29.1.26

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Teoria da superestrutura segundo Korsch: “Para a determinação do tipo particular de conexões e relações que existem entre a ‘base’ econômica e a ‘superestrutura’ jurídica e política, com as ‘correspondentes’ formas de consciência, não bastam, nesta forma geral, nem a definição filosófica de causalidade ‘dialética’, nem a ‘causalidade’ científica completada por ‘interações’. A ciência natural do século XX aprendeu que as relações ‘causais’ a serem definidas por um pesquisador em sua área específica, não podem absolutamente ser definidas na forma de um conceito geral ou de uma lei geral de causalidade, mas devem ser determinadas ‘especificamente’ para cada área particular.* [* Cf. Philipp Frank, Das Kausalgesetz und seine Grenzen, Viena, 1932]... A maior parte dos resultados a que chegaram Marx e Engels não consiste nas formulações teóricas do novo princípio, e sim em sua utilização específica em uma série de questões, ora de importância prática fundamental, ora de natureza teórica extremamente difícil* [* Situam-se aqui as questões levantadas ao final da ‘Introdução’ <para os Grundrisse> de 1857, PP - 779 et seq., relativas ao ‘desenvolvimento desigual’ dos diferentes âmbitos da vida social: desenvolvimento desigual da produção material em relação à produção artística (e das diversas formas de arte entre si), diferença entre as condiçoes culturais nos Estados Unidos e na Europa, desenvolvimento desigual das relações de produção enquanto relações de direito etc.] A determinação científica exata das conexões aqui citadas é ainda hoje uma tarefa para o futuro..., tarefa cujo centro de gravidade não deve se situar na formulação teórica, e sim na constante aplicação e experimentação dos princípios implícitos na obra de Marx. Nisso, não se deve, de forma alguma, tomar ao pé da letra as expressões muitas vezes empregadas em sentido figurado, com as quais Marx descreveu as conexões especiais aqui existentes como uma relação de ‘base’ e ‘superestrutura’, como ‘correspondências’ etc. ... Em todos estes casos, os conceitos de Marx, tal como, entre os marxistas posteriores, o entenderam de maneira mais clara Sorel e Lenin, não são tomados como novos entraves dogmáticos: não como condições estabelecidas a pnon para serem aplicadas por uma pesquisa verdadeiramente materialista, segundo uma ordem determinada, e sim como um guia inteiramente não-dogmático para a pesquisa e para a ação.” Korsch, Karl Marx (manuscrito), vol. III, pp. 93-96.29
[N 17]
Concepção materialista da história e filosofia materialista: “As fórmulas da concepção materialista da história — aplicadas por Marx e Engels ... apenas ... à análise da sociedade burguesa e transpostas para outras épocas históricas apenas com a devida modificação — foram desvinculadas pelos epígonos de Marx desta aplicação específica, e aliás, de qualquer aplicação histórica, e o assim chamado ‘materialismo histórico’ foi transformado em uma teoria sociológica geral. A partir deste ... nivelamento ... da teoria social matenaLsta era apenas um passo para se chegar à idéia — defendida ainda hoje ou justamente hoje — de que é necessário alicerçar a ciência histórica e econômica de Marx não apenas com uma filosofia social geral, mas até mesmo com uma visão de mundo universal materialista que abrange a totalidade da natureza e da sociedade. Ou, retomando uma expressão de Marx, de reduzir as formas científicas nas quais se havia desenvolvido o conteúdo verdadeiro do materialismo filosófico do século XVIII, novamente ‘às frases filosóficas dos materialistas sobre a matéria’. A ciência social materialista ... não necessita ... de tal fundamento filosófico. Este progresso mais importante ... alcançado por Marx escapou em seguida também a seus intérpretes ... ‘ortodoxos’... Com isso, reintroduziram seu próprio atraso filosófico na teoria de Marx, que progredira, transformando-se conscientemente de filosofia em ciência. O destino histórico da ortodoxia marxista aparece assim, de forma quase grotesca: ao defender-se dos ataques revisionistas, ela acaba por chegar, em todas as questões capitais, ao mesmo ponto de vista dos adversários... Quando, por exemplo, Plekhanov, o principal representante desta tendência, ..., em sua busca obstinada da ‘filosofia’ que subjaz ao marxismo, acabou apresentando o marxismo como uma forma de ‘spinozismo, libertado por Feuerbach de seus componentes teológicos’.” Korsch, op. cit., vol. III, pp. 29-31.30
[N 17a]
Korsch cita o Novum Organum de Bacon: “‘Recte enim veritas temporis filia dicitur non auctoritas.’ Ele fundou sobre esta autoridade de todas as autoridades, o tempo, a superioridade da nova ciência empírica burguesa face à ciência dogmática da Idade Média.” Korsch, op. cit., vol. I, p. 72.31 
[N 18, 1]
Para o uso positivo, Marx substitui o postulado exagerado de Hegel, segundo o qual a verdade deve ser concreta, pelo princípio racional da especificação... O verdadeiro interesse encontra-se ... nos traços específicos através dos quais cada sociedade histórica determinada diferenciasse das características comuns a cada sociedade em geral, e nos quais, portanto, consiste o seu desenvolvimento... Assim, uma ciência social rigorosa não pode formar seus conceitos gerais pela simples abstração de algumas características de uma dada forma histórica da sociedade burguesa e a conservação de outras, escolhidas de modo mais ou menos arbitrário. Ela pode atingir o conhecimento do universal contido nesta forma social particular apenas por meio do estudo minucioso de todas as condições históricas de seu surgimento a partir de um outro estágio da sociedade, e das modificações de sua forma presente sob condições rigorosamente estabelecidas... As únicas leis autênticas na ciência social são, portanto, as leis do desenvolvimento.” Korsch, op. cit., pp. 49-52.32
[N 18, 2]
O conceito autêntico da história universal é um conceito messiânico. A história universal, como compreendida hoje, é um assunto de obscurantistas.
[N 18, 3]
O agora da cognoscibilidade é o momento do despertar. (Jung quer manter o despertar longe do sonho.) 
[N 18, 4)
[...]
Observações críticas sobre o progresso técnico aparecem bem cedo. O autor do tratado Da Arte (Hipócrates?): “Penso que o desejo ... da inteligência é descobrir algumas das coisas que são ainda desconhecidas, se for melhor descobri-las do que não tê-las descoberto.” Leonardo da Vinci: “Como e por que não escrevo sobre meu método de permanecer embaixo d agua por tanto tempo quanto é possível ficar sem comer: se nao o publico nem o divulgo, é em razão da maldade dos homens que se serviriam dele para assassinar no fundo dos mares, abrindo os navios e submergindo-os com sua tripulação.” Bacon: “Na Nova Atlântida, ... ele confia a uma comissão especialmente escolhida o cuidado de decidir quais das novas invenções serão divulgadas e quais serão mantidas em segredo”. Pierre-Maxime Schuhl, Machinisme et Phihsophie, Paris, 1938, pp. 7 e 35. — “Os aviões bombardeiros nos lembram o que Leonardo da Vinci esperava do homem em vôo: que se elevasse para buscar a neve no cume das montanhas e retornar espalhando-a sobre o pavimento escaldante da cidade, no verão’.” Op. cit., p. 95.
[N 18a, 2] 
[...]
 
O

[Prostituição, Jogo]1 
 
 
[...]
 
 “Ao evocar minhas lembranças do Salon des Étrangers, tal como era na segunda década de nosso século, vejo diante de mim os traços nobres e a figura cavalheiresca do conde húngaro Hunyady, o maior jogador daquela época, que alvoroçava então toda a sociedade... A sorte de Hunyady foi excepcional durante muito tempo; nenhuma banca pôde resistir a suas investidas, e seus ganhos devem ter atingido aproximadamente dois milhões de francos. Seu comportamento era surpreendentemente calmo e extremamente distinto; ficava sentado, aparentemente impassível, a mão direita pousada sobre o peito da casaca, enquanto milhares de francos dependiam de uma carta de baralho ou de um lance de dados. Seu camareiro, no entanto, confidenciou a um amigo indiscreto que os nervos de seu senhor não eram assim tão fortes quanto ele procurava demonstrar, e que, bem ao contrário, pela manha o conde trazia no peito as marcas sangrentas de suas unhas, que ele, durante a agitação do jogo, quando este tomava um rumo perigoso, cravava em sua carne.” Captain Gronow, Aus der grossen Welt, Stuttgart, 1908, p. 59.3 
[O 1, 2]
[...]
É apenas em comparação com o Antigo Regime que se pode dizer que, no século XIX, o burguês passa a jogar. 
[O 1, 4] 
[...]
Sobre o mofo (Veuillot: “Paris cheira a mofo”) da moda: o “glauco clarão” sob as saias, de que fala Aragon.4 O espartilho como passagem do tronco. O imenso contraste com o mundo ao ar livre de hoje em dia. Aquilo que hoje é comum nas prostitutas baratas — não se despir — pode ter sido outrora a praxe mais distinta. Apreciava-se o retroussée — a saia levantada — na mulher. Hessel supõe ter encontrado aqui a origem do erotismo de Wedekind, cujo páthos do ar livre teria sido um blefe. E que mais? ■ Moda ■
[O 1a, 3]
Sobre a função dialética do dinheiro na prostituição. Ele compra o prazer e ao mesmo tempo torna-se expressão da vergonha. “Eu sabia”, diz Casanova a respeito de uma alcoviteira, “que eu não teria a força de partir sem dar-lhe alguma coisa”. Esta expressão singular revela seu conhecimento do mecanismo mais secreto da prostituição. Moça alguma decidiria tornar-se prostituta se contasse apenas com a remuneração tarifária dada por seus clientes. Também a gratidão deles, que talvez represente o acréscimo de alguma porcentagem, mal seria considerada por ela uma base suficiente. Como funciona, então, seu cálculo inconsciente do homem? Não se pode compreender esse mecanismo enquanto se considerar o dinheiro somente como um meio de pagamento ou como um presente. Com certeza, o amor da prostituta é venal. Mas não a vergonha de seu cliente. Esta procura um esconderijo para estes quinze minutos, e o encontra no lugar mais genial: no dinheiro. Há tantas nuanças do pagamento quanto há nuanças do jogo amoroso: indolentes e rápidas, furtivas ou brutais. O que isto quer dizer? A ferida vermelha de vergonha no corpo da sociedade secreta dinheiro e sara. Ela se reveste de uma crosta metálica. Deixemos ao espertalhão o prazer barato de imaginar-se livre de vergonha. Casanova sabia das coisas: o atrevimento lança a primeira moeda sobre a mesa, a vergonha cobre cem vezes a aposta, para ocultá-la.
[O 1a, 41 
  
 
29 Op. cit, pp. 199-202. Korsch refere-se ao prefácio de Marx à Kritik der politischen Ökonomie (1859). (R.T., E/M)
30 Op. cit, pp. 145-146. Korsch cita frases de Marx e Engels, Die deutsche Ideologie (1845-1846) e de George Plekhanov, Fundamental Problems of Marxism (1908). (R.T.; E/M)
31 Op. cit., p. 54. Tradução da citação de Bacon: Pois é correto dizer que a verdade é filha do tempo, não da autoridade.” (R.T.; w.b.) 
32 Op. cit., pp. 48-51 e 252. (R.T.) 
1 Na revisão da tradução deste arquivo temático foi consultada também a tradução de Emerson Alves Batista, publicada em OE III, pp. 237-271. (w.b.) 
3 O original da tradução alemã utilizada por Benjamin intitula-se The Reminiscences and Recollections of Captain Gronow: Being Anecdotes of the Camp, Court, Clubs, and Sodety, 1810-1860, vol. I, Nova York, Scribner and Welford, 1889, pp. 122-123 (The Salon des Étrangers in Paris”). Sobre o Salon des Étrangers, ver também L°, 19. (E/M). 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

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