[Conspirações, Compagnonnage1]
[...]
Insurreição de Junho: “Bastava ter a aparência de pobre para ser tratado como um criminoso. Naqueles dias, inventou-se o que se chamaria de perfil do insurrecto’, e qualquer um que tivesse essa aparência era preso... A própria Garde Nationale foi, sem dúvida, a responsável pela Revolução de Fevereiro,2 no entanto, nem a ela ocorreria chamar de insurgentes aqueles que lutavam contra o rei. Apenas aqueles que tinham se revoltado ... contra a propriedade eram chamados de insurgentes. Como a Garde Nationale ‘salvara a sociedade’, ela podia fazer naqueles dias tudo o que lhe passasse pela cabeça, e médico algum teria ousado impedir-lhe a entrada no hospital... Sim, os guardas nacionais em sua fúria rega chegavam mesmo a gritar ‘silêncio’ aos doentes febris que falavam durante o delírio, e os teriam assassinado se os estudantes não os tivessem impedido.” Engländer, <Geschichte der franzdsischen Arbeiter-Associationen, Hamburgo, 1864, > vol. II, pp. 320, 327-328, 327.
[V 1, 6]
“É facilmente compreensível que as associações de operários tenham perdido terreno com o golpe de Estado de 21 de dezembro de 1851... Todas as associações de operários, tanto aquelas que recebiam subvenções do Estado quanto as restantes, começaram rapidamente a retirar seus letreiros, nos quais havia os símbolos da igualdade e as palavras: ‘Liberdade, Fraternidade e Igualdade’, como se estivessem chocados com o sangue do golpe de Estado. Mesmo depois do golpe, certamente ainda existem associações de operários em Paris, mas os operários não ousam mais usar este nome. Seria difícil localizar as associações remanescentes, pois não mais se encontra o nome ‘associação de operários’ nem no guia de endereços da cidade nem nos letreiros. Depois do golpe de Estado, as associações de operários continuaram a existir apenas como sociedades comerciais comuns. Assim, a antiga associação fraterna dos pedreiros é agora conhecida apenas como a empresa ‘Bouyer Cohadon & Co.’; a associação dos douradores, que também existe ainda, leva agora a firma ‘Dreville, Thibout & Co.’, e assim, em todas as associações de operários ainda existentes, são os nomes dos gerentes que figuram como razão social... Desde o golpe de Estado, nenhuma delas admitiu um único membro novo. Qualquer membro novo teria sido visto com total desconfiança. Mesmo a visita de qualquer cliente novo era recebida com desconfiança, pois se farejava por toda parte a presença da polícia, e isto com plena razão, pois muitas vezes a própria polícia se apresentava oficialmente sob este ou aquele pretexto.” Sigmund Englãnder, Geschichte der französischen Arbeiter-Associationen, Hamburgo, 1864, vol. IV, pp. 195, 197-198, 200.
[V la, 1]
Sobre Cabet. “Após a Revolução de Fevereiro, havia sido encontrada ... nos arquivos da prefeitura de Toulouse uma carta de Gouhenant, o delegado ou presidente da primeira Avant-Garde, que se oferecera no ano de 1843, durante o processo de Toulouse,3 como agente à polícia de Luís Filipe. Sabia-se que o veneno da espionagem já estava infiltrado na fiança até nos poros da vida familiar, mas causou repúdio o fato de que um agente da polícia, a pústula mais asquerosa da velha sociedade, chegasse à testa da vanguarda dos icarianos para levá-la à ruína, mesmo arriscando com isso a própria vida. Afinal, tinha-se visto em Paris espiões da polícia lutando e sucumbindo nas barricadas contra o mesmo governo que lhes pagava os soldos! Sigmund Englãnder, op. cit., vol. II, pp. 159-160. ■ Utopistas ■
[V 1a, 2]
“Com o desenvolvimento das conspirações proletárias, surgiu a necessidade da divisão do mabalho; os membros dividiam-se em conspiradores ocasionais, conspirateurs d’occasion — ou seja, operários que participavam da conspiração, mas continuavam com sua ocupação habitual, apenas indo às reuniões e ficando a postos para aparecer no local combinado por ordem dos chefes — , e em conspiradores profissionais, que dedicavam toda sua energia à conspiração e viviam às custas desta... As condições de existência desta classe determinam desde o início todo seu caráter. A conspiração proletária oferece-lhes naturalmente apenas meios de existência muito limitados e incertos. Por isso são obrigados a atacar constantemente os cofres da conspiração. Muitos deles entram mesmo em conflito direto com a sociedade burguesa em geral, e aparecem, com maior ou menor dignidade, diante dos tribunais de polícia. Sua existência incerta, que depende mais propriamente do acaso do que de sua arrridade, sua vida desregrada, que tem como únicas estações fixas as tavernas dos vendedores jr vinho — os lugares de encontro dos conspiradores — , seu inevitável contato com todo ripo de gente dúbia, colocam-nos naquele ambiente que em Paris é denominado a bohème. Esses boêmios democráticos de origem proletária ... são, portanto, ou operários que abriram mão de seu trabalho e por isso passaram a levar uma vida dissoluta, ou sujeitos saídos do lumpemproletariado, que transferiram todos os hábitos dissolutos desta classe à sua nova existência... A vida inteira destes conspiradores profissionais tem um caráter decididamente boêmio. Como oficiais de recrutamento da conspiração, vão de taverna em taverna, tomam o pulso dos operários, escolhem sua gente, atraem-na para a conspiração e deixam que os cofies da sociedade ou o novo amigo paguem a conta do inevitável consumo de vinho. Ü dono da taverna é quem geralmente providencia o abrigo para os conspiradores. É sob seu teto que o conspirador muitas vezes se aloja, mantém seus encontros com os colegas, com as pessoas de sua seção, com os homens a serem recrutados; finalmente, é lá que se realizam os encontros secretos das seções (grupos) e dos chefes de seção. Neste permanente ambiente de taverna, o conspirador, de caráter alegre — como, aliás, todos os proletários de Paris —, transforma-se logo num perfeito bambocheur [galhofeiro]. O conspirador mais austero, que nas reuniões secretas assume um ar de rigor espartano, sai de sua posição e transforma-se em assíduo freguês, conhecido por todos, que sabe apreciar muito bem o vinho e o sexo feminino. Este humor típico das tavernas se intensifica ainda mais devido ao permanente perigo a que está exposto o conspirador: a cada instante, pode ser chamado às barricadas e lá sucumbir; a cada passo, encontra armadilhas da polícia que podem levá-lo à prisão ou mesmo às galeras... Ao mesmo tempo, o hábito de enfrentar o perigo faz com que a vida e a liberdade tornem-se para ele absolutamente indiferentes. Sente-se em casa tanto na prisão quanto na taverna. Cada dia espera a ordem para entrar em ação. A audácia desesperada que vem à tona em cada insurreição parisiense manifesta-se justamente através destes velhos conspiradores profissionais, os hommes de coups de main [os homens de ação imediata]. São eles que montam as primeiras barricadas e as comandam, são eles que organizam a resistência, o saque às lojas de armas, que dirigem o roubo de armas e munição das casas e que, em plena revolta, executam aqueles golpes audaciosos que muitas vezes desconcertam o partido do governo. Em suma, eles são os oficiais da insurreição. É óbvio que estes conspiradores não se limitam a organizar de maneira geral o proletariado revolucionário. Sua tarefa consiste precisamente em antecipar o processo de desenvolvimento revolucionário, conduzi-lo artificialmente à crise, fazer uma revolução de improviso, sem haver as condições para uma revolução. Para eles, a única condição para a revolução é que sua conspiração seja suficientemente organizada. Eles são os alquimistas da revolução e compartilham totalmente o pensamento caótico, o espírito tacanho e as idéias fixas dos primeiros alquimistas. Metem-se em invenções que devem operar milagres revolucionários: bombas incendiárias, máquinas de destruição de efeitos mágicos, sublevações populares, que devem ter um efeito tanto mais prodigioso e surpreendente quanto menos tiverem um fundamento racional. Ocupados com tais projetos mirabolantes, eles não têm outro objetivo a não ser a imediata derrubada do governo vigente, e desprezam profundamente a idéia de um maior esclarecimento teórico dos operários a respeito de seus interesses de classe. Advém daí sua irritação, não de natureza proletária, e sim plebéia, com os habits noirs (casacos pretos), estes homens mais ou menos educados, que representam o outro lado do movimento e dos quais não conseguem se libertar totalmente, pois são eles os representantes oficiais do partido. E de tempos em tempos os habits noirs devem servir-lhes como fonte de recursos financeiros. Aliás, fica claro que os conspiradores devem, querendo ou não, acompanhar o desenvolvimento do partido revolucionário. A principal característica da vida dos conspiradores é sua luta com a polícia, com a qual mantêm praticamente o mesmo relacionamento que os ladrões e as prostitutas.” Em outra passagem do mesmo ensaio, lê-se a respeito do seguinte relato de Chenu sobre Lucien de la Hodde: “Vemos [nele] ... a prostituição política da mais reles espécie, [nele] que fica na rua sob a chuva esperando uma gorjeta do primeiro policial que aparecer.” “Em uma de minhas caminhadas noturnas, relata Chenu, percebi De la Hodde fazendo sua ronda pelo Quai Voltaire. Chovia torrencialmente, e esta circunstância me fez pensar. Será que este prezado De la Hodde também se beneficia do baú de fundos secretos? ... ‘Boa noite, De la Hodde, com mil diabos, o que fazes aqui a esta hora e neste tempo horroroso?’ — ‘Estou à espera de um finório que me deve dinheiro, e como ele passa por aqui todas as noites a esta hora, ele terá que me pagar, caso contrário...’ — e ele bateu com força sua bengala sobre a mureta do cais. De la Hodde procura livrar-se de Chenu ... este se afasta ... mas unicamente para esconder-se sob as arcadas do Institut <de France>... Quinze minutos depois, percebi o veículo com as duas pequenas lanternas verdes... Um homem desceu, De la Hodde caminhou em sua direção; conversaram por instantes, e vi De la Hodde fazer o gesto de quem coloca dinheiro no bolso.” Marx e Engels, resenha de Chenu, Les Conspirateurs, Paris, 1850, e De la Hodde, La Naissance de la République, Paris, 1850, publicada em Die Neue Rheinische Zeitung e reimpressa em Die Neue Zeit, ano IV, Stuttgart, 1886, pp. 555-556, 552-551.
[V 2; V 2a]
Os operários de 1848 e a grande Revolução: “Embora estes sofressem sob as condições impostas pela revolução, não a responsabilizavam por sua miséria; imaginavam que a revolução não tinha conseguido trazer a felicidade das massas populares porque intrigantes tinham pervertido o princípio que lhe servia de base. Na opinião deles, a grande revolução em si mesma era boa, e a miséria humana só poderia ser eliminada se houvesse a decisão de fazer um novo 1793. Assim, afastaram-se desconfiados dos socialistas e sentiram-se atraídos pelos republicanos burgueses, que conspiravam com o intuito de criar uma república por vias revolucionárias. As sociedades secretas, à época do governo de Luís Filipe, recrutavam grande parte de seus membros mais ativos na classe operária.” Paul Lafargue, “Der Klassenkampf in Frankreich”, Die Neue Zeit, XII, n° 2, 1894, p. 615.
[V 3, 1]
Marx sobre a “Liga dos Comunistas”: ‘“Quanto à ... doutrina secreta da liga, ela passou por todas as transformações do socialismo e do comunismo francês e inglês, assim como as suas variantes alemãs... A forma secreta da sociedade deve sua origem a Paris... Durante minha primeira estada em Paris (do final de 1843 até o início de 1845), cultivei o contato pessoal com os dirigentes locais da liga, assim como com os chefes da maioria das sociedades secretas de operários franceses, sem filiar-me, contudo, a nenhuma delas. Em Bruxelas..., a autoridade central de Londres nos contatou e enviou ... o relojoeiro Josef Moll ... para solicitar a nossa entrada na liga. Moll desfez nossas hesitações, revelando que a seção central tinha a intenção de convocar um congresso da liga em Londres... Assim, nós nos filiamos. O congresso ... foi realizado, e após acirrados debates que duraram várias semanas foi aprovado o Manifesto do Partido Comunista, redigido por Engels e por mim.’ Quando Marx escreveu estas linhas, qualificou seu conteúdo como ‘histórias meio esquecidas e há muito desaparecidas.’ ...Em 1860, o movimento operário, derrotado pela contra-revolução dos anos cinqüenta, ainda não tinha despertado novamente em nenhum lugar da Europa... A história do Manifesto Comunista fica mal compreendida se estabelecemos o surgimento do movimento operário europeu a partir de sua publicação. O Manifesto foi, antes de tudo, a conclusão de seu primeiro período, que vai da Revolução de Julho até a Revolução de Fevereiro... O máximo que puderam alcançar foi a clareza teórica... Uma liga secreta de operários, que durante anos conseguiu acompanhar e participar intelectualmente do socialismo francês e inglês da época, bem corno da filosofia alemã contemporânea, demonstrou uma energia de pensamento que só pode despertar o maior respeito.” “Ein Gedenktag des Kommunismus”, Die Neue Zeit, XVI, n° I, Stuttgart, 1898, p. 354-355. A citação de Marx é extraída do libelo contra Vogt.
[V 3, 2]
“Os programas práticos dos conspiradores comunistas da época ... distinguem-se ... de maneira bastante vantajosa dos programas dos socialistas utópicos pela firme convicção de que a libertação da classe operária (‘o povo’) é inimaginável sem a luta contra as classes superiores (‘a aristocracia’). Decerto a luta de um punhado de homens que urdiram uma conspiração em nome dos interesses do povo não pode de maneira alguma ser chamada de luta de classes. Porém, quando a maior parte dos conspiradores se compõe de operários, então a conspiração constitui um germe da luta revolucionária da classe operária. A concepção que a Société des Saisons4 tem da ‘aristocracia testemunha a estreita relação genética entre as idéias dos comunistas revolucionários na França da época e as idéias dos revolucionários burgueses do século XVHI, como também da oposição liberal na época da Restauração... Assim como Augustin Thierry, os comunistas revolucionários franceses partiam da idéia de que a luta contra a aristocracia seria necessária no interesse de todo o conjunto da sociedade. Entretanto, enfatizam com razão que a aristocracia de sangue foi substituída pela aristocracia do dinheiro, e que conseqüentemente a luta ... devia se voltar contra a burguesia. Georg Plekhanov, “Über die Anfãnge der Lehre vom Klassenkampf” (extraído da introdução a uma edição russa do Manifesto Comunista), parte III, “Die Anschauungen des vormarxistischen Sozialismus vom Klassenkampf”, Die Neue Zeit, XXI, n 1, Stuttgar , 1903, p. 297.
[V 3a, 1]
1851: “Um decreto publicado em 8 de dezembro autorizou a deportação sem julgamento de qualquer pessoa que pertencesse ou tivesse pertencido a uma sociedade secreta. Entendeu-se por este termo qualquer tipo de sociedade, ainda que fosse uma sociedade de assistência mútua ou uma associação literária, mesmo se constituída às claras, mas sem registro junto ao prefeito de polícia.” A. Malet e P. Grillet, XIX' Siecle, Paris, 1919, p 264.
[V 3a, 2]
“Depois do atentado de Orsini ... o governo imperial logo aprovou uma la, dita de segurança geral, que lhe dava o poder de deter e deportar sem julgamento ... qualquer pessoa que tivesse sido punida anteriormente por ocasião das jornadas de junho de 1848 e dos acontecimentos de dezembro de 1851... Os prefeitos de todos os départements receberam ordens para designarem de imediato um número determinado de vítimas.” A. Malet e P. Grillet, XIXe Siecle, Paris, 1919, p. 273.
[v 3a , 3]
1 O compagnonnage é uma associação de operários para fins de formação profissional e de solidariedade. O termo vem de compagnon, que designa o artesão que já não é aprendiz e ainda não é mestre. Até meados do século XIX era costume desses jovens profissionais fazerem o tour de France (o circuito da França), empregando-se em oficinas de várias cidades com o objetivo de completarem sua formação. (E/M) Ver também nota 9.
2 Diante da postura passiva da Garde Nationale, o exército resolveu não intervir no conflito. (E/M)
3 Trata-se do processo contra Étienne Cabet, por suas críticas ao regime. (E/M)
4 A “Sociedade das Estações do Ano" foi uma sociedade secreta
fundada, em 1837, por Auguste Blanqui com a ajuda de dois outros jovens
republicanos. Ela usava técnicas clássicas de conspiração e tinha uma
organização hierárquica e rigorosamente disciplinada. A precursora dessa
instituição foi a também secreta Société des Familles, fundada por
Blanqui, em 1834, depois de ele ter sido, em 1832, membro da Société
des Amis du Peuple, republicana e saint-simoniana. (E/M)
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.