17.7.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

PASSAGENS PARISIENSES <I>2
  
2 Estes 405 fragmentos, de <A°, 1> a <Q°, 25>, representam o texto fundador das Passagens. As siglas com cotovelos < ... > são do editor alemão: trata-se de uma classificação meramente serial, sem conotação semântica, de textos surgidos em ordem espontânea. Destes fragmentos, Benjamin transcreveu aproximadamente a metade para sua grande coletânea de Notas e Materiais, organizada de forma sistemática em 36 arquivos temáticos (Konvolute), onde os fragmentos foram identificados por ele próprio por siglas alfanuméricas, marcadas aqui com colchetes [...]. Baseando-nos na edição norte-americana, e com a mesma ressalva de que nossa lista não é exaustiva, indicamos entre colchetes, por exemplo [cf. L 2, 7], os fragmentos que foram retomados por Benjamin, no manuscrito principal ou ainda em outros textos do primeiro esboço Todas as observações entre < ... > são do editor; palavras ilegíveis do manuscrito foram assinaladas com < x > e as palavras que suscitam dúvidas vêm acompanhadas de <?>. (R.T., w.b.)
[...]
Maurice Renard descreveu em seu livro Le Péril Bleu3 habitantes de uma estrela desconhecida que pesquisam o tipo de flora e fauna existente no fundo do mar rarefeito  em outras palavras, sobre a superfície da Terra. Os habitantes do planeta vêem no ser humano algo semelhante a minúsculos <?> peixes do oceano, ou seja, seres que habitam o fundo de um mar. Tal como nós mal percebemos a pressão atmosférica, tampouco o peixe percebe a pressão da água: isso nada muda no fato de que ambas as criaturas seguem sendo do fundo de um mar. Com a observação das passagens, tem início uma nova orientação bem semelhante do espaço. Nela, a própria rua dá-se a conhecer como <x> um intérieur intensamente habitado: como sala de estar do coletivo, pois os verdadeiros coletivos habitam a rua como tais: o coletivo é um ser eternamente desperto, eternamente agitado, que vivência, experimenta, conhece e inventa tantas coisas entre as fachadas quanto os indivíduos no abrigo de suas quatro paredes. Para este coletivo, as esmaltadas tabuletas das firmas comerciais são uma decoração de parede tão boa, senão melhor, quanto uma cópia a óleo barata o é para a intimidade do lar. Muros com o “Proibido colar cartazes” são sua escrivaninha; bancas de jornais, suas bibliotecas; vitrines, suas inacessíveis cristaleiras envidraçadas; caixas de correio, seus bronzes; bancos, a mobília de seu dormitório e o terraço do café, a sacada de onde ele observa seu lar. Como numa grade, na qual os calceteiros penduram o paletó antes de ir ao trabalho, o vestíbulo é, para ele, o oculto portão de entrada, que conduz a uma série de pátios, e o corredor que assusta estranhos é, para ele, a chave de sua casa. [cf. d°, 1 e M 3a, 4]
3 Paris, 1911. (R.T.) 
<A°, 9> 
[...]
........................................................  
[...]
A morte, a estação central dialética: a moda, a medida do tempo.
<C°, 2 >
[...]
Um passeio por Paris terá início com o aperitivo, isto é, por volta das 5 ate às 6 horas. O senhor esteja bem à vontade. Como ponto de partida, o senhor pode tomar uma das grandes estações: a Gare du Nord, de onde se parte para Berlim; a Gare de l’Est, para Frankfurt; a Gare St Lazare, para Londres; ou a Gare de Lyon, de onde se toma o P[aris]-L[yon]-M-[arseille] . Se quiser saber minha opinião, aconselho a Gare St. Lazare. E que lá o senhor terá meia França e meia Europa ao seu redor: nomes como Havre, Provence, Rome, Amsterdam, Constantinople perpassam a rua como o doce recheia uma torta. Trata-se do assim chamado bairro Europe, no qual as maiores cidades da Europa delegaram uma noa como portadora de seu prestígio. Nesse corpo diplomático de ruas européias reina uma etiqueta bastante precisa e rigorosa. Cada uma delas destaca-se muito sobre a outra. Caso tenham a ver uma com a outra  nas esquinas  encontram-se muito cortesmente sem qualquer ostentação. Um estrangeiro a quem nada se avisa, talvez nem mesmo perceberia que se encontra aqui numa corte. Quem reina aqui é justamente <porém ?> a Gare St. Lazare, uma soberana robusta e suja, uma princesa de ferro e fumaça que vocifera e solta fogo pelas ventas, [cf. L 1, 4] Todavia, não somos obrigados a nos ater necessariamente às estações de trem. Estações são boas como ponto de partida, entretanto são também muito boas como ponto de chegada. Pensemos nas praças. Aqui faz-se necessária uma diferenciação: temos praças sem história <?> e sem nome. Assim, a Place de la Bastille e a Place de la Republique, a Place de la Concorde e a Place Blanche, mas também outras, cujo arquiteto é desconhecido e cujos nomes se procuram por muito tempo num muro e por vezes em vão. Estas praças são felizes coincidências na paisagem urbana, não se encontram sob o patronato da história como a Place Vendôme ou a Place de Grève, não foram planejadas minuciosamente, mas assemelham-se a improvisações arquitetônicas, agrupamentos de casas onde construções baixas se espairecem de maneira um tanto desordenada. Nestas praças, as árvores têm a palavra; as menores árvores dão aqui uma espessa sombra. À noite, porém, sua folhagem paira diante da lanterna a gás como frutos transparentes. Estas minúsculas praças ocultas são os futuros <?> jardins das Hespérides. [cf. P 1, 2] Vamos supor que nos sentemos por volta das 5 horas na Place Sainte-Julie9 para um aperitivo. De uma coisa podemos ter certeza: seremos os únicos estrangeiros e não teremos talvez sequer um parisiense a nosso lado. Caso se aproxime alguém, esse vizinho dará a impressão de um provinciano <?> que se achega para o afável aperitivo crepuscular. Existe um tipo de senha maçônica através da qual os fanáticos aficionados de Paris, tanto franceses quanto estrangeiros, reconhecem uns aos outros: a palavra “província”. Dando de ombros, o verdadeiro parisiense, mesmo que ano após ano jamais saia em viagem, rejeita morar em <Paris>. Ele mora no treizième ou no deuxième ou no dix-huitième, não em Paris, e sim em seu arrondissement — no terceiro, sétimo ou no vigésimo  e isto é a província. Talvez esteja aqui o segredo da suave hegemonia desta cidade sobre a França: que ela tenha acolhido no coração de seus bairros que são também pequenas Franças particulares  o seu outro, de modo que possui mais províncias do que a França inteira. Pois seria absurdo proceder aqui segundo a ordem dos cadastros burocráticos: Paris tem mais do que vinte arrondissements e possui inúmeras cidades e aldeias. Um jovem autor parisiense, Jacques de Lacretelle, há pouco tomou como tema de seu flanar sonhador <?> essa investigação dos secretos distritos parisienses, das províncias dos arrondissements, escrevendo um “Rêveur parisien”, de cujas vinte páginas muito se aprende.10 Paris possui o seu Sul com sua Riviera e sua praia onde brincam as novas construções parisienses <?>, sua costa bretã de neblina e chuva junto à margem do Sena <?>, não longe do Hotel de Ville, seus recantos borgonheses no mercado e as mais mal afamadas ruelas portuárias como em Toulon e Marseille; naturalmente não na Butte Montmartre, e sim bem atrás da reputada Place Saint-Michel. Existem outros lugares que parecem como se a foto de uma <interrompido>
9 Conforme observa o tradutor francês (J.L.), esta praça não existe.
10 Jacques de Lacretelle, Le Rêveur Parisien, NRF, 166, 01/07/1927, pp. 23-29. (R.T.)  
<C°, 6>
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

15.7.26

Frontier • Guillaume Singelin

Vencedor do prêmio Éco-Fauve, do Festival de Angoulême, que consagra histórias em quadrinhos de excelência com temática ambiental.

Em um futuro de recursos escassos, três pessoas tentam ganhar a vida no espaço: Ji-Soo, uma cientista movida pela paixão pela descoberta; Camina, uma mercenária durona e calejada pelas batalhas; e Alex, um minerador de asteroides que nunca pisou na Terra. Em meio a uma rotina exaustiva, cada um segue seu próprio caminho e alimenta seus próprios sonhos. Mas, quando suas trajetórias se cruzam, tudo muda de rumo, levando os três a um destino que nenhum deles poderia prever. O que será da humanidade quando ela estiver completamente desconectada de seu berço, a Terra?

Criado pelo roteirista e ilustrador Guillaume Singelin, Frontier é uma graphic novel que retrata a vida na era da exploração espacial. Construída sobre uma base de ciência e tecnologia realistas, a obra explora os novos desafios cotidianos de viver fora da Terra, desde tarefas simples, como cultivar alimentos, até as disputas políticas por territórios e patentes corporativas. Viver no espaço não é fácil… mas que outra alternativa eles têm?

Com uma identidade visual impressionante, que mescla personagens cartunescos a cenários hiperdetalhados e monumentais, Frontier é diferente de tudo o que você já viu. Descrita como “uma mistura de The Expanse ou Firefly com o traço de personagens mangá estilo chibi”, esta graphic novel constrói um universo vasto e inédito que, um dia, pode muito bem se tornar realidade.

Esta edição tem acabamento de luxo, com formato grande, capa dura com detalhes em hotstamp metalizado, 192 páginas em cores, impressas em papel offset de alta gramatura.

Guillaume Singelin nasceu em 1987, em Rennes, França. Estudou design gráfico na EPSAA e estreou nos quadrinhos em 2008 com King David. Entre 2011 e 2016, desenhou a série The Grocery, seguida por Loba Loca (2019–2020). Em 2019, lançou seu primeiro álbum solo, PTSD, que consolidou seu estilo marcado pela fusão de personagens cartunescos e cenários densos e realistas. Em 2021, colaborou com a DC Comics na antologia Batman: Urban Legends. Em 2023, publicou sua segunda obra solo, Frontier, premiada com o Éco-Fauve Raja do Festival de Angoulême. Além dos quadrinhos, atua em videogames como ilustrador e designer de personagens, com trabalhos em Overwhelm, Gato Roboto, Gunbrella e Citizen Sleeper. Em 2025, ilustrou Shin Zero, de Mathieu Bablet.

Capa dura
Formato 21 x 27,5 cm
192 páginas
ISBN 9786584191013
edição: Ferréz e Thiago Ferreira 

entra/Ernesto Nazareth/Sonia Rubinsky/Cruz, perigo!/ Rayon d'or/Batuque/Floreaux/sai

NAZARETH, Ernesto {1863-1934}. Todo Nazareth: obras completas: caixa com 6 volumes  Polcas: Cruz, perigo! Tangos vol 3 {P-Z}: Rayon d'or / Tangos vol 1 {A-E}: Batuque / Tangos vol 2 {F-O}: FloreauxErnesto Nazareth. Organização: Thiago Cury & Cacá Machado. Direção editorial: Thiago Cury. Consultoria, Catálogo e Imagens: Luiz Antonio de Almeida. Produção Executiva: Joana Cury. Projeto Gráfico: Paulo Vidal de Castro & Thais Vilanova. Edição musical: Maurício De Bonis, Marcus Siqueira, Thomas Hansen & Daniel Bondaczuk de Castro Lobo. Reprodução de partituras: Maurício De Bonis, Thiago Cury & Cacá Machado. Tradução: Alexandre Barbosa de Souza & Alex Barros (Cronologia). Água-Forte Edições Musicais. São Paulo: 2011. fonte de texto: Kennerley (1911), de Frederic Goudy. Projeto Gráfico: Paulo Vidal de Castro & Thais Vilanova.

 

RUBINSKY, Sonia. Ernesto Nazareth: A revelação de um homem célebre  Cruz, perigo! Rayon d'or / Batuque / Floreaux / Sonia Rubinsky; gravado em 22 de fevereiro de 2007 na Église Évangélique Saint-Marcel, Paris, França. — São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007.

Ernie Pike (reimpressão)

O clássico dos quadrinhos de guerra está de volta. Uma edição integral com todas as HQs realizadas pela dupla Oesterheld e Pratt

Reward 

13.7.26

continua/CATALVNYA ROMÀNICA XV EL PALLARS: EL PALLARS SOBIRÀ, EL PALLARS JVSSÀ/Antoni Pladevall i Font


FONT, Antoni Pladevall i. CATALVNYA ROMÀNICA XV EL PALLARS: EL PALLARS SOBIRÀ, EL PALLARS JVSSÀ / Coordinador científic de lobra Joan-Albert Adell i Gisbert Arquitecte. Amb la col·laboració de la Generalitat de Catalunya i sota l’alt patrocini de L’Organització de les Nacions Unides per a l’educació, la ciència i la cultura (UNESCO). — Barcelona: Fundació Enciclopèdia Catalana, 1993. 

Charles Baudelaire/Poesia e prosa poética/Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris]/Aurélio Buarque de Holanda Ferreira/continua

Charles Baudelaire. Fotografia de Nadar.

 XII

AS MULTIDÕES


NEM A TODOS é dado tomar um banho de multidão: gozar da multidão é uma arte; e só pode fazer, à custa do gênero humano, uma farta refeição de vitalidade, aquele em quem uma fada insuflou, no berço, o gosto do disfarce e da máscara, o horror ao domicílio e a paixão da viagem.
Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis para o poeta diligente e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada.
O poeta goza do incomparável privilégio de ser, à sua vontade, ele mesmo e outrem. Como as almas errantes que procuram corpo, ele entra, quando lhe apraz, na personalidade de cada um. Para ele, e só para ele, tudo está vago; e, se alguns lugares parecem vedados ao poeta, é que a seus olhos tais lugares não valem a pena de uma visita.
O passeador solitário e pensativo encontra singular embriaguez nessa comunhão universal. Aquele que desposa facilmente a multidão conhece gozos febris, de que estarão privados para sempre o egoísta, fechado com um cofre, e o preguiçoso, encaramujado feito um molusco. Ele adota todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que as circunstâncias lhe deparam.
Aquilo a que os homens chamam amor é muito pequeno, muito limitado e muito frágil, comparado a essa inefável orgia, a essa sagrada prostituição da alma que se dá inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.  
É bom alguma vez lembrar aos felizes deste mundo, ao menos para lhes humilhar por um instante o orgulho tolo, que há felicidades superiores à deles, mais vastas e mais requintadas. Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, conhecem, por certo, algo dessas misteriosas embriaguezes; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem por vezes rir daqueles que lhes deploram o destino tão agitado e a vida tão casta.

 

 XIII

 

AS VIÚVAS
 
DIZ VAUVENARGUES que há nos jardins públicos alamedas freqüentadas sobretudo pela ambição desiludida, pelos inventores infelizes, pelas glórias malogradas, pelos corações dilacerados, por todas essas almas tumultuosas e fechadas em que ainda murmuram os últimos suspiros de uma tormenta, e que recuam para longe do olhar insolente dos alegres e dos ociosos. Estes recantos sombrios são o ponto de reunião dos mutilados da vida.
A tais lugares é que o poeta e o filósofo gostam de encaminhar, de preferência, as suas ávidas conjeturas. Existe aí, para elas, alimento certo. Pois se há um sítio que eles desdenham de visitar, como ainda agora eu insinuava, é sobretudo a alegria dos ricos. Essa turbulência no vazio não lhes oferece o mínimo atrativo. Ao contrário, sentem-se eles irresistivelmente atraídos para tudo quanto é frágil, arruinado, aflito, órfão.
Um olhar experimentado nunca se engana com essa gente. Naqueles traços rígidos ou deprimidos, naqueles olhos cavos ou embaciados, ou cintilantes dos últimos lampejos da luta, naquelas rugas profundas e numerosas, naqueles andares tão lentos ou tão sacudidos, ele adivinha, de relance, as inumeráveis lendas do amor enganado, da dedicação anônima, dos esforços sem recompensa, da fome e do frio silenciosa e humildemente suportados.
Já tivestes ocasião de encontrar viúvas nesses bancos solitários, viúvas pobres? Estejam de luto, ou não, é fácil reconhecê-las. Aliás, há sempre no luto do pobre alguma coisa que falta, uma ausência de harmonia que o torna mais pungente. O pobre é constrangido a regatear a sua dor. O rico exibe por inteiro a sua.
Qual a viúva mais triste e mais entristecedora: a que leva pela mão uma criança com quem não pode repartir seu devaneio, ou a que está inteiramente só? Não sei... Certa vez, aconteceu-me seguir, durante longas horas, uma velha aflita desta última espécie; rija, firme, sob um xalezinho usado, mostrava em todo o ser uma altivez de estóica.
Sem dúvida era condenada, por uma absoluta solidão, a procedimentos de velho celibatário, e o caráter masculino de seus hábitos ajuntava um toque de mistério à austeridade. Não sei em que miserável café e de que maneira ela almoçou. Acompanhei-lhe os passos até o gabinete de leitura; e espreitei-a largo tempo enquanto ela procurava nas gazetas, com olhos diligentes, abrasados outrora pelas lágrimas, notícias de um interesse poderoso e pessoal.
Enfim, à tarde, sob um delicioso céu de outono, destes céus de onde baixam, em bando, as tristezas e as saudades, ela sentou-se num afastado recanto de jardim, para escutar, longe da multidão, um dos concertos com que a música dos regimentos mimoseia o povo de Paris.
Era aquela, decerto, a pequena orgia da velha inocente (ou da velha purificada), a consolação bem-merecida de um desses pesados dias sem amigo, sem conversa, sem alegria, sem confidente, que Deus deixava cair sobre ela, desde muitos anos talvez! trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
Mais outra:
Não posso abster-me de lançar um olhar, se não universalmente simpático, pelo menos curioso, à multidão de párias que se comprimem em torno do recinto de um concerto público. A orquestra despede, dentro da noite, cantos de festa, de triunfo ou de volúpia. Os vestidos arrastam-se, espelhantes; cruzam-se os olhares; os ociosos, cansados de nada haverem feito, balançam-se, fingindo saborear indolentemente a música. Aqui, nada que não traduza riqueza, felicidade; nada que não respire e não inspire a despreocupação e o gosto de se deixar viver; nada, salvo o aspecto desta multidão, que se apoia, além, no muro exterior, apanhando de graça, ao capricho do vento, um farrapo de música, e mirando a resplandecente fornalha interior.
É sempre coisa interessante esse reflexo da alegria do rico no fundo do olhar do pobre. Naquele dia, porém, percebi, no meio do povo vestido de blusas e de chita, um ser cuja nobreza produzia nítido contraste com toda a trivialidade ambiente.
Era uma senhora alta, majestosa, e tão nobre em toda a sua aparência que não me lembra ter visto igual nas coleções das aristocráticas belezas do passado. Emanava-lhe do vulto um perfume de altiva virtude. O rosto, triste e emagrecido, estava em perfeito acordo com o luto fechado que a envolvia. Também ela, como a plebe à qual se mesclava e que seus olhos não viam, contemplava o mundo luminoso com um olhar profundo, e escutava movendo a cabeça devagar.
Singular visão! — Sem dúvida — pensei — essa pobreza, se pobreza é, não deve tolerar a economia sórdida; é o que me diz tão nobre semblante. Por que fica ela, então, voluntariamente, num meio onde constitui tão aceso contraste?
Mas, passando, curioso, perto dela, julguei adivinhar a causa. A grande viúva trazia pela mão um menino também vestido de preto; por menor que fosse o preço da entrada, bastaria talvez para satisfazer uma das necessidades da criança, melhor ainda, uma superfluidade, um brinquedo.
E ela voltará para casa a pé, meditativa e a sonhar, sozinha, sempre sozinha, pois o pequeno é turbulento, egoísta, sem docilidade e sem paciência, e não pode sequer, como o puro animal, como o cão e o gato, servir de confidente às dores solitárias.

 

BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris], tradução Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, tradução do poema epílogo de Manuel Bandeira / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

entra/O Gabinete do Dr Caligari/Das Cabinet des Dr Caligari/Robert Wiene/sai

WIENE, Robert. O Gabinete do Dr Caligari / Das Cabinet des Dr Caligari / Robert Wiene; música Giuseppe Becce; Alemanha; 1920. Manaus: Clássicos do Horror; Qualidade de Vida.

abel carlevaro/Villa-Lobos/Preludio No3; Estudio No10; Estudio No1/Prélude No3; Étude No10; Étude No1/Augustín Barrios/Las abejas/As abelhas/sai

CARLEVARO, Abel. En Estudios de Grabación 1949/1980 Abel Carlevaro; Heitor Villa-Lobos: Preludio No3, Estudio No10, Estudio No1; Augustín Barrios (Mangoré): Las abejas 5/6. Montevideo: Ayui/Ediciones Tacuapé s.r.l; 2010.


VILLA-LOBOS, Heitor. Villa-Lobos collected works for solo guitar / Heitor Villa-Lobos; Prélude No3 in A minor; Étude No10; Étude No1; with an Introduction by Frederick Noad; Preface to the Twelve Études by Andrés SEGOVIA. Paris: Editions Max Eschig, 1990.
PINTO, Henrique (1941-2010). Antologia Violonística Augustín Barrios Mangoré: As abelhas; revisão e dedilhado de Henrique Pinto / História, Fundamentação de um método, Notas biográficas, Repertório / Henrique Pinto. — São Paulo: Ricordi Brasileira S.A., 2007.

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

 
Evocava-se ao mesmo tempo o gênio dos jacobinos e dos industriais , atribuía-se este dito a Luís Filipe: Deus seja louvado e minhas boutiques também. As passagens como templo do capital mercantil. 

[A 2, 2] 

 

A passagem como construção em ferro fica na fronteira do espaço largo (Breitraum). Esta é uma das razões decisivas de sua aparência “antiquada”. Ela ocupa aqui uma posição híbrida, que tem certa analogia com a da igreja barroca: “a cobertura (Halle) em abóbada, que admite até mesmo as capelas apenas como alargamento do seu próprio espaço, mais largo que nunca. Mas também nesta cobertura barroca prevalece a tendência ‘para o alto’, o êxtase dirigido às alturas, como rejubila nos afrescos do teto. Enquanto os espaços das igrejas pretendem servir a algo mais do que para fins de reunião, enquanto querem abrigar a idéia do eterno, o espaço único e contínuo apenas poderá satisfazê-los se a altura superar a largura.” A. G. Meyer, Eisenbauten , p. 74. Inversamente, pode-se dizer que permanece algo de sagrado, um resquício de nave de igreja, nesta fileira de mercadorias que é a passagem. Do ponto de vista funcional, a passagem já se encontra no domínio do espaço largo, porém, do ponto de vista arquitetônico, ainda está no espaço da antiga “cobertura”.

[F 4, 5]

 



Benjamin pretendia criar Passagens como a Torre Eiffel: 12000 peças de metal, milimetricamente ajustadas e ligadas por 2 1/2 milhões de parafusos. Uma “estrutura em aço da historiografia materialista.”
 

Sarah Bernhardt

 

Charles Baudelaire. Fotografia de Nadar.

 

Cocotes com crinolinas. Litografia de Honoré Daumier. 

 

 Litografia de Honoré Daumier do Nadar fotografando e os Esgotos de Paris, fotografados por Nadar (1861-1862).

 

Esquerda: Alexandre Dumas, pai, 1855. Fotografia de Nadar (esquerda). Dumas empregava mais de 8000 pessoas para os romances publicados com seu nome. 

Direita: “Esta obra é minha pois eu a assino.

Um pobre diabo observa com tristeza um jovem senhor que assina o quadro que ele havia pintado.

 

Barricada durante a Comuna de Paris, março de 1871.
 

Manuscrito das Passagens, em caracteres góticos. de [N 1, 1] até [N1, 11].

N
[Teoria do Conhecimento, Teoria do Progresso]
[...]

A reforma da consciência consiste apenas em despertar o mundo ... do sonho de si mesmo.

Karl Marx, Der historische MaterialismusDie Frühschriften, Leipzig, 1932, vol. I, p. 226 (Carta de Marx a Ruge, Kreuzenach, setembro de 1843.)

Nos domínios de que tratamos aqui, o conhecimento existe apenas em lampejos. O texto é o trovão que segue ressoando por muito tempo.

[N 1, 1]

Comparação das tentativas dos outros com empreendimentos de navegação, nos quais os navios são desviados do Pólo Norte magnético. Encontrar esse Pólo Norte. O que são desvios para os outros, são para mim os dados que determinam a minha rota. - Construo meus cálculos sobre os diferenciais de tempo - que, para outros, perturbam as “grandes linhas da pesquisa.

[N 1, 2]

Dizer algo sobre o próprio método da composição: como tudo em que estamos pensando durante um trabalho no qual estamos imersos deve ser-lhe incorporado a qualquer preço, Seja pelo fato de que sua intensidade aí se manifesta, seja porque os pensamentos de ão carregam consigo um télos em relação a esse trabalho. É o caso também deste projeto, que deve caracterizar e preservar os intervalos da reflexão, os espaços entre as partes essenciais deste trabalho, voltadas com máxima intensidade para fora.

[N 1, 3]

[…]

O pathos deste trabalho: não há épocas de decadência. Tentativa de ver o século XIX de maneira tão positiva quanto procurei ver o século XVII no trabalho sobre o drama barroco.1 Nenhuma crença em épocas de decadência. Assim também (fora dos limites) qualquer cidade para mim é bela; e, por isso, não acho aceitável qualquer discurso sobre o valor maior ou menor das línguas. 

1 W. Benjamin, Ursprung des deutschen Trauerspiels (1928), in: GS I, 203-430; Origem do Drama Barroco Alemão (ODBA). (R.T.; w.b.)

[N 1, 6]

[...]

Este trabalho deve desenvolver ao máximo a arte de citar sem usar aspas. Sua teoria está intimamente ligada à da montagem.  

[N 1, 10]

 

Referências topográficas das Passagens

 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.