14.5.08

PRELÚDIO, TOCCATA E FUGA

I. Andantino, sognando
Quando me encontrei onde nasci, pela primeira vez, de uma vez que deslembro, a ânsia de beleza em mim era anterior a mim. Poucos, aos poucos, vi aqui ali outros ansiando pela beleza. Há no homem ânsia de beleza; como há estâncias do mal. Instâncias de feiúra em ouro: desdouros.

E no princípio era o ondear das mulheres, sinuosas melodias das curvas, canções, cabelos soltos, perfumes, melancolias.
E no princípio eram os contos de fadas, de fados, e as imaginações.
E no princípio era o instante que um encanto visiona guardado (imenso) na relembrança, fixado pela música que se desse pelo ar. A música não tinha que ser bela, ela se alava à beleza pelo que haveria de ser o mimo da memória.

Como cantares de fundo de quintal de pequeninas casas nos confins das cidades em manhãs de domingo. Como sobejos de rádios remotos. Como cantoria de alto-falantes de parques de diversões. Como realejos. Como cantos de rua. Sinos dobrando. Chiados de velhos discos de cantigas longínquas. A polonaise de Chopin, o concerto de Rachmaninov, Noches de Ronda aconteciam na obscuridade do cinema. Le lac de Côme. A vendedora de flores, e pianos antigos, escuros esguios olorosos.

II. Agitato molto rubato
Atrás dos princípios vieram os anos de aprendizado, de educação sentimental – o romance de formação.
Tal Colombo, qual Cabral, há quinhentos anos: em trajetos de descobertas do novo mundo, eu singrava “velhos mares há muito navegados” em percursos de descobertas do velho mundo. Zingro, ainda. “Dez caravelas e três navios redondos”.
— Como um navio redondo?

A educação — ao mesmo tempo alambica memórias e estrutura preconceitos. A beleza existia — em parte antes de mim — em parte enquanto me disseram dela. Gostava que a beleza tivesse sempre existido. Talvez que a beleza tenha sempre existido, mas sabemos tão pouco dela: duas ou três coisas: e mais não compreenderíamos quanto de eternidades e infinitos. “Essas coisas não são segredos, mas mistérios”. Sem acordos nem certezas. “Pergunte a um sapo se ele acha Sharon Stone mais bela que uma sapa?”

“Alcandorou-se em seu saber” (Laudelino Freire)

Hoje me sublimo em pensar nos tempos de aprendizado; não, certamente, em saberes que alcandoram. Alcândoras. Ai de mim, os falcoeiros! Em francês: LEURRER (voir a ce mot).
“A arte burguesa não é eterna, como se pensa, é apenas arte de uma classe, da classe dominante”. (Eisler)
“A ideologia pode não explicar tudo, mas impregna tudo”. (Girard)

III. Precipitato, senza affretare
“A produção capitalista é hostil a determinados aspectos da produção intelectual, como a arte, a poesia”. (Marx)
E não há uma língua musical erudita falada no capitalismo. Mesmo que existam pessoas falando. Muitos dão a impressão de loucos que falam sozinhos. Mas não existe língua que assegure entendimento entre as partes: nem de quem fala, nem de quem escuta. E a beleza se torna difícil, muito difícil.
“No equilíbrio do homem não cabe a exploração capitalista. Um estômago com fome não é um corpo com fome mas um espírito humilhado”.
E a beleza se torna difícil, muito difícil. Como trabalharia Bach entre nós, hoje? Cantatas já não se cantam, Toccatas não se tocam, Suítes (de rocks?). E Mozart, Schubert, como haveriam de organizar as alturas? E se Monteverdi estivesse desempregado na atual economia de mercado global — sem brilhos evidentes de inteligência emocional — que Gonzaga avaliaria, entre tantas, a beleza de sua música?
“Dom Quixote já expiou o erro de acreditar que a cavalaria andante era compatível com todas as formas econômicas da sociedade”.
“O meio de produção na vida material determina os processos da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência moral dos homens que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social que lhes determina a consciência moral”.
Tudo o que tinha solidez e permanência extingue-se em fumaça, todo o sagrado é profanado, e os homens vêem-se finalmente obrigados a encarar as suas condições de existência e relações recíprocas com expressões de desilusão.

CODA I.
Uma reticência...
Musicalmente, duas verdades são possíveis de serem expressas: uma estrutural e outra passional; mas é na estrutural que todo o pensamento musical encontra sua unidade.
De um lado temos, pois, a verdade passional, interpretando a “outra área do discurso”: as sensações. E qualquer definição e/ou explicação que se proponha nesta área desembocaria inevitavelmente numa aporia.
O conjunto de nossos sentimentos integra nossa linguagem privada (uma e uma só para cada indivíduo) e qualquer esforço de verbalização deve ser estimado como uma tentativa (prenhe de “sugestões” mas ineficaz ao nível de definição) e que ainda será submetida a uma outra apreensão (modulada pela linguagem privada de um ou outro indivíduo) à qual eu não tenho pleno acesso.
Assim, recordemos Wittgenstein: “o que não se pode falar deve-se calar”. O silêncio consentido, o silêncio com sentido. E ainda: a paixão prescinde da razão para se impor, e revela-se por isso mesmo ineficiente para nos conduzir até a ontologia da linguagem; e muito menos como ferramenta de análise para um juízo de valor. A paixão é do domínio da “sugestão”, da ambigüidade, do inefável.
A verdade estrutural é apodíctica [incontestável]. Move-se pela consistência dos relacionamentos entre os elementos (factuais) que compõem os discursos. A Sintaxe.

II. ... entre parênteses
Estão no modo como os elementos se organizam, os dados para a decodificação semântica: signos que não apontam para fora — não simbolizam — se auto-denotam expressando funções (“vigiando/ duvidando/ rolando/ brilhando e meditando/ antes de se deter/ em algum ponto último que o sagre”): as significações se estabelecendo em função do contexto.

Cada obra lançando seus dados, emitindo seu próprio código! E, quanto mais estreitas as relações; quanto mais numerosas sejam as trocas de informações entre os elementos; quanto mais orgânico se manifesta o todo, uno.

A verdade estrutural é humana (sensível) porquanto se mostra como metáfora da vida orgânica e não como se pretende (partindo-se de quantas direções filosóficas!), formalista e desvinculada do Homem: como se o Homem fosse só paixão: como se o pensamento lógico não fosse (de resto) o elemento distintivo entre o Homem e o animal.
A verdade estrutural alia o conhecimento das operações (lúdicas) à capacidade criativa (imponderável) o que torna possível novas operações, e só então se revela a ontologia de linguagem musical. O jogo estrutural manifesta no máximo uma capacidade imaginativa atada à mimeses; a verdade estrutural é o testemunho da capacidade criativa (e transformadora; o domínio do Homem sobre a Natureza).
Se a verdade estrutural exclui o jogo estrutural porque o ultrapassa, não exclui a verdade passional porque não a alcança. Mas a verdade passional só é efetiva quando se apropria da verdade estrutural para se tornar transparente. A verdade estrutural é uma manifestação da “paixão” do pensamento lógico.
Aquilo que não se pode falar, deve-se silenciar. Aqui não é o resto que é silêncio, é tudo.

(Willy Corrêa de Oliveira)
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Quatro recitais do Willy, com o próprio Willy falando.
CPFL Cultura — Rua Jorge Figueiredo Corrêa, 1.632
Chácara Primavera Campinas SP (Ao lado da estrada São Pedro)
Grátis

Sáb 10 de Mai 20h (já foi)
Discurso do Método

Dois Prelúdios para Piano (1971-1975)
Piano: Horácio Gouveia
Três Instantes para Piano (1977)
Piano: Horácio Gouveia

Miserere (15 miniaturas, 1999)
Piano: Maurício De Bonis

Canções:
- Song (poema: Seamus Heaney, 2003)
- 4 Canções sobre poemas de Jorge Koshiyama (2001)
- Infância (poema: João Cabral de Melo Neto, 2002-2003)
- Rua Colômbia, 20 (poema: Rainer Maria Rilke, 2001)
Soprano: Caroline De Comi
Piano: Maurício De Bonis

Cicatristeza (1973) (poema de Augusto de Campos)
Mezzo-soprano: Anna Maria Kieffer

Sáb 17 de Mai 20h
Retrato do Artista Quando Só

In Memoriam Philadelpho Menezes (2000)
Flauta doce: Cesar Villavicencio

Gesang des Abends (1973)
Flauta: Rogério Wolf

Viola Azul (1999)
Viola: Marcelo Jaffé

Aria prima,
Aria seconda,
Aria terza
ed Aria quarta, per clarinetto basso (2005)
Clarone: Paulo Passos

Sete Valsas para piano
- Valsa no fim do ano (2002)
- Anna A.:para piano, uma valsa: lendo Hamlet (1990, rev. 1995)
- Giz Negro e Gouache: Egon Schiele (1993)
- Valse: desde um quadro de Orlando Marcucci (1991)
- Waltz: ouvida através da neblina (1993)
- Rua do Padre Inglês nº 154: estampa recifense (1996)
- Valsa da Eterna Primavera (1995)
Piano: Lilian Tonella
*Lilian Tonella excursiona com apoio da Universidade Anadolu, da Turquia

Solitude, per tromba(do) solo (2001)
Trompete: Bruno Lourensetto, em performance cênica
[orientação: Sérgio Cascapera]

Sáb 24 de Mai 20h
In memoriam

Recife, Infância: Espelhos... (peças infantis, 1988)
Piano: Beatriz Roman* a confirmar

Ciclo Zen (1988)
- Pequena Peça Zen
- In memoriam Blás de Otero
- In memoriam Andrei Tarkovsky
- 11 de dezembro de 1988: um cântico antigo
Piano: Beatriz Roman * a confirmar

Solos I, II e III, per violoncello (2002)
Violoncelo: Adriana Holtz

Elegia (1999)
J’enfonce dans leus feuilles mortes (1999)
Pizzicato Xote (1999-2000)
Violoncelo: Adriana Holtz
Contrabaixo: Pedro Gadelha

- Trini llorando en el film de Aranda
- Marién
- Rilke en Noches de Ronda
- Intensidad
- Al Sueño (para Flávio Apro)
Violão: Flávio Apro

Canções (dedicadas a Caroline De Comi)
- Lluvia (poema: Manoel Altolaguirre) (2003)
- Cristal (poema: Paul Celan) (2001)
- Canções de Celan (poemas: Paul Celan) (2002)
- In memoriam Mompou (texto anônimo, circa 1000 d.C.) (2007)
Soprano: Caroline De Comi
Piano: Maurício De Bonis

Sáb 31 de Mai 20h
Prosa ao Anverso

Prelúdio – Langsam und zart (dedicado a Sonia Rubinsky, 2007)
Piano: Sonia Rubinsky

Je vous salue, Marie (2000)
(texto litúrgico)
Sopranos: Andrea Kaiser e Heloísa Petri

Stein und Shaften (2004)
(poema: Paul Celan)
Soprano: Andrea Kaiser
Percussão: Joaquim Abreu

A Voz do Canavial (2001)
(poema: João Cabral de Melo Neto)
Soprano: Andrea Kaiser
Percussão: Joaquim Abreu

Um Kit para Keats (teatro musical, 2004)
(poema: Florivaldo Menezes)
Soprano: Heloísa Petri
Percussão: Joaquim Abreu

Madrigale: In my craft or sullen art (dedicado ao Núcleo Hespérides, 2003)
(poema: Dylan Thomas)
Interpretação: Núcleo Hespérides

Lendo Hamlet (1990)
(poema: Ana Akhmatova)
Soprano: Martha Herr
Piano: André Rangel

Ophelia: In defense of the Queen (dedicado a Martha Herr, 1998)
(poema: Marina Tsvetaeva)
Soprano: Martha Herr
Piano: André Rangel

Ophelia (dedicado a Martha Herr, 2006)
(colaborações poéticas de Ana Akhmatova e Marina Tsvetaeva)
Soprano: Martha Herr, em performance cênica

10.5.08

Willy Manifesto

Estou para escrever sobre isso faz tempo (mas estou somente agora): mais do que vale a pena ver os 4 concertos do Willy Correa de Oliveira que vão ter no Espaço Cultural CPFL (agora é CPFL Cultura). Todas as obras serão tocadas por instrumentistas muito bons, a maioria para quem as obras foram dedicadas.
Todos os sábados de maio (a partir de hoje), às 20h, grátis.
Vejam todas as informações no site.
A curadoria da Regina Porto para concertos na CPFL é excelente (eu fui a todos), mas esta será a melhor.

5.5.08

quarta-feira,7 de maio de 2008

coisas legais na quarta desta semana:
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Dimos Goudaroulis

Violoncelista toca obras do dramático holandês Kox; do grego Theodorakis, que também compõe trilhas para filmes (como Zorba, o Grego); do grande belga Pousser, professor de importantes compositores brasileiros de várias gerações; do Sílvio Ferraz e uma própria.

Hans Kox Sonate (1959)
— ———Allegro moderato enérgico
— ———Adagio cantabile
— ———Allegro molto
— ——— Allegro ma non troppo
— ——— Largo
Henri POUSSEUR La ligne des toits (1967)
Mikis THEODORAKIS Choros Asíkikos (1989)
— ———— I Allegro
— ————II Allegro
— ————III Presto
— ————IV Recitativo, Andante
— ————V Lento
— ————VI Allegro moderato
— ————VII Allegro moderato
— ————VIII Grave
— ————IX Vivace
— ————Andante
— ————Largo
Dimos Goudaroulis Simorg (1994)
Silvio Ferraz luna, mujer y toro (1999)


CAIXA Cultural — Grande Salão
Dimos Goudaroulis, (violoncelo)
Praça da Sé, 111 — Centro. Tel.: (11) 3321—4400.
$ Grátis
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MACARTISMO NA SESSÃO DO COMODORO

a> “OS DEZ DE HOLLYWOOD
The Hollywood Ten (EUA - 1950)
Legendas em português
Diretor: John Berry
Duração: 15 minutos
INFORMAÇÕES (Fórum MAKING-OF)
Grupo de profissionais da indústria cinematográfica que, em 1947, recusaram testemunhar perante o Comitê de Investigação de Atividades Anti-Americanas, alegando proteção da Constituição Norte-Americana. Estes profissionais eram suspeitos de atividades comunistas e por causa da sua recusa foram acusados de desrespeito e presos. Após a sua libertação os seus nomes passaram a constar da lista negra e foram impedidos de trabalhar na indústria cinematográfica, embora alguns tenham trabalhado sob o disfarce de pseudônimos. Os Dez de Hollywood eram: os realizadores Herbert Biberman e Edward Dmytryk, o produtor Adrian Scott e os argumentistas Lester Cole, Albert Maltz, Samuel Ornitz, Dalton Trumbo, Ring Lardner Jr., John Howard Lawson e Alvah Bessie.
NOTA
Dirigido por John Berry (que entrou na "lista negra" por ter feito este filme), este documentário didático mostra uma pequena biografia de cada um dos dez acusados e permite ao grupo explicar a razão de se recusarem a responder as perguntas da comissão macartista.
OS FILHOS DE HITLER
Hitler's Children (EUA - 1943)
Legendas em espanhol
Diretor: Edward Dmytryk e Irving Reis (não acreditado)
Roteiro: Emmet Lavery, baseado em livro de Gregor Ziemer ("Education for Death")
Produtor: Edward A. Golden
Música Original: Roy Webb
Fotografia: Russell Metty
Montagem: Joseph Noriega
Elenco: Tim Holt, Bonita Granville, Kent Smith, Otto Kruger e Peter van Eyck.
SINOPSE
O professor Nichols (Kent Smith), da American Colony School,em Berlim, é vizinho de uma escola da juventude hitlerista. Ele testemunha a crescente histeria que assola a Alemanha, espelhada nas atitudes do Dr. Schmidt (Erford Gage), que encoraja seus alunos a dedicarem a vida a Adolf Hitler e se atracarem com os americanos. O professor testemunha também o dilema do estudante nazista Karl (Tim Holt), que foi - no passado - atraído por Anna (Bonita Granville), uma americana de origem germânica. Karl se torna oficial da Gestapo e é instado a afastar Anna, que perdeu a cidadania alemã, da American Colony School.
...às 21.30, no CineSesc, e as senhas gratuitas estarão disponíveis a partir das 21.00 horas na bilheteria do cinema.” Leiam mais no Reduto.

p.s.- E hoje assistirei o Nelson Freire abrindo a temporada do Cultura Artística, tocando:
Mozart - Sonata em lá maior K 331
Beethoven - Sonata em lá bemol maior, Op.110
Chopin - Barcarola em fá sustenido maior Op. 60
Debussy - Oito prelúdios (1° caderno)
Ele iria tocar todos os prelúdios de Debussy, mas acabou voltando atrás. È uma pena, mas provavelmente não para o público conservador do Teatro Cultura Artística (mas o repertório é muito bom, assim como o das outras apresentações que terão Bach, Schumann, Shostakovich e Scriábin).

p.s.2- É engraçado, mas um dos membros desta quarta irá hoje neste concerto, e eu encontrei com ele ontem na Barcelona.


p.s.3- E outro membro desta quarta eu encontrei anteontem na Barcelona.

p.s.4- Estou escrevendo, Otacílio.

25.4.08

Jim Jarmusch

Na segunda-feira, eu assisti ao filme Dead Man, dirigido pelo Jim Jarmusch (do grande Coffee and Cigarettes). Gostei muito do filme, e o que chamo muito a minha atenção é a sua semelhança com o seu filme 10 anos mais velho, o Down By Law, (mas achei muito melhor). Ambos têm a bela fotografia em branco e preto.
Down By Law começa com três homens que se conhecem na prisão e fogem juntos. Existe uma diferença entre os americanos (os músicos Tom Waits e John Lurie) e o estrangeiro (Roberto Benigni), mas eles acabam tendo um contato. A partir deste contato, eles fogem e inicia-se um road movie.

A coisa é parecida no Dead Man: um homem da cidade (Johnny Depp) chega a um estranho interior e começa a ser perseguido, como uma fuga da prisão (no caso, da morte — apesar de já estar quase morto) e se junta a um índio preconceituoso com os brancos (que eram preconceituosos com os índios). Ambos fogem também, como um road movie em preto e branco (com elementos de Western).


Em Daunbailó, o italiano tinha uma grande paixão pelo poeta americano Walt Whitman, e sempre lê os seus poemas.
Em Dead Man, o índio Ninguém (Gary Farmer) sofre preconceito dos brancos e dos índios, por ser filho de pai e mão de tribos diferentes. Os problemas que ele teve na vida o fizeram (entre outras coisas) ir estudar na Europa, e lá ele conheceu a poesia de William Blake, que virou o seu grande mestre. O branco certinho (Depp) se chamava William Blake, apesar de não saber quem é o pintor e poeta (o índio tem uma cultura bem maior que os brancos caipiras). O Ninguém o toma como uma reencarnação do Blake, mas que troca a poesia por assassinato — e o certinho Blake, que não era de fato um assassino (como todos achavam), acaba se tornando um.

Na verdade, o filme é bem mais do que isso (e bem mais que uma semelhança com o Down By Law), a começar pela introdução, com o William Blake sentado no trem até o ponto final, numa grande seqüência de pessoas muito diferentes dele no mesmo trem, cortado sempre por fades para tela preta (telas pretas que são um bom recurso durante todo o filme), para aparecer depois as rodas do trem girando no trilho (com uma trilha muito boa e simples do Neil Young) cortando para o Blake sempre no mesmo local, mas cercado por pessoas mais diferentes (e piores), como se estivesse cada vez mais perto do inferno.
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OS FILMES DA "VIRADA DAS VAMPIRAS"
Mostra com 12 filmes de vampiras, legendados em português, e organizada por Carlos Reichenbach e Leopoldo Tauffenbach.
Dia 26 de abril (sábado)
18h - VAMPIRAS (Vampyres) de José Ramón Larraz - Inglaterra/Espanha, 1974
20h - A PROMETIDA DE DRÁCULA (La Fiancée de Dracula) de Jean Rollin - França, 2002
22h - O INFERNO DE DRÁCULA (Evil of Drácula) de Michio Yamamoto - Japão, 1974
Dia 27 de abril (domingo)
00h - SANGUE DE VIRGENS (Sangre de Virgines) de Emilio Vieyra - Argentina, 1967
02h - A BONECA VAMPIRA (Vampyre Doll) de Michio Yamamoto - Japão, 1970
04h - A VAMPIRA NUA (La Vampire Nue) de Jean Rollin - França, 1970
06h - ALUCARDA (Alucarda) de Juan Lopez Monctezuma - México, 1978
08h - O ÊXTASE DO VAMPIRO (Vampiros´s Extasis) de Joseph Sarno - Alemanha, 1973
10h - SANTO CONTRA AS MULHERES VAMPIRAS (Santo Contra las Mujeres Vampiro) de Alfonso Corona Blake - México, 1962
12h - A LOUCURA DOS VAMPIROS (Lê Frisson dês Vampires) de Jean Rollin - França, 197114h - A ORGIA NOTURNA DOS VAMPIROS (La Orgia Nocturna de los Vampiros) de Leon Klimovsky - Espanha, 1973
16h - LÁBIOS DE SANGUE (Lévres de Sang) de Jean Rollin - França, 1975

O quê: Virada das Vampiras, na Virada Cultural
Quando: A partir das 18h do dia 26 de abril até as 16h do dia 27
Onde: Sala Olido - Av. São João, 473 - Centro
Quanto: GRÁTIS

"Não percam: o ultra erótico "VAMPIRAS", de Larraz, o hilário SANTO CONTRA AS MULHERES VAMPIRAS, de Corona Blake, e "LÁBIOS DE SANGUE", o filme mais poético e pessoal de Jean Rollin (o preferido do diretor)." (Carlos Reichenbach)
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Vale a pena também ver a mostra de DVDs na mostra VIDA LOUCA, VIDA INTENSA - UMA VIAGEM PELA CONTRACULTURA que está acontecendo no Sesc Pompéia. Filmes de William Burroughs, D.A. Pennebaker, Alejandro Jodorowsky, Ken Russell, Andy Warhol, David Cronenberg e outros. São DVDs que são fáceis de comprar (a maioria da grande Magnus Opus) e eu mesmo tenho quase todos, mas a entrada é franca.

15.4.08

Beatriz Roman

Brasileira que é uma das maiores pianistas do mundo, com grande amizade de compositores como Gilberto Mendes e o falecido John Cage. Deste, ela tocará Music for Marcel Duchamp para piano preparado, seguido por obras de outros norte-americanos ainda vivos: Duckworth, Rzewski e o grande Crumb, com obras a partir de Mozart e Thelonious Monk.
Todos os recitais dela são muito bons e imperdíveis.

John Cage — Music for Marcel Duchamp
William Duckworth — The Time Curve Preludes — Book One — Prelúdios I—V—VII—XII
Frederic Rzewski — Winnsboro Cotton Mill Blues — North American Ballads Nº4
George Crumb — Eine Kleine Mitternachtmusik
      Ruminations on Round Midnight by Thelonious Monk
         1.Nocturnal Theme
         2.Charade
         3.Premonition
         4.Cobweb And Peaseblossom (Scherzo)
         5.Incantation
         6.Golliwog Revisited
         7.Blues In The Night
         8.Cadenza With Tolling Bells
         9.Midnight Transformation

23/04/2008 — Quarta-feira, 19h
CAIXA Cultural — Grande Salão
Praça da Sé, 111 — Centro.
Tel.: (11) 3321-4400.
$ Grátis

3.4.08

(Paulo Gori) Xará & Bela (Juliana D’Agostini) no mesmo domingo

Paulo Gori


Tocará os dois livros de Prelúdios para piano escritos na última fase do grande compositor do séc. XX (e de todos os tempos): Claude Debussy. Com diferentes títulos, tem até o 3º verso do poema Harmonie du Soir, de Baudelaire: Les sons et les parfums dans l’air du soir.


Harmonie du Soir

Voici venir les temps où vibrant sur sa tige
Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir;
Valse mélancolique et langoureux vertige!

Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir;
Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige;
Valse mélancolique et langoureux vertige!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.

Le violon frémit comme un cœur qu'on afflige,
Un cœur tendre, qui hait le néant vaste et noir!
Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir;
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige.

Un cœur tendre, qui hait le néant vaste et noir,
Du passé lumineux recueille tout vestige!
Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige...
Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir!


Harmonia Da Tarde


Chegado é o tempo em que, vibrando o caule virgem,
Cada flor se evapora igual a um incensório;
Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo;
Melancólica valsa e lânguida vertigem!


Cada flor se evapora igual a um incensório;
Fremem violinos como fibras que se afligem;
Melancólica valsa lânguida vertigem!
É triste e belo o céu como um grande oratório.


Freme violinos como fibras que se afligem,
Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório!
É triste e belo o céu como um grande oratório;
O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem.


Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório
Recolhem do passado as ilusões que o fingem!
O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem...
Fulge a tua lembrança em mim qual ostensório!

Préludes
Livro I 1910
1. Danseuses de Delphes (Dançarinas de Delfos)
2. Voiles (Velas)
3. Le vent dans la plaine (O vento na planície)
4. “Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir“ (Sons e perfumes giram pelo ar noturno; ou: Os sons e os perfumes dançam no ar da noite; ou: Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo; poema de Baudelaire)
5. Les collines d’Anacapri (As colinas de Anacapri)
6. Des pas sur la neige (Passos na neve)
7. Ce qu’a vu le vent d’ouest (O que viu o vento oeste)
8. La fille aux cheveux de lin (A menina dos cabelos de linho)
9. La sérénade interrompue (A serenata interrompida)
10. La cathédrale engloutie (A catedral submersa)
11. La danse de Puck (A dança de Puck)
12. Minstrels (Menestréis)

Livro II 1913
1. Brouillards (Névoas)
2. Feuilles mortes (Folhas mortas)
3. La Puerta del Vino
4. Les fées sont d’exquises danseuses (As fadas são delicadas bailarinas)
5. Bruyères (Urzes)
6. General Lavine-eccêntric (music-hall de marionetes)
7. La terrasse des audiences du clair de lune (O terraço das audiências do luar)
8. Ondine
9. Hommage à S. Pickwick Esq. P.P.M.P.C. (Homenagem ao Sr. Sam Pickwick – Perpetual President Member of the Pickwick Club)
10. Canope (Canopus: antigo local egípcio)
11. Les tierces alternées (Terças alternadas)
12. Feux d’artifice (Fogos de artifício)


et surtout pour amuser mon ami Igor Stravinsky, ton ami Claude Debussy, juin 1913
“e principalmente para distrair meu amigo Igor Stravinsky, teu amigo Claude Debussy, junho 1913”

06/04/2008 — Domingo, 11h30
Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
Av. Morumbi, 4077. Tel.: (11) 3742-0077.
$ R$ 10. Há meia-entrada para estudantes e idosos.

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Juliana D’Agostini

Faz tempo que não falo das musicistas bonitas (como Anca Gavris, Iris Regev, Natali Calandrin Martins, entre outras), mas vale muito a pena escutar (e ver) o bom recital desta pianista tocando Liszt — Reve d’amour, Um sospiro e Venezia e Napoli — e Chopin — Polonaise op.44, Fantasia-improviso e Noturno op.9 n°1.
MuBE — Auditório Pedro Piva (192 lugares). Avenida Europa, 218, Jardim Europa, 3081-8611. Domingo (6), 16h. R$ 14,00.

19.3.08

Trio Camaleon e Xian Zhang

Trio Camaleon


Dimos Goudaroulis (violoncelo), Esdras Rodrigues (violino) e Emerson de Biaggi (viola) tocam obras do final do séc. XVIII. Eles utilizam instrumentos (com cordas de tripa) e arcos antigos. Tocarão op. 9, da primeira fase de Beethoven; extratos da Oferenda Musical, de Bach; e as Três peças, de Silvio Ferraz, composta para o grupo e os seus instrumentos antigos.
Segundo recital de uma série organizada por Dante Pignatari.

26/03
19h
Grátis.
Caixa de Música. Ressonâncias e Contrastes — Diálogo com os grandes mestres da músicaCaixa Cultural São Paulo — Praça da Sé, 111

Xian Zhang e Osesp


Jovem e talentosa chinesa regerá a música de Prokofiev composta para o filme Ivan, o Terrível. Grande obra para um dos grandes mestres do cinema. O diretor Eisenstein adorava ter a “colaboração com um artista tão maravilhoso e brilhante como Sergei Prokofiev.”

Xian Zhang regente
Adriana Clis mezzo soprano
Stephen Bronk baixo
Odilon Wagner narrador
Coro Da Osesp
Coral Lírico De Minas Gerais
Coro Infantil Da Osesp
Sala São Paulo
Pça. Julio Prestes, s/n – Luz. Tel.: (11) 3367-9500.
Quinta, 27, às 21h, sexta, 28, às 21h e sábado, 29, às 16h30

14.3.08

Nicolau de Figueiredo

Cravista e o mais importante brasileiro dentro da técnica de música antiga. Tocará obras do barroco Scarlatti (sonatas K 380 e K 381) — que fez as maiores composições para cravo, com muita invenção em peças tão curtas —; Haydn (sonatas nºs 20 e 23) , grande compositor clássico; e do padre Soler, aluno do Scarlatti.

Auditório da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano (107 lugares). Avenida Morumbi, 4077, Morumbi, 3742-0077. Domingo (16), 11h30. R$ 8,00 (acesso à fundação).

9.3.08

Plusquammembi

Primeiro recital de uma série organizada por Dante Pignatari. Ele no piano, mais uma soprano (Katia Guedes) e um clarinetista (Nivaldo Orsi) tocam Schoenberg, Berg e Webern. Também apresentarão obras de compositores vivos, como Beat Furrer, Wolfgang Rihm, Ellen Hüningen e Max E. Keller.

Caixa Cultural São Paulo
Dia 12, quarta-feira, às 19h
Grátis.

Shin’ya Tsukamoto – Jean Rollin – Gustav Mahler

Semana que passou pelo violento Tóquio Porrada (de Shin’ya Tsukamoto — filme muito influenciado por David Cronenberg, que passou na mostra Cinema Japonês do CCBB), passando pelo terror poético do As Uvas da Morte (de Jean Rollin, que passou na Sessão do Comodoro) até chegar na Sinfonia n°2 em dó menor — Ressurreição, de Gustav Mahler, que, depois de passar por vários momentos, termina em um belo coral de ressurreição (1ª apresentação da Osesp neste ano, com a contralto Nathalie Stutzmann e a soprano Heidi Grant-Murphy).

Semana Inferno, Purgatório e Paraíso (mas com a poesia da Divina Comédia).

21.2.08

procedimentos


“Assim como a música, a poesia é hoje menos circunscrita a seus próprios meios, menos caracterizada pelos seus próprios procedimentos. Da mesma forma como não temos a necessidade de reconhecer a poesia através dos procedimentos mais ou menos sutis da versificação...”
(Luciano Berio — 24 de Outubro de 1925 — 27 de Maio de 2003)

Ji Yon Shim e Danieli Longo


Violoncelo e piano tocam Sonata “Arpeggione”, de Schubert, composta para instrumento de 6 cordas, dificultando a execução do violoncelo; Variações sobre Rossini, de Paganini, para uma só corda, originalmente para o violino; e, do fim da vida de Debussy para esta formação, a Sonata.

Concerto ao meio-dia no CCSP
Sala Adoniran Barbosa
dia 28 — quinta — 12h30
Grátis.

12.2.08

Memórias de uma Casa Inexistente

de Tomás Senna

Série "Séries" - Série I (1 de 4)
Série "Séries" - Série I (2 de 4)
Série "Séries" - Série I (3 de 4)
Série "Séries" - Série I (4 de 4)

Alberto Marsicano via Tomás Senna

tentáculos de paulo fernando vidal de castro

(desenho de Otacílio Lopes)
Paulo Vidal de Castro, formado em Desenho Industrial, foi aluno do Haron Cohen e Claudio Ferlauto. Trabalha junto com Thais Vilanova: identidade corporativa e diagramação de livros (de Egon Schiele, Willy Corrêa de Oliveira, Wedekind, Ferréz, Rilke, Ernesto Nazareth, Giulio Girardi – alguns na 1ª edição). Realizou trabalhos audiovisuais exibidos no MASP, CineSESC, CCBB, MIS, FAAP, Galeria Olido, Finnegan’s Pub (Bloomsday), CCSP e Rietveld Arsenale (Veneza). Fez trabalhos (audiovisuais, fotografias e HQs) e duas palestras (FAAP e Casa das Rosas) sobre Edgar Poe. Entrevistou Gilberto Mendes no 40º Festival Música Nova. Realiza HQs com Otacilio Lopes.
 (storyborad de Paulo Vidal de Castro)
audiovisual
Praça da Sé (2009) 1ºmin dos 24min que representam 24h de São Paulo. Este é o das 0h-1h, na Praça da Sé, com o Tomás Senna como diretor de fotografia. O projeto foi dirigido pela artista holandesa Mariëlle Videler em parceria com a Galeria Olido, o Festival do Minuto, MASP e com o canal digital holandês de documentários Holland/Doc VPRO e a Universidade East China Normal, em Shangai. Este vídeo foi selecionado e projetado – junto com vídeos de Amman, Amsterdam, Beijing, HonKong, Las Vegas, San Francisco, São Paulo e Yogyakarta – na Arsenale Novíssimo em Veneza, durante a Bienal, e será projetado na Bienal de Arquitetura em novembro de 2009 em Roterdã, seguidas por outras exibições como a World Expo Shanghai 2010.

anoitecer (2009)
19ºmin dos 24min que representam 24h de São Paulo. Este é o das 18h-19h, sobre a vista superior de São Paulo no por do sol. Tomás Senna como assistente, Thiago Senna como ator e a obra In memoriam Philadelpho Menezes, de Willy Corrêa de Oliveira. O projeto foi dirigido pela artista holandesa Mariëlle Videler em parceria com a Galeria Olido, o Festival do Minuto, MASP e com o canal digital holandês de documentários Holland/Doc VPRO e a Universidade East China Normal, em Shangai. Este vídeo foi selecionado e projetado – junto com vídeos de Amman, Amsterdam, Beijing, HonKong, Las Vegas, San Francisco, São Paulo e Yogyakarta – na Arsenale Novíssimo em Veneza, durante a Bienal, e será projetado na Bienal de Arquitetura em novembro de 2009 em Roterdã, seguidas por outras exibições como a World Expo Shanghai 2010.

tmese
, de Paulo Vidal de Castro
(2005) O mais curto e com menor quantidade de elementos de todos. Um dos mais poéticos também(, acho). Haicai audiovisual. Assistir com som estéreo.
tmese (paulo vidal de castro) no Centro Cultural São Paulo, MASP, entre outros. tmese (paulo vidal de castro) no You Tube.

Jaguadarte, de Paulo Vidal de Castro (2005) Um jovem vai combater um monstro para satisfazer o seu pai. Transcrição do poema Jabberwocky – de Lewis Carroll, no livro Alice Através do Espelho – para linguagem audiovisual. Resultado da fascinação e estudo da obra de Carroll. Palavras-valise de Carroll (e, depois, Joyce) = ideogramas copulativos = montagem (de planos, imagens, sons, palavras, idéias, etc.) – já avisou Eisenstein.
Exibido em um Bloomsday, no Finnegan’s Pub. Jaguadarte (de Paulo Vidal de Castro) no Cronópios.

POEsível REVERsia
, de Paulo Vidal de Casto (2004) Fixações pessoais de sempre: O Retrato Oval, de Poe; Yin Yang; diferentes níveis de estrutura; a morte pelo signo; outras influências; etc. Tentativa de certa tensão dissonância informativa X consonância informativa.

d#, de Paulo Vidal de Castro (2004) Talvez o mais radical de meus trabalhos. Elementos presentes nos outros vídeos – silêncios, telas repartidas polifonicamente, textos, telas vazias (pretas & brancas) – atingem autonomia em um universo autônomo. Nenhuma imagem (fixa, em movimento ou metamorfose) aparece durante mais que frações de segundo, no limite da percepção consciente. Cada aparição de palavra dura 1/16 de segundo. Esta é a menor unidade de tempo sobre a qual a estrutura do todo é montada através de operações matemáticas que orientam sons e imagens – proporção áurea (Fibonacci na proporção temporal), séries, quadrado mágico de dominós regulando aspectos da estrutura, etc. Metade do tempo é composto de não imagens – ¼ pretas, ¼ brancas. É a primeira vez que componho toda a trilha sonora. Um vídeo sensorial, para os olhos e ouvidos.
Exibido no CineSESC, CCBB, MIS, Centro Cultural São Paulo, entre outros. d# (de Paulo Vidal de Castro) na Folha OnLine (2009). d# (de Paulo Vidal de Castro) na Folha OnLine (2004). d# (de Paulo Vidal de Castro) no You Tube.

O Corvo
, de Paulo Vidal de Castro (2002) O mais longo de todos (uns 20min). O que utilizou mais recursos técnico-financeiros: ator profissional, operador de câmera profissional, câmera profissional, equipe profissional, etc. É também o que mais flerta e se aproxima da linguagem cinematográfica.
Primeiro filho direto do meu infinito interesse por Edgar Allan Poe. Aspirando a uma tradução da linguagem textual poeana para a linguagem audiovisual poeana – tradução intersemiótica do poema The Raven.
Exibido no Cinema da FAAP e em algumas aulas de cinema da faculdade.

projeção-identificação
, de Paulo Vidal de Castro (2002) Conceito de Edgar Morin em um ensaio sobre a experiência do cinema. Aproximação de seqüência do Cidadão Kane. O espectador se projeta em Kane, que se projeta em Hearst, que se projeta em Welles, que se projeta em Kane, que se projeta em mim, que se projeta no espectador, e vice-versa. É também um fenômeno ótico: a luz das encenações se projeta na película, que se projeta numa tela branca numa sala escura, que – rebatida – se projeta na retina do espectador.
Exibido na FAAP.

O Portal
, de Paulo Vidal de Castro (2001) Animação quadro a quadro. Traço gráfico de quadrinhos de terror + linguagem de cinema mudo. Temática católica e provocações com milhares de falos. Dezenas de dias, cada desenho (frações de segundo) era rascunhado a lápis pelo Gorzoni, finalizado a tinta por mim e colorido pela Thais. Linha de montagem fordista.

Design visual
Layout interno (com Thais Vilanova)
livro-objeto Passagens, de Willy Corrêa de Oliveira (2008)reportagem de João Marcos Coelho no Estadão

Edição editorial de livros
(Layout interno e capa com Thais Vilanova)6 livros de partituras com as obras completas de Ernesto Nazareth (2010)

Poemas
(Gedichte), de Rainer Maria Rilke (em uma edição bilinque)--> – Editora Luzes no Asfalto (2010)

Despertar da Primavera
(Frühlingserwachen) – teatro – e Mine-Haha, ambos de Frank Wedekind – Editora Luzes no Asfalto (2010)

Na Prisão
(Im Gefängnis), de Egon Schiele (em uma edição bilinque com as suas pinturas enquanto estava preso) – Editora Luzes no Asfalto (2009) – reportagens na Folha e no Estadão

Programação de Paulo Vidal de Castro e Thais Vilanova para os livros da Editora Literatura Marginal, de Ferréz (assim como a revisão do logotipo)
Cronista de um Tempo Ruim, de Ferréz (2009)
Amazônia em Chamas, de Catia Cernov (2010)
Sob o Azul do Céu: histórias das ruas, de Marcos Teles (2011)

fotomontagem incluida no livro e capa
Com Villa-Lobos
, de Willy Corrêa de Oliveira – Edusp (2009) (texto do livro sem a fotomontagem)

Capa
-->dvd sãopaulocityoneminutes ( -->c1'), de Mariëlle Videler, onde cada hora de São Paulo (março de 2009) é representada por 1min (filmado na hora certa). Eu dirigi 2: 00h-01h (Praça da Sé) e 18h-17h (anoitecer). (2009)

logotipos (com Thais Vilanova)
Limpa Brasil (2010)

A Rede
(2010)

Luzes no Asfalto (2009)revisão Literatura Marginal (2009)

marcadores de página (com Thais Vilanova)Livro Passagens, de Willy Corrêa de Oliveira (2008)
de Titi Vidal

outrosEtiqueta (dentro de uma série de papelaria) feito por Paulo Vidal de Castro e Thais Vilanova.

Nova diagramação do cartão de visitas de Thais Vilanova por Paulo Vidal de Castro.

Outros trabalhos de design impresso com Thais Vilanova.
Paulo Vidal de Castro como desenhista e auxiliar de fotografia no livro-objeto de Thais Vilanova através de Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll.

Roteiros e Storyboards de revista em quadrinhos
d'angola, desenho de Thiago Senna

O Barril de Amontillado, desenho de Otacílio Lopes (Octa Lopes)

O
Faquir, desenho de Otacílio Lopes (Octa Lopes)

Palestras

Palestra de Paulo Vidal de Castro sobre o elemento audiovisual na obra de Edgar Allan Poe, na Casa das Rosas — Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura —, na 3ª Mostra Curta Fantástico (2008).
Palestra de Paulo Vidal de Castro sobre a sua tradução audiovisual do poema O Corvo, de Edgar Allan Poe, no Cinema da FAAP (para Haron Cohen, Marlise Toni, Lucia Santaella, Plácido Campos Júnior e auditório) (2002).
Trilha sonora
Trilha para a abertura dos filmes 1Dasul.

 (Montresor de Otacilio Lopes)

26.12.07

“O conteúdo de poesia é mutável e condicionado pelo tempo, mas [...] a função poética, a poeticidade, como realçam os ‘formalistas’, é um elemento sui generis, que não pode ser mecanicamente reduzido a outros elementos. [...] Em geral a poeticidade é apenas um componente de uma estrutura complexa, um componente, porém, que transforma os outros elementos e determina com estes o caráter do todo.”
(Roman Jakobson)

18.12.07

Karlheinz Stockhausen (1928-12/2007)

morreu um dos mais importantes compositores do início da segunda metade do séc. XX, e, provavelmente (e infelizmente), o que se viu como o mais grandioso de todos

um dos grandes homens que morrem a cada ano

esperamos que outros também nasçam

1.12.07

diletante.

[Do it. Dilettante.] Adj. 2g. e &. 2g. 1. Amador ou apreciador apaixonado de música; melômano. 2. Que ou quem se ocupa de qualquer assunto, ou exerce uma arte por gosto, como amador, e não por ofício ou obrigação.

29.11.07

Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo

Tocarão dois quartetos, o último de Villa-Lobos e o de Debussy — uma de suas primeiras grandes obras e um dos melhores quartetos já compostos. Obra com bastante continuidade, até entre o pizzicato ritmado e o penetrante andantino. Grátis.

violinos — Nelson Rios e Betina Stegmann
violoncelo — Robert Suetholz
viola — Marcello Jaffé

30/11/2007 - Sexta-feira, 12h30
Sala Olido
Av. São João, 473 - Centro. Tel.: (11) 3334-0001

25.11.07

Alejandro Jodorowsky

mostra incrível no CCBB (com presença do próprio Jodorowsky)
programação para São Paulo:

Rua Álvares Penteado, 112 - Centro.Informações pelo telefone (11) 3113-3651 ou 3113 3652.
28 de novembro (quarta-feira)
17:00 Filmes da Meia-Noite: da margem ao mainstream (Stuart Samuels, 2005, cor, DVD, 86min, 18 anos).
19:00 A montanha sagrada (Alejandro Jodorowsky, 1973, cor, 35mm, 113 minutos, 18 anos).

29 de novembro (quinta-feira)
17:00 Constelação Jodorowsky (Louis Mouchet, 1994, cor, DVD, 91min, 12 anos).
19:00 Tusk (Alejandro Jodorowsky, 1980, cor, DVD, 119min, 14 anos).

30 de novembro (sexta-feira)
17:00 O ladrão do arco-íris (Alejandro Jodorowsky, 1990, cor, Beta, 16 anos).
19:00 A montanha sagrada (Alejandro Jodorowsky, 1973, cor, 35mm, 113 min, 18 anos).

1º de dezembro (sábado)
15:00 A montanha sagrada (Alejandro Jodorowsky, 1973, cor, 35mm, 113 min, 18 anos).
17:00 El Topo (Alejandro Jodorowsky, 1970, cor, 35mm, 120min, 18 anos).
19:00 Debate com Carlos Reichenbach e Marcus Mello.

2 de dezembro (domingo)
15:00 Constelação Jodorowsky (Louis Mouchet, 1994, cor, DVD, 91min, 12 anos).
17:00 Filmes da Meia-Noite: da margem ao mainstream (Stuart Samuels, 2005, cor, DVD, 86min, 18 anos).
19:00 O ladrão do arco-íris (Alejandro Jodorowsky, 1990, cor, Beta, 87min, 16 anos).

4 de dezembro (terça-feira)
19:00 Conferência de Alejandro Jodorowsky sobre Quadrinhos [auditório]

5 de dezembro (quarta-feira)
15:00 Cabezas Cortadas (Glauber Rocha, 1970, cor, DVD, 95min, 16 anos).
17:00 A Gravata (Alejandro Jodorowsy, 1957, cor, 35mm, 21 minutos, 14 anos).
19:00 Fando e Lis (Alejandro Jodorowsky, 1968, p&b, 35mm, 93min, 18 anos).
20:30 Noite de autógrafos com Alejandro Jodorowsky - FNAC Paulista - Lançamento de Antes do Incal - 2 (Devir).

6 de dezembro (quinta-feira)
15:00 Filmes da Meia-Noite: da margem ao mainstream (Stuart Samuels, 2005, cor, DVD, 86min, 18 anos).
17:00 Echek (Adan Jodorowsky, 2000, p&b, DVD, 4 min, 12 anos) e Santa Sangre (Alejandro Jodorowsky, 1989, cor, 35mm, 116 min, 18 anos).
19:30 Conferência de Aleandro Jodorowsky sobre Cinema.

7 de dezembro (sexta-feira)
17:00 O ladrão do arco-íris (Alejandro Jodorowsky, 1990, cor, Beta, 16 anos).
19:30 El Topo (Alejandro Jodorowsky, 1970, 35mm, cor, 120min, 18 anos).

8 de dezembro (sábado)
15:00 Alejandro Jodorowsky: conversações sobre as vias do Tarô (Giuseppe Baresi, 2007, cor, DVD, 60min, 16 anos).
17:00 Echek (Adan Jodorowsky, 2000, p&b, DVD, 4 min, 12 anos) e Santa Sangre (Alejandro Jodorowsky, 1989, cor, 35mm, 116 min, 18 anos).
19:30 Encontro e leitura de Tarô com Alejandro Jodorowsky.

9 de dezembro (domingo)
15:00 A Gravata (Alejandro Jodorowsy, 1957, cor, 35mm, 21 minutos, 14 anos) e Fando e Lis (Alejandro Jodorowsky, 1968, p&b, 35mm, 93min, 18 anos).
17:00 Echek (Adan Jodorowsky, 2000, p&b, DVD, 4 min, 12 anos) e Santa Sangre (Alejandro Jodorowsky, 1989, cor, 35mm, 116 min, 18 anos).19:00 El Topo (Alejandro Jodorowsky, 1970, cor, 35mm, 120min, 18 anos).

23.11.07

Sonia Rubinsky e Osusp

Regida pelo suíço Johannes Schlaefli, a orquestra tocará Ma Mère L’Oye, de Ravel, com uma gama pentatônica no terceiro movimento, e uma obra da primeira fase de Debussy. Apresentará junto com Sonia Rubinsky – grande pianista e intérprete de Villa-Lobos – Bachianas Brasileiras n°3.

28/11/2007 - Quarta-feira, 21h
Sala São Paulo
Praça Júlio Prestes, s/nº - Luz. Tel.: (11) 3223-3966
$ R$ 15 a R$ 80.

21.11.07

lógica de cada poesia - giulio carlo argan

“Sem dúvida, não podemos admitir que a poesia seja apenas a tradução métrica de um conteúdo que poderia igualmente ser comunicado em prosa. O conteúdo não pode ser separado dos elementos poéticos (sílabas, palavras, pontuação), e é ainda mais inseparável dos sons que constituem as palavras daquele poema: uma palavra no lugar de outra, ainda que seja um sinônimo, pode alterar o poema.” (Giulio Carlo Argan)

8.11.07

Luminamara (Willy Corrêa de Oliveira)

O Núcleo Hespérides tocará obras do seu novo CD. Andréa Kaiser e Heloisa Petri (sopranos), Joaquim Abreu (percussão) e outros músicos apresentarão obras de compositores brasileiros, como o Madrigale: In my craft of sullen art, do grande Willy Corrêa de Oliveira a partir do poema de Dylan Thomas.

no dia 15/11, quinta, às 18h
no SESC Vila Mariana

“Se começo esse esboço, por exemplo, por meu nome, lugar de nascimento (e data), escrevo sem temor de causar escândalo; mas se acrescento a palavra compositor, e se – no âmbito da outra hipótese – grafo: compositor brasileiro, deveria (sim) provocar assombro, estupefação, até propriamente: qualquer sorte de desprezo. À primeira vista pode aparentar ingenuidade de minha parte, igualmente pode parecer certa desestimada pelo leitor, menosprezo pelo seu discernimento. Como se eu não soubesse que o leitor também sabe que essa profissão (no que tange à música erudita, no capitalismo) não é assim comezinha que qualquer um se arrogue tal façanha. O capitalismo é essencialmente avesso à arte (especialmente à música erudita), mui pouco tocada por Midas). Como então situar a possível existência de um compositor (atual) vivendo (decentemente) de seu trabalho em uma sociedade capitalista contemporânea no quadro da globalização? Não! Escrevo músicas, sim, e há anos que escrevo, geralmente, para minha consolação. Meu nome é Willy Corrêa de Oliveira, nasci no Recife, Pernambuco, no ano de 1939.”

IN MY CRAFT OR SULLEN ART
Dylan Thomas

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art


NO MEU OFÍCIO OU ARTE AMARGA
Tradução: Ivo Barroso

No meu ofício ou arte amarga
Que à noite tarda é exercido
Quando alucina só a lua
E dormem lassos os amantes
Com as dores todas entre os braços,
É que trabalho à luz cantante
Não pela glória ou pelo pão,
Desfile ou feira de fascínios
Por sobre palcos de marfim,
Mas pela paga mais afim
De seus secretos corações!

Não para alguém altivo à parte
Da lua irada é que eu escrevo
Os respingados destas páginas
Nem pelos mortos presumidos
Cheios de salmo e rouxinóis.
Mas para amantes cujos braços
Têm os cansaços das idades
Que não me dão louvor nem paga
Nem prezam meu ofício ou arte.

30.10.07

POEsia

“pelo agudíssimo senso da harmonia entre o novo e o adequado; em uma palavra: da poesia.” (Edgar Poe)

29.10.07

Fabio Zanon e Marcelo Barboza


O Duo de violão, com um dos melhores violonistas atuais, e flauta tocará obras compostas do começo do século XX até hoje: Castelnuovo-Tedesco, Haug, Souza Lima e Ourkouzounov; junto com a de um compositor e violonista do início do século XIX, Mauro Giuliani.
Centro da Cultura Judaica - R. Oscar Freire, 2500 - Sumaré. Tel.: (11) 3065-4333. $ Grátis (Retirada de ingresso a partir de 19h30)
Eu recomendo o CD do Fabio Zanon tocando Scarlatti arranjado para violão. Além das obras mais antigas para violão (desde Andrés Segóvia), existem obras incríveis, como a K.394 (com sons muito diferentes dos tradicionais do violão), K. 404 (com diferenças de timbres em melodias tocadas ao mesmo tempo, como se fosse mais de um instrumento tocando junto), a alegre K. 491 (com silêncios incríveis), e todas as outras do CD. Comprei na Livraria Cultura do Market Place.

14.8.07

Entrevista com Gilberto Mendes


40° Festival Música Nova – Gilberto Mendes


Entrevista que fiz com o compositor santista Gilberto Mendes (1922) – fundador e diretor artístico do Festival Música Nova na época do 40º Festival.

Paulo Vidal de Castro

Já ouvi o senhor falar que tentou acabar com o Festival várias vezes, mas sempre te impedem e falam para continuar. Sempre cobraram muito do senhor, e o senhor sempre diz ser um compositor e não um empresário. Mas agora com o Lorenzo Mammì cuidando da parte administrativa, e o Luiz Gustavo Petri, o senhor fica só na direção artística. Ainda pensa em desistir?
Agora é como eu sempre desejei que tivesse sido, e aconteceu porque há dois, três anos, eu encerrei um deles, e até fico pensando que eu poderia ter encerrado há mais tempo porque assim apareceriam as pessoas interessadas (risos), como aconteceu agora. Eu me acostumei com a idéia de ter acabado o Festival, e não pretendia, realmente, fazer mais. Mas como é um espaço para músicos, há uma pressão grande para que continue. E o Lorenzo Mammì lá do Centro Maria Antônia, que é da USP (e eu também sou professor aposentado da USP, somos colegas), ele propôs fazer lá. Eu disse: –Tudo bem, mas vocês fazem. Eu não quero mais mexer nessas coisas, correr atrás de verba, nada disso. E eles se encarregariam disso, eu ficaria simplesmente como diretor de honra, diretor artístico. Opinar, dizer sim, não, está bem, está legal, dar o molde da coisa, mas sem precisar entrar em contato com o dinheiro. Mas em Santos acharam ruim, porque o pessoal de Santos e outras Sociedades aqui, Aplauso (que é uma associação da Orquestra Sinfônica Municipal, maestro Luiz Gustavo Petri), também quiseram fazer em Santos. Eu falei a mesma coisa, que tudo bem que eles fizessem, eu ficaria muito contente. Agora eles estão no terceiro ano.

No debate que ocorreu no auditório da Folha, o senhor estava comentando a falta de divulgação da música de nosso tempo e da música de alto repertório em geral. Falam que o povo não quer saber dessas coisas, e o senhor disse que a situação atual é, na verdade, responsabilidade das pessoas que cuidam disso, dos responsáveis que são ignorantes...
Não há a menor dúvida. Ninguém dá dinheiro para o Festival. Mas embora eu consiga geralmente verbas pequenas para ele, ele é super bem sucedido. A função dele não é ser um Festival como Campos do Jordão, esse tipo de coisa, é um Festival de compositores que se reuniram para mostrar a sua própria música e, posteriormente, conforme foi continuando, daqueles que aderiram à nossa linha de programa. Depois começam os contatos, primeiro latino-americano, depois mundial, internacional, virou um movimento realmente grande. Eu não queria ir atrás de bastante dinheiro. Eu não sou nem empresário e nem produtor. Na verdade eu preferiria um Festival de porte pequeno, mas que não desse trabalho. Se tivesse muito dinheiro na minha mão eu teria que alugar umas duas salas, ter secretárias e ficar trabalhando o tempo todo com a organização do Festival, mas não é o meu campo esse aí (risos), eu sou compositor.

E até perderia a liberdade do Festival...
E o caráter também não é esse.

O Festival sempre traz coisas interessantes, como nesta edição que tem o Dieter Schnebel e o Ensemble Orchestral Contemporain...
O Festival este ano é muito pequeno porque entrou muito pouco dinheiro. No ano passado, por exemplo, foi maior. Então muita coisa a gente cortou. É muito pequeno, com sete eventos no total. Mas está muito bom, não é?

Sim, está pequeno, mas está muito bom...
O Dieter Schnebel, que é uma das figuras maiores deste movimento da Neue Musik – Música Nova – aqui presente. Figura histórica, uma das maiores figuras da Música Nova, um dos maiores compositores da Alemanha, e a Alemanha foi a comandante deste movimento. Tem também o Ensemble Orchestral Contemporain que vai ser muito bom. Tem uma obra até do Pierre Boulez no meio...

Edgard Varèse...
Varèse também, e um compositor da nova geração que é muito interessante. Uma pianista inglesa muito curiosa também que vai tocar um programa com composições da Renascença, Bach, Ligeti...

E música pop também...
Pop, músicas dela mesma, muito interessante. E também uma flautista holandesa muito boa vai tocar com a Orquestra Sinfônica de Santos um concerto para flauta e orquestra que é do próprio marido dela, que é compositor também, ele é norte-americano, mas é radicado na Holanda. Além das presenças estrangeiras boas, grupos brasileiros também. Desta vez não deu para formar grupos de câmara – trios, quintetos, etc. Não é possível fazer milagres. A Orquestra de Câmara do departamento de música da Usp e a Banda Sinfônica têm muita música brasileira. O Festival sempre apresenta música brasileira...

E agora não tem mais a Sinfonia Cultura.
É, tivemos esta perda lamentável que se deve a esses fatos de que falava aqui. As pessoas que às vezes ocupam certos cargos de direção de TV e de rádio, elas levam para ali a sua ignorância. Acham: (fazendo outra voz) “Não! O povo não quer ouvir isso.” Mas não consultaram ninguém. É isso. Na verdade, eles é que não gostam. Porque o cara que gosta da alta cultura e que está em um cargo de direção artística, um cara que ama a alta cultura, aí ele vai repugnar essas coisas. Como agora a TV Cultura abaixou o nível da programação, não é?

Muito, e a Rádio também.
É, a Rádio e a TV. Para quê? Para atingir o grande público. E é inclusive burrice, porque não atinge. Quem ouve a Cultura não vai ver a televisão e ouvir, por causa dessa mudança, e vai perder o público que tinha. Quem gosta da alta cultura, não tem mais rádio, não liga mais para lá. Não existe com essa finalidade. A direção, eles é que não gostam. O que precisa, o fundamental de todo projeto cultural, mesmo educacional, o fundamento dessa mecânica é dar chance de escolha. Porque ficar com esse preconceito – porque isso é um preconceito, preconceito de ignorante: “Não! Esses caras não querem.” O cara que está dizendo isso. Eles não gostam e não toleram esse tipo de coisa. E não é nada disso, tem que mostrar tudo, para a pessoa optar. Eu, que peguei os anos antigos, tenho bastante idade e ouvi rádio nos anos 30 e tal, tinha uma opção incrível naquela época. Só na área popular, você ouvia grupos da Hungria, grupos da Tchecoslováquia, grupos dos Estados Unidos, música francesa, ouvia de tudo. Rádio é popular, ainda mais naquele tempo. Então eu fui formado pela melhor música, a mais variada possível. A geração de hoje não tem opção, você liga o rádio e é tudo rock. Só tem a música ruim e não a boa. Então não há mais a chance da opção. Opção é fundamental. Colocar tudo e é o público que deve decidir. Eles só mostram uma coisa. E a TV Cultura agora faz coisas como o programa da Silvia Poppovic (risos). Eles têm que perceber que deviam deixar essa vulgaridade para as outras...

Que fazem melhor isso...
Que fazem melhor, não é? E ninguém vai deixar de ver a outra para ver essa aí. Vai perder o público que já tinha para alguma concorrente.

O senhor já disse que compõe para poder escutar os grandes mestres. O Festival Música Nova acabou chegando em um ponto que estréia no Brasil muitas obras, tanto de compositores brasileiros quanto estrangeiros. O senhor não acha que com o Festival o senhor também acabou conseguindo pagar um tributo, tanto aos mestres quanto aos contemporâneos?
Essa frase que eu disse uma vez, na verdade eu escrevi. É que volta e meia perguntam para a gente: “Por que você compõe?” E a gente tem umas respostas meio padronizadas, nós, os compositores. Mas no fim eu pensei bem, e o porquê de eu compor é estar como que a merecer ouvir a grande música de Bach, Beethoven, Renascença, Idade Média, grandes contemporâneos... Merecer. Acho que tem que merecer ouvir essa gente. Não precisa se tornar um grande compositor. Grandes compositores são poucos no mundo, na história da humanidade. Eu quero apenas ser um compositor, aí eu me sinto como que no direito a poder ouvir. Uma vez eu li aquele escritor, um escritor russo, que escreveu o Doutor Jivago, Pasternak. Uma vez ele declarou que quando ele foi criança, ouviu Scriabin ou alguma coisa assim, e ele quis ser músico. Engraçado... E tentou, estudou, tal e tal, mas parece que não foi adiante, não tinha talento. E aí ele desistiu, se interessou pela literatura, e disse que nunca mais quis ouvir música... Engraçado. E ele gostava muito a ponto de querer ser compositor, ele queria ser músico. Pelo menos não sei se a vida toda, mas em um dado momento ele se desinteressou. Eu pensei bem – eu passei por uma fase um pouco assim, quando eu estudava música, ainda não era ninguém na música, na década de 40, eu às vezes pensava um pouco assim. Mas felizmente hoje eu posso ouvir música com muito prazer. Ruim ou não, eu me tornei um compositor.

25.9.06

Osesp toca Debussy e Strauss


A orquestra tocará duas obras de Richard Strauss e duas de Claude Debussy: a ondulação de La Mer e o Prélude à l’après-midi d’un faune, composição a partir do poema de Mallarmé que inaugurou a música moderna.

Quinta (28) e sexta (29), às 21h, e sábado (30), às 16h30, na Sala São Paulo.

fragmento de L’après-midi d’un faune

“Et qu’au prélude lent ou naissent les titeaux,


“Ced vol de cygnes, non! ded naïads se sauve



“Ou plonge…”


(poema de Stéphane Mallarmé)



fragmento de A tarde de verão de um fauno
A tarde de um fauno
A sesta de um fauno

E que ao lento prelúdio onde nascem as flautas,
E que ao prelúdio lento em que nascem as flautas,
E que ao lento prelúdio das varas de visgo,
Este arroubo de cisnes, ou náiades! foge
Este vôo de cisnes, náiades! se esquiva
Esses signos no ar, mulheres! ludibriam
Ou mergulha....
Ou imerge...
Ou afundam...”


tridução de Décio Pignatari

P.S.– Estou atualizando o blog com muito menos freqüência, pois estou sem internet em casa.