CARLEVARO, Abel (1916-2001). En Estudios de Grabación 1949/1980 Johann Sebastian Bach: Preludio, fuga y allegro BWV 998; Cinco piezas para laúd: Preludio BWV
999, Bourrée BWV 996, Zarabanda BWV 997, Gavota en rondó BWV 1006,
Allegro BWV 998. – 5/6. Montevideo: Ayui/Ediciones Tacuapé s.r.l; 2010.
BACH, Joh.Seb (1685-1750). Kompositionen für die Laute. /Johann Sebastian Bach; Este vollständige und Kritisch durchgesehene Ausgabe. Nach Altem
Quellenmaterial für die heutige Laute übertragem und herausgegeben von Hans Dagobert Bruger. Präludium mit Fuge BWV 998; Präludium BWV 999, Bourrée BWV 996 (Suite I), Sarabanda BWV 997 (Suite II), Gavotte en Rondeau BWV 1006 (Suite IV), Allegro BWV 998. –Leipzig: Julius Zwißlers Verlag, 1921.
“Acreditem, o vinho das barreiras salvou de muitos abalos as estruturas governamentais.” Edouard Foucaud, Paris Inventeur: Physiologie de l’Industrie Française. Paris, 1844, p. 10.
[a 7a, 4]
[...]
Lamennais e Proudhon queriam ser enterrados em uma vala comum. (Delvau, Heures Parisiennes, Paris, 1866, pp. 50-51).
[a 7a, 7]
[...]
“A questão dos operários, assim como a questão dos pobres, colocou-se logo na porta de entrada da Revolução. Como os filhos das famílias de operários e artesãos não conseguiam suprir a demanda da indústria voraz pelo trabalho, partiu-se para a mão-de-obra das crianças órfãs... A exploração industrial da criança e da mulher ... é uma das conquistas mais gloriosas da filantropia. Também a alimentação de baixo custo para os operários, como meio de diminuir seus salários, foi uma das idéias filantrópicas preferidas dos donos de fábricas e dos economistas do século XVIII... Quando os franceses estudarem a Revolução com fria serenidade e sem preconceitos de classe, constatarão que as idéias que contribuíram para sua grandeza vieram da Suíça, onde a burguesia já tinha se apossado do poder: foi a partir de Genebra que A. P. de Candolle introduziu as chamadas ‘sopas econômicas’ ... que fizeram furor em Paris durante a Revolução... Até mesmo Volney, sempre tão seco e impassível, não conseguia conter a emoção ‘ao ver esta associação de homens de posição respeitável empenhados em cuidar de um caldeirão de sopa fervente’.” Paul Lafargue, “Die christliche Liebestätigkeit”, Die Neue Zeit, XXIII, n° 1, Stuttgart, pp. 148-149.
[a 8a, 1]
“Basta que três homens estejam na rua conversando sobre salários, que eles peçam ao empresário, enriquecido graças ao trabalho deles, um pequeno aumento, e o burguês logo se assusta, grita, chama pela polícia... A maior parte dos governos ... especulou sobre esse triste progresso do medo... Tudo o que posso dizer é que ... nossos grandes ‘Terroristas’ não eram absolutamente homens do povo, mas burgueses, nobres, espíritos cultivados, sutis, bizarros, sofistas e escolásticos.” J. Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, pp. 153-154.
[a 8a, 2]
BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.
Hat der Krieg getrennt von meinem Freund, dem Bühnenbauer.
Die Städte, in denen wir arbeiteten, sind nicht mehr.
Wenn ich durch die Städte gehe, die noch sind
Sage ich mitunter: dieses blaue Stück Wäsche dort
Hätte mein Freund besser plaziert. [1948]
Os amigos
A mim, o escritor de peças
A guerra separou do meu amigo, o construtor de cenas.
As cidades em que trabalhávamos não existem mais.
Quando passo pelas cidades que ainda estão de pé
Digo às vezes: essa peça de pano azul ali
Meu amigo teria posicionado melhor.
.
Paul Dessau, music; Bertold Brecht, lyrics
I. Grabschrift für Rosa Luxembourg, pour chœur mixte et orchestre.
II. Grabschrift für Liebknecht, pour chœur mixte et orchestre.
Grabschrift Liebknecht
Hier liegt
Karl Liebknecht
Der Kämpfer gegen den Krieg.
Als er erschlagen wurde
Stand unsere Stadt noch. [1948]
Epitafio Liebknecht
Aqui jaz
Karl Liebknecht
Guerreiro contra a guerra.
Quando foi trucidado
Esta cidade estava de pé.
Grabschrift Luxemburg
Hier liegt begraben
Rosa Luxemburg
Eine Jüdin aus Polen
Vorkämpferin deutscher Arbeiter
Getötet im Auftrag
Deutscher Unterdrücker. Unterdrückte
Begrabt eure Zwietracht! [1948]
Epitafio Luxemburgo
Aqui está enterrada
Rosa Luxemburgo
Uma judia da Polônia
Paladina dos trabalhadores alemães
E morta por ordem
De alemães opressores: oprimidos
Enterrai vossa discórdia!
.
Durch die Trümmer der Luisenstrasse
Fuhr eine Frau auf dem Fahrrad
Über der Lenkstange hielt sie Weintrauben
Und aß im Fahren. Angesichts
Ihres Appetits bekam auch ich Appetit
Und nicht nur auf Weintrauben. [1949]
Através dos escombros da Luisenstrasse
Passou uma mulher de bicicleta
Levava no guidão um cacho de uvas
Que ela comia a pedalar. Face
A seu apetite, também fiquei com apetite
E não apenas por uvas.
.
An den Schauspieler P. L. im Exil
Höre, wir rufen dich zurück. Verjagter
Jetzt sollst du wiederkommen. Aus dem Land
Da einst Milch und Honig geflossen ist
Bist du verjagt worden. Zurückgerufen
Wirst du in das Land, das zerstört ist.
Und nichts anderes mehr
Können wir dir bieten, als daß du gebraucht wirst.
Arm oder reich
Gesund oder krank
Vergiss alles
Und komm. [1950]
Ao ator P. L. no exílio
Ouve, te chamamos de volta. Expulso
Deves regressar agora. Da terra
Onde outrora corria leite e mel
Te expulsaram. És chamado de volta
Para a terra que está devastada.
E nada mais podemos
Te oferecer senão que precisamos de ti.
Pobre ou rico
Sadio ou doente
Esquece tudo
E vem.
.
An R.
Geh ich zeitig in die Leere
Komm ich aus der Leere voll.
Wenn ich mit dem Nichts verkehre
Weiß ich wieder, was ich soll.
Wenn ich liebe, wenn ich fühle
Ist es eben auch Verschleiß
Aber dann, in der Kühle
Werd ich wieder heiß. [1950]
Para R.
Se vou cedo pro vazio
Do vazio volto cheio.
Quando ao nada me associo
Sei de novo o que eu anseio.
Quando eu sinto, quando amo
É um desgaste isso também
No frio, porém
De novo me inflamo.
.
Paul Dessau, music; Bertold Brecht, lyrics; vocals and guitar:
Nr4 Der Liebste Gab Mir Einen Zweig
Die Liebste gab mir einen Zweig
Mit gelbem Laub daran.
Das Jahr, es geht zu Ende
Die Liebe fängt erst an. [1950]
A mais amada me deu um ramo
Com folhagem amarela.
O ano chega ao fim. O amor
Começa a aflorar por ela.
.
Begegnung mit dem Dichter Auden
Lunchend mich, wie sich's gehört
In a Brauhaus (unzerstört)
Saß er gleichend einer Wolke
Ober dem bebierten Volke
Und erwies die Referenz
Auch der nackten Existenz
Ihrer Theorie zumindst
Wie du sie in Frankreich findst. [Ic. 1950]
Encontro com o poeta Auden
Rangando-me, como se preza
Numa cervejaria (ilesa)
Ele, feito uma nuvem sobre
Aquela multidão insóbria.
E a deferência atribuía
Igualmente à existência nua
Ao menos pela teoria
Que na França você situa.
Athlet und Virtuose sind willkommen
Pfaff und Bonze werden nicht angenommen.
Dies ist nicht Tempel noch Warenhaus
Schwindel und Schacher bleiben draus. [c. 1950]
São bem-vindos aqui: virtuose e atleta
Burocrata e presbítero a gente ejeta.
Isto não é uma igreja, tampouco armazém
Picareta e patife, não vem que não tem!
Auf einen chinesischen Theewurzellöwen
Die Schlechten fürchten deine Klaue.
Die Guten freuen sich deiner Grazie.
Derlei
Hörte ich gern
Von meinem Vers. [1951]
A um leão de raiz-de-chá chinês
Os maus temem tuas garras.
Os bons prezam tua graça.
Quem dera
Ouvir isso
Dos meus versos.
Frage
Wie soll die große Ordnung aufgebaut werden
Ohne die Weisheit der Massen? Unberatene
Können den Weg für die vielen
Nicht finden.
Ihr großen Lehrer
Wollet hören beim Reden! [1952]
Pergunta
Como há de ser construída a grande ordem
Sem a sabedoria das massas? Desinformados
Não podem achar o caminho
Para os muitos.
Vocês, grandes mestres
Querem escutar discursando!
Die sieben Leben der Literatur
Daß die Literatur keine Mimose ist
Hat sich herumgesprochen. Wie oft schon
Ward sie als Göttin geladen und
Als Vettel behandelt. Ihre Herren
Fickten sie nachts und spannten sie tags vor den Holzpflug. [c. 1953]
As sete vidas da literatura
Que a literatura não é nenhuma melindrosa
Está falado e dito por aí. Quantas vezes já foi
Carregada como deusa e
Tratada como vadia. Seus senhores
Fodiam-na de noite e a atrelavam no arado de dia.
Ach wie solln wir nun die kleine Rose buchen
Plötzlich dunkelrot und jung und nah
Ach wir kamen nicht, sie zu besuchen
Aber als wir kamen, war sie da
Vor sie da war, war sie nicht erwartet
Als sie da war, war sie kaum geglaubt
Ach, zum Ziele kam, was nie gestartet
Aber war es so nicht überhaupt? [1954]
Ah, a pequena rosa, como registrar?
Súbito rubra, jovem e tão perto
Não vínhamos visitá-la, mas ao chegar
Ali, o seu botão já estava aberto
Antes de estar ali, inesperada
Depois de estar, por pouco não se crê;
Chega à meta o que nem teve largada
Ah, mas não foi assim, sem mais nem quê?
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht);
300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações
autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução &
tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa
Lion Feuchtwanger (1928). – São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)
Das Dorf Hollywood ist entworfen nach der Vorstellungen
Die man hierorts vom Himmel hat. Hierorts
Hat man ausgerechnet, daß Gott
Himmel und Hölle benötigend, nicht zwei
Etablissements zu entwerfen brauchte, sondern
Nur ein einziges, nämlich den Himmel. Dieser
Dient für die Unbemittelten, Erfolglosen
Als Hölle. [1942]
1
A aldeia Hollywood foi projetada segundo a ideia
Que ali se faz do céu. Ali
Calculou-se que Deus
Necessitando de céu e inferno, não precisava
Projetar dois estabelecimentos, mas
Apenas um único, o céu. Este
Serve aos desprovidos e fracassados
De inferno.
2
Am Meer stehen die Oltürme. In den Schluchten
Bleichen die Gebeine der Goldwäscher. Ihre Söhne
Haben die Traumfabriken von Hollywood gebaut.
Die vier Städte
Sind erfüllt von dem Olgeruch
Der Filme. [1942]
2
Defronte ao mar, há torres de petróleo. Nos desfiladeiros
Descoram ossadas de garimpeiros. Seus filhos
Construíram as fábricas de sonho de Hollywood.
As quatro cidades
Estão infestadas do ranço
Dos filmes.
3
Die Engel von Los Angeles
Sind müde vom Lächeln. Am Abend
Kaufen sie hinter den Obstmärkten
Verzweifelt kleine Fläschchen
Mit Geschlechtsgeruch. [1942]
3
Os anjos de Los Angeles
Estão fartos de sorrir. À noite
Desesperados compram, atrás das
Bancas de frutas, frascos
Com cheiro de sexo.
4
Unter den grünen Pfefferbäumen
Gehen die Musiker auf den Strich, zwei und zwei
Mit den Schreibern. Bach
Hat ein Strichquartett im Täschchen. Dante schwenkt
Den dürren Hintern. [1942]
4
A sombra das pimenteiras verdes
Os músicos fazem trottoir, dois a dois
Com os roteiristas. Bach
Leva uma cantata na bolsinha. Dante mexe
Seu esquálido traseiro.
Die Stadt ist nach den Engeln genannt
Und man begegnet allenthalben Engeln.
Sie riechen nach Ol und tragen goldene Pessare
Und mit blauen Ringen um die Augen
Füttern sie allmorgendlich die Schreiber in ihren Schwimmpfühlen. [1942]
A cidade deve o seu nome aos anjos
E com anjos se esbarra em todo lugar.
Cheiram a petróleo e usam pessários dourados
E com olheiras roxas ao redor dos olhos
Alimentam todas as manhãs os escritores em suas pool-cilgas.
Jeden Morgen, mein Brot zu verdienen
Fahre ich zum Markt, wo Lügen gekauft werden.
Hoffnungsvoll
Reihe ich mich ein unter die Verkäufer. [1942]
Toda manhã, para ganhar meu pão
Dirijo até o mercado onde se compra mentiras.
Esperançoso
Eu me ponho na fila dos vendedores.
Die Stadt Hollywood hat mich belehrt
Paradies und Hölle
Können eine Stadt sein: für die Mittellosen
Ist das Paradies die Hölle. [1942]
A cidade de Hollywood ensinou-me
Inferno e paraíso
Podem ser uma cidade: para os desprovidos
É um inferno o paraíso.
In den Hügeln wird Gold gefunden
An der Küste findet man Öl.
Größere Vermögen bringen die Träume vom Glück
Die man hier auf Zelluloid schreibt. [1942]
Nas colinas ouro é encontrado
Na costa se encontra petróleo.
Maiores fortunas trazem os sonhos de felicidade
Que são escritos aqui no celuloide.
Über den vier Städten kreisen die Jagdflieger.
Der Verteidigung. In großer Höhe
Damit der Gestank der Gier und des Elends
Nicht bis zu ihnen heraufdringt. [1942]
Sobre as quatro cidades circunvoam as caças.
Da salvaguarda. Em grande altitude
A fim de que o fedor da ganancia e misério
Não consiga chegar até eles.
.
In der Chinesenstadt von Los Angeles
Ein Tropfen der rechten Essenz
Andert den Geschmack des Wassers
Einer ganzen Meeresbucht. [1942]
Na Chinatown de Los Angeles
Uma gota da essência propicia
Muda o sabor da água
De toda uma baía.
.
Lied einer deutschen Mutter
Mein Sohn, ich hab dir die Stiefel
Und dies braune Hemd geschenkt:
Hätt ich gewußt, was ich heute weiß
Hätt ich lieber mich aufgehängt.
Mein Sohn, als ich deine Hand sah
Erhoben zum Hitlergruß
Wußte ich nicht, daß dem, der ihn grüßet
Die Hand verdorren muß.
Mein Sohn, ich hörte dich reden
Von einem Heldengeschlecht.
Wußte nicht, ahnte nicht, sah nicht:
Du warst ihr Folterknecht.
Mein Sohn, und ich sah dich marschieren
Hinter dem Hitler her
Und wußte nicht, daß, wer mit ihm auszieht
Zurück kehrt er nimmermehr.
Mein Sohn, du sagtest mir, Deutschland
Wird nicht mehr zu kennen sein.
Wußte nicht, es würd werden
Zu Asche und blutigem Stein.
Sah das braune Hemd dich tragen
Habe mich nicht dagegen gestemmt.
Denn ich wußte nicht, was ich heut weiß:
Es war dein Totenhemd. [1943]
Canção de uma mãe alemã
Meu filho, a camisa marrom
E a bota te dei comovida
Mas se soubesse o que sei hoje
Tirava a minha vida.
Meu filho, ao ver a tua mão
Erguida a Hitler, não sabia
Que a mão daquele que o saúda
Há de secar um dia.
Meu filho, te ouvi exaltando
A tal raça superior.
Não vi nem soube ou suspeitei:
Foste o torturador.
Meu filho, te vi desfilando —
À frente o Führer, tu atrás.
Não sabia que quem o segue
Não vai voltar jamais.
Meu filho, disseste: a Alemanha
Há de ganhar outra feição.
Eu não sabia que eram cinzas
E sangue sobre o chão.
Meu filho, te vi de camisa
Marrom, não movi uma palha.
Não sabia o que eu hoje sei:
Era a tua mortalha.
.
Vom Sprengen des Gartens
O Sprengen des Gartens, das Grün zu ermutigen!
Wässern der durstigen Bäume! Gib mehr als genug und
Vergiß nicht das Strauchwerk, auch
Das beerenlose nicht, das ermattete
Geizige! Und übersieh mir nicht
Zwischen den Blumen das Unkraut, das auch
Durst hat. Noch gieße nur
Den frischen Rasen oder den versengten nur:
Auch den nackten Boden erfrische du. [1943]
Do regar o jardim
Regar o jardim, para encorajar o verde!
Aguar as árvores sedentas! Dê mais do que o bastante e
Não esqueça os arbustos, mesmo
Os que não têm bagos, os desbotados
Sovinas! E não me passe batido pela
Erva daninha entre as flores, ela também
Tem sede. Nem molhe apenas
O gramado viçoso ou o ressequido apenas:
O solo nu você refresque também.
Die Verwandlung der Götter
Die alten heidnischen Götter — das ist ein Geheimnis —
Waren die ersten, die sich zum Christentum bekehrten
Durch die grauen Eichenhaine gingen sie vor allem Volk
Murmelten volkstümliche Gebete und bekreuzten sich.
Durch das ganze Mittelalter stellten sie sich
Wie zerstreut in die steinernen Nischen der Gotteshäuser
Überall, wo göttliche Gestalten gebraucht wurden.
Und zur Zeit der französischen Revolution
Legten sie als erste die goldenen Masken der reinen Vernunft an
Und als mächtige Begriffe
Gingen sie, alte Blutsäufer und Gedankenknebler
Über die gebeugten Rücken der schuftenden Menge. [1943]
A metamorfose dos deuses
Os antigos deuses pagãos — isto é um segredo —
Foram os primeiros a se converterem ao Cristianismo
lam, através dos carvalhais cinzas, até o povo
Murmuravam rezas fortes, faziam o sinal da cruz.
Durante toda a Idade Média se mostravam
Como que dispersos em nichos de pedra nas igrejas
Onde quer que se demandasse efígies divinas
E na época da Revolução Francesa
Foram os primeiros a pôr as máscaras de ouro da razão puro
E, como conceitos poderosos, andavam
Velhos sanguessugas e mordaças do pensamento
Por sobre as costas curvadas da multidão que trabalha.
.
Der Bauch Laughtons
Sie alle verschleppen ihre Bäuche
Als war es Raubgut, als würde gefahndet danach
Aber der große Laughton trug ihn vor wie ein Gedicht
Zu seiner Erbauung und niemandes Ungemach.
Hier war er: nicht unerwartet, doch nicht gewöhnlich
Und gebaut aus Speisen, ausgekürt
In Muße, zur Kurzweil.
Und nach gutem Plan, vortrefflich ausgeführt. [1944]
A barriga de Laughton
Eles todos carregam suas barrigas
Como se fosse um butim, sob a mira da polícia
Mas o grande Laughton a expunha como um poema
Para edificação própria e desgosto de ninguém.
Aqui estava: não inesperada, mas invulgar
E construída de iguarias selecionadas
No ócio, como passatempo.
E conforme um bom plano, realizado com primor.
.
Wenn ich auf dem Kirchhofliegen werde
Bring die Liebeste mir eine Handvoll Erde.
Sagt: Hier ruhn die Füße, die zu mir gegangen
Hier die Arme, die mich oft umfangen. [1944]
Quando forem me deitarno cemitério
A amada trará um punhado de terra.
Dirá: aqui jazem os pés que o trouxeram
Até mim, dois braços que ainda me apertam.
Bei der Nachricht von der Erkrankung
eines mächtigen Staatsmanns
Wenn der unentbehrliche Mann die Stirn runzelt
Wanken zwei Weltreiche.
Wenn der unentbehrliche Mann stirbt
Schaut die Welt sich um wie eine Mutter, die keine Milch für ihr Kind hat.
Wenn der unentbehrliche Mann eine Woche nach seinem Tod zurückkehrte
Fände man im ganzen Reich für ihn nicht mehr die Stelle eines Portiers. [1944]
A notícia do adoecimento de
um poderoso estadista
Quando o homem imprescindível franze a testa
Dois impérios estremecem.
Quando o homem imprescindível morre
O mundo se olha feito uma mãe que não tem leite para o filho.
Se o homem imprescindível voltasse uma semana após a sua morte
Não arranjaria, em todo o império, sequer uma vaga de porteiro.
Alles wandelt sich. Neu beginnen
Kannst du mit dem letzten Atemzug.
Aber was geschehen, ist geschehen. Und das Wasser
Das du in den Wein gossest, kannst du
Nicht mehr herausschütten.
Was geschehen, ist geschehen. Das Wasser
Das du in den Wein gossest, kannst du
Nicht mehr herausschütten. Aber
Alles wandelt sich. Neu beginnen
Kannst du mit dem lezten Atemzug.[1944]
Tudo se transforma. Recomeçar
Você vai poder com o último fôlego.
Mas o que passou, passou. E a água
Que você entornou no vinho, essa
Não dá mais para separar.
O que passou, passou. A água
Que você entornou no vinho, essa
Não dá mais para separar. Mas
Tudo se transforma. Recomeçar
Você vai poder com o último fôlego.
Abgesang
Soll die letzte Tafel dann so lauten
Die zerbrochene, ohne Leser?
Der Planet wird zerbersten
Die er erzeugt hat, werden ihn vernichten.
Zusammen zu leben, erdachten wir nur den Kapitalismus.
Erdenkend die Physik, erdachten wir mehr.
Da war es, zusammen zu sterben. [1945]
Canto final
Então a tábua derradeira há de ser
A despedaçada, sem leitor?
O planeta irá pelos ares
Os que ele criou vão destruí-lo.
Para vivermos juntos, inventamos só o capitalismo.
Inventando a física, inventamos mais.
Foi isso, para morrermos juntos.
Seht doch die Leichtigkeit
Mit der der gewaltige
Fluß die Dämme zerreißt!
Das Erdbeben
Schüttelt mit lässiger Hand den Bodens.
Das entsetzliche Feuer
Greift mit Anmut nach der vielhäusrigen Stadt
Und verzehrt sie behaglich
Eine geübte Esserin. [c. 1945]
Vejam só a facilidade
Com que o enorme rio
Arrebenta as represas!
O terremoto
Sacode o chão com mão displicente.
O fogo hediondo agarra
Com garbo a cidade multiedificado
E a devora à vontade
Uma versada comedora.
.
Der Sumpf
Manchen der Freunde sah ich, und den geliebsten
Hilflos versinken im Sumpfe, an dem ich
Täglich vorbeigeh.
Und es geschah nicht an einem
Einzigen Vormittag. Viele
Wochen nahm es oft;
Dies machte es schrecklicher.
Und das Gedenken an die gemeinsamen
Langen Gespräche über den Sumpf, der
So viele schon birgt.
Hilflos nun sah ich ihn zurückgelehnt
Bedeckt von den Blutegeln
In den schimmernden
Sanft bewegten Schlamm. Auf dem versinkenden
Antlitz das gräßliche
Wonnige Lächeln. [1947]
O pântano
Quantos amigos eu vi, e os mais amados
Afundarem desamparados no pantano
Por onde passo todo dia.
E não se passou numa
Única manhã. Levou
Muitas vezes semanas;
Tornando isso mais macabro.
E a lembrança das nossas longas
Conversas sobre o pantano
Que tantos já abriga.
Desamparado o vi então, caído
E coberto de sanguessugas
Na lama cintilante
Suavemente movediça. No semblante
Que afunda, o medonho
E ledo sorriso.
6. ZURIQUE/BERLIM ORIENTAL [1947-1956]
[DOS DIÁRIOS]
[...]
13.4.48
Agora as tentativas de isolar espiritualmente o nacional-socialismo, como certos exageros, hipertrofias, mas o que foi exagerado, hipertrofiado? As câmaras de gás do truste IG Farben são monumentos da cultura burguesa destas décadas.
O líder das SS Heydrich (ou foi Kaltenbrunner) era um “excelente conhecedor de Bach”; Einstein toca quarteto e é um humanista, e em algum lugar há fábricas de bombas atômicas trabalhando dia e noite. Nós líamos histórias do oeste selvagem; nossos bisnetos deveriam ler histórias do leste selvagem; pioneiros em luta contra certas tribos.
[como as ideologias que, se observarmos as eleições, continuam atuais, em todo o mundo. No Brasil tem até candidatos que se dizem bozonaritas de bem. Benjamim e o eterno retorno]
[...]
12.11.48
Na estação Friedrichstraße há uma livraria com livros velhos. Pertence a um comunista. Escolho uma edição de Goethe e ele recusa-se a me deixar pagá-la.
[...]
17.12.48
Deixo-me ser seduzido a comprar uma primeira edição dos poemas de Hölderlin e uma segunda edição de “Hermann e Dorothea”, Pode-se mostrar isso para os impressores! Que bom gosto! Como os poemas são tratados com sensibilidade! No conjunto como no detalhe. O impressor deixa incessantemente que os poemas lhe proponham problemas, e corajosamente os resolve. E não há aí nem o papel feito à mão para os ricos, nem o muito barato para as massas. Aliás, tempo não significa ainda lucro.
3.1.49
Em resposta à minha pergunta, Walcher me diz que o túmulo de Karl e Rosa em um subúrbio (no setor russo), que os nazistas destruíram, não havia sido reconstruído; Pieck the disse que haviam decidido não fazer nada sobre isso.
Os alemães não têm qualquer senso para história, provavelmente porque não
têm história.
3.1.49
Gostaria de publicar os volumes de poesia numa forma de impressão diferente da habitual, pelo menos no zona oriental. Menor para caber no bolsa, à maneira das edições de cerca de 1820. Só no Antiqua e são no estilo Biedermeier, naturalmente.
18.1.49
Ao longo de todas estas semanas, não me sai da cabeça a vitória das comunistas chineses, que altera completamente a face do mundo. Isto está interruptamente presente para mim e me ocupa de hora em hora.
20.1.49
Traduzo, de Mao Tse-Tung, “Pensamentos ao Sobrevoar a Grande Muralha”.
[...]
8.7.54
Steff me envia, por meio de desvios, a longa e fundamentada defesa de Oppenheimer, Esse homem infeliz ajudou a fazer a primeira bomba atômica quando, na Guerra a Hitler, os físicos americanos ouviram que Hitler teria mandado trabalhar numa bomba atômica. Para seu terror e de seus colegas, ela foi jogada depois sobre o Japão. Ele tinha preocupações morais com a bomba de hidrogênio, e agora será enviado ao deserto. A sua escrita parece a de um homem acusado por uma tribo canibal de ter se recusado a comer carne. E que, agora, para se desculpar, afirma que estava recolhendo lenha para o caldeirão durante a caçada ao homem! Que trevas!
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht);
300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações
autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução &
tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa
Lion Feuchtwanger (1928). – São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)