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III. Metrópole & Megacidade: Histoire Croisée19
19 A histoire croisée, “história cruzada” ou “entrelaçada”, é uma variante metodológica dos estudos de transferência cultural que enfatiza a “troca de olhares” e a interação entre as culturas; cf. Werner, Michael; Zimmermann, Bénedicte, orgs., De la Comparaison à l’Histoire Croisée, Paris: Seuil, 2004. O signo “&” no nosso entretítulo, normalmente usado em nomes de empresas, indica que se trata de uma relação no contexto da economia política global, assim como na obra que nos serviu de modelo: Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre.
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Daqui a duzentos anos — ou bem antes, talvez — grandes exércitos vindos da Inglaterra, da França e da América ... descerão na velha Ásia sob o comando de seus generais; suas armas serão enxadas, seus cavalos, locomotivas. Eles se lançarão cantando sobre essas terras incultas e inaproveitadas... É assim, talvez, que se fará mais tarde a guerra contra todas as nações improdutivas [...]. [d 3, 3]
As guerras contra os territórios periféricos e as guerras que se travam no centro da metrópole são inter-relacionadas. Nos debates da Câmara dos Deputados, em Paris, surgiu a questão para onde deportar os insurgentes de 1848 [cf. d 9, 4], Assim como na antiga Roma, era quase consenso que o lugar mais adequado seriam os territórios coloniais. O deputado Jacques Arago, irmão do grande físico, advogou como lugar de deportação uma região da América do Sul, a Patagônia; os amplos benefícios que resultariam dessa operação, tanto para o Estado francês quanto para os próprios deportados, são expostos com estas palavras:
[E]stes antílopes, estes pássaros, estes peixes, estas águas fosforescentes, este céu pontilhado de nuvens passando aqui e ali como um rebanho de corças errantes, [...] estas mulheres, das quais as mais novas são muito apetitosas depois de uma hora de natação — [...] tudo isto é a Patagônia, tudo isto é uma terra virgem, rica, independente... [...] transportai para a Patagônia os homens que foram punidos pelas vossas leis; depois, quando chegar o dia da luta [da França contra a Inglaterra], estes mesmos homens que exilastes estarão na vanguarda, de pé, implacáveis. [a 12, 5]
Através destas amostras de pesquisas nas Passagens de Walter Benjamin, o leitor terá percebido o quanto a periferia do mundo se encontra no centro da metrópole, e o quanto de “desvario” e “inferno” [cf. <Go, 13> e <Go, 17>], próprios das megacidades do Terceiro Mundo, essas gigantescas reproduções deformadas do modelo da “metrópole civilizada”, já estavam presentes na “capital do século XIX”.23 Da época de redação das Passagens para cá, ocorreram profundas transformações históricas, desde os movimentos de descolonização, como a guerra da Algéria, até a migração de “massas escuras” [cf. E 6a, 1] para a banlieue da “cidade-luz”. Assim como sob o céu aberto da História, assim também nesse painel de comando que é o texto de Benjamin, algumas lâmpadas se apagaram, outras se acendem, e outras ainda se reacendem...
23 Sobre a loucura e o inferno na cidade de São Paulo, estudados com base na Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, e no CD, Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s, ver W. Bolle, Metrópoli & Mega-urbe: Histoire Croisée, in: Topografias de la Modemidad: Walter Benjamin, orgs. Dominik Finkelde, Teresa de la Garza, Francisco Mancera, Cidade do México, previsto para 2007.
Aqui encerramos; agora é a vez de o leitor fazer suas incursões, pesquisas e descobertas nesse Grande Arquivo que são as Passagens.
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BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.