19.11.25

sor/СОР/minueto op25/Соч. 25, III/mompou/suite compostelana/joão luiz/from spain to são paulo/d'Espanya a São Paulo/entra/sai

СОР, ФЕРНАНДО (1778-1839). ИЗБРАННЫЕ ПРОИЗВЕДЕНИЯ для шестиструнной гитары. «ВТОРАЯ БОЛЬШАЯ СОНАТА, Соч. 25, III Allegro» / ФЕРНАНДО СОР; Составитель Ларичев Евгений Дмитриевич; Редактор Н. Умнова; Лит. редактор В. Мудьюгина; Худож. оформление серии Д. Аникеев; Техн. редактор А. Петрова; ИБ № 5457. Москва: www.musica.ru, Издательский дом «Музыка», 2005.

MOMPOU, Frederic (1893-1987). Suite Compostelana pour guitare / Frederic Mompou; révision par Andrés Segovia (1963) Carmen Mompou (1995). Paris: Éditions SALABERT.

SOR, Fernando (1778-1839). Minueto Op25 / Fernando Sor & MOMPOU, Frederic (1893-1987). Suite Compostelana pour guitare / Frederic Mompou / em: João Luiz / From Spain to São Paulo [ou, no caso, Catalunya dEspanya a São Paulo]. — NY: ZOHO Music, 2022.

continua/neil gaiman/Sandman/volume 6/Fábulas e Reflexões/Fables & Reflections/Bryan Talbot/Stan Woch/P.Graig Russel/Shawn McManus/John Watkiss/Jill Thompson/Duncan Eagleson/Kent Williams/Dave McKean/entra

GAIMAN, Neil (1960- ); TALBOT, Bryan (1952- ); WOCH, Stan (1959- ); RUSSEL, P.Graig (1951- ); McMANUS, Shawn (1958- ); WATKISS, John (1961-2017); THOMPSON, Jill (1966- ); EAGLESON, Duncan (?- ); WILLIAMS, Kent (1962- ). Sandman / volume 6 / Fábulas e Reflexões / Fables & Reflections / edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Bryan Talbot, Stan Woch, P.Graig Russel, Shawn McManus, John Watkiss, Jill Thompson, Duncan Eagleson, Kent Williamscapa(s) Dave McKean; prefácio Gene Wolfe; introdução Clive Barker; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1992; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2020.

continua/neil gaiman/Sandman/volume 5/Um Jogo de Você/Shawn McManus/Colleen Doran/Bryan Talbot/Stan Woch/Dave McKean/sai

GAIMAN, Neil (1960- ); McMANUS, Shawn (1958- ); DORAN, Colleen (1963– )TALBOT, Bryan (1952- ); WOCH, Stan (1959- ). Sandman / volume 5 / Um Jogo de Você /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Shawn McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, Stan Wochcapa(s) Dave McKean; prefácio Samuel R.Delany; introdução Orlando Jones; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1992; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2020.

17.11.25

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

“Eu páro, de repente sinto cansaço. Adiante, ao que parece, começa a rápida descida, por todos os lados abismo — não ouso olhar. Nietzsche, WerkeGroße- und Kleinoktavausgabe, XII, p. 223 (cit. em Karl Löwith, Nietzsches Philosuphie der ewigen Wiederkunft des Gleichen, Berlim, 1935, p. 33).
[J 77a, 2]
[...]
A alegoria conhece muitos enigmas, porém, nenhum mistério. O enigma é um fragmento que, combinando com outro fragmento, forma um todo. O mistério, ao contrário, sempre foi evocado pela imagem do véu, este velho cúmplice da distância. A distância aparece velada. Ao contrário da pintura renascentista, por exemplo, a pintura barroca jamais se comprometeu com este véu. Mais do que isto, ela o rasga de maneira ostensiva e, como demonstram os afrescos de suas abóbadas, traz a própria distância celestial para uma proximidade que deve surpreender e confundir. Isto sugere que o grau de saturação aurática da percepção humana esteve sujeito a oscilações no decorrer da história. (No barroco, poderia-se-ia dizer, a disputa entre o valor de culto e o valor de exposição69 ocorreu, de múltiplas formas, dentro dos limites da arte sacra.) Mesmo que estas oscilações devam ainda ser explicadas  surge a hipótese de que épocas tendentes à expressão alegórica sofreram uma crise da aura.
[J 77a, 8]
[...]
No Barroco, o emblema  uma parte até então marginal da alegoria  é desenvolvido de forma exuberante. Enquanto a origem medieval da alegoria ainda precisa ser elucidada para o historiador materialista, encontra-se um indício para a compreensão de sua forma barroca no próprio Marx. Escreve ele em Das Kapital (Hamburgo, 1922, p. 344): “A máquina de operação combinada ... c tanto mais perfeita quanto mais contínuo for seu processo total, isto é, quanto menos for interrompido o processo pelo qual a matéria-prima passa da primeira fase à última, ou seja, quanto mais esta passagem for efetuada pela própria máquina e não pela mão humana. Se na manufatura o isolamento dos processos particulares é um princípio da própria divisão do trabalho, na fábrica plenamente desenvolvida, ao contrário, domina a continuidade ininterrupta destes mesmos processos.” Aqui se poderia encontrar a chave do procedimento barroco, que consiste em conferir significados ao fragmento, às partes, que provêm menos da decomposição do todo, quanto do processo de produção desse todo. Os emblemas barrocos podem ser concebidos como produtos semi-acabados que, de etapas de um processo de produção, tornaram-se monumentos de um processo de destruição. A “interrupção que, segundo Marx, caracteriza cada um dos estágios deste processo de trabalho podia estender-se por um tempo extremamente longo, na época da Guerra dos Trinta Anos, que paralisava a produção aqui, ou ali. Ora, o triunfo propriamente dito da emblemática barroca, cuja peça de cenário mais importante é a caveira, consistia em integrar o próprio ser humano neste processo. A caveira, na alegoria barroca, é um produto semi-acabado do processo da história da salvação, interrompido por Satã, sempre que lhe é dada a oportunidade.
[J 78, 4]
A ruína econômica de Baudelaire foi a conscqüência de uma luta quixotesca contra as circunstâncias que determinavam o consumo à sua época. O consumidor individual, que diante do artesão aparece como o comitente, figura como comprador no mercado, onde contribui para a liqüidação de um estoque de mercadorias sobre cuja produção seus desejos particulares não tiveram nenhuma influencia. Baudelaire quis impor tais desejos individuais não apenas com sua vestimenta — sendo a confecção, dentre todos os ramos de negócios, o que mais longamente tem de levar em conta os pedidos do consumidor individual —, mas quis estendê-los também a seu mobiliário e a outros objetos de uso cotidiano. Assim, veio a tornar-se dependente de um antiquário pouco escrupuloso que lhe fornecia mobília e quadros antigos, alguns dos quais se revelaram mais tarde falsificações. As dívidas que contraiu nestes negócios pesaram sobre ele até o fim de sua vida.
[J 78a, 1]
Definitivamente a imagem da inquietação petrificada, representada pela alegoria, é uma imagem histórica. Ela mostra as forças da Antigüidade e do Cristianismo subitamente paralisadas em sua disputa, petrificadas em plena batalha, quando esta ainda não fora decidida. Em seu poema à “musa doente”, Baudelaire, em versos perfeitos  que nada revelam da natureza quimérica de seu desejo , forneceu como imagem ideal da saúde da musa justamente aquilo que é uma formulação do distúrbio dela: Gostaria... /...que teu sangue cristão se derramasse em ondas rítmicas / Como os inúmeros sons das sílabas antigas. <OC I, pp. 14-15>
[J 78a, 2]
Independentemente da marca, em si mesma nova e original, que a alegoria tem na poesia de Baudelaire, aparece, subjacente à camada barroca, a camada fundadora medieval. Ela consiste naquilo que Bezold denominou de “sobrevivência dos deuses antigos no humanismo medieval”.70 A alegoria é a forma viável desta sobrevivência.
[J 79, 1]
No instante em que o processo de produção escapa das pessoas, abre-se diante delas o depósito — na loja de departamentos.
[J 79, 2]
Sobre a teoria do dandismo. A confecção é o ultimo ramo de negócios no qual o freguês ainda é tratado individualmente. História dos doze fraques. O papel do comitente tornase cada vez mais heróico.
[J 79, 3]
[...]
A propósito de “alquebrados pelos trabalhos” <OC I, p. 104>: Entre os saint-simonianos, o trabalho industrial aparece à luz do ato sexual; a idéia da alegria no trabalho e concebida segundo a imagem do prazer da procriação. Duas décadas mais tarde, a relação se inverteu: o próprio ato sexual é marcado pela falta de alegria que oprime o operário da indústria.
[J 79, 5]
Seria um erro considerar a experiência contida nas correspondances como simples equivalente de certas experimentações realizadas em laboratórios psicológicos com a sinestesia (a audição de cores ou a percepção visual de sons). Em Baudelaire, trata-se menos das conhecidas reações, em torno das quais a crítica de arte dos estetas ou dos esnobes fez tanto alarde, do que do medium no qual ocorrem tais reações. Este medium é a recordação, sendo que em Baudelaire cia teve uma densidade incomum. É nela que correspondem os dados dos sentidos que se encontram em correspondência; estão prenhes de recordações que afluem com tal densidade que não parecem se originar desta vida, e sim de uma vida anterior mais vasta e mais ampla. A esta vida fazem alusão os “olhares familiares” <OC I, p. 11> com os quais tais experiências olham aquele que foi por elas afetado.
[J 79, 6]
O que distingue basicamente o homem meditativo do pensador é o fato de que ele não medita a respeito de uma coisa, e sim a respeito de sua meditação sobre essa coisa. A situação do meditativo é a do homem que já encontrou a solução do grande problema, mas, em seguida, a esqueceu. E agora medita não tanto sobre a coisa, mas sobre a meditação que outro ra fez sobre ela. O pensamento do homem meditativo situa-se, pois, sob o signo da recordação. O meditativo e o alegorista são feitos da mesma matéria.
[J 79a, 1]
Se ... o partido parlamentar da ordem, na luta contra as outras classes da sociedade, destruiu com as próprias mãos todas as condições de seu próprio regime, do regime parlamentar; por outro lado, a massa extra-parlamentar da burguesia..., com o tratamento que deu a sua própria imprensa, exortava Bonaparte ... a aniquilar seus oradores e escritores, seus políticos e literatos, ... a fim de poder dedicar-se agora a seus negócios privados, com plena confiança, sob a proteção de um governo forte e absoluto. Karl Marx, Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte, ed. Rjazanov, Viena-Berlim, 1927, p. 100.
[J 79a, 2]
Baudelaire encontra-se tão isolado no mundo literário de seu tempo quanto Blanqui no mundo dos conspiradores.
[J 79a, 3]
Com o aumento das vitrines e sobretudo dos magasins de nouveautés, mostrou-se cada vez mais nitidamente a fisionomia da mercadoria. Baudelaire, por mais viva que fosse sua disposição sensitiva, jamais teria registrado este acontecimento, se este não tivesse agido como um imã sobre o “rico metal de nossa vontade” <OC I, p. 5>, sobre as jazidas minerais de sua fantasia. Seu modelo, a alegoria, de fato correspondia de maneira perfeita ao fetiche da mercadoria.
[J 79a, 4]
A postura do herói moderno, prefigurado no trapeiro: seu “andar aos trancos, o isolamento necessário em que se dedica a seu trabalho, o interesse que nutre pelos dejetos e pelos detritos da cidade grande. (Cf. Baudelaire, “De lhéröisme de la vie moderne”, vol. II, p. 135, <OC II, p. 495> “O espetáculo da vida...”)
[J 79a, 5]
A descoberta dos aspectos mecânicos do organismo é uma tendência obstinada do sádico. Pode-se dizer que o sádico visa atribuir a imagem da maquinaria ao organismo humano. Sade é filho de uma época que se encantou pelos autômatos. E o “homem-máquina” de La Mettrie é precursor da guilhotina, que comprovou de modo rudimentar as suas verdades. Em suas fantasias mais sangüinárias, Joseph de Maistre, a autoridade de Baudelaire em máteria de política, é um parente próximo do Marquês de Sade.
[J 80, 1]
A recordação do homem meditativo dispõe da massa desordenada do saber morto. Para ele, o saber humano é despedaçado em um sentido particularmente significativo: ou seja, como a quantidade de peças arbitrariamente recortadas a partir das quais se monta um puzzle. Uma época avessa à meditação conservou seu comportamento no puzzle. Este gesto é sobretudo o do alegorista. O alegorista pega uma peça aqui e ali do depósito desordenado que seu saber põe à sua disposição, coloca-a ao lado de uma outra e tenta ver se ambas combinam: aquele significado para esta imagem ou esta imagem para aquele significado. O resultado nunca pode ser previsto, pois não existe uma mediação natural entre os dois. Dá-se o mesmo com a mercadoria e o preço. As “argúcias metafísicas” nas quais se compraz a mercadoria, segundo Marx, são sobretudo as argúcias da estipulação do preço. Nunca se poderá saber ao certo por que tal mercadoria tem tal preço, nem no curso de sua fabricação, nem mais tarde quando ela se encontra no mercado. Ocorre exatamente o mesmo com o objeto em sua existência alegórica. Nenhuma fada determinou em seu nascimento qual o significado que lhe atribuirá a meditação absorta do alegorista. Porém, uma vez adquirido tal significado, este pode ser substituído por outro a qualquer momento. As modas dos significados mudam quase tão rapidamente quanto o preço das mercadorias. De fato, o significado da mercadoria é seu preço; como mercadoria, ela não possui nenhum outro significado. Por isso, o alegorista está em seu elemento com a mercadoria. Como flâneur, ele se identificou com a alma da mercadoria; como alegorista, reconhece na “etiqueta com o preço”, com a qual a mercadoria entra no mercado, o objeto de sua meditação: o significado. O mundo em cuja intimidade o faz ingressar este novíssimo significado, nem por isso se tornou mais amável. Um inferno se debate na alma da mercadoria, por mais que pareça que ela tenha encontrado no preço a sua paz.
[ J 80, 2 / J 80a, 1]
Sobre o fetichismo: “É possível que o símbolo da pedra represente apenas os aspectos mais óbvios da terra, enquanto elemento frio e seco. Mas é também concebível, e até provável..., que exista na massa inerte uma referência ao conceito teológico do melancólico, contido num dos pecados capitais: a acedia, <a inércia do coração>.” Walter Benjamin, Ursprung des deutschen Trauerspiels, Berlim, 1928, p. 151.71
[J 80a, 2]
Sobre a exploração da natureza (J 75, 2): nem sempre a exploração da natureza foi vista como o fundamento do trabalho humano. Com razão, Nietzsche achou significativo o fato de Descartes ter sido o primeiro físico filósofo a comparar as “descobertas de um cientista a uma seqüência de batalhas que se trava contra a natureza”. Cit. em Karl Löwith, Nietzsches Philosophie der ewigen Wiederkunft des Gleichen, Berlim, 1935, p. 121 (Nietzsche, WerkeGroße- und Kleinoktavausgabe, vol. XIII, p. 55).
[J 80a, 3]
Nietzsche considera Heráclito “um astro sem atmosfera”. Cit. em Lõwith, Nietzsches Philosophie, p. 1 10 (X, 45f).
[J 80a, 4]
[...]
A propósito do suicídio como marca da modernidade. “Não se pode condenar suficientemente o cristianismo, por ter depreciado ... o valor de um grande movimento de niilismo purificador, como talvez estivesse em curso: ... sempre através de um impedimento do ato do niilismo, o suicídio.” (Cit. em Löwith, Nietzsches Philosophie, p 108; XV 325 e 186).
[J 81, 1]
A propósito do abismo e de Tenho medo do sono como se tem medo de um grande buraco (Le gouffre <OC I, p. 143>), Nietzsche: “Conheceis o terror do homem prestes a adormecer? — Ele se aterroriza dos pés à cabeça porque o chão lhe escapa e começa o sonho.” Nietzsche, Zarathustra, ed. Kröner, Leipzig, p. 215.
[J 81, 2]
Comparação do rico tosão com a “Noite sem astros, Noite escura!”, verso final de “Les promesses d’un visage” <OC I, p. 163>.
[J 81, 3]
A especificidade da imprensa sensacionalista torna-se mais tarde a informação da bolsa. A pequena imprensa prepara esta informação da bolsa através do papel que confere às fofocas da cidade.
[J 81, 4]
Os outros conspiradores escondem a realidade ao conspirador, como as massas fazem com o flâneur.
[J 81, 5]
A propósito da fuga de imagens na alegoria. Ela freqüentemente privou Baudelaire de parte do benefício de suas imagens alegóricas. Uma coisa, sobretudo, falta no uso da alegoria em Baudelaire. Percebe-se isto quando se tem presente a grandiosa alegoria de Shelley sobre Londres: o terceiro canto de “Peter Bell the Third” <cf. M, 18>, no qual Londres é apresentada ao leitor como um inferno. A eficácia completa deste poema deve-se, em grande parte, ao fato de ser perceptível o impulso de Shelley de lançar mão da alegoria. Este impulso não ocorre em Baudelaire. Justamente este gesto, que faz sentir a distância entre o poeta moderno e a alegoria, permite integrar a esta as realidades mais imediatas. O poema de Shelley dá o melhor exemplo da maneira direta com que isto pode acontecer. Nele figuram oficiais de justiça, parlamentares, especuladores da bolsa e muitos outros tipos. A alegoria, cujo caráter arcaizante é enfatizado, dá-lhes uma firme consistência, que falta, por exemplo, aos homens de negócio no poema “Le crépuscule du soir”, de Baudelaire. — Shelley domina a alegoria, Baudelaire é dominado por ela.
[J 81, 6]
[...]
A propósito da introdução da heroína: a Antigüidade de Baudelaire é a Antigüidade romana. Em um único lugar aparece a Antigüidade grega cm seu universo. Esta é de fato insubstituível. A Grécia concede-lhe aquela imagem da heroína que lhe pareceu digna e capaz de ser transposta para a modernidade. Nomes gregos dão o título <?> a um de seus maiores poemas: “Delphine et Hippolyte” <OC I, p. 152>. Os traços da heroína são determinados, com efeito, pelo amor lésbico.
[J 81a, 2] 

Deusa da vitória, 408 a.C., Museu da Acrópole

Museu arqueológico de Atenas • Εθνικό Αρχαιολογικό Μουσείο

 

Athena, Parthenos, 447-432 a.C.
cópia em mármore, e reduzida, do original em madeira.
Museu arqueológico nacional Atenas 

 
 
 

Museu de Delfos:

 

Museu Arqueológico, Delfos

Auriga. Escultura de atleta Olímpico descoberto em escavações. 475 a.C. Museu arqueológico, Delfos

 

Museu de Arte Cicládica • Μουσείο Κυκλαδικής Τέχνης • Atenas • 

 [...]
Cidade. Sou um efêmero e não muito descontente cidadão de uma metrópole tida como moderna, porque todo gosto conhecido foi eludido nos mobiliários e no exterior das casas tanto quanto no plano da cidade. Aqui você não perceberia os traços de nenhum monumento de superstição. Em suma: a moral e a língua são reduzidas à sua expressão mais simples. Essas milhões de pessoas, que não têm necessidade de se conhecerem, lidam com a educação, a profissão e a velhice de forma tão semelhante, que seu tempo de vida deve ser muitas vezes menos longo que aquele atribuído por uma estatística desvairada aos povos do continente.” Arthur Rimbaud, Œuvres, Paris, 1924, pp. 229-230 (Les Illuminations) . Desencantamento da “modernidade”!
[J 82, 3]
“Os criminosos enojam como castrados.” Arthur Rimbaud, Œuvres, 1924, p. 258 (Une Saison en Enfer, “Mauvais sang”).
[J 82, 4]
A modernidade, nesta obra, é o mesmo que a marca registrada em um talher ou em um instrumento óptico. Este pode ser tão durável quanto quiser; se a firma de onde provém deixar de existir, ele dá a impressão de ser obsoleto. Ora, a intenção explícita de Baudelaire era impregnar a sua obra com uma marca registrada. Seu propósito era “criar um poncif”. E talvez não haja para Baudelaire glória maior do que ter imitado, ter reproduzido com sua obra, este estado de coisas, um dos mais profanos da economia de mercado. Talvez seja esta a realização maior de Baudelaire e, certamente, trata-se de uma realização consciente — a de ter envelhecido tão rapidamente, conservando uma durabilidade tão grande.
[J 82, 6 / J 82a, 1]
A atividade dos conspiradores pode ser considerada uma espécie de dépaysement, tal como o criaram a monotonia e o terror do Segundo Império também sob outros aspectos.
[J 82a, 2]
As fisiologias foram o primeiro espólio que o flâneur trouxe do mercado. Por assim dizer, ele foi organizar sua coleção de botânica no asfalto.
[J 82a, 3]
Para a modernidade, a antigüidade é como um pesadelo que lhe veio durante o sono.
[J 82a, 4]
Durante grande parte do século passado, a Inglaterra permaneceu a grande escola do conhecimento social. De lá, Barbier trouxera o ciclo de poemas intitulado Lazare, Gavarni, a seqüência O que se pode ver de graça em Londres e o personagem Thomas Vireloque, a ffigura do homem caído em miséria sem qualquer esperança.
[J 82a, 5]
 
69 Cf. as considerações de Benjamin sobre o valor de culto (Kultwert) e o valor de exposição (Ausstellungswert) em Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit, GS I, 443-445; A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, OE I, pp. 172-174. (J.L.; w.b.) 
70 Friedrich von Bezold, Das Fortleben der antiken Götter im mittelalterlichen Humanismus, Bonn / Leipzig, 1922. (R.T.) 
71 GS I, 332; ODBA, p. 177 (R.T.; w.b.)  

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

16.11.25

continua/neil gaiman/Sandman/volume 5/Um Jogo de Você/Shawn McManus/Colleen Doran/Bryan Talbot/Stan Woch/Dave McKean/entra

GAIMAN, Neil (1960- ); McMANUS, Shawn (1958- ); DORAN, Colleen (1963– )TALBOT, Bryan (1952- ); WOCH, Stan (1959- ). Sandman / volume 5 / Um Jogo de Você /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Shawn McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, Stan Wochcapa(s) Dave McKean; prefácio Samuel R.Delany; introdução Orlando Jones; posfácio Neil Gaiman; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1992; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2020.

continua/neil gaiman/Sandman/volume 4/Estação das Brumas/Seasons of Mists/Kelley Jones/Malcolm Jones III/Mike Dringenberg/Matt Wagner/Dick Giordano/George Pratt/P.Gaig Russel/Dave McKean/sai

GAIMAN, Neil (1960- ); JONES, Kelley (1962- ); JONES III, Malcolm (1959-1996); DRINGENBERG, Mike (1965- ); WAGNER, Matt (1961- ); DIORDANO, Dick (1932-2010); PRATT, George (1960- ); RUSSEL, P.Graig (1951- ). Sandman / volume 4 / Estação das Brumas / Seasons of Mists /edição especial 30 anos / Neil Gaiman, Kelley Jones, Malcolm Jones III, Mike Dringenberg, Matt Wagner, Dick Giordano, George Pratt, P.Gaig Russelcapa(s) Dave McKean; prefácio Harlan Ellison; introdução Patton Oswalt; tradução Jotapê Martins & Érico Assis (extras); 1991; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2019.

15.11.25

continua/marcus siqueira/Signo Sopro II (memória, a mãe das musas)/música plural/percorso ensemble/sai

SIQUEIRA, Marcus. Signo Sopro II (memória, a mãe das musas) / Marcus Siqueira; em: Música Plural / Percorso Ensemble regência de Ricardo Bologna; prefácio de Gilberto Mendes. — São Paulo: NovoDisc, 2009.

continua/marcus siqueira/contraluz/Egrégoras/Edson Beltrami/Peter Apps/Sérgio Burgani/Samuel Hamzem/Francisco Formiga

SIQUEIRA, Marcus. Contraluz / Marcus Siqueira / Egrégoras: Edson Beltrami flauta, Peter Apps oboé, Sérgio Burgani clarinete, Samuel Hamzem trompa, Francisco Formiga fagote; Projeto Gráfico: Paulo Vidal de Castro & Thais Vilanova; Tipo: Rialto. — São Paulo: Sesc, 2013.




 

12.11.25

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

Marx sobre a Segunda República: “Paixões sem verdade, verdades sem paixão, heróis sem feitos heróicos, história sem acontecimentos; desenvolvimento cuja única força motora parece ser o calendário, monótono pela constante repetição das mesmas tensões e distensões... Se existe um período histórico pintado de cinzento sobre cinzento, foi bem este.” Karl Marx, Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte, ed. Rjazanov, Viena-Berlim, 1927, pp. 45-46.
[J 72a, 4]
[...]
Carta de Engels a Marx em 3 de dezembro de 1851: “Pelo menos por hoje este asno está tão solto ... quanto o velho na noite do 18 Brumário; está tão completamente sem escrúpulos que não pode deixar de exibir o seu ser asnal em todas as direções. Terrível perspectiva a ausência de oposição!”62 Karl Marx, Der achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte, ed. Rjazanov, Viena-Berlim, p. 9.
[J 73, 1]
Engels a Marx, em 11 de dezembro de 1851: “Se o proletariado desta vez não lutou em massa”, isto se deu “por estar completamente consciente de sua impotência e se resignou com fatalismo ao círculo repetitivo de República, Império, Restauração, e nova Revolução, até ... poder renovar suas forças.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 10.
[J 73, 2]
“Como se sabe, o 15 de maio [1848] não teve outro resultado senão o de afastar da cena pública, e pelo tempo inteiro do ciclo, Blanqui e companheiros, ou seja, os verdadeiros líderes do partido proletário, os comunistas revolucionários.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, p. 28.
[J 73, 3]
O mundo dos espíritos da América desempenha um papel na descrição da multidão em Poe. Matx fala da república que na Europa “significa, de maneira geral, apenas a forma política de transformação da sociedade burguesa, e não a sua forma de vida conservadora, como, por exemplo, nos Estados Unidos da América do Norte, onde ... classes ... ainda não se fixaram..., onde os modernos meios de produção ... compensam... a falta relativa de cabeças e braços, e onde, finalmente, o movimento jovem e febril da produção material ... não deixou nem tempo, nem oportunidade para se abolir o antigo mundo dos espíritos”. Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 30. E curioso que Marx lance mão do mundo dos espíritos para explicar a República americana.
[J 73, 4]
[...]
As eleições revolucionárias suplementares de 10 de março de 1850, em Paris, conduziram ao parlamento apenas representantes social-democratas. Mas elas deveriam encontrar “na eleição posterior de abril, quando foi eleito Eugène Sue, um comentário sentimental atenuante”. Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 68.
[J 73, 6]
A propósito do “Crépuscule du matin”: Marx vê em Napoleão III “não um homem que decide à noite para executar durante o dia, e sim um homem que decide durante o dia para executar à noite.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, p. 79.
[J 73a, 1]
A propósito do “Crépuscule du matin”: “Rumores de golpe de Estado assolam Paris. Dizse que a capital será ocupada por tropas durante a noite e que no dia seguinte serão publicados decretos.” Citado segundo a imprensa diária européia de setembro e outubro de 1851. Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 105.
[J 73a, 2]
Marx chama os líderes do proletariado parisiense de “chefes de barricadas”. Der achtzehnte Brumaire, p. 113.
[J 73a, 3]
A observação de Sainte-Beuve sobre Lamartine, cujos poemas representariam o céu das paisagens de André Chénier (J 51a, 3), deve ser comparada com esta formulação de Marx: “Se a parcela recém-constituída, em seu acordo com a sociedade, em sua dependência das forças da natureza e sua submissão à autoridade que a protegia do alto, era naturalmente religiosa, a parcela endividada, em conflito com a sociedade e a autoridade, impelida para além de suas próprias limitações, torna-se naturalmente irreligiosa. O céu foi um agradável suplemento ao estreito e recém-adquirido pedaço de terra, ainda mais que é ele que faz o bom e o mau tempo; mas ele se torna um insulto tão logo se queira impô-lo como substituto para a parcela.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 122. A observação de Sainte-Beuve, combinada com esta passagem de Marx, fornece a chave para a natureza e a duração da influência política que Lamartine derivou de sua poesia. Cf., sobre isso, suas negociações com o embaixador da Rússia, tal como relatadas por Pokrowski. <Cf. d 12, 2>.
[J 73a, 4]
[...]
Marx sobre os parasitas do Segundo Império: Para não se atrapalhar com o cálculo dos anos, eles contam por minutos.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 126.
[J 73a, 6]
Ambigüidade da concepção do heróico oculta na imagem baudelaireana do poeta: O ponto culminante das ‘idéias napoleônicas’... é a preponderância do exército. O exército foi o ponto de honra’ dos pequenos camponeses parcelares, eles mesmos transformados em heróis... Porém, os inimigos contra os quais o camponês francês precisa agora defender sua propriedade ... são os cobradores de impostos. A parcela de terra não se situa mais na assim chamada pátria, e sim no registro de hipotecas. O próprio exército não é mais a fina flor da juventude camponesa, é a flor de lodo do lumpemproletariado rural. Ele se compõe em boa parte dc substitutos assim como o segundo Bonaparte foi, ele também, apenas o substituto, o sucedâneo de Napoleão... Como se vê: todas as ‘idéias napoleônicas são idéias afins aos interesses da parcela ainda não desenvolvida, tendo ainda o frescor da juventude. Mas são um contrasenso em relação à parcela que envelheceu.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, pp 122-123. 
[J74, 1]

A propósito do satanismo: “Quando os puritanos queixaram-se, no concílio de Constança, da vida dissoluta dos papas..., o cardeal Pierre d
Ailly vociferou contra eles: Só o diabo em pessoa pode salvar a Igreja católica e vós exigis anjos. Assim clamou a burguesia francesa após o golpe de Estado: Só o chefe da Sociedade do 10 de Dezembro pode salvar a sociedade burguesa! Só o roubo pode ainda salvar a propriedade, só o perjúrio pode salvar a religião; a bastardia, a família; a desordem, a ordem.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, ed. Rjazanov, p 124.
[J 74, 2]
“Pode-se ter uma idéia concreta desta camada superior da Sociedade do 10 de Dezembro, se considerarmos que seu moralista é Véron-Crevel, e seu pensador: Granier de Cassagnac.” Marx, Der achtzehnte Brumaire, p. 127.
[J 74, 3]
Os “paralelepípedos mágicos erguidos em fortalezas , do Projet dun épilogue <OC I, p 92>, indicam o limite da poesia de Baudelaire no tratamento direto dos temas sociais. O poeta não diz uma palavra sequer das mãos que manusearam estes paralelepípedos. Em “Le vin des chiffonniers”, Baudelaire conseguiu ultrapassar este limite.
[J 74, 4]
[...]
Nietzsche sobre o inverno de 1882-1883, na baía de Rapallo: “Pela manhã segui em direção ao sul pela estrada magnífica subindo até Zoagli, em meio aos pinheiros e contemplando o vasto mar; à tarde ... fiz a volta de toda a baía ... até ... Porto Fino. Este lugar e esta paisagem tocaram-me o coração mais de perto pelo grande amor que nutria por eles o Imperador Frederico III... Nestes dois caminhos veio-me à mente o primeiro Zaratustra, sobretudo o próprio Zaratustra, como dpo: mais precisamente, ele me tomou de assalto.” Friedrich Nietzsche, Also sprach Zarathustra, Leipzig: Kröner, pp. XX-XXI. Confrontar com uma descrição do Forte do Taureau.
[J 74a, 4]
Nietzsche distingue sua “filosofia do meio-dia”  a doutrina do Eterno Retorno  dos primeiros estágios de seu pensamento: a filosofia da aurora e da manhã. Também ele conhece o “seccionamento do tempo” e suas grandes divisões. É legítimo perguntar se esta apercepção do tempo não foi um elemento do Jugendstil. Se assim fosse, talvez compreendêssemos melhor que o Jugendstil fez nascer, com Ibsen, um dos maiores técnicos do gênero dramático. 
[J 74a, 4]
 [...]
A moda fixa a cada instante o último padrão da empatia. 
[J 75, 3]
O desdobramento do trabalho no jogo pressupõe forças produtivas altamente desenvolvidas, como aquelas de que a humanidade dispõe apenas hoje, mas que são empregadas em sentido oposto ao de suas possibilidades, a saber: para o caso de emergência. Todavia, também em tempos de forças produtivas pouco desenvolvidas, a concepção criminosa da exploração da natureza, dominante desde o século XIX, não foi de forma alguma decisiva. Certamente ela não teve espaço enquanto a imagem predominante da natureza foi aquela da mãe dadivosa, de que Bachofen mostrou a importância para as sociedades matriarcais.64 Esta imagem sobreviveu, na figura da mãe, a todas as outras transformações da história. Porém, é evidente que esta imagem é mais confusa em épocas nas quais muitas mães se transformam, diante do filho, em agentes da classe social que dispõe da vida deste por interesses comerciais. Vários indícios sugerem que o segundo casamento da mãe de Baudelaire não se tornou mais aceitável a ele pelo fato de ela ter optado por um general. Este casamento provavelmente desempenhou um papel na evolução da vida pulsional do poeta e no fato de o modelo dele ter-se tornado a prostituta. Evidentemente, a prostituta é, por essência, a encarnação de uma natureza impregnada pela aparência de mercadoria. Ela até mesmo intensificou sua força de ofuscamento, porque no comércio com ela está incluído o prazer sempre fictício que deve corresponder àquele de seu parceiro. Em outras palavras: neste comércio, a própria capacidade de sentir prazer figura como valor — como o objeto de uma exploração tanto por ela quanto por seu cliente. Por outro lado, porém, coloca-se aqui, distorcida, mas em proporções desmedidas, a imagem de uma solicitude que se oferece a todos e não se deixa desencorajar por ninguém. Esta imagem foi captada pela luxúria idealizada e abstrata do poeta barroco Lohenstein em um sentido bastante próximo de Baudelaire: “Uma bela mulher feita de mil encantos, / Uma mesa farta que satisfaz a muitos. / Uma fonte inesgotável sempre a distribuir água a mão-cheia, / Até mesmo o doce leite do amor; ainda que, por cem condutos / Escoe a suave doçura.” (Daniel Caspers von Lohenstein, Agrippina, Leipzig, 1724, p. 33). O além da escolha, vigente entre mãe e filho, e o aquém da escolha entre a prostituta e seu cliente, encontram-se num único ponto. Este ponto caracteriza a situação pulsional de Baudelaire. (Cf. X 2, 1, Marx sobre a prostituição).
[J 75a]
[...]
A fórmula de LÉternité par les Astres  “É o novo sempre velho e o velho sempre novo”66  corresponde rigorosamente à experiência do spleen tal qual descrita em Baudelaire.  
[J 76, 2]
[...]
Com amarga ironia, Blanqui demonstra o que seria uma “humanidade melhor” em uma natureza que não pode ser melhorada.
[J 76,5]
[...]
No processo histórico que o proletariado impõe à classe burguesa, Baudelaire é uma testemunha, mas Blanqui é o perito.
[J 76a, 1]
Se Baudelaire for citado diante do tribunal da história, ele precisaria tolerar várias interrupções, pois o que motiva os questionamentos deste tribunal é determinado por interesses que lhe são, por diversos motivos, estranhos e incompreensíveis. Blanqui, ao contrário, se pronuncia sobre uma causa que sempre foi a sua. Por isso ele comparece como perito onde quer que ela seja debatida. Portanto, não e no mesmo sentido que Baudelaire e Blanqui são citados diante do tribunal da história.
[J 76a, 2]
Abandono do momento épico: um tribunal não é uma sala de fiandeiras. Ou melhor: a audiência acontece, mas nada é relatado.
[J 76a, 3]
O interesse que o historiador materialista nutre pelo ocorrido é, por um lado, sempre um interesse apaixonado pelo que já passou, pelo que está terminado e pelo totalmente morto. O pré-requisito indispensável para qualquer citação (vivificação) de partes deste fenômeno e de estar seguro, em geral e por inteiro, de seu caráter encerrado. Em uma palavra: para o interesse histórico específico  cuja legitimidade o historiógrafo materialista tem a incumbência de provar  precisa ser demonstrado, com sucesso, que se trata de um objeto eue. de forma inteira, efetiva e irrevogável, “pertence à história”. 
[J 76a, 4]
A comparação com Dante pode tanto servir de exemplo para a perplexidade dos primeiros comentadores de Baudelaire quanto como ilustração da formula atribuída a De Maistre, segundo a qual os primeiros julgamentos sobre um autor se perpetuam nas interpretações posteriores.
[J 76a, 5]
Aiem da comparação com Dante, a noção de decadência é a palavra-chave da recepção de Baudelaire. Ela se encontra em Barbey dAurevilly, Pontmartin, Brunetière, Bourget.
[J 76a, 6]
Para o dialético materialista, a descontinuidade é a idéia reguladora da tradição das classes dominantes (portanto, em primeiro lugar, da burguesia), a continuidade é a idéia reguladora da tradição dos oprimidos (portanto, principalmente, do proletariado). O proletariado vive mais lentamente do que a classe burguesa. Os exemplos de seus combatentes, os conhecimentos de seus líderes não envelhecem. Em todo caso, envelhecem muito mais lentamente do que as épocas e as grandes figuras da classe burguesa. As ondas da moda arrebentam-se na massa compacta dos oprimidos. Os movimentos da classe dominante, ao contrário, uma vez que chegou ao poder, possuem algo que tem a ver com a moda. As ideologias dos poderosos, em particular, sáo por natureza mais mutáveis que as idéias dos oprimidos. Pois elas não apenas têm que se adaptar, como as idéias destes últimos, a cada situação específica de conflito social, mas ainda tem que transfigurar essa situação como sendo, no fundo, harmoniosa. Neste negócio é preciso proceder de forma excêntrica e aos saltos  um procedimento que é, no sentido pleno da palavra, próprio da moda. “Salvar” as grandes figuras da burguesia, consiste principalmente em compreendê-las nesta parte mais débil e caduca de sua ação para, justamente extrair e citar aquilo que jazia discretamente sepultado sob ela, porque servia muito pouco aos poderosos. Confrontar Baudelaire e Blanqui significa retirar a venda que cobria a sua luz.
[J 77, 1]
62 O asno em questão é Luís Bonaparte, que acabou então de dissolver a Assembléia Nacional e o Conselho de Estado, fazendo-se proclamar o Imperador Napoleão III. O 18 Brumário (9 de novembro de 1799) é a data do golpe de Estado de Napoleão I, que extinguiu o Diretório e dissolveu o Conselho dos Quinhentos. (E/M) 
64 J. J. Bachofen, Das Mutterrecht (1861). (J.L.) 
66 Auguste Blanqui, LÉternité par les Astres, Paris, 1872, p. 74. (R.T.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.