3.2.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

 
 <fase média>
[...] 
“Veja, ... há em Paris dois tipos de mulheres, como há dois tipos de casas ... a casa burguesa, onde só se entra com um contrato de aluguel, e o hotel mobiliado, onde se mora por mês... O que os distingue? A tabuleta comercial... Ora, a toalete é a tabuleta da mulher ... e há toaletes tão eloqüentes, que é absolutamente como se você lesse no primeiro nível dos babados do vestido: apartamento mobiliado para alugar!”’ Dumanoir e Th. Barrière, Les Toilettes Tapageuses: Comédie en un Acte, Paris, 1856, p. 28.
[o que, no séc xxi, ainda  acontece]
[O 7, 2]
[...] 
Quando Engels era seguido por agentes secretos da polícia  devido a denúncias feitas por artesãos-aprendizes alemães (entre os quais sua atuação como agitador teve pouco sucesso, exceto o enfraquecimento da posição de Grün), ele escreve a Marx: “Se os indivíduos suspeitos que me seguem há quinze dias são realmente agentes espiões..., a Prefeitura de Polícia deve ter gasto nos últimos tempos muito dinheiro com a compra de entradas para os bailes Montesquieu, Valentino, Prado etc. Devo ao Sr. Delessert o conhecimento de algumas adoráveis grisettes e muito plaisir.” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, voL Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2 a ed., Berlim, 1933, p. 252.
[O 9a, 4]
Engels descobre em 1848, durante uma viagem pelas regiões vinícolas da França, “que cada um destes vinhos provoca uma embriaguez diferente: com poucas garrafas pode-se percorrer todos os degraus intermediários entre a quadrilha de Musard e a Marselhe entre o prazer frenético do cancã e o ardor selvagem da febre revolucionária!” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, p. 319. [Cf. a 4, 1]
[O 9a, 5] 
[...] 
“Os operários das fábricas na França chamam a prostituição de suas mulheres e filhas de enésima hora de trabalho, o que é literalmente verdadeiro.” Karl Marx, Der historische Materialismus, ed. org. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1932, p. 318.
[O 10, 1]
[...] 
 “A regulamentação da jornada de trabalho ... o primeiro freio racional imposto aos assassinos e frívolos caprichos da moda, incompatíveis com o sistema da grande indústria.” Nota a este respeito: “John Bellers censurava já em 1699 estes efeitos da ‘incerteza da moda (Essays about the Poor, Manufactures, Trade, Plantations, and Immorality, p. 9). Karl Marx, Das Kapital, ed. org. por K. Korsch, Berlim, 1932, p. 454.
[O 10, 4]
[...]  
Uma proposta de Ganilh: utilizar uma parte do capital da loteria estatal para aposentadorias de jogadores que atingiram uma certa idade. 
[O 10a, 2]
[...]  
“Se é a fé no mistério que faz o crente, então há provavelmente mais jogadores crentes no mundo do que homens de fé.” Cari Gustav Jochmann, Reliquien, ed. por Heinrich Zschokke, vol. II, Hechingen, 1837, p. 46 (“Die Glücksspiele”).
[O 10a. 4]
Segundo Poisson,13 em “Mémoire sur les chances que les jeux de hasard, admis dans les maisons de jeu de Paris, présentent à la banque” [Relatório sobre as oportunidades que os jogos de azar, admitidos nas casas de jogo de Paris, apresentam para o banco], texto lido na Academia de Ciências, em 1820, o movimento anual de negócios no trinta- e um é de 230 milhões de francos (lucro do banco: 2.760.000), e na roleta, de 100 milhões de francos (lucro do banco: 5 milhões). Cf. Cari Gustav Jochmann, Reliquien, ed. org. por Heinrich Zschokke, vol. II, Hechingen, 1837, p. 51 (“Die Glücksspiele”).
[O 10a, 5]
O jogo é o contraponto infernal da música dos exércitos celestiais.
[O 10a, 6] 
13 Trata-se, muito provavelmente, do matemático Denis Poisson (1781-1840). (J.L.) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

entra/Andrea Pazienza/Storia di Astarte

PAZIENZA, Andrea (1956-1988). Storia di Astarte / Andrea Pazienza; em ANIMAL / editor Rogério de Campos; No 9. São Paulo: VHD, 1989.

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira/sai

II
L’albatros
Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.
A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côte d’eux.
Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!
Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.
 
O albatroz
Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.
Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!
O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar. 
 
IV 

Correspondências

A Natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam sair às vezes palavras confusas:
Por florestas de símbolos, lá o homem cruza
Observado por olhos ali familiares.
Tal longos ecos longe lá se confundem
Dentro de tenebrosa e profunda unidade
Imensa como a noite e como a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se transfundem.
Perfumes de frescor tal a carne de infantes,
Doces como o oboé, verdes igual ao prado,
– Mais outros, corrompidos, ricos, triunfantes,
Possuindo a expansão de algo inacabado,
Tal como o âmbar, almíscar, benjoim e incenso,
Que cantam o enlevar dos sentidos e o senso.

XV 
Don Juan nos Infernos
 
Quando Don Juan desceu ao subterrâneo rio
E logo que a Caronte o óbolo pagou,
Como Antístenes, um mendigo de olhar frio
Com braço vingativo os remos agarrou.

Os seios flácidos e as vestes entreabertas,
Mulheres se torciam sob um céu nevoento,
E, qual rebanho vil de vítimas ofertas,
Atrás dele rosnavam em atroz lamento.

Sganarallo a rir a paga reclamava,
Enquanto, erguendo o dedo, apontava dom Luís
A cada morto que nas
margens deambulava
O filho audaz que lhe ultrajara a fronte gris.

Em seu álgido luto, Elvira, casta e esguia,
Junto ao pérfido esposo, amante seu de outrora,
Parecia exigir-lhe uma última alegria
Cujo sabor não recordasse o fel de agora.

Ereto na couraça, um homem pétreo e imenso
Golpeava a onda noturna e ao leme as mãos prendia;
Mas o tranqüilo herói, por sobre a espada penso,
Olhava a água passar e em torno nada via. 
 
 XVI
CASTIGO DO ORGULHO
Nos esplêndidos tempos em que a Teologia
Viçava no apogeu da seiva e da energia,
Conta-se que um doutor, dentre os mais eminentes,
Após dobrar os corações indiferentes,
Os arrojou nas mais escuras profundezas;
Após franquear às celestiais e altas grandezas
Caminhos dele próprio até desconhecidos,
Só pelas almas puras talvez percorridos,
Como quem alto foi demais, cheio de pânico,
Gritou, possuído então de um orgulho satânico:
Jesus, ó meu Jesus! Te ergui à etérea altura!
Mas se, ao contrário, eu te golpeasse na armadura,
Tua vergonha igualaria atua glória,
E não serias mais que um feto sem história!
 
Sua razão de pronto a pó se reduziu.
A flama deste sol de negro se tingiu;
O caos se lhe instalou então na inteligência,
Templo antes vivo, pleno de ordem e opulência,
Sob cujos tetos tanto fausto resplendia
E nele floresceram a noite e a agonia,
Qual numa furna cuja boca jaz selada.
Desde então semelhante aos animais da estrada,
Quando ia ao campo sem saber sequer quem era,
Sem distinguir entre o verão e a primavera,
Imundo, ocioso e feio como coisa usada,
Fazia o riso e a diversão da meninada.
 
XIX
La Géante

Du temps que la Nature en sa verve puissante
Concevait chaque jour des enfants monstrueux,
J'eusse aimé vivre auprès d'une jeune géante,
Comme aux pieds d'une reine un chat voluptueux.

J'eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme
Et grandir librement de ses terribles jeux;
Deviner si son coeur couve une sombre flamme
Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes;
Ramper sur le versant de ses genoux énormes,
Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s'étendre à travers la campagne,
Dormir nonchalamment à l'ombre de ses seins,
Comme un hameau paisible au pied d'une montagne.
 
A Giganta

No tempo em que, com verve tal que nos espanta,
Gerava a Natureza o ser mais fabuloso,
Quisera eu ter vivido aos pés de uma giganta,
Qual junto a uma rainha um gato voluptuoso.

Me agradaria ver-lhe o corpo e a alma em botão
E após segui-la em seus insólitos folguedos;
Saber se alguma chama lhe arde ao coração
Sob as úmidas névoas de seus olhos quedos;

Tatear-lhe as formas como quem percorre espelhos;
Ascender à vertente de seus grandes joelhos,
E às vezes, no verão, quando tangente ao solo,

O sol violento a deixa exausta na campina,
Dormir languidamente à sombra de seu colo,
Como um burgo tranquilo ao pé de uma colina. 
 
XXI 
Hymne a la beauté
 
Viens-tu du ciel profond ou sors-tu de l’abîme,
O Beauté? ton regard, infernal et divin,
Verse confusément le bienfait et le crime,
Et l’on peut pour cela te comparer au vin.
 
Tu contiens dans ton œil le couchant et l’aurore;
Tu répands des parfums comme un soir orageux;
Tes baisers sont un philtre et ta bouche une amphore
Qui font le héros lâche et l’enfant courageux.
 
Sors-tu du gouffre noir ou descends-tu des astres?
Le Destin charmé suit tes jupons comme un chien;
Tu sèmes au hasard la joie et les désastres
Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien.
 
Tu marches sur des morts, Beauté, dont tu te moques;
De tes bijoux l’Horreur n’est pas le moins charmant,
Et le Meurtre, parmi tes plus chères breloques,
Sur ton ventre orgueilleux danse amoureusement.
 
L’éphémère ébloui vole vers toi, chandelle,
Crépite, flambe et dit: Bénissons ce flambeau!
L’amoureux pantelant incliné sur sa belle
A l’air d’un moribond caressant son tombeau.
 
Que tu viennes du ciel ou de l’enfer, qu’importe,
O Beauté! monstre énorme, effrayant, ingénu!
Si ton œil, ton souris, ton pied, m’ouvrent la porte
 D’un Infini que j’aime et n’ai jamais connu?
 
De Satan ou de Dieu, qu’importe? Ange ou Sirène,
Qu’importe, si tu rends, — fée aux yeux de velours,
Rhythme, parfum, lueur, ô mon unique reine! —
L’univers moins hideux et les instants moins lourds?
 
 
Hino à beleza
Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se por isso comparar-te ao vinho.
 
Em teus olhos refletes toda a luz diurtuna;
Lanças perfumes como a noite tempestuosa;
Teus beijos são um filtro e tua boca uma urna
Que torna o herói covarde e a criança corajosa.
 
Provéns do negro abismo ou da esfera infinita?
Como um cão te acompanha a Fortuna encantada;
Semeias ao acaso a alegria e a desdita
E altiva segues sem jamais responder nada.
 
Calcando mortos vais, Beleza, a escarnecê-los;
Em teu escrínio o Horror é joia que cintila,
E o Crime, esse berloque que te aguça os zelos,
Sobre teu ventre em amorosa dança oscila.
 
A mariposa voa ao teu encontro, ó vela,
Freme, inflama-se e diz: “Ó clarão abençoado!”
O arfante namorado aos pés de sua bela
Recorda um moribundo ao túmulo abraçado.
 
 
Que venhas lá do céu ou do inferno, que importa,
Beleza! ó monstro ingênuo, gigantesco e horrendo!
Se teu olhar, teu riso, teus pés me abrem a porta
De um infinito que amo e que jamais desvendo?
 
De Satã ou de Deus, que importa? Anjo ou Sereia,
Que importa, se és quem fazes — fada de olhos suaves,
Ó rainha de luz, perfume e ritmo cheia! —
Mais humano o universo e as horas menos graves? 
 
 
 XXII
 
Perfume exótico 

Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor de teus seios fogosos,
Percebo abrir-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.
 
Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.
 
Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,
 
Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros. 
 
XXIII 
 
A CABELEIRA

Ó tosão que até a nuca encrespa-se em cachoeira!
Ó cachos! Ó perfume que o ócio faz intenso!
Êxtase! Para encher à noite a alcova inteira
Das lembranças que dormem nessa cabeleira,
Quero agitá-la no ar como se agita um lenço!
 
Uma Ásia voluptuosa e uma África escaldante,
Todo um mundo longínquo, ausente, quase morto,
Revive em teus recessos, bosque trescalante!
Se espíritos vagueiam na harmonia errante,
O meu, amor! em teu perfume flui absorto.

Adiante irei, lá, onde a vida a latejar,
Se abisma longamente sob a luz dos astros;
Revoltas tranças, sede a vaga a me arrastar!
Dentro de ti guardas um sonho, negro mar,
De velas, remadores, flâmulas e mastros:
 
Um porto em febre onde minha alma há de beber
A grandes goles o perfume, o som e a cor;
Lá, onde as naus, contra ondas de ouro a se bater,
Abrem seus vastos braços para receber
A glória de um céu puro e de infinito ardor.

Mergulharei a fronte bêbeda e amorosa
Nesse sombrio oceano onde o outro está encerrado;
E minha alma sutil que sobre as ondas goza
Saberá vos achar, ó concha preguiçosa!
Infinito balouço do ócio embalsamado!
 
Coma azul, pavilhão de trevas distendidas,
Do céu profundo dai-me a esférica amplidão;
Na trama espessa dessas mechas retorcidas
Embriago-me febril de essências confundidas
Talvez de óleo de coco, almíscar e alcatrão.

Por muito tempo! Sempre! em tua crina ondeante
Cultivarei a pérola, a safira e o jade,
Para que meu desejo em teus ouvidos cante!
Pois não és o oásis onde sonho, o odre abundante
Onde sedento bebo o vinho da saudade?


XXIV 
 
Eu te amo como se ama a abóboda noturna,
Ó taça de tristeza, ó grande taciturna,
E mais ainda te adoro quanto mais te ausentas
E quanto mais pareces, no ermo que ornamentas,
Multiplicar irônica as celestes léguas
Que me separam das imensidões sem tréguas.
 
Ao assalto me lanço e agito-me na liça,
Como um coro de vermes junto a uma carniça,
E adoro, ó fera desumana e pertinaz,
Até essa algidez que mais bela te faz!
 
XXVI
 
Sed non satiata
 
Bizarre déité, brune comme les nuits,
Au parfum mélangé de musc et de havane,
Oeuvre de quelque obi, le Faust de la savane,
Sorcière au flanc d’ébène, enfant des noirs minuits,
 
Je préfère au constance, à l’opium, au nuits,
L’élixir de ta bauche où l’amour se pavane;
Quand vers toi mes désirs partent en caravane,
Tes yeux sont la citerne où boivent mes ennuis.
 
Por ces deux grands yeux noirs, soupiraux de ton âme
O démon sans pitié! verse-moi moins de flamme;
Je ne suis pas le Styx pour t’embrasser neuf fois,
 
Hélas! et je ne puis, Mégère libertine,
Pour briser ton courage et te mettre aux abois,
Dans l’enfer de ton lit devenir Proserpine!
 
Sed non satiata 
 
Bizarra divindade, cor da noite escura,
Cujo perfume sabe a almíscar e a havana,
Obra de algum obi, o Fausto da savana,
Feiticeira sombria, criança da hora impura,
 
Prefiro ao ópio, ao vinho, à bêbeda loucura,
O elixir dessa boca onde o amor se engalana;
Se meus desejos vão a ti em caravana,
É do frescor dos olhos teus que ando à procura. 
 
Que esses dois olhos negros, poros de tua alma,
Ó demônio impiedoso! às chamas tragam calma;
Não sou o Estige para lúbrico abraçar-te, 
 
E não posso, ai de mim, ó Megera sensual,
Para dobrar-te a fúria e à parede encostar-te,
Qual Prosérpina arder em teu leito infernal. 
 
 XXVIII
 
Le serpent qui danse
 
Que j’aime voir, chère indolente,
De ton corps si beau,
Comme une étoffe vacillante,
Miroiter la peau!
 
Sur ta chevelure profonde
Aux âcres parfums,
Mer odorante et vagabonde
Aux flots bleus et bruns,
 
Comme un navire qui s’éveille
Au vent du matin,
Mon âme rêveuse appareille
Pour un ciel lointain.
 
Tes yeux, où rien ne se révèle
De doux ni d’amer,
Sont deux bijoux froids où se mêle
L’or avec le fer.
 
A te voir marcher en cadence,
Belle d’abandon,
On dirait un serpent qui danse
Au bout d’un bâton.
 
Sous le fardeau de ta paresse
Ta tête d’enfant
Se balance avec la mollesse
D’un jeune éléphant,
 
Et ton corps se penche et s’allonge
Comme un fin vaisseau
Qui roule bord sur bord et plonge
Ses vergues dans l’eau.
 
Comme un flot grossi par la fonte
Des glaciers grondants,
Quand l’eau de ta bouche remonte
Au bord de tes dents,
 
Je crois boire un vin de Bohême,
Amer et vainqueur,
Un ciel liquide qui parsème
D’étoiles mon cœur!
 
 
A serpente que dança 
 
Em teu corpo, lânguida amante,
Me apraz contemplar,
Como um tecido vacilante,
A pele a faiscar. 
 
Em tua fluida cabeleira
De ácidos perfumes,
Onda olorosa e aventureira
De azulados gumes, 
 
Como um navio que amanhece
Mal desponta o vento,
Minha alma em sonho se oferece
Rumo ao firmamento. 
 
Teus olhos, que jamais traduzem
Rancor ou doçura,
São joias frias onde luzem
O ouro e a gema impura. 
 
Ao ver-te a cadência indolente,
Bela de exaustão,
Dir-se-á que dança uma serpente
No alto de um bastão.
 
Ébria de preguiça infinita,
A fronte de infanta
Se inclina vagarosa e imita
A de uma elefanta. 
 
E teu corpo pende e se aguça
Como escuna esguia,
Que às praias toca e se debruça
Sobre a espuma fria. 
 
Qual uma inflada vaga oriunda
Dos gelos frementes,
Quando a água em tua boca inunda
A arcada dos dentes, 
 
Bebo de um vinho que me infunde
Amargura e calma,
Um líquido céu que difunde
Astros em minha alma!
 
XXIX 
 
Une charogne
 
Rappelez-vous l’objet que nous vîmes, mon âme,
Ce beau matin d’été si doux:
Au détour d’un sentier une charogne infâme
Sur un lit semé de cailloux,
 
Les jambes en l’air, comme une femme lubrique,
Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d’une façon nonchalante et cynique
Son ventre plein d’exhalaisons.
 
Le soleil rayonnait sur cette pourriture,
Comme afin de la cuire à point,
Et de rendre au centuple à la grande Nature
Tout ce qu’ensemble elle avait joint;
 
Et le ciel regardait la carcasse superbe
Comme une fleur s’épanouir.
La puanteur était si forte, que sur l’herbe
Vous crûtes vous évanouir.
 
Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,
D’où sortaient de noirs bataillons
De larves, qui coulaient comme un épais liquide
Le long de ces vivants haillons.
 
Tout cela descendait, montait comme une vague,
Ou s’élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé d’un souffle vague,
Vivait en se multipliant.
 
Et ce monde rendait une étrange musique,
Comme l’eau courante et le vent,
Ou le grain qu’un vanneur d’un mouvement rhythmique
Agite et tourne dans son van.
 
Les formes s’effaçaient et n’étaient plus qu’un rêve,
 Une ébauche lente à venir,
Sur la toile oubliée, et que l’artiste achève
Seulement par le souvenir.
 
Derrière les rochers une chienne inquiète
Nous regardait d’un œil fâché,
Épiant le moment de reprendre au squelette
Le morceau qu’elle avait lâché.
 
— Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
 A cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!
 
Oui! telle que vous serez, ô la reine des grâces, 
Après les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l’herbe et les floraisons grasses,
Moisir parmi les ossements.
 
Alors, ô ma beauté! dites à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j’ai gardé la forme et l’essence divine
De mes amours décomposés!
 
Uma carniça
 
Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos
Numa bela manhã radiante:
Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos,
Uma carniça repugnante. 
 
As pernas para cima, qual mulher lasciva,
A transpirar miasmas e humores,
Eis que as abria desleixada e repulsiva,
O ventre prenhe de livores. 
 
Ardia o sol naquela pútrida torpeza,
Como a cozê-la em rubra pira
E para ao cêntuplo volver à Natureza
Tudo o que ali ela reunira. 
 
E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça
Como uma flor a se entreabrir.
O fedor era tal que sobre a relva escassa
Chegaste quase a sucumbir. 
 
Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço,
Dali saíam negros bandos
De larvas, a escorrer como um líquido grosso
Por entre esses trapos nefandos.
 
E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga,
Ou esguichava a borbulhar,
Como se o corpo, a estremecer de forma vaga,
Vivesse a se multiplicar. 
 
E esse mundo emitia uma bulha esquisita,
Como vento ou água corrente,
Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita
E à joeira deita novamente. 
 
As formas fluíam como um sonho além da vista,
Um frouxo esboço em agonia,
Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista
Apenas de memória um dia. 
 
Por trás das rochas, irrequieta, uma cadela
Em nós fixava o olho zangado,
Aguardando o momento de reaver àquela
Náusea carniça o seu bocado. 
 
— Pois hás de ser como essa coisa apodrecida,
Essa medonha corrupção,
Estrela de meus olhos, sol de minha vida,
Tu, meu anjo e minha paixão! 
 
Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza,
Após a bênção derradeira,
Quando, sob a erva e as florações da natureza,
Tornares afinal à poeira. 
 
Então, querida, dize à carne que se arruína,
Ao verme que te beija o rosto,
Que eu preservei a forma e a substância divina
De meu amor já decomposto! 
 
XXX
De Profundis Clamavi
 
Imploro-te piedade, a Ti, razão de amor,
Do fundo abismo onde minha alma jaz sepulta,
É uma cálida terra em plúmbea névoa oculta,
Onde nadam na noite a blasfêmia e o terror;

Por seis meses um morno sol dissolve a bruma,
E durante outros seis a noite cobre o solo;
É um país bem mais nu do que o desnudo pólo
– Nem bestas, nem regatos, nem floresta alguma!

Não há no mundo horror que comparar se possa
À luz perversa desse sol que o gelo acossa
E à noite imensa que no velho Caos se abriu;

Invejo a sorte do animal talvez mais vil,
Capaz de mergulhar num sono que o enregela,
Enquanto o dédalo do tempo se enovela. 

 XXXI

O Vampiro

Tu que, como uma punhalada,
Em meu coração penetraste
Tu que, qual furiosa manada
De demônios, ardente, ousaste,

De meu espírito humilhado,
Fazer teu leito e possessão
– Infame à qual estou atado
Como o galé ao seu grilhão,

Como ao baralho o jogador,
Como à carniça o parasita,
Como à garrafa o bebedor
– Maldita sejas tu, maldita!

Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao veneno, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.
 
Ai de mim! Com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque a escravidão,
 
Imbecil! – se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!
 
XXXIII
 
Remords posthume

Lorsque tu dorminas, ma belle ténébreuse,
Au fond d’un monument construit en marbre noir,
Et lorsque tu n’auras pour alcôve et manoir
Qu’un caveau pluvieux et qu’une fosse creùse;

Quand la pierre, opprimant ta poitrine peureuse
Et tes flancs qu’assouplit un charmant nonchaloir,
Empêchera ton cœur de battre et de vouloir,
Et tes pieds de courir leur course aventureuse,
 
Le tombeau, confident de mon rêve infini
(Car le tombeau toujours comprendra le poëte),
Durant ces grandes nuits d’où le somme est banni,

Te dira: “Que vous sert, courtisane imparfaite,
De n’avoir pas connu ce que pleurent les morts?”
— Et le ver rongera ta peau comme un remords.

Remorso póstumo
 
Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e marmóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
(Porque o túmulo sempre há de entender o poeta),
Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: “De que valeu, cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?”
— E o verme te roerá como um remorso lento. 
 
XXXIV
O gato 


Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço; 
Guarda essas garras devagar, 
E nos teus belos olhos de ágata e aço 
Deixa-me aos poucos mergulhar. 

Quando meus dedos cobrem de carícias 
Tua cabeça e dócil torso, 
E minha mão se embriaga nas delícias 
De afagar-te o elétrico dorso, 

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo 
Como o teu, amável felino, 
Qual dardo dilacera e fere fundo, 

E, dos pés à cabeça, um fino 
Ar subtil, um perfume que envenena 
Envolve-lhe a carne morena.
  
XXXVIII
 
UM FANTASMA
 
AS TREVAS
 
Nos porões de tristeza impenetrável
Onde o Destino um dia me esqueceu;
Onde jamais um róseo raio ardeu,
Só com a noite, hospedeira intratável,
 
Sou qual pintor que um Deus, por diversão,
Na treva faz mover os seus pincéis,
Ou cozinheiro de apetites cruéis
Que assa e devora o próprio coração.
 
Súbito brilha e faz-se ali presente
Fantasma esplêndido e de graça extrema
Em oriental postura evanescente.
 
Ao atingir a perfeição suprema,
Nela percebo a bela visitante:
Ei-la! Negra e contudo fulgurante.
 
O PERFUME
 
Leitor, tens já por vezes respirado
Com embriaguez e lenta gostosura
O grão de incenso que enche uma clausura,
Ou de um saquinho de almíscar entranhado?
 
Sutil e estranho encanto transfigura
Em nosso agora a imagem do passado.
Assim o amante sobre o corpo amado
À flor mais rara colhe o que perdura.
 
Da cabeleira espessa como crina,
Turíbulo de alcova, ébria almofada,
Vinha uma essência rútila e indomada,
 
E das vestes, veludo ou musselina,
Que sua tenra idade penetrava,
Um perfume de pêlos evolava.
 
 3
A MOLDURA
 
Como à tela se ajusta uma moldura
 Não importa do artista a sutileza ,
Isolando-o da imensa natureza,
Um não-sei-quê de mágica textura,
 
Assim jóias, metais e douradura
Ajustavam-se à sua irreal beleza;
Nada ofuscava-lhe a integral clareza,
E tudo lhe era como cercadura.
 
Dir-se-ia muita vez que ela supunha
Tudo existir para adorá-la e expunha
Sua nudez com gozo e encantamento
 
Às carícias do linho e do cetim,
E, suave ou brusca, a cada movimento
Mostrava a graça ingênua do sagüim.
 
O RETRATO
 
A Doença e a Morte tornam cinza todo
Aquele fogo que por nós ardeu.
Dos olhos a me olhar daquele modo,
Da boca onde meu ser se dissolveu,
 
Dos beijos sempre fiéis a uma ordem dada,
Dos êxtases mais vivos que fulgores,
Que resta? É horrível, ó minha alma! Nada
Mais que um pálido esboço de três cores
 
Que se extingue, como eu, na solitude,
E que o Tempo, sem pressa e em toda a parte,
Vai roçando com asa amarga e rude...
 
Negro assassino da Vida e da Arte,
Jamais hás de matar-me na memória
A que foi meu prazer e minha glória!
 
XXXIX 
 
Estes versos te dou para que, se algum dia,
Feliz chegar meu nome às épocas futuras
E lá fizer sonhar as humanas criaturas,
Nau que um esplêndido aquilão ampara e guia,
 
Tua memória, irmã das fábulas obscuras,
Canse o leitor com pertinaz monotonia,
E presa por grilhão de mística energia
Suspensa permaneça em minhas rimas puras;
 
Maldita que, do céu infindo ao mais profundo
Abismo, a mim somente escutas neste mundo!
 Ó tu que, como sombra de existência fátua,
 
Pisas de leve, sem que aqui jamais te afronte
Nenhum mortal que te suponha amarga, estátua
De olhos de jade, grande anjo de brônzea fronte! 
 
LI
 
CÉU NUBLADO
 
Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;
Teu olhar misterioso(é azul, verde ou se esfuma?)
Às vezes terno e sonhador, às vezes cruel,
Reflete a palidez e a indolência do céu.
 
Lembras os dias brancos, mornos e velados,
Que em prantos põem os corações enfeitiçados,
Quando, desperto por torção desconhecida,
Os nervos tensos zombam da alma adormecida.
 
Não raro imitas essas cores vaporosas
Que fulguram aos sóis das estações brumosas...
Como resplendes, horizonte assim molhado
Quando a flama do sol aquece o céu nublado!
 
Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!
Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?
E como arrancarei do inverno em que me enterro
Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro?
 
LI
 
O GATO
1

Dentro em meu cérebro vai e vem
Como se a sua casa fosse
Um belo gato, forte e doce.
Quando ele mia, mal a quem

Lhe ouça o fugaz timbre discreto;
Seja serena ou iracunda,
Soa-lhe a voz rica e profunda.
Eis seu encanto mais secreto.

Essa voz que se infiltra e afina
Em meu recesso mais umbroso
Me enche qual verso numeroso
E como um filtro me ilumina.

Os piores males ele embala
E os êxtases todos oferta;
Para enunciar a frase certa,
Não é com palavras que fala.

Não, não existe arco que morda
Meu coração, nobre instrumento,
Ou faça com tal sentimento
Vibrar-lhe a mais sensível corda

Que a tua voz, ó misterioso
Gato de místico veludo,
Em que, como um anjo, tudo
É tão sutil quanto gracioso!
 
2

De seu pêlo louro e tostado
Um perfume tão doce flui
Que uma noite, ao mima-lo, fui
Por seu aroma embalsamado.
 
É a alma familiar da morada;
Ele julga, inspira, demarca
Tudo o que seu império abarca;
Será um deus, será uma fada?
 
Se neste gato que me é caro,
Como por ímãs atraídos,
Os olhos ponho comovidos
E ali comigo me deparo,
 
Vejo aturdido a luz que lhe arde
Nas pálidas pupilas ralas,
Claros faróis, vivas opalas,
Que me contemplam sem alarde. 
 
LIV 
 
O IRREPARÁVEL
I

Como abafar este Remorso interminável,
Que vive, se enrosca e se agita,
E se nutre de nós como um verme insaciável,
Qual do carvalho o parasita?
Como abafar este Remorso inexorável?

Em que filtro, em que vinho, em que amarga tisana
Afogar tal praga inimiga,
Gulosa e predatória como uma mundana,
Paciente como uma formiga?
Em que filtro? - em que vinho? - em que amarga tisana?
 
Ah, dize, ó feiticeira! Dize, se és capaz,
A esta alma que o tormento assola,
Como a de quem, em meio aos que agonizam, jaz
E o casco do cavalo esfola,
Ó bela feiticeira! Ah, dize, se és capaz,

Ao moribundo a quem o lobo já fareja
E a gula do corvo amortalha,
A este soldado que, batido, ainda peleja
Por uma tumba e uma medalha;
O moribundo a quem o lobo já fareja!

Como clarear um céu ao sol indiferente,
Rasga-lhe as trevas em cortejo,
Mais densas do que o breu, sem aurora e sem poente,
Sem astro ou fúnebre lampejo?
Como clarear um céu ao sol indiferente?

A esperança que luz nos vidros da Estalagem
Desfez-se em meio ao torvelinho!
Sem raios nem luar, onde achar-se hospedagem
Aos mártires de um mau caminho?
Satã tudo extinguiu nos vidros da Estalagem!

Amável feiticeira, adoras os danados?
Conhece o que nunca é salvo?
Conheces do Remorso os dardos aguçados?
Que o coração nos fazem de alvo?
Amável feiticeira, adora os danados?

O Irreparável rói com a presa maldita
Nossa lama, indigno monumento,
E muita vez ataca, assim côo a térmita,
O prédio por seu fundamento.
O irreparável rói com a presa maldita!
II
— Por vezes vi, ao fundo de um teatro banal
Que inflamava a orquestra sonora,
Uma fada acender no horizonte infernal
Uma miraculosa aurora;
Por vezes vi, ao fundo de um teatro banal,

Um Ser feito somente de ouro, gaze e luz
Que o enorme Satã vencera;
Porém meu coração, que êxtase algum seduz,
É como um teatro onde se espera,
Em vão e para sempre, o Ser de asas de luz! 
 
LVI
 
A UMA MADONA
EX-VOTO AO GOSTO ESPANHOL

A ti, Madona e amante, eu quero consagrar,
Na mais funda miséria, um subterrâneo altar,
E nos confins mais tenebrosos de meu peito,
Bem longe do prazer mundano e do despeito,
Cavar um nicho de ouro e azul todo esmaltado,
Onde terás, Estátua, o que te for do agrado.
Com Versos que esculpi no mais puro metal,
Armados sabiamente em rimas de cristal,
Porei em tua fronte um imenso Diadema;
E o pródigo de Ciúme, ó Madona suprema,
Hei de saber talhar-te, ao gosto mais sombrio,
Um rijo e espesso Manto, ambíguo no feitio,
Que, qual uma guarita, há de ocultar-te o encanto,
E em vez de Pérolas, as gotas de meu Pranto!
Teu vestido será meu Desejo a fremir,
Meu Desejo ondulante, a descer e a subir,
Que nos cumes se agita e nos vales estanca,
E com beijos te reveste a nudez rósea e branca.
Farei de meu Respeito esplêndidos Calçados
De cetim, por teus pés divinos humilhados,
Que, ao envolvê-los em macio e doce abraço,
Tal qual um molde fiel lhes guarde o breve traço.
Se não posso, já que me é pouca a pena ingrata,
Por Escabelo dar-te uma Lua de prata,
Então porei sob teus pés a cruel Serpente,
Para que calques e escarneças inclemente,
Rainha vitoriosa e fértil em perdões,
Este monstro ébrio de ódio e gosma dos pulmões.
Verás meus Pensamentos, firmes como os Círios
Diante do altar em flor da Rainha dos Lírios,
Crivando o teto azul de estrelas e de flamas,
A contemplar-te com pupilas sempre em chamas;
E como tudo em mim te quer de amor intenso,
Tudo será Benjoim, Mira, Olíbano, Incenso,
E sempre rumo a ti, nos píncaros pousada,
Em Vapor subirá minha alma atormentada.
 
Enfim, para concluir teu papel de Maria,
E para misturar o amor à grosseria,
Negra volúpia! Dos Pecados capitais,
Algoz cheio do horror, farei sete Punhais
Bem aguçados e, jogral sem emoção,
Fazendo de alvo o teu secreto coração,
Hei de cravá-los todos, a meu gosto e jeito,
Em teu arfante, soluçante e ardente peito!
 
LVIII
 
CANÇÃO DA SESTA

Embora os cílios traiçoeiros
Te dêem esse ar esquisito,
Decerto a um anjo interdito,
Ó maga de olhos faceiros,

Eu te amo, minha selvagem,
Minha frívola paixão!
Com a mesa devoção
Que ama o padre sua imagem.

O deserto e o arvoredo
Perfumam-te as tranças rudes,
E tens na fronte atitudes
De mistério e de segredo.

Qual turíbulo envolvente,
Teu corpo esparge perfumes;
Da noite o encanto resumes,
Ninfa tenebrosa e ardente.

Não há poção mais bendita
Do que teu ócio, ó delícia,
E conheces a carícia
Que os defuntos ressuscita!

Por teu dorso e por teus seios
Teus quadris morrem de amores
E aos coxins causas rubores
Com teus lânguidos meneios.

Se urge às vezes ser domada
Tua raiva misteriosa,
Tu me cravas, respeitosa,
Além do beijo, a dentada.

Morena, tu me aniquilas
Com teu riso de acre efeito,
E depois banhas-me o peito
No luar de tuas pupilas.

A teus pés de talhe fino,
Pés graciosos de cetim,
Ponho tudo o que há em mim,
O meu gênio e o meu destino.

Por ti minha alma se cura,
Só por ti, que és luz e cor!
Fulguração de calor
Em minha Sibéria escura!
 
LIX
 
SISINA

Imaginai Diana em galante roupagem,
Percorrendo florestas e sarçais rasteiros,
Cabelo e colo ao vento, em júbilo selvagem,
Soberba, a desafiar os hábeis cavaleiros!

Já nÃo viste Théroigne, amante da carnagem,
Insuflando ao ataque um bando de arruaceiros,
A face e o olhar febril, conforme a personagem,
Galgando, sabre em punho, o trono dos herdeiros?

Tal é a Sisina! Mas a doce combatente
Revela uma alma tão feroz quanto indulgente;
Seu destemor, vizinho à pólvora e aos tambores,
 
Sabe poupar a vida a quem de pé implora,
E sempre o coração, pulsando entre fulgores,
Ante quem o merece eis que se mostra e chora.

LX
LOUVORES À MINHA FRANCISCA

Versos compostos para uma modista erudita e devota
Em novas cordas te canto,
Ó corça de álacre encanto
Que se diverte em meu pranto.

Envolve o corpo de flores,
Ó mulher que aos pecadores
Perdoa as culpas e as dores!

Como a um Lestes benfazejo,
À boca te sorvo um beijo,
Pois que és imã do desejo.

Quando da tormenta da orgia
Meus caminhos confundia,
Eis que vieste, Deusa, um dia,

Bendita estrela dos mares,
Nos naufrágios, nos pesares...
A alma elevo a teus altares!

Límpida e fresca nascente,
Fluxo de eterno presente,
Restituiu-me a voz ausente!

O que era impuro queimaste;
O que era áspero alisaste;
O que era frágil firmaste.

Na minha fome, taverna,
Na minha noite, lanterna,
Sempre reta me governa.

À força mais força soma,
Doce banho cujo aroma
Suavíssimo vem à tona!

Cinge-me toda a cintura,
Casta insígnia que fulgura
Em seráfica tintura;

Taça que em gemas faísca,
Salso pão, dádiva prisca,
Divino vinho, Francisca!
 
LXIII
 
A ALMA DO OUTRO MUNDO

Como os anjos de ruivo olhar,
À tua alcova hei de voltar
E junto a ti, silente vulto,
Deslizarei na sombra oculto;

Dar-te-ei na pele escura e nua
Beijos mais frios do que a lua
E qual serpente em náusea fossa
Te afagarei o quanto possa.

Ao despontar o dia incerto,
O meu lugar verás deserto,
E em tudo o frio há de se pôr.

Como os demais pela virtude,
Em tua vida e juventude
Quero reinar pelo pavor.

LXIV
 
SONETO DE OUTONO

O teu olhar me diz, claro como cristal:
“Bizarro amante, o que há em mim que mais te excita?”
 Sê bela e cala! O meu coração, que se irrita,
Por tudo, exceto a antiga candura animal,

Não te quer revelar seu segredo infernal,
Embalo cuja mão a um longo sono incita,
Nem a sua negra lenda a ferro e fogo escrita.
Abomino a paixão e a alma me faz mal!

Amemo-nos em paz. Amor, numa guarida,
Tenebroso, emboscado, entesa o arco fatal.
Conheço-lhe os engenhos do velho arsenal:

Crime, horror e loucura!  Ó branca margarida!
Não serás tu, como eu, triste sol outonal,
Ó minha branca, ó minha branca Margarida? 
 
LXVIII
 
O CACHIMBO

Sou o cachimbo de um autor.
Vê-se, ao contemplar me semblante
De cafre ou de abissínia errante,
Que muito fuma meu senhor.

Quando ele está cheio de dor,
Sou como a choça fumegante
Onde a comida aguarda o instante
Em que regressa o lenhador.

Sua alma embalo docemente
Na rede azul e movediça
Que em minha boca o fogo atiça.

E entorno um bálsamo envolvente
Que ao coração lhe trás a calma
E lhe dá cura aos males da alma
 
LXXVII
 
SPLEEN
 
Sou como um rei sombrio de um país chuvoso,
Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,
Que, desprezando do vassalo a cortesia,
Entre seus cães e outros bichos se entedia.
Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,
Nem seu povo a morrer defronte do balcão.
Do jogral favorito a estrofe irreverente
Não mais desfranze o cenho deste cruel doente.
Em tumba se transforma o seu florido leito,
E as aias, que acham todo príncipe perfeito,
Não sabem mais que traje erótico vestir
Para fazer este esqueleto enfim sorrir.
O sábio que ouro lhe fabrica desconhece
Como extirpar-lhe ao ser a parte que apodrece,
E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,
De que se lembram na velhice os soberanos,
Pôde dar vida a esta carcaça, onde, em filetes,
Em vez de sangue flui a verde água do Lestes.

LXXVIII
 
SPLEEN

Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como tampa
Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,
E, ungindo toda a curva do horizonte, estampa
Um dia mais escuro e triste do que as noites;

Quando a terra se torna um calabouço horrendo,
Onde a Esperança, qual morcego espavorido,
As asas tímidas nos muros vai batendo
E a cabeça roçando o teto apodrecido;

Quando a chuva, a escorrer as tranças fugidias,
Imita as grades de um lúgubre cadeia,
E a muda multidão das aranhas sombrias
Estende em nosso cérebro uma espessa teia,

Os sinos dobram, de repente, furibundos
E lançam contra o céu um uivo horripilante,
Como os espíritos sem pátria e vagabundos
Que se põem a gemer com voz recalcitrante.

 Sem música ou tambor, desfila lentamente
Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;
Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,
Enterra-me no crânio uma bandeira preta.
 
LXXXI
 
ALQUIMIA DA DOR

Um te ilumina com ardor,
O outro te enluta, Natura!
O que diz a um: Sepultura!
Ao outro diz: Vida e esplendor!

Hermes que oculto me conquistas
E para sempre me intimidas,
Tu me fazes igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas;

Por ti do ouro o ferro improviso
E torno inferno o paraíso;
Roubando às nuvens seu sudário,

Um corpo querido amortalho,
E às margens do celeste estuário
Grandes sarcófagos entalho. 
 
LXXXIII
 
O HEAUTONTIMOROUMENOS
A J.G.F.
 
Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,

Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento.
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,
E em meu saciado coração
Os teus soluços ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair
 Um desses tais abandonados
Ao risco eterno condenados,
E que não podem mais sorrir! 
 
LXXXV
 
L’horloge

Horloge! dieu sinistre, effrayant, impassible,
Dont le doigt nous menace et nous dit: “Souviens-toi!
Les vibrantes Douleurs dans ton cœur plein d’effroi
Se planteront bientôt comme dans une cible;
 
Le Plaisir vaporeux fuira vers l’horizon
Ainsi qu’une sylphide au fond de la coulisse;
Chaque instant te dévore un morceau du délice
A chaque homme accordé pour toute sa saison. 
 
Trois mille six cents fois par heure, la Seconde
Chuchote: Souviens-toi! — Rapide, avec sa voix
D’insecte, Maintenant dit: Je suis Autrefois,
Et j’ai pompé ta vie avec ma trompe immonde! 
 
Remember! Souviens-toi! prodigue! Esto memor!
(Mon gosier de métal parle toutes les langues.)
Les minutes, mortel folâtre, sont des gangues
Qu’il ne faut pas lâcher sans en extraire l’or! 
 
Souviens-toi que le Temps est un jouer avide
Qui gagne sans tricher, à tout coup! c’est la loi.
Le jour décroît; la nuit augmente; souviens-toi!
La gouffre a toujours soif; la clepsydre se vide. 
 
Tantôt sonnera l’heure où le divin Hasard,
Où l’auguste Vertu, ton épouse encor vierge,
Où le Repentir même (oh! la dernière auberge!),
Où tout te dira: Meurs, vieux lâche! il est trop tard!” 
  
O relógio

Relógio! deus sinistro, hediondo, indiferente,
Que nos aponta o dedo em riste e diz: “Recorda!
A Dor vibrante que a lama em pânico te acorda
Como num alvo há de encravar-se brevemente;

Vaporoso, o Prazer fugirá no horizonte
Como uma sílfide por trás dos bastidores;
Cada instante devora os melhores sabores
Que todo homem degusta antes que a morte o afronte.

Três mil seiscentas vezes por hora, o Segundo
Te murmura: Recorda! — E logo, sem demora,
Com voz de inseto, o Agora diz: Eu sou o Outrora,
E te suguei a vida com meu bulbo imundo!

Remember! Souviens-toi! Esto memor! (Eu falo
Qualquer idioma em minha goela de metal.)
Cada minuto é como uma ganga, ó mortal,
E há que extrair todo o ouro até purificá-lo!

Recorda: O Tempo é sempre um jogador atento
Que ganha, sem furtar, cada jogada! É a lei.
O dia vai, a noite vem; recordar-te-ei!
Esgota-se a clepsidra; o abismo está sedento.
 
Virá a hora em que o Acaso, onde quer que te aguarde,
Em que a augusta Virtude, esposa ainda intocada,
E até mesmo o Remorso (oh, a última pousada!)
Te dirão: Vais morrer, velho medroso! É tarde!” 
 
Quadros Parisienses
 
LXXXVII 
 
Le soleil

Le long du vieux faubourg, où pendent aux masures
Les persiennes, abri des secrètes luxures,
Quand le soleil cruel frappe à traits redoublés
Sur la ville et les champs, sur les toits et les blés,
Je vais m’exercer seul à ma fantasque escrime,
Flairant dans tous les coins les hasards de la rime,
Trébuchant sur les mots comme sur les pavés,
Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés.
 
Ce père nourricier, ennemi des chloroses,
Éveille dans les champs les vers comme les roses;
Il fait s’évaporer les soucis vers le ciel,
Et remplit les cerveaux et les ruches de miel.
C’est lui qui rajeunit les porteurs de béquilles
Et les rends gais et doux comme des jeunes filles,
Et commande aux moissons de croître et de mûrir
Dans le cœur immortel qui toujours veut fleurir! 
 
Quand, ainsi qu’un poëte, il descend dans les villes,
Il ennoblit le sort des choses les plus viles,
Et s’introduit en roi, sans bruit et sans valets,
Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais. 
 
 
O sol

Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros
Persianas acobertam beijos sorrateiros,
Quando o impiedoso sol arroja seus punhais
Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,
Exercerei a sós a minha estranha esgrima,
Buscando em cada canto os acasos da rima,
Tropeçando em palavras como nas calçadas,
Topando imagens desde há muito já sonhadas.

Este pai generoso, avesso à tez morbosa,
No campo acorda tanto o verme quanto a rosa;
Ele dissolve a inquietação no azul do céu,
E cada cérebro ou colmeia enche de mel.
É ele quem remoça os que já não se movem
E os torna doces e febris qual uma jovem,
Ordenando depois que amadureça a messe
No eterno coração que sempre refloresce!

Quando às cidades ele vai, tal como um poeta,
Eis que redime até a coisa mais abjeta,
E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,
Quer os palácios, quer os tristes hospitais. 
 
LXXXVIII 
 
A UMA MENDIGA RUIVA

Moça de ruivo cabelo,

Cuja roupa em demazelo

Deixa ver tanto a pobreza

Quanto a beleza,

 

Para mim, poeta sem viço,

Teu jovem corpo enfermiço,

Cheio de sardas e agruras,

Tem só doçuras.

 

Calças com pés mais ligeiros

Os teus tamancos grosseiros

Do que essas damas tão finas

Suas botinas.

 

Em lugar de exíguo andrajo

Que te envolva um régio trajo

Das espáduas singulares

Aos calcanhares;

 

Em vez da meia em pedaços,

Que aos olhares dos devassos

Te brilhe à perna o tesouro

De um punhal de ouro;

 

Que laços pouco apertados

Mostrem aos nossos pecados

Teus seios por entre os folhos

Como dois olhos;

 

E que para desnudar-te

Teus braços com lábia e arte,

Sustem golpes vivazes

Dedos audazes,

 

Corais de oceanos secretos

E de Belleau os sonetos

Por teus amantes rendidos

Oferecidos,

 

Escória de rimadores

A consagrar-te louvores

E a perseguir-te as passadas

Sob as escadas,

 

Muito servo ébrio de amor,

Muito Ronsard e senhor

Rondariam o postigo

De teu abrigo!

 

Em teu leito contarias

Menos lírios do que orgias

E a teus pés mais de um Valois

Sempre haverá

 

– Contudo vais mendigando

A sombra que foi fincando

Por um Véfour atirada

À encruzilhada;

 

Olhas de esguelha e sem jeito

Jóias de brilho suspeito

Que não posso (hás de perdoar!)

Jamais te dar.

 

Segue, pois, nua de tudo

– Pérola, incenso, veludo –,

Só de teu corpo vestida,

Minha querida!

 

XCIV
 
Le squelette laboureur
 
1
Dans les planches d’anatomie
Qui traînent sur ces quais poudreux
Où maint livre cadavéreux
Dort comme une antique momie,

Dessins auxquels la gravité
Et le savoir d’un vieil artiste,
Bien que le sujet en soit triste,
Ont communiqué la Beauté,

On voit, ce qui rend plus complètes
Ces mystérieuses horreurs,
Bêchant comme des laboureurs,
Des Écorchés et des Squelettes. 
 
2

De ce terrain que vous fouillez,
Manants résignés et funèbres,
De tout l’effort de vos vertèbres,
Ou de vos muscles dépouillés,

Dites, quelle moisson étrange,
Forçats arrachés au charnier,
Tirez-vous, et de quel fermier
Avez-vous à remplir la grange?

Voulez-vous (d’un destin trop dur
Épouvantable et clair emblème!)
Montrer que dans la fosse même
Le sommeil promis n’est pas sûr;

Qu’envers nous le Néant est traître;
Que tout, même la Mort, nous ment,
Et que sempiternellement,
Hélas! Il nous faudra peut-être

Dans quelque pays inconnu
Écorcher la terre revêche
Et pousser une lourde bêche
Sous notre pied sanglant et nu? 
 
O esqueleto lavrador 
 
 
Nas lâminas de anatomia
Amontoadas no cais poeirento
Onde muito livro ao relento
Dorme como múmia sombria,
 
Desenhos aos quais a grandeza
E o cabedal de um velho artista,
Conquanto a dor no tema exista, 
Comunicaram a Beleza,

Vêem-se, o que faz mais completos
Esses fantásticos horrores,
A escavar como lavradores
Escalpelados e esqueletos.
 
2
 
Desses torrões por vós cavados,
Tíbios campônios em destroços, 
De todo esse esforço dos ossos
Ou dos músculos esfolados,

Dizei, que messe estranha e alheia,
Galés expulsos de um carneiro,
Ceifais, e de que fazendeiro
Deveis deixar a granja cheia?

Quereis (de um destino tão duro
Espantoso e límpido emblema!)
Mostrar que nem na cova extrema
Sequer dormir nos é seguro;

Que o Nada conosco é falsário;
Que tudo, a morte até, nos mente,
Que desde sempre e eternamente
Talvez nos seja necessário

Nalgum país desconhecidoEscalpelar a terra má
E empurrar uma áspera pá
Com pé descalço e dolorido? 
 
XCV
 
O crepúsculo vespertino

Eis a noite sutil, amiga do assassino;
Ela vem como um cúmplice, a passo lupino;
Qual grande alcova o céu se fecha lentamente,

E em besta fera torna-se o homem impaciente.
Ó noite, amável noite, almejada por quem
Cujas mãos, sem mentir, podem dizer: Amém,
Galgamos nosso pão! — É a noite que alivia
As almas que uma dor selvagem suplicia, 
O sábio cuja fronte pesa sem proveito,E o recurvo operário que regressa ao leito.
Entretanto, demônios insepultos no ócio
Acordam do estupor, como homens de negócio,
E estremecem a voar o postigo e a janela.
Através dos clarões que o vendaval flagela
O Meretrício brilha ao longo das calçadas;
Qual formigueiro ele franqueia mil entradas;
Por toda parte engendra uma invisível trilha,
Assim como inimigo apronta uma armadilha;
Pela cidade imunda e hostil se movimenta
Como um verme que ao Homem furta o que o sustenta.
Ouvem-se aqui e ali as cozinhas a chiar,
Os teatros a ganir, as orquestras a ecoar;
Sobre as roletas em que o jogo encena farsas,
Curvam-se escroques e rameiras, seus comparsas,
E os ladrões, que perdão ou trégua alguma têm
Começam cedo a trabalhar, eles também,
Forçando docemente o trinco e a fechadura
Para que a vida não lhes seja assim tão dura. 
 
Recolhe-te, minha alma, neste grave instante,
E tapa teus ouvidos a este som uivante.
É o momento em que as dores dos doentes culminam!
A Noite escura os estrangula; eles terminam
Seus destinos no horror de um abismo comum;
Seus suspiros inundam o hospital; mais de um
Não mais virá buscar a sopa perfumada,
Junto ao fogão, à tarde, ao pé da bem-amada. 
 
E entre eles muitos há que nunca conheceram
A doçura do lar e que jamais viveram!
 
XCVII
 
Danse macabre

A Ernest Christophe

Fière, autant qu’un vivant, de sa noble stature,
Avec son gros bouquet, son mouchoir et ses gants,
Elle a la nonchalance et la désinvolture
D’une coquette maigre aux airs extravagants.
 
Vit-on jamais au bal une taille plus mince?
Sa robe exagérée, en sa royale ampleur,
S’écroule abondamment sur un pied sec que pince
Un soulier pomponné, joli comme une fleur.
 
La ruche qui se joue au bord des clavicules,
Comme un ruisseau lascif qui se frotte au rocher,
Défend pudiquement des lazzi ridicules
Les funèbres appas qu’elle tient à cacher.
 
Ses yeux profonds sont faits de vide et de ténèbres,
Et son crâne, de fleurs artistement coiffé,
Oscille mollement sur ses frêles vertèbres,
O charme d’un néant follement attifé!

Aucuns t’appelleront une caricature,
Qui ne comprennent pas, amants ivres de chair,
L’élégance sans nom de l’humaine armature.
Tu réponds, grand squelette, à mon goût le plus cher!

Viens-tu troubler, avec ta puissante grimace,
La fête de la Vie? ou quelque vieux désir,
Éperonnant encor ta vivante carcasse,
Te pousse-t-il, crédule, au sabbat du Plaisir? 
 
Au chant des violons, aux flammes des bougies,
Espères-tu chasser ton cauchemar moqueur,
Et viens-tu demander au torrent des orgies
De rafraîchir l’enfer allumé dans ton cœur?

Inépuisable puits de sottise et de fautes!
De l’antique douleur éternel alambic!
A travers le treillis recourbé de tes côtes
Je vois, errant encor, l’insatiable aspic.

Pour dire vrai, je crains que ta coquetterie
Ne trouve pas un prix digne de ses efforts;
Qui, de ces cœurs mortels, entend la raillerie?
Les charmes de l’horreur n’enivrent que les forts!

Le gouffre de tes yeux, plein d’horribles pensées,
Exhale le vertige, et les danseurs prudents
Ne contempleront pas sans d’amères nausées
Le sourire éternel de tes trente-deux dents.

Pourtant, qui n’a serré dans ses bras un squelette,
Et qui ne s’est nourri des choses du tombeau?
Qu’importe le parfum, l’habit ou la toilette?
Qui fait le dégoûté montre qu’il se croit beau.

Bayadère sans nez, irrésistible gouge,
Dis donc à ces danseurs qui font les offusqués:
“Fiers mignons, malgré l’art des poudres et du rouge,
Vous sentez tous la mort! O squelettes musqués,

Antinoüs flétris, dandys à face glabre,
Cadavres vernissés, lovelaces chenus,
Le branle universel de la danse macabre
Vous entraîne en des lieux qui ne sont pas connus!

Des quais froids de la Seine aux bords brûlants du Gange,
Le troupeau mortel saute et se pâme, sans voir
Dans un trou du plafond la trompette de l’Ange
Sinistrement béante ainsi qu’un tromblon noir.

En tout climat, sous tout soleil, la Mort t’admire
En tes contorsions, risible Humanité,
Et souvent, comme toi, se parfumant de myrrhe,
Mêle son ironie à ton insanité!” 
 
Dança macabra

A Ernest Christophe

Vaidosa, qual mortal, da fidalga estatura,
Com seu buquê, a luva e o lenço balouçante,
Tem ela a inércia e a singular desenvoltura
De uma coquete esguia de ar extravagante.

Quem viu jamais no baile um porte tão sublime?
O vestido abundante, em rútilo esplendor,
Descai em dobras sobre um pé que se comprime
Em rico borzeguim, belo como uma flor.

A mantilha que ondula à borda das clavículas,
Qual lascivo regato a roçar no rochedo,
Recobre, com temor das pilhérias ridículas,
Os fúnebres ardis que ela guarda em segredo.

As trevas e o vazio inundam-lhe a pupila,
E o crânio, com artísticas flores penteado,
Sobre as vértebras frágeis indolente oscila.
Ó fascínio de um nada loucamente ornado!

Alguns verão em ti uma caricatura,
E sedentos da carne voltam sempre o rosto
À anônima elegância da humana ossatura.
Atendes, esqueleto, à essência de meu gosto!

Vens então denegrir, com teu ar de desgraça,
A doçura da Vida? Ou qualquer coisa a doer,
Pungindo ainda a tua agônica carcaça,
Te impele, tão ingênua, ao sabá do prazer? 
 
Ao canto do violino, ao cintilar dos círios,
Pensas fugir ao teu mordaz sonho malsão,
E vens pedir à ébria torrente dos delírios
Que te refresque o inferno em que arde o coração?

Inesgotável poço de erros e mazelas!
Da antiga dor um alambique intermitente!
Por entre as grades curvas de tuas costelas
Eu vejo, a errar ainda, a lúbrica serpente.

Chego a pensar que a tua atroz coqueteria
Nunca recebe pelo esforço a justa paga;
Que coração mortal te entende a zombaria?
O fascínio do horror somente ao forte embriaga!

Teus olhos abissais, cheios de horrendos sonhos,
Fazem girar tudo em redor, e os mais prudentes
Jamais contemplarão sem vômitos medonhos
O sorriso fatal de teus trinta e dois dentes.

Mas quem nos braços nunca teve um esqueleto,
Ou sequer uma vez não se nutriu do além?
Que importa o aroma, o traje, o enfeite mais faceto?
Quem de raro se faz crê-se belo também.

Cortesã sem nariz, hedionda bailarina,
Dize aos que dançam e se fingem de ofuscados:
“Galãs gentis, malgrado o ruge e a purpurina,
Cheirais à morte! Ó esqueletos perfumados!

Antínoos já sem viço ou dândis de tez glabra,
Defuntos de verniz, dom-juans encanecidos, 
O embalo universal dessa dança macabra
Vos arrasta a confins por ninguém conhecidos!

Dos frios cais do Sena ou do Ganges ao leste,
O rebanho mortal se agita em toda parte,
Sem ver surgir no teto a trombeta celeste
Que se abre qual sinistro e negro bacamarte.

Ao sol de qualquer clima, a Morte te aprecia
As fátuas contorções, bizarra Humanidade,
E às vezes, como tu, em perfumada orgia,
Mistura o seu sarcasmo à tua insanidade!” 
 
O Vinho
 
CV
 
O vinho dos trapeiros

Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,
Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,
Num antigo arrabalde, informe labirinto,
Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,

Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,
Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,
E, alheio aos guardas e alcaguetes mais abjetos,
Abrir seu coração em gloriosos projetos.

Juramentos profere e dita leis sublimes,
Derruba os maus, perdoa as vitímas dos crimes,
E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,
Embriaga-se na luz de seu talento imenso.

Toda essa gente afeita às aflições caseiras,
Derreada pela idade e farta de canseiras,
Trôpega e curva ao peso atroz do asco infinito,
Vômito escuro de um Paris enorme e aflito,
 
Retorna, a trescalar do vinho as escorralhas,
Junto aos comparsas fatigados das batalhas,
Os bigodes lembrando insígnias espectrais.
Os estandartes, os pendões e arcos triunfais

Erguem-se ante essa gente, ó solene magia!
E na ensurdecedora e luminosa orgia
Dos gritos, dos clarins, do sol e do tambor,
Trazem eles a glória ao povo ébrio de amor!

Assim é que através da ingênua raça humana
O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;
Pela garganta do homem canta ele os seus feitos
E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.

E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo,
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado! 
 
CVI
 
Le vin de l’assassin

Ma femme est morte, je suis libre!
Je puis donc boire tout mon soûl.
Lorsque je rentrais sans un sou,
Ses cris me déchiraient la fibre. 
 
Autant qu’un roi je suis heureux;
L’air est pur, le ciel admirable...
Nous avions un été semblable
Lorsque j’en devins amoureux!

L’horrible soif qui me déchire
Aurait besoin pour s’assouvir
D’autant de vin qu’en peut tenir
Son tombeau; — ce n’est pas peu dire:

Je l’ai jetée au fond d’un puits,
Et j’ai même poussé sur elle
Tous les pavés de la margelle.
— Je l’oublierai si je le puis!

Au nom des serments de tendresse,
Dont rien ne peut nous délier,
Et pour nous réconcilier
Comme au beau temps de notre ivresse,

J’implorai d’elle un rendez-vous,
Le soir, sur une route obscure.
Elle y vint! — folle créature!
Nous sommes tous plus ou moins fous!

Elle était encore jolie,
Quoique bien fatiguée! Et moi,
Je l’aimais trop! voilà pourquoi
Je lui dis: Sors de cette vie!

Nul ne peut me comprendre. Un seul
Parmi ces ivrognes stupides
Songea-t-il dans ses nuits morbides
A faire du vin un linceul? 
 
Cette crapule invulnérable
Comme les machines de fer
Jamais, ni l’été ni l’hiver,
N’a connu l’amour véritable,

Avec ses noirs enchantements,
Son cortège infernal d’alarmes,
Ses fioles de poison, ses larmes,
Ses bruits de chaîne et d’ossements!

— Me voilà libre et solitaire!
Je serai ce soir ivre mort;
Alors, sans peur et sans remord,
Je me coucherai sur la terre,

Et je dormirai comme un chien!
Le chariot aux lourdes roues
Chargé de pierres et de boues,
Le wagon enragé peut bien

Écraser ma tête coupable
Ou me couper par le milieu,
Je m’en moque comme de Dieu,
Du Diable ou de la Sainte Table! 
 
O vinho do assassino

Livre, afinal! ela está morta!
Posso beber o tempo inteiro.
Quando eu voltava sem dinheiro,
Se ouviam gritos logo à porta. 
 
Sou tão feliz quanto é um rei;
O ar é puro, o céu adorável...
Era um verão incomparável
Quando por ela me encantei!

A sede atroz que me põe louco
Para saciá-la exigiria
O que de vinho caberia
Em sua tumba. E não é pouco:

Atirei-a ao fundo de um poço,
E eu mesmo pus, para cobri-la,
De suas bordas toda a argila.
— Hei de esquecê-la, se é que posso!

Em nome das eternas juras,
Pois nada nos pode afastar,
E para nos reconciliar
Como no tempo das venturas,

Eu lhe implorei uma entrevista,
À noite, numa estrada escura.
Ela veio! — a louca criatura!
Talvez em nós um louco exista!

Ela era então ainda garrida,
Embora exausta e já sem viço!
Quanto eu a amava! e foi por isso
Que lhe ordenei: Sai desta vida!

Ninguém me entende. Algum canalha,
Dentre esses ébrios enfadonhos,
Conceberia em seus maus sonhos
Fazer do vinho uma mortalha? 
 
Essa devassa indiferente,
Como qualquer engenho hodierno,
Jamais, no verão ou no inverno,
Sentiu do amor o apelo ardente,

Com suas negras seduções,
Seu cortejo infernal de horrores,
Seus venenos e dissabores,
Seus timbres de ossos e grilhões!

— Eis-me liberto e a sós comigo!
Serei à noite um ébrio morto;
Sem nenhum medo ou desconforto,
Farei da terra o meu abrigo,

E ali dormirei como um cão!
Podem as rodas da carroça,
Cheia de entulho e lama grossa,
Ou um colérico vagão

Esmagar-me a fronte culpada
Ou cortar-me ao meio, que ao cabo
Eu zombo de tudo, do Diabo,
De Deus ou da Ceia Sagrada! 
 
CVIII
 
Le vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture,
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,
 
Ma sœur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves! 
 
O vinho dos amantes
 
O espaço hoje esplende de vida!
Livres de esporas, freio ou brida,
Cavalguemos no vinho: adiante
Se abre um céu puro e fulgurante!
 
Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura,
No límpido azul da paisagem
Sigamos a fugaz miragem!
 
Embalados no íntimo anelo
De um lúcido e febril afã,
Qual num delírio paralelo,
 
Lado a lado nadando, irmã,
Chegaremos enfim, risonhos,
Ao paraíso de meus sonhos! 
 
Fleurs du mal
 
CIX
 
La destruction

Sans cesse à mes côtés s’agite le Démon;
Il nage autour de moi comme un air impalpable;
Je l’avale et le sens qui brûle mon poumon
Et l’emplit d’un désir éternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l’Art,
La forme de la plus séduisante des femmes,
Et, sous de spécieux prétextes de cafard,
Accoutume ma lèvre à des philtres infâmes.

Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,
Haletant et brisé de fatigue, au milieu
Des plaines de l’Ennui, profondes et désertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion
Des vêtements souillés, des blessures ouvertes,
Et l’appareil sanglant de la Destruction! 
 
A destruição

Sem cessar a meu lado o Demônio se agita,
E nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
Inflando-os de um desejo eterno e condenável.

Às vezes, ao saber do amor que a arte me inspira,
Assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
E, qual tartufo afeito às tramas da mentira,
Acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.

Ele assim me conduz, alquebrado e ofegante,
10 Já dos olhos de Deus afinal tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas,

E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
— O aparato sangrento e atroz da Destruição! 
 
CXI
 
Femmes damnées
 
Comme un bétail pensif sur le sable couchées, 
Elles tournent leurs yeux vers l’horizon des mers, 
Et leurs pieds se cherchent et leurs mains rapprochées 
Ont de douces langueurs et des frissons amers. 
 
Les unes, cœurs épris des longues confidences, 
Dans le fond des bosquets où jasent les ruisseaux, 
Vont épelant l’amour des craintives enfances 
Et creusent le bois vert des jeunes arbrisseaux; 
 
D’autres, comme des soeurs, marchent lentes et graves 
A travers les rochers pleins d’apparitions, 
Où saint Antoine a vu surgir comme des laves 
Les seins nus et pourprés de ses tentations; 
 
II en est, aux lueurs des résines croulantes, 
Qui dans le creux muet des vieux antres païens 
T’appellent au secours de leurs fièvres hurlantes, 
O Bacchus, endormeur des remords anciens! 
 
Et d’autres, dont la gorge aime les scapulaires, 
Qui, recélant un fouet sous leurs longs vêtements, 
Mêlent, dans le bois sombre et les nuits solitaires, 
L’écume du plaisir aux larmes des tourments. 
 
O vierges, ô démons, ô monstres, ô martyres, 
De la réalité grands esprits contempteurs, 
Chercheuses d’infini dévotes et satyres, 
Tantôt pleines de cris, tantôt pleines de pleurs,

Vous que dans votre enfer mon âme a poursuivies, 
Pauvres soeurs, je vous aime autant que je vous plains, 
Pour vos mornes douleurs, vos soifs inassouvies, 
Et les urnes d’amour dont vos grands cœurs sont pleins! 
 
Mulheres malditas
 
Como um rebanho absorto e na areia deitadas,
Elas volvem o olhar para o espelho das águas; 
Os pés em mudo afago e as mãos entrelaçadas, 
Bebem o fel do calafrio e o mel das mágoas.
 
Umas, o coração abrindo em confidências, 
Nos bosques onde se ouve um córrego em segredo, 
Vão soletrando o amor em cândidas cadências 
E o pólen raspam aos rebentos do arvoredo;
 
Outras, tais como irmãs, andam lentas e cavas 
Por entre as rochas apinhadas de ilusões, 
Onde viu Santo Antônio aflorar como lavas 
Os rubros seios nus de suas tentações;
 
Outras há que, ao calor da líquida resina, 
No côncavo sem voz de um velho antro pagão 
Pedem por ti em meio à febre que alucina, 
Ó Baco, ao pé de quem dorme toda a aflição!
 
E outras, que adoram pôr ao colo escapulários 
E que, escondendo sob as vestes um cilício, 
Juntam à noite, pelos bosques solitários, 
A espuma do prazer ao gume do suplício.
 
Ó monstros, ó vestais, ó mártires sombrias, 
Espírito nos quais o real sucumbe aos mitos, 
Vós que buscais o além, na prece e nas orgias, 
Ora cheias de pranto, ora cheias de gritos,
 
Vós que minha alma perseguiu em vosso inferno, 
Pobres irmãs, eu vos renego e vos aceito, 
Por vossa triste dor, vosso desejo eterno, 
Pelas urnas de amor que inundam vosso peito! 
 
CXII
 
Les deux bonnes sœurs

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

Au poëte sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.

Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes sœurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs. 
 
Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
O Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès?
 
As duas boas irmãs

A Orgia e a Morte são duas jovens graciosas,
Fartas de beijos e de frêmito incontido,
Cujo ventre engastado em ancas andrajosas
Jamais logrou um fruto em si ter concebido.

Ao poeta infausto, hostil às famílias virtuosas,
Favorito do inferno e cortesão falido,
Caves e tumbas oferecem, generosas,
Um leito em que o pesar jamais foi recebido.

A sepultura e a alcova, em blasfêmias fecundas,
Nos dão de quando em vez, como boas irmãs,
Os prazeres do horror e as carícias malsãs. 
 
Hás de enterrar-me, Orgia, em tuas covas fundas?
Quando virás, ó Morte, envolta em negras vestes,
Sobre os mirtos em flor plantar os teus ciprestes?
 
CXIII
 
La fontaine de sang

Il me semble parfois que mon sang coule à flots,
Ainsi qu’une fontaine aux rhythmiques sanglots.
Je l’entends bien qui coule avec un long murmure,
Mais je me tâte en vain pour trouver la blessure.

A travers la cité, comme dans un champ clos,
Il s’en va, transformant les pavés en îlots,
Désaltérant la soif de chaque créature,
Et partout colorant en rouge la nature.

J’ai demandé souvent à des vins captieux
D’endormir pour un jour la terreur qui me mine;
Le vin rend l’œil plus clair et l’oreille plus fine!

J’ai cherché dans l’amour un sommeil oublieux;
Mais l’amour n’est pour moi qu’un matelas d’aiguilles
Fait pour donner à boire à ces cruelles filles! 
 
A fonte de sangue

Sinto por vezes que meu sangue corre em fluxos,
Assim qual uma fonte em rítmicos soluços.
Eu bem que o escuto numa súplica perdida,
Mas me tateio em vão em busca da ferida.

Pela cidade vai, como entre espessos buxos,
As lajes transformando em ilhas e repuxos,
Matando a sede em cada boca ressequida
E a paisagem deixando em púrpura tingida.

Muitas vezes pedi a um vinho caviloso
10 Aplacar por um dia o horror que me domina;
O vinho aguça o ouvido e os olhos ilumina!

Busquei então no amor um sono descuidoso;
Mas o amor para mim é um leito de suplício
Que a sede há de saciar a essas ninfas do vício! 
 
CXIV
 
Allégorie

C’est une femme belle et de riche encolure,
Qui laisse dans son vin traîner sa chevelure.
Les griffes de l’amour, les poisons du tripot,
Tout glisse et tout s’émousse au granit de sa peau.
Elle rit à la Mort et nargue la Débauche,
Ces monstres dont la main, qui toujours gratte et fauche,
Dans ses jeux destructeurs a pourtant respecté
De ce corps ferme et droit la rude majesté.
Elle marche en déesse et repose en sultane;
Elle a dans le plaisir la foi mahométane,
Et dans ses bras ouverts, que remplissent ses seins,
Elle appelle des yeux la race des humains.
Elle croit, elle sait, cette vierge inféconde
Et pourtant nécessaire à la marche du monde,
Que la beauté du corps est un sublime don
Qui de toute infamie arrache le pardon.
Elle ignore l’Enfer comme le Purgatoire,
Et quand l’heure viendra d’entrer dans la Nuit noire,
Elle regardera la face de la Mort,
Ainsi qu’un nouveau-né, — sans haine et sans remord. 
 
Alegoria

É uma bela mulher, de aparência altaneira,
Que deixa mergulhar no vinho a cabeleira.
As tenazes do amor, os venenos da intriga,
Nada a epiderme de granito lhe fustiga.
Da Morte ela se ri e escarnece da Orgia,
Espectro cuja mão, que ceifa e suplicia,
Respeitaram, contudo, em seus jogos de horror,
Neste corpo elegante o rústico esplendor.
Caminha como deusa e dorme qual sultana,
E mantém no prazer uma fé maometana.
Braços em cruz, inflando os seios soberanos,
Com seu olhar convoca a raça dos humanos.
Ela sabe, ela crê, em seu ventre infecundo,
E no entanto essencial ao avanço do mundo,
Que a beleza do corpo é sempre um dom sublime
Que perdoa a sorrir qualquer infâmia ou crime.
O Inferno desconhece e o Purgatório ignora,
E quando a negra Noite anunciar sua hora,
Da Morte ela há de olhar o rosto apodrecido
— Sem remorso ou rancor, como um recém-nascido. 
 
CXVII 
 
O amor e o crânio

VELHA VINHETA

Sobre o crânio da raça humana
O amor faz seu ninho,
E nessa atitude profana,
Com riso escarninho,

Bolhas redondas lhe apetece
Deixar ir subindo,
Como se os sóis reunir quisesse
No vazio infindo.

A esfera tíbia e cristalina,
Com súbito estouro,
Rebenta e cospe a alma franzina
Como um sonho de ouro.

Em cada bolha o crânio escuto
Gemer e implorar:
“Este jogo cômico e bruto
Quando há de acabar?

Pois o que a tua boca expele
No ar como destroços,
Monstro assassino, é minha pele,
Meu sangue e meus ossos!” 
 
Revolta
 
 Abel e Caim
 
1

Raça de Abel, frui, come e dorme,
Deus te sorri bondosamente.

Raça de Caim, no lodo informe
Roja-te e morre amargamente.

Raça de Abel, teu sacrifício
Doce é ao nariz do Serafim!

Raça de Caim, teu suplício
Quando afinal há de ter fim?

Raça de Abel, tuas sementes
E teus rebanhos férteis são;

Raça de Caim, teus parcos dentes
Rangem de fome e de privação!

Raça de Abel, teu ventre aquece
Junto à lareira patriarcal;

Raça de Caim, treme e padece
Em teu covil, pobre chacal!

Raça de Abel, goza e pulula!
Teu ouro é pródigo em rebentos;

Raça de Caim, refreia a gula,
Ó coração que arde em tormentos!

Raça de Abel, cresces e brotas
Como os insetos do arvoredo;

Raça de Caim, por ínvias rotas,
Arrasta os teus à infâmia e ao medo.

2

Raça de Abel, tua carcaça
Aduba o solo fumegante!

Raça de Caim, tua argamassa
Jamais foi sólida o bastante;

Raça de Abel, eis teu fracasso:
Do ferro o chuço ganha a guerra!

Raça de Caim, sobe ao espaço
Deus enfim deita por terra!
 
CXX
 
As litanias de Satã

Ó tu, o anjo mais belo e sábio entre teus pares,
Deus que a sorte traiu e expulsou dos altares,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Ó Príncipe do exílio, a quem fizeram mal
E que, vencido, sempre te ergues mais triunfal,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das trevas soberanas,
Charlatão familiar das angústias humanas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

10 Tu que, mesmo ao leproso e ao pária, se preciso,
Ensinas por amor o amor do Paraíso,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que da Morte, tua antiga e fiel amante,
Engendraste a Esperança — a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que leva o povo ao pé da forca a desvairar,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que bem sabes em que terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras mais preciosas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu cujo olhar desvela os fundos arsenais
Onde sepulto dorme o povo dos metais,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios
Ao sonâmbulo a errar no alto dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que, magicamente, amacias os ossos
Do ébrio tardio que um tropel fez em destroços,

30 Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que, para o consolo eterno de quem sofre,
Nos ensinaste a unir o salitre ao enxofre,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que infundes no olhar e na alma das donzelas
O amor aos trapos e a paixão pelas mazelas,

Tem piedade, o Satã, de minha atroz miséria!
 
Bastão do desterrado, archote do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Pai adotivo dos que, em cólera sombria,
O Deus Padre baniu do Éden terrestre um dia,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria! 
 
ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, lá nas alturas
Do Céu, onde reinaste, e nas furnas escuras
Do Inferno, onde, vencido, sonhas silencioso!
Sob a Árvore da Ciência, um dia, que o repouso
Minha alma encontre em ti, quando na tua testa
Seus ramos expandir qual no Templo em festa! 
 
 
A Morte
 
CXXII
 
A morte dos pobres

A Morte é que consola e que nos faz viver;
É o alvo desta vida e a única esperança
Que, como um elixir, nos dá fé e confiança,
E forças para andar até o anoitecer.

Em meio à tempestade e à neve a se esfazer,
É a luz que em nosso lívido horizonte avança;
É a pousada que um livro diz como se alcança,
E onde se pode descansar e adormecer.

É um Arcanjo que tem nos dedos imantados
O sono eterno e o dom dos sonhos extasiados,
E arruma o leito para os nus e os desvalidos;

É dos Deuses a glória e o místico celeiro,
É a sacola do pobre e o seu lar verdadeiro,
O pórtico que se abre aos Céus desconhecidos!
 
CXXIV
 
La fin de la journée

Sous une lumière blafarde
Court, danse et se tord sans raison
La Vie, impudente et criarde.
Aussi, sitôt qu’à l’horizon

La nuit voluptueuse monte,
Apaisant tout, même la faim,
Effaçant tout, même la honte,
Le Poëte se dit: “Enfin!

Mon esprit, comme mes vertèbres,
Invoque ardemment le repos;
Le cœur plein de songes funèbres,
 
Je vais me coucher sur le dos
Et me rouler dans vos rideaux,
Ô rafraîchissantes ténèbres!” 
 
O fim da jornada

Sob uma luz trêmula e baça,
Se agita, brinca e dança ao léu
A Vida, ululante e devassa.
Assim também, quando no céu

A noite voluptuosa sonha,
Tudo acalmando, mesmo a fome,
Tudo apagando, até a vergonha,
Diz o Poeta que a dor consome:

“Afinal, minha alma e meus ossos
Somente imploram por sossego;
O coração feito em destroços, 
 
Procuro em meu leito aconchego
E às vossas cortinas me apego,
Ó treva oferta aos corpos nossos!”
 

NOUVELLES FLEURS DU MAL

 As Flores do Mal

(Poemas acrescentados à terceira edição, 1868)

Épigraphe pour un livre condamné

 

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.


Si tu n’as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette! tu n’y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hysthérique.


Mais si, sans se laisser charmer,
Ton œil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m’aimer;


Âme curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi... Sinon, je te maudis! 

 

Epígrafe para um livro condenado


Leitor pacífico e bucólico,
Homem de bem, austero e lhano,
Joga fora este saturniano
Livro, orgíaco e melancólico.


Se não herdaste o dom hipnótico
De Satã, o astuto decano,
Irias ler-me por engano,
Ou me terias por neurótico.


Mas se, sem teus olhos piscar,

Do abismo os horrores conheces,
Lê-me afinal que me hás de amar;


Alma curiosa que padeces
E buscas no éden teu abrigo,
Tem dó de mim... Ou te maldigo! 

 

Le gouffre


Pascal avait son gouffre, avec lui se mouvant.
— Hélas! tout est abîme, — action, désir, rêve,
Parole! et sur mon poil qui tout droit se relève
Mainte fois de la Peur je sens passer le vent.


En haut, en bas, partout, la profondeur, la grève,
Le silence, l’espace affreux et captivant...
Sur le fond de mes nuits Dieu de son doigt savant
Dessine un cauchemar multiforme et sans trêve.


J’ai peur du sommeil comme on a peur d’un grand trou,
Tout plein de vague horreur, menant on ne sait où;
Je ne vois qu’infini par toutes les fenêtres,


Et mon esprit, toujours du vertige hanté,
Jalouse du néant l’insensibilité.
— Ah! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres! 

 

O abismo


Pascal em si tinha um abismo se movendo.
— Ai, tudo é abismo! — sonho, ação, desejo intenso,
Palavra! e sobre mim, num calafrio, eu penso
Sentir do Medo o vento às vezes se estendendo.


Em volta, no alto, embaixo, a profundeza, o denso
Silêncio, a tumba, o espaço cativante e horrendo...
Em minhas noites, Deus, o sábio dedo erguendo,
Desenha um pesadelo multiforme e imenso.


Tenho medo do sono, o túnel que me esconde,

Cheio de vago horror, levando não sei aonde;
Do infinito, à janela, eu gozo os cruéis prazeres,


E meu espírito, ébrio afeito ao desvario,
Ao nada inveja a insensibilidade e o frio.
— Ah, não sair jamais dos Números e Seres! 

 
Marginália
 
Poemas Condenados

 V

A celle qui est trop gaie

Ta tête, ton geste, ton air
Sont beaux comme un beau paysage;
Le rire joue en ton visage
Comme un vent frais dans un ciel clair.


Le passant chagrin que tu frôles
Est ébloui par la santé
Qui jaillit comme une clarté
De tes bras et de tes épaules.


Les retentissantes couleurs
Dont tu parsèmes tes toilettes
Jettent dans l’esprit des poëtes
L’image d’un ballet de fleurs. 


Ces robes folles sont l’emblème
De ton esprit bariolé;
Folle dont je suis affolé,
Je te hais autant que je t’aime!


Quelquefois dans un beau jardin,
Où je traînais mon atonie,
J’ai senti, comme une ironie,
Le soleil déchirer mon sein;


Et le printemps et la verdure
Ont tant humilié mon cœur
Que j’ai puni sur une fleur
L’insolence de la Nature.


Ainsi je voudrais, une nuit,
Quand l’heure des voluptés sonne,
Vers les trésors de ta personne
Comme un lâche, ramper sans bruit,


Pour châtier ta chair joyeuse,
Pour meurtrir ton sein pardonné,
Et faire à ton flanc étonné
Une blessure large et creuse,


Et, vertigineuse douceur!
A travers ces lèvres nouvelles,
Plus éclatantes et plus belles,
T’infuser mon venin, ma sœur!

A que está sempre alegre


Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.


A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.


As fulgurantes, vivas cores
De tuas vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!


Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;


E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.


Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,


Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu seio perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,


E, como em êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

 

VI 

 

Les bijoux


La très-chère était nue, et, connaissant mon cœur,
Elle n’ avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l’ air vainqueur
Qu’ ont dans leurs jours heureux esclaves des Mores.


Quand il jette dansant son bruit vif et moqueur,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me ravit en extase, et j’ aime à la fureur
Les choses où le son se mêle à la lumière.


Elle était donc coucheé et se laissait aimer,
Et du haut du divan elle souriait d’aise
A mon amour profond et doux come la mer,
Qui vers elle montait comme vers sa falaise.


Les yeux fixés sur moi, comme un tigre dompté,
D’un air vague et rêveur elle essayait des poses,
Et la candeur unie à la lubricité
Donnait un charme neyf à ses métamorphoses;


Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses reins,
Polis comme de l’huile, onduleux comme un cygne,
Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins;
Et son ventre et se seins, ces prappes de ma vigne,

S’ avançaient, plus câlins que les Anges du mal,
Pour troubler de repos où mon ame était mise,
Et pour la déranger du rocher de cristal
Où, calme et solitaire, elle s’était assise.


Je croyais voir unis par un nouveau dessin
Les hanches de l’ Antiope au buste d’ un imberbe,
Tant sa taille faisait ressortir son bassin.
Sur ce teint fauve et brun le fard était superbe!


Et la lampe s’étant résignée à mourir,
Comme le foyer seul illuminait la chambre,
Chaque fois qu’ il poussaint un flamboyant soupir,
Il inondait desang cette peau couler d’ ambre! 

 

As joias


A amada estava nua e, por ser eu o amante,
Das joias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.


Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz fulgura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.


Ela estava deitada e se deixava amar,
10 E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.


O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.


E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, a imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha, 

Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então à rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontrara pouso.


Como se à luz de um novo esboço, unida eu via
De Antíope153 a cintura a um busto adolescente,
De tal modo os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!


— E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira,
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira. 

 

VII

Les métamorphoses du vampire


La femme cependant, de sa bouche de fraise,
En se tordant ainsi qu’un serpent sur la braise,
Et pétrissant ses seins sur le fer de son busc,
Laissait couler ces mots tout imprégnés de musc:
— “Moi, j’ ai la lèvre humide, et je sais la science
De perdre au fond d’un lit l’antique conscience.
Je sèche tous les pleurs sur mes seins triomphants,
Et fais rire les vieux du rire des enfants.
Je remplace, pour qui me voit nue et sans voiles,
La lune, le soliel, le ciel et les étoiles!
Je suis, mon cher savant, si docte aux voluptés,
Lorsque j’étouffe un homme en mes bras redoutés,
Ou lorsque j’ abandonne aux morsures mon buste,
Timide et libertine, et fragile et robuste,
Que sur ces matelas quis se pâment d’émoi,
Les anges impuissants se damneraient pour moi!”
Quand elle eut mes os sucé toute la moelle,
Et que languissamment je me tournai vers elle
Pour lui rendre un baiser d’amour, je ne vis plus
Qu’une outre aux flancs gluants, toute pleine de pus!
Je fermai les deux yeux, dans ma froide épouvante,
Et quand je les rouvris à la clarté vivante,
A mes côtés, au lieu du mannequin puissant
Qui semblait avoir fait provision de sang,
Tremblaient confusément de squelette,
Qui d’ eux-mêmes rendaient le cri d’une girouette
Ou d’une enseigne, au bout d’une tringle de fer,
Que balance lê vent pendant les nuits d’hiver.

 

As metamorfoses do vampiro


E no entanto a mulher, com lábios de framboesa,
Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,
E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,
Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:
— “A boca úmida eu tenho e trago em mim a ciência
De no fundo de um leito afogar a consciência.
As lágrimas eu seco em meus seios triunfantes,
E os velhos faço rir com o riso dos infantes.
Sou como, a quem me vê sem véus a imagem nua,
As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!
Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,
Quando um homem sufoco à borda de meus lábios,
Ou quando o seio oferto ao dente que o mordisca,
Ingênua ou libertina, apática ou arisca,
Que sobre tais coxins macios e envolventes
Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!”
 

Quando após me sugar dos ossos a medula,
Para ela me voltei já lânguido e sem gula
À procura de um beijo, uma outra eu vi então
Em cujo ventre o pus se unia à podridão!
Os dois olhos fechei em trêmula agonia,
E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,
A meu lado, em lugar do manequim altivo,
No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,
Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,
Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos
Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança,
Que nas noites de inverno ao vento se balança. 

 

Galanteios

 XI

Les promesses d’un visage


J’aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,

D’où semblent couler des ténèbres;

Tes yeux, quoique très-noirs, m’inspirent des pensers

Qui ne sont pas du tout funèbres.


Tes yeux, qui sont d’accord avec tes noirs cheveux,

Avec ta crinière élastique,

Tes yeux, languissamment, me disent: “Si tu veux,

Amant de la muse plastique, 

 

Suivre l’ espoir qu’en toi nous avons excité,

Et tous lês goûts que tu professes,

Tu pourras constater notre véracité

Depuis le nombril jusqu’aux fesses;


Tu trouveras, au bout de deux beaux seins bien lourds,

De larges médailles de bronze,

Et sous un ventre uni, doux comme du velours,

Bistré comme la peau d’un bonze,


Une riche toison qui, vraiment, est la soeur

De cette énorme chevelure,

Souple et frisée, et qui t’égale en épaisseur,

Nuit sans étoliles, Nuit obscure!” 

 

As promessas de um rosto


Eu te amo as sobrancelhas que ao curvar-se imitam

Da treva os véus e os movimentos;

Embora negros, os teus olhos me suscitam

Nem sempre turvos pensamentos.


Teus olhos, cujo tom às cores se combina

De tua ondeante crina elástica,

Teus olhos lânguidos me dizem em surdina:

“Se tens, cultor da musa plástica, 

 

Confiança nessa fé que em ti tanto exaltamos,

E nos prazeres que anuncias,

Poderás comprovar de fato o que afirmamos

Do umbigo às nádegas macias.


Verás nos bicos destes seios que desnudo

Dois brônzeos medalhões febris,

E sob um ventre cuja tez lembra o veludo,

Ou do bistre o negro matiz,


Um soberbo tosão que é o gêmeo, na verdade,

Dessa outra juba que fulgura,

Suave e frisada, e que te iguala em densidade,

Noite sem astros, noite escura!”

 

XII

O monstro

ou O padrinho de uma ninfa macabra

1


Sei que não és, minha querida,
O que Veuillot chama um botão.
O jogo, o amor, a boa vida.
Fervem em ti, meu caldeirão!
Não és mais jovem nem garrida,


Ó velha infanta! E todavia
As tuas caravanas fúteis 
Deram-te o lustro e a serventia
Das coisas que, conquanto inúteis,
Sempre seduzem todavia.


Nunca me causam tédio ou sono
Os teus quarenta (ou os que tiveras);
Prefiro os teus frutos, outono,
À floração das primaveras!
Jamais me deste tédio ou sono!


Tua carcaça tem encantos
E singulares harmonias;
No oco dos ombros há recantos
Onde degusto especiarias;
Tua carcaça tem encantos!


Despreza as pessoas ridículas
Que amam a abóbora e o melão!
Prefiro o teu par de clavículas
Aos ossos do rei Salomão,
E odeio as pessoas ridículas!


Tua juba, azul capacete,
Sombreia-te a fonte voraz,
Que pouco cora e não reflete,
E após se alonga para trás

Nas crinas do azul capacete.


Teus olhos que lembram a lama,
Onde cintila algum fanal,
Vivos ao ruge que os inflama,
Dardejam um brilho infernal!
Teus olhos negros como a lama! 

 

Pela luxúria e o fel do riso,
Teu lábio amargo nos instiga;
Esse teu lábio é um paraíso
Que nos seduz e nos fustiga.
Quanta luxúria no teu riso!


Tua perna robusta e aérea
Move-se à borda dos vulcões,
E em que pese a neve e a miséria,
Dança o cancã das ilusões,
Tua perna robusta e aérea;


A pele seca e já sem graça,
Como as que murcham e descoram,
Até do suor se fez escassa
E os olhos vítreos já não choram.
(E todavia ela tem graça!)


2


Ingênua, vais direta ao Diabo!
Contigo iria, de bom grado,
Se esta medonha pressa, ao cabo,
Não me deixasse emocionado.
Vai-te sozinha, pois, ao Diabo!


Meu rim, meu pulmão, meu jarrete,
Nada me deixa honrar, enfim,
A este Senhor; como compete.
“O que é uma lástima, ai de mim!”
Dizem meu rim e meu jarrete.

 

Mais do que eu sofro ninguém sofre
Por não poder ir aos sabás
E ver, quando ele solta o enxofre,
O imundo beijo que lhe dás!
Mais do que eu sofro ninguém sofre!


Pôs-me o Demônio em aflição
Por não servir-te de guarida
E por pedir-te demissão,
Tocha do inferno! Vê, querida,
Quanto me custa essa aflição,


Pois uma vez que há muito te amo,
Sempre razoável, procurando
Do Mal a essência que proclamo
E a um único monstro adorando,
Então, de fato, ó monstro te amo! 

Edígrafes

XIV

Vers pour le portrait de M. Honoré Daumier


Celui dont nous t’offrons l’image,
Et dont l’ art, subtil entre tous,
Nous enseigue à rire de nous,
Celui-là, lecteur, est un sage.


C’est un satirique, un moqueur;
Mais l’énergie avec laquelle
Il peint le Mal e sa séquelle
Prouve la beauté de son cœur.


Son rire n’est pas la grimace
De Melmoth ou de Méphisto
Sous la torche de l’Alecto
Qui les brûle, mais qui nous glace, 

Leur rire, hélas! de la gaité
N’est que la douloureuse charge;
Le sien rayonne, franc et large,
Comme un signe de sa bonté!

 

Versos para o retrato de Honoré Daumier


Este de quem te esboço o vulto
E que, com sua arte ferina,
Rir de nós mesmos nos ensina,
É um sábio ao qual se deve o culto.


Ele é um satírico, um bufão,
Mas a energia com a qual
Nos pinta as sequelas do Mal
Prova-lhe o imenso coração.


O seu sorriso não revela
De Melmoth o trejeito abjecto
Sob a feroz tocha de Alecto
Que os queima, mas também nos gela. 

 

No riso destes, da alegria
Não há senão um travo amargo;
O seu, que se abre franco e largo,
De uma alma nobre se irradia.

 

Peças Várias

 

XVII

 

La voix


Mon berceau s’adossait à la bibliothèque,
Babel sombre, où roman, science, fabliau,
Tout, la cendre latine et la poussière grecque,
Se mêlaient. J’ étais haut comme un in-folio.
Deux voix me parlaient. L’une, insidieuse et ferme,
Disait: “La Terre est un gâteau plein de douceur;
Je puis (et ton plaisir serait alors san terme!)
Te faire un appétit d’une égale grosseur.”
Et l’autre: “Viens! oh! viens voyager dans les rêves,
Au delá du possible, au delà du connu!”
Et celle-là chantait comme le vent des grèves.
Fantôme vagissant, on ne sait d’où venu,
Qui caresse l’oreille et cependant l’effraie.
Je te répondis: “Oui! douce voix!” C’est d’alors
Que date ce qu’on peut, hélas! nommer ma plaie
Et ma fatalité. Drrière les décors
De l’existence immense, au plus noir de l’abîme,
Je vois distinctement des mondes singuliers,
Et, de ma clairvoyance extatique victime,
Je traîne des serpents qui mordent mes souliers.
Et c’est depuis ce temps que pareil aux prophètes,
J’aime si tedrement le désert et la mer;
Que je ris dans les deuils et pleure dans les fêtes,
Et je trouve un goût suave au vin le plus amer;
Que je prends très-souvent les faits pour des mensonges,
Et que, les yeux au ciel, je tombe dans des trous.
Mais la Voix me console et dit: “Garde tes songes:
Les sages n’en ont pas d’aussi beaux que les fous!” 

 

A voz


Meu berço ao pé da biblioteca se estendia,
Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio
Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia.
Eu tinha ali a mesma altura de um in-fólio.
Duas vozes ouvi. Uma, insidiosa, a mim
Dizia: “A terra é um bolo apetitoso à goela;
Eu posso (e teu prazer seria então sem fim!)
Dar-te uma gula tão imensa quanto a dela.”
A outra: “Vem! vem viajar nos sonhos que semeais,
10 Além da realidade e do que além é infindo!”
E essa cantava como vento nas areias,
Fantasma não se sabe ao certo de onde vindo,
Que o ouvido ao mesmo tempo atemoriza e afaga.
Eu te respondi: “Sim, doce voz!” É de então
Que data o que afinal se diz ser minha chaga
Minha fatalidade. E por trás do telão
Dessa existência imensa, e no mais negro abismo,
Distintamente eu vejo os mundos singulares,
E, vítima do lúcido êxtase em que cismo,
Arrasto répteis a morder-me os calcanhares.
E assim como um profeta é que, desde esse dia,
Amo o deserto e a solidão do mar ao largo;
Que sorrio no luto e choro na alegria,
E apraz-me como suave o vinho mais amargo;
Que os fatos mais sombrios tomo por risonhos,
E que, de olhos no céu, tropeço e avanço aos poucos.
Mas a Voz me consola e diz: “Guarda teus sonhos:
Os sábios não os têm tão belos quanto os loucos!” 

BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.