28.5.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
Ao contrário de Proudhon, que considera a máquina e a divisão do trabalho como opostos. Marx enfatiza o quanto a divisão de trabalho refinou-se desde a introdução da maquinaria. Hegel, por sua vez, enfatizou que a divisão do trabalho de certa maneira preparou o caminho para a introdução da maquinaria: “O fracionamento do conteúdo do trabalho ... resulta na divisão do trabalho... Este trabalho, que assim se torna mais abstrato, acaba conduzindo, por um lado, devido à sua uniformidade, a uma facilitação do trabalho e ao aumento da produção; por outro, à limitação a uma única habilidade e, com isso, à dependência incondicional do complexo social. Deste modo, a própria habilidade torna-se mecânica, criando condições para que a máquina tome o lugar do trabalho humano.” Hegel, Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse, Leipzig, 1920, p. 436 (§ 525-526).
[X 12a, 4]
A crítica do jovem Marx relativa aos “direitos do homem”, enquanto separados dos “direitos do cidadão”: “Nenhum dos assim chamados direitos do homem vai além ... do homem egoísta... Neles, o homem está longe de ser concebido como um membro da espécie humana; em vez disso, a própria vida da espécie, a sociedade, aparece como uma moldura exterior aos indivíduos... O único elo que os une c a carência natural, a necessidade e o interesse particular, a conservação de sua propriedade e de sua pessoa egoísta. E ... um enigma ... que a cidadania, a comunidade política, seja rebaixada pelos emancipadores políticas a um mero meio de conservação dos assim chamados direitos do homem; isto é, que o cidadão seja declarado um serviçal do homem egoísta, que a esfera na qual o homem se comporta como um ser comunitário seja degradada, colocada abaixo da esfera na qual ele se comporta como um ser parcial; cm suma, que não o homem como cidadão, mas o homem como burguês seja considerado como o homem verdadeiro e autêntico... A solução deste enigma é simples... Qual era o caráter da antiga sociedade?... O feudalismo. A antiga sociedade burguesa tinha imediatamente um caráter político... A revolução política aboliu o caráter político da sociedade burguesa. Ela estilhaçou a sociedade burguesa ... de um lado, nos indivíduos, de outro, nos elementos materiais e espirituais que formam ... a condição burguesa desses indivíduos... A constituição do Estado político e a decomposição da sociedade burguesa em indivíduos independentes — cuja relação é o direito, assim como a relação das homens da nobreza e das corporações era o privilégio  realizam-se por um único e mesmo ato. O homem, como membro da sociedade burguesa, o homem apolítico, aparece necessariamente como o homem natural. Os direitos do homem aparecem como direitos naturais, pois a atividade consciente concentra-se no ato político. O homem egoísta é o resultado passivo, apenas preexistente da sociedade decomposta..., objeto natural. A revolução política ... comporta-se em relação à sociedade burguesa, em relação ao mundo das necessidades, do trabalho, dos interesses particulares, do direito privado, como ... em relação à sua base natural. Enfim, o homem, como membro da sociedade burguesa, é considerado o homem propriamente dito, o homem em oposição ao cidadão, porque ele é o homem em sua existência ... sensível, enquanto o homem político é apenas o homem abstrato... A abstração do homem político é descrita por Rousseau de maneira precisa: ‘Aquele que ousa instituir um povo deve sentir-se em condições de mudar ... a natureza humana, de transformar cada indivíduo que, por si mesmo, é um todo perfeito e solitário, como parte de um todo maior do qual esse indivíduo recebe ... seu ser...’ (Contrat Social, vol. II, Londres, 1782, p. 67). Marx, “Zur Judenfrage” [Sobre a questão dos judeus], in: Marx e Engels, Gesamtausgabe, seção I, vol. I, tomo 1, Frankfurt a. M., 1927, pp. 595-599.
[X 13]
A propriedade que recai sobre a mercadoria como seu caráter fetichista é inerente à própria sociedade produtora de mercadorias, não como ela é em si, mas como ela representa a si mesma e acredita compreender-se quando faz abstração do fato de que ela produz mercadorias. A imagem que ela assim produz de si mesma e que costuma designar como sua cultura corresponde ao conceito de fantasmagoria (Cf. “Eduard Fuchs, der Sammler und der Historiker” [“Eduard Fuchs, o colecionador e o historiador”], seção III).42 A cultura é definida por Wiesengmnd “como um bem de consumo no qual nada deve nos lembrar de como ele veio a surgir. É transformado num objeto mágico, na medida em que o trabalho nele acumulado aparece como sobrenatural e sagrado no mesmo instante em que deixa de ser percebido como trabalho.” (T. W. Adorno, “Fragmente über Wagner”, Zeitschrifi für Sozialforschung, VIII, 1939, n° 1-2, p. 17). A este propósito, uma passagem extraída do manuscrito sobre “Wagner” (pp. 46-47): “A arte orquestral de Wagner ... afastou da configuração estética a parte da produção imediata do som. Quem conseguisse entender integralmente por que Haydn dobra os violinos na piano com uma flauta, poderia talvez chegar a um esquema para entender por que a humanidade, há milhares de anos, parou de comer grãos de cereais crus e passou a assar o pão, ou por que ela começou a lixar e polir seus utensílios. No objeto de consumo, os traços de sua produção devem ser esquecidos. Ele deve dar a impressão de que não foi feito, para não revelar que aquele que o vende não o fabricou, mas se apropriou do trabalho nele contido. A autonomia da arte tem como origem a ocultação do trabalho.”43
[X 13a]
Y
[A Fotografia]1 
[...]
Uma profecia de 1855: “Nasceu para nós, há poucos anos, uma máquina, orgulho de nossa época, que a cada dia pasma nosso pensamento e espanta nossos olhos. / Essa máquina, em menos de um século, será o pincel, a paleta, as cores, a habilidade, a prática, a paciência, o golpe de vista, o toque, a mescla, o brilho, o truque, o modelado, o acabamento, a realização. / Em menos de um século, não haverá mais pedreiros na pintura: haverá apenas arquitetos, pintores na acepção plena da palavra. / Não pensemos que o daguerreótipo mata a arte. Não; ele mata o trabalho da paciência e homenageia a obra do pensamento. / Quando o daguerreótipo, esta criança gigante, tiver atingido a idade madura; quando estiverem desenvolvidos toda a sua força e todo o seu poder, então o gênio da arte o agarrará pelo colarinho e exclamará: ‘Tu és meu! és meu agora! Nós vamos trabalhar juntos!. A. J. Wiertz, Œuvres Littéraires, Paris, 1870, p. 309. Do artigo intitulado “La photographie”, publicado pela primeira vez em junho de 1855, em La Nation, e que termina com uma referência à nova descoberta da ampliação fotográfica, que possibilita a ampliação de fotos em tamanho natural. Os pintores-pedreiros são, para Wiertz, aqueles “que se preocupam somente com a parte material”, que a realizam bem.
[Y 1, 1]
[...] 
“Em 1855, no âmbito da grande exposição da indústria, foram inauguradas seções especiais para a fotografia. Pela primeira vez a fotografia tornava-se algo familiar ao grande público. Esta exposição representou o início do desenvolvimento industrial da fotografia... Durante i exposição, o público se aglomerava diante dos inúmeros retratos de personalidades famosas e notáveis; mal podemos imaginar o que significava, naquela época, poder ver diante dos próprios olhos, em tamanho natural, as celebridades do teatro, das tribunas..., em suma, da vida pública, que até então só podiam ser vistas e admiradas a distância. Gisela Freund, “Entwicklung der Photographie in Frankreich” [manuscrito].4 ■ Exposições ■
[Y 1a, 4l
É significativo para a história da fotografia que o mesmo Arago, autor do famoso parecer favorável à fotografia, tenha submetido — no mesmo ano (?), 1838 — um parecer desfavorável a construção das ferrovias planejadas pelo governo: “Em 1838, quando o Governo lhe sabmeteu o projeto de lei que autorizava a construção de estradas de ferro de Paris à Béteica, a Le Havre e a Bordeaux, o relator Arago concluiu pela rejeição, e 160 vozes contra 90 concordaram com ele. Entre outros argumentos, dizia-se que a diferença de temperatura na entrada e na saída dos túneis provocaria calores e friagens mortais. Dubech e DEspezel, Histoire de Paris, Paris, 1926, p. 386.
[Y 1a, 5] 
[...] 
Extraído da magnífica descrição que Nadar6 faz de suas fotografias nas catacumbas parisienses: “Precisávamos experimentar empiricamente o tempo de exposição em cada posição de câmera; vimos que alguns clichês exigiam até dezoito minutos. — E preciso lembrar que ainda estávamos no tempo do colódio... Julguei que seria bom animar com mar; personagem alguns desses aspectos, menos pelo efeito pitoresco que para indicar a escala de proporções, precaução muitas vezes negligenciada pelos exploradores, e cujo esquecimento às vezes nos desconcerta. Seria difícil obter de um ser humano uma imobilidade absoluta, inorgânica, durante os dezoito minutos de exposição. Procurei contornar a dificuldade com manequins, que vesti como operários e posicionei naquele cenário do modo menos estranho possível; esse detalhe não complicou nossa tarefa... Falta acrescentar que esse maldito ofício, ao longo de esgotos e catacumbas, não havia durado para nós menos que uns três meses consecutivos... Em suma, trouxe comigo cem clichês... Apressei-me em oferecer as cem primeiras impressões às coleções da Cidade de Paris, pelas mãos do eminente engenheiro de nossas construções subterrâneas, Sr. Belgrand.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, 1900, pp. 127-129.7
[Y 2, 2]
Fotografia sob luz artificial com a ajuda de bicos de Bunsen. “Chamei um eletricista experiente para instalar na parte mais firme de minha varanda, que é voltada para o Boulevard des Capucines, cinqüenta bicos médios, esperando que fossem suficientes  e de fato o foram... A presença dessa luz ainda pouco usada, ao cair da noite, fazia a multidão parar no boulevard; atraídos pela luz como mariposas, muitos curiosos, amigos ou indiferentes, não resistiam e subiam a escada para saber o que se passava ali. Esses visitantes, que provinham de todas as classes, alguns mais conhecidos ou mesmo célebres, eram tão bem acolhidos quando dispostos a nos fornecer gratuitamente um estoque de modelos para a nova experiência. Foi assim que fotografei nessas noites, entre outros, Niepce de Saint-Victor, ... Gustave Doré, ... os banqueiros E. Pereire, Mires, Halphen etc.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, pp. 113, 115-116.
[Y 2, 3]
Ao final do grande prospecto de Nadar sobre o estado das ciências: “Aqui estamos, muito além do admirável balanço de Fourcroy, na hora suprema em que o gênio da Pátria, em perigo, clama por descobertas.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, p. 3.
[Y 2, 4]
Nadar reproduz a teoria de Balzac sobre a daguerreotipia, que deriva, por sua vez, da teoria dos eidola, de Demócrito.8 (Parece que Nadar não conhecia esta última, que ele não menciona.) Gautier e Nerval teriam seguido a opinião de Balzac, “... mas mesmo falando de espectros, tanto um quanto outro ... foram entre os primeiros a passar diante de nossa objetiva.” Nadar, Quand Jétais Photographe, p. 8.
[Y 2a, 1]
[...] 
“Quem ao menos uma vez na vida teve a chance de pôr sua cabeça sob o manto mágico do fotógrafo e olhou através da câmara, encontrando ali aquela maravilhosa reprodução em miniatura da imagem natural, deve ter se perguntado ... qual será o destino de nossa pintura moderna quando o fotógrafo conseguir fixar em suas placas tanto as cores quanto as formas ” Walter Crane, “Nachahmung und Ausdruck in der Kunst”, Die Neue Zeit, XIV, no 1, Stuttgart, p. 423.
[Y2a, 5]
A tentativa de provocar um confronto sistemático entre arte e fotografia era inicialmente fadada ao fracasso. Esse confronto só poderia ser um momento do confronto entre arte e tecnica, realizado pela história.
[Y 2a, 6]

Passagem sobre a fotografia, extraída de Lampélie e Daguerre, de Lemercier:

“Como, presa à rede do caçador malvado,

A cotovia, despertando os ecos da manhã,
Esvoaça, e loucamente se lança na pradaria
Sobre um espelho, perigo de sua galanteria;
Assim, o vôo de Lampélie (= luz do sol) foi interceptado
Pelo químico filete por Daguerre inventado.
A face de um cristal, arredondado ou côncavo,
Diminui ou aumenta o objeto que ela grava.
No fundo da armadilha obscura seus finos e brancos raios
Mostram o aspecto dos lugares em rápidos traços:
Numa placa que aprisiona, a imagem capturada,
Do toque destruidor logo preservada,
Resta viva e durável; e os reflexos precisos
Atingem a profundeza dos planos mais longínquos.”

Népomucène Lemercier, “Sur la découverte de l’ingénieux peintre du diorama”, in: Séance Publique Annuelle des Cinq Académies, 2 maio 1839, Paris, 1839, pp. 30-31. <Cf. Q 3a, 1>
[Y 3, 1]
 “A fotografia ... foi adotada primeiro pela classe social dominante... : industriais, proprietários de fabricas e banqueiros, homens de Estado, literatos e sábios.” Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, p. 32). Isso está certo? Não seria melhor inverter a ordem?
[Y 3, 2]
[...]  
“Em Marselha, por volta de 1850, havia no máximo quatro ou cinco pintores de miniaturas, entre os quais somente dois gozavam de uma certa reputação executando mais ou menos uns cinqüenta retratos por ano. Esses artistas ganhavam apenas o suficiente para manter sua existência... Alguns anos mais tarde, havia em Marselha entre quarenta e cinqüenta fotógrafos... Eles produziam anualmente, cada um, uma média de mil a mil e duzentos clichês, que vendiam a 15 francos cada um, ou seja, produziam uma receita de 18.000 francos, cujo conjunto constituía um movimento de negócios de quase um milhão. E é possível constatar o mesmo desenvolvimento em todas as grandes cidades da França. Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, pp. 15-16), citando Vidal, Mémoire de la Séance du 15 Novembre 1868 de la Société Statistique de Marseille, reproduzido no Bulletin de la Société Française de Photographie, 1871, pp. 37, 38, 40.
[Y 3a, 2]
Sobre o encadeamento das invenções técnicas: Quando queria fazer ensaios de litografia, Niépce, que vivia no campo, encontrava as maiores dificuldades para arranjar as pedras necessárias. Foi assim que teve a idéia de substituir as pedras por uma placa de metal, e o lápis pela luz solar.” Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, p. 39), conforme Victor Fouque, Niépce: La Vérité sur lInvention de la Photographie. Châlons sur Saône, 1867.
[Y 3a, 3]
Depois de Arago ter apresentado seu relatório na Câmara: “Algumas horas depois, as lojas dos ópticos foram assediadas; não havia lentes suficientes, nem câmaras obscuras para satisfazer ao zelo de tantos amadores empenhados. Acompanhava-se com um pesar nos olhos o sol que baixava no horizonte, levando consigo a matéria-prima da experiência. Mas logo nas primeiras horas do dia seguinte, podia ser visto nas janelas um grande número de experimentadores esforçando-se, com toda espécie de precaução e cuidado, para fixar em uma placa preparada a imagem da clarabóia vizinha, ou a perspectiva de um conjunto de chaminés. Louis Figuier, La Photographie: Exposition et Histoire des Principales Découvertes Scientifiques Modernes, Paris, 1851; cit. sem indicação de página em Gisela Freund manuscrito, p. 46).
[Y4, 1]
Em 1840, Maurisset publicou uma caricatura sobre a fotografia.
[Y 4, 2]
[...]  
A fotografia na época de Disderi:9 “Os acessórios característicos de um ateliê fotográfico de 1865 são a coluna a cortina e a gueridom. Ali o sujeito se mantém, apoiado, assentado ou em pé, para ser fotografado, de corpo inteiro, de meio-corpo ou o busto. O fundo é incrementado, conforme a posição social do modelo, por acessórios simbólicos e pitorescos.” Segue-se um pouco adiante uma passagem muito significativa, extraída de Disderi, LArt de la Photographie, Paris, 1862 (sem indicação de página), que, entre outras coisas, diz o seguinte: “Para se fazer um retrato, ... não basta reproduzir com exatidão matemática as proporções e as formas do indivíduo; é preciso ainda, e principalmente, captar e representar ... as intenções da natureza nesse indivíduo ... justificando-as e embelezando-as.” Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, pp. 106 e 108). — A coluna: o emblema da cultura geral”. ■ Haussmannização ■
[Y 4, 4]
[...]
Uma das objeções — muitas vezes implícitas — contra a fotografia: seria impossível que o rosto humano pudesse ser captado por uma máquina Esta era sobretudo a opinião de Delacroix.
[Y 4a, 4]
“Yvon ... discípulo de Delaroche ... decidiu um dia reproduzir a batalha de Solferino... Acompanhado do fotógrafo Bisson, ele vai às Tulherias, consegue que o Imperador tome a pose desejada, que ele volte a cabeça, e ilumina o conjunto com a luz que ele quer reproduzir. A pintura que daí resultou tomou-se célebre com o nome de O Imperador de quepe. Segue-se a isto um processo do pintor contra Bisson, que tinha comercializado o seu clichê. Ele foi condenado. Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Soáologique (manuscrito, p. 152).
[Y4a, 5]
Napoleão III, ao passar com seu regimento pelo boulevard, dá ordens para que parem diante da casa de Disderi, sobe até o ateliê e tira uma fotografia.
[Y4a, 6]
Como presidente da Société des Gens de Lettres, Balzac propôs que a produção dos doze maiores autores vivos da França fosse comprada pelo Estado. (Cf. Daguerre.)
[Y4a, 7]

42 W. Benjamin, GS II, 476-478. (R.T.)
43 Para a edição em livro, a referida passagem foi modificada; cf. T. W. Adorno, Gesammelte Schriften, vol. XIII, Die musikalischen Monographien, ed. org. por Gretei Adorno e R. Tiedemann, 2 a ed., Frankfurt a. M, 1977, pp. 79-81. (R.T.)
1 Ver também o ensaio de Benjamin, Kleine Geschichte der Photographie, G5 II, 368-385; Pequena História da Fotografia, OE I, pp. 91-107. (w.b.)
4 Ver também o comentário de Benjamin sobre o estudo de Gisèle Freund, La Photographie en France au Dix-neuvième Siècle, Paris, 1 936, em GS III, 500-502 (Pariser Brief <2>), e sua resenha deste livro em GS III, 542-544. (J.L.)
6 Félix Tournachon, chamado Nadar (1820-1910) abriu seu primeiro ateliê na Rue Saint-Lazare. Tinha como clientes, entre outros: Nerval, Vígny, Gautier, Dumas, Berlioz, Baudelaire. Em 1861, instala-se no Boulevard des Capucines, n° 35, e torna-se o 
fotógrafo titular da oposição [Les Grands Boulevards, catálogo da exposição do Musée Carnavalet, 1985, p. 196). Cf. Nadar, Le Dessus et le Dessous de Paris”, in: Paris-Guide (1867), textos escolhidos por Corinne Verdet, Paris, La Découverte-Maspero, 1983, pp. 154 et seq. (J.L.) 
7 O relato de Nadar, Paris Souterrain, foi publicado pela primeira vez em 1867, no contexto da Exposição Universal. Suas fotografias das catacumbas, em 1861-1862, e dos esgotos de Paris, em 1864-1865, nas quais usava sua nova técnica patenteada de fotografia com luz elétrica, seguiram-se a seus experimentos de fotografia aérea; cf. o catálogo da exposição Nadar, Nova Yorque, Metropolitan Museum of Art, 1995. (E/M)
8 Esta teoria encontra-se em Le Cousin Pons; cf. Y 8a, 1 . (J.L.) 
9 O fotografo Andre-Adolphe Disderi (1818-1889) abriu seu ateliê em 1854 no Boulevard des Capucines, n° 8. Sua invenção do retrato em forma de cartão de visita rende-lhe uma fortuna. Ele torna-se o fotografo do Imperador, mas após o Segundo Império, seus negócios entram em declínio. (J.L.) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

Enquanto leio: Boris Schnaiderman/Tradução, Ato Desmedido

SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). Tradução, Ato Desmedido / Boris Schnaiderman; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. — São Paulo: Perspectiva, 2011. (Debates 321)
 
dou uma (re)espiada em: 
EISENSTEIN, Serguei. 1898-1948. Outubro / Октябрь / Serguei Eisentein / Сергей Эйзенштейн; patrocinados pelo governo soviético em honra ao décimo aniversário da Revolução de Outubro; 1927; trilha de Dmitri Shostakovich [Дмитрий Шостакович], 1966 São Paulo: Continental, Sesi. 
 
Eu já anotei: O meu preferido dele até então (talvez de todos?), mesmo com cenas retiradas.”   Schnaiderman diz o mesmo. Ele comenta daquela boa passagem, no início do assalto do Palácio de Inverno (em 1917). Um lado: comunistas, o povo. Outro: cadetes e as mulheres do Batalhão da Morte. De um lado alguém grita: A mãe!!. Do outro: A tua!!!. Próximo corte: quadros do Ermitaj (Госуда́рственный Эрмита́ж) que representam a maternidade, sublinhando tal palavra virar xingamento, idêntico ao português.
 As cenas do museu estão cortadas neste DVD.

26.5.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SANTA MONICA [1941-1947]

5. SANTA MONICA [1941-1947] 
[DOS DIÀRIOS 1941-1947]
21.7.41
Chegamos em San Pedro, o porto de Los Angeles. [...]
[...]
9.8.41
Sinto-me como se eu tivesse sido tirado de uma era, isto aqui é um Tahiti em forma de metrópole; agora mesmo olho para um pequeno jardim com grama. Arbustos florindo vermelhos, uma palmeira e cadeiras de jardim brancas, e a voz de um homem cantando algo sentimental ao piano  não no rádio. Eles têm natureza aqui e, como tudo é tão artificial, até um sentimento mais forte pela natureza, que é alienada. Da casa de Dieterle pode-se ver o vale San Fernando; um reluzente fluxo incessante de carros rompe a natureza; mas a gente descobre que apenas por meio de sistemas de irrigação todo esse verde é arrancado do deserto. Arranhe um pouco, e o deserto transparece: deixe de pagar a conta de água, que nada mais floresce. A quinze mil quilômetros de distância através da Europa, onde é mais longo, dia e noite, um massacre sangrento e crucial para o nosso destino produz uma fraca reverberação no burburinho do mercado de arte. 
Walter Benjamin envenenou-se numa pequena localidade da fronteira espanhola [a la regió catalana]. A guarda nacional havia detido o pequeno grupo em que estava. Quando os seus companheiros de viagem quiseram informar-lhe, na manhã seguinte, que a continuação da viagem fora autorizada, encontraram-no morto. Estou a ler o último trabalho que ele enviou ao Instituto Para Pesquisa Social. Günther Stern me entregou com a observação de que seria obscuro e confuso, creio que a palavra  também foi empregada. O pequeno tratado aborda a pesquisa histórica e pode ter sido escrito depois da leitura do meu César (com qual Benjamin, quando o leu em Svendborg, não soube muito o que fazer). Benjamin vira-se contra as noções de história como um fluxo, do progresso como um poderoso empreendimento de mentes descansadas, do trabalho como fonte de moralidade, do operariado como protegidos da técnica etc. Ele zomba da frase frequentemente ouvida de que é preciso se surpreender com o fato de que algo como o fascismo possa ter acontecido ainda neste século (como se não fosse o fruto de todos os séculos). — Em suma, a pequena obra é clara e desembaraçante (apesar de toda a metafórica e judaísmos), e a gente pensa com horror o quão pequeno é o número daqueles que estão dispostos a pelo menos mal interpretá-la.
E agora aos sobreviventes! Numa garden party na casa de Rolf Nürnberg, encontrei a dupla de palhaços Horkheimer e Pollock, os dois tuis do Instituto Sociológico de Frankfurt. Horkheimer é milionário, Pollock apenas de uma boa família, por isso só Horkheimer consegue comprar uma cátedra no lugar em
que reside para cobrir externamente as atividades revolucionárias do instituto. Desta vez é na Columbia, mas desde que as grandes razzias contra vermelhos tiveram lugar, Horkheimer perdeu o desejo de vender a sua alma, o que sempre se sucede em menor ou maior grau numa universidade, e eles se mudam para o oeste paradisíaco. O que são palmeiras acadêmicas! — Com seu dinheiro, eles mantêm à tona uma dúzia de intelectuais que precisam entregar todo o seu trabalho sem a garantia de que a revista alguma vez irá publicá-lo. Assim, podem afirmar que poupar o dinheiro do instituto tem sido o seu principal dever revolucionário ao longo de todos esses anos.
 
22.10.41
A relação com o dinheiro revela aqui o capitalismo colonial. A gente tem a impressão de que todas as pessoas, onde quer que estejam, estão aqui apenas para fugir. Elas estão nos Estados Unidos apenas para ganhar dinheiro. É um teatro nômade, de pessoas em trânsito para pessoas que perderam o caminho. Time is money, os tipos são montados já prontos, os ensaios são puro trabalho de montagem. Não se vive nas colônias.
[...]
21.1.42
Estranho, não consigo respirar neste clima. O ar é completamente inodoro, tanto de manhã como à noite, dentro de casa como no jardim. [...]. Em todo lugar, fazia parte das minhas tarefas matinais inclinar-me à janela e apanhar o ar fresco; aqui cortei essa tarefa. Não há cheiro de fumaça nem de grama. As plantas me parecem como os galhos que a gente espetava na areia quando era criança; dez minutos depois, as folhas murchavam. Sempre se espera aqui também que a irrigação possa ser desligada de repente, e então o qué? As vezes, especialmente ao dirigir para Beverly Hills, percebo algo como feições de uma paisagem que parecem realmente atraentes: linhas suaves de colina, arbustos de limão, um carvalho californiano e um ou outro posto de gasolina que é realmente divertido, mas tudo isso fica como atrás de uma vidraça, e em cada grupo de colinas ay em cada limoeiro eu procuro involuntariamente uma etiqueta de preço. Essas etiquetas de preços a gente também procura nas pessoas.  Não cabe a mim, por si só, ficar insatisfeito com um ambiente, especialmente nestas circunstancia Atribuo grande importância à minha posição distinta de refugiado, e ao refugiado não é de todo apropriado ser tão servil e subserviente como esse ambiente o é. Mas são provavelmente as condições de trabalho que me tornam impaciente. O costume aqui exige que se procure vender tudo, desde um encolher de ombros até uma ideia, ou seja, é preciso lutar constantemente por um comprador, e assim se é incessantemente um comprador ou vendedor vende-se para o pinico a própria urina. O oportunismo é tido como a mais alta virtude, a gentileza vira logo covardia.
 
27.2.42
Feuchtwanger e outros não conseguem lidar com o fenômeno de Hitler porque não veem o fenômeno da pequena burguesia governante. A pequena burguesia não é economicamente uma classe independente. Permanece sempre objeto da politica, agora é o objeto da politica da grande burguesia. (Os sociais-democratas exilados, por exemplo, agarram-se agora classes da alta burguesia da Inglaterra e da América.) Isso é o marionetismo de Hitler. Ele é um mero ator que apenas interpreta o grande homem, o Ninguém (qualquer um seria tão bom quanto), o homem sem caroço” porque justamente representa a pequena burguesia, que sempre, no político, somente atua e joga (jogar aqui é jogo de azar) [como vemos exemplos em todo o mundo atual. O que era tragédia, no Brasil, já mira para uma sanguinolenta Comédia, de pai para filho]. No teatro, isso significaria que Hitler só poderia ser concebido como figurante (figura de proa). Isso, porém, seria inadequado. Ele é falso, na verdade, apenas como representante da pretensão ao poder da pequena burguesia, não pessoalmente. Dentro da pequena burguesia, ele não é falso. O seu destino é real quando é levado ao limite das possibilidades pequeno burguesas, aí se torna subitamente uma personalidade” e protagonista.
 
17.3.42
Palestra de Reichenbach na Universidade da Califória sobre determinismo Nosso sistema de razões é limitado por um tipo de reproduibilidade que Einstein uma vez expressou como segue: ele fez alguns movimentos muito irregulares e ritmicamente instáveis com seu dedo e disse: Se as estrelas se movessem assim, por exemplo, não haveria astronomia. (Ainda que tivessem, sem dúvida, boas razões para isso.) Os filósofos ficom imitados com o teorema de Heisenberg, segundo o qual o ponto de espaço e o ponto de tempo não podem ser coordenados. Mesmo que se houvesse apontado um limite para além do qual os métodos de descrição não pudessem, em principio, ser melhorados, continuaria a ser para os filósofos uma questão do possibilidade de descrição, de modo que o teorema deles de que nodo acontece sem razão permaneceria válido. Os físicos derrubam-no provando o seu vazio; deixam-no, por assim dizer, abandonando-o. Razões que, par princípio, não podem ser conhecidas não são, para eles, razões.
A incapacidade dos filósofos de imaginar o nada já não impede os físicos, naturalmente, de tratar o nada como nada. Afinal, eles têm como um de seus hábitos saudar o zero como uma grandeza, com a maior consciência. Num sistema de grandezas, o zero pode talvez ser referido como grandeza, ou melhor, dificilmente pode ser chamado de outro jeito, mas sem um sentimento pela dialética, não se pode dar o salto lógico das outras grandezas para esta não grandeza. Assim, o espaço como propriedade da matéria torna-se inimaginável para os filósofos. Que o espaço deva ser apenas o que a matéria absorve é estranho para eles. Infelizmente, Reichenbach não diz uma palavra sobre isso.
 
22.3.42
Em certo sentido, os nazistas têm o direito de chamar seus feitos de revolução. A burguesia alemã leva a cabo a sua revolução sob a forma de uma tentativo de conquistar o mundo. Emancipou-se imediatamente como condutora de escravos e apresentou-se para o posto — como assaltante. No final, porém, não conseguiu acabar ainda, mesmo agora, com a sua aristocracia, e assim começou imediatamente a sua guerra de roubos, pulou por cima de seu Robespierre, submeteu-se imediatamente ao seu Napoleão (que, depois deste, é um Napoleão fetal!). Por isso essa miséria de ferro, essa síndrome de Amok meticulosamente planejada, essa Potsdam de Schwabing.
 
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos) 

24.5.26

Enquanto leio: Boris Schnaiderman/Tradução, Ato Desmedido

SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). Tradução, Ato Desmedido / Boris Schnaiderman; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. — São Paulo: Perspectiva, 2011. (Debates 321)
 
dou uma (re)espiada em: 
 
ROSA, João Guimarães (1908-1967). Grande sertão: veredas / João Guimarães Rosa; fac-símile de poema de Carlos Drummond de Andrade; prefácio Paulo Ronai Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.

22.5.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
Se na concepção burguesa as coisas e as relações econômicas’ parecem ser, aos olhos do cidadão individual, apenas elementos exteriores a ele..., na nova concepção os homens, em todas as suas ações, movem-se desde o início nas condições sociais determinadas que se originam, por sua vez, de um dado estágio de desenvolvimento da produção material... Os ideais da sociedade burguesa, como o indivíduo livre e autônomo, a liberdade e a igualdade de todos os cidadãos no exercício de seus direitos políticos e a igualdade de todos perante a lei, revelam-se agora apenas como conceitos correlatos ao fetichismo da mercadoria, derivados do intercâmbio de mercadorias... Apenas através do recalque das relações sociais reais para o inconsciente..., apenas através da metamorfose fetichista das relações sociais que se estabelecem entre a classe dos capitalistas e a classe dos assalariados, graças à ‘livre’ venda da mercadoria força de trabalho’ ao proprietário do ‘capital’ ... é possível falar nesta sociedade de liberdade e de igualdade.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 75-77.26
[X 8a, 1]
“A barganha individual e coletiva das condições de venda da mercadoria força de trabalho ainda pertence totalmente ao mundo da aparência fetichista. Considerados do ponto de lista social, junto com os meios materiais de produção, os operários assalariados sem propriedade, que vendem como indivíduos sua força de trabalho por meio do ‘livre contrato de trabalho’ a um empreendedor capitalista, são, enquanto classe, desde o início e para sempre, a propriedade da classe que dispõe dos meios materiais de trabalho. Portanto, não é inteiramente verdadeiro o que Marx afirmara no Manifesto Comunista... A burguesia ainda não ... introduziu a ‘exploração aberta, não velada, ela apenas colocou no lugar da exploração enfeitada de ilusões religiosas e políticas” [da Idade Média] “uma outra forma de exploração velada, mais refinada e mais difícil de desmascarar. Se em épocas passadas as relações de dominação e servidão, abertamente proclamadas, aparecem como as molas propulsoras imediatas da produção, na época burguesa ... ao contrário, a produção ... serve como pretexto para as ... relações de exploração.” Korsch, op. cit., pp. 64-6 57.27
[X 8a, 2]
[...]  Na “realidade”, para Marx, naturalmente, “os diversos trabalhos efetuados para a produção dos diferentes bens de consumo são efetivamente diferentes também sob o domínio da lei do valor”. Op. cit., vol. I, p. 68.28 Isto contra Simmel, cf. X 6, X 6a.
[X9]
“Marx e Engels ... chamaram a atenção para o fato de que o ideal de igualdade que se formou na época da produção burguesa de mercadorias, e que se expressa, no plano econômico, na ‘lei de valor’ dos clássicos burgueses, conserva como tal um caráter burguês e, por isso, só é incompatível com a exploração da classe operária pelo capital do ponto de vista ideológico, não na realidade. Os socialistas ricardianos imaginavam..., a partir do princípio econômico de que ‘só o trabalho produz o valor’, poder transformar todos os homens em operários imediatos, que trocam quantidades de trabalho de valor igual. Marx replicou ... que esta relação igualitária ... é, ela própria, apenas o reflexo do mundo atual, e que é, em consequência, totalmente impossível reconstituir a sociedade sobre uma base que é apenas sua sombra embelezada. À medida que a sombra toma corpo, percebe-se que esse corpo, longe de ser sua sonhada transformação, é o corpo atual da sociedade.’” A citação é extraída de La Misère de la Philosophie, Korsch, vol. II, p. 4.29
[X 9a, 1]
Korsch: Na época burguesa, “a fabricação dos produtos do trabalho serve de pretexto e invólucro para as ... relações de opressão e de exploração. A economia política é a forma científica da dissimulação deste estado de coisas.” Sua função: deslocar “a responsabilidade pela inibição do desenvolvimento e pela destruição da vida  que já se dão no atual estágio das forças sociais produtivas e que emergem de forma catastrófica nas grandes crises econômicas  da esfera da ação humana ... para a esfera das relações naturais e imutáveis entre as coisas.” Korsch, op. cit., vol. II, p. 65.30
[X 9a, 2]
“A distinção entre valor de uso e valor de troca, sob a forma abstrata em que é apresentada pelos economistas burgueses..., não constitui um ponto de partida aproveitável para o conhecimento da produção burguesa de mercadorias... Segundo Marx, trata-se na economia não do valor de uso em geral, e sim do valor de uso da mercadoria. Ora, o valor de uso da ‘mercadoria não é só premissa (extra-econômica) para seu ‘valor’. Ele é um elemento do valor... O fato de uma coisa ter uma utilidade qualquer para um homem qualquer  por exemplo, para aquele que a produz  ainda não determina a definição econômica do valor de uso. Somente o fato de uma coisa ... ter utilidade ‘para outrem’ determina a definição econômica do valor de uso como característica da mercadoria. Se o valor de uso da mercadoria é determinado economicamente como valor de uso social (valor de uso ‘para outrem’), então o trabalho que produz este valor de uso também é definido economicamente corno ... trabalho ‘para outrem’. O trabalho produtor de mercadorias aparece, pois, como trabalho social em um duplo sentido. Ele tem ... um caráter social geral enquanto ‘trabalho especificamente útil’ que produz um certo gênero de ‘valor de uso’ social. Ele tem um caráter histórico específico enquanto ‘trabalho social geral’ que produz uma certa quantidade de ‘valor de troca. A capacidade do trabalho social de produzir certas coisas úteis aos homens ... manifesta-se no valor de uso, sua capacidade de produzir um valor e uma mais-valia para o capitalista (uma característica decorrente da forma particular da socialização do trabalho ... no âmbito da atual época histórica) aparece no valor de troca do produto do trabalho. A fusão dos dois caracteres sociais das mercadorias produzidas pelo trabalho aparece na ‘forma de valor do produto do trabalho’ ou ‘forma da mercadoria’.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 42-44.31
[X 10]
“Ao derivarem o valor a partir do trabalho, os economistas burgueses, no início, quando as categorias abstratas da economia política ainda se encontravam no processo de separação de seu conteúdo material, pensaram também nas diversas formas do trabalho real. Assim, os mercantilistas, os fisiocratas etc. proclamaram que a verdadeira fonte da riqueza seria o trabalho realizado nas indústrias exportadoras, no comércio e nos transportes marítimos, na agricultura etc., nesta ordem. Mesmo em Adam Smith, que definitivamente passou dos diversos ramos do trabalho para a forma geral do trabalho produtor de mercadorias, encontra-se uma determinação paralela, que toma lugar ao lado da definição formalista do ‘trabalho’ (que ele partilha com Ricardo) como uma entidade abstrata que aparece exclusivamente no ‘valor’ (valor de troca). O mesmo trabalho que ele havia definido como trabalho gerador de valor de troca foi definido por ele também ... como a única fonte da riqueza material ou dos valores de uso. Esta doutrina, que sobrevive inerradicável até hoje no socialismo vulgar..., é economicamente falsa.” Partindo destes pressupostos, seria difícil “explicar por que na sociedade ... atual, são pobres justamente aqueles que até agora dispunham sozinhos desta fonte de riqueza, e mais difícil ainda explicar por que eles permanecem ‘sem trabalho’ e pobres, em vez de produzir riqueza com seu trabalho. Mas ... Adam Smith, ao fazer o elogio da força criadora do ‘trabalho’, tinha em mente não tanto o trabalho forçado do operário assalariado moderno, que aparece no valor das mercadorias e que produz o lucro capitalista, mas principalmente a necessidade natural geral do trabalho humano; assim como a glorificação pouco crítica da ‘divisão do trabalho’ naquelas grandes manufaturas’, termo que para ele resume a economia capitalista moderna em seu conjunto, se aplica muito menos à forma extremamente imperfeita da divisão do trabalho na sociedade capitalista amai do que à forma social geral do trabalho humano que aparece de maneira nebulosa.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 44-46.32
[X 10a]
Uma passagem decisiva sobre a mais-valia, mesmo que a frase final necessite ainda de esclarecimento: “Também a doutrina da mais-valia, considerada usualmente corno o elemento socialista propriamente dito da teoria econômica de Marx, não é, na forma aperfeiçoada em que ele a apresenta, nem uma simples operação de aritmética econômica, que atribui ao capitalismo um logro formal praticado contra os operários, nem uma lição moral da economia, que exige que seja devolvida aos operários a parte do ‘produto integral do trabalho’ que foi desviada pelo capital. Como teoria ‘econômica’, ela parte do princípio de que o empresário capitalista adquire ‘normalmente’ a força de trabalho dos assalariados por meio de uma troca leal em que o operário recebe como salário o equivalente integral da ‘mercadoria’ que ele vendeu. A vantagem do capitalista neste negócio não advém da economia, e sim de sua posição social privilegiada de proprietário exclusivo dos meios materiais de produção, que lhe permite explorar, para produzir mercadorias, o valor de uso específico da força de trabalho comprada por ele por seu ‘valor’ (valor de troca). Entre o valor das mercadorias produzidas pela exploração da força de trabalho na empresa capitalista e o preço pago por esta força de trabalho a seus vendedores não existe, segundo Marx, nenhuma relação econômica nem outro tipo de relação que possa ser racionalmente determinada. O tamanho do valor produzido pelos operários na forma dos produtos de seu trabalho acima do equivalente de seu salário, ou seja, a quantidade de mais-trabalho despendido para criar esta ‘mais-valia’, e a relação deste ‘mais-trabalho’ com o trabalho necessário (isto é a taxa de mais-valia ou a taxa de exploração’ vigente respectivamente por um tempo determinado e em um determinado país) não são, portanto, resultado de um cálculo econômico. São o resultado de uma luta social de classes.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 71-72.33
[X 11]
“O sentido da doutrina marxista do valor não consiste absolutamente..., em última análise, na constituição de uma base teórica qualquer para o cálculo prático dos benefícios particulares que busca o homem de negócios, ou para as medidas político-econômicas do homem de Estado burguês, que se preocupa com a manutenção e o crescimento geral da mais-valia capitalista. Segundo Marx, a finalidade científica de sua teoria consiste em ‘desvendar a lei econômica do movimento da sociedade moderna — e isto significa, ao mesmo tempo, a lei de seu desenvolvimento histórico.” Korsch, op. cit., vol. II, p. 70.34
[X 11a, 1]
“Determinação completa do caráter social real daquele processo fundamental da produção capitalista moderna que é apresentado de maneira unilateral tanto pelos economistas burgueses quanto por seus adversários, os socialistas vulgares, ora como produção de bens de consumo, ora como produção de valor ou como simples produção de lucro”: uma “produção de mais-valia mediante a produção de valor mediante a produção de bens de consumo em uma sociedade na qual os bens de produção materiais entram no processo de produção dominado pelo capitalista como capital, enquanto os produtores reais entram como mercadoria força de trabalho.” Korsch, op. cit., vol. III, pp. 10-11.35
[X 11a, 2]
A experiência de nossa geração: o capitalismo não morrerá de morte natural.
[A experiência da atual geração: o capitalismo morre de forma sangrenta (levando com ele tudo o que ainda resta da vida humana, incluindo a sobrevivência fisica)]. 
 [X 11a, 3]
A disputa entre Lafargue e Jaurès caracteriza muito bem a grande forma do materialismo.
[X 11a, 3]
Fontes de Marx e Engels: “Eles tomaram de empréstimo dos historiadores burgueses do período da Restauração o conceito de classe social e de luta de classes; de Ricardo, a fundamentação econômica das diferenças de classe; de Proudhon, a proclamação do proletariado moderno como a única classe realmente revolucionária; dos denunciadores feudais e cristãos da nova ... ordem econômica, o desmascaramento impiedoso dos ideais liberais burgueses, a invectiva carregada de ódio que atinge fundo o coração; do sooal pequeno-burguês de Sismondi, o desmembramento perspicaz das contradições do modo moderno de produção; dos companheiros iniciais da esquerda hegeliana, principalmente Feuerbach, o humanismo e a filosofia da ação; dos partidos políticos operários seus contemporâneos — os social-democratas franceses e os cartistas ingleses — , o significado da luta política para a classe operária; da Convenção francesa, de Blanqui e dos blanquistas, a doutrina da ditadura revolucionária; de Saint-Simon, Fourier e Owen, todo o conteúdo de seu programa socialista e comunista: a transformação total dos fundamentos da sociedade capitalista vigente, a abolição das classes ... e a transformação do Estado em uma simples instância administrativa da produção.” Korsch, op. cit, vol. III, p. 101.36
[X 12, 1]
“Por meio da referência a Hegel, o novo materialismo da teoria proletária estabeleceu uma conexão com a soma do pensamento social burguês de toda a época anterior, na mesma forma antitética em que, na prática, a ação social do proletariado dá continuidade ao movimento social precedente da classe burguesa.” Korsch, op. cit., vol. III, p. 99.37
[X 12, 2]
Com razão, Korsch afirma  e a esse respeito poderíamos pensar em De Maistre e Bonald: “Assim, a teoria ... do movimento operário moderno foi impregnada também de uma parte daquela ... ‘desilusão’ que ... fora proclamada após a grande Revolução Francesa, primeiro pelos primeiros teóricos franceses da contra-revolução, e depois pelos românticos alemães, desilusão que exerceu uma forte influência sobre Marx, principalmente através de Hegel.” Korsch, op. cit., vol. II, p. 36.38
[X 12, 3]
Conceito de força produtiva: “‘Força produtiva’ é, em primeiro lugar, nada mais do que a real força de trabalho terrena dos homens: a força..., portanto, de produzir ‘mercadorias’ sob condições capitalistas. Tudo que faz aumentar este efeito útil da força de trabalho humana ... é uma nova ‘força produtiva social. Fazem parte das forças de trabalho materiais, além da natureza, a técnica, a ciência, e sobretudo também a própria organização social e as forças sociais criadas ... pela cooperação e pela divisão do trabalho industrial.” Korsch, op. cit., vol. III, pp. 54-55.39
[X 12a, 1] 
26 Op. cit, pp. 115-116. (R.T.)
27 Op. cit, pp. 106-107. (R.T.)
28 Op. cit., pp. 108-110 e 109. (R.T.) 
29 Op. cit, p. 61. (R.T.)
30 Op. cit, p. 107. (R.T.)
31 Op. cit, pp. 89-90. (R.T.)
 
32 Op. cit, pp. 91-92. (R.T.)
33 Op. cit, p. 112; grifos de Benjamín. (R.T.)
34 Op. cit, p. 256. (R.T.)
35 Op. cit, p. 260. (R.T.)
36 Op. cit, pp. 205-206. (R.T.)
  
37 Op. cit. p. 204; cf. também p. 277. (R.T.)
38 Op. cit, p. 84. (R.T.)
39 Op. cit., p. 167. (R.T.) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.