31.12.25

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase média>
[...]
Sobre o fenômeno da colportagem do espaço: “O senso do mistério — escreveu Odilon lisdon, que havia aprendido seu segredo em Da Vinci — é estar o tempo todo no equívoco, fanes aspectos duplos, triplos, nas suspeitas de aspecto (imagens dentro de imagens), nas formas que podem vir a ser, ou que virão a ser, segundo o estado de espírito do observador. Todas as coisas mais que sugestivas, pelo fato de aparecerem.” Cit. cm Raymond Escholier, Artiste, in: Arts et Métiers Graphiques, n° 47, 01 jun. 1935, p. 7.
[M 6a, 1] 
[...]
A cidade é a realização do antigo sonho humano do labirinto. O flâneur, sem o saber, persegue esta realidade. Sem o saber — por outro lado, nada é mais insensato do que a tese convencional que racionaliza seu comportamento e é a base inconteste da ilimitada literatura que descreve o flâneur em seu comportamento e aparência. Trata-se da tese de que o flâneur teria escolhido como objeto de seu estudo a aparência fisionômica das pessoas, a fim de fazer a partir do andar, da estrutura física e das expressões faciais a leitura da nacionalidade e do status social, do caráter e do destino. O interesse em dissimular as reais motivações do flâneur deveria ser bastante premente para dar crédito a teses tão inconsistentes.
[M 6a, 4]
[...]
Litografia. “Os cocheiros dos Fiacres brigando com os dos Ônibus”. Cabinet des Estampes.
[M 7, 2]
Em 1853 já existiam estatísticas oficiais sobre o tráfego de veículos em certos pontos principais de Paris. “Em 1853, trinta e uma linhas de ônibus serviam Paris, e é interessante observar que, com pouca diferença, essas linhas eram designadas com as mesmas letras que nossos ônibus atuais. Assim, a ‘Madeleine-Bastille’ já era a linha E.” Paul d’Ariste, La Vie et le Monde du Boulevard, 1830-1870, Paris, 1930, p. 196.
[M 7, 3]
Nos pontos de baldeação dos ônibus, os passageiros eram chamados por um número de ordem e tinham que se apresentar para garantir seu direito a um lugar. (1855)
[M 7, 4]
[...]
Louis Lurine, Le Treizième Arrondissement de Paris, Paris, 1850, é um dos testemunhos mais significativos da fisionomia própria do bairro. O livro possui características de estilo peculiares. Personifica o bairro; não são raras as fórmulas do tipo: “O décimo terceiro arrondissement não se dedica ao amor de um homem, a não ser quando que lhe proporciona vícios para amar” (p. 216).12 
[M 7, 6]

A expressão de Diderot “Como é bela a rua!” é muito cara aos cronistas da flânerie.
[M 7, 7]
Sobre a lenda do flâneur: “Com a ajuda de uma palavra que escuto ao passar, reconstituo soda uma conversa, toda uma vida; o tom de uma voz é suficiente para unir o nome de um pecado capital ao homem com quem acabo de cruzar, de quem só vislumbrei o perfil." Victor Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 270.
[M 7, 8]
Ainda no ano de 1857, partia às seis horas da manhã da Rue Pavée-Saint-André uma diligência para Veneza, numa viagem que durava seis semanas. Cf. Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, p. 273.
[M 7, 9]
Nos ônibus, um mostrador que indicava o número de passageiros. Para quê? Como aviso ao cobrador que distribuía os bilhetes.
[M 7, 10]
“Observa-se ... que o ônibus parece apagar e petrificar todos os que dele se aproximam. As pessoas que ganham a vida com os viajantes ... são reconhecidas, em geral, por sua agitação grosseira..., da qual os empregados dos ônibus são praticamente os únicos que não apresentam traços. Pode-se dizer que dessa pesada máquina emana uma influência plácida soporífica, semelhante àquela que faz adormecer as marmotas e as tartarugas no começo do inverno.” Vicior Fournel, Ce Quon Voit dans les Rues de Paris, Paris, 1858, p. 283 (“Cochers de fiacres, cochers de remise et cochers d’omnibus”).
[M 7a, 1]
[...]
A primeira sugestão de um sistema de ônibus deve-se a Pascal, e ela foi concretizada sob Luís XIV, embora com a restrição significativa de “que os soldados, pajens, lacaios e outras pessoas de libré, inclusive os serventes e trabalhadores braçais não poderíam subir nas ditas carruagens”. Em 1828, a introdução dos ônibus, sobre os quais lê-se em um cartaz: “Esses veículos ... avisam quando vão passar, acionando um jogo de cornetas recentemente inventado.” Eugène D’Auriac, Histoire Anecdotique de lIndustrie Française, Paris, 1861, pp. 250 e 281.
[M 7a, 3]
[...]
A figura de um camponês no cenário urbano é descrita por Delvau em Les Lions du Jour, no capítulo “Le pauvre à cheval”. “Este cavaleiro era um pobre diabo, cujos meios impediamno de andar a pé, e que pedia esmola como um outro teria pedido uma informação sobre o caminho. Esse mendigo..., com seu pequeno poldro de crinas selvagens, de pêlo áspero como o de um asno do campo, me ficou durante muito tempo no espírito e diante dos olhos... Ele morreu  rentista.” Alfred Delvau, Les Lions du Jour, Paris, 1867, pp. 1 16-1 17 (“Le pauvre à cheval”).
[M 7a, 5] 
[...]
“A oposição entre a cidade e o campo ... é a expressão mais flagrante da subsunção do indivíduo à divisão do trabalho e à uma determinada atividade que lhe é imposta — uma subsunção que transforma um em obtuso animal urbano, e o outro em obtuso animal campestre.” (Karl Marx e Friedrich Engels, Die deutsche Ideologie, Marx-Engels Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, pp. 271-272)
[M 8, 3]
No Arco do Triunfo: “Incessantemente circulam nessas ruas, para cima e para baixo, cabriolés, ônibus, hirondelles , velocíferos, citadinas, Dames blanches, seja qual for o nome desses diversos veículos públicos; e além deles os inumeráveis whiskys, carruagens, carroças, cavaleiros e amazonas.” L. Rellstab, Paris im Frühjahr 1843, Leipzig, 1844, vol. I, p. 212. O autor menciona também um ônibus que trazia sua destinação escrita numa bandeira.
[M 8, 4]
Por volta de 1857 (cf. H. de Pène, Paris Intime, Paris, 1859, p. 224), a parte superior dos ônibus  a impériale  era proibida às mulheres.
[M 8, 5]
 [...]
Sobre Victor Hugo: “A manhã, para ele, constituía o trabalho imóvel; a tarde, o trabalho Man te Adorava as impériales dos ônibus, esses ‘balcões ambulantes, como ele as chamava, de onde podia estudar à vontade os aspectos diversos da gigantesca cidade. Dizia que o barulho ensurdecedor de Paris lhe produzia o mesmo efeito que o mar.” Édouard Drumont, Figures de Bronze ou Statues de Neige, Paris, 1900, p. 25 (“Victor Hugo”).
[M 8a, 3]
Existência autônoma dos quartiers: ainda em meados do século, dizia-se da Île Saint-Louis, que uma moça de lá, caso não gozasse de boa reputação, teria que procurar o futuro marido fora do quartier.
[M 8a, 4] 
 [...]
“O ônibus, este Leviata da carroceria, e essas viaturas tão numerosas, entrecruzando-se com a rapidez de um raio!” Théophile Gautier [in: Edouard Fournier, Paris Démoli, 2a ed., com prefácio de Théophile Gautier, Paris, 1855, p. IV]. (Este prefácio foi publicado em Le Moniteur Universel de 21 de janeiro de 1854, provavelmente como crítica à primeira edição. Parece que é total ou parcialmente idêntico ao “Mosaïque de ruines”, de Gautier, in: Paris et les Parisiens au XIX Siècle, Paris, 1856.)
[M 9, 3]
“Os elementos temporais mais heterogêneos coexistem, portanto, na cidade. Quando se sai de uma casa do século XVIII e se entra em outra do século XVI, cai-se em um declive temporal; bem ao lado há uma igreja da época gótica, e afundamos em um abismo; mais alguns passos e chegamos a uma rua da época dos Gründerjahre ... e subimos a montanha do tempo. Quem entra em uma cidade sente-se como em um tecido de sonho, onde um acontecimento de hoje se articula com o mais remoto. Uma casa associa-se a uma outra, não importa de que camada temporal se originam, e assim surge uma rua. E mais adiante, quando esta ma, digamos, da época de Goethe, desemboca em uma outra, por exemplo, da época guilhermina, forma-se o bairro... Os pontos culminantes da cidade são suas praças, onde desembocam não só muitas mas, mas também as correntes de sua história. Mal estas afluem e já são cercadas; as bordas da praça são as margens, de modo que a forma exterior da praça fornece informações sobre a história que nela se passa. . . Coisas que encontram pouca ou nenhuma expressão nos acontecimentos políticos desenrolam-se nas cidades; elas constituem um instrumento muito preciso, apesar de seu peso de pedra, sensível como uma harpa eólica às vivas vibrações históricas do ar.” Ferdinand Lion, Geschichte biologisch gesehen, Zurique-Leipzig, 1935, pp. 125-126, 128 (“Notiz über Städte” “Nota sobre cidades”).
[M 9, 4]
Delvau pretende reconhecer no flanar as camadas sociais da sociedade parisiense com a mesma facilidade que um geólogo identifica as camadas do solo.
[M 9a, 1] 
[...]
“Sair, quando nada nos obriga a fazê-lo, e seguir nossa inspiração como se o simples fato de virar à direita ou à esquerda já constituísse um ato essencialmente poético.” Edmond laloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 4]
“Dickens ... não conseguia viver em Lausanne porque precisava, para compor seus romances, do imenso labirinto das ruas de Londres, por onde rondava sem parar ... Thomas de Quincey... Baudelaire nos diz que ele era ‘uma espécie de peripatético, um filósofo da rua, meditando sem cessar através do turbilhão da cidade grande’.” Edmond Jaloux, “Le dernier flâneur”, Le Temps, 22 maio 1936.
[M 9a, 5]
[...]
“Se Deus imprimiu ... o destino de cada homem em sua fisionomia ... por que a mão não resumiria a fisionomia, uma vez que a mão é a ação humana inteira, e seu único modo de manifestação? Daí a quiromancia... Predizer a um homem os acontecimentos de sua vida pelo aspecto de sua mão não é um fato mais extraordinário ... que dizer a um soldado que ele combaterá, a um advogado que ele discursará, a um sapateiro que ele fará sapatos ou botas, a um agricultor que ele adubará e cultivará a terra. Tomemos um exemplo marcante: o gênio é de tal forma visível no homem que, ao passearem em Paris, até as pessoas mais ignorantes adivinham um grande artista quando passa... A maioria dos observadores da natureza social e parisiense pode dizer a profissão de um transeunte ao vê-lo aproximar-se.’ Honoré de Balzac, Le Cousin Bons, in: Œuvres Complètes, vol. XVIII, Scènes de la Vie Parisienne, VI, Paris, 1914, p. 130.
[M 10, 4]
“Aquilo a que os homens chamam amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma que se entrega por inteiro, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Ed. R. Simon, p. 16 (“Les foules”).
[M 10a, 1]
“Quem entre nós, em seus dias de ambição, já não terá sonhado com o sortilégio de uma prosa poética, musical, sem ritmo e sem rima, bastante maleável e bastante áspera para adaptar-se aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência? / É sobretudo da freqüentação das cidades gigantescas, é do cruzamento de suas inúmeras relações que nasce este ideal obsedante.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, pp. 1-2 (“A Arsène Houssaye”). 
[M 10a, 2]
“Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante que uma janela iluminada por uma candeia.” Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, Paris, Ed. R. Simon, p. 62 (“Les fenêtres”).
[M 10a, 3]
“O artista procura a verdade eterna e ignora a eternidade que existe à sua volta. Admira a coluna do templo babilônico e despreza a chaminé da fábrica. Qual é a diferença de Unhas? Quando tiver terminado a era da energia obtida a partir do carvão, os vestígios das últimas chaminés altas serão admirados como hoje se admiram os destroços das colunas de templos... O vapor, tão amaldiçoado pelos escritores, permite-lhes deslocar sua admiração... Em vez de esperar chegar ao golfo de Bengala para ali procurar um tema empolgante, poderiam desenvolver uma curiosidade em relação ao cotidiano que os toca. Um carregador da Gare de l’Est é tão pitoresco quanto um estivador de Colombo... Sair de sua casa como quem chega de longe; descobrir um mundo que é aquele no qual se vive; começar o dia como quem desembarca de Cingapura, como se nunca tivesse visto o capacho diante de sua porta nem o rosto dos vizinhos de seu andar...; eis o que revela a humanidade presente e até então ignorada.” Pierre Hamp, “La littérature, image de la société’, in: Encyclopédie Française, vol. XVI, Arts et Littératures dans Ia Société Contemporaine, 1, p. 64.
 [M 10a, 4]
[...]
Dickens quando criança: “Quando terminava de trabalhar, não tinha outro recurso senão andar à solta, e então perambulava por meia Londres. Era um menino sonhador, preocupado sobretudo com seu triste destino.... Não se dedicou à observação, como fazem os pedantes; não olhou Charing Cross para se instruir; não contou os lampiões de Holborn para aprender aritmética; mas inconscientemente colocou nesses lugares as cenas do drama torturante que se elaborava em sua pequena alma oprimida. Achava-se na escuridão sob os lampiões de Holborn e sofria o martírio em Charing Cross. Para ele, mais tarde, todos esses bairros tiveram o interesse que só pertence aos campos de batalha.” G. K. Chesterton, Dickens, vol. IX da série Vies des Hommes Illustres, traduzido do inglês por Laurent e Matin-Dupont, Paris, 1927, pp. 30-31. 
[M 11, 2]
[...]
Vem ao caso relacionar o conto policial com o gênio metódico de Poe, como o faz Valéry (Fleurs du Mal, ed. de 1928, introdução de Paul Valéry, p. XX): “Chegar a um ponto do qual se domine o campo inteiro de uma atividade é perceber necessariamente uma quantidade de possibilidades... Assim, não é de se admirar que Poe, de posse de um método tão poderoso..., tenha se tornado o inventor de vários gêneros, tenha dado os primeiros ... exemplos do conto científico, do poema cosmogônico moderno, do romance de investigação policial, da introducão dos estados psicológicos mórbidos na literatura.”
[M 12a, 1] 
Sobre o “Homem da multidão”, esta passagem de um artigo de La Semaine, de 4 de outubro de 1846, atribuído a Balzac ou a Hippolyte Castille (cit. em Messac, Le “Detective Novelet lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 424): “O olhar se fixa nesse homem que caminha na sociedade entre leis, emboscadas e traições de seus cúmplices como um selvagem do Novo Mundo entre répteis, animais ferozes e tribos inimigas.”
[M 12a, 2]
Sobre o “Homem da multidão”: Bulwer acrescenta à sua descrição da multidão da cidade grande em Eugen Aram (parte IV, capítulo 5) a referência a uma observação de Goethe, segundo a qual todo ser humano, do melhor ao mais miserável, carrega consigo um segredo que despertaria o ódio de todos os outros se fosse descoberto. Além disso, encontra-se já em Bulwer o confronto entre cidade e campo, com vantagem para a cidade.
[M 12a, 3]
Sobre o romance policial: “Na fantasia dos americanos acerca do héroi, o carárer do índio representa um papel fundamental... Somente as iniciações indígenas conseguem competir com a agressividade e a crueldade de um rigoroso treinamento americano... Em tudo o que o americano realmente deseja aparece o índio; na extraordinária concentração em um objetivo determinado, na tenacidade da perseguição e na firmeza com a qual suporta as maiores dificuldades manifestam-se plenamente todas as virtudes legendárias do índio.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 207 (“Seele und Erde”  “Alma e terra”).
[M 12a, 4]
Capítulo II, “Physionomie de la me”, in: Argument du Livre sur la Belgique: “Lavagem das fachadas e das calçadas, mesmo quando chove a cântaros. Mania nacional, universal... Nenhuma vitrine nas boutiques. A flânerie, tão cara aos povos dotados de imaginação, é impossível em Bruxelas; nada para se ver, e caminhos impossíveis.” Baudelaire, Œuvres, ed. org. por Y.-G. Le Dantec, vol. II, Paris, 1932, pp. 709-710.
[M 12a, 5]
Le Breton censura Balzac, afirmando que haveria em sua obra “um excesso de moicanos de spencer e iroqueses de redingote”. Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 1]
Extraído das primeiras páginas de Les Mystères de Paris: “Todo mundo leu essas admiráveis páginas nas quais Cooper, o Walter Scott americano, retratou os costumes ferozes dos selvagens, sua língua pitoresca, poética, as mil astúcias com as quais fogem de seus inimigos ou os perseguem... Tentaremos colocar diante dos olhos do leitor alguns episódios da vida de outros bárbaros, tão afastados da civilização quanto as tribos selvagens, tão bem representadas por Cooper.” Cit. em Régis Messac, Le “Detective Novel”, Paris, 1929, p. 425.
[M 13, 2]
Associação memorável entre a flânerie e o romance policial no começo de Les Mohicans de Paris. “Desde o início, Salvator diz ao poeta Jean Robert: ‘Você quer escrever um romance? Pegue Lesage, Walter Scott e Cooper...’ Em seguida, tal como os personagens das Mil e Uma Noites, eles jogam ao vento um fragmento de papel e o seguem, convencidos de que ele os levará a um tema de romance, o que de fato acontece.” Cit. em Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, Paris, 1929, p. 429.
[M 13, 3]
Sobre os epígonos de Sue e de Balzac “que vão pulular no romance de folhetim. A influencia de Cooper se fia z sendr aqui ora diretamente, ora por intermédio de Balzac ou de outros imitadores. Paul Féval, desde 1856, em Les Couteaux dOr, transpõe ousadamente os hábitos e mesmo os habitantes da pradaria para o cenário parisiense: vê-se ali um cão maravilhosamente dotado que se chama Moicano, um duelo de caçadores à americana no subúrbio de Paris, e um pele-vemelha de nome I owah, que mata e escalpa quatro de seus inimigos em plena Paris, num fiacre, tão habilmente que o cocheiro nem mesmo percebe. Um pouco mais tarde, em Les Habits Noirs (1863), ele multiplica as comparações ao gosto de Balzac: *... os selvagens de Cooper em plena Paris! A cidade grande não e por acaso tão misteriosa quanto as florestas do Novo Mundo?’” Em uma observação subseqüente: Cf. também os capítulos II e XIX, onde ele põe em cena dois vagabundos, Echalot e Similor, ‘huronianos de nossos lamaçais, iroqueses da sarjeta’.’ Régis Messac, LeDetective Novel” et lInfluence de la Pensée Scientifique, da série Bibliothèque de la Revue de Littérature Comparée, tomo 59, pp. 425-426.
[M 13, 4]
“A poesia de terror que os estratagemas das tribos inimigas em guerra espalham no seio das florestas da América, e da qual tanto se aproveitou Cooper, ligava-se aos menores detalhes da vida parisiense. Os transeuntes, as boutiques , os fiacres, uma pessoa à janela, tudo isso interessava aos homens a quem era confiada a proteção da vida do velho Peyrade, tão intensamente quanto um tronco de árvore, uma toca de castor, um rochedo, uma pele de búfalo, uma canoa imóvel, uma folha flutuante interessam ao leitor dos romances de Cooper.” Balzac, À Combien lAmour Revient aux Vieillards.13 
[M 13a, 1]
A figura do flâneur prenuncia a do detetive. O flâneur devia procurar uma legitimação social para seu comportamento. Convinha-lhe perfeitamente ver sua indolência apresentada ao aparência, por detrás da qual se esconde de fato a firme atenção de um observador ado implacavelmente o criminoso que de nada suspeita. 
[M 13a, 2] 
[...]
Do velho Victor Hugo, quando morava na Rue Pigalle, relata Jules Clarerie que gostava de passear em Paris nas impériales dos ônibus. Adorava contemplar lá de cima a agitação das ruas. (Cf. Raymond Escholier, Victor Hugo Raconté par Ceux qui lont Vu, Paris, 1931, p. 350  Jules Claretie, “Victor Hugo”.)
[M 13a, 4] 
 
12 Na época em que Paris contava apenas com as doze circunscrições da região central, ou seja, antes da reforma administrativa de 1859, o “décimo-terceiro arrondissement” designava o lugar dos amores ilícitos. (J.L.)

13 Trata-se do título da parte II de Splendeurs et Miséres des Courtisanes; a citação encontra-se em Balzac, Œuvres Complètes, vol XV, Paris, Ed. Conard, 1913, pp. 310-311.
 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

Nenhum comentário: