18.2.26

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P 
[As Ruas de Paris]
 [...]
Quacumque ingredimus in aliquam historiam
vestigium ponimus .1

Dizem que Paris era a ville qui remue, a cidade que se move sem parar. Porém, não menos importante do que a vitalidade do mapa da cidade é a força invencível dos nomes de ruas, praças ou teatros que se mantêm a despeito de todos os deslocamentos topográficos. Quantas vezes não foram demolidos alguns daqueles pequenos teatros que, ainda à época de Luís Filipe, ficavam lado a lado no Boulevard du Temple, para ressurgirem novamente icffii tim outro quartier (repugna-me falar de “bairros”)? Quantos nomes de ruas mantêm 3mmÃs hoje o nome de um proprietário que, séculos atrás, possuíra seus terrenos naquele chão? O nome “Château d’Eau”, de uma antiga fonte que há muito não existe, aparece tis hoje como assombração em diversos arrondissements. A sua maneira, mesmo os estabelecimentos famosos asseguraram sua pequena imortalidade municipal, sem falar ia grande imortalidade literária reservada ao Rocher de Cancale, ao Véfour, aos Trois iteres Provinçaux. Pois mal um nome consegue impor-se no mundo gastronômico, mal um Vatel ou Riche tornam-se famosos, pululam até nas periferias de Paris os “Petits Vatels
 ou “Petits Riches”. Eis o movimento das ruas, o movimento dos nomes, que muitas vezes se chocam desordenadamente uns contra os outros.
[P 1, 1]
E depois as pequenas praças atemporais que surgem de repente, e às quais não se liga nenhum nome - que não foram planejadas com muita antecedência, como o foram a Place Vêndórne ou a Place des Grèves, e que não se encontram sob o patronato da história universal, mas que compareceram lentamente, sonolentas e atrasadas, como agrupamentos de construções, ao chamado do século. Em tais praças, as árvores têm a palavra, e até mesmo as menores dão uma sombra densa. Mais tarde, porém, diante das lanternas a gás, folhas parecem um vidro opaco verde-escuro, e seu precoce brilho verde à noite é osinal automático da chegada da primavera na cidade grande.
[P 1, 2]
[...]
Q
[Panorama]
No mesmo ano em que Daguerre inventou a fotografia, seu diorama foi destruído pelo fogo: 1839. ■ Precursores 
[Q 2, 5] 
 
1 "Toda vez que entramos em alguma história, deixamos um vestígio." (w.b.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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