua pseudo-oposição aos utopistas (sendo ele mesmo apenas um utopista pequeno-burguês, enquanto nas utopias de um Fourier, Owen etc. percebem-se o pressentimento e a expressão fantástica de um novo mundo) primeiro conquistaram e seduziram a ‘juventude brilhante’, os estudantes, depois, os operários, principalmente os parisienses que, como operários de luxo, participavam efetivamente, sem o saber, do velho lixo.” Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, p. 174.
[W 10a, 2]
“Estes berlinenses superespertos ainda vão fundar uma Démocratie Pacifique no Hasenheide,9 quando a Alemanha inteira abolir a propriedade... Preste atenção, logo aparecerá um novo Messias na região de Uckermark que moldará Fourier segundo Fiegel, construirá o falanstério a partir de categorias eternas e fará dele uma lei eterna da idéia que toma consciência de si mesma, segundo a qual o capital, o talento e o trabalho participam do lucro em proporções definidas. Será o Novo Testamento da ‘hegelmania’: o velho Hegel tornar-se-á o Velho Testamento; o ‘Estado’, a lei, será um preceptor da cristandade’; e o falanstério, em que serão dispostas as latrinas conforme a necessidade lógica, será o ‘novo céu’ e a ‘nova terra’, a nova Jerusalém, que descerá do céu enfeitada como uma noiva.” Engels a Marx, Barmen, em 19 de novembro de 1844, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Briefwechsel, vol. I, 1844-1853, ed. org. pelo Instituto Marx-Engels-Lenin, Moscou-Leningrado, 1935, p. 11.
[W 10a, 3]
Apenas no alto estio do século XIX, apenas sob a luz desse sol é possível imaginar realizada a fantasia de Fourier.
[W 10a, 4]
“Cultivar nas crianças a audição aguçada dos rinocerontes e dos cossacos.” Ch. Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, ou Invention du Procédé d’Industrie Attrayante et Naturelle Distribuée en Séries Passionnées, Paris, 1829, p. 207.
[W 10a, 5]
Compreende-se facilmente o significado da culinária em Fourier; a felicidade possui receitas como qualquer pudim. Ela nasce a partir de uma dosagem exata de diversos ingredientes. Trata-se de um efeito. A paisagem, por exemplo, não significa nada para Fourier: ele não se interessa por seu aspecto romântico, já os miseráveis casebres dos camponeses o deixam indignado. Mas se a agriculture composée sente-se aí em casa, se as pequenas hordas e os pequenos bandos10 a percorrem, se nela acontecem os inebriantes desfiles militares do exército industrial, então conseguiu-se a dosagem da qual resulta a felicidade.
[W 11, 1]
A afinidade entre Fourier e Sade reside no momento construtivo que é próprio de todo sadismo. Fourier associa de forma singular o jogo de cores da fantasia com o jogo de números de sua idiossincrasia. É preciso compreender que as harmonias de Fourier não se baseiam em nenhuma das místicas numéricas tradicionais, como a de Pitágoras ou a de Kepler. Elas são um produto exclusivo de sua imaginação e conferem à harmonia algo de inacessível e protegido: é como se elas envolvessem os harmonianos com um fio dc atame farpado. A felicidade do falanstério é uma felicidade farpada. Por outro lado, pode-se perceber traços de Fourier em Sade. As experiências do sádico, que representam seus 120 Dias de Sodoma, constituem em sua crueldade exatamente aquele extremo que é tocado pelo idílio extremo de Fourier. Os extremos se tocam. O sádico poderia encontrar em suas experiências um parceiro que anseia justamente por aquelas humilhações e sofrimentos que seu torturador lhe inflige. De um único golpe ele se encontraria no centro de uma das harmonias que a utopia de Fourier persegue. 
[W 11, 2]
O simplismo aparece em Fourier como marca da “civilização”.
[W 11, 3] 
[...]
O sistema de Fourier se apoia, como ele mesmo esclarece, em duas descobertas: a da atração e a dos quatro movimentos. Estes são: o movimento material, o orgânico, o animal e o social.
[W 11a, 2] 
Fourier fala de uma transmission miragique que possibilitaria receber em Londres noticias da Índia em quatro horas. Cf. Fourier, La Fausse Industrie, Paris, 1836, vol. II, p. 711.
[W 11a, 3] 
“O movimento social é o padrão para os outros três movimentos; o animal, o orgânico e o material são coordenados com o movimento social, que é o primeiro na ordem. Ou seja, as propriedades de um animal, de um vegetal, de um mineral, e mesmo de um turbilhão de astros, representam algum efeito das paixões humanas na ordem social, e TUDO — desde os átomos até os astros — forma o quadro das propriedades das paixões humanas.” Charles Fourier, Théorie des Quatre Mouvements, Paris, 1841, p. 47.
[W 11a, 4] 
A observação de mapas geográficos era uma das ocupações favoritas de Fourier.
[W 11a, 5]
Cronograma messiânico: em 1822, preparação do cantão experimental; em 1823, sua instalação e aprovação; em 1824, a imitação por todos os civilizados; em 1825, adesão dos bárbaros e selvagens; em 1826, organização da hierarquia esférica; em 1826, enxameamento dos destacamentos coloniais. — Deve-se entender como hierarquia esférica a “distribuição dos cetros de soberanias”. (Conforme E. Silberling, Dictionnaire de Sociologie Phalansténenne, Paris, 1911, p. 214).
[W 11a, 6]
O modelo do falanstério compreende 1.620 pessoas, ou seja: um exemplar masculino e um feminino de cada um dos 810 caracteres que, segundo Fourier, esgotam todas as possibilidades.
[W 11a, 7]
Em 1828, os pólos deveriam estar livres do gelo.
[apenas um pequeno erro de 2 séculos. Praticamente nada pelo tempo da terra e suas transformações]
[W 11a, 8]
[...]
“Os gostos dominantes em todas as crianças são: 1. Mexer, ou tendência a tudo manipular, tudo visitar, tudo percorrer, variar constantemente de função; 2. O ruído industrial, gosto pelos trabalhos barulhentos; 3. A macaquice, ou mania de imitar; 4. A miniatura industrial, gosto pelas pequenas oficinas; 5. O treinamento progressivo do fraco ao forte.” Charles Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, Paris, 1829, p. 213.
[W 12, 1]
9 Parque popular no bairro operário de Neukölln, em Berlim. (w.b.)
10 Dois terços das pequenas hordas são constituídos por meninos, dois terços dos pequenos bandos, por meninas. (E/M) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.    

1.5.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SVENDBORG

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 
General, dein Tank ist ein starker Wagen.
Er bricht einen Wald nieder und zermalmt hundert Menschen.
Aber er hat einen Fehler:
Er braucht einen Fahrer.
 
General, dein Bombenflugzeug ist stark.
Es fliegt schneller als der Sturm und trägt mehr als ein Elefant.
Aber es hat einen Fehler:
Es braucht einen Monteur.
 
General, der Mensch ist sehr brauchbar.
Er kann fliegen, und er kann töten.
Aber er hat einen Fehler:
Er kann denken. [1938]
 
General, teu tanque é um automóvel forte.
Derruba uma floresta e tritura cem pessoas.
Mas ele tem um defeito:
Necessita de um chofer.
 
General, o teu bombardeiro é forte.
Voa mais veloz que o vendaval e carrega mais que um elefante.
Mas ele tem um defeito:
Necessita de um mecânico.
 
General, as pessoas são bem necessárias.
Elas sabem voar, e elas sabem matar.
Mas elas têm um defeito:
Elas sabem pensar.

Verjagt mit gutem Grund
 
Ich bin aufgewachsen als Sohn
Wohlhabender Leute. Meine Eltern haben mir
Einen Kragen umgebunden und mich erzogen
In den Gewohnheiten des Bedientwerdens
Und unterrichtet in der Kunst des Befehlens. Aber
Als ich erwachsen war und um mich sah
Gefielen mir die Leute meiner Klasse nicht
Nicht das Befehlen und nicht das Bedientwerden
Und ich verließ meine Klasse und gesellte mich
Zu den geringen Leuten.
 
So
Haben sie einen Verräter aufgezogen, ihn unterrichtet
In ihren Künsten, und er
Verrät sie dem Feind.
 
Ja, ich plaudere ihre Geheimnisse aus. Unter dem Volk
Stehe ich und erkläre
Wie sie betrügen, und sage voraus, was kommen wird, denn ich
Bin in ihre Pläne eingeweiht.
Das Lateinisch ihrer bestochenen Pfaffen
Obersetze ich Wort für Wort in die gewöhnliche Sprache, da
Erweist es sich als Humbug. Die Waage ihrer Gerechtigkeit
Nehme ich herab und zeige
Die falschen Gewichte. Und ihre Angeber berichten ihnen
Dass ich mit den Bestohlenen sitze, wenn sie
Den Aufstand beraten.
 
Sie haben mich verwarnt und mir weggenommen
Was ich durch meine Arbeit verdiente. Und als ich mich
Nicht besserte
Haben sie Jagd auf mich gemacht, aber
Da waren
Nur noch Schriften in meinem Haus, die ihre Anschläge
Gegen das Volk aufdeckten. So
Haben sie einen Steckbrief hinter mir hergesandt
Der mich niedriger Gesinnung beschuldigt, das ist
Der Gesinnung der Niedrigen.
 
Wo ich hinkomme, bin ich so gebrandmarkt
Vor allen Besitzenden, aber die Besitzlosen
Lesen den Steckbrief und
Gewähren mir Unterschlupf. Dich, höre ich da
Haben sie verjagt mit
Gutem Grund. [1938]
 
 
Escorraçado com razão
 
Eu cresci como filho
De gente abastada. Os meus pais
Puseram uma coleira em mim e me educaram
Nos hábitos de ser servido
E me instruíram na arte de mandar. Mas
Quando estava crescido e olhei ao redor
Não me agradaram as pessoas da minha
Laia nem mandar nem ser servido
E eu larguei a minha laia e me juntei
À raia miúda.
 
Assim
Eles criaram um traidor, o instruíram
Em suas artes, e ele
Os entregou ao inimigo.
 
Sim, eu revelo seus segredos. Entre o povo
Me coloco e esclareço
Como eles trapaceiam, e predigo o que virá, pois
Fui consagrado nos seus planos.
O latim de seus sacerdotes vendidos
Eu traduzo palavra por palavra em língua comum, e
Se comprova o disparate. A balança de sua justiça
Eu arranco e mostro
As falsas medidas. E seus buföes os informam
Que eu me sento entre os roubados, quando estes
Discutem a revolta.
 
Eles me preveniram e me tiraram
O que eu ganhei com meu trabalho. E ao não
Me corrigir
Saíram à minha caça, mas
Em casa
Só havia escritos que desvendavam
Seus ataques contra o povo. Assim
Expediram uma ordem de prisão contra mim
Me acusando de índole fraca, isto é
Da índole dos mais fracos.

De onde vim, estou assim estigmatizado
Perante os de posse, mas os despossuídos
Leem a ordem de prisão e
Me dão guarida. Você, eu escuto lá
Foi escorraçado
Com razão.

Kritik an Michelangelos Weltschöpfung
 
1
Dies Bildnis, das er von de Schöpfung machte
Versteh ich nicht. Wie konnt er so was glauben?!
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Ich werf ihm vor, daß er es nicht bedachte.
 
2
Ich gönne jedem, daß er tot ist, und verachte
Nicht den, der Sorge trüg zurückzukehren
Um nunmehr vor der Welt sich zu erklären
Warum er auf ihr machte, was er machte.
 
3
So machte der ein Bild, wo ihr Gott seht
Wie er den Menschen auf Granit stellt und vergeht
Statt den vergehen zu sehn und selber zu verweilen?
Welch ein Betrug! Wie konnt er so was glauben?
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Und das — um ein Papier gut einzuteilen! [c. 1938]

Crítica à  “Criação do Mundo de Michelangelo
 
1
A imagem que ele fez da Criação
Me aturde. Como pôde nisso crer?!
A insônia humana em preto distorcer!
Acuso-o de pintar sem distinção.
 
2
Sei bem que ele morreu, mas se talvez
Pudesse aqui voltar pra se explicar
Eu, de bom grado, iria perguntar
Por que diabos então fez o que fez.
 
3
Afresco em que se vê como Deus cria
Sobre o granito o homem e então se manda
Ao invés de vê-lo errar no dia a dia?
 
4
Que embustel Como pôde crer naquilo
E distorcer em preto a insônia humana?!
E por papel — só para dividi-lo!

(Vermutliche) Antwort des Malers
 
1
(Vermutliche) Antwort des Malers
Was ihr von mir Totem bekommt, ist das
Was er dem Irrtum abpreßte, um es
Dem Irrtum zu hinterlassen. Den zehnten Teil von dem, was ich wollte Habe ich gemalt, zehnmal soviel, als ich sah
Ihr
Seht den hundertsten davon.
 
Da er sich auf einem Felsen vorfand, dachte er
Zeit seines Lebens, Felsen seien sicher.
Denn er dachte nur, um sicher zu sein.
Doch ist in Wahrheit sicher nur, was ohne Halt ist.
Was lebt, ist nur nicht fertig. Gott
Allein ist vergänglich.
 
Darum malte ich ihm daß so, er entkommt.
Wenn er im Flug geschaffen hat. Und ihm so malend
Glaube ich nichts Schlimmeres getan zu haben als er
Als er mich schuf. [c. 1938]
 
(Suposta) resposta do pintor
 
1
O que vocês recebem de mim, morto
aquilo que ele removeu do erro
Para legar depois ao erro. Um décimo do que eu queria
Pintar pintei, dez vezes mais do que enxerguei
Vocês
Veem um centésimo daquilo.
 
2
Por estar num rochedo, ele pensou
Que, na vida, rochedos são seguros.
Pois só pensava para assegurar-se.
Mas só está seguro de verdade o que não para.
O que vive é somente inacabado. Deus
Apenas é fugaz.
 
Por isso o retratei assim, fugindo.
Quando criava em voo. E ao retratá-lo assim
Não creio ter feito nada pior do que ele
Fez ao me criar.
 
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos) 

29.4.26

3″ • Marc-Antoine Mathieu

3 Segundos é o tempo em que a luz percorre 900.000 km. É o tempo em que uma bala de revólver transpõe 1 km. É uma respiração. É o tempo de uma lágrima, uma explosão, um SMS.
3 Segundos é um enigma sem falas, no qual personagens e pistas se entrelaçam. Quais são as conexões entre este avião, estes tiros, este estádio? É você quem monta o quebra-cabeça.
3 Segundos é uma narrativa que se lê como quadrinho e se revela em múltiplas camadas. São várias maneiras de vivenciar o espaço-tempo em um vertiginoso zoom gráfico.

Marc-Antoine Mathieu, o aclamado autor da série Prisioneiro dos Sonhos, está de volta, desafiando os limites da narrativa gráfica.
A edição tem acabamento de luxo, com formato 22 x 22 cm, capa dura, 72 páginas em preto e branco, impressas em papel couchê de alta gramatura.

Marc-Antoine Mathieu nasceu em 1959, em Antony, uma cidade ao sul de Paris, e estudou na Escola de Belas Artes de Angers. Trata-se de um quadrinista que, a cada novo livro, expande os limites da forma, através de uma combinação única de peso intelectual e domínio da mídia. Também atua como cenógrafo no coletivo Lucie Lom, que fundou junto com Philippe Leduc, em 1984. Projeta painéis, cenários e instalações para museus, teatros, parques, ruas ou festivais de todos os tipos. É especialista em design de exposições, muitas delas ambientadas no mundo dos quadrinhos. Entre seus principais trabalhos estão a retrospectiva Moebius/Giraud (2000) e a exposição Will Eisner, génie de la bande dessinée américaine (2017). Publicou seus primeiros quadrinhos nas revistas Marcel, Le Banni e Morsures. Em 1989, começou a trabalhar no que se tornaria sua obra principal: Julius Corentin Acquefacques, Prisioneiro dos Sonhos. A série conta até o momento com sete volumes e é caracterizada por seu estilo kafkiano (Acquefacques, o sobrenome do protagonista, é um palíndromo sonoro de Kafka). O primeiro volume da série, A Origem, foi publicada em 1990 e recebeu diversos prêmios, sendo o mais importante o Prêmio Revelação do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, em 1991. Esse álbum foi seguido por outros seis volumes: A Qu... (1991), O Processo (1993, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro em Angoulême em 1994), O Começo do Fim (1995), A 2,333ª Dimensão (2004), O Descompasso (2013) e O Hipersonho (2020).


Capa dura
Formato 22 x 22 cm
72 páginas
ISBN 9786598916992
edição: Ferréz e Thiago Ferreira 

entra/almeida prado/música contempôranea brasileira

Sonata para violino e piano n.1 (1980) 

1.   1mov: granítico, intenso.  6′36

2.  2mov: contínuo, fantástico.  1′50   

3.  3o mov: com luminosidade interior — tema com 5 variações.  5′04   

4.  4mov: Movimento contínuo e acelerante.  2′31

Dedicado a Natan Schwartzmann 

violino: Constanza Almeida Prado • piano: Achille Picchi

ALMEIDA PRADO (1943-2010). Música contemporânea brasileira: Almeida Prado / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.1)  

28.4.26

gilberto mendes/música contempôranea brasileira/sai

21 Anatomia da musa (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi 

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

22 Fenomenologia da certeza (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

23 Sol de Maiakovski (1995) 

sobre poema de Augusto de Campos

Dedicado a Victoria Evtodieva

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

24 Tvgrama I (Tombeau de Mallarmé) (1995) 

sobre poema de Augusto de Campos

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi 

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

25 Desesncontros, à memória de Kurt Weil, à lembrança de Gilberto Mendes (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Rosana Lamosa

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

26 Luz mediterrânea: no olvido do tempo (1995) 

sobre poema de Gil Nuno Vaz

Dedicado a Julia Novikova

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

27 O pai do universo (1997) 

Texto-fragmento extraído do Baghavad Gita com tradução de Rogério Duarte

Dedicado a João Duarte

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

28 Amplitude (1999) 

sobre poema de Alberto Martins

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi  

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

29 Mais uma vez (1999) 

sobre poema de Carlos Ávila

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi  

30 A festa (1999) 

sobre poema de Narciso de Andrade

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi  

MENDES, Gilberto (1922-2016). Música contemporânea brasileira: Gilberto Mendes / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; texto de Décio Pignatari; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.4) 

27.4.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
<fase média>
[...] 

“Querem fortificar Paris, gastando assim centenas de milhões numa obra de guerra, enquanto esse mágico, com um milhão, teria extirpado para sempre a causa de todas as revoluções, de todas as guerras.” Ferrari, “Des idees et de lécole de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845, p. 413.

[W 7, 2]

Michelet, a respeito de Fourier: “Singular contraste entre tamanha ostentação de materialismo e uma vida espiritualizada, abstêmia e desinteressada!” J. Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, p. 294.

[W 7, 3]

Comparar a idéia de Fourier sobre a propagação dos falanstérios por meio de explosões com duas idéias de minha “política”:6 a da revolução como inervação dos órgãos técnicos do coletivo (comparação com a criança que, ao tentar pegar a lua, aprende a agarrar as coisas) e a idéia da “ruptura da teleologia natural”. <Cf. X la, 2 e W 8a, 5>

[W 7, 4]

[...] 

É fácil compreender que todo ‘interesse’ da massa..., tão logo ele surge no palco do mundo, ultrapassa seus limites reais como ‘idéia’ ou ‘representação’ e se confunde com o interesse humano em geral. Esta ilusão constitui aquilo que Fourier denomina o tom de cada época histórica.” Marx e Engels, Die heilige Familie, in: Der historische Materialismus. vol. I, Leipzig, 1932, p. 379.

[W 7, 8] 

[...]  

A propósito do feminismo da escola de Fourier: “Em Herschell e em Júpiter, os cursos de botânica são ministrados por jovens vestais de dezoito a vinte anos... Quando digo ‘de dezoito a vinte anos’, refiro-me à linguagem da Terra, já que os anos em Júpiter são muito mais longos que os nossos, e o vestalato só se inicia ali por volta dos cem anos.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, p. 93.

[W 7a, 3]

Um modelo de psicologia fourierista no capítulo de Toussenel sobre o javali: “Existe na humanidade uma enorme quantidade de cacos de garrafa, pregos que se soltaram e tocos de velas que estariam completamente perdidos para a sociedade se alguma mão cuidadosa e inteligente não se encarregasse de recolher todos esses dejetos sem valor, e reconstituí-los ruma massa suscetível de ser reelaborada e devolvida de novo ao consumo. Essa tarefa importante entra nas atribuições do avarento... Aqui, o caráter e a missão do avarento se devam visivelmente: o sovina torna-se trapeiro... O porco é o grande trapeiro da natureza; de não engorda as custas de ninguém.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, pp. 249 - 250 .

[W 7a, 4]

Marx caracteriza a insuficiência de Fourier, que “concebeu um modo particular de trabalho — o trabalho nivelado, segmentado, e por isso não-livre... — como a fonte da perniciosidade da propriedade privada e de sua existência alienada do homem”, em vez de denunciar o trabalho enquanto tal como essência da propriedade privada. Karl Marx, Der historische Materialismus, ed. org. por S. Landshut e J. P. Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 292 (Nationalökonomie und Philosophie”).

[W 7a, 5]

[...]  

“Segundo ele, as almas transmigram de corpo em corpo, e mesmo de mundo em mundo. Cada planeta tem uma alma que irá animar outro planeta superior, levando com ela as almas dos homens que o habitaram. É dessa forma que, antes do fim de nosso planeta (que deve durar oitenta e um mil anos), as almas humanas terão tido mil seiscentas e vinte existências, e terão assim vivido cinqüenta e quatro mil anos num outro planeta, vinte e sete mil neste... No exercício de sua primeira infância, a terra foi atingida por uma febre pútrida, que ela transmitiu à lua, que por isso morreu. Mas a terra, organizada em harmonia, ressuscitará a lua.” Nettement, Histoire de la Littérature Française sous le Gouvemement de Juillet, Paris, vol. II, pp. 57, 59.

[W 8, 6]

O fourierista, sobre a aviação: “O aeróstato leve ... é a carruagem de fogo que ... respeita em toda parte a obra de Deus, não precisando nem encher os vales, nem perfurar as montanhas, como a locomotiva homicida que o agiota desonrou.” A. Toussenel, Le Monde des Oiseaux, vol. I, Paris, 1853, p. 6.

[W 8a, 1] 

[pensamento anterior ao pensar nos aviões movidos a petróleo...]

[...] 

Os homens de cauda de Fourier foram objeto de caricatura em 1849, nos desenhos eróticos de Emy, publicados em Le Rire. Para explicar as extravagâncias de Fourier, é preciso evocar a figura de Mickey Mouse, na qual se consumou a mobilização moral da natureza, bem no espírito das concepções de Fourier. Com Mickey Mouse, o humor põe a política à prova. Confirma-se, assim, que Marx tinha razão ao ver em Fourier principalmente um grande humorista. A ruptura da teleologia natural se dá segundo o plano do humor.  

[W 8a, 5]  

6 Não fica claro se Benjamin se refere aqui às suas idéias políticas em geral, ou mais específicamente ao seu artigo, infelizmente perdido, "Der wahre Politiker" (O político autêntico, 1919-1920), chamado por ele também de "Prolegomena zur zweiten Lesabéndio-Kritik" (Prolegômenos para uma segunda crítica do Lesabéndio  romance utópico de Paul Scheerbart); cf. GS II, 1423. (R.T.) 

 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.