3.6.26

entra/nancarrow/player piano vol1/sai

Player Piano Vol. 1 - Nancarrow Studies for Player Piano Vol. 1

Player Piano 1

Conlon Nancarrow (1912-1997)
Studies for Player Piano Vol. 1: Nr. 1-12

Bösendorfer-Ampico- Selbstspielflügel 
Germany 

Enquanto leio: Boris Schnaiderman/Tradução, Ato Desmedido

SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). Tradução, Ato Desmedido / Boris Schnaiderman; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. — São Paulo: Perspectiva, 2011. (Debates 321)
 
dou uma (re)espiada em: 
BÁBEL, Isaac (1894-1940). No campo da honra e outros contos / Isaac Bábel  Исаа́к Ба́бель; organização, tradução, posfácio e notas Nivaldo dos Santos; prefácio Boris Schnaiderman São Paulo: Ed.34, 2014. (Coleção Leste) 

2.6.26

Enterrei Todos no Meu Quintal • Luckas Iohanathan

Contada a partir de fragmentos, acompanhamos a vida de Júlia, da infância à velhice. Entre descobertas, erros e a inevitável solidão, ela transforma memórias em raízes, enterrando em seu quintal todos aqueles que, de alguma forma, ajudaram a compor sua história. Uma narrativa sobre o amadurecimento e a delicada arte de existir.

Luckas Iohanathan — autor de Como Pedra, vencedor do Prêmio Jabuti 2024 — é uma das vozes mais potentes dos quadrinhos brasileiros contemporâneos, e Enterrei Todos no Meu Quintal é um de seus primeiros trabalhos. Originalmente publicada de forma independente e digital em 2021, a graphic novel ganha agora sua primeira edição impressa.

A edição tem acabamento de luxo, com capa dura, 120 páginas em preto e branco, impressas em papel pólen bold de alta gramatura.

Luckas Iohanathan nasceu em 1994, na cidade de Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Formado em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, encontrou nas histórias em quadrinhos sua verdadeira paixão. O Monstro Debaixo da Minha Cama, sua primeira obra, foi publicada gratuitamente na internet, em 2020, sendo indicada ao 33º Troféu HQMix nas categorias Publicação Independente de Edição Única e Novo Talento – Roteirista. A obra venceu a 2ª edição do Prêmio Geek de Literatura, em 2023. No ano seguinte, seu trabalho Como Pedra, publicado pela Comix Zone, foi laureado com o Prêmio Jabuti, na categoria Histórias em Quadrinhos. Trabalha como diretor de arte e ilustrador freelancer há quase dez anos.


Capa dura
Formato 15,7 x 22,5 cm
120 páginas
ISBN 9786598916930
edição: Ferréz e Thiago Ferreira   

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

 
“A poesia e o progresso são dois ambiciosos que se odeiam com um ódio instintivo, e, quando se encontram no mesmo caminho, é preciso que um deles sirva ao outro. Se for permitido à fotografia suprir a arte cm algumas de suas funções, ela a suplantará logo ou a terá corrompido inteiramente, graças à adesão natural que encontrará na imbecilidade da multidão. E preciso, pois, que ela volte a seu verdadeiro dever, que é o de ser a serva das ciências e das artes, mas a serva muito humilde, como a imprensa c a estenografia, que não criaram nem supriram a literatura. Que ela enriqueça rapidamente o álbum do viajante e proporcione a seus olhos a precisão que faltaria à sua memória, que ela orne a biblioteca do naturalista, amplie os animais microscópicos, fortifique até mesmo com algumas informações as hipóteses do astrônomo, que ela seja enfim a secretária, o vade-mécum de quem precisa, em sua profissão, de uma exatidão material absoluta: até aqui, não há nada melhor. Que ela salve do esquecimento as ruínas pendentes, os livros, as estampas e os manuscritos que o tempo devora, as coisas preciosas cuja forma desaparecerá e que pedem um lugar nos arquivos de nossa memória, e ela terá nosso agradecimento e nosso aplauso. Mas se lhe é permitido usurpar o domínio do impalpável e do imaginário, de tudo o que só tem valor quando o homem ali coloca sua alma, então, pobres de nós!” Charles Baudelaire, Œuvres, Salon de 1859, ed. org. por Y.-G. Le Dantec, vol. II, p. 224 (“Le public moderne et la photographie”).18
 [Y 11, 1]
[...]
18 Op. cit., vol. II, pp. 618-619. (J.L.) 
Z
[A Boneca, o Autômato]1
 [...]
“Sabe-se que é Longchamps que inventa a moda. Não vi nada de novo, mas amanha todos os Follets, todos os Petits Couriers des Dames, todas as Psychés comentarão, em seus suplementos, os novos modelos  que já tinham sido inventados e estavam disponíveis antes do dia da reunião em Imngchamps. Desconfio até que em algumas carruagens, no lugar da dama que parecia estar ali sentada, houvesse apenas um manequim, colocado pelo proprietário e vestindo xales, sedas e veludo, conforfite o seu gosto.” Karl Gutzkow, Briefe aus Paris, Leipzig, 1842, vol. I, pp- 119-120. 
[Z 1, 3]
Sobre as Ombres Chinoises [Sombras chinesas] do Palais-Royal: “Uma ... demoiselle deu a luz em cena, e as crianças logo saíram engatinhando, como toupeiras. Havia quatro delas, e poucos instantes após o nascimento já dançavam uma bela quadrilha. Uma outra demoiselle balançava a cabeça bem forte, e sem que ninguém o esperasse, uma segunda demoiselle, completamente vestida, saiu de sua cabeça com um salto. Esta logo começou a dançar, c também começou a balançar a cabeça: eram as dores do parto, e logo uma terceira saltou e sua cabeça. Também esta pôs-se a dançar, e logo também começou a balançar a cabeça e dela surgiu uma quarta. E assim por diante, até juntarem oito gerações no palco  todas parentes entre si por superfetação, como piolhos.” J. F. Benzenberg, Briefe geschneben auf einer Reise nach Paris, Dortmund, 1805, vol. I, p. 294.
[Z 1, 4]
A um cerno momento, o tema das bonecas adquiriu um significado de crítica social. Por exemplo: “O senhor não imagina o quanto estes autômatos e estas bonecas podem se tomar detestáveis, e o quanto ficamos aliviados quando encontramos nesta sociedade uma criatura autêntica.” Paul Lindau, Der Abend, Berlim, 1896, p. 17.
[Z 1, 5]
“Numa loja, na Rue Legendre, em Batignolles, toda uma série de bustos femininos sem cabeça e sem pernas, com ganchos de cortina no lugar dos braços e pele de percalina de cor absoluta  castanho seco, rosa cm, negro fone , alinham-se numa só fila, empalados em hastes ou apoiados sobre mesas... Olhando esta estiagem de colos, este museu Curtius de seios, vislumbramos os porões onde repousam as esculturas antigas do Louvre, onde o mesmo torso eternamente repetido faz a alegria ensinada das pessoas que o contemplam, bocejando, nos dias de chuva... Quão superiores às insípidas estátuas das Vênus são estes manequins, tão vivos, dos costureiros; quanto mais insinuantes são estes bustos capitonês. cuja visão evoca longos devaneios:  devaneios libertinos, diante de seios adolescentes e tetas maduras; — devaneios caridosos, diante de mamas envelhecidas, encarquilhadas pela clorose ou intumescidas pela gordura; — porque pensamos nas dores das infelizes que ... sentem que se aproxima a indiferença do marido, a iminente deserção do amante, a perda final dos encantos que lhes permitiam as conquistas, nessas inevitáveis batalhas travadas contra a carteira bem guardada dos homens.” J. K. Huysmans, Croquis Parisiens, Paris, 1886, pp. 129, 131-132 (“Létiage” [A estiagem]).
[Z 1a, 1] 
 [...]
Marx explica que “do século XVI até meados do século XVIII  portanto, durante o período que vai do desenvolvimento da manufatura a partir do artesanato até a grande indústria propriamente dita — as duas bases materiais em que se apóia, no âmbito da manufatura, o trabalho preparatório para a indústria mecânica são o relógio e o moinho (de início, o moinho de cereais; mais precisamente o moinho hidráulico); sendo os dois legados da Antiguidade... O relógio é o primeiro instrumento automático utilizado para finalidades práticas; toda a teoria sobre a produção de movimentos uniformes desenvolveu-se a partir dele. Ele se funda, por sua própria natureza, na combinação de um artesanato semi-artístico com a teoria direta. Cardanus, por exemplo, escreveu (e deu instruções práticas) sobre a fabricação de relógios. Entre os autores alemães do século XVI, a relojoaria é chamada de artesanato erudito (não submetido às regras das guildas)’, e seria possível demonstrar a partir do estudo do desenvolvimento do relógio como a relação entre a erudição e a prática no artesanato é diferente, por exemplo, daquela na grande indústria. Não há dúvida alguma, também, de que no século XVIII o relógio deu a primeira idéia de emprego de um mecanismo automático (movido a mola) na produção. As experiências de Vaucanson neste sentido tiveram um efeito extraordinário, e historicamente comprovável, sobre a imaginação dos inventores ingleses. Quanto ao moinho, por outro lado, constataram-se desde o início  desde o surgimento do moinho d’água  as diferenças essenciais do organismo de uma máquina. A propulsão mecânica. O prime motor [motor principal], de que esta provém. O mecanismo de transmissão. Finalmente, a máquina operatriz, que trata a matéria. Cada uma dessas partes existindo de forma autônoma em relação às outras. A teoria da fricção, e a partir daí as pesquisas posteriores sobre as formas matemáticas das engrenagens e peças dentadas etc., foram desenvolvidas a partir do moinho; o mesmo se aplica à teoria da medida do grau da força motriz, da melhor maneira de empregá-la etc. Quase todos os grandes matemáticos desde meados do século XVII, na medida em que se ocupam da mecânica prática e teorizam a respeito, tomaram como ponto de partida o simples moinho hidráulico. Com efeito, é a partir daí que o nome moinho  Mühle e Mill , surgido no período da manufatura, é utilizado para todos os mecanismos de propulsão mecânica destinados a fins práticos. Porém, no caso do moinho, assim como no caso da imprensa mecânica, da forja, do arado etc., o trabalho propriamente dito  moer, prensar, martelar, triturar etc.  é realizado desde o início sem a participação humana, mesmo quando se utilizava como força motriz a força humana ou animal. Portanto, este tipo de máquina é ... muito antigo... Por isso, também, é quase a única máquina que surge no período da manufatura. A revolução industrial começa quando as máquinas passam a ser empregadas onde, desde sempre, o resultado final exigiu o trabalho humano  e, portanto, não onde, como no caso daqueles utensílios, a matéria a ser efetivamente trabalhada jamais exigiu o trabalho direto da mão do homem.” Marx a Engels, 28 de janeiro de 1863, de Londres, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, pp. 118-119.
[Z 2] 
Em seu estudo intitulado “La mante religieuse: recherches sur la nature et la signification du mythe”, Callois fàz referência ao automatismo dos reflexos, especialmente evidente nos louva-deus (praticamente não existe uma função vital que eles não realizem, mesmo quando decapitados). Ele os relaciona, em razão de seu significado funesto, aos autômatos fatais de que falam os mitos. Assim é Pandora, “autômato fabricado pelo deus ferreiro para a perdição dos homens, para que estes ‘envolvam de amor sua própria infelicidade’ (Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias, verso 58). A ela se juntam, da mesma forma, as Krtya indianas, bonecas animadas pelos feiticeiros para causar a morte daqueles que as abraçam. A literatura também conhece, no capítulo das mulheres fatais, a concepção de uma mulher-máquina, artificial, mecânica, que nada tem em comum com as criaturas vivas, e que é, sobretudo, assassina. A psicanálise certamente não hesitaria em interpretar essa representação como uma maneira particular de encarar as relações entre morte e sexualidade, e, mais precisamente, como um pressentimento ambivalente de encontrar uma na outra.” Roger Callois, “La mante religieuse: recherches sur la nature et la signification du mythe”, Mesures, III, n°2, 15 abr. 1937, p. 110.
[e também O Homem de areia / Der Sandmann, E. T. A. Hoffmann]
[Z 2a, 1]
Baudelaire, na seção “Les femmes et les filies” de seu ensaio sobre Guys, cita as palavras de La Bruyère: “Algumas mulheres têm uma grandeza artificial, ligada ao movimento dos olhos, ao meneio de cabeça, à maneira de andar, e que não vai muito além disso.” Comparar com “Le mensonge”, de Baudelaire.  Na mesma seção, Baudelaire cita o conceito da “fœmina simplex, do satírico latino”. LArt Romantique, Paris, p. 109.4 
[Z 2a, 2]
Primórdios da grande indústria: “Muitos camponeses emigram para as cidades, onde o vapor permite a concentração das fábricas que antes ficavam dispersas ao longo do curso dos rios.” Pierre-Maxime Schuhl, Machinisme et Philosophie, Paris, 1938, pp. 56-57.
[Z 2a, 3]
“Aristóteles declara que a escravidão deixaria de ser necessária se as lançadeiras e os plectros se movimentassem por si mesmos: esta idéia combina perfeitamente com sua definição do escravo: um instrumento animado... Assim também o velho poeta Pherekydes de Syros disse que os Dáctilos, ao mesmo tempo que construíam uma casa para Zeus, fabricavam para ele servidores e servidoras: estamos no reino da fábula... E, no entanto, não se passaram nem três séculos para que um poeta da Anthologie, Antiphilos de Bisâncio, respondesse a Aristóteles cantando a invenção do moinho hidráulico, que libera as mulheres do penoso trabalho de moagem: ‘Tirai vossas mãos da mó, mulheres da moenda; dormi por muito mais tempo, mesmo que o canto do galo anuncie o dia, porque Deméter encarregou as Ninfas do trabalho que ocupava as vossas mãos: elas se precipitam do alto de uma roda e fazem girar o eixo que, com os pinos da engrenagem, move o peso côncavo das mós de Nisyra. Nós gozaremos a vida da Idade do Ouro se conseguirmos aprender a saborear sem pesares as obras de Deméter.”’ Nota: “Anthologie Palatine, IX, 418. Este epigrama ... já foi aproximado ao texto de Aristóteles, e ao que parece foi Maix quem o fez pela primeira vez” (provavelmente in: Das Kapital, trad. Molitor, Paris, 1924, vol. III, p. 61). Pierre-Maxime Schuhl, Machinisme et Philosophie, Paris, 1938, pp. 1 9-20.5
[Z 3]
 
1 A palavra alemã Puppe pode designar tanto a boneca quanto o manequim; cf. [Z 1 , 1 ]. 0 texto Lob der Puppe (GS III, 213-218)  Elogio da Boneca, in: W. Benjamin, Reflexões sobre a Criança, o Brinquedo e a Educação, trad. de Marcus Mazzari, São Paulo, 2002, pp. 131-138  sugere também uma aproximação com as marionetes. Ver também o boneco em trajes turcos e o autômato que joga xadrês, na primeira tese de W. Benjamin, Uber den Begriff der Geschichte, GS I, 693; Teses, p. 41. (J.L.; wb.)
4 Baudelaire, OC II, pp. 720 e 721. (R.T.) 
5 O autor antigo do elogio do moinho hidráulico é, na verdade, Antipatros, e é este que é citado por Marx em Das Kapital, MEW, vol. XXIII, Berlim, 1962, p. 430. A discussão de Aristóteles sobre o escravo enquanto “instrumento animado" encontra-se na sua Política, livro I, cap. 3 (E/M; w.b.)
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.  

Enquanto leio: Boris Schnaiderman/Tradução, Ato Desmedido

SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). Tradução, Ato Desmedido / Boris Schnaiderman; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. — São Paulo: Perspectiva, 2011. (Debates 321)
 
dou uma (re)espiada em: 
GÓGOL, Nikolai (1809-1852). O capote e outras histórias / Nikolai Gógol  Николай Гоголь; tradução, posfácio e notas Paulo Bezerra São Paulo: Ed.34, 2010. (Coleção Leste) 

30.5.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase média> 
Nadar a respeito de si mesmo: “Rebelde nato em relação a todo jugo, impaciente com todas as convenções, nunca soube responder a uma carta senão dois anos depois, um forada-lei em todas as casas em que não se pode esticar os pés junto à lareira, e — a fim de que nada lhe falte, nem mesmo um supremo defeito físico, para coroar a medida de todas essas atraentes virtudes e lhe arranjar alguns bons amigos a mais  míope, à beira da cegueira e, por conseqüência, atingido pela mais insolente amnésia diante de qualquer rosto que ele não tenha visto mais de vinte e cinco vezes a quinze centímetros de seu nariz.” Cit. em Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, p. 222.
[Y 5a, 6]
Invenções por volta de 1848: fósforos, velas de estearina, molas de aço.
[Y 5a, 7]
Invenção da prensa rotativa em 1814. Foi utilizada pela primeira vez pelo jornal The Times.
[Y 5a, 8]
Nadar a respeito de si mesmo: “Um antigo produtor de caricaturas ... refugiado finalmente no Botany-Bay da fotografia.” Cit. em Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, p. 220.
[Y 6, 1]
Sobre Nadar: “O que restará um dia do autor do Miroir aux Alouettes, de La Robe de Déjanire, de Quand Jétais Étudiant? Não sei. O que sei é que sobre uma ruína ciclópica da ilha de Gozo, um poeta polonês, Ceslaw Karski, gravou em árabe, mas com letras latinas: Nadar dos cabelos ondulantes passou pelo ar acima desta torre  e é provável que a esta hora os habitantes desta ilha o estejam adorando como um Deus desconhecido.” Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, pp. 223-224.
[Y 6, 2]
Fotografia de gênero: o escultor Calímaco inventa o capitel coríntio ao observar um acanto.  Leonardo pinta a Mona Lisa.  La Gloire et le Pot au Feu [A glória e a caçarola]. Cabinet des Estampes, Kc 164 a 1.
[Y 6, 3]
Uma água-forte de 1775 representa em uma cena de gênero como um artista capta a silhueta de um modelo através da sombra que este lança sobre a parede. Chama-se The Origin of Painting. Cabinet des Estampes, Kc 164 a 1.
[Y 6, 4]
Existe uma certa relação entre a invenção da fotografia e a do estereoscópio de espelho, por Wheatstone em 1838.10 “Mostram-se duas imagens diferentes do mesmo objeto: para o olho direito, uma imagem que representa o objeto em perspectiva, tal qual seria visto do ponto de vista do olho direito; para o esquerdo, uma imagem de como ele apareceria ao olho esquerdo  isto cria a ilusão de que temos diante de nós um objeto ... de três dimensões.” Egon Friedell, Kulturgeschichte der Neuzeit, vol. III, Munique, 1931, p. 139. A precisão exigida pelo jogo de imagens deste estereoscópio o aproxima muito mais da fotografia que da pintura.
[Y 6, 5]
É preciso investigar a provável afinidade entre Wiertz e Edgar Quinet.
[Y6, 6]
“A objetiva é um instrumento como o lápis ou o pincel; a fotografia é um procedimento como o desenho e a gravura, porque o que faz o artista é o sentimento e não o procedimento. "Iodo homem que tenha uma inspiração feliz e a habilidade necessária pode, pois, obter os mesmos efeitos com qualquer um desses meios de reprodução. Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, pp. 4-5.
[Y 6, 7 ]
[...]
Na Exposição universal de 1855, a fotografia, apesar de seu vivo protesto, não pôde entrar no santuário do palácio da Avenue Montaigne; foi condenada a procurar asilo no imenso bazar de produtos de toda espécie que enchiam o Palácio da Indústria. Em 1859, pressionada mais fortemente, a comissão dos museus ... concedeu, no Palácio da Indústria, um lugar para a exposição de fotografia, bem ao lado da exposição de pintura e de gravura, mas com uma entrada separada e, por assim dizer, numa outra chave.” Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859. Paris, 1860, p. 2.
[Y 6a, 2]
“Um fotógrafo hábil tem sempre seu próprio estilo, tanto quanto um desenhista ou um pintor ... e, além disso ... o caráter próprio ao espírito artístico de cada nação revela-se com... evidência nas obras provenientes de diferentes países... Jamais um fotógrafo poderia ser confundido ... com um de seus colegas do outro lado da Mancha.” Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, p. 5.
[Y 6a, 3]
Os primórdios da fotomontagem vieram da tentativa de preservar o caráter pitoresco das fotografias paisagísticas. “O Sr. Silvy tem um sistema excelente para a execução de seus quadros... Ele não aplica em todas as paisagens, indiferentemente, um mesmo céu formado por um clichê uniforme; sempre que possível, ele tem o cuidado de realçar, sucessiva e separadamente, a vista da paisagem e a vista do céu que a coroa. Este é um dos segredos do Sr. Silvy.” louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, p. 9.
[Y 6a, 4]
É significativo que a brochura de Figuier sobre o Salão fotográfico de 1859 comece com uma discussão sobre a fotografia paisagística.
[Y 6a, 5]
No Salão de fotografia de 1859, numerosas “viagens”: ao Egito, a Jerusalém, à Grécia, à Espanha. Em sua apresentação, Figuier observa: “Mal se conheciam os procedimentos práticos da fotografia sobre papel, e já um enxame de operadores se aventurava por toda parte, para nos trazer vistas de monumentos, de edifícios, de ruínas, vistas tomadas de todas as terras do mundo conhecido.” Daí as novas voyages photographiques. Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1859, p. 35.
[Y 6a, 6]
Dentre as reproduções de obras destacadas especialmente por Figuier em La Photographie au Salon, encontram-se as reproduções dos cartões de Rafael, de I íampton-Court  “a obra ... que domina toda a exposição fotográfica de 1859” (p. 51)  e de um manuscrito da Geografia, de Ptolomeu, que data do século XIV e que se encontrava, naquela época, em um convento do Monte Athos.
[Y 7, 1]
Havia retratos feitos especialmente para serem vistos através do estereoscópio. A moda propagou-se sobretudo na Inglaterra.
[Y 7, 2] 
Figuier (pp. 77-78) não deixa de chamar a atenção para a possibilidade de utilizar as fotografias microscópicas em épocas de guerra, para mensagens secretas (na forma de telegramas em miniatura).
[Y 7, 3]
Uma ... observação que resulta do exame atento da exposição ... é o aperfeiçoamento ... das chapas positivas. Há cinco ou seis anos, a ... preocupação quase exclusiva no domínio da fotografia era o clichê negativo..., mal se pensava na utilidade de uma boa impressão das chapas positivas. Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, p. 83.
[Y 7, 4]
Provável sintoma de uma mudança profunda: a pintura deve se sujeitar à avaliação segundo parâmetros da fotografia: Estamos ao lado do público quando admirarmos ... o artista delicado que..., este ano, manifestou-se com uma pintura capaz de rivalizar, em refinamento, com as provas daguerrianas.” Este é o julgamento de Auguste Galimard a respeito de Meissonnier, em: Examen du Salon de 1849, Paris, 1850, p. 95. 
[Y 7, 5]
Fotografar em versos”  como sinônimo de descrição em versos. Édouard Fournier, Chroniques et Légendes des Rues de Paris, Paris, 1864, pp. 14-15.
[Y 7, 6]
Enfim, abriu-se a primeira sala de cinema do mundo. Em 28 de dezembro de 1895, no subsolo do Grand Café, no Boulevard des Capucines, n° 14, em Paris. E a primeira bilheteria de um espetáculo para o qual mais tarde seriam investidos bilhões, atingiu a soma considerável de 35 francos!” Roland Villiers, Le Cinéma et ses Merveilles, Paris, 1930, pp. 18-19.
[Y 7, 7]
“Como o momento da guinada em direção à reportagem fotográfica deve ser mencionado o ano de 1882, quando o fotógrafo Ottomar Anschütz, de Lissa, na Polônia, inventou o obturador de cortina, possibilitando assim a fotografia instantânea propriamente dita.” Europäische Dokumente: Historische Photos aus den Jabren 1840-1900, Stuttgart-Berlim-Leipzig, ed. org. por Wolfgang Schade, p. V
[Y 7, 8]
A primeira entrevista fotográfica foi realizada por Nadar em 1886, com o químico francês Chevreuil, de noventa e sete anos. Europäische Dokumente: Historische Photos aus den Jahren 1840-1900, Stuttgart-Berlim-Leipzig, pp. 8-9.11 
[Y 7, 9]
“A primeira experiência que orientou as pesquisas sobre um movimento cientificamente produzido ... foi a do doutor Parès, em 1825. Ele havia desenhado uma gaiola em um dos lados de um pequeno quadrado de papel-cartão, e, no outro lado, um pássaro; ao fazer este cartão girar rapidamente sobre um eixo ... apareciam sucessivamente as duas imagens, mas o pássaro parecia estar dentro da gaiola, como se houvesse um só desenho. Esse fenômeno, que é em si mesmo todo o cinema, baseia-se no princípio da persistência das impressões da retina... Uma vez que se admite esse princípio, fica fácil compreender que um movimento decomposto e apresentado num ritmo de dez imagens, ou mais, por segundo, é percebido pelo olho como um movimento perfeitamente contínuo. O primeiro aparelho que realizou o milagre do movimento artificial foi o fenacistiscópio construído pelo físico belga Plateau, já em 1833, e que se conhece ainda hoje como um brinquedo... É composto de um disco em que se encontra uma seqüência de desenhos representando os movimentos sucessivos de um personagem, e que deve ser observada com o disco em plena rotação... Há ... uma relação evidente com nossos atuais desenhos animados... Os pesquisadores perceberam ... o interesse que haveria em substituir as imagens desenhadas ... por uma seqüência de fotografias. Infelizmente ... apenas as imagens apresentadas em, no mínimo, um décimo de segundo podiam servir a esse projeto. Para isso, foi preciso esperar as placas de gelatino-brometo, que permitiram fazer os primeiros instantâneos. Foi a astronomia que deu o primeiro ensejo para a experiência da cronofotografia. Em 8 de dezembro de 1874, o astrônomo Jansen pôde testar, graças a uma passagem do planeta Vénus sobre o sol, um revólver fotográfico de sua invenção, que batia uma fotografia a cada 70 segundos... Logo depois, a cronofotografia ficaria muito mais rápida... É ... que o professor Marey entra na arena com seu fuzil fotográfico...; obtendo, desta vez, ... 12 imagens por segundo... Todas essas pesquisas eram até então puramente científicas. Os pesquisadores que se dedicaram a elas ... viam na cronofotografia um simples ‘meio de análise dos movimentos do homem e dos animais’... E eis que, em 1891, encontramos ... Edison. Ele havia construído dois aparelhos: um, o cinematógrafo, para a gravação; e o outro, o cinescópio, para a projeção... Nesse meio tempo, Démeny, colaborador de Marey, havia inventado, em 1891, um aparelho que permitia registrar ao mesmo tempo as imagens e o som. Seu fonoscópio ... foi o primeiro cinema falado.” Roland Villiers, Le Cinéma et ses Merveilles, Paris, 1930, pp. 9-16 (“Petite histoire du cinema”).
[O início do cinema, que só é possível e pensável como sequencias de fotos e a sua montagem (cortando/colando). Falar que se faz cinema no séc XXI, quando é usado o digital, é a mesma coisa que faziam os pintores na invenção da fotografia. Com exceção, claro, daqueles que usam e usaram o digital a partir dos seus próprio recursos, usando as próprias lógicas da nova forma.]    
[Y 7a, 1]
“Pode-se citar como exemplo do progresso [Fortschritt] técnico  que, de fato, é um desvio [Wegsckritt]12  o aperfeiçoamento dos aparelhos fotográficos. Eles são muito mais sensíveis à luz do que os antigos caixotes com os quais se produziam os daguerreótipos. Pode-se trabalhar com eles praticamente sem ter que se preocupar com as condições da luz. Possuem ainda uma série de outras vantagens, sobretudo para a fotografia de rostos, mas os retratos que podem ser feitos são muito piores, sem sombra de dúvida. Com os antigos aparelhos, menos sensíveis à luz, captavam-se várias expressões sobre a placa, que ficava exposta à luz por mais tempo; conseguia-se assim uma imagem final que trazia uma expressão mais universal e mais viva, e com isso, também um aspecto funcional. Contudo, seria certamente um grande erro dizer que os novos aparelhos são piores que os antigos. Talvez ainda falte neles algo que será descoberto amanhã, ou talvez seja possível fazer com eles algo mais do que fotografar rostos. E, quem sabe, ainda rostos? Eles não mais sintetizam os rostos  mas seria isto necessário? Talvez exista uma maneira de fotografar, que se tomou possível graças aos aparelhos mais novos, que decomponha os rostos? Mas esta maneira ... não será certamente encontrada sem que se encontre igualmente uma nova função desse modo de fotografar.” Brecht, Versuche 8-10, Berlim, 1931, p. 280 (“Der Dreigroschenprozeß”  O processo dos três vinténs).
[Y 8, 1]
[...]
“Deve-se observar que os melhores fotógrafos de hoje não se preocupam muito com a questão...: A fotografia é uma arte?’... Por sua habilidade em criar o choque evocatório, ele [o fotógrafo] prova seu poder de expressão, e eis a sua revanche contra o ceticismo de Daumier.” George Besson, La Photographie Française, Paris, 1936, pp. 5-6.
[Y 8, 3]
A famosa passagem de Wiertz sobre a fotografia <Y 1 , 1 > pode ser bem elucidada por esta outra de Wey; no entanto, ela deixa evidente que o prognóstico de Wiertz estava errado: Reduzindo a nada o que lhe é inferior, a heliografia predestina a arte a novos progressos; ao chamar o artista de volta para a natureza, ela o aproxima de uma fonte de inspiração cuja fecundidade é infinita.” Francis Wey, “Du naturalisme dans l’art”, La Lumière, 6 abr. 1851 ; cit. em Gisèle Freund, La Photographie en France au XIXe Siècle, Paris, 1 936, p. 111.
[Y 8, 4]
Observar somente o lado possível da adivinhação, crer que os acontecimentos anteriores da vida de um homem ... podem ser imediatamente representados pelas cartas que ele embaralha e corta, e que são divididas pela cartomante em pilhas segundo leis misteriosas, é absurdo. Mas foi o absurdo que condenou o vapor, que condena ainda a navegação aérea, que condenou a invenção da pólvora e da imprensa, das lentes, da gravura, e também a última grande descoberta, a daguerreotipia. Se alguém viesse dizer a Napoleão que um edifício e que um homem são a todo momento e ininterruptamente representados por uma imagem na atmosfera, que todos os objetos existentes têm nela um espectro apreensível, perceptível, ele teria mandado internar esse homem em Charenton... E, no entanto, é isso que Daguerre provou com sua descoberta.” Honoré de Balzac, Le Cousin Pons, in: Œuvres Complètes, vol. XVIII: La Comédie Humaine: Scènes de la Vie Parisienne, VI, Paris, 1914, pp. 129 - 130 . “Assim como os corpos se projetam realmente na atmosfera, deixando subsistir rada esse espectro apreendido pelo daguerreótipo, que o detém de passagem, também as idéias ... se imprimem naquilo que podemos chamar de atmosfera do mundo espiritual..., das vivem nela espectralmente (pois é necessário forjar palavras para exprimir fenômenos inomináveis), e então certas criaturas dotadas de faculdades raras podem perfeitamente perceber essas formas ou esses traços de idéias.” Op. cit., p. 132.
[Y 8a, 1]
Degas foi o primeiro a utilizar em seus quadros a representação do movimento rápido, tal como ele nos é oferecido pela fotografia instantânea.” Wladimir Weidlé, Les Abeilles dAristée, Paris, 1936, p. 185 (“Lagonie de l’art”).
[Y 8a, 2]
Qual é o autor citado por Montesquiou na seguinte passagem, extraída de um texto manuscrito que integrava um volume de memorabilia ricamente ornamentado, exibido em uma vitrine na exposição de Guys em Paris, na primavera de 1937? “Assim, em algumas frases rápidas, mostra-se esta primeira exposição de Constantin Guys, surpresa recente que o Sr. Nadar13 — o célebre aeronauta, ou devo dizer, o fotógrafo ilustre? — acaba de tirar de sua fecunda caixa de malícia. Certamente este engenhoso espírito, pleno de passado, tem direito a esse título, no sentido mais nobre, conforme a admirável definição que fez dele um poderoso e sutil pensador, em páginas sublimes: A humanidade também inventou, em sua errância noturna, isto é, no século XIX, um símbolo da lembrança; ela inventou o que parecera impossível; ela inventou um espelho que se lembra. Ela inventou a fotografia.”
[Y 8a, 3] 

 
10 O estereoscópio de espelho consistia de uma caixa em cujas paredes verticais havia dois desenhos que eram refletidos por dois espelhos no centro; as imagens davam ao observador uma sensação tridimensional. (J.L.) 
11 O famoso químico foi entrevistado efetivamente por ocasião de seu centésimo aniversário; algumas dessas fotos foram reproduzidas no catálogo Nadar (cf. supra, nota 7), pp. 102-103. (E/M) 
12 Em seu trocadilho com Fortschrittprogresso, Brecht não colocou o termo antagônico Rückschrittregresso, como está nas traduções para o francês e o inglês (recul e regress), e sim, Wegschritt, que designa um afastamento. Por isso, optamos pela tradução desvio. (w.b.) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

Enquanto leio: Boris Schnaiderman/Tradução, Ato Desmedido

SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). Tradução, Ato Desmedido / Boris Schnaiderman; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. — São Paulo: Perspectiva, 2011. (Debates 321)
 
dou uma (re)espiada em: 
SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). A poética de Maiakóvski através de sua Prosa/ Boris Schnaiderman; revisão Boris Schnaiderman; produção Plínio Martins Filho; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. —reimpressão 1984 São Paulo: Perspectiva, 1971. (Debates 39)