29.1.26

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira

A Morte
 
CXXII
 
A morte dos pobres

A Morte é que consola e que nos faz viver;
É o alvo desta vida e a única esperança
Que, como um elixir, nos dá fé e confiança,
E forças para andar até o anoitecer.

Em meio à tempestade e à neve a se esfazer,
É a luz que em nosso lívido horizonte avança;
É a pousada que um livro diz como se alcança,
E onde se pode descansar e adormecer.

É um Arcanjo que tem nos dedos imantados
O sono eterno e o dom dos sonhos extasiados,
E arruma o leito para os nus e os desvalidos;

É dos Deuses a glória e o místico celeiro,
É a sacola do pobre e o seu lar verdadeiro,
O pórtico que se abre aos Céus desconhecidos!
 
CXXIV
 
La fin de la journée

Sous une lumière blafarde
Court, danse et se tord sans raison
La Vie, impudente et criarde.
Aussi, sitôt qu’à l’horizon

La nuit voluptueuse monte,
Apaisant tout, même la faim,
Effaçant tout, même la honte,
Le Poëte se dit: “Enfin!

Mon esprit, comme mes vertèbres,
Invoque ardemment le repos;
Le cœur plein de songes funèbres,
 
Je vais me coucher sur le dos
Et me rouler dans vos rideaux,
Ô rafraîchissantes ténèbres!” 
 
O fim da jornada

Sob uma luz trêmula e baça,
Se agita, brinca e dança ao léu
A Vida, ululante e devassa.
Assim também, quando no céu

A noite voluptuosa sonha,
Tudo acalmando, mesmo a fome,
Tudo apagando, até a vergonha,
Diz o Poeta que a dor consome:

“Afinal, minha alma e meus ossos
Somente imploram por sossego;
O coração feito em destroços, 
 
Procuro em meu leito aconchego
E às vossas cortinas me apego,
Ó treva oferta aos corpos nossos!” 
 
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. 

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

 
Teoria da superestrutura segundo Korsch: “Para a determinação do tipo particular de conexões e relações que existem entre a ‘base’ econômica e a ‘superestrutura’ jurídica e política, com as ‘correspondentes’ formas de consciência, não bastam, nesta forma geral, nem a definição filosófica de causalidade ‘dialética’, nem a ‘causalidade’ científica completada por ‘interações’. A ciência natural do século XX aprendeu que as relações ‘causais’ a serem definidas por um pesquisador em sua área específica, não podem absolutamente ser definidas na forma de um conceito geral ou de uma lei geral de causalidade, mas devem ser determinadas ‘especificamente’ para cada área particular.* [* Cf. Philipp Frank, Das Kausalgesetz und seine Grenzen, Viena, 1932]... A maior parte dos resultados a que chegaram Marx e Engels não consiste nas formulações teóricas do novo princípio, e sim em sua utilização específica em uma série de questões, ora de importância prática fundamental, ora de natureza teórica extremamente difícil* [* Situam-se aqui as questões levantadas ao final da ‘Introdução’ <para os Grundrisse> de 1857, PP - 779 et seq., relativas ao ‘desenvolvimento desigual’ dos diferentes âmbitos da vida social: desenvolvimento desigual da produção material em relação à produção artística (e das diversas formas de arte entre si), diferença entre as condiçoes culturais nos Estados Unidos e na Europa, desenvolvimento desigual das relações de produção enquanto relações de direito etc.] A determinação científica exata das conexões aqui citadas é ainda hoje uma tarefa para o futuro..., tarefa cujo centro de gravidade não deve se situar na formulação teórica, e sim na constante aplicação e experimentação dos princípios implícitos na obra de Marx. Nisso, não se deve, de forma alguma, tomar ao pé da letra as expressões muitas vezes empregadas em sentido figurado, com as quais Marx descreveu as conexões especiais aqui existentes como uma relação de ‘base’ e ‘superestrutura’, como ‘correspondências’ etc. ... Em todos estes casos, os conceitos de Marx, tal como, entre os marxistas posteriores, o entenderam de maneira mais clara Sorel e Lenin, não são tomados como novos entraves dogmáticos: não como condições estabelecidas a pnon para serem aplicadas por uma pesquisa verdadeiramente materialista, segundo uma ordem determinada, e sim como um guia inteiramente não-dogmático para a pesquisa e para a ação.” Korsch, Karl Marx (manuscrito), vol. III, pp. 93-96.29
[N 17]
Concepção materialista da história e filosofia materialista: “As fórmulas da concepção materialista da história — aplicadas por Marx e Engels ... apenas ... à análise da sociedade burguesa e transpostas para outras épocas históricas apenas com a devida modificação — foram desvinculadas pelos epígonos de Marx desta aplicação específica, e aliás, de qualquer aplicação histórica, e o assim chamado ‘materialismo histórico’ foi transformado em uma teoria sociológica geral. A partir deste ... nivelamento ... da teoria social matenaLsta era apenas um passo para se chegar à idéia — defendida ainda hoje ou justamente hoje — de que é necessário alicerçar a ciência histórica e econômica de Marx não apenas com uma filosofia social geral, mas até mesmo com uma visão de mundo universal materialista que abrange a totalidade da natureza e da sociedade. Ou, retomando uma expressão de Marx, de reduzir as formas científicas nas quais se havia desenvolvido o conteúdo verdadeiro do materialismo filosófico do século XVIII, novamente ‘às frases filosóficas dos materialistas sobre a matéria’. A ciência social materialista ... não necessita ... de tal fundamento filosófico. Este progresso mais importante ... alcançado por Marx escapou em seguida também a seus intérpretes ... ‘ortodoxos’... Com isso, reintroduziram seu próprio atraso filosófico na teoria de Marx, que progredira, transformando-se conscientemente de filosofia em ciência. O destino histórico da ortodoxia marxista aparece assim, de forma quase grotesca: ao defender-se dos ataques revisionistas, ela acaba por chegar, em todas as questões capitais, ao mesmo ponto de vista dos adversários... Quando, por exemplo, Plekhanov, o principal representante desta tendência, ..., em sua busca obstinada da ‘filosofia’ que subjaz ao marxismo, acabou apresentando o marxismo como uma forma de ‘spinozismo, libertado por Feuerbach de seus componentes teológicos’.” Korsch, op. cit., vol. III, pp. 29-31.30
[N 17a]
Korsch cita o Novum Organum de Bacon: “‘Recte enim veritas temporis filia dicitur non auctoritas.’ Ele fundou sobre esta autoridade de todas as autoridades, o tempo, a superioridade da nova ciência empírica burguesa face à ciência dogmática da Idade Média.” Korsch, op. cit., vol. I, p. 72.31 
[N 18, 1]
Para o uso positivo, Marx substitui o postulado exagerado de Hegel, segundo o qual a verdade deve ser concreta, pelo princípio racional da especificação... O verdadeiro interesse encontra-se ... nos traços específicos através dos quais cada sociedade histórica determinada diferenciasse das características comuns a cada sociedade em geral, e nos quais, portanto, consiste o seu desenvolvimento... Assim, uma ciência social rigorosa não pode formar seus conceitos gerais pela simples abstração de algumas características de uma dada forma histórica da sociedade burguesa e a conservação de outras, escolhidas de modo mais ou menos arbitrário. Ela pode atingir o conhecimento do universal contido nesta forma social particular apenas por meio do estudo minucioso de todas as condições históricas de seu surgimento a partir de um outro estágio da sociedade, e das modificações de sua forma presente sob condições rigorosamente estabelecidas... As únicas leis autênticas na ciência social são, portanto, as leis do desenvolvimento.” Korsch, op. cit., pp. 49-52.32
[N 18, 2]
O conceito autêntico da história universal é um conceito messiânico. A história universal, como compreendida hoje, é um assunto de obscurantistas.
[N 18, 3]
O agora da cognoscibilidade é o momento do despertar. (Jung quer manter o despertar longe do sonho.) 
[N 18, 4)
[...]
Observações críticas sobre o progresso técnico aparecem bem cedo. O autor do tratado Da Arte (Hipócrates?): “Penso que o desejo ... da inteligência é descobrir algumas das coisas que são ainda desconhecidas, se for melhor descobri-las do que não tê-las descoberto.” Leonardo da Vinci: “Como e por que não escrevo sobre meu método de permanecer embaixo d agua por tanto tempo quanto é possível ficar sem comer: se nao o publico nem o divulgo, é em razão da maldade dos homens que se serviriam dele para assassinar no fundo dos mares, abrindo os navios e submergindo-os com sua tripulação.” Bacon: “Na Nova Atlântida, ... ele confia a uma comissão especialmente escolhida o cuidado de decidir quais das novas invenções serão divulgadas e quais serão mantidas em segredo”. Pierre-Maxime Schuhl, Machinisme et Phihsophie, Paris, 1938, pp. 7 e 35. — “Os aviões bombardeiros nos lembram o que Leonardo da Vinci esperava do homem em vôo: que se elevasse para buscar a neve no cume das montanhas e retornar espalhando-a sobre o pavimento escaldante da cidade, no verão’.” Op. cit., p. 95.
[N 18a, 2] 
[...]
 
O

[Prostituição, Jogo]1 
 
 
[...]
 
 “Ao evocar minhas lembranças do Salon des Étrangers, tal como era na segunda década de nosso século, vejo diante de mim os traços nobres e a figura cavalheiresca do conde húngaro Hunyady, o maior jogador daquela época, que alvoroçava então toda a sociedade... A sorte de Hunyady foi excepcional durante muito tempo; nenhuma banca pôde resistir a suas investidas, e seus ganhos devem ter atingido aproximadamente dois milhões de francos. Seu comportamento era surpreendentemente calmo e extremamente distinto; ficava sentado, aparentemente impassível, a mão direita pousada sobre o peito da casaca, enquanto milhares de francos dependiam de uma carta de baralho ou de um lance de dados. Seu camareiro, no entanto, confidenciou a um amigo indiscreto que os nervos de seu senhor não eram assim tão fortes quanto ele procurava demonstrar, e que, bem ao contrário, pela manha o conde trazia no peito as marcas sangrentas de suas unhas, que ele, durante a agitação do jogo, quando este tomava um rumo perigoso, cravava em sua carne.” Captain Gronow, Aus der grossen Welt, Stuttgart, 1908, p. 59.3 
[O 1, 2]
[...]
É apenas em comparação com o Antigo Regime que se pode dizer que, no século XIX, o burguês passa a jogar. 
[O 1, 4] 
[...]
Sobre o mofo (Veuillot: “Paris cheira a mofo”) da moda: o “glauco clarão” sob as saias, de que fala Aragon.4 O espartilho como passagem do tronco. O imenso contraste com o mundo ao ar livre de hoje em dia. Aquilo que hoje é comum nas prostitutas baratas — não se despir — pode ter sido outrora a praxe mais distinta. Apreciava-se o retroussée — a saia levantada — na mulher. Hessel supõe ter encontrado aqui a origem do erotismo de Wedekind, cujo páthos do ar livre teria sido um blefe. E que mais? ■ Moda ■
[O 1a, 3]
Sobre a função dialética do dinheiro na prostituição. Ele compra o prazer e ao mesmo tempo torna-se expressão da vergonha. “Eu sabia”, diz Casanova a respeito de uma alcoviteira, “que eu não teria a força de partir sem dar-lhe alguma coisa”. Esta expressão singular revela seu conhecimento do mecanismo mais secreto da prostituição. Moça alguma decidiria tornar-se prostituta se contasse apenas com a remuneração tarifária dada por seus clientes. Também a gratidão deles, que talvez represente o acréscimo de alguma porcentagem, mal seria considerada por ela uma base suficiente. Como funciona, então, seu cálculo inconsciente do homem? Não se pode compreender esse mecanismo enquanto se considerar o dinheiro somente como um meio de pagamento ou como um presente. Com certeza, o amor da prostituta é venal. Mas não a vergonha de seu cliente. Esta procura um esconderijo para estes quinze minutos, e o encontra no lugar mais genial: no dinheiro. Há tantas nuanças do pagamento quanto há nuanças do jogo amoroso: indolentes e rápidas, furtivas ou brutais. O que isto quer dizer? A ferida vermelha de vergonha no corpo da sociedade secreta dinheiro e sara. Ela se reveste de uma crosta metálica. Deixemos ao espertalhão o prazer barato de imaginar-se livre de vergonha. Casanova sabia das coisas: o atrevimento lança a primeira moeda sobre a mesa, a vergonha cobre cem vezes a aposta, para ocultá-la.
[O 1a, 41 
  
 
29 Op. cit, pp. 199-202. Korsch refere-se ao prefácio de Marx à Kritik der politischen Ökonomie (1859). (R.T., E/M)
30 Op. cit, pp. 145-146. Korsch cita frases de Marx e Engels, Die deutsche Ideologie (1845-1846) e de George Plekhanov, Fundamental Problems of Marxism (1908). (R.T.; E/M)
31 Op. cit., p. 54. Tradução da citação de Bacon: Pois é correto dizer que a verdade é filha do tempo, não da autoridade.” (R.T.; w.b.) 
32 Op. cit., pp. 48-51 e 252. (R.T.) 
1 Na revisão da tradução deste arquivo temático foi consultada também a tradução de Emerson Alves Batista, publicada em OE III, pp. 237-271. (w.b.) 
3 O original da tradução alemã utilizada por Benjamin intitula-se The Reminiscences and Recollections of Captain Gronow: Being Anecdotes of the Camp, Court, Clubs, and Sodety, 1810-1860, vol. I, Nova York, Scribner and Welford, 1889, pp. 122-123 (The Salon des Étrangers in Paris”). Sobre o Salon des Étrangers, ver também L°, 19. (E/M). 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

28.1.26

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira

O Vinho
 
CV
 
O vinho dos trapeiros

Muitas vezes, à luz de um lampião sonolento,
Do qual a chama e o vidro estalam sob o vento,
Num antigo arrabalde, informe labirinto,
Onde fervilha o povo anônimo e indistinto,

Vê-se um trapeiro cambaleante, a fronte inquieta,
Rente às paredes a esgueirar-se como um poeta,
E, alheio aos guardas e alcaguetes mais abjetos,
Abrir seu coração em gloriosos projetos.

Juramentos profere e dita leis sublimes,
Derruba os maus, perdoa as vitímas dos crimes,
E sob o azul do céu, como um dossel suspenso,
Embriaga-se na luz de seu talento imenso.

Toda essa gente afeita às aflições caseiras,
Derreada pela idade e farta de canseiras,
Trôpega e curva ao peso atroz do asco infinito,
Vômito escuro de um Paris enorme e aflito,
 
Retorna, a trescalar do vinho as escorralhas,
Junto aos comparsas fatigados das batalhas,
Os bigodes lembrando insígnias espectrais.
Os estandartes, os pendões e arcos triunfais

Erguem-se ante essa gente, ó solene magia!
E na ensurdecedora e luminosa orgia
Dos gritos, dos clarins, do sol e do tambor,
Trazem eles a glória ao povo ébrio de amor!

Assim é que através da ingênua raça humana
O vinho, esplêndido Pactolo, do ouro emana;
Pela garganta do homem canta ele os seus feitos
E reina por seus dons tal como os reis perfeitos.

E para o ódio afogar e o ócio ir entretendo
Desses malditos que em silêncio vão morrendo,
Em seu remorso Deus o sono havia criado;
O Homem o Vinho fez, do Sol filho sagrado! 
 
CVI
 
Le vin de l’assassin

Ma femme est morte, je suis libre!
Je puis donc boire tout mon soûl.
Lorsque je rentrais sans un sou,
Ses cris me déchiraient la fibre. 
 
Autant qu’un roi je suis heureux;
L’air est pur, le ciel admirable...
Nous avions un été semblable
Lorsque j’en devins amoureux!

L’horrible soif qui me déchire
Aurait besoin pour s’assouvir
D’autant de vin qu’en peut tenir
Son tombeau; — ce n’est pas peu dire:

Je l’ai jetée au fond d’un puits,
Et j’ai même poussé sur elle
Tous les pavés de la margelle.
— Je l’oublierai si je le puis!

Au nom des serments de tendresse,
Dont rien ne peut nous délier,
Et pour nous réconcilier
Comme au beau temps de notre ivresse,

J’implorai d’elle un rendez-vous,
Le soir, sur une route obscure.
Elle y vint! — folle créature!
Nous sommes tous plus ou moins fous!

Elle était encore jolie,
Quoique bien fatiguée! Et moi,
Je l’aimais trop! voilà pourquoi
Je lui dis: Sors de cette vie!

Nul ne peut me comprendre. Un seul
Parmi ces ivrognes stupides
Songea-t-il dans ses nuits morbides
A faire du vin un linceul? 
 
Cette crapule invulnérable
Comme les machines de fer
Jamais, ni l’été ni l’hiver,
N’a connu l’amour véritable,

Avec ses noirs enchantements,
Son cortège infernal d’alarmes,
Ses fioles de poison, ses larmes,
Ses bruits de chaîne et d’ossements!

— Me voilà libre et solitaire!
Je serai ce soir ivre mort;
Alors, sans peur et sans remord,
Je me coucherai sur la terre,

Et je dormirai comme un chien!
Le chariot aux lourdes roues
Chargé de pierres et de boues,
Le wagon enragé peut bien

Écraser ma tête coupable
Ou me couper par le milieu,
Je m’en moque comme de Dieu,
Du Diable ou de la Sainte Table! 
 
O vinho do assassino

Livre, afinal! ela está morta!
Posso beber o tempo inteiro.
Quando eu voltava sem dinheiro,
Se ouviam gritos logo à porta. 
 
Sou tão feliz quanto é um rei;
O ar é puro, o céu adorável...
Era um verão incomparável
Quando por ela me encantei!

A sede atroz que me põe louco
Para saciá-la exigiria
O que de vinho caberia
Em sua tumba. E não é pouco:

Atirei-a ao fundo de um poço,
E eu mesmo pus, para cobri-la,
De suas bordas toda a argila.
— Hei de esquecê-la, se é que posso!

Em nome das eternas juras,
Pois nada nos pode afastar,
E para nos reconciliar
Como no tempo das venturas,

Eu lhe implorei uma entrevista,
À noite, numa estrada escura.
Ela veio! — a louca criatura!
Talvez em nós um louco exista!

Ela era então ainda garrida,
Embora exausta e já sem viço!
Quanto eu a amava! e foi por isso
Que lhe ordenei: Sai desta vida!

Ninguém me entende. Algum canalha,
Dentre esses ébrios enfadonhos,
Conceberia em seus maus sonhos
Fazer do vinho uma mortalha? 
 
Essa devassa indiferente,
Como qualquer engenho hodierno,
Jamais, no verão ou no inverno,
Sentiu do amor o apelo ardente,

Com suas negras seduções,
Seu cortejo infernal de horrores,
Seus venenos e dissabores,
Seus timbres de ossos e grilhões!

— Eis-me liberto e a sós comigo!
Serei à noite um ébrio morto;
Sem nenhum medo ou desconforto,
Farei da terra o meu abrigo,

E ali dormirei como um cão!
Podem as rodas da carroça,
Cheia de entulho e lama grossa,
Ou um colérico vagão

Esmagar-me a fronte culpada
Ou cortar-me ao meio, que ao cabo
Eu zombo de tudo, do Diabo,
De Deus ou da Ceia Sagrada! 
 
CVIII
 
Le vin des amants

Aujourd’hui l’espace est splendide!
Sans mors, sans éperons, sans bride,
Partons à cheval sur le vin
Pour un ciel féerique et divin!

Comme deux anges que torture
Une implacable calenture,
Dans le bleu cristal du matin
Suivons le mirage lointain!

Mollement balancés sur l’aile
Du tourbillon intelligent,
Dans un délire parallèle,
 
Ma sœur, côte à côte nageant,
Nous fuirons sans repos ni trêves
Vers le paradis de mes rêves! 
 
O vinho dos amantes
 
O espaço hoje esplende de vida!
Livres de esporas, freio ou brida,
Cavalguemos no vinho: adiante
Se abre um céu puro e fulgurante!
 
Como dois anjos que tortura
Uma implacável calentura,
No límpido azul da paisagem
Sigamos a fugaz miragem!
 
Embalados no íntimo anelo
De um lúcido e febril afã,
Qual num delírio paralelo,
 
Lado a lado nadando, irmã,
Chegaremos enfim, risonhos,
Ao paraíso de meus sonhos! 
 
Fleurs du mal
 
CIX
 
La destruction

Sans cesse à mes côtés s’agite le Démon;
Il nage autour de moi comme un air impalpable;
Je l’avale et le sens qui brûle mon poumon
Et l’emplit d’un désir éternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l’Art,
La forme de la plus séduisante des femmes,
Et, sous de spécieux prétextes de cafard,
Accoutume ma lèvre à des philtres infâmes.

Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,
Haletant et brisé de fatigue, au milieu
Des plaines de l’Ennui, profondes et désertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion
Des vêtements souillés, des blessures ouvertes,
Et l’appareil sanglant de la Destruction! 
 
A destruição

Sem cessar a meu lado o Demônio se agita,
E nada ao meu redor como um ar impalpável;
Eu o levo aos meus pulmões, onde ele arde e crepita,
Inflando-os de um desejo eterno e condenável.

Às vezes, ao saber do amor que a arte me inspira,
Assume a forma da mulher que eu vejo em sonhos,
E, qual tartufo afeito às tramas da mentira,
Acostuma-me a boca aos seus filtros medonhos.

Ele assim me conduz, alquebrado e ofegante,
10 Já dos olhos de Deus afinal tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas,

E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
— O aparato sangrento e atroz da Destruição! 
 
CXI
 
Femmes damnées
 
Comme un bétail pensif sur le sable couchées, 
Elles tournent leurs yeux vers l’horizon des mers, 
Et leurs pieds se cherchent et leurs mains rapprochées 
Ont de douces langueurs et des frissons amers. 
 
Les unes, cœurs épris des longues confidences, 
Dans le fond des bosquets où jasent les ruisseaux, 
Vont épelant l’amour des craintives enfances 
Et creusent le bois vert des jeunes arbrisseaux; 
 
D’autres, comme des soeurs, marchent lentes et graves 
A travers les rochers pleins d’apparitions, 
Où saint Antoine a vu surgir comme des laves 
Les seins nus et pourprés de ses tentations; 
 
II en est, aux lueurs des résines croulantes, 
Qui dans le creux muet des vieux antres païens 
T’appellent au secours de leurs fièvres hurlantes, 
O Bacchus, endormeur des remords anciens! 
 
Et d’autres, dont la gorge aime les scapulaires, 
Qui, recélant un fouet sous leurs longs vêtements, 
Mêlent, dans le bois sombre et les nuits solitaires, 
L’écume du plaisir aux larmes des tourments. 
 
O vierges, ô démons, ô monstres, ô martyres, 
De la réalité grands esprits contempteurs, 
Chercheuses d’infini dévotes et satyres, 
Tantôt pleines de cris, tantôt pleines de pleurs,

Vous que dans votre enfer mon âme a poursuivies, 
Pauvres soeurs, je vous aime autant que je vous plains, 
Pour vos mornes douleurs, vos soifs inassouvies, 
Et les urnes d’amour dont vos grands cœurs sont pleins! 
 
Mulheres malditas
 
Como um rebanho absorto e na areia deitadas,
Elas volvem o olhar para o espelho das águas; 
Os pés em mudo afago e as mãos entrelaçadas, 
Bebem o fel do calafrio e o mel das mágoas.
 
Umas, o coração abrindo em confidências, 
Nos bosques onde se ouve um córrego em segredo, 
Vão soletrando o amor em cândidas cadências 
E o pólen raspam aos rebentos do arvoredo;
 
Outras, tais como irmãs, andam lentas e cavas 
Por entre as rochas apinhadas de ilusões, 
Onde viu Santo Antônio aflorar como lavas 
Os rubros seios nus de suas tentações;
 
Outras há que, ao calor da líquida resina, 
No côncavo sem voz de um velho antro pagão 
Pedem por ti em meio à febre que alucina, 
Ó Baco, ao pé de quem dorme toda a aflição!
 
E outras, que adoram pôr ao colo escapulários 
E que, escondendo sob as vestes um cilício, 
Juntam à noite, pelos bosques solitários, 
A espuma do prazer ao gume do suplício.
 
Ó monstros, ó vestais, ó mártires sombrias, 
Espírito nos quais o real sucumbe aos mitos, 
Vós que buscais o além, na prece e nas orgias, 
Ora cheias de pranto, ora cheias de gritos,
 
Vós que minha alma perseguiu em vosso inferno, 
Pobres irmãs, eu vos renego e vos aceito, 
Por vossa triste dor, vosso desejo eterno, 
Pelas urnas de amor que inundam vosso peito! 
 
CXII
 
Les deux bonnes sœurs

La Débauche et la Mort sont deux aimables filles,
Prodigues de baisers et riches de santé,
Dont le flanc toujours vierge et drapé de guenilles
Sous l’éternel labeur n’a jamais enfanté.

Au poëte sinistre, ennemi des familles,
Favori de l’enfer, courtisan mal renté,
Tombeaux et lupanars montrent sous leurs charmilles
Un lit que le remords n’a jamais fréquenté.

Et la bière et l’alcôve en blasphèmes fécondes
Nous offrent tour à tour, comme deux bonnes sœurs,
De terribles plaisirs et d’affreuses douceurs. 
 
Quand veux-tu m’enterrer, Débauche aux bras immondes?
O Mort, quand viendras-tu, sa rivale en attraits,
Sur ses myrtes infects enter tes noirs cyprès?
 
As duas boas irmãs

A Orgia e a Morte são duas jovens graciosas,
Fartas de beijos e de frêmito incontido,
Cujo ventre engastado em ancas andrajosas
Jamais logrou um fruto em si ter concebido.

Ao poeta infausto, hostil às famílias virtuosas,
Favorito do inferno e cortesão falido,
Caves e tumbas oferecem, generosas,
Um leito em que o pesar jamais foi recebido.

A sepultura e a alcova, em blasfêmias fecundas,
Nos dão de quando em vez, como boas irmãs,
Os prazeres do horror e as carícias malsãs. 
 
Hás de enterrar-me, Orgia, em tuas covas fundas?
Quando virás, ó Morte, envolta em negras vestes,
Sobre os mirtos em flor plantar os teus ciprestes?
 
CXIII
 
La fontaine de sang

Il me semble parfois que mon sang coule à flots,
Ainsi qu’une fontaine aux rhythmiques sanglots.
Je l’entends bien qui coule avec un long murmure,
Mais je me tâte en vain pour trouver la blessure.

A travers la cité, comme dans un champ clos,
Il s’en va, transformant les pavés en îlots,
Désaltérant la soif de chaque créature,
Et partout colorant en rouge la nature.

J’ai demandé souvent à des vins captieux
D’endormir pour un jour la terreur qui me mine;
Le vin rend l’œil plus clair et l’oreille plus fine!

J’ai cherché dans l’amour un sommeil oublieux;
Mais l’amour n’est pour moi qu’un matelas d’aiguilles
Fait pour donner à boire à ces cruelles filles! 
 
A fonte de sangue

Sinto por vezes que meu sangue corre em fluxos,
Assim qual uma fonte em rítmicos soluços.
Eu bem que o escuto numa súplica perdida,
Mas me tateio em vão em busca da ferida.

Pela cidade vai, como entre espessos buxos,
As lajes transformando em ilhas e repuxos,
Matando a sede em cada boca ressequida
E a paisagem deixando em púrpura tingida.

Muitas vezes pedi a um vinho caviloso
10 Aplacar por um dia o horror que me domina;
O vinho aguça o ouvido e os olhos ilumina!

Busquei então no amor um sono descuidoso;
Mas o amor para mim é um leito de suplício
Que a sede há de saciar a essas ninfas do vício! 
 
CXIV
 
Allégorie

C’est une femme belle et de riche encolure,
Qui laisse dans son vin traîner sa chevelure.
Les griffes de l’amour, les poisons du tripot,
Tout glisse et tout s’émousse au granit de sa peau.
Elle rit à la Mort et nargue la Débauche,
Ces monstres dont la main, qui toujours gratte et fauche,
Dans ses jeux destructeurs a pourtant respecté
De ce corps ferme et droit la rude majesté.
Elle marche en déesse et repose en sultane;
Elle a dans le plaisir la foi mahométane,
Et dans ses bras ouverts, que remplissent ses seins,
Elle appelle des yeux la race des humains.
Elle croit, elle sait, cette vierge inféconde
Et pourtant nécessaire à la marche du monde,
Que la beauté du corps est un sublime don
Qui de toute infamie arrache le pardon.
Elle ignore l’Enfer comme le Purgatoire,
Et quand l’heure viendra d’entrer dans la Nuit noire,
Elle regardera la face de la Mort,
Ainsi qu’un nouveau-né, — sans haine et sans remord. 
 
Alegoria

É uma bela mulher, de aparência altaneira,
Que deixa mergulhar no vinho a cabeleira.
As tenazes do amor, os venenos da intriga,
Nada a epiderme de granito lhe fustiga.
Da Morte ela se ri e escarnece da Orgia,
Espectro cuja mão, que ceifa e suplicia,
Respeitaram, contudo, em seus jogos de horror,
Neste corpo elegante o rústico esplendor.
Caminha como deusa e dorme qual sultana,
E mantém no prazer uma fé maometana.
Braços em cruz, inflando os seios soberanos,
Com seu olhar convoca a raça dos humanos.
Ela sabe, ela crê, em seu ventre infecundo,
E no entanto essencial ao avanço do mundo,
Que a beleza do corpo é sempre um dom sublime
Que perdoa a sorrir qualquer infâmia ou crime.
O Inferno desconhece e o Purgatório ignora,
E quando a negra Noite anunciar sua hora,
Da Morte ela há de olhar o rosto apodrecido
— Sem remorso ou rancor, como um recém-nascido. 
 
CXVII 
 
O amor e o crânio

VELHA VINHETA

Sobre o crânio da raça humana
O amor faz seu ninho,
E nessa atitude profana,
Com riso escarninho,

Bolhas redondas lhe apetece
Deixar ir subindo,
Como se os sóis reunir quisesse
No vazio infindo.

A esfera tíbia e cristalina,
Com súbito estouro,
Rebenta e cospe a alma franzina
Como um sonho de ouro.

Em cada bolha o crânio escuto
Gemer e implorar:
“Este jogo cômico e bruto
Quando há de acabar?

Pois o que a tua boca expele
No ar como destroços,
Monstro assassino, é minha pele,
Meu sangue e meus ossos!” 
 
Revolta
 
 Abel e Caim
 
1

Raça de Abel, frui, come e dorme,
Deus te sorri bondosamente.

Raça de Caim, no lodo informe
Roja-te e morre amargamente.

Raça de Abel, teu sacrifício
Doce é ao nariz do Serafim!

Raça de Caim, teu suplício
Quando afinal há de ter fim?

Raça de Abel, tuas sementes
E teus rebanhos férteis são;

Raça de Caim, teus parcos dentes
Rangem de fome e de privação!

Raça de Abel, teu ventre aquece
Junto à lareira patriarcal;

Raça de Caim, treme e padece
Em teu covil, pobre chacal!

Raça de Abel, goza e pulula!
Teu ouro é pródigo em rebentos;

Raça de Caim, refreia a gula,
Ó coração que arde em tormentos!

Raça de Abel, cresces e brotas
Como os insetos do arvoredo;

Raça de Caim, por ínvias rotas,
Arrasta os teus à infâmia e ao medo.

2

Raça de Abel, tua carcaça
Aduba o solo fumegante!

Raça de Caim, tua argamassa
Jamais foi sólida o bastante;

Raça de Abel, eis teu fracasso:
Do ferro o chuço ganha a guerra!

Raça de Caim, sobe ao espaço
Deus enfim deita por terra!
 
CXX
 
As litanias de Satã

Ó tu, o anjo mais belo e sábio entre teus pares,
Deus que a sorte traiu e expulsou dos altares,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Ó Príncipe do exílio, a quem fizeram mal
E que, vencido, sempre te ergues mais triunfal,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das trevas soberanas,
Charlatão familiar das angústias humanas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

10 Tu que, mesmo ao leproso e ao pária, se preciso,
Ensinas por amor o amor do Paraíso,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que da Morte, tua antiga e fiel amante,
Engendraste a Esperança — a louca fascinante!

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que dás ao proscrito esse alto e calmo olhar
Que leva o povo ao pé da forca a desvairar,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que bem sabes em que terras invejosas
O Deus ciumento esconde as pedras mais preciosas,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu cujo olhar desvela os fundos arsenais
Onde sepulto dorme o povo dos metais,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu cuja larga mão oculta os precipícios
Ao sonâmbulo a errar no alto dos edifícios,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que, magicamente, amacias os ossos
Do ébrio tardio que um tropel fez em destroços,

30 Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que, para o consolo eterno de quem sofre,
Nos ensinaste a unir o salitre ao enxofre,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que pões tua marca, ó cúmplice sutil,
Sobre a fronte do Creso implacável e vil,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Tu que infundes no olhar e na alma das donzelas
O amor aos trapos e a paixão pelas mazelas,

Tem piedade, o Satã, de minha atroz miséria!
 
Bastão do desterrado, archote do inventor,
Confessor do enforcado e do conspirador,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria!

Pai adotivo dos que, em cólera sombria,
O Deus Padre baniu do Éden terrestre um dia,

Tem piedade, ó Satã, de minha atroz miséria! 
 
ORAÇÃO

Glória e louvor a ti, Satã, lá nas alturas
Do Céu, onde reinaste, e nas furnas escuras
Do Inferno, onde, vencido, sonhas silencioso!
Sob a Árvore da Ciência, um dia, que o repouso
Minha alma encontre em ti, quando na tua testa
Seus ramos expandir qual no Templo em festa! 
 
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.