3.4.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/continua

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 
An die Kämpfer in den Konzentrationslagern
 
Kaum Erreichbare, ihr!
In den Konzentrationslagern begraben
Abgeschnitten von jedem menschlichen Wort
Unterworfen den Miẞhandlungen
Niedergeknüppelte, aber
Nicht Widerlegte!
Verschwundene, aber
Nicht Vergessene!
 
Hören wir wenig von euch, so hören wir doch: ihr seid
Unverbesserbar.
Unbelehrbar, heißt es, seid ihr der proletarischen Sache ergeben
Unabbringbar davon, daß es immer noch in Deutschland
Zweierlei Menschen gibt: Ausbeuter und Ausgebeutete
Und daß nur der Klassenkampf
Die Menschenmassen der Städte und des Landes aus
dem Elend befreien kann.
Nicht durch Stockschläge, noch durch Aufhängen, hören wir, seid ihr
So weit zu bringen, zu sagen, daß
Zwei mal zwei jetzt fünf ist.
 
Also seid ihr
Verschwunden, aber
Nicht vergessen
Niedergeknüppelt, aber
Nicht widerlegt
Zusammen mit allen unverbesserbar Weiterkämpfenden
Unbelehrbar auf der Wahrheit Beharrenden
Weiterhin die wahren
Führer Deutschlands. [1933]
 
Aos combatentes nos campos de concentração
 
Quase inacessíveis, vocês!
Nos campos de concentração enterrados
Apartados de qualquer palavra humana
Submetidos aos maus-tratos
Espancados, mas
Não refutados!
Desaparecidos, mas
Não esquecidos!
 
Pouco escutamos de vocês, mas escutamos: vocês são
Imelhoráveis.
Inensináveis, diz-se, entregues à causa proletária
Irremovíveis disso, porquanto na Alemanha ainda
Há dois tipos de pessoas: explorador e explorado
E somente a luta de classes
Pode livrar as massas humanas da miséria
Na cidade e no campo.
Nem por meio de porretes nem por meio de forcas ouvimos
Que vocês estão prestes a dizer que
Dois mais dois são cinco.
 
Por isso vocês estão
Desaparecidos, mas
Não esquecidos!
Espancados, mas
Não refutados
Com todos os que seguem lutando, imelhoráveis
Inensináveis, perseverando na verdade
Os verdadeiros Führers
Da Alemanha.

In finsterer Zeit
 
Blutigster Unterdrückung
Geht die Wahrheit über das Land
In löchrigen Schuhen
Geht sie mitten durch die Verfolgung.
 
Der Knüppel sagt: es sind alle satt
Die Pistole schwört: hier friert keiner
Aber sieben mal weggescheucht
Kehrt der Verfolgte zu seinesgleichen zurück
Und verbreitet die Wahrheit.
 
Von der Oberfläche weggescheucht
Berät ohne Unterlaß
Der Untergrund.
 
Freilich
Kleiner werden die Kader. Es sinken Boten dahin
Nicht abgeholt wird die Nachricht.
Es gerät in Vergessenheit der Treffpunkt.
Die Folterung öffnet die Münder nicht
Aber der Mord schließt sie. [c. 1933]
 
Em tempos sombrios
 
De opressão mais sanguinária
A verdade anda pelo país
Com sapatos furados
Caminha em meio à perseguição.
 
O porrete diz: estão todos saciados
A pistola jura: ninguém morre de frio
Mas sete vezes escorraçado
O perseguido volta para os seus
E difunde a verdade.
 
Escorraçado da superfície
Aconselha sem trégua
O subterrâneo.
 
Claro
Os quadros encolhem. Os mensageiros escoceam
Não é recolhida a mensagem.
Cai em esquecimento o ponto de encontro.
A tortura não faz as bocas se abrirem
Mas o assassinio as fecha.
 
Verlust eines wertvollen Menschen
 
Du hast eines wertvollen Menschen verloren.
Daß er von dir ging, ist kein Beweis
Daß er nicht wertvoll ist. Gib zu:
Du hast eines wertvollen Menschen verloren.
 
Du hast eines wertvollen Menschen verloren.
Er ging von dir, weil du einer guten Sache dienst
Und er ging zu einer nichtigen. Und dennoch, gib zu:
Du hast eines wertvollen Menschen verloren. [c. 1933]
 
Perda de uma pessoa valiosa
 
Você perdeu uma pessoa de valor.
Que ela se foi não é nenhuma prova
De que não tinha valor. Reconheça:
Você perdeu uma pessoa de valor.
 
Você perdeu uma pessoa de valor.
Foi-se, pois você serve a uma causa boa
E ela foi para uma ruim. Mas reconheça:
Você perdeu uma pessoa de valor.

Gegen die Objektiven
1
Wenn die Bekämpfer des Unrechts
Ihre verwundeten Gesichter zeigen
Ist die Ungeduld derer, die in Sicherheit waren
Groß. 
 
2
Warum beschwert ihr euch, fragen sie
Ihr habt das Unrecht bekämpft! Jetzt
Hat es euch besiegt: schweigt also!
 
3
Wer kämpft, sagen sie, muß verlieren können
Wer Streit sucht, begibt sich in Gefahr
Wer mit Gewalt vorgeht
Darf die Gewalt nicht beschuldigen.
 
4
Ach, Freunde, die ihr gesichert seid
Warum so feindlich? Sind wir
Eure Feinde, die wir Feinde des Unrechts sind?
Wenn die Kämpfer gegen das Unrecht besiegt sind
Hat das Unrecht doch nicht recht!
 
5
Unsere Niederlagen nämlich
Beweisen nichts, als daß wir zu
Wenige sind
Die gegen die Gemeinheit kämpfen
Und von den Zuschauern erwarten wir
Daß sie wenigstens beschämt sind! [c. 1933]
 
Contra os imparciais
 
1
Quando os que combatem a injustiça
Mostram suas faces machucadas
A impaciência dos que estavam em segurança
É grande.
 
2
Por que vocês reclamam, eles perguntam
Vocês combateram a injustiça!
Ela venceu: calem-se, portanto!
 
3
Quem luta, dizem, tem que saber perder
Quem procura briga, põe-se em perigo
Quem procede com violência
Não pode a violência recriminar.
 
4
Ah, amigos que estão em segurança
Por que tanta inimizade? Então somos
Inimigos, nós, os inimigos da injustiça?
Se os que combatem a injustiça são vencidos
Não deixa a injustiça de ser injustal
 
5
Ora, as nossa derrotas
Apenas comprovam que somos
Muito poucos
Os que combatem a maldade
E dos espectadores esperamos
Que ao menos se envergonhem!

Über die Bedeutung des zehnzeiligen Gedichts
in der 888. Nummer der Fackel (Oktober 1933)
 
Als das Dritte Reich gegründet war
Kam von dem Beredten nur eine kleine Botschaft.
In einem zehnzeiligen Gedicht
Erhob sich seine Stimme, einzig um zu klagen
Daß sie nicht ausreiche.
 
Wenn die Greuel ein bestimmtes Maß erreicht haben
Gehen die Beispiele aus.
Die Untaten vermehren sich
Und die Weherufe verstummen.
Die Verbrechen gehen frech auf die Straße
Und spotten laut der Beschreibung.
 
Dem, der gewürgt wird
Bleibt das Wort im Halse stecken.
Stille breitet sich aus und von weitem
Erscheint sie als Bewilligung.
Der Sieg der Gewalt
Scheint vollständig.
 
Nur noch die verstümmelten Körper
Melden, daß da Verbrecher gehaust haben.
Nur noch über den verwüsteten Wohnstätten die Stille
Zeigt die Untat an.
 
Ist der Kampf also beendet?
Kann die Untat vergessen werden?
Können die Ermordeten verscharrt und die Zeugen geknebelt werden?
 
Kann das Unrecht siegen, obwohl es das Unrecht ist?
Die Untat kann vergessen werden.
Die Ermordeten können verscharrt und die Zeugen können geknebelt werden.
 
Das Unrecht kann siegen, obwohl es das Unrecht ist.
Die Unterdrückung setzt sich zu Tisch und greift nach dem Mahl Mit den blutigen Händen.
 
Aber die das Essen heranschleppen
Vergessen nicht das Gewicht der Brote; und ihr Hunger bohrt noch
Wenn das Wort Hunger verboten ist.
 
Wer Hunger gesagt hat, liegt erschlagen.
Wer Unterdrückung rief, liegt geknebelt.
Aber die Zinsenden vergessen den Wucher nicht.
Aber die Unterdrückten vergessen nicht den Fuß in ihrem Nacken.
Ehe die Gewalt ihr äußerstes Maß erreicht hat
Beginnt aufs neue der Widerstand.
 
Als der Beredte sich entschuldigte
Daß seine Stimme versage
Trat das Schweigen vor den Richtertisch
Nahm das Tuch vom Antlitz und
Gab sich zu erkennen als Zeuge. [1933]
 
Sobre o significado do poema de dez versos
no 888o número de O Archote (outubro 1933)
 
Quando o Terceiro Reich foi fundado
Veio do Loquaz apenas uma pequena mensagem.
Num poema de dez versos
Sua voz elevou-se só para lamentar
Que ela não bastava.
 
Quando o horror atinge um certo nível
Os exemplos se acabam.
Os crimes se multiplicam
E os clamores se calam.
A contravenção desfila atrevida pela rua
E debocha alto do relato.
 
Quem é estrangulado
Fica com a palavra presa na garganta.
O silêncio se alastra e de longe
Assemelha-se a uma licença.
O triunfo da força
Parece completo.
 
Somente os corpos mutilados ainda
Avisam que os criminosos moraram ali.
Somente nas moradias devastadas o silêncio ainda
Denuncia o crime.
 
Então a luta terminou?
Pode o crime ser esquecido?
Os assassinados podem ser enterrados e as testemunhas amordaçadas?
 
A injustiça pode vencer, apesar de ser injustiça?
O crime pode ser esquecido.
Os assassinados podem ser enterrados e as testemunhas amordaçadas.
 
A injustiça pode vencer, embora seja a injustiça.
A opressão se senta à mesa e agarra a refeição
Com mãos ensanguentadas.

Mas os que carregam a comida
Não esquecem o peso dos pães; e a fome deles persiste ainda
Que a palavra fome esteja proibida.
 
Quem disse fome, foi trucidado.
Quem clamou opressão, foi amordaçado.
Mas os endividados não esquecem os agiotas.
Mas os oprimidos não esquecem os pés em suas costas.
Antes que a força atinja o seu extremo
A resistência começa de novo.
 
Quando o Loquaz se desculpou
De que sua voz falhara
O silêncio se apresentou ao juiz
Tirou a toalha de seu rosto e
Declarou-se testemunha.

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)

1.4.26

continua/Hugo Pratt/Corto Maltese: La casa dorada de Samarcanda/entra

PRATT, Hugo (1927-1995) Corto MalteseLa casa dorada de Samarcanda Hugo Pratt; texto de introducción Los habitantes del cuadrito, El mundo le queda Corto de Marcelo Birmajer; El Libro de Fierro extra. — Buenos Aires: Ediciones de la Urraca, 1987.

continua/Hugo Pratt/Corto Maltese: As Célticas/Corto Maltese: Le Celtiche/sai

PRATT, Hugo (1927-1995). Corto Maltese: As Célticas / Corto MalteseLe Celtiche / Hugo Pratt; 1971/1972; prefácio François RIVIÈRE; extras inéditos; tradução Marcello Fontana.  Salvador: Trem Fantasma, 2025.

Rio • Louise Garcia e Corentin Rouge

A editora sempre surpreendendo. No início lançou vários argentinos que achei que só eu conhecia no Brasil (lembro quando a Martins Fontes, que trouxe grandes quadrinhos em 80/90, lançou o Eternauta neste seculo xxi, já achei esquisito).

Depois a Comix Zone lançou vários outros que eu conhecia ou vim a descobrir com eles, de vários países. Até alguns que já tinha visto o autor, como Jodorowsky, que, entre outras coisas, vi todos os filmes dele até Santa Sangre (que era o último) do lado dele, chegando na Chantal Montellier, que falei com ela em dois dias.

Agora lança este, que parece muito bom, com grande técnica de desenho e estilo. Quadrinhos sobre o Rio, até onde me lembro, só me vem os do enorme Solano López (El Día del Juicio e Sangue Bom). E grande parte de Carimbê, do Ferréz e Doug Firmino. Mas Rio parece tão potente e carioca, desenhado por um Francês.

 Rubens e Nina cresceram em uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Sua vida muda drasticamente no dia em que sua mãe é assassinada por Jonas, um policial corrupto do qual ela era informante e amante. Lançados à própria sorte nas ruas, eles precisam aprender rapidamente a sobreviver em um ambiente impiedoso.

O destino, no entanto, oferece uma saída inesperada: a adoção por uma família rica. Assombrado pela morte da mãe e agora responsável por sua irmã mais nova, Rubens passa da pobreza das favelas e das ruas para a classe média alta brasileira, descobrindo os diferentes lados de uma sociedade marcada pela violência e pela desigualdade.

Este volume integral reúne amor, vingança, loucura, corrupção policial e intrigas políticas em um thriller urbano eletrizante, criado pela roteirista brasileira Louise Garcia e pelo desenhista francês Corentin Rouge (Thorgal Saga, XIII Mystery).

A edição tem acabamento de luxo, com formato grande, capa dura e 304 páginas em cores, impressas em papel couchê de alta gramatura.

Corentin Rouge nasceu em 1983, em Paris, França. Formado pela École supérieure des Arts Décoratifs em 2006, estreou nos quadrinhos em 2004 com uma história curta publicada na revista Métal Hurlant. Entre 2009 e 2013, publicou a série Milan K., com roteiro de Sam Timel. Em 2012, desenhou o one-shot Juarez, escrito por Nathalie Sergeef, e, em 2016, com Fred Duval no roteiro, desenhou um volume da série XIII Mystery. Entre 2016 e 2019, desenhou a série Rio, em quatro volumes, escrita por Louise Garcia, aclamada pelo realismo gráfico e pela intensidade narrativa. Em 2024, novamente com Fred Duval, desenhou um volume da série Thorgal Saga, e, em 2025, lançou o primeiro volume de sua nova série Islander, escrita por Caryl Férey. Seu traço é reconhecido por combinar realismo detalhado, fluidez narrativa e a tradição da escola franco-belga clássica.

Capa dura
Formato 21 x 27,5 cm
304 páginas
ISBN 9786501630175
edição: Ferréz e Thiago Ferreira

29.3.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

 
U
[Saint-Simon, Ferrovias]
[...]
Socialismo utópico. “A classe capitalista ... considerava seus adeptos como meros excêntricos ou fanáticos inofensivos... Estes adeptos, aliás, fizeram tudo o que era humanamente possível para parecerem ... como tais. Assim, vestiam roupas de corte especial (por exemplo, os saint-simonianos abotoavam seus hábitos nas costas, para que ao vesti-los fossem obrigados a pedir ajuda a um companheiro, sendo lembrados, dessa maneira, da necessidade da união), usavam chapéus excepcionalmente grandes, barbas muito longas etc.” Paul Lafargue, “Der Klassenkampf in Frankreich”, Die Neue Zeit, XII, n° 2, p. 618.
[U 3, 2] 
[...]
Engels sobre Das Wesen des Christentums [A Essência do Cristianismo] , de Feuerbach: “Mesmo as falhas do livro contribuíram para seu efeito imediato. O estilo beletrista, por vezes até empolado, garantiu um público maior, e em todo caso foi um conforto após longos anos de hegelianismo abstrato e abstruso. O mesmo vale para o endeusamento excessivo do amor, que encontrou uma desculpa diante da já insuportável soberania do pensamento puro’. Mas o que não deve ser esquecido é que precisamente estas duas fraquezas de Feuerbach foram tomadas como ponto de partida pelo verdadeiro socialismo’, que se alastrou desde 1844 na Alemanha culta como uma peste, substituindo o conhecimento científico pela retórica literária, e a emancipação do proletariado através da transformação econômica da produção pela libertação da humanidade por meio do ‘amor’. Em suma, ele naufragou na beletrística repugnante e no pdthos sentimental, cujo representante típico foi o Sr. Karl Grün.” Friedrich Engels, “Ludwig Feuerbach und der Ausgang der klassischen deutschen Philosophie”, Die Neue Zeit, IV, Stuttgart, 1886, p. 150. [Resenha de C. N. Starcke, Ludwig Feuerbach, Stuttgart, 1885.]
[U 3a, 1]
“As estradas de ferro ... exigiram, ao lado de outras coisas impossíveis, uma transformação do modo de propriedade... De fato, até então, um indivíduo burguês conduzia uma indústria ou um comércio apenas com seu dinheiro, ou, no máximo, com o dinheiro de mais um ou dois amigos ou conhecidos... Ele administrava o dinheiro e era o efetivo proprietário da fábrica ou do estabelecimento comercial. As estradas de ferro, no entanto, exigiram capitais tão gigantescos que não era possível encontrá-los concentrados nas mãos de algumas poucas pessoas. Assim, um grande número de burgueses teve que confiar seu precioso dinheiro, que nunca perdiam de vista, a pessoas que mal conheciam de nome... Uma vez que o dinheiro era aplicado, eles perdiam qualquer controle sobre sua utilização, e nem sequer tinham direito de propriedade sobre as estações ferroviárias, vagões, locomotivas etc. ... Tinham direito apenas sobre os proventos; em vez de um objeto, ... era-lhes entregue ... um mero pedaço de papel, que representava a ficção de uma parte infinitamente pequena e inacessível da propriedade efetiva, cujo nome vinha escrito embaixo em letras graúdas... Esta forma ... representava uma contradição tão violenta àquela familiar aos burgueses ... que em sua defesa se encontravam apenas pessoas ... suspeitas de querer derrubar a ordem social, ou seja, os socialistas: primeiro Fourier, e depois Saint-Simon, recomendaram a mobilização da propriedade na forma de ações em papel.” Paul Lafargue, “Marx’ historischer Materialismus”, Die Neue Zeit, XXII, Stuttgart, 1904, n° 1, p. 831.
[U 3a, 2]
Há uma revolta por dia. Nessas ocasiões, os estudantes, filhos de burgueses, unem-se fraternalmente aos operários, e estes crêem que chegou a hora. Conta-se também, seriamente, com os alunos da École Polytechnique.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, 1900, p. 287. 
[U 3a, 3]
[...]
Uma diferença notável entre Saint-Simon e Marx. O primeiro amplia do modo mais abrangente possível o número dos explorados, incluindo entre eles até os empresários, uma vez que estes pagam juros a seus credores. Marx, ao contrário, inclui na burguesia todos aqueles que de alguma forma são exploradores, ainda que estes também sejam vítimas de exploração.
[U 4,2]
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

28.3.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/continua

 2. BERLIM [1924-1933]
 
Gründungssong der National Deposit Bank
 
Nicht wahr, eine Bank zu gründen
Muß doch jeder richtig finden
Kann man schon sein Geld nicht erben
Muß man's irgendwie erwerben.
Dazu sind doch Aktien besser
Als Revolver oder Messer
Nur das eine ist fatal 
Man braucht Anfangskapital.
Wenn die Gelder aber fehlen
Woher nehmen, wenn nicht stehlen?
Ach, wir wolln uns da nicht zanken
Woher habens die andern Banken
Irgendwoher ists gekommen
Irgendwem haben sie's genommen. [1930]

Funk de fundação do Banco Nacional de Depósitos
 
Fundar um banco é um projeto
Que ninguém acha incorreto
Quem não for rico de herança
Tem que lidar com finança.
Bem melhor comprar ações
Que revólveres e facões
Mas tem algo que é fatal
Para início  o capital.
Se, contudo, falta grana
Que fazer? A gente afana.
Ademais, sejamos francos
De onde a arrancam os outros bancos?
Se o dinheiro vem de um lado
De algum bolso foi tirado.

Paragraph 1
 
1
Die Staatsgewalt geht vom Volke aus
– Aber wo geht sie hin?
Ja, wo geht sie wohl hin?
Irgendwo geht die doch hin!
Der Polizist geht aus dem Haus.
– Aber wo geht er hin?
usw.
 
2
Seht, jetzt marschiert das große Trumm.
 Aber wo marschiert es hin?
Ja, wo marschiert es hin?
Irgendwo marschiert das doch hin!
Jetzt schwenkt es um das Haus herum.
– Aber wo schwenkt es hin?
usw.
 
3
Die Staatsgewalt macht plötzlich halt.
Da sieht sie etwas stehn.
– Was sieht sie denn da stehn?
Da sieht sie etwas stehn.
Und plötzlich schreit die Staatsgewalt
Sie schreit: Auseinandergehn!
– Warum auseinandergehen?
Sie schreit: Auseinandergehen!
 
4
Da steht so etwas zusammengeballt
Und etwas fragt: warum?
Warum fragt es denn warum?
Da fragt so was warum!
Da schießt natürlich die Staatsgewalt
Und da fällt so etwas um.
Was fällt denn da so um?
Warum fällt es denn gleich um?
 
5
Die Staatsgewalt sieht: da liegt was im Kot.
Irgendwas liegt im Kot!
Was liegt denn da im Kot?
Da liegt etwas, das ist mausetot.
Aber das ist ja das Volk!
Ist das denn wirklich das Volk?
Ja, das ist wirklich das Volk. [1930]
 
Parágafo 1
 
1
O poder do Estado vem do povo
Mas ele vai para onde?
Sim, para onde é que vai?
Para algum lugar ele vai!
O policial sai da casa.
-Mas ele vai para onde?
etc.
 
2
Vejam, agora marcha a grande turba.
– Mas ela marcha para onde?
Sim, para onde é que marcha?
Para algum lugar ela marcha!
Agora vira ao redor da casa.
– Mas ela vira para onde?
etc.

3
O poder do Estado súbito para.
Ele vê que algo está ali.
– O que ele vê que está ali?
Ele vê que algo está ali.
E súbito o poder do Estado grita
Ele grita: Debandar!
 Debandar por quê?
Ele grita: Debandar!
 
4
Algo está se aglomerando ali
E algo pergunta: por quê?
Por que é que pergunta por quê?
Algo pergunta por quê!
E, claro, o poder do Estado atira
E algo cai ali no chão.
O que cai ali no chão?
Por que é que cai logo no chão?

5
O poder do Estado vê: algo está na merda.
Alguma coisa está na merda!
O que que está na merda?
Algo está lá, mortinho da silva.
Ora, mas é o povo!
Será que é mesmo o povo?
Sim, é mesmo o povo.

Das Lied vom SA-Mann
 
Als mir der Magen knurrte, schlief ich
Vor Hunger ein.
Da hört ich sie ins Ohr mir
Deutschland erwache! schrein.
 
Da sah ich viele marschieren
Sie sagten: ins dritte Reich.
Ich hatte nichts zu verlieren
Ich lief mit, wohin war mir gleich.
 
Als ich marschierte, marschierte
Neben mir ein dicker Bauch
Und als ich Brot und Arbeit schrie
Da schrie der Dicke das auch.
 
Der Staf hatte hohe Stiefel
Ich lief mit nassen Füßen mit
Und wir marschierten beide
In gleichem Schritt und Tritt.
 
Ich wollte nach links marschieren
Nach rechts marschierte er
Da ließ ich mich kommandieren
Und lief blind hinterher.
 
Und die da Hunger hatten
Marschierten matt und bleich
Zusammen mit den Satten
In irgendein drittes Reich.
 
Sie gaben mir einen Revolver
Sie sagten: Schieß auf unsern Feind!
Und als ich auf ihren Feind schoß
Da war mein Bruder gemeint.
 
Jetzt weiß ich: drüben steht mein Bruder.
Der Hunger ist's, der uns eint
Und ich marschiere, marschiere
Mit seinem und meinem Feind.
 
So stirbt mir jetzt mein Bruder
Ich schlacht' ihn selber hin
Und weiß nicht, daß, wenn er besiegt ist
Ich selber verloren bin. [1931]
 
A canção do homem da SA
 
O estômago ronca, adormeci
Com uma fome tamanha.
Quando soa em meu ouvido
Um grito: Acorda, Alemanha!
 
Então vi muitos em linha
Marchando: ao Terceiro Reich
Dizem. Como eu nada tinha
A perder, como de praxe
 
Marchei com eles. Quando gritei
Bem alto Trabalho e pão!
Um barrigudo também
Esgoelou o meu refrão.
 
Com botas de cano longo
Eles marcham, e eu descalço
No molhado, mas me ponho
A marchar no mesmo passo.
 
Para esquerda, certa feita
Quis marchar, mas esse assunto
Não discutem e pra direita
Foram. E às cegas eu fui junto.

Quem estava bem magrinho
Pálido gritava marche!
Entre os fartos, a caminho
Desse tal Terceiro Reich.
 
E me deram um revólver
E disseram: Mete bala
No inimigo! Mas é do
Meu irmão que a gente fala.
 
Nossa fome, sei agora
Nos irmana. E pelo breu
Vou marchando rua afora
Com o inimigo dele e o meu.
 
Assim morre o meu irmão
Minha mão é que o estraçalha.
Derrotando-o, não sabia então:
Me perdi nessa batalha.

Lob des Kommunismus
 
Er ist vernünftig, jeder versteht ihn. Er ist leicht.
Du bist doch kein Ausbeuter, du kannst ihn begreifen.
Er ist gut für dich, erkundige dich nach ihm.
Die Dummköpfe nennen ihn dumm, und die Schmutzigen
nennen ihn schmutzig.
Er ist gegen den Schmutz und gegen die Dummheit.
Die Ausbeuter nennen ihn ein Verbrechen
Wir aber wissen:
Er ist das Ende der Verbrechen.
Er ist keine Tollheit, sondern
Das Ende der Tollheit.
Er ist nicht das Rätsel
Sondern die Lösung.
Er ist das Einfache
Das schwer zu machen ist. [c. 1931]
 
Elogio do comunismo
 
Ele é inteligível, todos o entendem. Ele é fácil.
Você não é um explorador, você pode compreendê-lo.
Ele é bom para você, informe-se sobre ele.
Os burros o chamam de burro, e os sujos
O chamam de sujo.
Ele é contra a sujeira e contra a burrice.
Os exploradores o chamam de crime
Mas nós sabemos:
Ele é o fim dos crimes.
Ele não é nenhuma idiotice, mas
O fim da idiotice.
Ele não é o enigma
Mas a solução.
Ele é o simples
Que é difícil de fazer.
 
Von allen Werken
 
Von allen Werken, die liebsten
Sind mir die gebrauchten.
Die Kupfergefäße mit den Beulen und den abgeplatteten Rändern
Die Messer und Gabeln, deren Holzgriffe
Abgegriffen sind von vielen Händen: solche Formen
Schienen mir die edelsten. So auch die Steinfliesen um alte Häuser
Welche niedergetreten sind von vielen Füßen, abgeschliffen
Und zwischen denen Grasbüschel wachsen, das
Sind glückliche Werke.
 
Eingegangen in den Gebrauch der vielen
Oftmals verändert, verbessern sie ihre Gestalt und werden Köstlich
Weil oftmals gekostet.
Selbst die Bruchstücke von Plastiken
Mit ihren abgehauenen Händen liebe ich. Auch sie
Lebten mir. Wenn auch fallen gelassen, wurden sie doch getragen.
Wenn auch überrannt, standen sie doch nicht zu hoch.
Die halbzerfallenen Bauwerke
Haben wieder das Aussehen von noch nicht vollendeten
Groß geplanten: ihre schönen Maße
Sind schon zu ahnen; sie bedürfen aber
Noch unseres Verständnisses. Anderseits
Haben sie schon gedient, ja, sind schon überwunden. Dies alles
Beglückt mich. [1932]
 
De todas as coisas
 
De todas as coisas, as mais queridas
Por mim são as usadas.
As vasilhas de cobre com amassos e bordas achatadas
As facas e garfos com seus cabos de madeira
Degradados por tantas mãos: essas formas
Me pareciam as mais nobres. Também os pisos de pedra ao redor
De casas antigas, pisoteados por tantos pés, desgastados
E por entre os quais nascem tufos de capim, isso
São coisas felizes.
 
Levadas para o uso de muitos
Alteradas amiúde, aprimoram sua forma e se tornam deleitosas
Porque deleitadas amiúde.
Até os fragmentos de esculturas
Com suas mãos decepadas eu adoro. Eles também
Viveram para mim. Ainda que derrubados, foram carregados.
Ainda que atropelados, não se ergueram alto demais.
As edificações semidestruídas
Têm de novo a feição da inacabada grandeza
Planejada: suas belas medidas
Já são perceptíveis; precisam, porém
De nossa compreensão. Por outro lado
Já serviram, sim, já foram superadas. Isso tudo
Me agrada.

Lob der dialektik
 
Das Unrecht geht heute einher mit sicherem Schritt.
Die Unterdrücker richten sich ein auf zehntausend Jahre.
Die Gewalt versichert: So, wie es ist, bleibt es.
Keine Stimme ertönt außer der Stimme der Herrschenden.
Und auf den Märkten sagt die Ausbeutung laut:
Jetzt beginne ich erst.
Aber von den Unterdrückten sagen viele jetzt:
Was wir wollen, geht niemals.
 
Wer noch lebt, sage nicht: niemals!
Das Sichere ist nicht sicher.
So, wie es ist, bleibt es nicht.
Wenn die Herrschenden gesprochen haben
Werden die Beherrschten sprechen.
Wer wagt zu sagen: niemals?
An wem liegt es, wenn die Unterdrückung bleibt? An uns.
An wem liegt es, wenn sie zerbrochen wird?
Ebenfalls an uns.
Wer niedergeschlagen wird, der erhebe sich!
Wer verloren ist, kämpfe!
Wer seine Lage erkannt hat, wie soll der aufzuhalten sein?
Denn die Besiegten von heute sind die Sieger von morgen
Und aus Niemals wird: Heute noch! [c. 1932]
 
Elogio da dialética
 
A injustiça avança hoje a passos firmes.
Os opressores se preparam para dez mil anos.
A violência assegura: assim como está, vai ficar.
Nenhuma voz ressoa, exceto a dos governantes.
E nos mercados a exploração diz alto:
Agora é que eu começo.
Mas entre os oprimidos muitos dizem agora:
O que queremos, nunca dá.
 
Quem ainda vive, não diz: nunca!
O seguro não está seguro.
Assim como está, não vai ficar.
Quando os governantes tiverem falado
Os governados hão de falar.
Quem se atreve a dizer: nunca?
De quem é a culpa, se a opressão perdura? Nossa.
De quem é a culpa, se ela for destruída?
Também nossa.
Quem for derrotado que se levante!
Quem está perdido, lute!
Quem reconheceu sua situação, como haverá de ser detido?
Os vencidos de hoje hão de ser os vencedores de amanhã
E do nunca se faz: ainda hoje!
 
3. SVENDBORG [1933-1939] 

Das Lied vom Anstreicher Hitler
 
Der Anstreicher Hitler
Sagte: Liebe Leute, laßt mich ranl
Und er nahm einen Kübel frische Tünche
Und strich das deutsche Haus neu an. 
Das ganze deutsche Haus neu an.
 
Der Anstreicher Hitler
Sagte: Diesen Neubau hat's im Nu!
Und die Löcher und die Risse und die Sprünge
Das strich er einfach alles zu.
Die ganze Scheiße strich er zu.
 
O Anstreicher Hitler
Warum warst du kein Maurer? Dein Haus
Wenn die Tünche in den Regen kommt
Kommt der Dreck drunter wieder raus.
Kommt das ganze Scheißhaus wieder raus.
 
Der Anstreicher Hitler
Hatte bis auf Farbe nichts studiert
Und als man ihn nun eben ranließ
Da hat er alles angeschmiert.
Ganz Deutschland hat er angeschmiert. [1933]
 
Canção do pintor de paredes Hitler
 
Hitler, o pintor de paredes
Disse: Povo, deixa eu dar uma mão!
Pegou um balde de cal e deixou
Novo em folha o lar alemão.
Renovado o lar alemão.
 
Hitler, o pintor de paredes
Disse: Prédios novos pego pra já!
As rachaduras e frinchas e furos
Sem mais ele pôs-se a pintar.
Toda a merda pôs-se a pintar.
 
Ei, Hitler, pintor de paredes
Por que você não é pedreiro? Ora
Sempre que chove e respinga na cal
A imundície de baixo aflora.
A merda inteira vem pra fora.

Hitler, o pintor de paredes
Jamais estudou nada além de tinta.
Quando o deixaram mostrar seu talento
A nossa Alemanha ele pinta
Numa cor marrom indistinta.
 
Außenpolitischen Ballade
 
Und es sprach der Anstreicher Hitler:
Jetzt haben wir Deutschland geeint
Und jetzt müssen wir nur mehr sorgen
Daß wir sonst haben keinen Feind.
 
Und er schlug die Arbeiter nieder
Und begann sein Friedenswerk
Und schickte sogleich nach England
Seinen Duzfreund Rosenberg.
 
Der konnte kein Englisch sprechen
Er hatte es nicht gelernt
Vier Tage verstand er die Engländer nicht
Und dann hat er sich wieder entfernt.
 
Und er sprach zu seinem Freund Hitler:
Was ist das für ein Stuß
Daß, um England ind den Arsch zu kriechen
Man englisch sprechen muß? [1933]
 
Balada da política externa
 
O pintor de paredes Hitler
Falou: o povo está unido
Melhor nos preocupar agora
Em deixar de ter inimigo.
 
Os operários subjugou
E um plano de paz foi feito
E ele enviou à Inglaterra
Rosenberg, amigo do peito.
 
Mas este não sabia inglês
E com os ingleses durante
Quatro dias não se entendeu
E voltou, achando um displante.
 
E disse a seu amigo Hitler:
Ora, pra lamber o colhão
Da Inglaterra não basta ter
Na ponta da língua o alemão?!

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)