1.5.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SVENDBORG

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 
General, dein Tank ist ein starker Wagen.
Er bricht einen Wald nieder und zermalmt hundert Menschen.
Aber er hat einen Fehler:
Er braucht einen Fahrer.
 
General, dein Bombenflugzeug ist stark.
Es fliegt schneller als der Sturm und trägt mehr als ein Elefant.
Aber es hat einen Fehler:
Es braucht einen Monteur.
 
General, der Mensch ist sehr brauchbar.
Er kann fliegen, und er kann töten.
Aber er hat einen Fehler:
Er kann denken. [1938]
 
General, teu tanque é um automóvel forte.
Derruba uma floresta e tritura cem pessoas.
Mas ele tem um defeito:
Necessita de um chofer.
 
General, o teu bombardeiro é forte.
Voa mais veloz que o vendaval e carrega mais que um elefante.
Mas ele tem um defeito:
Necessita de um mecânico.
 
General, as pessoas são bem necessárias.
Elas sabem voar, e elas sabem matar.
Mas elas têm um defeito:
Elas sabem pensar.

Verjagt mit gutem Grund
 
Ich bin aufgewachsen als Sohn
Wohlhabender Leute. Meine Eltern haben mir
Einen Kragen umgebunden und mich erzogen
In den Gewohnheiten des Bedientwerdens
Und unterrichtet in der Kunst des Befehlens. Aber
Als ich erwachsen war und um mich sah
Gefielen mir die Leute meiner Klasse nicht
Nicht das Befehlen und nicht das Bedientwerden
Und ich verließ meine Klasse und gesellte mich
Zu den geringen Leuten.
 
So
Haben sie einen Verräter aufgezogen, ihn unterrichtet
In ihren Künsten, und er
Verrät sie dem Feind.
 
Ja, ich plaudere ihre Geheimnisse aus. Unter dem Volk
Stehe ich und erkläre
Wie sie betrügen, und sage voraus, was kommen wird, denn ich
Bin in ihre Pläne eingeweiht.
Das Lateinisch ihrer bestochenen Pfaffen
Obersetze ich Wort für Wort in die gewöhnliche Sprache, da
Erweist es sich als Humbug. Die Waage ihrer Gerechtigkeit
Nehme ich herab und zeige
Die falschen Gewichte. Und ihre Angeber berichten ihnen
Dass ich mit den Bestohlenen sitze, wenn sie
Den Aufstand beraten.
 
Sie haben mich verwarnt und mir weggenommen
Was ich durch meine Arbeit verdiente. Und als ich mich
Nicht besserte
Haben sie Jagd auf mich gemacht, aber
Da waren
Nur noch Schriften in meinem Haus, die ihre Anschläge
Gegen das Volk aufdeckten. So
Haben sie einen Steckbrief hinter mir hergesandt
Der mich niedriger Gesinnung beschuldigt, das ist
Der Gesinnung der Niedrigen.
 
Wo ich hinkomme, bin ich so gebrandmarkt
Vor allen Besitzenden, aber die Besitzlosen
Lesen den Steckbrief und
Gewähren mir Unterschlupf. Dich, höre ich da
Haben sie verjagt mit
Gutem Grund. [1938]
 
 
Escorraçado com razão
 
Eu cresci como filho
De gente abastada. Os meus pais
Puseram uma coleira em mim e me educaram
Nos hábitos de ser servido
E me instruíram na arte de mandar. Mas
Quando estava crescido e olhei ao redor
Não me agradaram as pessoas da minha
Laia nem mandar nem ser servido
E eu larguei a minha laia e me juntei
À raia miúda.
 
Assim
Eles criaram um traidor, o instruíram
Em suas artes, e ele
Os entregou ao inimigo.
 
Sim, eu revelo seus segredos. Entre o povo
Me coloco e esclareço
Como eles trapaceiam, e predigo o que virá, pois
Fui consagrado nos seus planos.
O latim de seus sacerdotes vendidos
Eu traduzo palavra por palavra em língua comum, e
Se comprova o disparate. A balança de sua justiça
Eu arranco e mostro
As falsas medidas. E seus buföes os informam
Que eu me sento entre os roubados, quando estes
Discutem a revolta.
 
Eles me preveniram e me tiraram
O que eu ganhei com meu trabalho. E ao não
Me corrigir
Saíram à minha caça, mas
Em casa
Só havia escritos que desvendavam
Seus ataques contra o povo. Assim
Expediram uma ordem de prisão contra mim
Me acusando de índole fraca, isto é
Da índole dos mais fracos.

De onde vim, estou assim estigmatizado
Perante os de posse, mas os despossuídos
Leem a ordem de prisão e
Me dão guarida. Você, eu escuto lá
Foi escorraçado
Com razão.

Kritik an Michelangelos Weltschöpfung
 
1
Dies Bildnis, das er von de Schöpfung machte
Versteh ich nicht. Wie konnt er so was glauben?!
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Ich werf ihm vor, daß er es nicht bedachte.
 
2
Ich gönne jedem, daß er tot ist, und verachte
Nicht den, der Sorge trüg zurückzukehren
Um nunmehr vor der Welt sich zu erklären
Warum er auf ihr machte, was er machte.
 
3
So machte der ein Bild, wo ihr Gott seht
Wie er den Menschen auf Granit stellt und vergeht
Statt den vergehen zu sehn und selber zu verweilen?
Welch ein Betrug! Wie konnt er so was glauben?
Das heißt: der Menschen Wahn ins Schwarze schrauben!
Und das — um ein Papier gut einzuteilen! [c. 1938]

Crítica à  “Criação do Mundo de Michelangelo
 
1
A imagem que ele fez da Criação
Me aturde. Como pôde nisso crer?!
A insônia humana em preto distorcer!
Acuso-o de pintar sem distinção.
 
2
Sei bem que ele morreu, mas se talvez
Pudesse aqui voltar pra se explicar
Eu, de bom grado, iria perguntar
Por que diabos então fez o que fez.
 
3
Afresco em que se vê como Deus cria
Sobre o granito o homem e então se manda
Ao invés de vê-lo errar no dia a dia?
 
4
Que embustel Como pôde crer naquilo
E distorcer em preto a insônia humana?!
E por papel — só para dividi-lo!

(Vermutliche) Antwort des Malers
 
1
(Vermutliche) Antwort des Malers
Was ihr von mir Totem bekommt, ist das
Was er dem Irrtum abpreßte, um es
Dem Irrtum zu hinterlassen. Den zehnten Teil von dem, was ich wollte Habe ich gemalt, zehnmal soviel, als ich sah
Ihr
Seht den hundertsten davon.
 
Da er sich auf einem Felsen vorfand, dachte er
Zeit seines Lebens, Felsen seien sicher.
Denn er dachte nur, um sicher zu sein.
Doch ist in Wahrheit sicher nur, was ohne Halt ist.
Was lebt, ist nur nicht fertig. Gott
Allein ist vergänglich.
 
Darum malte ich ihm daß so, er entkommt.
Wenn er im Flug geschaffen hat. Und ihm so malend
Glaube ich nichts Schlimmeres getan zu haben als er
Als er mich schuf. [c. 1938]
 
(Suposta) resposta do pintor
 
1
O que vocês recebem de mim, morto
aquilo que ele removeu do erro
Para legar depois ao erro. Um décimo do que eu queria
Pintar pintei, dez vezes mais do que enxerguei
Vocês
Veem um centésimo daquilo.
 
2
Por estar num rochedo, ele pensou
Que, na vida, rochedos são seguros.
Pois só pensava para assegurar-se.
Mas só está seguro de verdade o que não para.
O que vive é somente inacabado. Deus
Apenas é fugaz.
 
Por isso o retratei assim, fugindo.
Quando criava em voo. E ao retratá-lo assim
Não creio ter feito nada pior do que ele
Fez ao me criar.
 
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos) 

29.4.26

3″ • Marc-Antoine Mathieu

3 Segundos é o tempo em que a luz percorre 900.000 km. É o tempo em que uma bala de revólver transpõe 1 km. É uma respiração. É o tempo de uma lágrima, uma explosão, um SMS.
3 Segundos é um enigma sem falas, no qual personagens e pistas se entrelaçam. Quais são as conexões entre este avião, estes tiros, este estádio? É você quem monta o quebra-cabeça.
3 Segundos é uma narrativa que se lê como quadrinho e se revela em múltiplas camadas. São várias maneiras de vivenciar o espaço-tempo em um vertiginoso zoom gráfico.

Marc-Antoine Mathieu, o aclamado autor da série Prisioneiro dos Sonhos, está de volta, desafiando os limites da narrativa gráfica.
A edição tem acabamento de luxo, com formato 22 x 22 cm, capa dura, 72 páginas em preto e branco, impressas em papel couchê de alta gramatura.

Marc-Antoine Mathieu nasceu em 1959, em Antony, uma cidade ao sul de Paris, e estudou na Escola de Belas Artes de Angers. Trata-se de um quadrinista que, a cada novo livro, expande os limites da forma, através de uma combinação única de peso intelectual e domínio da mídia. Também atua como cenógrafo no coletivo Lucie Lom, que fundou junto com Philippe Leduc, em 1984. Projeta painéis, cenários e instalações para museus, teatros, parques, ruas ou festivais de todos os tipos. É especialista em design de exposições, muitas delas ambientadas no mundo dos quadrinhos. Entre seus principais trabalhos estão a retrospectiva Moebius/Giraud (2000) e a exposição Will Eisner, génie de la bande dessinée américaine (2017). Publicou seus primeiros quadrinhos nas revistas Marcel, Le Banni e Morsures. Em 1989, começou a trabalhar no que se tornaria sua obra principal: Julius Corentin Acquefacques, Prisioneiro dos Sonhos. A série conta até o momento com sete volumes e é caracterizada por seu estilo kafkiano (Acquefacques, o sobrenome do protagonista, é um palíndromo sonoro de Kafka). O primeiro volume da série, A Origem, foi publicada em 1990 e recebeu diversos prêmios, sendo o mais importante o Prêmio Revelação do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, em 1991. Esse álbum foi seguido por outros seis volumes: A Qu... (1991), O Processo (1993, vencedor do prêmio de Melhor Roteiro em Angoulême em 1994), O Começo do Fim (1995), A 2,333ª Dimensão (2004), O Descompasso (2013) e O Hipersonho (2020).


Capa dura
Formato 22 x 22 cm
72 páginas
ISBN 9786598916992
edição: Ferréz e Thiago Ferreira 

entra/almeida prado/música contempôranea brasileira

Sonata para violino e piano n.1 (1980) 

1.   1mov: granítico, intenso.  6′36

2.  2mov: contínuo, fantástico.  1′50   

3.  3o mov: com luminosidade interior — tema com 5 variações.  5′04   

4.  4mov: Movimento contínuo e acelerante.  2′31

Dedicado a Natan Schwartzmann 

violino: Constanza Almeida Prado • piano: Achille Picchi

ALMEIDA PRADO (1943-2010). Música contemporânea brasileira: Almeida Prado / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.1)  

28.4.26

gilberto mendes/música contempôranea brasileira/sai

21 Anatomia da musa (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi 

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

22 Fenomenologia da certeza (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

23 Sol de Maiakovski (1995) 

sobre poema de Augusto de Campos

Dedicado a Victoria Evtodieva

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

24 Tvgrama I (Tombeau de Mallarmé) (1995) 

sobre poema de Augusto de Campos

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi 

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

25 Desesncontros, à memória de Kurt Weil, à lembrança de Gilberto Mendes (1995) 

sobre poema de José Paulo Paes

Dedicado a Rosana Lamosa

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

26 Luz mediterrânea: no olvido do tempo (1995) 

sobre poema de Gil Nuno Vaz

Dedicado a Julia Novikova

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

27 O pai do universo (1997) 

Texto-fragmento extraído do Baghavad Gita com tradução de Rogério Duarte

Dedicado a João Duarte

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi 

28 Amplitude (1999) 

sobre poema de Alberto Martins

Dedicado a Rosana Lamosa e Rubens Ricciardi  

soprano: Rosana Lamosa • piano: Rubens Ricciardi 

29 Mais uma vez (1999) 

sobre poema de Carlos Ávila

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi  

30 A festa (1999) 

sobre poema de Narciso de Andrade

Dedicado a Fernando Portari e Rubens Ricciardi

tenor: Fernando Portari • piano: Rubens Ricciardi  

MENDES, Gilberto (1922-2016). Música contemporânea brasileira: Gilberto Mendes / coordenação de projeto Francisco Carlos Coelho; texto de Décio Pignatari; inclui CD e caderno de partituras. — São Paulo: Centro Cultural São Paulo. Discoteca Oneyda Alvarenga, 2006. — (Música contemporânea brasileira; v.4) 

27.4.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
<fase média>
[...] 

“Querem fortificar Paris, gastando assim centenas de milhões numa obra de guerra, enquanto esse mágico, com um milhão, teria extirpado para sempre a causa de todas as revoluções, de todas as guerras.” Ferrari, “Des idees et de lécole de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845, p. 413.

[W 7, 2]

Michelet, a respeito de Fourier: “Singular contraste entre tamanha ostentação de materialismo e uma vida espiritualizada, abstêmia e desinteressada!” J. Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, p. 294.

[W 7, 3]

Comparar a idéia de Fourier sobre a propagação dos falanstérios por meio de explosões com duas idéias de minha “política”:6 a da revolução como inervação dos órgãos técnicos do coletivo (comparação com a criança que, ao tentar pegar a lua, aprende a agarrar as coisas) e a idéia da “ruptura da teleologia natural”. <Cf. X la, 2 e W 8a, 5>

[W 7, 4]

[...] 

É fácil compreender que todo ‘interesse’ da massa..., tão logo ele surge no palco do mundo, ultrapassa seus limites reais como ‘idéia’ ou ‘representação’ e se confunde com o interesse humano em geral. Esta ilusão constitui aquilo que Fourier denomina o tom de cada época histórica.” Marx e Engels, Die heilige Familie, in: Der historische Materialismus. vol. I, Leipzig, 1932, p. 379.

[W 7, 8] 

[...]  

A propósito do feminismo da escola de Fourier: “Em Herschell e em Júpiter, os cursos de botânica são ministrados por jovens vestais de dezoito a vinte anos... Quando digo ‘de dezoito a vinte anos’, refiro-me à linguagem da Terra, já que os anos em Júpiter são muito mais longos que os nossos, e o vestalato só se inicia ali por volta dos cem anos.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, p. 93.

[W 7a, 3]

Um modelo de psicologia fourierista no capítulo de Toussenel sobre o javali: “Existe na humanidade uma enorme quantidade de cacos de garrafa, pregos que se soltaram e tocos de velas que estariam completamente perdidos para a sociedade se alguma mão cuidadosa e inteligente não se encarregasse de recolher todos esses dejetos sem valor, e reconstituí-los ruma massa suscetível de ser reelaborada e devolvida de novo ao consumo. Essa tarefa importante entra nas atribuições do avarento... Aqui, o caráter e a missão do avarento se devam visivelmente: o sovina torna-se trapeiro... O porco é o grande trapeiro da natureza; de não engorda as custas de ninguém.” A. Toussenel, LEsprit des Bêtes, Paris, 1884, pp. 249 - 250 .

[W 7a, 4]

Marx caracteriza a insuficiência de Fourier, que “concebeu um modo particular de trabalho — o trabalho nivelado, segmentado, e por isso não-livre... — como a fonte da perniciosidade da propriedade privada e de sua existência alienada do homem”, em vez de denunciar o trabalho enquanto tal como essência da propriedade privada. Karl Marx, Der historische Materialismus, ed. org. por S. Landshut e J. P. Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 292 (Nationalökonomie und Philosophie”).

[W 7a, 5]

[...]  

“Segundo ele, as almas transmigram de corpo em corpo, e mesmo de mundo em mundo. Cada planeta tem uma alma que irá animar outro planeta superior, levando com ela as almas dos homens que o habitaram. É dessa forma que, antes do fim de nosso planeta (que deve durar oitenta e um mil anos), as almas humanas terão tido mil seiscentas e vinte existências, e terão assim vivido cinqüenta e quatro mil anos num outro planeta, vinte e sete mil neste... No exercício de sua primeira infância, a terra foi atingida por uma febre pútrida, que ela transmitiu à lua, que por isso morreu. Mas a terra, organizada em harmonia, ressuscitará a lua.” Nettement, Histoire de la Littérature Française sous le Gouvemement de Juillet, Paris, vol. II, pp. 57, 59.

[W 8, 6]

O fourierista, sobre a aviação: “O aeróstato leve ... é a carruagem de fogo que ... respeita em toda parte a obra de Deus, não precisando nem encher os vales, nem perfurar as montanhas, como a locomotiva homicida que o agiota desonrou.” A. Toussenel, Le Monde des Oiseaux, vol. I, Paris, 1853, p. 6.

[W 8a, 1] 

[pensamento anterior ao pensar nos aviões movidos a petróleo...]

[...] 

Os homens de cauda de Fourier foram objeto de caricatura em 1849, nos desenhos eróticos de Emy, publicados em Le Rire. Para explicar as extravagâncias de Fourier, é preciso evocar a figura de Mickey Mouse, na qual se consumou a mobilização moral da natureza, bem no espírito das concepções de Fourier. Com Mickey Mouse, o humor põe a política à prova. Confirma-se, assim, que Marx tinha razão ao ver em Fourier principalmente um grande humorista. A ruptura da teleologia natural se dá segundo o plano do humor.  

[W 8a, 5]  

6 Não fica claro se Benjamin se refere aqui às suas idéias políticas em geral, ou mais específicamente ao seu artigo, infelizmente perdido, "Der wahre Politiker" (O político autêntico, 1919-1920), chamado por ele também de "Prolegomena zur zweiten Lesabéndio-Kritik" (Prolegômenos para uma segunda crítica do Lesabéndio  romance utópico de Paul Scheerbart); cf. GS II, 1423. (R.T.) 

 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.   

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SVENDBORG

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 
Über die Bezeichnung Emigranten
 
Immer fand ich den Namen falsch, den man uns gab: Emigranten.
Das heißt doch Auswanderer. Aber wir
Wanderten doch nicht aus, nach freiem Entschluß
Wählend ein anderes Land. Wanderten wir doch auch nicht
Ein in ein Land, dort zu bleiben, womöglich für immer.
Sondern wir flohen. Vertriebene sind wir, Verbannte.
Und kein Heim, ein Exil soll das Land sein, das uns da aufnahm.
Unruhig sitzen wir so, möglichst nahe den Grenzen
Wartend des Tags der Rückkehr, jede kleinste Veränderung
Jenseits der Grenze beobachtend, jeden Ankömmling
Eifrig befragend, nichts vergessend und nichts aufgebend
Und auch verzeihend nichts, was geschah, nichts verzeihend.
Ach, die Stille der Sunde täuscht uns nicht! Wir hören die Schreie
Aus ihren Lagern bis hierher. Sind wir doch selber
Fast wie Gerüchte von Untaten, die da entkamen
Über die Grenzen. Jeder von uns
Der mit zerrissenen Schuhn durch die Menge geht
Zeugt von der Schande, die jetzt unser Land befleckt.
Aber keiner von uns
Wird hier bleiben. Das letzte Wort
Ist noch nicht gesprochen. [1937]
 
Sobre a designação de emigrantes
 
Sempre achei errado o nome que nos deram: emigrantes.
Isso quer dizer retirantes. Mas nós
Não nos retiramos por livre decisão
Escolhendo um outro país. Tampouco nos retiramos
Para um país a fim de ali ficar, quem sabe para sempre.
Mas fugimos. Fomos expulsos, expatriados.
E não um lar, um exílio há de ser o país que nos acolhe.
Quedamos inquietos, o mais próximo possível da fronteira
Esperando o dia do regresso, observando a menor
Mudança no outro lado da fronteira, interrogando com ânsia
Cada recém chegado, não esquecendo nada, não entregando
Nada, não perdoando nada que se passou e nada perdoando.
Ah, não nos ilude o silêncio dos estreitos! Ouvimos os gritos
Que vêm dos campos de concentração. E não somos nós mesmos
Quase como rumores de crimes que escaparam através
Da fronteira. Cada um de nós
Que caminha com sapatos rotos por entre a multidão
Dá testemunho da vergonha que agora enxovalha a nosso terra.
Mas nenhum de nós
Vai ficar aqui. A última palavra
Ainda não foi falada.
 
Letztes Liebeslied
 
Als die Kerze ausgebrannt war
Blieb uns nur ein kalter Stumpen
Als der Weg zu End gerannt war
Schimpften wir uns wie zwei Lumpen.
Beatrize war gestellet
Spitzel wurde ihr Begleiter
Tatbestand ward aufgehellet
Statt der Schwüre floß der Eiter.
Alle Himmel aufzureißen
Nur dem Haß wurd's zum Gewinne
Hinz und Kunz, die großen Weisen
Wußten dies von Anbeginne. [c. 1937]
 
Última canção de amor
 
Quando a vela se apagou, somente
Nos restava uma bituca fria
Quando a estrada terminou, a gente
Feito dois vadios se ofendia.
Beatriz caiu: o delator
Ainda lhe fazia companhia
Crime elucidado com rigor
Pus, ao invés de juras, escorria.
Trespassar o céu de cabo a rabo
Deu apenas ódio como prêmio
Mas o Zé Povinho, grande sábio
Já sabia disso no proêmio.

So wie der Mensch der Steinzeit
Taumelnd sich aufhob
In den finsteren Wäldern
 
Das Gehirn erfüllt von dunklen Bildern, schwankenden
In großem Hunger
 
Seinen mühsamen Weg begann
Oft ermattend
Vielfach getäuscht
Unvernünftig zornig
Unvernünftig milde
 
Die Hast seiner Feinde nicht kennend
Seinen Weg nicht wissend
Immer wieder niedergestreckt
Von den grausamen Schlägen unbekannter Mächter
Regungslos liegend lange Zeit
Wieder aufstand
Aus Mut oder aus Furcht [c. 1937-1938]
 
Assim como o homem da idade da pedra
Levantou-se trôpego
Nas florestas sombrias
 
O cérebro cheio de imagens escuras, cambaleando
Com fome enorme
 
Iniciou seu caminho árduo
Não raro definhando
Muitas vezes iludido
Desrazoadamente irado
Desrazoadamente manso
 
Desconhecendo o ímpeto de seus inimigos
Sem saber o seu caminho
 
Constantemente derrubado
Pelos golpes cruéis de forças ocultas
Prostrado inerte um longo tempo
Para se levantar de novo
Por coragem ou temor
 
Die Oberen sagen: Frieden und Krieg
Sind aus verschiedenem Stoff.
Aber ihr Frieden und ihr Krieg
Sind wie Wind und Sturm.
 
Der Krieg wächst aus ihrem Frieden
Wie der Sohn aus der Mutter
Er trägt
Ihre schrecklichen Züge.
 
Ihr Krieg tötet nur
Was ihr Frieden
Obriggelassen hat. [1938]
 
Os de cima dizem: paz e guerra
São feitas de matéria distinta.
Mas a paz e a guerra deles
São como vento e tempestade.
 
A guerra nasce da paz deles
Como da mãe o filho
Ele traz
As terríveis feições dela.
 
A guerra deles só
Mata o que a paz deles
Deixou de pé.

Legende von der Entstehung des Buches Taoteking
auf dem Weg des Laotse in die Emigration
 
1
Als er siebzig war und war gebrechlich
drängte es den Lehrer doch nach Ruh
denn die Güte war im Lande wieder einmal schwächlich
und die Bosheit nahm an Kräften wieder einmal zu
und er gürtete den Schuh.
 
2
Und er packte ein, was er so brauchte:
Wenig. Doch es wurde dies und das.
So die Pfeife, die er abends immer rauchte
und das Büchlein, das er immer las.
Weißbrot nach dem Augenmaß.
 
3
Freute sich des Tals noch einmal und vergaß es
Als er ins Gebirg den Weg einschlug.
Und sein Ochse freute sich des frischen Grases
kauend, während er den Alten trug.
Denn dem ging es schnell genug.
 
4
Doch am vierten Tag im Felsgesteine
hat ein Zöllner ihm den Weg verwehrt:
„Kostbarkeiten zu verzollen?“ — „Keine.
Und der Knabe, der den Ochsen führte, sprach: „Er hat gelehrt.
Und so war auch das erklärt.
 
5
Doch der Mann in einer heitren Regung
fragte noch: „Hat er was rausgekriegt?
Sprach der Knabe: „Daß das weiche Wasser in Bewegung
Mit der Zeit den harten Stein besiegt.
Du verstehst, das Harte unterliegt.
 
6
Daß er nicht das letzte Tageslicht verlöre
Trieb der Knabe nun den Ochsen an.
Und die drei verschwanden schon um eine schwarze Föhre
Da kam plötzlich Fahrt in unsern Mann
Und er schrie: „He dul Halt an!
 
7
Was ist das mit diesem Wasser, Alter?
Hielt der Alte: Intressiert es dich?
Sprach der Mann: „Ich bin nur Zollverwalter
Doch wer wen besiegt, das intressiert auch mich.
Wenn du's weißt, dann sprichl
 
8
Schreib mir's auf! Diktier es diesem Kindel
So was nimmt man doch nicht mit sich fort.
Da gibt's doch Papier bei uns und Tinte
und ein Nachtmahl gibt es auch: ich wohne dort.
Nun, ist das ein Wort?
 
9
Über seine Schulter sah der Alte
Auf den Mann: Flickjoppe, keine Schuh.
Und die Stirne eine einzige Falte.
Ach, kein Sieger trat da auf ihn zu.
Und er murmelte: „Auch Du?"
 
10
Eine höfliche Bitte abzuschlagen
War der Alte, wie es schien, zu alt.
Denn er sagte lout: „Die etwas fragen,
Die verdienen Antwort. Sprach der Knabe: „Es wird auch schon kalt.
„Gut, ein kleiner Aufenthalt.
 
11
Und von seinem Ochsen stieg der Weise
Sieben Tage schrieben sie zu zweit.
Und der Zöllner brachte Essen (und er fluchte nur noch leise
Mit den Schmugglern in der ganzen Zeit.)
Und dann war's soweit.
 
12
Und dem Zöllner händigte der Knabe
Eines Morgens einundachtzig Sprüche ein.
Und mit Dank für eine kleine Reisegabe
Bogen sie um jene Föhre ins Gestein.
Sagt jetzt: kann man höflicher sein?
 
13
Aber rühmen wir nicht nur den Weisen
Dessen Name auf dem Buche prangt!
Denn man muß dem Weisen seine Weisheit erst entreißen.
Darum sei der Zöllner auch bedankt:
Er hat sie ihm abverlangt. [1938]
 
 
Lenda da origem do livro Tao-te king
no caminho de Lao-Tsé para a emigração
 
1
Aos setenta anos, frágil de saúde
Ansiava o mestre por lugar pacato
Pois o bem enfraquecera e a força rude
Se expandia no país com espalhafato.
E amarrou o seu sapato.
 
2
No alforje ele pôs o que costuma
Usar: muito pouco. E mais um quê.
O cachimbo que à noite ele fuma
O livrinho que ele sempre lê
E pão branco pra comer.
 
3
Viu o vale alegremente e foi
Dele se esquecendo enquanto ia
Subindo a montanha no seu boi 
O frescor da relva, que alegria
Pro animal, quando comia.
 
4
Mas no quarto dia, no penhasco um
Guarda alfandegário bloqueou
A passagem: Bens a declarar? — Nenhum.
O rapaz que conduzia o boi falou: É professor.
E assim tudo se explicou.
 
5
Todavia, com desenvoltura
O homem perguntou: O que tirou do ofício?
Disse o rapaz: Que água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura. E nisso
Torna o rijo submisso.
 
6
Para não perder a luz do dia
O garoto toca o boi adiante
Mas o trio mal se distancia
Deu em nosso homem um rampante:
Parem, parem! Um instantel
 
7
Que sucede, velho, com aquela água?
O velho se vira: Acaso te interessa
O homem fala: Eu sou somente um guarda
De aduana, mas quem-vence-quem me intriga à beça..
Diz, se o sabes, mas sem pressal
 
8
Deita por escritol Dita a esse rapaz!
Não é coisa que se guarde só pra si.
O papel e a tinta te forneço, e mais
Refeição: eu moro logo ali.
Bom convite, hás de convir!
 
9
E por cima do ombro, o velho, isto posto
Examina o homem: uniforme roto, sem
Botas. Uma ruga só no rosto.
Ah, não é um vencedor que me detém.
E murmura: Tu também?
 
10
Um pedido tão cordial, ao que parece
Não podia o velho recusar.
Uma vez que disse de bom som: Merece
Ter resposta uma pergunta. E o rapaz: Já está
Frio, melhor descansar.
 
11
E do boi o sábio então desceu
Sete dias escreveram os dois.
A comida guarnecida pelo guarda (e, no interim, ele só deu
Bronco em muambeiro e pouco se indispôs.)
Foi assim que se compôs

12
A obra que o rapaz um belo dia
Entregou ao guarda da aduana: oitenta
E um ditados, em retorno à cortesia
E seguiram pela estrada poeirenta.
Gentileza gera gentileza: hoje se comenta.
 
13
Não devemos só prezar, no entanto
Quem seu nome empresta ao livro! Que é forçoso
Extrair dos sábios o saber. Portanto
Obrigado ao guarda venturoso
Que o pediu por simples gozo.

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)