ELOGIO DO ESQUECIMENTO
Bom é esquecimento!
Senão como se afastaria o filho
Da mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros
E o impede de experimentá-la.
Ou como deixaria o aluno
O professor que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
O aluno tem que se pôr a caminho.
Para a velha casa
Mudam-se os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá vivessem
A casa seria pequena demais.
O forno esquenta. Já não se sabe
Quem foi o oleiro. O plantador
Não reconhece o pão.
Como se levantaria pela manhã o homem
Sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?
Como se ergueria pela sétima vez
Aquele derrubado seis vezes
Para lavrar o chão pedroso, voar
O céu perigoso?
A fraqueza da memória
Dá força ao homem.
Dos Poemas de Svendborg
No abrigo desse teto de palha dinamarquês,
amigos
Eu sigo sua luta. Mando-lhes aqui
Como vez e outra no passado, estes versos despertados
Por visões sangrentas, vindas sobre o mar e através da folhagem.
O que lhes chegar, usem com cautela.
Livros envelhecidos, fragmentos de relatos
São minhas fontes Vendo-nos novamente
Com prazer quero voltar a aprender.
Svendborg, 1939
CARTILHA DE GUERRA ALEMÃ
O PINTOR FALA DA GRANDE ÉPOCA POR VIR
As florestas ainda crescem.
Os campos ainda produzem.
As cidades ainda existem.
Os homens ainda respiram.
QUANDO O PINTOR FALA SOBRE A PAZ
ATRAVÉS DOS ALTO-FALANTES
Os trabalhadores de construção olham para
As autoestradas e veem
Cimento profundo, próprio
Para tanques pesados.
O pintor fala de paz.
Aprumando as costas doloridas
As mãos grossas em cubos de canhões
Os fundidores o escutam.
Os pilotos dos bombardeiros
Desaceleram os motores e ouvem
O pintor falar de paz.
Os madeireiros param no silêncio dos bosques
Os camponeses deixam de lado o arado e colocam a mão atrás do ouvido
As mulheres que levam a comida para o campo se detêm:
No terreno revolvido há um carro com amplificador. De lá se ouve
O pintor pedir paz.
OS DE CIMA DIZEM: GUERRA E PAZ
São de substância diferente.
Mas a sua guerra e a sua paz
São como tempestade e vento.
A guerra nasce da sua paz
Como a criança da mãe
Ela tem
Os mesmos traços terríveis.
A sua guerra mata
O que sua paz
Deixou de resto.
NO MURO ESTAVA ESCRITO COM GIZ:
Eles querem a guerra.
Quem escreveu
Já caiu.
OS DE CIMA
Juntaram-se em uma reunião.
Homem da rua
Deixa de esperança.
Os governos
Assinaram pactos de não agressão.
Homem da rua
Assina teu testamento.
QUANDO OS DE CIMA FALAM DE PAZ
A gente pequena
Sabe que haverá guerra.
Quando os de cima amaldiçoam a guerra
As ordens de alistamento já estão preenchidas.
A GUERRA QUE VIRÁ
Não é a primeira. Antes dela
Houve outras guerras.
Quando a última terminou
Havia vencedores e vencidos.
Entre os vencidos o povo miúdo
Sofria fome. Entre os vencedores
Sofria fome o povo miúdo.
OS DE CIMA DIZEM QUE NO EXÉRCITO
Reina fraternidade.
A verdade disso se percebe
Na cozinha.
Nos corações deve haver
O mesmo ânimo.
Mas nos pratos
Há dois tipos de comida.
NO MOMENTO DE MARCHAR,
MUITOS NÃO SABEM
Que seu inimigo marcha à sua frente.
A voz que comanda
É a voz de seu inimigo.
Aquele que fala do inimigo
É ele mesmo o inimigo.
GENERAL, TEU TANQUE É UM CARRO PODEROSO
Ele derruba uma floresta e esmaga cem homens.
Mas tem um defeito:
Precisa de um motorista.
General, teu bombardeiro é poderoso.
Ele voa mais veloz que um vendaval e carrega mais carga que um elefante.
Mas tem um defeito:
Precisa de um engenheiro.
General, o homem é muito útil.
Ele pode voar e pode matar.
Mas tem um defeito:
Pode pensar.
QUANDO A GUERRA COMEÇAR
Seus irmãos se transformarão talvez
De modo que seus rostos não serão reconhecíveis.
Mas vocês devem permanecer os mesmos.
Eles irão à guerra, mas
Não como uma matança, e sim
Como a um trabalho sério. Tudo
Terão esquecido. Mas vocês
Nada deverão Ter esquecido.
Vocês receberão aguardente na garganta
Como todos os outros.
Mas deverão permanecer sóbrios.

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