31.12.25

Jano

entra/O Moon My Pin-Up/Franz Koglmann/Ezra Pound/Phil Minton/sai

Franz Koglmann – O Moon My Pin-Up 

Label: hatOLOGY – hatOLOGY 566 

Format: CD, Album 

Country: Switzerland 

Released: 2001 

Genre: Jazz

Style: Free Jazz 

Recorded At – ORF Studio Vienna 

Copyright © – Hat Hut Records Ltd. Phonographic 

Copyright ℗ – Hat Hut Records Ltd. 

Printed By – Lüdin AG 

Alto Vocals – Lydia Seidl-Vierlinger, Patricia Ermes 

Bass – Barre Phillips 

Bass Vocals – Colin Mason, Erich Klug 

Bassoon – Angelika Riedl 

Clarinet, Tenor Saxophone – Tony Coe 

Concept By [Idea], Typography [Textcompilation] – Christian Baier 

Conductor – Gustav Bauer 

Design Concept [Graphic Concept] – fuhrer vienna 

Edited By – Anna Kuncio 

Engineer [Recording] – Christian Sodl 

Ensemble – Wiener Vokalisten 

Guitar – Michael Hintersteininger 

Liner Notes – Peter Niklas Wilson 

Lyrics By [Text] – Ezra Pound 

Mastered By – Peter Pfister 

Oboe, English Horn, Oboe d'Amore – Mario Arcari 

Recorded By [Supervision] – Wolfgang Sturm 

Soprano Vocals [1st] – Ursula Fiedler 

Soprano Vocals [2nd] – Birgit König 

Tenor Vocals – James Curry 

Tenor Vocals, Directed By [Wiener Vokalisten] – Alois Glaßner 

Trombone – Rudolf Ruschel 

Trumpet, Flugelhorn, Music By – Franz Koglmann 

Tuba – Raoul Herget 

Voice [Ezra Pound] – Phil Minton 

Recorded digitally 8th to 10th March 1997 at ORF Radio Studio, Vienna. Commissioned by the festival Hörgänge 97, premiered 7th March 1997 at Wiener Konzerthaus. 

Co-produced by ORF Vienna, pipe records, Wiener Musik Galerie, Hat Hut Records and Wespennest Publishers. 

Edition of [796 of] 999

O Moon My Pin-Up (CD, Limited Edition, Numbered, Book) hat[now]ART, Wespennest 133, none Austria 1998

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase média>
[...]
Sobre o fenômeno da colportagem do espaço: “O senso do mistério — escreveu Odilon lisdon, que havia aprendido seu segredo em Da Vinci — é estar o tempo todo no equívoco, fanes aspectos duplos, triplos, nas suspeitas de aspecto (imagens dentro de imagens), nas formas que podem vir a ser, ou que virão a ser, segundo o estado de espírito do observador. Todas as coisas mais que sugestivas, pelo fato de aparecerem.” Cit. cm Raymond Escholier, Artiste, in: Arts et Métiers Graphiques, n° 47, 01 jun. 1935, p. 7.
[M 6a, 1] 
[...]
A cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto. O flâneur, sem o saber, persegue esta realidade. Sem o saber — por outro lado, nada é mais insensato do que a tese convencional que racionaliza seu comportamento e é a base inconteste da ilimitada literatura que descreve o flâneur em seu comportamento e aparência. Trata-se da tese de que o flâneur teria escolhido como objeto de seu estudo a aparência fisionômica das pessoas, a fim de fazer a partir do andar, da estrutura física e das expressões faciais a leitura da nacionalidade e do status social, do caráter e do destino. O interesse em dissimular as reais motivações do flâneur deveria ser bastante premente para dar crédito a teses tão inconsistentes.
[M 6a, 4]
[...]
Litografia. “Os cocheiros dos Fiacres brigando com os dos Ônibus”. Cabinet des Estampes.
[M 7, 2]
Em 1853 já existiam estatísticas oficiais sobre o tráfego de veículos em certos pontos principais de Paris. “Em 1853, trinta e uma linhas de ônibus serviam Paris, e é interessante observar que, com pouca diferença, essas linhas eram designadas com as mesmas letras que nossos ônibus atuais. Assim, a ‘Madeleine-Bastille’ já era a linha E.” Paul d’Ariste, La Vie et le Monde du Boulevard, 1830-1870, Paris, 1930, p. 196.
[M 7, 3]
Nos pontos de baldeação dos ônibus, os passageiros eram chamados por um número de ordem e tinham que se apresentar para garantir seu direito a um lugar. (1855)
[M 7, 4]
[...]
Louis Lurine, Le Treizième Arrondissement de Paris, Paris, 1850, é um dos testemunhos mais significativos da fisionomia própria do bairro. O livro possui características de estilo peculiares. Personifica o bairro; não são raras as fórmulas do tipo: “O décimo terceiro arrondissement não se dedica ao amor de um homem, a não ser quando que lhe proporciona vícios para amar” (p. 216).12 
[M 7, 6]

A expressão de Diderot “Como é bela a rua!” é muito cara aos cronistas da flânerie.
[M 7, 7]
Sobre a lenda do flâneur: “Com a ajuda de uma palavra que escuto ao passar, reconstituo soda uma conversa, toda uma vida; o tom de uma voz é suficiente para unir o nome de um pecado capital ao homem com quem acabo de cruzar, de quem só vislumbrei o perfil." Victor Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 270.
[M 7, 8]
Ainda no ano de 1857, partia às seis horas da manhã da Rue Pavée-Saint-André uma diligência para Veneza, numa viagem que durava seis semanas. Cf. Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, p. 273.
[M 7, 9]
Nos ônibus, um mostrador que indicava o número de passageiros. Para quê? Como aviso ao cobrador que distribuía os bilhetes.
[M 7, 10]
“Observa-se ... que o ônibus parece apagar e petrificar todos os que dele se aproximam. As pessoas que ganham a vida com os viajantes ... são reconhecidas, em geral, por sua agitação grosseira..., da qual os empregados dos ônibus são praticamente os únicos que não apresentam traços. Pode-se dizer que dessa pesada máquina emana uma influência plácida soporífica, semelhante àquela que faz adormecer as marmotas e as tartarugas no começo do inverno.” Vicior Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 283 (“Cochers de fiacres, cochers de remise et cochers d’omnibus”).
[M 7a, 1]
[...]
A primeira sugestão de um sistema de ônibus deve-se a Pascal, e ela foi concretizada sob Luís XIV, embora com a restrição significativa de “que os soldados, pajens, lacaios e outras pessoas de libré, inclusive os serventes e trabalhadores braçais não poderíam subir nas ditas carruagens”. Em 1828, a introdução dos ônibus, sobre os quais lê-se em um cartaz: “Esses veículos ... avisam quando vão passar, acionando um jogo de cornetas recentemente inventado.” Eugène D’Auriac, Histoire Anecdotique de lIndustrie Française, Paris, 1861, pp. 250 e 281.
[M 7a, 3]
[...]
A figura de um camponês no cenário urbano é descrita por Delvau em Les Lions du Jour, no capítulo “Le pauvre à cheval”. “Este cavaleiro era um pobre diabo, cujos meios impediamno de andar a pé, e que pedia esmola como um outro teria pedido uma informação sobre o caminho. Esse mendigo..., com seu pequeno poldro de crinas selvagens, de pêlo áspero como o de um asno do campo, me ficou durante muito tempo no espírito e diante dos olhos... Ele morreu  rentista.” Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, pp. 1 16-1 17 (“Le pauvre à cheval”).
[M 7a, 5] 
[...]
“A oposição entre a cidade e o campo ... é a expressão mais flagrante da subsunção do indivíduo à divisão do trabalho e à uma determinada atividade que lhe é imposta — uma subsunção que transforma um em obtuso animal urbano, e o outro em obtuso animal campestre.” (Karl Marx e Friedrich Engels, Die deutsche Ideologie, Marx-Engels Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, pp. 271-272)
[M 8, 3]
No Arco do Triunfo: “Incessantemente circulam nessas ruas, para cima e para baixo, cabriolés, ônibus, hirondelles , velocíferos, citadinas, Dames blanches, seja qual for o nome desses diversos veículos públicos; e além deles os inumeráveis whiskys, carruagens, carroças, cavaleiros e amazonas.” L. Rellstab, Paris im Frühjahr 1843, Leipzig, 1844, vol. I, p. 212. O autor menciona também um ônibus que trazia sua destinação escrita numa bandeira.
[M 8, 4]
Por volta de 1857 (cf. H. de Pène, Paris Intime, Paris, 1859, p. 224), a parte superior dos ônibus  a impériale  era proibida às mulheres.
[M 8, 5]
 [...]
Sobre Victor Hugo: “A manhã, para ele, constituía o trabalho imóvel; a tarde, o trabalho Man te Adorava as impériales dos ônibus, esses ‘balcões ambulantes, como ele as chamava, de onde podia estudar à vontade os aspectos diversos da gigantesca cidade. Dizia que o barulho ensurdecedor de Paris lhe produzia o mesmo efeito que o mar.” Édouard Drumont, Figures de Bronze ou Statues de Neige, Paris, 1900, p. 25 (“Victor Hugo”).
[M 8a, 3]
Existência autônoma dos quartiers: ainda em meados do século, dizia-se da Île Saint-Louis, que uma moça de lá, caso não gozasse de boa reputação, teria que procurar o futuro marido fora do quartier.
[M 8a, 4] 
 [...]
“O ônibus, este Leviata da carroceria, e essas viaturas tão numerosas, entrecruzando-se com a rapidez de um raio!” Théophile Gautier [in: Edouard Fournier, Paris Démoli, 2a ed., com prefácio de Théophile Gautier, Paris, 1855, p. IV]. (Este prefácio foi publicado em Le Moniteur Universel de 21 de janeiro de 1854, provavelmente como crítica à primeira edição. Parece que é total ou parcialmente idêntico ao “Mosaïque de ruines”, de Gautier, in: Paris et les Parisiens au XIX Siècle, Paris, 1856.)
[M 9, 3]
“Os elementos temporais mais heterogêneos coexistem, portanto, na cidade. Quando se sai de uma casa do século XVIII e se entra em outra do século XVI, cai-se em um declive temporal; bem ao lado há uma igreja da época gótica, e afundamos em um abismo; mais alguns passos e chegamos a uma rua da época dos Gründerjahre ... e subimos a montanha do tempo. Quem entra em uma cidade sente-se como em um tecido de sonho, onde um acontecimento de hoje se articula com o mais remoto. Uma casa associa-se a uma outra, não importa de que camada temporal se originam, e assim surge uma rua. E mais adiante, quando esta ma, digamos, da época de Goethe, desemboca em uma outra, por exemplo, da época guilhermina, forma-se o bairro... Os pontos culminantes da cidade são suas praças, onde desembocam não só muitas mas, mas também as correntes de sua história. Mal estas afluem e já são cercadas; as bordas da praça são as margens, de modo que a forma exterior da praça fornece informações sobre a história que nela se passa. . . Coisas que encontram pouca ou nenhuma expressão nos acontecimentos políticos desenrolam-se nas cidades; elas constituem um instrumento muito preciso, apesar de seu peso de pedra, sensível como uma harpa eólica às vivas vibrações históricas do ar.” Ferdinand Lion, Geschichte biologisch gesehen, Zurique-Leipzig, 1935, pp. 125-126, 128 (“Notiz über Städte” “Nota sobre cidades”).
[M 9, 4]
Delvau pretende reconhecer no flanar as camadas sociais da sociedade parisiense com a mesma facilidade que um geólogo identifica as camadas do solo.
[M 9a, 1] 
[...]
“Sair, quando nada nos obriga a fazê-lo, e seguir nossa inspiração como se o simples fato de virar à direita ou à esquerda já constituísse um ato essencialmente poético.” Edmond laloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 4]
“Dickens ... não conseguia viver em Lausanne porque precisava, para compor seus romances, do imenso labirinto das ruas de Londres, por onde rondava sem parar ... Thomas de Quincey... Baudelaire nos diz que ele era ‘uma espécie de peripatético, um filósofo da rua, meditando sem cessar através do turbilhão da cidade grande’.” Edmond Jaloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 5]
[...]
“Se Deus imprimiu ... o destino de cada homem em sua fisionomia ... por que a mão não resumiria a fisionomia, uma vez que a mão é a ação humana inteira, e seu único modo de manifestação? Daí a quiromancia... Predizer a um homem os acontecimentos de sua vida pelo aspecto de sua mão não é um fato mais extraordinário ... que dizer a um soldado que ele combaterá, a um advogado que ele discursará, a um sapateiro que ele fará sapatos ou botas, a um agricultor que ele adubará e cultivará a terra. Tomemos um exemplo marcante: o gênio é de tal forma visível no homem que, ao passearem em Paris, até as pessoas mais ignorantes adivinham um grande artista quando passa... A maioria dos observadores da natureza social e parisiense pode dizer a profissão de um transeunte ao vê-lo aproximar-se.’ Honoré de Balzac, Le Cousin Bons, in: Œuvres Complètes, vol. XVIII, Scènes de la Vie Parisienne, VI, Paris, 1914, p. 130.
[M 10, 4]
“Aquilo a que os homens chamam amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma que se entrega por inteiro, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Ed. R. Simon, p. 16 (“Les foules”).
[M 10a, 1]
“Quem entre nós, em seus dias de ambição, já não terá sonhado com o sortilégio de uma prosa poética, musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante áspera para adaptar-se aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência? / É sobretudo da freqüentação das cidades gigantescas, é do cruzamento de suas inúmeras relações que nasce este ideal obsedante.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, pp. 1-2 (“A Arsène Houssaye”). 
[M 10a, 2]
“Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante que uma janela iluminada por uma candeia.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, p. 62 (“Les fenêtres”).
[M 10a, 3]
“O artista procura a verdade eterna e ignora a eternidade que existe à sua volta. Admira a coluna do templo babilônico e despreza a chaminé da fábrica. Qual é a diferença de Unhas? Quando tiver terminado a era da energia obtida a partir do carvão, os vestígios das últimas chaminés altas serão admirados como hoje se admiram os destroços das colunas de templos... O vapor, tão amaldiçoado pelos escritores, permite-lhes deslocar sua admiração... Em vez de esperar chegar ao golfo de Bengala para ali procurar um tema empolgante, poderiam desenvolver uma curiosidade em relação ao cotidiano que os toca. Um carregador da Gare de l’Est é tão pitoresco quanto um estivador de Colombo... Sair de sua casa como quem chega de longe; descobrir um mundo que é aquele no qual se vive; começar o dia como quem desembarca de Cingapura, como se nunca tivesse visto o capacho diante de sua porta nem o rosto dos vizinhos de seu andar...; eis o que revela a humanidade presente e até então ignorada.” Pierre Hamp, “La littérature, image de la société’, in: Encyclopédie Française, vol. XVI, Arts et Littératures dans Ia Société Contemporaine, 1, p. 64.
 [M 10a, 4]
[...]
Dickens quando criança: “Quando terminava de trabalhar, não tinha outro recurso senão andar à solta, e então perambulava por meia Londres. Era um menino sonhador, preocupado sobretudo com seu triste destino.... Não se dedicou à observação, como fazem os pedantes; não olhou Charing Cross para se instruir; não contou os lampiões de Holborn para aprender aritmética; mas inconscientemente colocou nesses lugares as cenas do drama torturante que se elaborava em sua pequena alma oprimida. Achava-se na escuridão sob os lampiões de Holborn e sofria o martírio em Charing Cross. Para ele, mais tarde, todos esses bairros tiveram o interesse que só pertence aos campos de batalha.” G. K. Chesterton, Dickens, vol. IX da série Vies des Hommes Illustres, traduzido do inglês por Laurent e Matin-Dupont, Paris, 1927, pp. 30-31. 
[M 11, 2]
[...]
Vem ao caso relacionar o conto policial com o gênio metódico de Poe, como o faz Valéry (Fleurs du Mal, ed. de 1928, introdução de Paul Valéry, p. XX): “Chegar a um ponto do qual se domine o campo inteiro de uma atividade é perceber necessariamente uma quantidade de possibilidades... Assim, não é de se admirar que Poe, de posse de um método tão poderoso..., tenha se tornado o inventor de vários gêneros, tenha dado os primeiros ... exemplos do conto científico, do poema cosmogônico moderno, do romance de investigação policial, da introducão dos estados psicológicos mórbidos na literatura.”
[M 12a, 1] 
Sobre o “Homem da multidão”, esta passagem de um artigo de La Semaine, de 4 de outubro de 1846, atribuído a Balzac ou a Hippolyte Castille (cit. em Messac, Le “Detective Novelet lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 424): “O olhar se fixa nesse homem que caminha na sociedade entre leis, emboscadas e traições de seus cúmplices como um selvagem do Novo Mundo entre répteis, animais ferozes e tribos inimigas.”
[M 12a, 2]
Sobre o “Homem da multidão”: Bulwer acrescenta à sua descrição da multidão da cidade grande em Eugen Aram (parte IV, capítulo 5) a referência a uma observação de Goethe, segundo a qual todo ser humano, do melhor ao mais miserável, carrega consigo um segredo que despertaria o ódio de todos os outros se fosse descoberto. Além disso, encontra-se já em Bulwer o confronto entre cidade e campo, com vantagem para a cidade.
[M 12a, 3]
Sobre o romance policial: “Na fantasia dos americanos acerca do héroi, o carárer do índio representa um papel fundamental... Somente as iniciações indígenas conseguem competir com a agressividade e a crueldade de um rigoroso treinamento americano... Em tudo o que o americano realmente deseja aparece o índio; na extraordinária concentração em um objetivo determinado, na tenacidade da perseguição e na firmeza com a qual suporta as maiores dificuldades manifestam-se plenamente todas as virtudes legendárias do índio.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 207 (“Seele und Erde”  “Alma e terra”).
[M 12a, 4]
Capítulo II, “Physionomie de la me”, in: Argument du Livre sur la Belgique: “Lavagem das fachadas e das calçadas, mesmo quando chove a cântaros. Mania nacional, universal... Nenhuma vitrine nas boutiques. A flânerie, tão cara aos povos dotados de imaginação, é impossível em Bruxelas; nada para se ver, e caminhos impossíveis.” Baudelaire, Œuvres, ed. org. por Y.-G. Le Dantec, vol. II, Paris, 1932, pp. 709-710.
[M 12a, 5]
Le Breton censura Balzac, afirmando que haveria em sua obra “um excesso de moicanos de spencer e iroqueses de redingote”. Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 1]
Extraído das primeiras páginas de Les Mystères de Paris: “Todo mundo leu essas admiráveis páginas nas quais Cooper, o Walter Scott americano, retratou os costumes ferozes dos selvagens, sua língua pitoresca, poética, as mil astúcias com as quais fogem de seus inimigos ou os perseguem... Tentaremos colocar diante dos olhos do leitor alguns episódios da vida de outros bárbaros, tão afastados da civilização quanto as tribos selvagens, tão bem representadas por Cooper.” Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel”, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 2]
Associação memorável entre a flânerie e o romance policial no começo de Les Mohicans de Paris. “Desde o início, Salvator diz ao poeta Jean Robert: ‘Você quer escrever um romance? Pegue Lesage, Walter Scott e Cooper...’ Em seguida, tal como os personagens das Mil e Uma Noites, eles jogam ao vento um fragmento de papel e o seguem, convencidos de que ele os levará a um tema de romance, o que de fato acontece.” Cit. em Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 429.
[M 13, 3]
Sobre os epígonos de Sue e de Balzac “que vão pulular no romance de folhetim. A influencia de Cooper se fia z sendr aqui ora diretamente, ora por intermédio de Balzac ou de outros imitadores. Paul Féval, desde 1856, em Les Couteaux dOr, transpõe ousadamente os hábitos e mesmo os habitantes da pradaria para o cenário parisiense: vê-se ali um cão maravilhosamente dotado que se chama Moicano, um duelo de caçadores à americana no subúrbio de Paris, e um pele-vemelha de nome I owah, que mata e escalpa quatro de seus inimigos em plena Paris, num fiacre, tão habilmente que o cocheiro nem mesmo percebe. Um pouco mais tarde, em Les Habits Noirs (1863), ele multiplica as comparações ao gosto de Balzac: *... os selvagens de Cooper em plena Paris! A cidade grande não e por acaso tão misteriosa quanto as florestas do Novo Mundo?’” Em uma observação subseqüente: Cf. também os capítulos II e XIX, onde ele põe em cena dois vagabundos, Echalot e Similor, ‘huronianos de nossos lamaçais, iroqueses da sarjeta’.’ Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, da série Bibliothèque de la Revue de Littérature Comparée, tomo 59, pp. 425-426.
[M 13, 4]
“A poesia de terror que os estratagemas das tribos inimigas em guerra espalham no seio das florestas da América, e da qual tanto se aproveitou Cooper, ligava-se aos menores detalhes da vida parisiense. Os transeuntes, as boutiques , os fiacres, uma pessoa à janela, tudo isso interessava aos homens a quem era confiada a proteção da vida do velho Peyrade, tão intensamente quanto um tronco de árvore, uma toca de castor, um rochedo, uma pele de búfalo, uma canoa imóvel, uma folha flutuante interessam ao leitor dos romances de Cooper.” Balzac, À Combien lAmour Revient aux Vieillards.13 
[M 13a, 1]
A figura do flâneur prenuncia a do detetive. O flâneur devia procurar uma legitimação social para seu comportamento. Convinha-lhe perfeitamente ver sua indolência apresentada ao aparência, por detrás da qual se esconde de fato a firme atenção de um observador ado implacavelmente o criminoso que de nada suspeita. 
[M 13a, 2] 
[...]
Do velho Victor Hugo, quando morava na Rue Pigalle, relata Jules Clarerie que gostava de passear em Paris nas impériales dos ônibus. Adorava contemplar lá de cima a agitação das ruas. (Cf. Raymond Escholier, Victor Hugo Raconté par Ceux qui lont Vu, Paris, 1931, p. 350  Jules Claretie, “Victor Hugo”.)
[M 13a, 4] 
 
12 Na época em que Paris contava apenas com as doze circunscrições da região central, ou seja, antes da reforma administrativa de 1859, o “décimo-terceiro arrondissement” designava o lugar dos amores ilícitos. (J.L.)

13 Trata-se do título da parte II de Splendeurs et Miséres des Courtisanes; a citação encontra-se em Balzac, Œuvres Complètes, vol XV, Paris, Ed. Conard, 1913, pp. 310-311.
 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

30.12.25

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/entra

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)

neil gaiman/sai


 

GAIMAN, Neil (1960- ); BELARDINELLI, Massimo (1938-2007). Choques Futuristas de Tharg / eu acredito / 2000 AD / Neil Gaiman, Massimo Belardinelli; em JUIZ DREDD MEGAZINE; No 7; 1981, 1986, 2000, 2005, 2012 e 2013; Rebellion A/S.  — São Paulo: Mythos Editora. 

GAIMAN, Neil (1960- ). BOLTON, John (1951- ). A paixão do ArlequimHarlequin Valentine / Neil Gaiman, John Bolton; textos de Gaiman sobre a obra e sobre Bolton; 2001; diretor editorial Rogério de Campos.  — São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2002.

GAIMAN, Neil (1960- ); BOLTON, John (1951- ); HAMPTON, Scott (1959- ); VESS, Charles (1951- ); JOHNSON, Paul (1958- ). Os livros da magia / Books of magic / edição de luxo / Neil Gaiman, John Bolton, Scott Hampton, Charles Vess, Paul Johnson; capa John Bolton; letrista original Todd Klein; introdução Roger Zelazny, 1993; Apocrypha Neil Gaiman; Mood Indigo canção de Duke Ellington e Barney Bigard e letra de Irving Mills; Vertigo/DC Comics. — 1a ed— Barueri, SP: Panini Brasil, 2013.

pois é,
é pior
do que
me lem-
brava

GAIMAN, Neil (1960- ). Dias da meia-noitemidnight days / edição de luxo / Neil Gaiman, Teddy Kristiansen, Dave McKean, Mike Mignola, Stephen R.Bissette, John Totleben, Sergio Aragonés, &c; introdução e textos de Gaiman sobre cada história; 1999; Vertigo/DC Comics 1989, 1995, 1998, 1999, 2013. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2013. 

Estou relendo o que tenho do Gaiman, depois de toda a polêmica em torno dos seus abusos sexuais.

É curioso com nunca gostei muito do seu trabalho, mas ele é e foi amigo dos maiores da segunda metade do séc xx, de Will Eisner até Alan Moore. Todos os bons desenhistas, os mais diferentes e com total liberdade, trabalharam para ele.

Este, talvez, seja o trabalho dele que mais gosto (junto com A Paixão do Arlequim). Caras como Teddy Kristiansen, Dave McKean, Mike Mignola, Stephen R.Bissette, John Totleben, até chegar no divertido Sergio Aragonés.

GAIMAN, Neil (1960- ); KIETH, Sam (1963- ); DRINGENBERG, Mike (1965- ); JONES III, Malcolm (1959-1996). Sandman / volume i / Prelúdios & Noturnos / Preludes & Nocturnes /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Sam KiethMike DringenbergMalcolm Jones III; capa Dave McKean; introdução Patrick Rothfuss; prefácio Karen Berger; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1989; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.

GAIMAN, Neil (1960- ); DRINGENBERG, Mike (1965- ); JONES III, Malcolm (1959-1996); BACHALO, Chris (1965- ) ZULLI, Michael (1952–2024); PARKHOUSE, Steve (1948- ). Sandman / volume 2 / Casa de Bonecas / The Dolls House /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Sam Kieth, Mike Dringenberg, Malcolm Jones III; Chris Bachalo; Michael Zulli; Steve Parkhouse; capa(s) Dave McKean; introdução Kelly DeConnick; prefácio e Envoi Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1989; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.

GAIMAN, Neil (1960- ); JONES, Kelley (1962- ); JONES III, Malcolm (1959-1996); VESS, Charles (1951- ) DORAN, Colleen (1963– ). Sandman / volume 3 / Terra de Sonhos / Dream Country /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Kelley Jones, Malcolm Jones III, Charles Vess, Colleen Dorancapa(s) Dave McKean; prefácio Steve Erickson; introdução Paul Dini; prefácio e roteiro de Calíope de Neil Gaiman; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1990; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.
GAIMAN, Neil (1960- ); JONES, Kelley (1962- ); JONES III, Malcolm (1959-1996); DRINGENBERG, Mike (1965- ); WAGNER, Matt (1961- ); DIORDANO, Dick (1932-2010); PRATT, George (1960- ); RUSSEL, P.Graig (1951- ). Sandman / volume 4 / Estação das Brumas / Seasons of Mists /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Kelley Jones, Malcolm Jones III, Mike Dringenberg, Matt Wagner, Dick Giordano, George Pratt, P.Gaig Russelcapa(s) Dave McKean; prefácio Harlan Ellison; introdução Patton Oswalt; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1991; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.
GAIMAN, Neil (1960- ); McMANUS, Shawn (1958- ); DORAN, Colleen (1963– )TALBOT, Bryan (1952- ); WOCH, Stan (1959- ). Sandman / volume 5 / Um Jogo de Você /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Shawn McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, Stan Wochcapa(s) Dave McKean; prefácio Samuel R.Delany; introdução Orlando Jones; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1992; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2020.
GAIMAN, Neil (1960- ); TALBOT, Bryan (1952- ); WOCH, Stan (1959- ); RUSSEL, P.Graig (1951- ); McMANUS, Shawn (1958- ); WATKISS, John (1961-2017); THOMPSON, Jill (1966- ); EAGLESON, Duncan (?- ); WILLIAMS, Kent (1962- ). Sandman / volume 6 / Fábulas e Reflexões / Fables & Reflections / edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Bryan Talbot, Stan Woch, P.Graig Russel, Shawn McManus, John Watkiss, Jill Thompson, Duncan Eagleson, Kent Williamscapa(s) Dave McKean; prefácio Gene Wolfe; introdução Clive Barker; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1992; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2020.
Em 1953, poucos anos depois da tentativa de atentado, Chtcheglov escreveu seu Formulário para um Novo Urbanismo¹.
 
Estamos entediados na cidade, não há mais qualquer Templo do Sol.
Uma doença mental tomou o planeta: a banalização. Todos estão hipnotizados pela produção e o conforto  sistema de esgotos, elevadores, banheiros, máquinas de lavar.
A escuridão e obscuridade foram banidas pela iluminação artificial, e as estações do ano, pelo ar-condicionado. A noite e o verão perdem seu charme e a aurora desaparece. A população urbana pensa que escapou da realidade cósmica, mas não há uma correspondente expansão de seus sonhos. A razão é óbvia: os sonhos surgem da realidade e se realizam nela.
[...]
Contra o atual estado das coisas, Chtcheglov aponta para um caminho de resistência: a deriva urbana (dérive urbaine), o deambular como ação política².
Guy Debord era um pouco mais velho que ele. Tinha 22 anos em 1953. E já era o líder de um dos tantos grupos da vanguarda parisiense: a Internacional Letrista, dissidência dos Letristas, que por sua vez eram uma dissidência dos Surrealistas. Debord, cujo tamanho do ego ainda hoje nos impressiona, rendeu-se a Chtcheglov. Viu nele uma espécie de profeta, um visionário, aquele que tem a chave, o guardião dos segredos das atitudes mais significativas... Enfim, Chtcheglov foi talvez a pessoa que Debord mais elogiou na vida, depois de si próprio. Durante um ano, entre 1953 e 1954, os dois foram inseparáveis. Debord incentivou Chtcheglov a desenvolver suas ideias, entusiasmou-se com suas derivas
pela cidade, e Chtcheglov fornece as bases para a evolução da Internacional Letrista para outra coisa, a Internacional Situacionista: a transformação de um movimento que queria revolucionar a arte para outro, mais ambicioso, que queria revolucionar a cidade e a vida. E ele que dá todas as bases da nova internacional, a sintese que lhes permite crer hoje em si mesmos, diz o escritor Patrick Straram, então membro do grupo.
Debord, entusiasmado, observa o amigo criar uma nova ciência: a psicogeografia. Em seu filme In girum imus nocte et consumimur igni (1978), enquanto a tela mostra uma foto de Chtcheglov, Debord relembra: “Mas como poderei esquecer aquele que veio em toda parte no ponto mais alto de nossas aventuras? Aquele que, nesses dias incertos, abriu uma nova estrada e avançou rápido por ela, escolhendo os que viriam. Ninguém se comparava a ele naquele ano. Parecia que bastava contemplar a cidade, contemplar a vida, para modificá-las. Em um só ano ele descobriu os motivos para as reivindicações de um século, conquistou as profundezas e os mistérios do espaço urbano”.
Em 1954, porém, Debord excluiu o amigo da Internacional Letrista, por “falta de consciência revolucionária” e excesso de problemas mentais (“mythomanie, délire, d’interprétation, manque de consciense révolutionnaire”). O problema é que, além de Debord gostar muito de expulsar membros por supostas manifestações de falta de espírito revolucionário (quando a Internacional Situacionista fechou as portas, tinha apenas três membros), talvez precisasse da ausência de Chtcheglov para desenvolver as ideias de Chtcheglov para além do ninho surrealista onde elas tinham nascido, transformando-as de poesia em teoria política.
Quando, em 1955, escreve o texto “Introduction à une critique de la géographie urbaine”, Debord atribuiu a criação do termo “psicogeografia” a um cabila analfabeto”, mas foi ele quem definiu pela primeira vez o conceito:
 
“O estudo dos efeitos específicos do ambiente geográfico, conscientemente organizado ou não, nas emoções e comportamento dos indivíduos.
O psicogeógrafo é aquele que pesquisa e transmite as realidades psicogeográficas”.4

Anos depois, Debord, com sua constante ambição de escapar ao mundo da arte e tornar-se uma espécie de líder revolucionário, irá trocar a psicogeografia pela crítica da sociedade do espetáculo”, uma teoria política com mais jeito de séria”, mais adequada para explicar o estágio atual do capitalismo. E, se o objetivo era passar a ser levado a sério, a troca foi bem sucedida. Hoje, para diversos grupos de acadêmicos, Debord ocupa alto posto no panteão dos grandes mestres do século xx. É quase um Adorno. “Ele foi o mais inovador marxista na Europa depois de 1945”, diz o cientista político Jan-Werner Müller.
Mas talvez seja esse “momento Chtcheglov” de Debord o mais rico em possibilidades. Inclusive para o ativismo político. Quando, em seu livro Future Tense: A New Art for the Nineties (Methuen, Londres, 1990), o historiador britânico Robert Newison sustenta que os situacionistas tiveram de fato influência no Maio de 1968 francês, diz que  “carros, árvores e mesas dos cafés foram détourned em barricadas... foi uma derivade ummês que reáesêobriu a psicogeografia revolucionária da cidade”.
“Enquanto as ideias situacionistas sobre o “espetáculo' e o detournement soam cada vez mais ingênuas, existem legítimos paralelos entre a psicogeografia e os movimentos políticos, genuinamente subversivos,contemporâneos”, escreve Alastair Bonnett, professor de geografia social e editor da revista inglesa Trangressions.“O que é sedutora respeito dessas explorações é que elas têm menos relação com a estética do extremismo e muito mais com as reais possibilidades da transformação social que abrem para nós”.
Assim, enquanto o termo “sociedade do espetáculo”, esvaziado de qualquer conteúdo crítico radical, foi incorporado ao discurso dos mais rasos comentaristas da televisão, a psicogeografia, mesmo sem ser nomeada, pode estar bem viva na forma, por exemplo, das ocupações das escolas brasileiras pelos secundaristas.
 
[...]
 
Mas a influência situacionista sobre o Reino Unido vai, é claro, além da cultura pop. E resultou, por exemplo, em um grupo bem mais punk que os Sex Pistols: o grupo guerrilheiro Angry Brigade, cujos integrantes, em parte inspirados em leituras do Sociedade do Espetáculo, resolveram, em 1970, fazer algo mais espetacular que manifestos ou discos de rock: lançaram bombas de verdade em bancos, nas embaixadas dos EUA e da Espanha (um dos integrantes do Angry Brigade chegou a ser preso em uma tentativa de assassinar o ditador Franco) em escritórios de companhias aéreas da Espanha e da África do Sul, em sedes do partido Conservador, postos policiais e até em um concurso de Miss Universo.8
 
[...] 

Rumney é uma dessas personagens fascinantes que sempre encontramos nas beiradas das histórias de revoluções. Quando jovem foi amigo do historiador marxista E.P.Thompson, dez anos mais velho. Thompson o abrigou em sua casa, quando Rumney fugiu do pai, um pastor anglicano furioso porque, além de pretender escapar do alistamento militar, o filho andava com livros do Marquês de Sade. Na Europa continental, conviveu com Georges Bataille, o pintor Yves Klein, William Burroughs, Marcel Duchamp, Félix Guattari... Ora estava em Paris, ora em Milão, ou Veneza ou novamente em Londres, ou na pequena ilha de Linosa, no sul da Itália. Casou-se com uma herdeira milionária, Pegeen Guggenheim (filha de Peggy Guggenheim), mas anos depois estava trabalhando como telefonista em Londres. O escritor e artista plástico Guy Atkins diz que o amigo vivia entre a penúria e a mais absurda riqueza. Uma hora estava dividindo um quarto miserável com desempregados em uma rua pobre de Londres, em outra o encontrávamos no Harrys Bar em Veneza, ou em uma vernissage de uma exposição de Max Ernst em Paris.
No obituário de Rumney que escreveu para o The Guardian, Malcolm Imrie resume: uma vida de permanente aventura e eterna experimentação. Seu apelido era Consul, inspirado no enlouquecido protagonista de Sob a Sombra do Vulcão
9, que vai ao extremo mortal da bebedeira num Dia dos Mortos de uma pequena cidade mexicana. O Consul, o gentil estrangeiro. Sire, je suis de lautre pays (Majestade, eu sou de outro país) é a epígrafe do famoso texto de Chtcheglov. Rumney era um estrangeiro, outsider, um nômade, um psicogeógrafo.
Rumney diz que inventou a London Psychogeography Committee em uma das bêbadas reuniões preparatórias da conferência de Cosio dArroscia, como uma brincadeira, para dar a impressão que a Interna- cional Situacionista era de fato uma grande organização com base em vários países. Mas, retrospectivamente, o nome não poderia ser mais adequado: foi na Grã-Bretanha que a psicogeografia mais se desenvolveu nas décadas seguintes. Talvez porque fosse um conceito de "agradável imprecisão", como precisado por Debord (assez plaisant vague), foi flexível o bastante para se fundir a tradições locais. Debord, em um texto que escreveu originalmente para ser o prefácio do relatório psi- cogeográfico de Rumney, chega mesmo a localizar a invenção da psicogeografia em Londres, mais especificamente no livro Confissões de um Comedor de Ópio (1821), de Thomas de Quincey:
 
A história de amor entre Thomas de Quincey e a pobre Ann10  que são separados pelo acaso e tentam em vão encontrar um ao outro dentro do imenso labirinto formado pelas ruas de Londres, talvez a poucos passos de distância  marca o momento histórico da descoberta das influências psicogeográficas sobre os movimentos da paixão humana e a importância desse momento só pode ser comparada à lenda de Tristão, que registra a verdadeira formação do conceito amor-paixão.

O IV Congresso da Internacional Situacionista, em 1960, aconteceu no Limehouse, leste de Londres, quartier célèbre par ses criminels, escreve Debord, encantado com a escolha psicogeográfica.
 
[...]

Mas em 1975, mesmo ano em que os Sex Pistols fizeram sua estreia, as livrarias britânicas receberam Lud Heat, no qual o escritor Iain Sinclair desenvolve, em forma de poema, a ideia de que as igrejas londrinas proje- tadas pelo arquiteto Nicholas Hawksmoor (1661-1736) criam um ambiente de malevolência que leva a crimes violentos. Hoje, Sinclair é celebrado pela respeitável crítica literária como um dos maiores escritores britânicos contemporâneos
11. Mas ele é muito mais importante que isso: Sinclair reinventou a psicogeografia inglesa com Lud Heat e sua obra posterior.
A psicogeografia de Londres deve quase tudo a Iain Sinclair, diz Phil Baker
12, para quem o autor se apoia menos em Guy Debord que no esoterismo liberado pelo movimento hippie. Os anos 1960 viram a ressurgência do interesse na vida rural, na supostamente antiga mitologia da terra e na geometria sagrada. Para Merlin Coverley, Sinclair funde o ocultismo paranoico com a investigação histórica em um novo formato que dispensa completamente a teoria situacionista em favor de um retorno a antigas tradições literárias e esotéricas13. Acho que Coverley exagera nesse completamente (completely). Primeiro porque Sinclair é um leitor de Guy Debord e dos situacionistas. Segundo porque a produção destes deixa claro a ligação deles com tradições literárias e até mesmo, algumas vezes, senão com o esoterismo pelo menos com certo misticismo, mesmo que de maneira crítica14. Mas, de fato, Sinclair parece levar a magia bem a sério. Até como arma de contra-ataque na guerra contra bruxas como a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher: só se pode entender Thatcher em termos de magia ruim. Essa bruxa perversa concentrou toda a crueldade existente na sociedade. A única maneira de entendê-la é percebendo que estava demoniacamente possuída pelas forças maléficas do mundo da política (...). Ela se tornou a divindade daqueles que querem destruir o poder da cidade. Uma divindade criada por um sistema que a destruiu, como sempre acontece (...). Mas permanece o fato que ela introduziu o ocultismo na política britânica e o papel do escritor é se contrapor a essa cultura política.15
Sinclair define sua psicogeografia como a crença de que algo que aconteceu em um lugar afeta permanentemente esse lugar. E parece citar Chtcheglov quando diz para mim, é a maneira de fazer a psicanálise da psicose de um lugar no qual eu vivo.
Com ele, a palavra psicogeografia entrou na moda no mundo literário inglês (o escritor Will Self até criou uma coluna com esse nome para uma revista de bordo!), ao ponto de Sinclair desistir de usá-la: Se tornou uma marca comercial nojenta. Nos últimos anos, prefere então falar em geografia psicótica ou topografia profunda. Para ele, a palavra psicogeografia tinha relevância quando usada agressivamente pelos situacionistas ou quase satiricamente por Stewart Home, contracultural brasileiro deste século. Home fez parte do grupo que, autor de Assalto à Cultura, livro que tanta influência teve no ativismo no início dos anos 1990, ressuscitou o London Psychogeographical Committee, agora com o nome London Psychogeographical Association. Karen Elliot, Luther Blissette Bob Jones, nomes dos personagens da HQ Tarde demais, de Home e Jonathan Edwards, são exemplos de nomes múltiplosidentidades coletivas inventadas, nomes pessoais usados coletivamente por grupos de vanguarda a partir dos anos 1970. Deles, o mais famoso foi Luther Blissett, que assinou várias ações de guerrilha cultural na Europa e até no Brasil, e também best-sellers como Q  O Caçador de Hereges e 5416. Blissett foi responsável pela criação da Associazione Psicogeografica di Bologna.
No final dos anos 1980, depois de fazer Watchmen, Alan Moore queria estar tão longe quanto o possível dos gibis de super-heróis. Naquele mo- mento, inspirado na Teoria do Caos, escrevia Big Numbers, a respeito das consequências da construção de um shopping center em uma cidade do interior da Inglaterra. Foi quando ele ganhou um presente de um amigo:

Neil Gaiman me enviou a cópia do extraordinário Lud Heat, de Iain. Aquilo catalisou algo dentro de mim. Eu já estava preocupado com a questão do ambiente urbano, particularmente o ambiente em que vivia, mas a abordagem do conceito por Iain em Lud Heat e em seu trabalho subsequente era extraordinário. Deu-me um foco, um rumo, que eu não sei, e provavelmente nunca vou saber, se conseguiria atingir sozinho17.

Alan Moore retomou a teoria de Sinclair a respeito do arquiteto Nicholas Hawksmoor, usou a psicogeografia para seguir as pistas do Jack, o Estripador18 e escreveu aquela que talvez seja sua obra-prima: Do Inferno. E a psicogeografia é uma chave indispensável para entender o que ele produziu de mais importante depois disso, como os livros Voz do Fogo e Jerusalém.
Durante a produção de Do Inferno, Alan Moore tornou-se amigo de Iain Sinclair e chegou a participar do filme The Cardinal and the Corpse, escrito por Sinclair e dirigido por Chris Petit (do cultuado filme Radio On, de 1979).
 
[...]
 
Mas, usando ou não os métodos psicogeográficos, os autores deste livro têm todos a ambição de retratar uma Londres não só distante daquela turística, mas uma que a própria cidade tenta esconder de si. Neste sentido, A Vida Secreta de Londres é um guia da capital inglesa. Não um guia de lugares onde tirar selfies ou a respeito dos quais nos vangloriamos de conhecer em nossas conversas com amigos descolados. Mas um guia das entranhas da cidade.
 
 
1 Chtcheglov assina o texto com um pseudônimo: Gilles Ivain.
2 Dez anos depois, na clinica psiquiátrica na qual estava internado, Chtcheglov escreveu
uma carta para a revista da Internacional Situacionista na qual aprofunda sua ideiaa deriva (com seu fluxo de atos, gestos, passeios e encontros) é para a totalidade exatamente o que a (boa) psicanálise é para a linguagemSiga com seu fluxo de palavras, diz o psicanalista. Ele ouve até o momento no qual rejeita ou modifica (alguém
pode dizer que détourne) uma palavra, uma expressão ou uma definição. A deriva é certamente uma técnica, quase terapéuticaLettres de loin”, Internationale Situationniste n°9, agosto de 1964 (Librairie Arthème Fayard, 1997). O détournement (desvio”, “o dar outro sentido para mencionado por Chtcheglov torna-se a ferramenta favorita dos situacionistas.
3 Conforme citado em Ivan Chicheglov, Profil perdu, de Jean Marie Apostolidis e Boris Donné (Allia, Paris, 2006).
4 De lá para cá, a psicogeografia recebeu centenas de outras definições. Minha preferida talvez seja a do situacionista dinamarquês Asger Jorné a ficção científica do urbanismo”. 
8Were not beautiful, were not ugly”, dizia o slogan.
9 Romance do inglês Malcolm Lowry publicado em 1947. Foi filmado em 1984 por John Houston.
10 Aos 17 anos, o menino rico Thomas de Quincey fugiu do colégio de elite e foi passar fome nas ruas de Londres. Encontrou Ann, uma prostituta de 15 anos, que o protegeu e o alimentou. De Quincey, então, viajou para ver se arrumava algum dinheiro emprestado e quando voltou Ann havia desaparecido. Todas as suas buscas foram em vão e De Quincey passou o resto da vida lamentando o desaparecimento da amiga.
11 Sinclair é o mago demente da frase, diz James Woods, da The New Yorker. Ele supera qualquer escritor da Inglaterra, segundo James WalshSua mistura de mitologia, literatura e atenta análise social combina George Orwell e Ezra Pound, diz o escritor Michael Moorcock.
12 Em Secret City: Psychogeography and the End of London, do livro London from Punk to Blair (Reaktion Books, Londres, 2003).
13 Psychogeography, de Merlin Coverley (Oldcastle Books, Harpenden, 2006).
14 Chtcheglov escreve com um furor que bem pode ser chamado de místico. E é interessante lembrar que Raoul Vaneigem tornou-se um grande especialista da história das heresias cristãs.
15 Entrevista para o jornal The Guardian, em abril de 2004. 
16 Ambos publicados no Brasil pela editora Conrad. Tanto Luther Blissett quanto Stewart Home foram importantes conselheiros em nosso trabalho na coleção Baderna, pela qual sairam dois livros deles: Guerrilha Psíquica, de Blissett, e Manifestos Neoístas e Greve da Arte, de Home.
17 Entrevista realizada por Nick Talbot em junho de 2014 para o site The Quietus.
18 Aliás, é interessante lembrar que Guy Debord tinha grande interesse na figura do Jack lÉventreur. 
prefácio de Rogério de Campos