17.1.26

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira

XXXIII
 
Remords posthume

Lorsque tu dorminas, ma belle ténébreuse,
Au fond d’un monument construit en marbre noir,
Et lorsque tu n’auras pour alcôve et manoir
Qu’un caveau pluvieux et qu’une fosse creùse;

Quand la pierre, opprimant ta poitrine peureuse
Et tes flancs qu’assouplit un charmant nonchaloir,
Empêchera ton cœur de battre et de vouloir,
Et tes pieds de courir leur course aventureuse,
 
Le tombeau, confident de mon rêve infini
(Car le tombeau toujours comprendra le poëte),
Durant ces grandes nuits d’où le somme est banni,

Te dira: “Que vous sert, courtisane imparfaite,
De n’avoir pas connu ce que pleurent les morts?”
— Et le ver rongera ta peau comme un remords.

Remorso póstumo
 
Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e marmóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
(Porque o túmulo sempre há de entender o poeta),
Nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: “De que valeu, cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?”
— E o verme te roerá como um remorso lento. 
 
XXXIV
O gato 


Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço; 
Guarda essas garras devagar, 
E nos teus belos olhos de ágata e aço 
Deixa-me aos poucos mergulhar. 

Quando meus dedos cobrem de carícias 
Tua cabeça e dócil torso, 
E minha mão se embriaga nas delícias 
De afagar-te o elétrico dorso, 

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo 
Como o teu, amável felino, 
Qual dardo dilacera e fere fundo, 

E, dos pés à cabeça, um fino 
Ar subtil, um perfume que envenena 
Envolve-lhe a carne morena.
  
XXXVIII
 
UM FANTASMA
 
AS TREVAS
 
Nos porões de tristeza impenetrável
Onde o Destino um dia me esqueceu;
Onde jamais um róseo raio ardeu,
Só com a noite, hospedeira intratável,
 
Sou qual pintor que um Deus, por diversão,
Na treva faz mover os seus pincéis,
Ou cozinheiro de apetites cruéis
Que assa e devora o próprio coração.
 
Súbito brilha e faz-se ali presente
Fantasma esplêndido e de graça extrema
Em oriental postura evanescente.
 
Ao atingir a perfeição suprema,
Nela percebo a bela visitante:
Ei-la! Negra e contudo fulgurante.
 
O PERFUME
 
Leitor, tens já por vezes respirado
Com embriaguez e lenta gostosura
O grão de incenso que enche uma clausura,
Ou de um saquinho de almíscar entranhado?
 
Sutil e estranho encanto transfigura
Em nosso agora a imagem do passado.
Assim o amante sobre o corpo amado
À flor mais rara colhe o que perdura.
 
Da cabeleira espessa como crina,
Turíbulo de alcova, ébria almofada,
Vinha uma essência rútila e indomada,
 
E das vestes, veludo ou musselina,
Que sua tenra idade penetrava,
Um perfume de pêlos evolava.
 
 3
A MOLDURA
 
Como à tela se ajusta uma moldura
 Não importa do artista a sutileza ,
Isolando-o da imensa natureza,
Um não-sei-quê de mágica textura,
 
Assim jóias, metais e douradura
Ajustavam-se à sua irreal beleza;
Nada ofuscava-lhe a integral clareza,
E tudo lhe era como cercadura.
 
Dir-se-ia muita vez que ela supunha
Tudo existir para adorá-la e expunha
Sua nudez com gozo e encantamento
 
Às carícias do linho e do cetim,
E, suave ou brusca, a cada movimento
Mostrava a graça ingênua do sagüim.
 
O RETRATO
 
A Doença e a Morte tornam cinza todo
Aquele fogo que por nós ardeu.
Dos olhos a me olhar daquele modo,
Da boca onde meu ser se dissolveu,
 
Dos beijos sempre fiéis a uma ordem dada,
Dos êxtases mais vivos que fulgores,
Que resta? É horrível, ó minha alma! Nada
Mais que um pálido esboço de três cores
 
Que se extingue, como eu, na solitude,
E que o Tempo, sem pressa e em toda a parte,
Vai roçando com asa amarga e rude...
 
Negro assassino da Vida e da Arte,
Jamais hás de matar-me na memória
A que foi meu prazer e minha glória!
 
XXXIX 
 
Estes versos te dou para que, se algum dia,
Feliz chegar meu nome às épocas futuras
E lá fizer sonhar as humanas criaturas,
Nau que um esplêndido aquilão ampara e guia,
 
Tua memória, irmã das fábulas obscuras,
Canse o leitor com pertinaz monotonia,
E presa por grilhão de mística energia
Suspensa permaneça em minhas rimas puras;
 
Maldita que, do céu infindo ao mais profundo
Abismo, a mim somente escutas neste mundo!
 Ó tu que, como sombra de existência fátua,
 
Pisas de leve, sem que aqui jamais te afronte
Nenhum mortal que te suponha amarga, estátua
De olhos de jade, grande anjo de brônzea fronte! 
 
LI
 
CÉU NUBLADO
 
Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;
Teu olhar misterioso(é azul, verde ou se esfuma?)
Às vezes terno e sonhador, às vezes cruel,
Reflete a palidez e a indolência do céu.
 
Lembras os dias brancos, mornos e velados,
Que em prantos põem os corações enfeitiçados,
Quando, desperto por torção desconhecida,
Os nervos tensos zombam da alma adormecida.
 
Não raro imitas essas cores vaporosas
Que fulguram aos sóis das estações brumosas...
Como resplendes, horizonte assim molhado
Quando a flama do sol aquece o céu nublado!
 
Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!
Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?
E como arrancarei do inverno em que me enterro
Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro?
 
LI
 
O GATO
1

Dentro em meu cérebro vai e vem
Como se a sua casa fosse
Um belo gato, forte e doce.
Quando ele mia, mal a quem

Lhe ouça o fugaz timbre discreto;
Seja serena ou iracunda,
Soa-lhe a voz rica e profunda.
Eis seu encanto mais secreto.

Essa voz que se infiltra e afina
Em meu recesso mais umbroso
Me enche qual verso numeroso
E como um filtro me ilumina.

Os piores males ele embala
E os êxtases todos oferta;
Para enunciar a frase certa,
Não é com palavras que fala.

Não, não existe arco que morda
Meu coração, nobre instrumento,
Ou faça com tal sentimento
Vibrar-lhe a mais sensível corda

Que a tua voz, ó misterioso
Gato de místico veludo,
Em que, como um anjo, tudo
É tão sutil quanto gracioso!
 
2

De seu pêlo louro e tostado
Um perfume tão doce flui
Que uma noite, ao mima-lo, fui
Por seu aroma embalsamado.
 
É a alma familiar da morada;
Ele julga, inspira, demarca
Tudo o que seu império abarca;
Será um deus, será uma fada?
 
Se neste gato que me é caro,
Como por ímãs atraídos,
Os olhos ponho comovidos
E ali comigo me deparo,
 
Vejo aturdido a luz que lhe arde
Nas pálidas pupilas ralas,
Claros faróis, vivas opalas,
Que me contemplam sem alarde. 
 
LIV 
 
O IRREPARÁVEL
I

Como abafar este Remorso interminável,
Que vive, se enrosca e se agita,
E se nutre de nós como um verme insaciável,
Qual do carvalho o parasita?
Como abafar este Remorso inexorável?

Em que filtro, em que vinho, em que amarga tisana
Afogar tal praga inimiga,
Gulosa e predatória como uma mundana,
Paciente como uma formiga?
Em que filtro? - em que vinho? - em que amarga tisana?
 
Ah, dize, ó feiticeira! Dize, se és capaz,
A esta alma que o tormento assola,
Como a de quem, em meio aos que agonizam, jaz
E o casco do cavalo esfola,
Ó bela feiticeira! Ah, dize, se és capaz,

Ao moribundo a quem o lobo já fareja
E a gula do corvo amortalha,
A este soldado que, batido, ainda peleja
Por uma tumba e uma medalha;
O moribundo a quem o lobo já fareja!

Como clarear um céu ao sol indiferente,
Rasga-lhe as trevas em cortejo,
Mais densas do que o breu, sem aurora e sem poente,
Sem astro ou fúnebre lampejo?
Como clarear um céu ao sol indiferente?

A esperança que luz nos vidros da Estalagem
Desfez-se em meio ao torvelinho!
Sem raios nem luar, onde achar-se hospedagem
Aos mártires de um mau caminho?
Satã tudo extinguiu nos vidros da Estalagem!

Amável feiticeira, adoras os danados?
Conhece o que nunca é salvo?
Conheces do Remorso os dardos aguçados?
Que o coração nos fazem de alvo?
Amável feiticeira, adora os danados?

O Irreparável rói com a presa maldita
Nossa lama, indigno monumento,
E muita vez ataca, assim côo a térmita,
O prédio por seu fundamento.
O irreparável rói com a presa maldita!
II
— Por vezes vi, ao fundo de um teatro banal
Que inflamava a orquestra sonora,
Uma fada acender no horizonte infernal
Uma miraculosa aurora;
Por vezes vi, ao fundo de um teatro banal,

Um Ser feito somente de ouro, gaze e luz
Que o enorme Satã vencera;
Porém meu coração, que êxtase algum seduz,
É como um teatro onde se espera,
Em vão e para sempre, o Ser de asas de luz! 
 
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. 

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