9.8.26

Petrarca/Il Canzonieri/O Cancioneiro/sai

 
I
Voi chascoltare in riem sparse il suono
Di quei sospiri ondio mudrival core
In sul mio primo giovenile errore,
Quandera in parte altruom da quel chisono
 
Del vario stile in chio piango e ragiono
Fra le vane speranze el van dolore,
Ove sai chi per prova intenda amore,
Spero trovar pietà, non che perdóno.
 
Ma ben veggio or si come al popol tutto
Favola fui gran tempo, onde sovente
Di me medesmo meco mi vergogno;
 
E del mio vaneggiar vergogna èl frutto,
El pentersi, él conoscer chiaramente
Che quanto piace al mondo è breve sogno.

Vós que escutais em rimas espalhado
Desde meu peito o suspirado ardor
E que o nutria ao juvenil error
Quando era mui diverso o meu estado;
 
O incerto estilo por que eu ei variado
Entre a vã esperança e o vão temor,
Se vós houverdes entendido amor
Terá vossa piedade despertado.
 
Vejo que a todos meu amor assim
Quase sempre foi fábula somente.
E agora eu de mim mesmo me envergonho.
 
De minha vida vã vergonha é o fim
E o arrepender-se e o ver mui claramente
Que quanto apraz ao mundo é breve sonho.
XVIII
Madrigal 
Bem vês, Amor, que a tão jovem amada
De ti desdenha e do meu mal não cura,
E é entre dois imigos tão segura.
 
És armado e vem ela desarmada,
E senta-se descalça entre a erva e a rosa,
É-me tão crua e te é tão orgulhosa.
 
Sou preso e sonho que contra a impiedosa
Teu arco uma certeira frecha lança
Para fazer assim nossa vingança. 
L
Talvez suponham que em louvar aquela
Que adoro, eu exagere-lhe o perfil,
Dizendo-a entre as demais, alta e gentil,
Santa, sábia, graciosa, honesta e bela.

Mas eu sinto o contrário; e temo que ela
Despreze o meu louvor por ser tão vil,
Digna de algo mais alto e mais sutil,
E quem não o acredite venha vê-la.

Então dirá: Aquilo a que este aspira
É de estancar Atenas, como Arpino,
Mantua e Smirna e uma e outra lira?³

Língua mortal estado tão divino
Não pudera cantar. Se amor me inspira
Não é por eleição, mas por destino.
LV
Morte, a mais bela face descoraste
E a vista mais fermosa escureceste.
Mais sublimado espírito escolheste
E do corpo mais belo o separaste.
 
Num momento o meu bem todo roubaste,
E o acento mais suave emudeceste.
Quanto eu vejo ou escuto é rudo e agreste,
E cheio de lamentos me deixaste.
 
Oh, torna a consolar tamanha dor,
Clara dama. E a piedade a reconduz
À alma que só por ela vive e espera.

E se como ela fala ou como luz,
Dizer pudesse, acendera eu de amor,
Quanto peito existir de homem ou fera. 
LX
Mia benigna fortuna el viver lieto,
I chiari giorni et le tranquille notti
E i soavi sospiri el dolce stile
Che solea resonare in versi en rime,
Vòlti subitamente in doglia en pianto,
Odiar vita mi fanno, et bramar morte.
Crudel, acerba, inexorabil Morte,
Cagion mi dài di mai non esser lieto,
Ma di menar tutta mia vita in pianto,
E i giorni oscuri et le dogliose notti.
I mei gravi sospir' non vanno in rime,
El mio duro martir vince ogni stile.
Ove è condutto il mio amoroso stile?
A parlar dira, a ragionar di morte.
Usono i versi, uson giunte le rime,
Che gentil cor udia pensoso et lieto;
Ove'l favoleggiar damor le notti?
Or non parlio, né penso, altro che pianto.
Già mi fu col desir sí dolce il pianto,
Che condia di dolcezza ogni agro stile,
Et vegghiar mi facea tutte le notti:
Or mèl pianger amaro piú che morte,
Non sperando mail guardo honesto et lieto,
Alto sogetto a le mie basse rime.
 
[...]

Far mi pò lieto in una on poche notti:
En aspro stile en angosciose rime
prego chel pianto mio finisca Morte.
 
Minha doce fortuna e o viver ledo,
Os claros dias e as tranquilas noites,
O suave suspirar e o doce estilo
Que soia ressoar em verso e rimas,
Mudados são subitamente em pranto,
E assim odeio a vida e anseio a Morte.
 
Cruel, acerba, inexorábil Morte,
Tu não me dás razão de viver ledo,
Mas de levar a minha vida em pranto
E obscuros dias e doridas noites.
Não vai meu suspirar expresso em rimas
E vence meu martírio todo estilo.

Aonde me levou o meu estilo?
A falar de ira, de tristeza e Morte.
Onde esta hora estão versos e rimas
Que gentil coração ouvia ledo?
Onde o amoroso devaneio às noites?
Não penso agora em nada mais que pranto.

Já me foi com o amor tão doce o pranto,
Amor doçura dava ao agro estilo,
Mantendo-me em vigília sempre às noites;
O pranto agora é amaro mais que Morte,
Posto que não espero o olhar tão ledo, 
Tão alto objeto às minhas baixas rimas. 
 
 [...]

Pode fazer-me ledo em poucas noites;
Em duro estilo e em angustiantes rimas
Peço que o pranto meu o acabe a Morte.
 
PETRARCA, Francesco (1304-1374). O Cancioneiro / Il Canzonieri / Francesco Petrarca; tradução, introdução e notas Jamil Almansur Haddad; alguns poemas com reproduções antigas em italiano. — Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. (Clássicos de Bolso)

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