g
[A Bolsa de Valores, História Econômica]
“Napoleão representou a última batalha do terrorismo revolucionário contra a sociedade burguesa, proclamada pela revolução, e contra sua política. Napoleão, na verdade, já tinha compreendido a essência do Estado moderno e o fato de este ter como base o livre desenvolvimento da sociedade burguesa, o livre jogo de interesses particulares etc. ... Entretanto, ao mesmo tempo, Napoleão ainda via o Estado como fim em si mesmo e a sociedade burguesa como mera guardiã do tesouro... Ele aperfeiçoou o terrorismo colocando a guerra permanente no lugar da revolução permanente... Se ele oprimiu de maneira despótica o liberalismo da sociedade burguesa — o idealismo político de sua práxis cotidiana —, ele não foi mais indulgente com os interesses materiais essenciais dela, comércio e indústria, cada vez que estes entravam em conflito com seus próprios interesses políticos. Seu desprezo pelos homens de negócios ligados à indústria era o complemento ao seu desprezo pelos ideólogos... Da mesma forma que, sob Napoleão, o terrorismo revolucionário se contrapôs, mais uma vez, à burguesia liberal, assim também na Restauração, sob os Bourbons, a contra-revolução mais uma vez se opôs a ela. Em 1830, a burguesia finalmente realizou seus desejos de 1789, porém com a diferença de que então seu esclarecimento [Aufklärung] político já estava concluído, e ela agora não considerava mais o Estado representativo constitucional como meio de alcançar o Estado ideal, tampouco o bem-estar do mundo ou objetivos humanos universais; ao contrário, ela o reconhecia como a expressão oficial de seu poder exclusivo e como o reconhecimento político de seus interesses particulares.” Karl Marx e Friedrich Engels, Die heilige Familie, cit. em Die Neue Zeit, Stuttgart, III, 1883, pp. 388-389.
[g 1, 1]
[...]
<fase média>
[...]
“O protestantismo ... aboliu os santos no céu a fim de poder suprimir na terra os feriados a eles dedicados. A Revolução de 1789 foi ainda mais longe. A religião reformada havia conservado o domingo; os burgueses revolucionários achavam que um dia de descanso em cada sete era demais, e instituíram, no lugar da semana de sete dias, a década, para que houvesse um dia de descanso só a cada dez dias. E para enterrar de vez a lembrança dos feriados religiosos..., substituíram no calendário republicano os nomes dos santos pelos nomes de metais, plantas e animais.” Paul Lafargue, “Die christliche Liebestätigkeit”, Die Neue Zeit, Stuttgart, XXIII, n° 1, pp. 145-146.
[g 2, 2]
“A questão dos pobres assumiu logo nos primeiros dias da Revolução ... o caráter de máxima gravidade e urgência. Bailly, que acabara de ser eleito prefeito de Paris com o propósito de aplacar a miséria ... dos operários, agrupou-os e formou uma massa — cerca de 18.000 pessoas — e os encurralou como animais selvagens na colina de Montmartre; aqueles que haviam tomado a Bastilha de assalto vigiavam os operários com canhões, segurando nas mãos as mechas acesas... Se a guerra não tivesse empurrado os operários das cidades e os camponeses desempregados e desamparados ... para o exército, e não os tivesse lançado às fronteiras, teria havido uma sublevação popular ... na França inteira. Paul Lafargue, “Die chrisdiche Liebestätigkeit”, Die Neue Zeit, Stuttgart, XXIII, n° 1, p. 147.
[g 2, 3]
“Nosso século, em que o soberano está em toda parte, menos no trono.” Balzac, prefacio de Un Grand Homme de Province à Paris, cit. em Georges Batault, Le Pontife de la Démagogie, Motor Hugo, Paris, 1934, pp. 230-231.
[g 2a, 1]
[...]
Sobre a Bolsa de Valores: “A Bolsa data somente da época do Sr. de Villèle; havia mais iniciativa e saint-simonismo na cabeça desse ministro de Toulouse do que se poderia imaginar... Sob sua administração, os cargos de agente de câmbio chegaram a ser vendidos por um milhão de francos. A especulação, entretanto, apenas balbuciava seus primeiros lucros; os quatro pequenos bilhões da dívida francesa, alguns milhões da dívida espanhola e da dívida napolitana eram o alfabeto no qual ela aprendia a ler... Acreditava-se na propriedade rural e na casa... Dizia-se de um homem rico: ele possui terras no campo e casas na cidade!... Foi a partir de 1832, depois das ... prédicas do saint-simonismo..., que o país encontrou-se maduro para seu grande destino financeiro. Em 1837, um entusiasmo irresistível arrastou todos os espíritos para a Bolsa; a criação das ferrovias deu uma nova força a este elã... A petite-coulisse3 [o pregão paralelo] ocupa-se dos negócios da pequena burguesia; a contre-petite-coulisse [o pequeno pregão paralelo] movimenta os capitais do proletariado. Um pregão opera para os porteiros, os cozinheiros, os cocheiros, os donos de rotisseria, os comerciantes de aviamentos, os garçons de café; o outro desce um degrau abaixo na hierarquia social. Um dia dissemos a nós mesmos: ‘O sapateiro, o vendedor de fósforos, o limpador de fossas, o vendedor de batatas fritas, não sabem como utilizar seus capitais; podemos abrir para eles o grande mercado da Bolsa’... Abrimos então o pequeno pregão paralelo. Vendíamos por 3 francos, 50 centavos de renda fixa; fazíamos lucros de um centavo; os negócios eram abundantes no pequeno pregão paralelo, quando sobreveio a debacle do mês passado.”’ [Taxile Delord,] Les Petits Paris, vol. I, Paris-Boursier, Paris, 1854, pp. 6-8, 56-57.
[g 3, 2]
[...]
Retrato do agiota Diard, por Balzac, em Les Marana. “Ele pediu tantos por cento sobre a compra de quinze vozes legislativas que, no espaço de uma noite, passaram da bancada da Esquerda para a bancada da Direita. Esse tipo de ação não é mais nem crime, nem roubo, é um modo de governar, ser um comanditado da indústria.” Cit. em Abbé Charles Calippe, Balzac: Ses Idées Sociales, Reims-Paris, 1906, p. 100.
[g 3a, 2]
[...]
“Não era a burguesia francesa como tal que dominava sob o rei burguês, mas unicamente ... a aristocracia financeira. A indústria inteira, por sua vez, estava na oposição.” Eduard Ernchs. Die Karikatur der europäischen Völker, Munique, 1921, vol. I, p. 365.
[g 3a, 4]
“Antes de 1830, a grande agricultura detinha o poder público. Depois de 1830, a indústria tomou esse lugar, mas seu reinado já tinha sido preparado sob o regime que foi derrubado barricadas... Enquanto em 1814 havia 15 fábricas que possuíam máquinas, eram 65 em 1820, e 625 em 1830.” Paul Louis, Histoire de la Classe Ouvrière en France de la Révolution à nos Jours, Paris, 1927, pp. 48-49.
[g 3a, 5]
<fase tardia>
“A escravidão dos governos cresce, e o poder dos especuladores chegou a tal ponto que o jogo da Bolsa tornou-se bússola da opinião pública.” Cit. em F. Armand e R. Maublanc, Fourier, Paris, 1937, vol. II, p. 32. [g 4, 1]
A Bolsa de Fourier: “A Bolsa de uma Falange é bem mais animada e mais complexa que as de Londres ou de Amsterdam, uma vez que cada indivíduo tem que organizar uma grande quantidade de encontros para os dias seguintes — encontros de negócios ou de prazeres... Supondo que haja 1.200 indivíduos presentes e 20 sessões de tratativas por indivíduo, há nessa reunião um total de 24.000 negociações a concluir, sendo que cada uma pode envolver 20, 40, 100 indivíduos, que precisam ser consultados nominalmente, em uma luta cabalística... Negocia-se por sinais e sem barulho. Cada negociador exibe em [ ]5 os escudos dos grupos ou das falanges para quem ele negocia, e certos sinais convencionais indicam em que ponto estão as negociações, se já se alcançou a metade, ou um terço, ou um quarto das adesões.” Publication des Manuscrits de Fourier, Paris, 1851-1858, 4 vols., ano 1851, pp. 191-192.
[g 4, 2]
A designação “Bolsa de trabalho” foi inventada por Fourier, ou por um de seus adeptos.
[g 4, 3]
Em 1816, sete valores foram listados na Bolsa; em 1847, mais de 200.
[g 4, 4]
Em 1825, segundo Marx, a primeira crise da indústria moderna, isto é, a primeira crise do capitalismo.
[g 4, 5]
3 Ver arquivo “O”, nota 10. (w.b.)
5 O espaço vazio encontra-se desta forma no livro citado. (R.T.)
i
[Técnica de Reprodução, Litografia]1
[...]
Pigal descreve o povo; Monnier, a pequena-burguesia; Lami, a aristocracia.
[i 1, 2]
Nos primeiros tempos da litografia, observa-se a ação significativa dos amadores — exatamente como ocorreu mais tarde no caso da fotografia.
[i 1, 3]
“A luta entre a litografia e a gravura pontilhada se acentuava a cada dia, e desde o fim de 1817 a vitória coube à litografia, graças à caricatura.” Henri Bouchot, La Lithographie, Paris, 1895, p. 50.
[i 1, 4]
[...]
Raffet realizou uma reportagem litográfica na Criméia.
[i 1, 7]
[...]
Sobre as contribuições de Doré ao Journal Illustré e ao Journal pour Tous: “Estas publicações baratas — Journal pour Tous, Journal Illustré, Tour du Monde — , nas quais Doré se dedicava com uma prodigalidade e uma verve espantosas, serviam-lhe, antes de tudo, como laboratório de pesquisas. Com efeito, nas grandes edições das livrarias, produzidas a custo elevado (para a época) por Hachette ou Garnier, a imaginação, a fantasia e a verve de Gustave Doré eram..., em certa medida, regulamentadas e limitadas pelas próprias exigências de uma edição de luxo.” Roger Dévigne, “Gustave Doré, illustrateur de journaux à deux sous et repórter du crayon”, Arts et Métiers Graphiques, n° 50, 15 dez. 1935, p. 35.
[i 1a, 2]
“O operário da Paris em revolução continua sendo apresentado nos livros e nas imagens como um velho soldado da guerra das ruas, um revolucionário experiente, circulando meio nu, com uma cartucheira e um sabre a tiracolo sobre a camisa, a cabeça coberta, como a de um rei da África, com um quepe adornado ou um chapéu de plumas, sem dinheiro, alquebrado, magnânimo, enegrecido de pólvora e suando sob o sol, pedindo ostensivamente água quando lhe oferecem um copo de vinho, instalando-se sobre a almofada do trono à moda dos sans-culottes de 93, revistando seus companheiros ao saírem dos apartamentos reais e fuzilando os ladrões. Olhem os desenhos de Charlet e de Raffet, leiam os relatórios em forma de apoteose que foram vendidos, alguns dias depois da batalha, em benefício das viúvas, dos órfãos e dos feridos.” Gustave Geffroy, L’Enfermé, Paris, 1926, vol. 1, p. 51.
[i la, 3]
Certos panfletos de Marx eram litografados. (Conforme Cassou, Quarante-huit, Paris, 1939, §148.)
[i 2]
1 Estas pesquisas de Benjamin sobre a litografia estão relacionadas com seu ensaio “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner tedinischen Reproduzierbarkeit” (A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica):
1a versão (1935): GS I, 431-469; trad. brasileira: OE I, pp. 165-196;
2a versão (1935/1936): GS VII, 350-384; versão francesa: “L’Œuvre d’Art à l’Époque de sa Reproduction Mécanisée” (1936), GS I, 709-739; 3 a versão (1936/1939), GS I, 471-508; trad. brasileira: W. Benjamin et al, Textos Escolhidos, São Paulo, Abril Cultural, 1975, pp. 9-34 (Coleção Os Pensadores, XLVIII). — Os
artistas mencionados neste arquivo temático são os seguintes: o
caricaturista Nicolas Charlet (1792-1862) (cf. Ch. Baudelaire, “Quelques Caricaturístes Français”, in: Œuvres Complètes, vol. II, pp. 546-549), Gustave Doré (1832-1883), o pintor Eugène Lami (1800-1890) (cf. Charles Baudelaire, “Le Peintre de la Vie Moderne”, in: op. cit, vol. II, p. 687), Henri Monnier (1805-1877) (cf. “Quelques Caricaturistes Français”, in: op. cit., vol. II, pp. 557-558), Edme-Jean Pigal (1798-1872) (op. cit,
pp. 545-546), Auguste Raffet (1804-1860), especialista em cenas
militares, e Alois Senefelder (1771-1834), inventor da litografia.
(J.L.; w.b.)
k
[A Comuna][...]
“Em algumas encruzilhadas nosso caminho se alarga inesperadamente em vastas cúpulas... Certamente cada um destes Coliseus clandestinos ofereceria pontos muito úteis para a concentração de forças em algumas eventualidades, assim como o infinito da rede subterrânea, com suas mil galerias, abre uma mina pronta sob todos os pontos da capital... O golpe fulminante que aniquilou o Império não lhe deixou o tempo para que utilizasse este recurso. É ainda mais difícil explicar por que os chefes da Comuna..., determinados a tudo, não tenham recorrido a esse formidável meio de destruição diante da entrada das tropas.” Nadar, Quand J’étais Photographe, Paris, 1900, p. 121 (“Paris souterrain”). Referência a “Carta de N... (Paris) a Louis Blanc (Versailles), maio de 1871”, que expressa tal expectativa.
[k la, 1]
“Se Rimbaud é, de fato, admirável, não é por ter se calado, mas por ter falado. Se ele se calou, foi certamente por falta de uma audiência verdadeira. E que a sociedade em que vivia não podia lhe oferecer essa audiência. Devemos nos lembrar do fato muito simples de que Arthur Rimbaud veio a Paris, em 1871, naturalmente para se engajar no exército da Comuna... No quartel do Château-d’Eau, o jovem Rimbaud não duvidava ainda da utilidade do escrever, e cantava as mãos da Mendiga, da Jeanne-Marie das periferias, que não é a Marianne de gesso das prefeituras:
‘Não são as mãos de primasMas de operárias de fronte largaQue bronzeia no bosque cheirando a usinaUm sol ébrio de betume.
.....
Elas empalideceram, maravilhosas,Ao sol pleno, de amor carregado,Sobre o bronze das metralhadorasAtravés da Paris insurreta...’
Então, nas Assembléias da Comuna ... viam-se ao lado das operárias de Paris..., dos combatentes do socialismo, o poeta da Internacional, Potier; o autor de L’Insurgé, Jules Vallès; o pintor do Enterrement à Ornans, Courbet; e o genial experimentador da fisiologia do cerebelo, o grande Flourens.” Aragon, “D’Alfred de Vigny à Avdeenko’, Commune, II, 20 abr. 1935, pp. 810 e 815.
[k la, 2]
BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.