Luta de barricadas em Les Misérables. Do capítulo “Originalité de Paris”: “Fora dos bairros insurrectos, nada é, de costume, mais estranhamente calmo que a fisionomia de Paris durante uma rebelião... Troca de tiros num cruzamento, numa passagem, numa rua sem saída ... os cadáveres atravancam o calçamento. A algumas ruas dali, ouve-se o choque das bolas de bilhar nos cafés... Os fiacres rodam; os transeuntes vão jantar na cidade, às vezes no mesmo bairro onde se combate. Em 1831, um tiroteio foi interrompido para deixar passar um cortejo de casamento. Durante a insurreição de 12 de maio de 1839, na Rua Saint-Martin, um velhinho doente, puxando uma carroça que levava uma bandeira tricolor e garrafas cheias de um líquido qualquer, ia e vinha da barricada à tropa e da tropa à barricada, oferecendo imparcialmente copos com água de côco... Nada é mais estranho; e este é o caráter próprio das rebeliões de Paris, que não se encontra em nenhuma outra capital. Para isso é preciso duas coisas: a grandeza de Paris e sua alegria. F. preciso ser a cidade de Voltaire e de Napoleão.” Victor Hugo, Œuvres Completes, Roman, VIII, Paris, 1881, pp. 429-431.
[a 11a, 2]
[...]
Por volta de 1840, o suicídio fazia parte do imaginário dos operários. “Disputam-se os exemplares de uma litografia que representa 0 suicídio de um operário inglês desespera o por não poder ganhar sua vida. Na casa do próprio Sue, um trabalhador chegou a se enforcar, com este bilhete na mão: ‘Eu me mato por desespero: achei que a morte seria menos dura para mim se eu morresse sob o teto daquele que nos ama e nos defende.’ O autor operário que escreveu um pequeno livro muito lido pelos operários, o tipógrafo Adolphe Boyer, também suicidou-se por desespero.” Charles Benoist, L’homme de 1848”, parte I, Revue des Deux Mondes, 1 fev. 1914, p. 667.
[a 12a, 7]
[...]
Charles Benoist afirma encontrar em Corbon, Le Secret du Peuple de Paris, a consciência orgulhosa da superioridade numérica sobre as outras classes. Benoist, “Le ‘mythe’ de la classe ouvrière”, Revue des Deux Mondes, 1 mar. 1914, p. 99.
[a 13a, 2]
Nos panfletos do ano de 1848, predomina o conceito de organização.
[a 13a, 3]
“Em 1867, era possível realizar conferencias em que 400 delegados operários pertencentes a 117 profissões ... discutiam ... sobre a organização de Câmaras de operários em sindicatos mistos... Ate então, entretanto, os sindicatos operários eram bem raros ... apesar de existirem, por outro lado, em aliança com os patrões, 42 câmaras sindicais. Antes de 1867 são citados, à margem da lei e desafiando-a, somente os tipógrafos (1839), os modeladores (1863), os encadernadores (1864) e os chapeleiros (1865). Depois das conferências da Passage Raoult19 ... esses sindicatos se multiplicaram.” Charles Benoist, “Le ‘mythe’ de la classe ouvrière”, Revue des Deux Mondes, 1 mar. 1914, p. 111.
[a 13a, 4]
[...]
Em seu 18 Brumário, Marx diz que, nas cooperativas, os operários “em princípio renunciam a transformar o velho mundo com seus próprios e imensos recursos; em vez disso, procuram realizar a sua salvação atrás das costas da sociedade, de modo particular, dentro dos limites restritos de suas condições de existência.” Cit. em E. Fuchs, Die Karikatur der europäischen Völker, vol. II, Munique, 1921, p. 472.
[a 13a, 7]
[...]
Adolphe Boyer, De l’État des Ouvriers et de son Amélioration par l’Organisation du Travail, Paris, 1841. O autor deste texto era tipógrafo. Sua obra não obteve sucesso. Ele cometeu suicídio e exortou (segundo Lerminier) os operários a seguir seu exemplo. Em 1844, o texto foi publicado em Estrasburgo, em língua alemã. Era bastante moderado e procurava colocar o compagnonnage a serviço das associações de operários.
[a 14, 2]
[...]
As associações de operários depositavam seus fundos na caixa econômica ou em bônus do tesouro. Lerminier, em “De la littérature des ouvriers” (Revue des Deux Mondes, Paris, 1841, p. 963), elogia este procedimento. Segundo ele, os institutos de previdência dos operários diminuem os custos da assistência pública.
[a 14, 4]
Proudhon recebe do financista Millaud o convite para um jantar. “Proudhon desculpou-se ... dizendo que vivia inteiramente no seio de sua família e que costumava deitar-se às 9 horas da noite.” Firmin Maillard, La Cité des Intellectuels, Paris, 1905, p. 383.
[a 14, 5]
[...]
Heine sobre a burguesia na Revolução de Fevereiro: “O rigor com que o povo investia contra ... os ladrões capturados em flagrante era excessivo para alguns, e certas pessoas ficaram muito apreensivas ao tomar conhecimento de que os ladrões eram fuzilados no ato. Sob tal regime, pensavam consigo, no fim das contas, não se pode estar seguro nem mesmo da própria vida.” Heinrich Heine, “Die Februarrevolution”, Sämtliche Werke, ed. org. por Wilhelm Bölsche, Leipzig, vol. V, p. 363.
[a 14a, 2]
A América na filosofia de Hegel: “Hegel ... não elaborou uma expressão direta para a consciência do fim de uma época da história, mas uma expressão indireta. Ele a manifesta pelo fato de pensar — lançando um olhar sobre o passado, na ‘velhice do espírito’, ao mesmo tempo que procura uma descoberta possível no domínio do espírito — sem revelar expressamente o conhecimento dessa descoberta. As raras indicações sobre a América, que já nessa época aparecia como o futuro país da liberdade” [Nota: A. Ruge, Aus früherer Zeit, vol. IV, pp. 72 a 84: “Fichte já pensara em emigrar para a América, na ocasião da derrocada da velha Europa; carta a sua mulher de 28 de maio de 1807.”], “e sobre o mundo eslavo, visavam a possibilidade de o espírito universal emigrar para fora da Europa, a fim de preparar novos protagonistas do princípio do espírito ... que se completou com Hegel. ‘A América é, pois, o país do futuro, no qual a importância da história universal deve se manifestar, numa época próxima, por exemplo, na luta entre a América do Norte e a do Sul.’... Mas o que até hoje se passa aqui, no Novo Mundo, não é senão um eco do Velho Mundo e a expressão de uma vivacidade estrangeira; e enquanto país do futuro, ele não nos diz respeito. O filósofo não tem nada a ver com as profecias.’” [Hegel, Philosophie der Geschichte, ed. org. por G. Lasson, p. 200 (e 779?).] K. Löwith, “L’achèvement de la philosophie classique par Hegel et sa dissolution chez Marx et Kierkegaard”, Recherches Philosophiques, fundadas por Koyré, H.-Ch. Puech, A. Spaier, ano IV (1934-1935), Paris, pp. 246-247.
[a 14a, 3]
[...]
A maior parte das sondagens sobre a condição dos operários foi realizada, nos primeiros tempos, por donos de indústrias, seus representantes, inspetores de fabrica e funcionários administrativos. “Quando os médicos e filantropos responsáveis pelas pesquisas visitavam as famílias dos operários, eram geralmente acompanhados pelos patrões ou por seus representantes. Le Play, por exemplo, sugere que as visitas às famílias operárias ‘sejam feitas com a recomendação de uma autoridade escolhida a dedo’; ele aconselha um comportamento extremamente diplomático para com os diferentes membros da família, até mesmo o pagamento de pequenas somas a título de indenização ou mesmo a distribuição de presentes: deve-se elogiar ‘de maneira criteriosa a inteligência dos homens, a graça das mulheres, o bom comportamento das crianças, e distribuir de modo sensato pequenos presentes a todos’. (Les Ouvriers Parisiens, Paris, vol. I, p. 223.) Na crítica detalhada aos métodos de pesquisa, introduzida por Audiganne nas discussões do grupo de operários de que participa, diz-se o seguinte a respeito de Le Play: ‘Não obstante as melhores intenções, nunca se escolheu um caminho mais equivocado. Tudo se resume no sistema. Um falso ponto de vista, um método equivocado de observação conduzem a uma série total mente arbitrária de idéias que não têm qualquer relação com a realidade social, e que deixam transparecer uma incorrigível tendência ao despotismo e à rigidez.’ (Audiganne, op. cit., p. 61.) Como erro recorrente na condução das pesquisas, Audiganne menciona a atitude cerimoniosa dos pesquisadores nas visitas às famílias operárias: ‘Se nenhuma das pesquisas realizadas durante o Segundo Império deu algum resultado palpável, isto se deve principalmente à pompa com que se recobriam os pesquisadores.’ (Op. cit., p. 93.) Também Engels e Marx descrevem os métodos com que essas pesquisas sociais induziam os depoimentos dos operários e os constrangiam até mesmo a apresentar petições contra a redução do tempo de trabalho.” Hilde Weiss, “Die ‘Enquête Ouvrière’ von Karl Marx”, Zeitschrift für Sozialforschung, ed. por Max Horkheimer, ano V, n° 1, Paris, 1936, pp. 83-84. O livro citado de Audiganne intitula-se Mémoires d’un Ouvriere de Paris, Paris, 1873.
[a 15 a, 2]
Em 1854, ocorreu o Caso dos Carpinteiros, em que uma decisão de greve tomada pelos car pinteiros de Paris deu ensejo a uma acusação contra seus líderes, por violarem a proibição de coalizões. Eles foram defendidos em primeira instância e na apelação por Berryer. Eis algumas passagens da argumentação de defesa durante a apelação: “Não pode ter sido esta sag rad a resolução, esta resolução livre de abandonar o trabalho por não conseguir retirar dele seu justo salário, o motivo para uma punição pela lei. Não! É, na verdade, a resolução de constranger a liberdade de outrem; é a interdição do trabalho, o impedimento de ir às oficinas... É preciso, pois, para que haja uma coalizão, que haja um constrangimento da liberdade do homem, uma violência contra a liberdade de outrem. E, com efeito, se não fosse este o verdadeiro sentido dos artigos 415 e 4l6, não haveria em nossa lei uma desigualdade monstruosa entre a condição dos operários e a dos empresários? Estes podem deliberar entre si, decidir que o preço do trabalho está elevado demais... A lei ... não pune a coalizão dos empresários, a não ser quando há acordo injusto e abusivo... Sem reproduzir as mesmas palavras, a lei reproduz o mesmo pensamento em relação aos operários. E pela interpretação sadia desses artigos que os senhores consagrarão a igualdade de condição que deve existir entre essas duas classes de indivíduos.” Berryer, Œuvres: Plaidoyers 1836-1856, vol. II, Paris, 1876, pp. 245-246.
[a 16, 1]
Caso dos carpinteiros: “O Sr. Berryer termina sua defesa levantando a questão de se considerar ... a posição atual, na França, das classes inferiores, condenadas, diz ele, a ver dois quintos de seus membros perecendo num hospital, ou sendo depositados sobre o mármore do necrotério.” Berryer, Œuvres: Plaidoyers 1836-1856, vol. II, Paris, 1876, p. 250. (O réu principal no processo foi condenado a três anos de prisão — sentença confirmada na apelação.)
[a 16, 2]
[...]
“Quando, em Paris, Engels pôs no papel a ‘profissão de fé que lhe fora solicitada pela seção local da Liga Comunista, ele desaprovou a designação que Schapper e Moll tinham dado a seu projeto. Também pareceu-lhe inapropriada a forma de catecismo, comum naquela época, nos manifestos programáticos destinados aos operários, e ainda usada por Considérant e Cabet.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Berlim, 1933, p. 283.20
[a 16, 4]
[...]
“Uma vez que Marx, desde sua expulsão, era proibido de entrar em território francês, Engels decidiu, em agosto de 1846, transferir seu domicílio para a capital francesa, com a intenção de conquistar para a causa do comunismo revolucionário os proletários alemães que lá viviam. No entanto, aqueles alfaiates, marceneiros e aprendizes de curtume, que Grün procurava aliciar, não correspondiam ao tipo de proletário com o qual Engels ... contava. A maior parte daqueles que tinham vindo para Paris, enquanto centro da moda e do artesanato, a fim de se tornarem mais competitivos em sua profissão, ainda tinha uma mentalidade fortemente ligada ao antigo espírito das guildas.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2a ed., Berlim, 1933, pp. 249-250.
[a 16a, 2]
O “Comitê Comunista de Correspondência” de Marx e Engels, em Bruxelas, no ano de 1846: “Marx e ele tentaram em vão ... conquistar Proudhon. Soubemos que Engels empreendeu uma tentativa malsucedida de convencer o velho Cabet, líder do comunismo utópico experimental no continente, ... a participar do Comitê de Correspondência. Somente alguns meses mais tarde ele conseguiu estabelecer um contato mais estreito com o círculo do La Réforme, com Louis Blanc e, principalmente, com Flocon.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2 a ed., Berlim, 1933, p. 254.
[a 16a, 3]
[...]
“Para que uma agitação tenha verdadeiro sucesso, o indivíduo deve se apresentar em nome de uma coletividade... Engels teve que passar por esta experiência durante seu primeiro período de atuação em Paris. As portas em que ele bateu anteriormente, como abriram-se muito mais facilmente para ele na segunda vez! Como o socialismo francês em quase todas as suas nuanças rejeitava a luta política, Engels só pôde procurar os companheiros de luta para a iminente batalha decisiva em Paris entre aqueles democratas mais ou menos propensos ao socialismo de Estado, que se agrupavam em torno do La Réforme, e que, como ele, viam a conquista do poder político pela democracia, sob a liderança de um Louis Blanc e de um Ferdinand Flocon, como pressuposto para qualquer transformação social. Disposto a seguir de mãos dadas com a burguesia, cada vez que ela tomasse decididamente um caminho democrático, Engels não precisava temer a colaboração com este partido, cujo programa previa a abolição do trabalho assalariado, embora soubesse que Ledru-Rollin, seu líder parlamentar, era contrário ao comunismo... Escaldado por experiências anteriores, apresentou-se a Louis Blanc como enviado oficial dos democratas de Londres, de Bruxelas c dos alemães da Renânia, e como ‘agente dos cartistas’.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, pp. 280-281.21
[a 17, 1]
“Sob o governo provisório era de bom-tom — e sobretudo uma necessidade — imprimir, nos milhares de cartazes oficiais, que os generosos operários ‘tinham posto três meses de miséria à disposição da República’. Era um misto de política e de arroubo pregar aos operários que a Revolução de Fevereiro acontecera para seu próprio interesse, e que se tratava nessa Revolução principalmente do interesse dos operários. Depois da abertura da Assembléia Nacional, no entanto, os políticos tornaram-se prosaicos. Tratava-se então apenas de fazer o trabalho voltar a suas antigas condições, como disse o ministro Trélat.” Karl Marx, “Dem Andenken der Juni-Kämpfer”, in: Karl Marx als Denker, Mensch und Revolutionär, ed. org. por D. Rjazanov, Viena-Berlim, 1928, p. 38 — publicado originalmente em Neue Rheinische Zeitung, por volta de 28 de junho de 1848.22
[a 17, 2]
Ultimo parágrafo do texto sobre os combatentes de junho, após a apresentação das medidas com que o Estado honraria a memória das vítimas da burguesia: “Os plebeus, porém, foram maltratados pela fome, humilhados pela imprensa, abandonados pelos médicos, discriminados pela ‘gente de bem’ como ladrões, incendiários, escravos nas galeras; viram suas mulheres e filhos lançados a uma miséria ainda mais profunda, e os seus melhores representantes deportados para além-mar — é a prerrogativa, o direito especial da imprensa democrática de colocar a coroa de louros sobre sua fronte sombria.” Karl Marx, “Dem Andenken der Juni-Kämpfer , in: Karl Marx ais Denker, Mensch und Revolutionür, ed. org. por D. Rjazanov, Viena-Berlim, 1928, p. 40 — publicado originalmente em Neue Rheinische Zeitung, por volta de 28 de junho de 1848.23
[a 17, 3]
Sobre o livro de Buret, De la Misère des Classes Laborieuses en Angleterre et en France, e o de Engels, Lage der arbeitenden Klasse in England: “Charles Andler apresenta o livro de Engels apenas como ‘uma refundição e um aperfeiçoamento’ do texto de Buret. Para nós, no entanto, o único ponto de convergência das duas obras é o fato de ambas ... se apoiarem nas mesmas fontes... Os critérios de avaliação do francês permanecem ancorados no direito natural..., enquanto o alemão recorre em suas explanações às tendências do desenvolvimento econômico e social. Enquanto Engels vê como única salvação para a situação presente a evolução para o comunismo, Buret aposta na mobilização completa da propriedade territorial, na política social e em um sistema constitucional para as fábricas.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, p. 195.
[a 17a, 1]
Engels sobre a Insurreição de Junho. “Em um diário de viagem, provavelmente destinado à publicação no folhetim do Neue Rheinische Zeitung, ele escreveu: ‘Entre a Paris daquele tempo e a de agora havia o 1 5 de maio e o 25 de junho... As granadas de Cavaignac tinham destruído a insuperável alegria parisiense; a ‘Marselhesa’ e ‘O canto da partida’ haviam silenciado, e apenas os burgueses ainda cantarolavam entre os dentes o seu ‘Morrer pela pátria’; os operários, sem pão e sem armas, rangiam os dentes segurando a raiva.’” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, p. 317.24
[a 17a. 2]
Durante a Insurreição de Junho, Engels considerava “o Leste e o Oeste de Paris os símbolos dos dois grandes campos inimigos em que se dividiu aqui a sociedade inteira pela primeira vez”. Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, Berlim, 1933, p. 312.
[a 17a, 3]
Marx chama a revolução de “nosso bom amigo, nosso Robin Hood, a velha toupeira que sabe trabalhar tão rapidamente sob a terra — a revolução”. No mesmo discurso, ao final: “Na Idade Média havia na Alemanha um tribunal secreto, o Femgericht, para vingar os desmandos dos poderosos. Quando se via um sinal vermelho em uma casa, aquilo significava que seu proprietário caíra nas garras do Femgericht. Hoje há em todas as casas da Europa uma misteriosa cruz vermelha. A própria história é o juiz — e quem executa a sentença é o proletariado.” Karl Marx, “Die Revolutionen von 1848 und das Proletariat”, discurso proferido durante a comemoração do quarto aniversário de People’s Paper, que o publicou em 19 de abril de 1856 [em Karl Marx als Denker, Mensch und Revolutionär, ed. org. por D. Rjazanov, Viena-Berlim, 1928, pp. 42 e 43].
[a 17a, 4]
Marx defende Cabet contra Proudhon, considerando-o “respeitável devido à sua posição prática diante do proletariado”. Marx a Schweitzer, Londres, 24 de janeiro de 1865, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, p. 143.
[a 18, 1]
Marx a respeito de Proudhon: “A Revolução de Fevereiro foi, de fato, muito inoportuna para Proudhon, pois justamente algumas semanas antes ele havia comprovado de maneira irrefutável que a era das revoluções’ estava encerrada para sempre. Embora tenha demonstrado uma limitada compreensão da situação existente, seu discurso na Assembléia Nacional merece elogios. Foi um ato de grande coragem depois da Insurreição de Junho. Além disso, de teve uma conseqüência feliz, já que o Sr Thiers, em seu discurso contra as propostas de Proudhon — depois publicado cm forma de brochura —, demostrou para toda a Europa que o catecismo infantil servia de pedestal para este pilar espiritual da burguesia francesa. Em comparação com o Sr Thiers, Proudhon assumiu de fato as proporções de um colosso antediluviano... Seus ataques contra a religião, contra a Igreja etc tiveram um enorme mérito local em uma época em que os socialistas franceses julgavam adequado mostrar, através de sua religiosidade, sua superioridade em relação ao voltairianismo burguês do século XVIII e ao ateísmo alemão do século XIX. Se Pedro, o Grande derrotou a barbárie russa por meio da barbárie, também Proudhon fez o melhor que pôde para abater a fraseologia francesa por meio de frases de efeito.” Marx a Schweitzer, Londres, 13 de janeiro de 1865, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, pp. 143-144.
[a 18, 2]
“Para o seu divertimento: no Journal des Économistes de agosto deste ano, foi publicado um artigo sobre o comunismo..., onde se lê: ‘... O Sr Marx é um sapateiro, assim como um outro comunista alemão, Weitling, é um alfaiate... Marx não sai ... nunca ... das fórmulas abstratas e evita abordar qualquer questão verdadeiramente prática. Segundo ele (veja este disparate) a emancipação do povo alemão será o sinal da emancipação do gênero humano; a cabeça dessa emancipação será a filosofia e seu coração será o proletariado. Quando tudo estiver preparado, o galo gaulês anunciará a ressurreição germânica... Marx diz que é preciso criar na Alemanha um proletariado universal (!!) a fim de realizar o pensamento filosófico comunista.”’ Engels a Marx, por volta de 1 6 de setembro de 1846, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Briefwechsel, vol. I, 1844-1853, ed. org. pelo Instituto Marx-Engels-Lenin, Moscou-Leningrado-Zurique, 1935, pp. 45-46.
[a 18, 3]
“O esquecimento total da causalidade revolucionária e contra-revolucionária é consequência necessária de qualquer reação vitoriosa.” Engels a Marx, Manchester, 18 de dezembro de 1868, a propósito dos livros de Eugène Ténot sobre o golpe de Estado de 1851; in: Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, p. 209.
[a 18, 4]
[...]
Luís Filipe a Guizot: “Jamais conseguiremos realizar nada na França, e aproxima-se o dia em que meus filhos não terão pão para comer.” S. Kracauer, Jacques Offenbach und das Paris seiner Zeit, Amsterdam, 1937, p. 139.
[a 18a, 8]
Muitos manifestos precederam o Manifesto Comunista. (Por exemplo, o Manifeste de la Démocratie Pacifique, de Consideram, em 1843.)
[a 19, 1]
Fourier considera os sapateiros “pessoas tão polidas quanto as outras, quando reunidas numa associação”. Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, Paris, 1829, p. 221.
[a 19, 2]
[...]
Proudhon sobre Hegel: “A antinomia não se resolve: eis o vício fundamental de toda a filosofia hegeliana. Os dois termos do qual ela se compõe se equilibram... Um equilíbrio não é uma síntese.” “... Não nos esqueçamos”, complementa Cuvillier, “que Proudhon foi contador durante muito tempo”. Em outra passagem, Proudhon fala dos pensamentos que determinam sua filosofia como “idéias elementares, comuns à manutenção dos livros e à metafísica”. Armand Cuvillier, “Marx et Proudhon”, in: À la Lumière du Marxisme, vol. II, Paris, 1937, pp. 180-181.
[a 19, 4]
Em Die heilige Familie, Marx afirma que o princípio enunciado por Proudhon no texto seguinte já tinha sido apresentado em 1830 pelo economista inglês Sadler. Proudhon diz: ‘“Esta força imensa, que resulta da união e da harmonia dos trabalhadores, da convergência e da simultaneidade de seus esforços, o capitalista não a pagou.’ Foi assim que 200 granadeiros conseguiram, em algumas horas, erguer na Place de la Concorde o obelisco de Luxor, enquanto um só, trabalhando 200 dias, não teria chegado a nenhum resultado. ‘Separai os operários uns dos outros, e pode ser que a jornada paga a cada um ultrapasse o valor de cada produto individual; mas não é disso que se trata. Uma força de mil homens, agindo durante vinte dias, foi paga como a força de um só seria paga durante 55 anos; mas essa força de mil fez em vinte dias o que a força de um só, repetindo seu esforço durante um milhão de séculos, não conseguiria concluir: será que este é um negócio justo?’” Armand Cuvillier, “Marx et Proudhon”, in: À la Lumiere du Marxisme, vol. II, Paris, 1937, p. 196.
[a 19, 5]
19 O Passage Raoult — ou: Raoul — abrigava nos anos 1860 reuniões de comissões operárias; cf. Jean Tulard, org., Dictionnaire du Second Empire, Paris, Fayard, 1995, p. 592 (verbete “Greves et droit de grève”). (w.b.)
20 O que está em questão é o esboço do Manifesto Comunista. (E/M)
21 A segunda visita de Engels a Paris deu-se em outubro e novembro de 1847. (E/M)
22 O artigo foi publicado em 29 de junho de 1848. (R.T.)
23 Ver nota anterior. (R.T.)
24 Em 15 de maio de 1848, após uma manifestação em favor
da Polônia, uma multidão invadiu o recinto da recém-eleita Assembléia
Constituinte, de maioria conservadora: a ordem foi restabelecida pela
Garde Nationale. 25 de junho foi o último dia em que a insurreição
demonstrou seu poder; os generais Bréa e Négrier, assim como o deputado
Charbonnel foram mortos pelos rebeldes. Na manhã seguinte, o general
Cavaignac, depois de ter rejeitado as propostas de negociação dos
rebeldes, lançou contra eles um ataque esmagador em seu último reduto,
no faubourg Saint-Antoine. (E/M)
BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.