O pensamento como prazer/
Sobre os prazeres/ Crítica verbal/
A burguesia é destituída de senso histórico
[...]
KALLE
Esse
é o desenvolvimento moderno. Surgiu uma casta inteira, a dos
intelectuais, que deve se ocupar do pensamento e que é treinada
exclusivamente para isso. Eles têm de alienar suas cabeças aos
empresários, como nós o fazemos com nossas mãos. Naturalmente, têm a
impressão de que pensam para a coletividade. É como se disséssemos que
fabricamos automóveis para o bem da coletividade, algo que não pensamos,
pois sabemos que os fabricamos no interesse dos empresários, e aos
diabos com a coletividade!
ZIFFEL
Você
quer dizer que penso apenas em mim mesmo, na medida em que penso na
maneira de vender aquilo que penso, e que aquilo que penso não atende
aos meus interesses, ou seja, não atende aos interesses da coletividade?
KALLE
Exatamente.
ZIFFEL
Li
em algum lugar que, nos Estados Unidos, onde o desenvolvimento está em
estágio mais avançado, os pensamentos em geral são considerados uma
mercadoria. Li num destacado jornal: “A principal missão do presidente é vender a Congresso e ao país”.
A ideia implícita era a de o país entrar na guerra. Nas discussões
sobre questões científicas ou artísticas, quando alguém concorda com um
ponto de vista, diz: “compro sua ideia”. O verbo "convencer” é substituído simplesmente pelo verbo “vender”.
KALLE
Nessas circunstâncias, essas pessoas se tornam facilmente avessas ao pensamento. O pensamento deixa de ser um prazer.
ZIFFEL
Seja
como for, ambos acreditamos que a ânsia pelo prazer seja uma das
maiores virtudes. Há algo de podre num lugar onde ela enfrenta
obstáculos ou é difamada.
[...]
KALLE
[...]
Decisivo é o seguinte: a vida dos prazeres está completamente apartada
do restante da vida. Ela é apenas a pausa necessária para você, em
seguida, retornar às suas atividades, que não lhe dão nenhum prazer.
[...]
ZIFFEL
[...] Hitler pelo menos sabe que não pode haver capitalismo sem guerra, algo que os liberais não sabem.
[...]
16
Sobre as raças superiores/
Sobre a dominação do mundo82
82
De acordo com o editor alemão, o trecho que segue, sem numeração no
original, integra a fase inicial (finlandesa) de preparação de texto,
estando originalmente vinculado ao diálogo 12 (aqui 14).
[...]
ZIFFEL
[...] A
propaganda, as ameaças e o exemplo fazem de cada um, quase sem exceção,
um herói, despojando-o da própria vontade. Certa vez, bem no início da
grande época,84 vi
o zelador de meu prédio comportar-se como o governador-geral que
administra um país inimigo. Vi o repórter esportivo de um jornal obscuro
agir como um grande depositário da cultura, e um vendedor de charutos,
como um capitão de indústria. Alguns criminosos, que até então haviam
agido de modo muito tímido e evitavam fazer alarde, que assaltavam
residências, de preferência sob o manto da noite, agora praticam suas
ações abertamente, à luz do dia, e tratam de garantir que seus feitos
sejam reportados nos jornais. Com uma pitada de especiarias, são capazes
de adulterar a massa, modificando-lhe completamente o sabor. Assim,
tudo o que havíamos visto assumiu um novo caráter, de feições
ameaçadoras. De início apenas alguns ameaçavam uns poucos, mas então
alguns passaram a ameaçar todos os demais e, por fim, todos se ameaçavam
mutuamente. As pessoas dormiam à noite com o pensamento posto nas
ameaças a que haviam sido submetidas durante o dia e também nas ameaças
que poderiam elas mesmas fazer no dia seguinte.
84 Referência irônica ao nazismo.
BRECHT, Bertolt. (1898-1956). Conversas de refugiados / Flüchtlingsgespräche / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); tradução, posfácio e notas de Tercio Redondo;]. –1a ed– São Paulo: Editora 34, 2017.
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