25.6.25

Bertolt Brecht/Poemas 1913-1956/Paulo César de Souza/continua

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poemas 1913-1956 / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); seleção, tradução e comentário de Paulo César de Souza; texto de 2a e 3a capa Willi Bolle.  São Paulo: Editora 34, 2012.

1933-1938

ELOGIO DO ESQUECIMENTO

Bom é esquecimento!
Senão como se afastaria o filho

Da mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros

E o impede de experimentá-la.

Ou como deixaria o aluno
O professor que lhe deu o saber?

Quando o saber está dado
O aluno tem que se pôr a caminho.

Para a velha casa
Mudam-se os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá vivessem

A casa seria pequena demais.

O forno esquenta. Já não se sabe
Quem foi o oleiro. O plantador
Não reconhece o pão.

Como se levantaria pela manhã o homem
Sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?

Como se ergueria pela sétima vez
Aquele derrubado seis vezes
Para lavrar o chão pedroso, voar
O céu perigoso?

A fraqueza da memória
Dá força ao homem.

Dos Poemas de Svendborg

No abrigo desse teto de palha dinamarquês, amigos
Eu sigo sua luta. Mando-lhes aqui
Como vez e outra no passado, estes versos despertados
Por visões sangrentas, vindas sobre o mar e através da folhagem.
O que lhes chegar, usem com cautela.

Livros envelhecidos, fragmentos de relatos
São minhas fontes Vendo-nos novamente
Com prazer quero voltar a aprender.

Svendborg, 1939

CARTILHA DE GUERRA ALEMÃ

O PINTOR FALA DA GRANDE ÉPOCA POR VIR
As florestas ainda crescem.
Os campos ainda produzem.
As cidades ainda existem.

Os homens ainda respiram.

QUANDO O PINTOR FALA SOBRE A PAZ
ATRAVÉS DOS ALTO-FALANTES
Os trabalhadores de construção olham para

As autoestradas e veem
Cimento profundo, próprio
Para tanques pesados.

O pintor fala de paz.
Aprumando as costas doloridas
As mãos grossas em cubos de canhões

Os fundidores o escutam.

Os pilotos dos bombardeiros
Desaceleram os motores e ouvem
O pintor falar de paz.

Os madeireiros param no silêncio dos bosques
Os camponeses deixam de lado o arado e colocam a mão atrás do ouvido
As mulheres que levam a comida para o campo se detêm:
No terreno revolvido há um carro com amplificador. De lá se ouve

O pintor pedir paz.

OS DE CIMA DIZEM: GUERRA E PAZ
São de substância diferente.
Mas a sua guerra e a sua paz
São como tempestade e vento.

A guerra nasce da sua paz
Como a criança da mãe
Ela tem
Os mesmos traços terríveis.

A sua guerra mata
O que sua paz
Deixou de resto.

NO MURO ESTAVA ESCRITO COM GIZ:
Eles querem a guerra.
Quem escreveu
Já caiu.

OS DE CIMA
Juntaram-se em uma reunião.

Homem da rua
Deixa de esperança.

Os governos
Assinaram pactos de não agressão.

Homem da rua
Assina teu testamento. 

QUANDO OS DE CIMA FALAM DE PAZ
A
 gente pequena
Sabe que haverá guerra.

Quando os de cima amaldiçoam a guerra
As ordens de alistamento já estão preenchidas.

A GUERRA QUE VIRÁ
Não é a primeira. Antes dela
Houve outras guerras.
Quando a última terminou
Havia vencedores e vencidos.
Entre os vencidos o povo miúdo
Sofria fome. Entre os vencedores
Sofria fome o povo miúdo.

OS DE CIMA DIZEM QUE NO EXÉRCITO
Reina fraternidade.
A verdade disso se percebe
Na cozinha.

Nos corações deve haver
O mesmo ânimo.
Mas nos pratos
Há dois tipos de comida.

NO MOMENTO DE MARCHAR, MUITOS NÃO SABEM
Que seu inimigo marcha à sua frente.

A
 voz que comanda
É a voz de seu inimigo.
Aquele que fala do inimigo
É ele mesmo o inimigo. 

GENERAL, TEU TANQUE É UM CARRO PODEROSO
Ele derruba uma floresta e esmaga cem homens.
Mas tem um defeito:
Precisa de um motorista.

General, teu bombardeiro é poderoso.
Ele voa mais veloz que um vendaval e carrega mais carga que um elefante.

Mas tem um defeito:
Precisa de um engenheiro.

General, o homem é muito útil.
Ele pode voar e pode matar.
Mas tem um defeito:
Pode pensar.

QUANDO A GUERRA COMEÇAR
Seus irmãos se transformarão talvez
De modo que seus rostos não serão reconhecíveis.

Mas vocês devem permanecer os mesmos.

Eles irão à guerra, mas
Não como uma matança, e sim

Como a um trabalho sério. Tudo
Terão esquecido. Mas vocês
Nada deverão Ter esquecido.

Vocês receberão aguardente na garganta
Como todos os outros.
Mas deverão permanecer sóbrios.

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