30.5.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase média> 
Nadar a respeito de si mesmo: “Rebelde nato em relação a todo jugo, impaciente com todas as convenções, nunca soube responder a uma carta senão dois anos depois, um forada-lei em todas as casas em que não se pode esticar os pés junto à lareira, e — a fim de que nada lhe falte, nem mesmo um supremo defeito físico, para coroar a medida de todas essas atraentes virtudes e lhe arranjar alguns bons amigos a mais  míope, à beira da cegueira e, por conseqüência, atingido pela mais insolente amnésia diante de qualquer rosto que ele não tenha visto mais de vinte e cinco vezes a quinze centímetros de seu nariz.” Cit. em Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, p. 222.
[Y 5a, 6]
Invenções por volta de 1848: fósforos, velas de estearina, molas de aço.
[Y 5a, 7]
Invenção da prensa rotativa em 1814. Foi utilizada pela primeira vez pelo jornal The Times.
[Y 5a, 8]
Nadar a respeito de si mesmo: “Um antigo produtor de caricaturas ... refugiado finalmente no Botany-Bay da fotografia.” Cit. em Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, p. 220.
[Y 6, 1]
Sobre Nadar: “O que restará um dia do autor do Miroir aux Alouettes, de La Robe de Déjanire, de Quand Jétais Étudiant? Não sei. O que sei é que sobre uma ruína ciclópica da ilha de Gozo, um poeta polonês, Ceslaw Karski, gravou em árabe, mas com letras latinas: Nadar dos cabelos ondulantes passou pelo ar acima desta torre  e é provável que a esta hora os habitantes desta ilha o estejam adorando como um Deus desconhecido.” Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, pp. 223-224.
[Y 6, 2]
Fotografia de gênero: o escultor Calímaco inventa o capitel coríntio ao observar um acanto.  Leonardo pinta a Mona Lisa.  La Gloire et le Pot au Feu [A glória e a caçarola]. Cabinet des Estampes, Kc 164 a 1.
[Y 6, 3]
Uma água-forte de 1775 representa em uma cena de gênero como um artista capta a silhueta de um modelo através da sombra que este lança sobre a parede. Chama-se The Origin of Painting. Cabinet des Estampes, Kc 164 a 1.
[Y 6, 4]
Existe uma certa relação entre a invenção da fotografia e a do estereoscópio de espelho, por Wheatstone em 1838.10 “Mostram-se duas imagens diferentes do mesmo objeto: para o olho direito, uma imagem que representa o objeto em perspectiva, tal qual seria visto do ponto de vista do olho direito; para o esquerdo, uma imagem de como ele apareceria ao olho esquerdo  isto cria a ilusão de que temos diante de nós um objeto ... de três dimensões.” Egon Friedell, Kulturgeschichte der Neuzeit, vol. III, Munique, 1931, p. 139. A precisão exigida pelo jogo de imagens deste estereoscópio o aproxima muito mais da fotografia que da pintura.
[Y 6, 5]
É preciso investigar a provável afinidade entre Wiertz e Edgar Quinet.
[Y6, 6]
“A objetiva é um instrumento como o lápis ou o pincel; a fotografia é um procedimento como o desenho e a gravura, porque o que faz o artista é o sentimento e não o procedimento. "Iodo homem que tenha uma inspiração feliz e a habilidade necessária pode, pois, obter os mesmos efeitos com qualquer um desses meios de reprodução. Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, pp. 4-5.
[Y 6, 7 ]
[...]
Na Exposição universal de 1855, a fotografia, apesar de seu vivo protesto, não pôde entrar no santuário do palácio da Avenue Montaigne; foi condenada a procurar asilo no imenso bazar de produtos de toda espécie que enchiam o Palácio da Indústria. Em 1859, pressionada mais fortemente, a comissão dos museus ... concedeu, no Palácio da Indústria, um lugar para a exposição de fotografia, bem ao lado da exposição de pintura e de gravura, mas com uma entrada separada e, por assim dizer, numa outra chave.” Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859. Paris, 1860, p. 2.
[Y 6a, 2]
“Um fotógrafo hábil tem sempre seu próprio estilo, tanto quanto um desenhista ou um pintor ... e, além disso ... o caráter próprio ao espírito artístico de cada nação revela-se com... evidência nas obras provenientes de diferentes países... Jamais um fotógrafo poderia ser confundido ... com um de seus colegas do outro lado da Mancha.” Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, p. 5.
[Y 6a, 3]
Os primórdios da fotomontagem vieram da tentativa de preservar o caráter pitoresco das fotografias paisagísticas. “O Sr. Silvy tem um sistema excelente para a execução de seus quadros... Ele não aplica em todas as paisagens, indiferentemente, um mesmo céu formado por um clichê uniforme; sempre que possível, ele tem o cuidado de realçar, sucessiva e separadamente, a vista da paisagem e a vista do céu que a coroa. Este é um dos segredos do Sr. Silvy.” louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, p. 9.
[Y 6a, 4]
É significativo que a brochura de Figuier sobre o Salão fotográfico de 1859 comece com uma discussão sobre a fotografia paisagística.
[Y 6a, 5]
No Salão de fotografia de 1859, numerosas “viagens”: ao Egito, a Jerusalém, à Grécia, à Espanha. Em sua apresentação, Figuier observa: “Mal se conheciam os procedimentos práticos da fotografia sobre papel, e já um enxame de operadores se aventurava por toda parte, para nos trazer vistas de monumentos, de edifícios, de ruínas, vistas tomadas de todas as terras do mundo conhecido.” Daí as novas voyages photographiques. Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1859, p. 35.
[Y 6a, 6]
Dentre as reproduções de obras destacadas especialmente por Figuier em La Photographie au Salon, encontram-se as reproduções dos cartões de Rafael, de I íampton-Court  “a obra ... que domina toda a exposição fotográfica de 1859” (p. 51)  e de um manuscrito da Geografia, de Ptolomeu, que data do século XIV e que se encontrava, naquela época, em um convento do Monte Athos.
[Y 7, 1]
Havia retratos feitos especialmente para serem vistos através do estereoscópio. A moda propagou-se sobretudo na Inglaterra.
[Y 7, 2] 
Figuier (pp. 77-78) não deixa de chamar a atenção para a possibilidade de utilizar as fotografias microscópicas em épocas de guerra, para mensagens secretas (na forma de telegramas em miniatura).
[Y 7, 3]
Uma ... observação que resulta do exame atento da exposição ... é o aperfeiçoamento ... das chapas positivas. Há cinco ou seis anos, a ... preocupação quase exclusiva no domínio da fotografia era o clichê negativo..., mal se pensava na utilidade de uma boa impressão das chapas positivas. Louis Figuier, La Photographie au Salon de 1859, Paris, 1860, p. 83.
[Y 7, 4]
Provável sintoma de uma mudança profunda: a pintura deve se sujeitar à avaliação segundo parâmetros da fotografia: Estamos ao lado do público quando admirarmos ... o artista delicado que..., este ano, manifestou-se com uma pintura capaz de rivalizar, em refinamento, com as provas daguerrianas.” Este é o julgamento de Auguste Galimard a respeito de Meissonnier, em: Examen du Salon de 1849, Paris, 1850, p. 95. 
[Y 7, 5]
Fotografar em versos”  como sinônimo de descrição em versos. Édouard Fournier, Chroniques et Légendes des Rues de Paris, Paris, 1864, pp. 14-15.
[Y 7, 6]
Enfim, abriu-se a primeira sala de cinema do mundo. Em 28 de dezembro de 1895, no subsolo do Grand Café, no Boulevard des Capucines, n° 14, em Paris. E a primeira bilheteria de um espetáculo para o qual mais tarde seriam investidos bilhões, atingiu a soma considerável de 35 francos!” Roland Villiers, Le Cinéma et ses Merveilles, Paris, 1930, pp. 18-19.
[Y 7, 7]
“Como o momento da guinada em direção à reportagem fotográfica deve ser mencionado o ano de 1882, quando o fotógrafo Ottomar Anschütz, de Lissa, na Polônia, inventou o obturador de cortina, possibilitando assim a fotografia instantânea propriamente dita.” Europäische Dokumente: Historische Photos aus den Jabren 1840-1900, Stuttgart-Berlim-Leipzig, ed. org. por Wolfgang Schade, p. V
[Y 7, 8]
A primeira entrevista fotográfica foi realizada por Nadar em 1886, com o químico francês Chevreuil, de noventa e sete anos. Europäische Dokumente: Historische Photos aus den Jahren 1840-1900, Stuttgart-Berlim-Leipzig, pp. 8-9.11 
[Y 7, 9]
“A primeira experiência que orientou as pesquisas sobre um movimento cientificamente produzido ... foi a do doutor Parès, em 1825. Ele havia desenhado uma gaiola em um dos lados de um pequeno quadrado de papel-cartão, e, no outro lado, um pássaro; ao fazer este cartão girar rapidamente sobre um eixo ... apareciam sucessivamente as duas imagens, mas o pássaro parecia estar dentro da gaiola, como se houvesse um só desenho. Esse fenômeno, que é em si mesmo todo o cinema, baseia-se no princípio da persistência das impressões da retina... Uma vez que se admite esse princípio, fica fácil compreender que um movimento decomposto e apresentado num ritmo de dez imagens, ou mais, por segundo, é percebido pelo olho como um movimento perfeitamente contínuo. O primeiro aparelho que realizou o milagre do movimento artificial foi o fenacistiscópio construído pelo físico belga Plateau, já em 1833, e que se conhece ainda hoje como um brinquedo... É composto de um disco em que se encontra uma seqüência de desenhos representando os movimentos sucessivos de um personagem, e que deve ser observada com o disco em plena rotação... Há ... uma relação evidente com nossos atuais desenhos animados... Os pesquisadores perceberam ... o interesse que haveria em substituir as imagens desenhadas ... por uma seqüência de fotografias. Infelizmente ... apenas as imagens apresentadas em, no mínimo, um décimo de segundo podiam servir a esse projeto. Para isso, foi preciso esperar as placas de gelatino-brometo, que permitiram fazer os primeiros instantâneos. Foi a astronomia que deu o primeiro ensejo para a experiência da cronofotografia. Em 8 de dezembro de 1874, o astrônomo Jansen pôde testar, graças a uma passagem do planeta Vénus sobre o sol, um revólver fotográfico de sua invenção, que batia uma fotografia a cada 70 segundos... Logo depois, a cronofotografia ficaria muito mais rápida... É ... que o professor Marey entra na arena com seu fuzil fotográfico...; obtendo, desta vez, ... 12 imagens por segundo... Todas essas pesquisas eram até então puramente científicas. Os pesquisadores que se dedicaram a elas ... viam na cronofotografia um simples ‘meio de análise dos movimentos do homem e dos animais’... E eis que, em 1891, encontramos ... Edison. Ele havia construído dois aparelhos: um, o cinematógrafo, para a gravação; e o outro, o cinescópio, para a projeção... Nesse meio tempo, Démeny, colaborador de Marey, havia inventado, em 1891, um aparelho que permitia registrar ao mesmo tempo as imagens e o som. Seu fonoscópio ... foi o primeiro cinema falado.” Roland Villiers, Le Cinéma et ses Merveilles, Paris, 1930, pp. 9-16 (“Petite histoire du cinema”).
[O início do cinema, que só é possível e pensável como sequencias de fotos e a sua montagem (cortando/colando). Falar que se faz cinema no séc XXI, quando é usado o digital, é a mesma coisa que faziam os pintores na invenção da fotografia. Com exceção, claro, daqueles que usam e usaram o digital a partir dos seus próprio recursos, usando as próprias lógicas da nova forma.]    
[Y 7a, 1]
“Pode-se citar como exemplo do progresso [Fortschritt] técnico  que, de fato, é um desvio [Wegsckritt]12  o aperfeiçoamento dos aparelhos fotográficos. Eles são muito mais sensíveis à luz do que os antigos caixotes com os quais se produziam os daguerreótipos. Pode-se trabalhar com eles praticamente sem ter que se preocupar com as condições da luz. Possuem ainda uma série de outras vantagens, sobretudo para a fotografia de rostos, mas os retratos que podem ser feitos são muito piores, sem sombra de dúvida. Com os antigos aparelhos, menos sensíveis à luz, captavam-se várias expressões sobre a placa, que ficava exposta à luz por mais tempo; conseguia-se assim uma imagem final que trazia uma expressão mais universal e mais viva, e com isso, também um aspecto funcional. Contudo, seria certamente um grande erro dizer que os novos aparelhos são piores que os antigos. Talvez ainda falte neles algo que será descoberto amanhã, ou talvez seja possível fazer com eles algo mais do que fotografar rostos. E, quem sabe, ainda rostos? Eles não mais sintetizam os rostos  mas seria isto necessário? Talvez exista uma maneira de fotografar, que se tomou possível graças aos aparelhos mais novos, que decomponha os rostos? Mas esta maneira ... não será certamente encontrada sem que se encontre igualmente uma nova função desse modo de fotografar.” Brecht, Versuche 8-10, Berlim, 1931, p. 280 (“Der Dreigroschenprozeß”  O processo dos três vinténs).
[Y 8, 1]
[...]
“Deve-se observar que os melhores fotógrafos de hoje não se preocupam muito com a questão...: A fotografia é uma arte?’... Por sua habilidade em criar o choque evocatório, ele [o fotógrafo] prova seu poder de expressão, e eis a sua revanche contra o ceticismo de Daumier.” George Besson, La Photographie Française, Paris, 1936, pp. 5-6.
[Y 8, 3]
A famosa passagem de Wiertz sobre a fotografia <Y 1 , 1 > pode ser bem elucidada por esta outra de Wey; no entanto, ela deixa evidente que o prognóstico de Wiertz estava errado: Reduzindo a nada o que lhe é inferior, a heliografia predestina a arte a novos progressos; ao chamar o artista de volta para a natureza, ela o aproxima de uma fonte de inspiração cuja fecundidade é infinita.” Francis Wey, “Du naturalisme dans l’art”, La Lumière, 6 abr. 1851 ; cit. em Gisèle Freund, La Photographie en France au XIXe Siècle, Paris, 1 936, p. 111.
[Y 8, 4]
Observar somente o lado possível da adivinhação, crer que os acontecimentos anteriores da vida de um homem ... podem ser imediatamente representados pelas cartas que ele embaralha e corta, e que são divididas pela cartomante em pilhas segundo leis misteriosas, é absurdo. Mas foi o absurdo que condenou o vapor, que condena ainda a navegação aérea, que condenou a invenção da pólvora e da imprensa, das lentes, da gravura, e também a última grande descoberta, a daguerreotipia. Se alguém viesse dizer a Napoleão que um edifício e que um homem são a todo momento e ininterruptamente representados por uma imagem na atmosfera, que todos os objetos existentes têm nela um espectro apreensível, perceptível, ele teria mandado internar esse homem em Charenton... E, no entanto, é isso que Daguerre provou com sua descoberta.” Honoré de Balzac, Le Cousin Pons, in: Œuvres Complètes, vol. XVIII: La Comédie Humaine: Scènes de la Vie Parisienne, VI, Paris, 1914, pp. 129 - 130 . “Assim como os corpos se projetam realmente na atmosfera, deixando subsistir rada esse espectro apreendido pelo daguerreótipo, que o detém de passagem, também as idéias ... se imprimem naquilo que podemos chamar de atmosfera do mundo espiritual..., das vivem nela espectralmente (pois é necessário forjar palavras para exprimir fenômenos inomináveis), e então certas criaturas dotadas de faculdades raras podem perfeitamente perceber essas formas ou esses traços de idéias.” Op. cit., p. 132.
[Y 8a, 1]
Degas foi o primeiro a utilizar em seus quadros a representação do movimento rápido, tal como ele nos é oferecido pela fotografia instantânea.” Wladimir Weidlé, Les Abeilles dAristée, Paris, 1936, p. 185 (“Lagonie de l’art”).
[Y 8a, 2]
Qual é o autor citado por Montesquiou na seguinte passagem, extraída de um texto manuscrito que integrava um volume de memorabilia ricamente ornamentado, exibido em uma vitrine na exposição de Guys em Paris, na primavera de 1937? “Assim, em algumas frases rápidas, mostra-se esta primeira exposição de Constantin Guys, surpresa recente que o Sr. Nadar13 — o célebre aeronauta, ou devo dizer, o fotógrafo ilustre? — acaba de tirar de sua fecunda caixa de malícia. Certamente este engenhoso espírito, pleno de passado, tem direito a esse título, no sentido mais nobre, conforme a admirável definição que fez dele um poderoso e sutil pensador, em páginas sublimes: A humanidade também inventou, em sua errância noturna, isto é, no século XIX, um símbolo da lembrança; ela inventou o que parecera impossível; ela inventou um espelho que se lembra. Ela inventou a fotografia.”
[Y 8a, 3] 

 
10 O estereoscópio de espelho consistia de uma caixa em cujas paredes verticais havia dois desenhos que eram refletidos por dois espelhos no centro; as imagens davam ao observador uma sensação tridimensional. (J.L.) 
11 O famoso químico foi entrevistado efetivamente por ocasião de seu centésimo aniversário; algumas dessas fotos foram reproduzidas no catálogo Nadar (cf. supra, nota 7), pp. 102-103. (E/M) 
12 Em seu trocadilho com Fortschrittprogresso, Brecht não colocou o termo antagônico Rückschrittregresso, como está nas traduções para o francês e o inglês (recul e regress), e sim, Wegschritt, que designa um afastamento. Por isso, optamos pela tradução desvio. (w.b.) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

Enquanto leio: Boris Schnaiderman/Tradução, Ato Desmedido

SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). Tradução, Ato Desmedido / Boris Schnaiderman; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. — São Paulo: Perspectiva, 2011. (Debates 321)
 
dou uma (re)espiada em: 
SCHNAIDERMAN, Boris (1917-2016). A poética de Maiakóvski através de sua Prosa/ Boris Schnaiderman; revisão Boris Schnaiderman; produção Plínio Martins Filho; Coleção Debates dirigida por J.Guinsburg. —reimpressão 1984 São Paulo: Perspectiva, 1971. (Debates 39) 

28.5.26

entra/Olga Praguer Coelho/sai

The Art of Olga Praguer Coelho apresenta ao público contemporâneo a voz e o violão de uma das maiores artistas brasileiras do século XX — cantora, violonista e embaixadora cultural que conquistou o mundo quando o Brasil ainda começava a projetar sua identidade musical no exterior.

Da Rádio Clube do Brasil às turnês europeias, da Casa Branca ao Town Hall de Nova York, Olga encantou plateias internacionais, apresentou-se para Eleanor Roosevelt e construiu uma parceria artística e pessoal com Andrés Segovia, que lhe dedicou arranjos exclusivos para canto e violão.

Este álbum reúne gravações históricas — algumas raras e há décadas indisponíveis — que revelam a amplitude de seu repertório e sua impressionante versatilidade artística. O programa percorre o Brasil, a América Latina e a Europa, incluindo obras de Heitor Villa-Lobos, Manuel de Falla e Alessandro Scarlatti, além de canções folclóricas e clássicos que marcaram época.

O que torna esta gravação indispensável?

 A rara combinação de voz sofisticada e violão clássico executado pela própria intérprete

Um repertório multicultural cantado em diversos idiomas

Registros históricos restaurados e reunidos em edição especial

Um documento essencial para amantes da música brasileira e do violão clássico

Mais do que uma coletânea, este álbum é um reencontro com uma artista visionária que foi pioneira — inclusive ao ser uma das primeiras violonistas a utilizar cordas de nylon em recital.

Se você valoriza grandes intérpretes, registros históricos e a força expressiva da música brasileira, esta é uma audição obrigatória.

Garanta já o seu exemplar e descubra por que Olga Praguer Coelho foi celebrada mundialmente — e merece ser redescoberta agora.

 

LISTA DE FAIXAS:

01 POPULAR BRAZILIAN MOTIF, A Mosca na Moça   3’06”

Odeon 10514/December 29, 1929/Olga Praguer Coelho, guitar

02 POPULAR BRAZILIAN MOTIF (adapted by Olga P. Coelho),Virgem do Rosário     2’17”

Victor 34042/April, 1936/R. Guimarães & João Nogueira, guitars

03 OLGA P. COELHO; GASPAR COELHO, Cantiga Ingênua   3’02”

Victor 34056/ May, 1936/ Pereira Filho & Luiz Bittencourt, guitars

04 OLGA P. COELHO; EDUARDO TORINHO, Bahiana   2’31”

Victor 34056/May, 1936/Irmãos Carolino, guitars

05 POPULAR BRAZILIAN MELODY (adapted by Olga P. Coelho), Róseas Flores   2’38”

Deutscher Rundfunk broadcast/November 17, 1936/Olga P. Coelho, guitar

06 TRADITIONAL COLOMBIAN SONG (arr. Jorge Añez), Agáchate el Sombrerito   2’39”

Deutscher Rundfunk broadcast/May 31, 1938/Olga P. Coelho, guitar

07 TRADITIONAL MEXICAN SONG, La Cucaracha [with introduction]   3’06”

CBS Radio broadcast/January 29, 1942/Olga P. Coelho, guitar                              

08 TRADITIONAL SPANISH SONG (arr. Andrés Segovia), Canción Andaluza   2’15”

Traditional Spanish song,/Hargail MW 700/1944/Olga P. Coelho, guitar

09 MANUEL DE FALLA (arr. Andrés Segovia), Asturiana   2’08”

Parlophone RO 20580/1949/Olga P. Coelho, guitar

10 MANUEL DE FALLA (arr. Andrés Segovia), Nana   1’39”

Hargail MW 700/1944/Olga P. Coelho, guitar

11 FOLKLORIC BRAZILIAN SONG, O Rei Mandou me Chamá   1’39”

Parlophone RO 20599/1949/Olga P. Coelho, guitar

12 JOSÉ CARLOS BURLE, Meu Limão, Meu Limoeiro [with introduction]   3’17”

RCA Victor 26-9018/1947/Olga P. Coelho, guitar

13 HEKEL TAVARES, Danҫa do Caboclo   1’02”

Parlophone RO 20599/1949/Olga P. Coelho, guitar

14 FRANCISCO AMOR, La Mulita [with introduction]    4’16”

RCA Victor 26-9019/1947/Olga P. Coelho, guitar

15 MARIE ANTOINETTE; CLARIS DE FLORIAN (arr. Andrés Segovia), C’est Mon Ami   3’44”

Vanguard VRS 7021/1954/Olga P. Coelho, guitar

16 PEDRO DE ESCOBAR (arr. Andrés Segovia), Ojos Morenicos (Spanish Renaissance villancico)  2’03”

Vanguard VRS 7021/1954/Olga P. Coelho, guitar

17 ALESSANDRO SCARLATTI (arr. Andrés Segovia), Se Florindo è Fedele   2’18”

Vanguard VRS 7021/1954/Olga P. Coelho, guitar

18 POPULAR BRAZILIAN SONG, Casinha Pequenina   3’36”

Decca DL 10018/1960/Olga P. Coelho, guitar

19 HEKEL TAVARES; MURILO ARAÚJO, Banzo   3’16”

Decca DL 10018/1960/Olga P. Coelho, guitar

20 JAIME OVALLE, Azulão   1’44”

Decca DL 10018/1960/Olga P. Coelho, guitar

21 BRASILIO ITIBERÊ, Cordão de Prata   2’02”

Decca DL 10018/1960/Olga P. Coelho, guitar

22 TRADITIONAL BRAZILIAN CHANT, Xangô   3’58”

Decca DL 10018/1960/Olga P. Coelho, guitar

Duração total: 58min29s

 

Conteúdo do Produto (CD Físico)
1 CD original no formato Digipack
Encarte físico

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

  
Ao contrário de Proudhon, que considera a máquina e a divisão do trabalho como opostos. Marx enfatiza o quanto a divisão de trabalho refinou-se desde a introdução da maquinaria. Hegel, por sua vez, enfatizou que a divisão do trabalho de certa maneira preparou o caminho para a introdução da maquinaria: “O fracionamento do conteúdo do trabalho ... resulta na divisão do trabalho... Este trabalho, que assim se torna mais abstrato, acaba conduzindo, por um lado, devido à sua uniformidade, a uma facilitação do trabalho e ao aumento da produção; por outro, à limitação a uma única habilidade e, com isso, à dependência incondicional do complexo social. Deste modo, a própria habilidade torna-se mecânica, criando condições para que a máquina tome o lugar do trabalho humano.” Hegel, Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse, Leipzig, 1920, p. 436 (§ 525-526).
[X 12a, 4]
A crítica do jovem Marx relativa aos “direitos do homem”, enquanto separados dos “direitos do cidadão”: “Nenhum dos assim chamados direitos do homem vai além ... do homem egoísta... Neles, o homem está longe de ser concebido como um membro da espécie humana; em vez disso, a própria vida da espécie, a sociedade, aparece como uma moldura exterior aos indivíduos... O único elo que os une c a carência natural, a necessidade e o interesse particular, a conservação de sua propriedade e de sua pessoa egoísta. E ... um enigma ... que a cidadania, a comunidade política, seja rebaixada pelos emancipadores políticas a um mero meio de conservação dos assim chamados direitos do homem; isto é, que o cidadão seja declarado um serviçal do homem egoísta, que a esfera na qual o homem se comporta como um ser comunitário seja degradada, colocada abaixo da esfera na qual ele se comporta como um ser parcial; cm suma, que não o homem como cidadão, mas o homem como burguês seja considerado como o homem verdadeiro e autêntico... A solução deste enigma é simples... Qual era o caráter da antiga sociedade?... O feudalismo. A antiga sociedade burguesa tinha imediatamente um caráter político... A revolução política aboliu o caráter político da sociedade burguesa. Ela estilhaçou a sociedade burguesa ... de um lado, nos indivíduos, de outro, nos elementos materiais e espirituais que formam ... a condição burguesa desses indivíduos... A constituição do Estado político e a decomposição da sociedade burguesa em indivíduos independentes — cuja relação é o direito, assim como a relação das homens da nobreza e das corporações era o privilégio  realizam-se por um único e mesmo ato. O homem, como membro da sociedade burguesa, o homem apolítico, aparece necessariamente como o homem natural. Os direitos do homem aparecem como direitos naturais, pois a atividade consciente concentra-se no ato político. O homem egoísta é o resultado passivo, apenas preexistente da sociedade decomposta..., objeto natural. A revolução política ... comporta-se em relação à sociedade burguesa, em relação ao mundo das necessidades, do trabalho, dos interesses particulares, do direito privado, como ... em relação à sua base natural. Enfim, o homem, como membro da sociedade burguesa, é considerado o homem propriamente dito, o homem em oposição ao cidadão, porque ele é o homem em sua existência ... sensível, enquanto o homem político é apenas o homem abstrato... A abstração do homem político é descrita por Rousseau de maneira precisa: ‘Aquele que ousa instituir um povo deve sentir-se em condições de mudar ... a natureza humana, de transformar cada indivíduo que, por si mesmo, é um todo perfeito e solitário, como parte de um todo maior do qual esse indivíduo recebe ... seu ser...’ (Contrat Social, vol. II, Londres, 1782, p. 67). Marx, “Zur Judenfrage” [Sobre a questão dos judeus], in: Marx e Engels, Gesamtausgabe, seção I, vol. I, tomo 1, Frankfurt a. M., 1927, pp. 595-599.
[X 13]
A propriedade que recai sobre a mercadoria como seu caráter fetichista é inerente à própria sociedade produtora de mercadorias, não como ela é em si, mas como ela representa a si mesma e acredita compreender-se quando faz abstração do fato de que ela produz mercadorias. A imagem que ela assim produz de si mesma e que costuma designar como sua cultura corresponde ao conceito de fantasmagoria (Cf. “Eduard Fuchs, der Sammler und der Historiker” [“Eduard Fuchs, o colecionador e o historiador”], seção III).42 A cultura é definida por Wiesengmnd “como um bem de consumo no qual nada deve nos lembrar de como ele veio a surgir. É transformado num objeto mágico, na medida em que o trabalho nele acumulado aparece como sobrenatural e sagrado no mesmo instante em que deixa de ser percebido como trabalho.” (T. W. Adorno, “Fragmente über Wagner”, Zeitschrifi für Sozialforschung, VIII, 1939, n° 1-2, p. 17). A este propósito, uma passagem extraída do manuscrito sobre “Wagner” (pp. 46-47): “A arte orquestral de Wagner ... afastou da configuração estética a parte da produção imediata do som. Quem conseguisse entender integralmente por que Haydn dobra os violinos na piano com uma flauta, poderia talvez chegar a um esquema para entender por que a humanidade, há milhares de anos, parou de comer grãos de cereais crus e passou a assar o pão, ou por que ela começou a lixar e polir seus utensílios. No objeto de consumo, os traços de sua produção devem ser esquecidos. Ele deve dar a impressão de que não foi feito, para não revelar que aquele que o vende não o fabricou, mas se apropriou do trabalho nele contido. A autonomia da arte tem como origem a ocultação do trabalho.”43
[X 13a]
Y
[A Fotografia]1 
[...]
Uma profecia de 1855: “Nasceu para nós, há poucos anos, uma máquina, orgulho de nossa época, que a cada dia pasma nosso pensamento e espanta nossos olhos. / Essa máquina, em menos de um século, será o pincel, a paleta, as cores, a habilidade, a prática, a paciência, o golpe de vista, o toque, a mescla, o brilho, o truque, o modelado, o acabamento, a realização. / Em menos de um século, não haverá mais pedreiros na pintura: haverá apenas arquitetos, pintores na acepção plena da palavra. / Não pensemos que o daguerreótipo mata a arte. Não; ele mata o trabalho da paciência e homenageia a obra do pensamento. / Quando o daguerreótipo, esta criança gigante, tiver atingido a idade madura; quando estiverem desenvolvidos toda a sua força e todo o seu poder, então o gênio da arte o agarrará pelo colarinho e exclamará: ‘Tu és meu! és meu agora! Nós vamos trabalhar juntos!. A. J. Wiertz, Œuvres Littéraires, Paris, 1870, p. 309. Do artigo intitulado “La photographie”, publicado pela primeira vez em junho de 1855, em La Nation, e que termina com uma referência à nova descoberta da ampliação fotográfica, que possibilita a ampliação de fotos em tamanho natural. Os pintores-pedreiros são, para Wiertz, aqueles “que se preocupam somente com a parte material”, que a realizam bem.
[Y 1, 1]
[...] 
“Em 1855, no âmbito da grande exposição da indústria, foram inauguradas seções especiais para a fotografia. Pela primeira vez a fotografia tornava-se algo familiar ao grande público. Esta exposição representou o início do desenvolvimento industrial da fotografia... Durante i exposição, o público se aglomerava diante dos inúmeros retratos de personalidades famosas e notáveis; mal podemos imaginar o que significava, naquela época, poder ver diante dos próprios olhos, em tamanho natural, as celebridades do teatro, das tribunas..., em suma, da vida pública, que até então só podiam ser vistas e admiradas a distância. Gisela Freund, “Entwicklung der Photographie in Frankreich” [manuscrito].4 ■ Exposições ■
[Y 1a, 4l
É significativo para a história da fotografia que o mesmo Arago, autor do famoso parecer favorável à fotografia, tenha submetido — no mesmo ano (?), 1838 — um parecer desfavorável a construção das ferrovias planejadas pelo governo: “Em 1838, quando o Governo lhe sabmeteu o projeto de lei que autorizava a construção de estradas de ferro de Paris à Béteica, a Le Havre e a Bordeaux, o relator Arago concluiu pela rejeição, e 160 vozes contra 90 concordaram com ele. Entre outros argumentos, dizia-se que a diferença de temperatura na entrada e na saída dos túneis provocaria calores e friagens mortais. Dubech e DEspezel, Histoire de Paris, Paris, 1926, p. 386.
[Y 1a, 5] 
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Extraído da magnífica descrição que Nadar6 faz de suas fotografias nas catacumbas parisienses: “Precisávamos experimentar empiricamente o tempo de exposição em cada posição de câmera; vimos que alguns clichês exigiam até dezoito minutos. — E preciso lembrar que ainda estávamos no tempo do colódio... Julguei que seria bom animar com mar; personagem alguns desses aspectos, menos pelo efeito pitoresco que para indicar a escala de proporções, precaução muitas vezes negligenciada pelos exploradores, e cujo esquecimento às vezes nos desconcerta. Seria difícil obter de um ser humano uma imobilidade absoluta, inorgânica, durante os dezoito minutos de exposição. Procurei contornar a dificuldade com manequins, que vesti como operários e posicionei naquele cenário do modo menos estranho possível; esse detalhe não complicou nossa tarefa... Falta acrescentar que esse maldito ofício, ao longo de esgotos e catacumbas, não havia durado para nós menos que uns três meses consecutivos... Em suma, trouxe comigo cem clichês... Apressei-me em oferecer as cem primeiras impressões às coleções da Cidade de Paris, pelas mãos do eminente engenheiro de nossas construções subterrâneas, Sr. Belgrand.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, 1900, pp. 127-129.7
[Y 2, 2]
Fotografia sob luz artificial com a ajuda de bicos de Bunsen. “Chamei um eletricista experiente para instalar na parte mais firme de minha varanda, que é voltada para o Boulevard des Capucines, cinqüenta bicos médios, esperando que fossem suficientes  e de fato o foram... A presença dessa luz ainda pouco usada, ao cair da noite, fazia a multidão parar no boulevard; atraídos pela luz como mariposas, muitos curiosos, amigos ou indiferentes, não resistiam e subiam a escada para saber o que se passava ali. Esses visitantes, que provinham de todas as classes, alguns mais conhecidos ou mesmo célebres, eram tão bem acolhidos quando dispostos a nos fornecer gratuitamente um estoque de modelos para a nova experiência. Foi assim que fotografei nessas noites, entre outros, Niepce de Saint-Victor, ... Gustave Doré, ... os banqueiros E. Pereire, Mires, Halphen etc.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, pp. 113, 115-116.
[Y 2, 3]
Ao final do grande prospecto de Nadar sobre o estado das ciências: “Aqui estamos, muito além do admirável balanço de Fourcroy, na hora suprema em que o gênio da Pátria, em perigo, clama por descobertas.” Nadar, Quand Jétais Photographe, Paris, p. 3.
[Y 2, 4]
Nadar reproduz a teoria de Balzac sobre a daguerreotipia, que deriva, por sua vez, da teoria dos eidola, de Demócrito.8 (Parece que Nadar não conhecia esta última, que ele não menciona.) Gautier e Nerval teriam seguido a opinião de Balzac, “... mas mesmo falando de espectros, tanto um quanto outro ... foram entre os primeiros a passar diante de nossa objetiva.” Nadar, Quand Jétais Photographe, p. 8.
[Y 2a, 1]
[...] 
“Quem ao menos uma vez na vida teve a chance de pôr sua cabeça sob o manto mágico do fotógrafo e olhou através da câmara, encontrando ali aquela maravilhosa reprodução em miniatura da imagem natural, deve ter se perguntado ... qual será o destino de nossa pintura moderna quando o fotógrafo conseguir fixar em suas placas tanto as cores quanto as formas ” Walter Crane, “Nachahmung und Ausdruck in der Kunst”, Die Neue Zeit, XIV, no 1, Stuttgart, p. 423.
[Y2a, 5]
A tentativa de provocar um confronto sistemático entre arte e fotografia era inicialmente fadada ao fracasso. Esse confronto só poderia ser um momento do confronto entre arte e tecnica, realizado pela história.
[Y 2a, 6]

Passagem sobre a fotografia, extraída de Lampélie e Daguerre, de Lemercier:

“Como, presa à rede do caçador malvado,

A cotovia, despertando os ecos da manhã,
Esvoaça, e loucamente se lança na pradaria
Sobre um espelho, perigo de sua galanteria;
Assim, o vôo de Lampélie (= luz do sol) foi interceptado
Pelo químico filete por Daguerre inventado.
A face de um cristal, arredondado ou côncavo,
Diminui ou aumenta o objeto que ela grava.
No fundo da armadilha obscura seus finos e brancos raios
Mostram o aspecto dos lugares em rápidos traços:
Numa placa que aprisiona, a imagem capturada,
Do toque destruidor logo preservada,
Resta viva e durável; e os reflexos precisos
Atingem a profundeza dos planos mais longínquos.”

Népomucène Lemercier, “Sur la découverte de l’ingénieux peintre du diorama”, in: Séance Publique Annuelle des Cinq Académies, 2 maio 1839, Paris, 1839, pp. 30-31. <Cf. Q 3a, 1>
[Y 3, 1]
 “A fotografia ... foi adotada primeiro pela classe social dominante... : industriais, proprietários de fabricas e banqueiros, homens de Estado, literatos e sábios.” Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, p. 32). Isso está certo? Não seria melhor inverter a ordem?
[Y 3, 2]
[...]  
“Em Marselha, por volta de 1850, havia no máximo quatro ou cinco pintores de miniaturas, entre os quais somente dois gozavam de uma certa reputação executando mais ou menos uns cinqüenta retratos por ano. Esses artistas ganhavam apenas o suficiente para manter sua existência... Alguns anos mais tarde, havia em Marselha entre quarenta e cinqüenta fotógrafos... Eles produziam anualmente, cada um, uma média de mil a mil e duzentos clichês, que vendiam a 15 francos cada um, ou seja, produziam uma receita de 18.000 francos, cujo conjunto constituía um movimento de negócios de quase um milhão. E é possível constatar o mesmo desenvolvimento em todas as grandes cidades da França. Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, pp. 15-16), citando Vidal, Mémoire de la Séance du 15 Novembre 1868 de la Société Statistique de Marseille, reproduzido no Bulletin de la Société Française de Photographie, 1871, pp. 37, 38, 40.
[Y 3a, 2]
Sobre o encadeamento das invenções técnicas: Quando queria fazer ensaios de litografia, Niépce, que vivia no campo, encontrava as maiores dificuldades para arranjar as pedras necessárias. Foi assim que teve a idéia de substituir as pedras por uma placa de metal, e o lápis pela luz solar.” Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, p. 39), conforme Victor Fouque, Niépce: La Vérité sur lInvention de la Photographie. Châlons sur Saône, 1867.
[Y 3a, 3]
Depois de Arago ter apresentado seu relatório na Câmara: “Algumas horas depois, as lojas dos ópticos foram assediadas; não havia lentes suficientes, nem câmaras obscuras para satisfazer ao zelo de tantos amadores empenhados. Acompanhava-se com um pesar nos olhos o sol que baixava no horizonte, levando consigo a matéria-prima da experiência. Mas logo nas primeiras horas do dia seguinte, podia ser visto nas janelas um grande número de experimentadores esforçando-se, com toda espécie de precaução e cuidado, para fixar em uma placa preparada a imagem da clarabóia vizinha, ou a perspectiva de um conjunto de chaminés. Louis Figuier, La Photographie: Exposition et Histoire des Principales Découvertes Scientifiques Modernes, Paris, 1851; cit. sem indicação de página em Gisela Freund manuscrito, p. 46).
[Y4, 1]
Em 1840, Maurisset publicou uma caricatura sobre a fotografia.
[Y 4, 2]
[...]  
A fotografia na época de Disderi:9 “Os acessórios característicos de um ateliê fotográfico de 1865 são a coluna a cortina e a gueridom. Ali o sujeito se mantém, apoiado, assentado ou em pé, para ser fotografado, de corpo inteiro, de meio-corpo ou o busto. O fundo é incrementado, conforme a posição social do modelo, por acessórios simbólicos e pitorescos.” Segue-se um pouco adiante uma passagem muito significativa, extraída de Disderi, LArt de la Photographie, Paris, 1862 (sem indicação de página), que, entre outras coisas, diz o seguinte: “Para se fazer um retrato, ... não basta reproduzir com exatidão matemática as proporções e as formas do indivíduo; é preciso ainda, e principalmente, captar e representar ... as intenções da natureza nesse indivíduo ... justificando-as e embelezando-as.” Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Sociologique (manuscrito, pp. 106 e 108). — A coluna: o emblema da cultura geral”. ■ Haussmannização ■
[Y 4, 4]
[...]
Uma das objeções — muitas vezes implícitas — contra a fotografia: seria impossível que o rosto humano pudesse ser captado por uma máquina Esta era sobretudo a opinião de Delacroix.
[Y 4a, 4]
“Yvon ... discípulo de Delaroche ... decidiu um dia reproduzir a batalha de Solferino... Acompanhado do fotógrafo Bisson, ele vai às Tulherias, consegue que o Imperador tome a pose desejada, que ele volte a cabeça, e ilumina o conjunto com a luz que ele quer reproduzir. A pintura que daí resultou tomou-se célebre com o nome de O Imperador de quepe. Segue-se a isto um processo do pintor contra Bisson, que tinha comercializado o seu clichê. Ele foi condenado. Gisela Freund, La Photographie au Point de Vue Soáologique (manuscrito, p. 152).
[Y4a, 5]
Napoleão III, ao passar com seu regimento pelo boulevard, dá ordens para que parem diante da casa de Disderi, sobe até o ateliê e tira uma fotografia.
[Y4a, 6]
Como presidente da Société des Gens de Lettres, Balzac propôs que a produção dos doze maiores autores vivos da França fosse comprada pelo Estado. (Cf. Daguerre.)
[Y4a, 7]

42 W. Benjamin, GS II, 476-478. (R.T.)
43 Para a edição em livro, a referida passagem foi modificada; cf. T. W. Adorno, Gesammelte Schriften, vol. XIII, Die musikalischen Monographien, ed. org. por Gretei Adorno e R. Tiedemann, 2 a ed., Frankfurt a. M, 1977, pp. 79-81. (R.T.)
1 Ver também o ensaio de Benjamin, Kleine Geschichte der Photographie, G5 II, 368-385; Pequena História da Fotografia, OE I, pp. 91-107. (w.b.)
4 Ver também o comentário de Benjamin sobre o estudo de Gisèle Freund, La Photographie en France au Dix-neuvième Siècle, Paris, 1 936, em GS III, 500-502 (Pariser Brief <2>), e sua resenha deste livro em GS III, 542-544. (J.L.)
6 Félix Tournachon, chamado Nadar (1820-1910) abriu seu primeiro ateliê na Rue Saint-Lazare. Tinha como clientes, entre outros: Nerval, Vígny, Gautier, Dumas, Berlioz, Baudelaire. Em 1861, instala-se no Boulevard des Capucines, n° 35, e torna-se o 
fotógrafo titular da oposição [Les Grands Boulevards, catálogo da exposição do Musée Carnavalet, 1985, p. 196). Cf. Nadar, Le Dessus et le Dessous de Paris”, in: Paris-Guide (1867), textos escolhidos por Corinne Verdet, Paris, La Découverte-Maspero, 1983, pp. 154 et seq. (J.L.) 
7 O relato de Nadar, Paris Souterrain, foi publicado pela primeira vez em 1867, no contexto da Exposição Universal. Suas fotografias das catacumbas, em 1861-1862, e dos esgotos de Paris, em 1864-1865, nas quais usava sua nova técnica patenteada de fotografia com luz elétrica, seguiram-se a seus experimentos de fotografia aérea; cf. o catálogo da exposição Nadar, Nova Yorque, Metropolitan Museum of Art, 1995. (E/M)
8 Esta teoria encontra-se em Le Cousin Pons; cf. Y 8a, 1 . (J.L.) 
9 O fotografo Andre-Adolphe Disderi (1818-1889) abriu seu ateliê em 1854 no Boulevard des Capucines, n° 8. Sua invenção do retrato em forma de cartão de visita rende-lhe uma fortuna. Ele torna-se o fotografo do Imperador, mas após o Segundo Império, seus negócios entram em declínio. (J.L.) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.