


The Fall of the House of Usher
A Queda do Solar de Usher
Autor • Edgar Allan Poe
Tradução, Projeto Gráfico & Encadernação Manual • Paulo Vidal de Castro
Revisão • Thais Vilanova
Deu um pitaco na tradução do poema central • Lluis Vilanova
Fonte • Rialto
Papel • Avena 80g/m2
Papel da folha de guarda • Color Plus A5 180g/m² • azul marino
Tecido Saphir • bordeaux
edição de 2025
direito autoral © Paulo Vidal de Castro
caderno tipo fólio
com costura panfleto (3 pontos)
São Paulo/2023
capa dura com tecido
Traduzido a partir de:
POE, Edgar Allan. The Collected Tales and Poems of Edgar Allan Poe. — New York: The Modern Library, 1992.
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CD
Walken, Christopher. The Raven. s.d.
Edgar Allan Poe
“Há em nós uma presença obscura de Poe,
uma latência de Poe. Todos nós,
em algum lugar de nossa pessoa, somos ele,
e ele foi um dos grandes porta-vozes do homem,
aquele que anuncia o seu tempo noite adentro.”Cortázar
Na obra de Poe, alguns elementos insinuados em um conto, desenvolvem-se mais amplamente em outro. O que é parte ou detalhe em um conto, torna-se espinha dorsal de outro. Cria-se, assim, um sistema de referências internas, rebatimentos de um conto a outro: duplicações, espelhamentos, labirintos textuais. Em todos os seus contos existem obsessões ficcionais. Comentaremos agora algumas destas características:
A loucura pessoal dentro da lógica racional
Segundo Cortázar, Edgar Allan Poe escrevia “sem compromissos exteriores, escritas a sós, divorciadas de uma realidade bem cedo considerada precária, insuficiente, falsa. E o orgulho assume ainda o matiz característico do egoísmo. Poe é um dos egoístas mais cabais da literatura. Se no fundo ignorou sempre o diálogo, a presença do tu, que é a autêntica inauguração do mundo, isto se deve ao fato de que só consigo mesmo se dignava a falar. Por isso, não lhe importava que os seres queridos o compreendessem. Bastava-lhe o carinho e o cuidado; não necessitava deles para a confidência intelectual (...). Por fim o egotismo desembocará na loucura. (...) A conseqüência inevitável de todo orgulho e todo egotismo é a incapacidade de compreender o humano, de se aproximar dos outros, de medir a dimensão alheia. Por isso, Poe não conseguirá criar nunca uma só personagem com vida interior; o chamado romance psicológico o teria desconcertado”. Criam-se assim “personagens anormais”, para utilizar o termo cortazáriano. O material que Edgar Poe utiliza para construir os personagens é apenas o que ele possui: ele mesmo.
Mulher Amada
A mulher
amada morta apresenta-se sempre como uma constante, e o amante é sempre o
seu assassino – consciente ou inconscientemente, direta ou
indiretamente. A constante relação amante/amada na obra de Poe remete ao
que será falado sobre a questão do duplo, e a dialética vida/morte
implícita nesta.
O amante sempre acaba por idealizar a sua amada
transformando-a em um signo, e, por conseqüência, matando-a. Citando o
final do conto O Retrato Oval: “– É a vida, é a própria Vida que eu
aprisionei na tela! E quando se voltou para contemplar sua esposa...
Estava morta!” No conto Ligéia, se observarmos com atenção, não é Ligéia
que ressuscita e sim os seus olhos, pois era a única coisa que o
narrador dizia no início não conseguir definir. O resto era pura
idealização, de um amante com assumida doença de memória, que só se
lembrava de sua amada descrevendo-a como um mosaico de citações, ou
seja, uma imagem construída por ele. Essa idealização apresenta-se como
fuga, pois ao invés de relacionar-se diretamente com a mulher, e,
conseqüentemente, com o lado perene da vida, o narrador prefere
construir para ele um signo dela.
Em toda a obra de Edgar Allan Poe, seja em poesia, seja em prosa, a morte é representada simbolicamente pela aparência da mulher amada. Enquanto viva (sendo idealizada), tem os cabelos negros e encaracolados; e, quando morta (já idealizada), tem os cabelos loiros e lisos – mas todas elas apresentam uma testa avantajada (originada pela crença de Poe na frenologia).
Duplo/Morte/Espelhamento
“O leitor deve ter em mente
que a base de toda a arte da solução,
no que respeita esses assuntos,
deve ser encontrada nos princípios gerais
da própria linguagem”. Poe
O
Duplo é presente em toda obra de Poe, justamente na época da invenção
da máquina fotográfica que causou enorme impacto na época:
O registro
do objeto nunca é o próprio objeto, e sim a sua representação. Um
instante congelado e eternizado em uma fotografia apenas demonstra o seu
inverso: a morte e a evanescência de cada instante vivido. Qualquer
signo, em relação com o objeto, é um duplo. A única foto que se tem de
Poe foi tirada um dia após a sua tentativa de suicídio.
O duplo
aparece de várias formas na obra de Poe e manifesta-se tanto aos estados
psicológicos quanto à linguagem e à estrutura, formando verdadeiras
Gestalts compactas. Quebra-cabeças semióticos. Como disse Decio
Pignatari após uma brilhante análise heurística do conto Berenice: “o
conto de terror era afinal um puzzle”, e, segundo ele, o conto O Retrato
Oval é uma “vinheta da alienação que o signo – a consciência do signo –
produz em relação à vida”. O duplo chega até as formas mais radicais,
como no conto William Wilson. Tanto a estrutura, como os procedimentos
de linguagem, são decisivos para obter, nas palavras do próprio E. A.
Poe, as “correntes subjacentes de significado”. Utilizando-se desses
procedimentos, o escritor apresenta como constante, em toda a sua obra,
uma obsessão pelos processos de inversão ou reversão do signo sobre si
mesmo. Em 1925, W. Carlos Williams já percebia no escritor “o hábito,
emprestado talvez da álgebra, de equilibrar suas frases no meio, ou de
invertê-las na última cláusula, um sentido de jogo, como se se tratasse
de objetos...”. Essa mesma fascinação de Poe foi demonstrada por Roman
Jakobson no seu estudo do poema O Corvo: no refrão Never more/ Never
more, tem-se o “never”: imagem especular de “raven” (corvo).
Decio
Pignatari já disse que o escritor “compõe ao revés, no componedor,
palavras e frases, assim Poe endereça a linguagem à sua função poética
por processos anagramáticos e hipogramáticos...”.
Em toda obra de Poe
o espelhamento é sempre uma constante. Ao compor as suas narrativas
através de elaborada construção cerebral, ele rompe com a linearidade do
discurso. O escritor usa de forma intensa jogos de inversão, que se
manifestam tanto no nível anagramático lexical quanto na sintaxe das
frases. Mas eles também aparecem na macroconstrução de todas as suas
obras. A narrativa sempre é dividida em dois blocos, sendo que um é a
inversão do outro.
No poema Raven, por exemplo, a
ave surge como uma projeção e exteriorização do personagem (espelhamento
– duplo), para conseguir colocar para fora, através do desabafo, os
seus questionamentos. Como diz Poe, na Filosofia da Composição, ele o
faz pela simples “autotortura”, e, como também é dito neste ensaio,
pergunta motivado pela segurança de ter o controle da situação (que ele
tanto busca, por temer as suas dúvidas e incertezas), pois sabe que terá
apenas uma única resposta.
O poema, como já é de se esperar,
apresenta uma estrutura dividida ao meio, sendo uma metade a inversão da
outra. Na primeira, que tem como característica mais evidente o refrão
“nada mais”, o personagem passa por um processo de auto-ilusão,
imaginando coisas que quer que aconteçam, e banalizando os seus anseios e
a sua decepção pelas ilusões que não se concretizam, com frases do
tipo: “É apenas isso e nada mais”. Atitude que apenas torna patente a
sua insegurança.
Na segunda parte ocorre o inverso: a crescente e
contínua desilusão do personagem é refletida na imagem do Corvo (símbolo
do mau agouro), pois, como dizem Jakobson e Pignatari, a ave é aquilo
que diz (a desilusão) e diz a si mesmo (como a ave, no poema, fala com o
personagem, e, como foi dito, ela fala a si mesmo, ela não é nada mais
nada menos que a projeção do personagem).
Poe percebeu que na
impressão tipográfica os caracteres são colocados na prensa de forma
“espelhada” – o escritor deve ter tido um dos insights que originaram
esta característica marcante no seu estilo. No conto Xizando um
Editorial, por exemplo, foi incorporada de maneira metalingüística no
seu texto.
Podemos perceber o espelhamento de toda a estrutura em
várias de suas obras. N’O Barril de Amnontillado, por exemplo, onde – na
metade do conto – aparece o “intervalo entre dois colossais pilares de
teto das catacumbas”, que é o elemento mais importante da narrativa.
O
conto A Queda da Casa de Usher é espelhado de várias formas diferentes.
Bem no centro do texto, há um poema diagramado em ziguezague que
reflete uma fenda também descendo em ziguezague bem no meio da casa,
onde esta é divida no final do conto. Logo no início o narrador vê a
própria casa no espelhamento do eco no lago e sente o reflexo “com um
tremor ainda mais forte do que antes". Até a imagem do quadro pintado
por Usher na primeira parte ecoa com o local onde ele enterra a sua irmã
(o túnel ou adega).
Na verdade, a casa e os Ushers eram uma coisa
só. Existiam "janelas vazias, semelhando olhos". Os gêmeos, a casa e seu
espelhamento gêmeo no lago morrem todos juntos.“Nos livros de Edgar
Poe, [segundo Baudelaire] o estilo é cerrado, concatenado; (...) todas
as idéias, como flechas obedientes, voam para o mesmo alvo.”
Sons a partir de Poe
Poe e Anton Webern
“assim como uma intensa paixão pelas sutilezas,
talvez mesmo mais do que pelas belezas ortodoxas
e facilmente reconhecíveis,
da ciência musical.”A Queda da Casa de Usher, Poe
Podemos encontrar diversas semelhanças estruturais entre as obras poeana e weberniana. Uma delas é a fixação por formas espelhadas. Webern radicalizou o dodecafonismo schoenberguiano, com utilização das formas espelho, caranguejo e retrógrado construindo espelhamentos em todos os sentidos, construindo diamantes musicais, o que levou Herbert Eimert a denominá-lo “o arquiteto monádico da forma-espelho” – Poe foi denominado por muitos como o engenheiro dos espelhos. Assim, como o escritor, o compositor buscava montar estruturas simétricas e bipartidas, tanto nas macro como nas micro-estruturas.
É consenso geral nomear Edgar Allan Poe como o criador dos contos curtos. Para o escritor, cada conto deveria ser lido em “uma sentada”, o que o levou a buscar sempre o máximo de concentração e brevidade. Assim também fez o compositor vienense, compondo obras que duram entre dois e três minutos, com movimentos de poucos segundos, verdadeiros haicais sonoros. Ambos usaram com muita importância tanto o silêncio quanto o espelhamento geral da estrutura.
Outros
Poe influenciou direta, ou indiretamente, vários outros compositores. Ravel tinha-o como grande professor de composição e Debussy – que tem como uma de suas primeiras obras-primas o Prelúdio à tarde de um fauno, a partir de um poema de Mallarmé (enorme discípulos de Poe) – passou os últimos anos tentando compor a ópera A Queda da Casa de Usher, que nunca concluiu.
Imagens a partir de Poe
Vários
pintores e gravuristas foram influenciados por Poe, inclusive os que
fizeram obras a partir de seus textos. Citaremos apenas o gravurista
Gustave Doré – que fez uma série de gravuras a partir do Corvo – e
Odilon Redon – pintor e artista gráfico, influenciado por Doré e amigo
de Mallarmé, que fez uma série de gravuras a partir da obra de Poe.
Ele também influenciou muito os quadrinhos, com desenhistas criando grandes obras a partir de seus contos. Falaremos apenas de dois grandes mestres/inventores: Will Eisner, que criou uma versão da Queda da Casa de Usher; e Guido Crepax, que fez ilustrações a partir do conto Os Crimes da Rua Morgue em 1951, quando era ainda estudante de arquitetura, até desenhar, em 1972, contos de Poe quando já era o mestre dessa técnica e na qual imprimiu sua leitura sadomasoquista.
Imagens & Sons a partir de Poe
Grande quantidade de diretores de cinema foi influenciada por criações de Poe (assim como na literatura, filosofia, etc.). Até os terríveis filmes blockbusters sobre crimes e assassinatos foram paridos das idéias poeanas.
tradução cinematográfica de Jean Epstein para A Queda da Casa de Usher
No
conto, Roderick Usher têm hipersensibilidade dos sentidos – já no
filme, Epstein faz o oposto: o narrador é que têm os sentidos muito
fracos (tendo que usar uma lente para os olhos, quando quer ler; e um
fone para os ouvidos, quando quer escutar).
Epstein constrói o filme a
partir de dois contos de Poe: A Queda da Casa de Usher e O Retrato
Oval. No primeiro conto Roderick é irmão gêmeo de Madeline, mas no filme
eles são marido e mulher (como n’O Retrato Oval, e, como neste conto,
ele a pinta transformando-a em idéia, à medida que ela vai morrendo) – o
filme mostra a idealização das mulheres da família Usher através de
seus retratos, que criam “a idéia sobre o real”. No filme, Roderick
Usher olha para o quadro (onde Madeleine até pisca os olhos) e diz: “É
lá que ela vive”. Quanto mais a pintura vive, mais a mulher morre – até
morrer de fato.
No conto, Roderick e o narrador não contam para
ninguém que Madeleine morreu – no filme, todos sabem e Usher tenta
convencer o médico de que ela não morreu. Enquanto ele olha para a sua
pintura, o mordomo e o médico passam a tampa do caixão pela frente de
sua esposa pintada. No texto de Poe, apesar dos ruídos, só vemos
Madeleine voltando para a casa quando ela entra no quarto – já no filme,
enquanto o narrador lê para Roderick, já aparece ela saindo e, ao
contrário do conto em que os Ushers morrem com a casa, infelizmente os
três escapam.
The Fall of the House of Usher
A Queda do Solar de Usher
Autor • Edgar Allan Poe
Tradução, Projeto Gráfico & Encadernação Manual • Paulo Vidal de Castro
Revisão • Thais Vilanova
Deu um pitaco na tradução do poema central • Lluis Vilanova
Fonte • Rialto
Papel • Avena 80g/m2
Papel da folha de guarda • Color Plus A5 180g/m² • preto
Tecido Saphir • azul marino
edição de 2023
direito autoral © Paulo Vidal de Castro
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com costura panfleto (3 pontos)
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capa dura com tecido












































































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