V
A celle qui est trop gaie
Ta tête, ton geste, ton air
Sont beaux comme un beau paysage;
Le rire joue en ton visage
Comme un vent frais dans un ciel clair.
Le passant chagrin que tu frôles
Est ébloui par la santé
Qui jaillit comme une clarté
De tes bras et de tes épaules.
Les retentissantes couleurs
Dont tu parsèmes tes toilettes
Jettent dans l’esprit des poëtes
L’image d’un ballet de fleurs.
Ces robes folles sont l’emblème
De ton esprit bariolé;
Folle dont je suis affolé,
Je te hais autant que je t’aime!
Quelquefois dans un beau jardin,
Où je traînais mon atonie,
J’ai senti, comme une ironie,
Le soleil déchirer mon sein;
Et le printemps et la verdure
Ont tant humilié mon cœur
Que j’ai puni sur une fleur
L’insolence de la Nature.
Ainsi je voudrais, une nuit,
Quand l’heure des voluptés sonne,
Vers les trésors de ta personne
Comme un lâche, ramper sans bruit,
Pour châtier ta chair joyeuse,
Pour meurtrir ton sein pardonné,
Et faire à ton flanc étonné
Une blessure large et creuse,
Et, vertigineuse douceur!
A travers ces lèvres nouvelles,
Plus éclatantes et plus belles,
T’infuser mon venin, ma sœur!
A que está sempre alegre
Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.
A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.
As fulgurantes, vivas cores
De tuas vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.
Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!
Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;
E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.
Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,
Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu seio perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,
E, como em êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!
VI
Les bijoux
La très-chère était nue, et, connaissant mon cœur,
Elle n’ avait gardé que ses bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l’ air vainqueur
Qu’ ont dans leurs jours heureux esclaves des Mores.
Quand il jette dansant son bruit vif et moqueur,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me ravit en extase, et j’ aime à la fureur
Les choses où le son se mêle à la lumière.
Elle était donc coucheé et se laissait aimer,
Et du haut du divan elle souriait d’aise
A mon amour profond et doux come la mer,
Qui vers elle montait comme vers sa falaise.
Les yeux fixés sur moi, comme un tigre dompté,
D’un air vague et rêveur elle essayait des poses,
Et la candeur unie à la lubricité
Donnait un charme neyf à ses métamorphoses;
Et son bras et sa jambe, et sa cuisse et ses reins,
Polis comme de l’huile, onduleux comme un cygne,
Passaient devant mes yeux clairvoyants et sereins;
Et son ventre et se seins, ces prappes de ma vigne,
S’ avançaient, plus câlins que les Anges du mal,
Pour troubler de repos où mon ame était mise,
Et pour la déranger du rocher de cristal
Où, calme et solitaire, elle s’était assise.
Je croyais voir unis par un nouveau dessin
Les hanches de l’ Antiope au buste d’ un imberbe,
Tant sa taille faisait ressortir son bassin.
Sur ce teint fauve et brun le fard était superbe!
Et la lampe s’étant résignée à mourir,
Comme le foyer seul illuminait la chambre,
Chaque fois qu’ il poussaint un flamboyant soupir,
Il inondait desang cette peau couler d’ ambre!
As joias
A amada estava nua e, por ser eu o amante,
Das joias só guardara as que o bulício inquieta,
Cujo rico esplendor lhe dava esse ar triunfante
Que em seus dias de glória a escrava moura afeta.
Quando ela dança e entorna um timbre acre e sonoro,
Este universo mineral que à luz fulgura
Ao êxtase me leva, e é com furor que adoro
As coisas em que o som ao fogo se mistura.
Ela estava deitada e se deixava amar,
10 E do alto do divã, imersa em paz, sorria
A meu amor profundo e doce como o mar,
Que ao corpo, como à escarpa, em ondas lhe subia.
O olhar cravado em mim, como um tigre abatido,
Com ar vago e distante ela ensaiava poses,
E o lúbrico fervor à candidez unido
Punha-lhe um novo encanto às cruéis metamorfoses.
E sua perna e o braço, a coxa e os rins, untados
Como de óleo, a imitar de um cisne a fluida linha,
Passavam diante de meus olhos sossegados;
E o ventre e os seios, como cachos de uma vinha,
Se aproximavam, mais sutis que Anjos do Mal,
Para agitar minha alma enfim posta em repouso,
Ou arrancá-la então à rocha de cristal
Onde, calma e sozinha, ela encontrara pouso.
Como se à luz de um novo esboço, unida eu via
De Antíope153 a cintura a um busto adolescente,
De tal modo os quadris moldavam-lhe a bacia.
E a maquilagem lhe era esplêndida e luzente!
— E estando a lamparina agora agonizante,
Como na alcova houvesse a luz só da lareira,
Toda vez que emitia um suspiro faiscante,
Inundava de sangue essa pele trigueira.
VII
Les métamorphoses du vampire
La femme cependant, de sa bouche de fraise,
En se tordant ainsi qu’un serpent sur la braise,
Et pétrissant ses seins sur le fer de son busc,
Laissait couler ces mots tout imprégnés de musc:
— “Moi, j’ ai la lèvre humide, et je sais la science
De perdre au fond d’un lit l’antique conscience.
Je sèche tous les pleurs sur mes seins triomphants,
Et fais rire les vieux du rire des enfants.
Je remplace, pour qui me voit nue et sans voiles,
La lune, le soliel, le ciel et les étoiles!
Je suis, mon cher savant, si docte aux voluptés,
Lorsque j’étouffe un homme en mes bras redoutés,
Ou lorsque j’ abandonne aux morsures mon buste,
Timide et libertine, et fragile et robuste,
Que sur ces matelas quis se pâment d’émoi,
Les anges impuissants se damneraient pour moi!”
Quand elle eut mes os sucé toute la moelle,
Et que languissamment je me tournai vers elle
Pour lui rendre un baiser d’amour, je ne vis plus
Qu’une outre aux flancs gluants, toute pleine de pus!
Je fermai les deux yeux, dans ma froide épouvante,
Et quand je les rouvris à la clarté vivante,
A mes côtés, au lieu du mannequin puissant
Qui semblait avoir fait provision de sang,
Tremblaient confusément de squelette,
Qui d’ eux-mêmes rendaient le cri d’une girouette
Ou d’une enseigne, au bout d’une tringle de fer,
Que balance lê vent pendant les nuits d’hiver.
As metamorfoses do vampiro
E no entanto a mulher, com lábios de framboesa,
Coleando qual serpente ao pé da lenha acesa,
E o seio a comprimir sob o aço do espartilho,
Dizia, a voz imersa em bálsamo e tomilho:
— “A boca úmida eu tenho e trago em mim a ciência
De no fundo de um leito afogar a consciência.
As lágrimas eu seco em meus seios triunfantes,
E os velhos faço rir com o riso dos infantes.
Sou como, a quem me vê sem véus a imagem nua,
As estrelas, o sol, o firmamento e a lua!
Tão douta na volúpia eu sou, queridos sábios,
Quando um homem sufoco à borda de meus lábios,
Ou quando o seio oferto ao dente que o mordisca,
Ingênua ou libertina, apática ou arisca,
Que sobre tais coxins macios e envolventes
Perder-se-iam por mim os anjos impotentes!”
Quando após me sugar dos ossos a medula,
Para ela me voltei já lânguido e sem gula
À procura de um beijo, uma outra eu vi então
Em cujo ventre o pus se unia à podridão!
Os dois olhos fechei em trêmula agonia,
E ao reabri-los depois, à plena luz do dia,
A meu lado, em lugar do manequim altivo,
No qual julguei ter visto a cor do sangue vivo,
Pendiam do esqueleto uns farrapos poeirentos,
Cujo grito lembrava a voz dos cata-ventos
Ou de uma tabuleta à ponta de uma lança,
Que nas noites de inverno ao vento se balança.
Galanteios
XI
Les promesses d’un visage
J’aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,
D’où semblent couler des ténèbres;
Tes yeux, quoique très-noirs, m’inspirent des pensers
Qui ne sont pas du tout funèbres.
Tes yeux, qui sont d’accord avec tes noirs cheveux,
Avec ta crinière élastique,
Tes yeux, languissamment, me disent: “Si tu veux,
Amant de la muse plastique,
Suivre l’ espoir qu’en toi nous avons excité,
Et tous lês goûts que tu professes,
Tu pourras constater notre véracité
Depuis le nombril jusqu’aux fesses;
Tu trouveras, au bout de deux beaux seins bien lourds,
De larges médailles de bronze,
Et sous un ventre uni, doux comme du velours,
Bistré comme la peau d’un bonze,
Une riche toison qui, vraiment, est la soeur
De cette énorme chevelure,
Souple et frisée, et qui t’égale en épaisseur,
Nuit sans étoliles, Nuit obscure!”
As promessas de um rosto
Eu te amo as sobrancelhas que ao curvar-se imitam
Da treva os véus e os movimentos;
Embora negros, os teus olhos me suscitam
Nem sempre turvos pensamentos.
Teus olhos, cujo tom às cores se combina
De tua ondeante crina elástica,
Teus olhos lânguidos me dizem em surdina:
“Se tens, cultor da musa plástica,
Confiança nessa fé que em ti tanto exaltamos,
E nos prazeres que anuncias,
Poderás comprovar de fato o que afirmamos
Do umbigo às nádegas macias.
Verás nos bicos destes seios que desnudo
Dois brônzeos medalhões febris,
E sob um ventre cuja tez lembra o veludo,
Ou do bistre o negro matiz,
Um soberbo tosão que é o gêmeo, na verdade,
Dessa outra juba que fulgura,
Suave e frisada, e que te iguala em densidade,
Noite sem astros, noite escura!”
XII
O monstro
ou O padrinho de uma ninfa macabra
1
Sei que não és, minha querida,
O que Veuillot chama um botão.
O jogo, o amor, a boa vida.
Fervem em ti, meu caldeirão!
Não és mais jovem nem garrida,
Ó velha infanta! E todavia
As tuas caravanas fúteis
Deram-te o lustro e a serventia
Das coisas que, conquanto inúteis,
Sempre seduzem todavia.
Nunca me causam tédio ou sono
Os teus quarenta (ou os que tiveras);
Prefiro os teus frutos, outono,
À floração das primaveras!
Jamais me deste tédio ou sono!
Tua carcaça tem encantos
E singulares harmonias;
No oco dos ombros há recantos
Onde degusto especiarias;
Tua carcaça tem encantos!
Despreza as pessoas ridículas
Que amam a abóbora e o melão!
Prefiro o teu par de clavículas
Aos ossos do rei Salomão,
E odeio as pessoas ridículas!
Tua juba, azul capacete,
Sombreia-te a fonte voraz,
Que pouco cora e não reflete,
E após se alonga para trás
Nas crinas do azul capacete.
Teus olhos que lembram a lama,
Onde cintila algum fanal,
Vivos ao ruge que os inflama,
Dardejam um brilho infernal!
Teus olhos negros como a lama!
Pela luxúria e o fel do riso,
Teu lábio amargo nos instiga;
Esse teu lábio é um paraíso
Que nos seduz e nos fustiga.
Quanta luxúria no teu riso!
Tua perna robusta e aérea
Move-se à borda dos vulcões,
E em que pese a neve e a miséria,
Dança o cancã das ilusões,
Tua perna robusta e aérea;
A pele seca e já sem graça,
Como as que murcham e descoram,
Até do suor se fez escassa
E os olhos vítreos já não choram.
(E todavia ela tem graça!)
2
Ingênua, vais direta ao Diabo!
Contigo iria, de bom grado,
Se esta medonha pressa, ao cabo,
Não me deixasse emocionado.
Vai-te sozinha, pois, ao Diabo!
Meu rim, meu pulmão, meu jarrete,
Nada me deixa honrar, enfim,
A este Senhor; como compete.
“O que é uma lástima, ai de mim!”
Dizem meu rim e meu jarrete.
Mais do que eu sofro ninguém sofre
Por não poder ir aos sabás
E ver, quando ele solta o enxofre,
O imundo beijo que lhe dás!
Mais do que eu sofro ninguém sofre!
Pôs-me o Demônio em aflição
Por não servir-te de guarida
E por pedir-te demissão,
Tocha do inferno! Vê, querida,
Quanto me custa essa aflição,
Pois uma vez que há muito te amo,
Sempre razoável, procurando
Do Mal a essência que proclamo
E a um único monstro adorando,
Então, de fato, ó monstro te amo!
Edígrafes
XIV
Vers pour le portrait de M. Honoré Daumier
Celui dont nous t’offrons l’image,
Et dont l’ art, subtil entre tous,
Nous enseigue à rire de nous,
Celui-là, lecteur, est un sage.
C’est un satirique, un moqueur;
Mais l’énergie avec laquelle
Il peint le Mal e sa séquelle
Prouve la beauté de son cœur.
Son rire n’est pas la grimace
De Melmoth ou de Méphisto
Sous la torche de l’Alecto
Qui les brûle, mais qui nous glace,
Leur rire, hélas! de la gaité
N’est que la douloureuse charge;
Le sien rayonne, franc et large,
Comme un signe de sa bonté!
Versos para o retrato de Honoré Daumier
Este de quem te esboço o vulto
E que, com sua arte ferina,
Rir de nós mesmos nos ensina,
É um sábio ao qual se deve o culto.
Ele é um satírico, um bufão,
Mas a energia com a qual
Nos pinta as sequelas do Mal
Prova-lhe o imenso coração.
O seu sorriso não revela
De Melmoth o trejeito abjecto
Sob a feroz tocha de Alecto
Que os queima, mas também nos gela.
No riso destes, da alegria
Não há senão um travo amargo;
O seu, que se abre franco e largo,
De uma alma nobre se irradia.
Peças Várias
XVII
La voix
Mon berceau s’adossait à la bibliothèque,
Babel sombre, où roman, science, fabliau,
Tout, la cendre latine et la poussière grecque,
Se mêlaient. J’ étais haut comme un in-folio.
Deux voix me parlaient. L’une, insidieuse et ferme,
Disait: “La Terre est un gâteau plein de douceur;
Je puis (et ton plaisir serait alors san terme!)
Te faire un appétit d’une égale grosseur.”
Et l’autre: “Viens! oh! viens voyager dans les rêves,
Au delá du possible, au delà du connu!”
Et celle-là chantait comme le vent des grèves.
Fantôme vagissant, on ne sait d’où venu,
Qui caresse l’oreille et cependant l’effraie.
Je te répondis: “Oui! douce voix!” C’est d’alors
Que date ce qu’on peut, hélas! nommer ma plaie
Et ma fatalité. Drrière les décors
De l’existence immense, au plus noir de l’abîme,
Je vois distinctement des mondes singuliers,
Et, de ma clairvoyance extatique victime,
Je traîne des serpents qui mordent mes souliers.
Et c’est depuis ce temps que pareil aux prophètes,
J’aime si tedrement le désert et la mer;
Que je ris dans les deuils et pleure dans les fêtes,
Et je trouve un goût suave au vin le plus amer;
Que je prends très-souvent les faits pour des mensonges,
Et que, les yeux au ciel, je tombe dans des trous.
Mais la Voix me console et dit: “Garde tes songes:
Les sages n’en ont pas d’aussi beaux que les fous!”
A voz
Meu berço ao pé da biblioteca se estendia,
Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio
Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia.
Eu tinha ali a mesma altura de um in-fólio.
Duas vozes ouvi. Uma, insidiosa, a mim
Dizia: “A terra é um bolo apetitoso à goela;
Eu posso (e teu prazer seria então sem fim!)
Dar-te uma gula tão imensa quanto a dela.”
A outra: “Vem! vem viajar nos sonhos que semeais,
10 Além da realidade e do que além é infindo!”
E essa cantava como vento nas areias,
Fantasma não se sabe ao certo de onde vindo,
Que o ouvido ao mesmo tempo atemoriza e afaga.
Eu te respondi: “Sim, doce voz!” É de então
Que data o que afinal se diz ser minha chaga
Minha fatalidade. E por trás do telão
Dessa existência imensa, e no mais negro abismo,
Distintamente eu vejo os mundos singulares,
E, vítima do lúcido êxtase em que cismo,
Arrasto répteis a morder-me os calcanhares.
E assim como um profeta é que, desde esse dia,
Amo o deserto e a solidão do mar ao largo;
Que sorrio no luto e choro na alegria,
E apraz-me como suave o vinho mais amargo;
Que os fatos mais sombrios tomo por risonhos,
E que, de olhos no céu, tropeço e avanço aos poucos.
Mas a Voz me consola e diz: “Guarda teus sonhos:
Os sábios não os têm tão belos quanto os loucos!”
Não tenho por amante uma leoa ilustre;
A fusa de minha alma empresta-me o seu lustre.
Arredia ao olhar de um mundo que escarnece,
É no meu peito que a beleza lhe floresce.
Para ter borzeguins, sua alma pôs à venda,
Mas Deus riria se, ante essa infame oferenda,
Eu me tornasse de Tartufo um impostor,
Eu, que vendo a minha arte e quero ser autor.
Vicio até bem mais grave: ela usa uma peruca.
Negros cabelos cobrem sua branca nuca,
Mas mesmo assim lhe chovem beijos amorosos
Sobre a fronte mais calva do que a dos leprosos.
Ela é zarolha, e o estranho olhar com que nos fita,
Sob a pestana esguia que a de um anjo imita,
É tal que os olhos para quem já se perdeu
Não me valem seu olho encovado e judeu.
Sequer vinte anos tem; os seios — que desgraça! —
De cada lado pendem como uma cabaça,
E contudo me arrastam ao seu corpo estreito,
Em cujas tetas eu, como um bebê, me aleito.
E embora ela não ganhe às vezes uma esmola
Para esfregar-se em quem a sua carne esfola,
Eu a lambo em silêncio até com mais fervor
Que Madalena em fogo os pés do Salvador.
A mísera Criatura que ao prazer sucumbe
Tem no peito uma gosma que sufoca e zumbe,
E percebo no som desse espasmo brutal
Que ela mordeu amiúde a côdea do Hospital.
Seus olhos cujo brilho à noite nunca cessa
Crêem ver outros olhos no ermo da travessa,
Pois tendo a todo mundo aberto o coração,
Sente medo no escuro e crê em assombração.
Eis que por isso tem-lhe o sebo mais valia
Que para um sábio a ler seus livros noite e dia
E lhe apazígua sobremodo a fome e a dor
Que a aparição de seus amantes já sem cor.
Se acaso a virdes, em bizarra indumentária,
Rente às esquinas de uma rua solitária,
Os olhos contra o chão — como um pombo ferido —
Arrastando no arroio um calcanhar despido,
Senhores, não lanceis nenhuma infâmia dura
Ao rosto espaventado dessa pobre impura
Que a deusa Fome, por uma noite de frio,
Fez levantar as saias e exibir-se em cio.
Ela é meu tudo, minha rainha e duquesa,
Minha pérola e jóia — enfim, minha riqueza,
Aquela que ao regaço em triunfo me acolheu
E em suas mãos o coração me reaqueceu.
.
O CACHIMBO DA PAZ
Imitado de Longfellow
1
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
O Poderoso, veio à planície florida,
Ao prado imenso rente ao cerro montanhoso,
E ali, sobre as escarpas da Rubra Pedreira,
O espaço dominando e ardendo à luz primeira,
Eis que se ergueu, onipotente e vigoroso.
E convocou então os povos incontáveis,
Mais do que as ervas e as areias infindáveis.
Com sua mão tremenda uma lasca arrancou
A rocha, e fez com ela um cachimbo disforme;
Depois, junto ao regato, num bambual enorme,
Para servir de tubo, um caniço apanhou.
Para enchê-lo tomou um bálsamo oloroso;
E, criador da Energia, o Todo-Poderoso.
De pé, eis que acendeu, qual divino fanal,
O Cachimbo da Paz. De pé sobre a Pedreira,
Fumou, soberbo e ereto, ardendo à luz primeira.
E para as tribos esse era o grande sinal.
E em círculo subia a fumaça sagrada
No ar doce da manhã, sensual e perfumada.
E agora o que se via era um sombrio véu;
Logo o vapor se fez mais azulado e intenso,
Depois branqueou, sempre engrossando no ar suspenso,
Para extinguir-se aos pés da abóbada do céu.
Dos distantes confins das Montanhas Rochosas,
Desde os lagos do Norte às ondas impetuosas,
De Tawasentha, a várzea amena e sem igual,
A Tuscaloosa, erma floresta trescalante,
Avistou-se o sinal e a fumaça ondulante
Lentamente a subir no incêndio matinal.
Os Profetas diziam: “Vedes essa estria
De vapores, que, igual ao braço que chefia,
Oscila e se recorta em negro no ar vermelho?
É Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Que proclama por toda a planície florida:
Guerreiros meus, eu vos convoco ao real conselho!”
Pelas sendas do rio ou pelo ermo poeirento,
Pelas quatro vertentes de onde sopra o vento,
Vós, fiéis guerreiros, vós das tribos em porfia,
Entendendo o sinal da nuvem caminheira,
Viestes dóceis até junto à Rubra Pedreira
Onde sempre Gitchi Manitu vos ouvia.
Os guerreiros de pé se erguiam na paisagem,
Armas na mão, a face impávida e selvagem,
Matizados tal como uma folha outonal;
O odio que à luta impele a todos os mortais,
O ódio que ardia nos olhares ancestrais
No olhar lhes acendia uma flama fatal.
Em seus olhos brilhava a maldição da guerra.
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Terra,
Tinha por eles uma infinda compaixão,
Como um pai extremoso, indisposto às disputas,
Que vè seus filhos a morder-se em árduas lutas.
Tal Gitchi Manitu por toda uma nação.
E ergueu sobre eles sua forte mão direita
Para dobrar-lhes a alma e a natureza estreita,
Para esfriar-lhes a febre à sombra dessa mão;
Depois lhes disse, a voz solene e majestosa,
Comparável à voz de uma água tormentosa,
Que tomba e ecoa mais hedionda que um trovão:
2
“Minha posteridade, odiosa mas querida!
O filhos meus, ouvi a divina razão!
É Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Quem vos fala! o que em vossa planície florida
Pós a rena, o castor, a raposa e o bisão.
Eu vos tornei a caça e a pesca generosas;
Por que se fez então o caçador tão vil?
De pássaros povoei as várzeas mais lodosas;
Por que não sois felizes, crianças belicosas?
Por que ao vizinho o homem dá caça e faz-se hostil?
Bem longe estou de vossa arena de inimigos.
Promessas e orações de vós não ouço mais!
Domina vosso gênio o amor pelos perigos,
E vossa força está na união. Quais bons amigos
Vivei, pois, e aprendei a vos manter em paz.
Um Profeta virá de minha mão em breve
Para vos dar conforto e convosco sofrer,
E seu verbo fará a existência mais leve;
Mas se a menosprezá-lo algum de vós se atreve,
Terei então, filhos malditos, que morrer!
Às ondas apagai a cor dos ódios vãos.
O caniço é abundante e a rocha não se esfaz;
Cada um pode entalhar o seu cachimbo. As mãos
Limpai o sangue! Agora vivei como irmãos,
E unidos, pois, fumai o Cachimbo da Paz!”
3
E eles então, depondo as armas sobre a terra,
Lavam nas águas as brutais cores da guerra
Que às frontes lhes ardiam triunfantes e cruéis.
Cada um faz seu cachimbo e às margens do regato
Colhe um longo caniço e dá-lhe o corte exato.
E o Espírito sorria ante os seus filhos fiéis.
Todos se foram, a alma quieta e enternecida,
E Gitchi Manitu, o Grão-Mestre da Vida,
Uma vez mais galgou a escada celestial.
-Através do vapor que em nuvens se desdobra
Ergueu-se o Poderoso, ébrio de sua obra,
Sublime, perfumado, infinito, triunfal!
Charles Baudelaire. Fotografia de Nadar.
Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris]
Trad. de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
VIII
O Cão e o Frasco
— Meu belo cão, meu cãozinho,
meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente perfume comprado
no melhor perfumista da cidade .
E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal correspondente ao riso e
ao sorriso, aproxima-se e, curioso, mete o nariz úmido no frasco
destampado; porém subitamente, recuando de susto, late contra mim, à
feição de reprimenda .
— Ah, miserável cão! Se eu te houvesse
oferecido um embrulho de excremento, decerto o cheirarias com delícia e
talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha
triste vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem
apresentar perfumes delicados, que o exasperam, mas imundíces
cuidadosamente escolhidas.
XII
AS MULTIDÕES
NEM
A TODOS é dado tomar um banho de multidão: gozar da multidão é uma
arte; e só pode fazer, à custa do gênero humano, uma farta refeição de
vitalidade, aquele em quem uma fada insuflou, no berço, o gosto do
disfarce e da máscara, o horror ao domicílio e a paixão da viagem.
Multidão,
solidão: termos iguais e conversíveis para o poeta diligente e fecundo.
Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só em meio a uma
multidão atarefada.
O poeta goza do incomparável privilégio de ser, à
sua vontade, ele mesmo e outrem. Como as almas errantes que procuram
corpo, ele entra, quando lhe apraz, na personalidade de cada um. Para
ele, e só para ele, tudo está vago; e, se alguns lugares parecem vedados
ao poeta, é que a seus olhos tais lugares não valem a pena de uma
visita.
O passeador solitário e pensativo encontra singular
embriaguez nessa comunhão universal. Aquele que desposa facilmente a
multidão conhece gozos febris, de que estarão privados para sempre o
egoísta, fechado com um cofre, e o preguiçoso, encaramujado feito um
molusco. Ele adota todas as profissões, todas as alegrias e todas as
misérias que as circunstâncias lhe deparam.
Aquilo a que os homens
chamam amor é muito pequeno, muito limitado e muito frágil, comparado a
essa inefável orgia, a essa sagrada prostituição da alma que se dá
inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que
passa.
É bom alguma vez lembrar aos felizes deste mundo, ao menos
para lhes humilhar por um instante o orgulho tolo, que há felicidades
superiores à deles, mais vastas e mais requintadas. Os fundadores de
colônias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim
do mundo, conhecem, por certo, algo dessas misteriosas embriaguezes; e,
no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem por vezes rir
daqueles que lhes deploram o destino tão agitado e a vida tão casta.
XIII
AS VIÚVAS
DIZ
VAUVENARGUES que há nos jardins públicos alamedas freqüentadas
sobretudo pela ambição desiludida, pelos inventores infelizes, pelas
glórias malogradas, pelos corações dilacerados, por todas essas almas
tumultuosas e fechadas em que ainda murmuram os últimos suspiros de uma
tormenta, e que recuam para longe do olhar insolente dos alegres e dos
ociosos. Estes recantos sombrios são o ponto de reunião dos mutilados da
vida.
A
tais lugares é que o poeta e o filósofo gostam de encaminhar, de
preferência, as suas ávidas conjeturas. Existe aí, para elas, alimento
certo. Pois se há um sítio que eles desdenham de visitar, como ainda
agora eu insinuava, é sobretudo a alegria dos ricos. Essa turbulência no
vazio não lhes oferece o mínimo atrativo. Ao contrário, sentem-se eles
irresistivelmente atraídos para tudo quanto é frágil, arruinado, aflito,
órfão.
Um
olhar experimentado nunca se engana com essa gente. Naqueles traços
rígidos ou deprimidos, naqueles olhos cavos ou embaciados, ou
cintilantes dos últimos lampejos da luta, naquelas rugas profundas e
numerosas, naqueles andares tão lentos ou tão sacudidos, ele adivinha,
de relance, as inumeráveis lendas do amor enganado, da dedicação
anônima, dos esforços sem recompensa, da fome e do frio silenciosa e
humildemente suportados.
Já
tivestes ocasião de encontrar viúvas nesses bancos solitários, viúvas
pobres? Estejam de luto, ou não, é fácil reconhecê-las. Aliás, há sempre
no luto do pobre alguma coisa que falta, uma ausência de harmonia que o
torna mais pungente. O pobre é constrangido a regatear a sua dor. O
rico exibe por inteiro a sua.
Qual
a viúva mais triste e mais entristecedora: a que leva pela mão uma
criança com quem não pode repartir seu devaneio, ou a que está
inteiramente só? Não sei... Certa vez, aconteceu-me seguir, durante
longas horas, uma velha aflita desta última espécie; rija, firme, sob um
xalezinho usado, mostrava em todo o ser uma altivez de estóica.
Sem
dúvida era condenada, por uma absoluta solidão, a procedimentos de
velho celibatário, e o caráter masculino de seus hábitos ajuntava um
toque de mistério à austeridade. Não sei em que miserável café e de que
maneira ela almoçou. Acompanhei-lhe os passos até o gabinete de leitura;
e espreitei-a largo tempo enquanto ela procurava nas gazetas, com olhos
diligentes, abrasados outrora pelas lágrimas, notícias de um interesse
poderoso e pessoal.
Enfim,
à tarde, sob um delicioso céu de outono, destes céus de onde baixam, em
bando, as tristezas e as saudades, ela sentou-se num afastado recanto
de jardim, para escutar, longe da multidão, um dos concertos com que a
música dos regimentos mimoseia o povo de Paris.
Era
aquela, decerto, a pequena orgia da velha inocente (ou da velha
purificada), a consolação bem-merecida de um desses pesados dias sem
amigo, sem conversa, sem alegria, sem confidente, que Deus deixava cair
sobre ela, desde muitos anos talvez! trezentas e sessenta e cinco vezes
por ano.
Mais outra:
Não
posso abster-me de lançar um olhar, se não universalmente simpático,
pelo menos curioso, à multidão de párias que se comprimem em torno do
recinto de um concerto público. A orquestra despede, dentro da noite,
cantos de festa, de triunfo ou de volúpia. Os vestidos arrastam-se,
espelhantes; cruzam-se os olhares; os ociosos, cansados de nada haverem
feito, balançam-se, fingindo saborear indolentemente a música. Aqui,
nada que não traduza riqueza, felicidade; nada que não respire e não
inspire a despreocupação e o gosto de se deixar viver; nada, salvo o
aspecto desta multidão, que se apoia, além, no muro exterior, apanhando
de graça, ao capricho do vento, um farrapo de música, e mirando a
resplandecente fornalha interior.
É
sempre coisa interessante esse reflexo da alegria do rico no fundo do
olhar do pobre. Naquele dia, porém, percebi, no meio do povo vestido de
blusas e de chita, um ser cuja nobreza produzia nítido contraste com
toda a trivialidade ambiente.
Era
uma senhora alta, majestosa, e tão nobre em toda a sua aparência que
não me lembra ter visto igual nas coleções das aristocráticas belezas do
passado. Emanava-lhe do vulto um perfume de altiva virtude. O rosto,
triste e emagrecido, estava em perfeito acordo com o luto fechado que a
envolvia. Também ela, como a plebe à qual se mesclava e que seus olhos
não viam, contemplava o mundo luminoso com um olhar profundo, e escutava
movendo a cabeça devagar.
Singular visão! — Sem dúvida — pensei — essa
pobreza, se pobreza é, não deve tolerar a economia sórdida; é o que me
diz tão nobre semblante. Por que fica ela, então, voluntariamente, num
meio onde constitui tão aceso contraste?
Mas,
passando, curioso, perto dela, julguei adivinhar a causa. A grande
viúva trazia pela mão um menino também vestido de preto; por menor que
fosse o preço da entrada, bastaria talvez para satisfazer uma das
necessidades da criança, melhor ainda, uma superfluidade, um brinquedo.
E
ela voltará para casa a pé, meditativa e a sonhar, sozinha, sempre
sozinha, pois o pequeno é turbulento, egoísta, sem docilidade e sem
paciência, e não pode sequer, como o puro animal, como o cão e o gato,
servir de confidente às dores solitárias.
XIX
O BRINQUEDO DO POBRE
QUERO DAR A IDÉIA de uma distração inocente. Há tão poucos divertimentos que não sejam criminosos!
Quando
saírdes, de manhã, com a firme intenção de vagabundear pela estradas,
enchei os bolsos de pequeninas invenções de um soldo — tais
como o polichinelo chato movido por um cordão, os ferreiros que batem
na bigorna, o cavaleiro e seu cavalo cuja cauda é um apito — e
pelas tavernas, ao pé das árvores, presenteai os meninos desconhecidos e
pobres que fordes encontrando. Então vereis os seus olhos crescerem,
crescerem... A princípio, não ousarão tocar no presente: duvidarão da
própria felicidade. Depois, suas mãos agarrarão vivamente o brinquedo e
eles fugirão, como fazem os gatos, que, tendo aprendido a desconfiar do
homem, vão comer longe de nós o bocado que lhes damos.
Numa
estrada, por trás das grades de um vasto jardim, ao fundo do qual
surgia a brancura de um lindo castelo batido de sol, via-se uma criança
fresca e bela, vestida de uma dessas roupas de campo, tão garridas
O
luxo, a ociosidade e o espetáculo habitual da riqueza tornam meninos
tão belos que nos parece terem sido feitos de outra massa que não a dos
filhos da mediania ou da pobreza.
Ao
lado dela, jazia sobre a relva um brinquedo esplêndido, tão quanto o
seu dono, envernizado, dourado, com um traje cor de púrpura coberto de
plumas e vidrilhos. O pequeno, porém, não se ocupava com seu brinquedos
favorito, e eis o que ele observava:
Do
outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia
outro menino, sujo, raquítico, tisnado, um desses garotos-párias em que
um olho imparcial descobriria a beleza, se, como o olho do entendido a
vinha uma pintura ideal sob um verniz de carruagem, o limpasse da
repugnante pátina da miséria.
Através
daquelas vergas simbólicas, que separavam dois mundos, a estrada real e
o castelo, o menino pobre mostrava o seu brinquedo ao menino rico, e
este o examinava com avidez, como objeto raro e desconhecido. Ora esse
brinquedo, que o pequeno porcalhão atraía com afagos, agitava e sacudia,
uma espécie de gaiola, era um rato vivo! Os pais, decerto por economia,
haviam tirado o brinquedo da própria Vida.
E as duas crianças, riram uma para a outra, fraternalmente, com dentes de uma brancura igual.
XXVI
OS OLHOS DOS POBRES
AH!
VOCÊ QUER SABER por que a odeio hoje... Sem dúvida lhe será menos fácil
compreendê-lo do que a mim explicá-lo: pois você é, suponho, o mais
belo exemplo de impermeabilidade feminina que se possa encontrar.
Havíamos
passado juntos um longo dia, que me parecera curto. Tínhamos jurado um
ao outro que todos os nossos pensamentos nos seriam comuns, e nossas
duas almas, daquele dia em diante, não seriam mais do que uma só: sonho
que, além de tudo, nada tem de original, a não ser que, sonhado por
todos os homens, ainda não foi realizado por nenhum.
Ao
anoitecer, um pouco fatigada, você desejou sentar-se diante de um café
novo, na esquina de um novo bulevar que, ainda cheio de entulho, já
ostentava glorioso os seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O
próprio gás mostrava ali todo o calor de uma estréia, e alumiava com
todas as forças as paredes de uma brancura cegante, as toalhas
rutilantes dos espelhos, os ouros dos astrágalos e das cornijas, os
pajens de faces rechonchudas levados de rastos pelos cães atrelados, as
damas rindo ao falcão encarapitado em seu punho, as ninfas e as deusas
trazendo à cabeça frutas, pastéis e caças, as Hebes e os Ganimedes
apresentando, de braço estendido, a pequena ânfora de bavaroises ou o obelisco bicolor dos sorvetes mistos: toda a história e toda a mitologia postas a serviço da gula.
Na
calçada, diante de nós, víamos plantado um pobre homem dos
seus quarenta anos, de ar fatigado, barba meio grisalha, que segurava
por uma das mãos um menino e trazia no outro braço um pequenino ser
ainda muito frágil, incapaz de caminhar. Servindo de ama, fazia os
filhos respirarem o ar da noite. Todos em trapos. Eram três fisionomias
extraordinariamente sérias, e seis olhos que contemplavam o novo café
com admiração igual, mas diversamente colorida pela idade.
Os olhos do pai diziam: — “Como é belo! como é belo! Dir-se-ia que todo o ouro do pobre mundo foi transportado para estas paredes.” Os olhos do menino: — “Como é belo! como é belo! Mas é uma casa onde só podem entrar as pessoas que não são como nós.” Os olhos do menorzinho, esses, de tão fascinados, revelavam apenas uma alegria estúpida e profunda.
Dizem
os cancionistas que o prazer torna a alma boa e abranda o coração. Em
relação a mim, tinham razão as canções, naquela noite. Eu não só me
sentia enternecido com essa família de olhos, senão também um pouco
envergonhado de nossos copos e nossas garrafas, maiores que à nossa
sede. Voltava os meus olhares para os seus, querido amor, neles
procurando ler meu pensamento; mergulhava nos seus olhos tão belos e tão
estranhamente doces, nos seus olhos verdes, habitados pelo Capricho e
inspirados
pela Lua, quando você me disse:
— Que
gente insuportável aquela, com uns olhos escancarados como
porta-cocheiras! Você não poderia pedir ao dono do café que os afastasse
daqui?
Tanto
é difícil entenderem-se as criaturas, meu anjo querido, e tão
incomunicável é o pensamento, mesmo entre aqueles que se amam!
XXVIII
A MOEDA FALSA
QUANDO
nos íamos afastando da tabacaria, o meu amigo fez cuidadosa separação
de suas moedas no bolso esquerdo do colete insinuou pequenas peças de
ouro no direito, pequenas peças de prata; no bolso esquerdo da calça, um
punhado de volumosos soldos; e enfim, no direito, uma peça de prata que
ele particularmente examinara.
— “Singular e minuciosa distribuição!” — disse eu comigo.
Encontramos um pobre que nos estendeu o boné, a tremer. — Não
conheço nada mais inquietante que a eloqüência muda desses olhos
súplices que, para o homem sensível que neles sabe ler, encerram, ao
mesmo tempo, tanta humildade e tantas censuras. Ele aí descobre algo que
se aproxima de profundeza de sentimento complexo, própria dos olhos
lacrimejantes dos cães batidos.
A dádiva do meu amigo foi muito mais considerável que a minha, e eu disse-lhe:
— Você tem razão: depois do prazer de surpreender-se, não há prazer maior do que causar uma surpresa.
— Era uma moeda falsa — respondeu sereno, como para se justificar da sua prodigalidade.
No
entanto, em meu miserável cérebro, sempre ocupado em fazer de um
argueiro um cavaleiro (com que exaustiva faculdade me brindou a
natureza!), entrou súbito a idéia de que tal procedimento, da parte do
meu
amigo, só era desculpável pelo desejo de criar um acontecimento na vida
daquele pobre-diabo, talvez até de conhecer as conseqüências diversas,
fu- nestas ou de outra espécie, que uma moeda falsa pode engendrar
quando nas mãos de um mendigo. Não poderia ela multiplicar-se em moedas
verdadeiras? não poderia, também, arrastá-lo à prisão? Talvez um
taberneiro ou um padeiro, por exemplo, mandasse prendê-lo como
fabricante ou passador de moeda falsa. Também poderia acontecer que a
moeda falsa viesse a tornar-se, para um pobre, humilde especulador, o
germe de uma riqueza espírito do meu amigo e tirando todas as deduções
possíveis de todas as de alguns dias. E assim a minha fantasia se
espraiava, emprestando asas ao hipóteses possíveis.
Ele, porém, cortou de repente o meu devaneio, retomando as minhas próprias palavras:
— Sim, você tem razão: não há prazer mais fino do que surpreender um homem dando-lhe mais do que ele espera.
Fitei-o
no branco do olho, e espantei-me de ver que nos seus olhos brilhava
incontestável candura. Então percebi claro que ele quisera fazer, ao
mesmo tempo, uma caridade e um bom negócio; ganhar quarenta soldos e
coração de Deus; conquistar o Paraíso economicamente; enfim, pilhar de
graça o diploma de homem caridoso. Quase lhe perdoaria o desejo do
criminosos prazer de que pouco antes o supunha culpado; acharia curioso,
singular, que ele se divertisse em comprometer os pobres; mas não
perdoarei
jamais a inépcia do seu cálculo. Se nunca nos podemos escusar de ser
maus, há, contudo, algum mérito em sabermos que o somos; porém o mais
irreparável dos vícios é fazer o mal por estupidez.
XXIX
O JOGADOR GENEROSO
XXX
A CORDA
XXXI
AS VOCAÇÕES
O DESEJO DE PINTAR
XXXIII
QUAL A VERDADEIRA?
XLVIII
ANYWHERE OUT OF THE WORLD
Seja onde for — fora do mundo
XLIX
ESPANQUEMOS OS POBRES!
[PROJETO DE UM EPÍLOGO PARA A EDIÇÂO DE 1861]
Tradução de Manuel Bandeira
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa /
Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso;
traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio
Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto
Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira,
Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira,
Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni,
Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e
notas adicionais Ivo Barroso. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.