28.4.26

gilberto mendes/música contempôranea brasileira/sai

21 Anatomia da musa (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi 

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

22 Fenomenologia da certeza (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

23 Sol de Maiakovski (1995) 

sobre poema de Augusto de Campos

Dedicado a Victoria Evtodieva

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

24 Tvgrama I (Tombeau de Mallarmé) (1995) 

sobre poema de Augusto de Campos

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi 

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

25 Desesncontros, à memória de Kurt Weil, à lembrança de Gilberto Mendes (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Rosana Lamosa

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

26 Luz mediterrânea: no olvido do tempo (1995) 

sobre poema de Gil Nuno Vaz

Dedicado a Julia Novikova

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

27 O pai do universo (1997) 

Texto-fragmento extraído do Baghavad Gita com tradução de Rogério Duarte

Dedicado a João Duarte

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

28 Amplitude (1999) 

sobre poema de Alberto Martins

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi  

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

29 Mais uma vez (1999) 

sobre poema de Carlos Ávila

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi  

30 A festa (1999) 

sobre poema de Narciso de Andrade

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi  

MENDES, Gilberto (1922-2016). Música contemporânea brasileira: Gilberto Mendes / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; texto de Décio Pignatari; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.4) 

27.4.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
<fase média>
[...] 

“Querem fortificar Paris, gastando assim centenas de milhões numa obra de guerra, enquanto esse mágico, com um milhão, teria extirpado para sempre a causa de todas as revoluções, de todas as guerras.” Ferrari, “Des idees et de lécole de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845, p. 413.

[W 7, 2]

Michelet, a respeito de Fourier: “Singular contraste entre tamanha ostentação de materialismo e uma vida espiritualizada, abstêmia e desinteressada!” J. Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, p. 294.

[W 7, 3]

Comparar a idéia de Fourier sobre a propagação dos falanstérios por meio de explosões com duas idéias de minha “política”:6 a da revolução como inervação dos órgãos técnicos do coletivo (comparação com a criança que, ao tentar pegar a lua, aprende a agarrar as coisas) e a idéia da “ruptura da teleologia natural”. <Cf. X la, 2 e W 8a, 5>

[W 7, 4]

[...] 

É fácil compreender que todo ‘interesse’ da massa..., tão logo ele surge no palco do mundo, ultrapassa seus limites reais como ‘idéia’ ou ‘representação’ e se confunde com o interesse humano em geral. Esta ilusão constitui aquilo que Fourier denomina o tom de cada época histórica.” Marx e Engels, Die heilige Familie, in: Der historische Materialismus. vol. I, Leipzig, 1932, p. 379.

[W 7, 8] 

[...]  

A propósito do feminismo da escola de Fourier: “Em Herschell e em Júpiter, os cursos de botânica são ministrados por jovens vestais de dezoito a vinte anos... Quando digo ‘de dezoito a vinte anos’, refiro-me à linguagem da Terra, já que os anos em Júpiter são muito mais longos que os nossos, e o vestalato só se inicia ali por volta dos cem anos.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, p. 93.

[W 7a, 3]

Um modelo de psicologia fourierista no capítulo de Toussenel sobre o javali: “Existe na humanidade uma enorme quantidade de cacos de garrafa, pregos que se soltaram e tocos de velas que estariam completamente perdidos para a sociedade se alguma mão cuidadosa e inteligente não se encarregasse de recolher todos esses dejetos sem valor, e reconstituí-los ruma massa suscetível de ser reelaborada e devolvida de novo ao consumo. Essa tarefa importante entra nas atribuições do avarento... Aqui, o caráter e a missão do avarento se devam visivelmente: o sovina torna-se trapeiro... O porco é o grande trapeiro da natureza; de não engorda as custas de ninguém.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, pp. 249 - 250 .

[W 7a, 4]

Marx caracteriza a insuficiência de Fourier, que “concebeu um modo particular de trabalho — o trabalho nivelado, segmentado, e por isso não-livre... — como a fonte da perniciosidade da propriedade privada e de sua existência alienada do homem”, em vez de denunciar o trabalho enquanto tal como essência da propriedade privada. Karl Marx, Der historische Materialismus, ed. org. por S. Landshut e J. P. Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 292 (Nationalökonomie und Philosophie”).

[W 7a, 5]

[...]  

“Segundo ele, as almas transmigram de corpo em corpo, e mesmo de mundo em mundo. Cada planeta tem uma alma que irá animar outro planeta superior, levando com ela as almas dos homens que o habitaram. É dessa forma que, antes do fim de nosso planeta (que deve durar oitenta e um mil anos), as almas humanas terão tido mil seiscentas e vinte existências, e terão assim vivido cinqüenta e quatro mil anos num outro planeta, vinte e sete mil neste... No exercício de sua primeira infância, a terra foi atingida por uma febre pútrida, que ela transmitiu à lua, que por isso morreu. Mas a terra, organizada em harmonia, ressuscitará a lua.” Nettement, Histoire de la Littérature Française sous le Gouvemement de Juillet, Paris, vol. II, pp. 57, 59.

[W 8, 6]

O fourierista, sobre a aviação: “O aeróstato leve ... é a carruagem de fogo que ... respeita em toda parte a obra de Deus, não precisando nem encher os vales, nem perfurar as montanhas, como a locomotiva homicida que o agiota desonrou.” A. Toussenel, Le Monde des Oiseaux, vol. I, Paris, 1853, p. 6.

[W 8a, 1] 

[pensamento anterior ao pensar nos aviões movidos a petróleo...]

[...] 

Os homens de cauda de Fourier foram objeto de caricatura em 1849, nos desenhos eróticos de Emy, publicados em Le Rire. Para explicar as extravagâncias de Fourier, é preciso evocar a figura de Mickey Mouse, na qual se consumou a mobilização moral da natureza, bem no espírito das concepções de Fourier. Com Mickey Mouse, o humor põe a política à prova. Confirma-se, assim, que Marx tinha razão ao ver em Fourier principalmente um grande humorista. A ruptura da teleologia natural se dá segundo o plano do humor.  

[W 8a, 5]  

6 Não fica claro se Benjamin se refere aqui às suas idéias políticas em geral, ou mais específicamente ao seu artigo, infelizmente perdido, "Der wahre Politiker" (O político autêntico, 1919-1920), chamado por ele também de "Prolegomena zur zweiten Lesabéndio-Kritik" (Prolegômenos para uma segunda crítica do Lesabéndio  romance utópico de Paul Scheerbart); cf. GS II, 1423. (R.T.) 

 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.   

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SVENDBORG

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 
Über die Bezeichnung Emigranten
 
Immer fand ich den Namen falsch, den man uns gab: Emigranten.
Das heißt doch Auswanderer. Aber wir
Wanderten doch nicht aus, nach freiem Entschluß
Wählend ein anderes Land. Wanderten wir doch auch nicht
Ein in ein Land, dort zu bleiben, womöglich für immer.
Sondern wir flohen. Vertriebene sind wir, Verbannte.
Und kein Heim, ein Exil soll das Land sein, das uns da aufnahm.
Unruhig sitzen wir so, möglichst nahe den Grenzen
Wartend des Tags der Rückkehr, jede kleinste Veränderung
Jenseits der Grenze beobachtend, jeden Ankömmling
Eifrig befragend, nichts vergessend und nichts aufgebend
Und auch verzeihend nichts, was geschah, nichts verzeihend.
Ach, die Stille der Sunde täuscht uns nicht! Wir hören die Schreie
Aus ihren Lagern bis hierher. Sind wir doch selber
Fast wie Gerüchte von Untaten, die da entkamen
Über die Grenzen. Jeder von uns
Der mit zerrissenen Schuhn durch die Menge geht
Zeugt von der Schande, die jetzt unser Land befleckt.
Aber keiner von uns
Wird hier bleiben. Das letzte Wort
Ist noch nicht gesprochen. [1937]
 
Sobre a designação de emigrantes
 
Sempre achei errado o nome que nos deram: emigrantes.
Isso quer dizer retirantes. Mas nós
Não nos retiramos por livre decisão
Escolhendo um outro país. Tampouco nos retiramos
Para um país a fim de ali ficar, quem sabe para sempre.
Mas fugimos. Fomos expulsos, expatriados.
E não um lar, um exílio há de ser o país que nos acolhe.
Quedamos inquietos, o mais próximo possível da fronteira
Esperando o dia do regresso, observando a menor
Mudança no outro lado da fronteira, interrogando com ânsia
Cada recém chegado, não esquecendo nada, não entregando
Nada, não perdoando nada que se passou e nada perdoando.
Ah, não nos ilude o silêncio dos estreitos! Ouvimos os gritos
Que vêm dos campos de concentração. E não somos nós mesmos
Quase como rumores de crimes que escaparam através
Da fronteira. Cada um de nós
Que caminha com sapatos rotos por entre a multidão
Dá testemunho da vergonha que agora enxovalha a nosso terra.
Mas nenhum de nós
Vai ficar aqui. A última palavra
Ainda não foi falada.
 
Letztes Liebeslied
 
Als die Kerze ausgebrannt war
Blieb uns nur ein kalter Stumpen
Als der Weg zu End gerannt war
Schimpften wir uns wie zwei Lumpen.
Beatrize war gestellet
Spitzel wurde ihr Begleiter
Tatbestand ward aufgehellet
Statt der Schwüre floß der Eiter.
Alle Himmel aufzureißen
Nur dem Haß wurd's zum Gewinne
Hinz und Kunz, die großen Weisen
Wußten dies von Anbeginne. [c. 1937]
 
Última canção de amor
 
Quando a vela se apagou, somente
Nos restava uma bituca fria
Quando a estrada terminou, a gente
Feito dois vadios se ofendia.
Beatriz caiu: o delator
Ainda lhe fazia companhia
Crime elucidado com rigor
Pus, ao invés de juras, escorria.
Trespassar o céu de cabo a rabo
Deu apenas ódio como prêmio
Mas o Zé Povinho, grande sábio
Já sabia disso no proêmio.

So wie der Mensch der Steinzeit
Taumelnd sich aufhob
In den finsteren Wäldern
 
Das Gehirn erfüllt von dunklen Bildern, schwankenden
In großem Hunger
 
Seinen mühsamen Weg begann
Oft ermattend
Vielfach getäuscht
Unvernünftig zornig
Unvernünftig milde
 
Die Hast seiner Feinde nicht kennend
Seinen Weg nicht wissend
Immer wieder niedergestreckt
Von den grausamen Schlägen unbekannter Mächter
Regungslos liegend lange Zeit
Wieder aufstand
Aus Mut oder aus Furcht [c. 1937-1938]
 
Assim como o homem da idade da pedra
Levantou-se trôpego
Nas florestas sombrias
 
O cérebro cheio de imagens escuras, cambaleando
Com fome enorme
 
Iniciou seu caminho árduo
Não raro definhando
Muitas vezes iludido
Desrazoadamente irado
Desrazoadamente manso
 
Desconhecendo o ímpeto de seus inimigos
Sem saber o seu caminho
 
Constantemente derrubado
Pelos golpes cruéis de forças ocultas
Prostrado inerte um longo tempo
Para se levantar de novo
Por coragem ou temor
 
Die Oberen sagen: Frieden und Krieg
Sind aus verschiedenem Stoff.
Aber ihr Frieden und ihr Krieg
Sind wie Wind und Sturm.
 
Der Krieg wächst aus ihrem Frieden
Wie der Sohn aus der Mutter
Er trägt
Ihre schrecklichen Züge.
 
Ihr Krieg tötet nur
Was ihr Frieden
Obriggelassen hat. [1938]
 
Os de cima dizem: paz e guerra
São feitas de matéria distinta.
Mas a paz e a guerra deles
São como vento e tempestade.
 
A guerra nasce da paz deles
Como da mãe o filho
Ele traz
As terríveis feições dela.
 
A guerra deles só
Mata o que a paz deles
Deixou de pé.

Legende von der Entstehung des Buches Taoteking
auf dem Weg des Laotse in die Emigration
 
1
Als er siebzig war und war gebrechlich
drängte es den Lehrer doch nach Ruh
denn die Güte war im Lande wieder einmal schwächlich
und die Bosheit nahm an Kräften wieder einmal zu
und er gürtete den Schuh.
 
2
Und er packte ein, was er so brauchte:
Wenig. Doch es wurde dies und das.
So die Pfeife, die er abends immer rauchte
und das Büchlein, das er immer las.
Weißbrot nach dem Augenmaß.
 
3
Freute sich des Tals noch einmal und vergaß es
Als er ins Gebirg den Weg einschlug.
Und sein Ochse freute sich des frischen Grases
kauend, während er den Alten trug.
Denn dem ging es schnell genug.
 
4
Doch am vierten Tag im Felsgesteine
hat ein Zöllner ihm den Weg verwehrt:
„Kostbarkeiten zu verzollen?“ — „Keine.
Und der Knabe, der den Ochsen führte, sprach: „Er hat gelehrt.
Und so war auch das erklärt.
 
5
Doch der Mann in einer heitren Regung
fragte noch: „Hat er was rausgekriegt?
Sprach der Knabe: „Daß das weiche Wasser in Bewegung
Mit der Zeit den harten Stein besiegt.
Du verstehst, das Harte unterliegt.
 
6
Daß er nicht das letzte Tageslicht verlöre
Trieb der Knabe nun den Ochsen an.
Und die drei verschwanden schon um eine schwarze Föhre
Da kam plötzlich Fahrt in unsern Mann
Und er schrie: „He dul Halt an!
 
7
Was ist das mit diesem Wasser, Alter?
Hielt der Alte: Intressiert es dich?
Sprach der Mann: „Ich bin nur Zollverwalter
Doch wer wen besiegt, das intressiert auch mich.
Wenn du's weißt, dann sprichl
 
8
Schreib mir's auf! Diktier es diesem Kindel
So was nimmt man doch nicht mit sich fort.
Da gibt's doch Papier bei uns und Tinte
und ein Nachtmahl gibt es auch: ich wohne dort.
Nun, ist das ein Wort?
 
9
Über seine Schulter sah der Alte
Auf den Mann: Flickjoppe, keine Schuh.
Und die Stirne eine einzige Falte.
Ach, kein Sieger trat da auf ihn zu.
Und er murmelte: „Auch Du?"
 
10
Eine höfliche Bitte abzuschlagen
War der Alte, wie es schien, zu alt.
Denn er sagte lout: „Die etwas fragen,
Die verdienen Antwort. Sprach der Knabe: „Es wird auch schon kalt.
„Gut, ein kleiner Aufenthalt.
 
11
Und von seinem Ochsen stieg der Weise
Sieben Tage schrieben sie zu zweit.
Und der Zöllner brachte Essen (und er fluchte nur noch leise
Mit den Schmugglern in der ganzen Zeit.)
Und dann war's soweit.
 
12
Und dem Zöllner händigte der Knabe
Eines Morgens einundachtzig Sprüche ein.
Und mit Dank für eine kleine Reisegabe
Bogen sie um jene Föhre ins Gestein.
Sagt jetzt: kann man höflicher sein?
 
13
Aber rühmen wir nicht nur den Weisen
Dessen Name auf dem Buche prangt!
Denn man muß dem Weisen seine Weisheit erst entreißen.
Darum sei der Zöllner auch bedankt:
Er hat sie ihm abverlangt. [1938]
 
 
Lenda da origem do livro Tao-te king
no caminho de Lao-Tsé para a emigração
 
1
Aos setenta anos, frágil de saúde
Ansiava o mestre por lugar pacato
Pois o bem enfraquecera e a força rude
Se expandia no país com espalhafato.
E amarrou o seu sapato.
 
2
No alforje ele pôs o que costuma
Usar: muito pouco. E mais um quê.
O cachimbo que à noite ele fuma
O livrinho que ele sempre lê
E pão branco pra comer.
 
3
Viu o vale alegremente e foi
Dele se esquecendo enquanto ia
Subindo a montanha no seu boi 
O frescor da relva, que alegria
Pro animal, quando comia.
 
4
Mas no quarto dia, no penhasco um
Guarda alfandegário bloqueou
A passagem: Bens a declarar? — Nenhum.
O rapaz que conduzia o boi falou: É professor.
E assim tudo se explicou.
 
5
Todavia, com desenvoltura
O homem perguntou: O que tirou do ofício?
Disse o rapaz: Que água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura. E nisso
Torna o rijo submisso.
 
6
Para não perder a luz do dia
O garoto toca o boi adiante
Mas o trio mal se distancia
Deu em nosso homem um rampante:
Parem, parem! Um instantel
 
7
Que sucede, velho, com aquela água?
O velho se vira: Acaso te interessa
O homem fala: Eu sou somente um guarda
De aduana, mas quem-vence-quem me intriga à beça..
Diz, se o sabes, mas sem pressal
 
8
Deita por escritol Dita a esse rapaz!
Não é coisa que se guarde só pra si.
O papel e a tinta te forneço, e mais
Refeição: eu moro logo ali.
Bom convite, hás de convir!
 
9
E por cima do ombro, o velho, isto posto
Examina o homem: uniforme roto, sem
Botas. Uma ruga só no rosto.
Ah, não é um vencedor que me detém.
E murmura: Tu também?
 
10
Um pedido tão cordial, ao que parece
Não podia o velho recusar.
Uma vez que disse de bom som: Merece
Ter resposta uma pergunta. E o rapaz: Já está
Frio, melhor descansar.
 
11
E do boi o sábio então desceu
Sete dias escreveram os dois.
A comida guarnecida pelo guarda (e, no interim, ele só deu
Bronco em muambeiro e pouco se indispôs.)
Foi assim que se compôs

12
A obra que o rapaz um belo dia
Entregou ao guarda da aduana: oitenta
E um ditados, em retorno à cortesia
E seguiram pela estrada poeirenta.
Gentileza gera gentileza: hoje se comenta.
 
13
Não devemos só prezar, no entanto
Quem seu nome empresta ao livro! Que é forçoso
Extrair dos sábios o saber. Portanto
Obrigado ao guarda venturoso
Que o pediu por simples gozo.

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos) 

26.4.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
[..]

Fournier, sobre sua atividade como comerciante: Perdi meus belos anos nas oficinas da mentira, sentindo ressoar em meus ouvidos, por toda parte, este sinistro augúrio: Rapaz bom e honesto! Ele não vale nada para o comércio. Com efeito, fui enganado e roubado em tudo que empreendi. Mas se não valho nada para a prática do comércio, valho para desmascará-lo. Charles Fourier, 1820, Publication des Manuscrits, vol 1, p 17; cit em A.Pinloche, Fourier et le Socialisme, Paris, 1933, p 15

[W 1, 2]

[...]

 “Entre todos os contemporâneos de Hegel, Ch. Fourier foi o único que percebeu as relações burguesas de maneira tão lúcida quanto o primeiro.” G. Plekhanov, “Zu Hegels sechzigstem Todestag”, Die Neue Zeit, X, n° 1, Stuttgart, 1892, p. 243.

[W 2a, 7]

Fourier fala “da ascensão do princípio da ‘paixão industrial’ (fougue industrielle), o entusiasmo geral que é determinado pelas leis ... da ‘compósita’ ou da ‘coincidente’. Uma reflexão superficial poderia nos levar a crer que já atingimos esse estágio hoje em dia. A paixão industrial é representada pela furia da especulação e pelo afã de acúmulo de capital; a ‘passion coincidente’ (compulsão pela coesão), pelo acúmulo de capitais, por sua crescente concentração. Entretanto, mesmo que nesta relação existam os elementos descobertos por Fourier, eles não estão ordenados e organizados do modo como ele sonhava e imaginava. Charles Bonnier, “Das Fourier’sche Prinzip der Anziehung”, Die NeueZeit, X, n° 2, Stuttgart, 1892, p. 648.

[W 3, 1] 

[...]

“Os economistas e políticos que inspiraram os socialistas do período anterior a 1848 foram sempre contrários às greves. Explicavam aos operários que uma revolta, mesmo sendo vitoriosa, não lhes traria vantagens, e que, em vez de gastarem seu dinheiro em greves, eles deveriam empregá-lo na criação de cooperativas de consumo e produção. Proudhon teve ... a idéia genial de conclamar os operários à greve  não para conseguir um aumento de salários, e sim  para reduzi-los... Dessa forma o operário ganharia como consumidor duas ou três vezes mais do que ganhava como produtor.” Lafargue, Der Klassenkampf in Frankreich”, Die Neue Zeit, XII, n° 2, 1894, pp. 644 e 61 6.

“Fourier, Saint-Simon e os outros reformistas recrutavam seus adeptos quase exclusivamente dentre os artesãos ... e a elite intelectual da burguesia. Com poucas exceções, reuniam-se em torno deles pessoas cultas que achavam que a sociedade não lhes dava a devida atenção... Tratava-se de desclassificados que se tornaram empreendedores ousados, comerciantes ardilosos e especuladores... O Sr. Godian, por exemplo, ... fundou em Guise (département Aisne) um familistère conforme os princípios de Fourier. Deu moradia a numerosos operários ae sua fábrica de louça esmaltada, instalando-os em prédios vistosos, que se estendem em innn de um amplo pátio quadrangular coberto por um teto de vidro; ali, os operários encontravam, além de um lar, todos os artigos de uso diário..., um teatro e concertos para sna entretenimento, escolas para seus filhos etc. Em suma, o senhor Godin cuidava de todas as necessidades materiais e espirituais deles, e conseguia, além disso, lucros consideráveis. Ele conquistou a fama de um benfeitor da humanidade e morreu multimilionário.” Paul Lafargue, “Der Klassenkampf in Frankreich”, Die Neue Zeit, Xii, n° 2, 1894, p. 617.

[W 3 a, 1]

Fourier sobre as ações: “Em seu Traité de lUnité Universelle, Fourier enumera ... as vantagens que esta forma de propriedade oferece ao capitalista: ‘Ele não corre o risco de ser roubado ou de sofrer danos provocados por incêndios ou terremotos... Um investidor menor nunca é prejudicado na administração de seus bens, uma vez que a administração é a mesma para ele e para todos os demais investidores... Um capitalista  mesmo que possua cem milhões  pode realizar seu patrimônio a qualquer momento’ etc. Por outro lado, o pobre, mesmo que possua apenas um táler, poderia participar de uma das ações populares, que sao subdivididas em partes minúsculas ... e, desse modo, fala ... de nossos palácios, nossas lojas de departamentos, nossos tesouros’. Napoleão III e seus cúmplices no golpe de Estado eram muito favoráveis a estas idéias; ... eles democratizaram a renda pública, como um deles o disse, ao instituírem o direito de se comprar papéis por 5 francos ou até por 1 franco. Acreditavam despertar desta maneira o interesse das massas pela solidez do crédito publico e evitar as revoluções políticas.” Paul Lafargue, “Marx’ historischer Materialismus”, Die Neue Zeit, XXII, n° 1, Stuttgart, 1904, p. 831.

[W 3 a, 2]

“Fourier não é somente um crítico; sua natureza eternamente alegre torna-o um satírico, e certamente um dos maiores satíricos de todos os tempos.” Engels, cit. por Rudolf Franz em sua resenha de E. Silberling, Dictionnaire de Sociologie Phalanstérienne (Paris, 1911), Die Neue Zeit, XXX, n° 1, Stuttgart, 1912, p. 333.

 [W 3 a, 3]

[...] 

Na Inglaterra, a influência de Fourier foi comparável à de Swedenborg.

 [W 3 a, 5]

“Heine conhecia bem o socialismo. Ele ainda conheceu Fourier pessoalmente. Em seus artigos sobre A situação na França’ (Französische Zustände),2 escreveu certa vez (15 de junho de 1843): ‘Sim, Pierre Leroux é pobre, assim como o foram Samt-Simon e Fourier, e foi a pobreza providencial destes grandes socialistas que enriqueceu o mundo.. Fourier também teve que recorrer à caridade de seus amigos; quantas vezes o vi passar apressadamente ao longo das colunas do Palais-Royal, vestindo seu casaco cinzento e puído, com os bolsos tão cheios que se podia ver em um deles o gargalo de uma garrafa, e no outro, a ponta de um pão. Um de meus amigos, o primeiro a mostrá-lo para mim, chamou minha atenção para a indigência de um homem que precisava buscar ele mesmo a bebida na taverna e seu pão na padaria.”’ Cit. em “Heine an Marx”, Die Neue Zeit, XIV, n° 1, Stuttgart, 1896, p. 16. Texto original: Heine, Sämtliche Werke, ed. org. por W. Bölsche, Leipzig, vol. V, p. 34 [“Kommunismus, Philosophie und Klerisei”, I].

 [W 4, 1]

“Em suas notas sobre as memórias de Annenkoff, Marx escreveu: ...Fourier foi o primeiro a ridicularizar a idealização da pequena-burguesia.’” Relatado por P. Anski, “Zur Charakteristik von Marx”, Russkaia Mysl, agosto de 1903, p. 63; em N. Rjasanoff, “Marx und seine russischen Bekannten in den vierziger Jahren”, Die Neue Zeit, XXXI, n° 1, Stuttgart, 1913, p. 764.

[W 4, 2]

“O senhor Grün pode facilmente criticar a maneira como Fourier trata o amor; ele mede a crítica de Fourier às relações amorosas atuais tomando como base as fantasias pelas quais Fourier procurava chegar a uma percepção do amor livre. O senhor Grün, como bom filisteu alemão, leva estas fantasias a sério. São a única coisa que leva a sério. Se pretendia realmente aprofundar este aspecto do sistema, não dá para entender por que também não se interessou pelas considerações de Fourier sobre a educação, que são, de longe, o melhor cue existe neste ponto e que contêm suas observações mais geniais... ‘Fourier é justamente a pior expressão do egoísmo civilizado’ (p. 208). Ele comprova isto narrando que, na ordem do mundo concebida por Fourier, o mais pobre dos mortais se serve diariamente de -40 pratos, consumindo cinco refeições por dia, que as pessoas atingem a idade de 144 anos de vida, e assim por diante. A concepção grandiosa dos homens, que Fourier contrapõe com humor ingênuo à acanhada mediocridade dos homens da Restauração [em Dampfboot, palavras inseridas após ‘homens’: ‘infinitamente pequenos’, Béranger], serve para o senhor Grün apenas para retirar dali o aspecto mais inocente e usá-lo para fazer um comentário impregnado de moralismo filisteu.” Karl Marx sobre Karl Grün como historiador do socialismo (reprodução de um artigo do número de agosto-setembro de 1847 de Westphälisches Dampfboot) em Die Neue Zeit, XVIII, n° 1, Stuttgart, 1900, pp. 137-138.

[W 4, 3]

Pode -se caracterizar o falanstério como uma maquinaria humana. Isto não é uma recriminação, e nem se pretende fazer alusão a nada de mecanicista; a expressão designa apenas a grande complexidade de sua estrutura. O falanstério é uma máquina feita de homens.

[W 4, 4]

[...] 

Algumas observações sobre a mística dos números em Fourier, segundo Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845: Tudo prova que o fourierismo se fundamenta na harmonia pitagórica... Sua ciência ... era a ciência dos antigos” (p. 397). “O número reproduz seu ritmo na avaliação dos benefícios” (p. 398). Os moradores do falanstério constituem-se de 2 x 810 homens e mulheres. Pois “o número 810 oferece uma série completa de acordes, correspondendo a uma grande quantidade de assonâncias cabalísticas” (p. 396). “Se em Fourier a ciência oculta assume uma forma nova, a forma da indústria, é preciso não esquecer que a forma em si não conta nessa poesia flutuante das mistagogias” (p. 405). “O número agrupa todos os seres segundo suas leis simbólicas; ele desenvolve todos os grupos por séries; a série distribui as harmonias no universo... Ora, a série ... é perfeita na natureza inteira... Só o homem é infeliz, porque a civilização inverte o número que deve governá-lo. Que ele seja arrancado da civilização... Aí então a ordem que domina o movimento físico, o movimento orgânico, o movimento animal, explodirá no ... movimento passional; a própria natureza organizará a associação” (pp. 395-396).

[W 6,1]

Antevisão do rei burguês em Fourier: “Ele fala dos reis dedicados à serralheria, à carpintaria, à venda de peixes, à fabricação da cera para selar.” Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845, p. 393.

[W 6, 2]

“Fourier pensou durante toda sua vida, sem se perguntar nem uma vez de onde lhe vinham as idéias. Ele concebe o homem como uma machine passionelle: sua psicologia começa com os sentidos e se encerra com o compósito; ela não supõe ... a intervenção da razão para a solução do problema da felicidade.” Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XVI, n° 3, Paris, 1845, p. 404.

[W 6, 3]

Elementos utópicos: “A ordem combinada apresenta o lustro das ciências e das artes, o espetáculo da cavalaria andante, a gastronomia combinada no sentido político..., a politique galante para o recrutamento dos exércitos’.” (Ferrari, p. 399). “O mundo toma a forma de seu contrário, os animais ferozes ou maléficos se transformam para o uso do homem: os leões fazem o serviço de entrega de correspondência. Auroras boreais aquecem os pólos, a atmosfera torna-se uma superfície clara como um espelho, a água do mar se adoça, quatro luas clareiam a noite; em suma, a terra se renova vinte e oito vezes, até que a grande alma do nosso planeta, extenuada, fatigada, passe para um outro planeta, junto com todas as almas humanas” (Ferrari, p. 401).

[W 6, 4]

“Fourier é excelente na observação da animalidade, seja da besta, seja do homem; ele é dotado do gênio das coisas vulgares.” Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845, p. 393.

[W 6a, 1] 

[...]

No esquema seguinte, referente às doze paixões, o segundo grupo de quatro representa as paixões agrupadoras; o terceiro, de três, as paixões serializantes: “primeiro os cinco sentidos, em seguida o amor, a amizade, o fãmilismo, a ambição; em terceiro lugar, as paixões da intriga, da variabilidade, da união — em outras palavras, a cabalista, a borboleteante, a compósita; uma décima terceira paixão, o uniteísmo, absorve todas as outras”. Ferrari, “Des idees et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1 845, p. 394.

[W 6a, 3] 

2 Título de uma série de artigos de jornal publicados em 1831 e 1832 no Allgemeine Zeitung, de Augsburgo, e reunidos em livro em 1833. (w.b.) 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.