“O empreendimento das Estradas de ferro ... levaria a Humanidade ... à necessidade de combater a obra da natureza sobre toda a Terra, de encher os vales, de cortar e pefurar as montanhas, ... de lutar, enfim, em todas as frentes, contra as condições naturais do solo de seu planeta ... e substituí-las universalmente por condições opostas. Victor Considérant, Déraison et Dangers de l’Engouement pour les Chemins en Fer, Paris, 1838, pp. 52-53.
[e depois, incomparavelmente pior; os carros e caminhões. Todos em estradas individualistas (e, cada vez mais, privatizadas]
[W9a, 2]
Charles Gide sobre o gênio divinatório de Fourier: “Quando ele escreve: ‘tal navio que partiu de Londres chega hoje à China; o planeta Mercúrio, avisado pelos astronomos da Ásia das chegadas e dos movimentos, transmitirá uma lista aos astronomos de Londres’, basta transpor essa profecia para o estilo atual e ler: ‘quando um navio chegar a China, a T.S F transmitirá a notícia à Torre Eiffel ou a Londres’; encontramos ai, penso eu, uma antecipação extraordinária. É exatamente o que ele quis dizer; o planeta Mercúrio está ali para representar uma força, ainda ignorada, que permitiria transmitir as mensagens — uma força que ele pressentiu.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, 1924, pp. 10-11.
[W 9a, 3]
Charles Gide sobre as absurdas especulações astrológicas de Fourier; “Como aquela sobre o papel dos três pequenos planetas, Palas, Juno e Ceres, que engendraram três espécies de groselhas, e de Phoebe (a lua), que devia ter engendrado uma quarta espécie, ainda mais saborosa - se infelizmente ‘ela não tivesse falecido’!” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 10.
[W 9a, 4]
“Quando ele fala ... de um exército celeste que o Conselho sideral resolveu enviar em socorro da Humanidade, exército que já está a caminho há 1.700 anos e que não tem mais que 300 anos de caminho a fazer para chegar aos confins do sistema solar ... isso dá um pouco da sensação de calafrio do Apocalipse. Em outras ocasiões, essa loucura se mostra amável, beirando quase a sabedoria, abundante em observações refinadas e engenhosas, um pouco como as de Dom Quixote, quando este recitava suas arengas sobre a Idade de Ouro aos pastores maravilhados.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 11.
[W 10, 1]
“Pode-se dizer, e ele mesmo o diz, que seu observatório — ou seu laboratório, se preferirmos — é a cozinha. É de lá que ele parte para se irradiar em todos os domínios da vida social.” Charles Gide, Fourier Précurseur de la Coopération, Paris, p. 20.
[W 10, 2]
[...]
Relação entre o Manifesto Comunista e o projeto de Engels; “A organização do trabalho uma concessão a Louis Blanc — e a edificação de grandes palácios comunitários em propriedades nacionais, que deveriam ajudar a superar a oposição entre cidade e campo — uma concessão aos fourieristas da Démocratie Pacifique — eram elementos tomados de empréstimo do projeto de Engels, mas que ficaram fora do Manifesto.” Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. I, Friedrich Engels in seiner Frühzeit, 2a ed., Berlim, 1933, p. 288.
[W 10, 4]
Engels sobre Fourier: ‘“A crítica de Fourier à civilização emerge em toda a sua genialidade apenas graças ao estudo de Morgan’, afirmou Engels a Kautsky, enquanto trabalhava em Der Ursprung der Familie [A origem da família]. Neste mesmo livro, porém, escreveu: ‘São os interesses mais baixos ... que inauguram a nova dominação civilizada — a das classes —; são os meios mais vergonhosos ... que provocaram a queda da antiga sociedade gentilícia, sem classes.’” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Engels und der Aufitieg der Arbeiterbewemng in Europa, Berlim, 1933, p. 439.
[W 10a, 1]
Marx sobre Proudhon em carta a Kugelmann de 9 de outubro de 1 866: “Sua pseudocrítica e sua pseudo-oposição aos utopistas (sendo ele mesmo apenas um utopista pequeno-burguês, enquanto nas utopias de um Fourier, Owen etc. percebem-se o pressentimento e a expressão fantástica de um novo mundo) primeiro conquistaram e seduziram a ‘juventude brilhante’, os estudantes, depois, os operários, principalmente os parisienses que, como operários de luxo, participavam efetivamente, sem o saber, do velho lixo.” Karl Marx e Friedrich Engels, Ausgewählte Briefe, ed. org. por V. Adoratskij, Moscou-Leningrado, 1934, p. 174.
[W 10a, 2]
“Estes berlinenses superespertos ainda vão fundar uma Démocratie Pacifique no Hasenheide,9 quando a Alemanha inteira abolir a propriedade... Preste atenção, logo aparecerá um novo Messias na região de Uckermark que moldará Fourier segundo Fiegel, construirá o falanstério a partir de categorias eternas e fará dele uma lei eterna da idéia que toma consciência de si mesma, segundo a qual o capital, o talento e o trabalho participam do lucro em proporções definidas. Será o Novo Testamento da ‘hegelmania’: o velho Hegel tornar-se-á o Velho Testamento; o ‘Estado’, a lei, será um preceptor da cristandade’; e o falanstério, em que serão dispostas as latrinas conforme a necessidade lógica, será o ‘novo céu’ e a ‘nova terra’, a nova Jerusalém, que descerá do céu enfeitada como uma noiva.” Engels a Marx, Barmen, em 19 de novembro de 1844, in: Karl Marx e Friedrich Engels, Briefwechsel, vol. I, 1844-1853, ed. org. pelo Instituto Marx-Engels-Lenin, Moscou-Leningrado, 1935, p. 11.
[W 10a, 3]
Apenas no alto estio do século XIX, apenas sob a luz desse sol é possível imaginar realizada a fantasia de Fourier.
[W 10a, 4]
“Cultivar nas crianças a audição aguçada dos rinocerontes e dos cossacos.” Ch. Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, ou Invention du Procédé d’Industrie Attrayante et Naturelle Distribuée en Séries Passionnées, Paris, 1829, p. 207.
[W 10a, 5]
Compreende-se facilmente o significado da culinária em Fourier; a felicidade possui receitas como qualquer pudim. Ela nasce a partir de uma dosagem exata de diversos ingredientes. Trata-se de um efeito. A paisagem, por exemplo, não significa nada para Fourier: ele não se interessa por seu aspecto romântico, já os miseráveis casebres dos camponeses o deixam indignado. Mas se a agriculture composée sente-se aí em casa, se as pequenas hordas e os pequenos bandos10 a percorrem, se nela acontecem os inebriantes desfiles militares do exército industrial, então conseguiu-se a dosagem da qual resulta a felicidade.
[W 11, 1]
A afinidade entre Fourier e Sade reside no momento construtivo que é próprio de todo sadismo. Fourier associa de forma singular o jogo de cores da fantasia com o jogo de números de sua idiossincrasia. É preciso compreender que as harmonias de Fourier não se baseiam em nenhuma das místicas numéricas tradicionais, como a de Pitágoras ou a de Kepler. Elas são um produto exclusivo de sua imaginação e conferem à harmonia algo de inacessível e protegido: é como se elas envolvessem os harmonianos com um fio dc atame farpado. A felicidade do falanstério é uma felicidade farpada. Por outro lado, pode-se perceber traços de Fourier em Sade. As experiências do sádico, que representam seus 120 Dias de Sodoma, constituem em sua crueldade exatamente aquele extremo que é tocado pelo idílio extremo de Fourier. Os extremos se tocam. O sádico poderia encontrar em suas experiências um parceiro que anseia justamente por aquelas humilhações e sofrimentos que seu torturador lhe inflige. De um único golpe ele se encontraria no centro de uma das harmonias que a utopia de Fourier persegue.
[W 11, 2]
O simplismo aparece em Fourier como marca da “civilização”.
[W 11, 3]
[...]
O sistema de Fourier se apoia, como ele mesmo esclarece, em duas descobertas: a da atração e a dos quatro movimentos. Estes são: o movimento material, o orgânico, o animal e o social.
[W 11a, 2]
Fourier fala de uma transmission miragique que possibilitaria receber em Londres noticias da Índia em quatro horas. Cf. Fourier, La Fausse Industrie, Paris, 1836, vol. II, p. 711.
[W 11a, 3]
“O movimento social é o padrão para os outros três movimentos; o animal, o orgânico e o material são coordenados com o movimento social, que é o primeiro na ordem. Ou seja, as propriedades de um animal, de um vegetal, de um mineral, e mesmo de um turbilhão de astros, representam algum efeito das paixões humanas na ordem social, e TUDO — desde os átomos até os astros — forma o quadro das propriedades das paixões humanas.” Charles Fourier, Théorie des Quatre Mouvements, Paris, 1841, p. 47.
[W 11a, 4]
A observação de mapas geográficos era uma das ocupações favoritas de Fourier.
[W 11a, 5]
Cronograma messiânico: em 1822, preparação do cantão experimental; em 1823, sua instalação e aprovação; em 1824, a imitação por todos os civilizados; em 1825, adesão dos bárbaros e selvagens; em 1826, organização da hierarquia esférica; em 1826, enxameamento dos destacamentos coloniais. — Deve-se entender como hierarquia esférica a “distribuição dos cetros de soberanias”. (Conforme E. Silberling, Dictionnaire de Sociologie Phalansténenne, Paris, 1911, p. 214).
[W 11a, 6]
O modelo do falanstério compreende 1.620 pessoas, ou seja: um exemplar masculino e um feminino de cada um dos 810 caracteres que, segundo Fourier, esgotam todas as possibilidades.
[W 11a, 7]
Em 1828, os pólos deveriam estar livres do gelo.
[apenas um pequeno erro de 2 séculos. Praticamente nada pelo tempo da terra e suas transformações]
[W 11a, 8]
[...]
“Os gostos dominantes em todas as crianças são: 1. Mexer, ou tendência a tudo manipular, tudo visitar, tudo percorrer, variar constantemente de função; 2. O ruído industrial, gosto pelos trabalhos barulhentos; 3. A macaquice, ou mania de imitar; 4. A miniatura industrial, gosto pelas pequenas oficinas; 5. O treinamento progressivo do fraco ao forte.” Charles Fourier, Le Nouveau Monde Industriel et Sociétaire, Paris, 1829, p. 213.
[W 12, 1]
9 Parque popular no bairro operário de Neukölln, em Berlim. (w.b.)
10 Dois terços das pequenas hordas são constituídos por meninos, dois terços dos pequenos bandos, por meninas. (E/M)
10 Dois terços das pequenas hordas são constituídos por meninos, dois terços dos pequenos bandos, por meninas. (E/M)
BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

Nenhum comentário:
Postar um comentário