30.1.26

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira

NOUVELLES FLEURS DU MAL

 As Flores do Mal

(Poemas acrescentados à terceira edição, 1868)

Épigraphe pour un livre condamné

 

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.


Si tu n’as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette! tu n’y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hysthérique.


Mais si, sans se laisser charmer,
Ton œil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m’aimer;


Âme curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi... Sinon, je te maudis! 

 

Epígrafe para um livro condenado


Leitor pacífico e bucólico,
Homem de bem, austero e lhano,
Joga fora este saturniano
Livro, orgíaco e melancólico.


Se não herdaste o dom hipnótico
De Satã, o astuto decano,
Irias ler-me por engano,
Ou me terias por neurótico.


Mas se, sem teus olhos piscar,

Do abismo os horrores conheces,
Lê-me afinal que me hás de amar;


Alma curiosa que padeces
E buscas no éden teu abrigo,
Tem dó de mim... Ou te maldigo! 

 

Le gouffre


Pascal avait son gouffre, avec lui se mouvant.
— Hélas! tout est abîme, — action, désir, rêve,
Parole! et sur mon poil qui tout droit se relève
Mainte fois de la Peur je sens passer le vent.


En haut, en bas, partout, la profondeur, la grève,
Le silence, l’espace affreux et captivant...
Sur le fond de mes nuits Dieu de son doigt savant
Dessine un cauchemar multiforme et sans trêve.


J’ai peur du sommeil comme on a peur d’un grand trou,
Tout plein de vague horreur, menant on ne sait où;
Je ne vois qu’infini par toutes les fenêtres,


Et mon esprit, toujours du vertige hanté,
Jalouse du néant l’insensibilité.
— Ah! ne jamais sortir des Nombres et des Êtres! 

 

O abismo


Pascal em si tinha um abismo se movendo.
— Ai, tudo é abismo! — sonho, ação, desejo intenso,
Palavra! e sobre mim, num calafrio, eu penso
Sentir do Medo o vento às vezes se estendendo.


Em volta, no alto, embaixo, a profundeza, o denso
Silêncio, a tumba, o espaço cativante e horrendo...
Em minhas noites, Deus, o sábio dedo erguendo,
Desenha um pesadelo multiforme e imenso.


Tenho medo do sono, o túnel que me esconde,

Cheio de vago horror, levando não sei aonde;
Do infinito, à janela, eu gozo os cruéis prazeres,


E meu espírito, ébrio afeito ao desvario,
Ao nada inveja a insensibilidade e o frio.
— Ah, não sair jamais dos Números e Seres! 

 

BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. 

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