Voi ch’ascoltare in riem sparse il suono
Di quei sospiri ond’io mudriva’l core
In sul mio primo giovenile errore,
Quand’era in parte altr’uom da quel ch’i’sono
Del vario stile in ch’io piango e ragiono
Fra le vane speranze e’l van dolore,
Ove sai chi per prova intenda amore,
Spero trovar pietà, non che perdóno.
Ma ben veggio or si come al popol tutto
Favola fui gran tempo, onde sovente
Di me medesmo meco mi vergogno;
E del mio vaneggiar vergogna è’l frutto,
E’l pentersi, é’l conoscer chiaramente
Che quanto piace al mondo è breve sogno.
Vós que escutais em rimas espalhado
Desde meu peito o suspirado ardor
E que o nutria ao juvenil error
Quando era mui diverso o meu estado;
O incerto estilo por que eu ei variado
Entre a vã esperança e o vão temor,
Se vós houverdes entendido amor
Terá vossa piedade despertado.
Vejo que a todos meu amor assim
Quase sempre foi fábula somente.
E agora eu de mim mesmo me envergonho.
De minha vida vã vergonha é o fim
E o arrepender-se e o ver mui claramente
Que quanto apraz ao mundo é breve sonho.
XVIII
Madrigal
Bem vês, Amor, que a tão jovem amada
De ti desdenha e do meu mal não cura,
E é entre dois imigos tão segura.
És armado e vem ela desarmada,
E senta-se descalça entre a erva e a rosa,
É-me tão crua e te é tão orgulhosa.
Sou preso e sonho que contra a impiedosa
Teu arco uma certeira frecha lança
Para fazer assim nossa vingança.
L
Talvez suponham que em louvar aquela
Que adoro, eu exagere-lhe o perfil,
Dizendo-a entre as demais, alta e gentil,
Santa, sábia, graciosa, honesta e bela.
Mas eu sinto o contrário; e temo que ela
Despreze o meu louvor por ser tão vil,
Digna de algo mais alto e mais sutil,
E quem não o acredite venha vê-la.
Então dirá: Aquilo a que este aspira
É de estancar Atenas, como Arpino,
Mantua e Smirna e uma e outra lira?³
Língua mortal estado tão divino
Não pudera cantar. Se amor me inspira
Não é por eleição, mas por destino.
LV
Morte, a mais bela face descoraste
E a vista mais fermosa escureceste.
Mais sublimado espírito escolheste
E do corpo mais belo o separaste.
Num momento o meu bem todo roubaste,
E o acento mais suave emudeceste.
Quanto eu vejo ou escuto é rudo e agreste,
E cheio de lamentos me deixaste.
Oh, torna a consolar tamanha dor,
Clara dama. E a piedade a reconduz
À alma que só por ela vive e espera.
E se como ela fala ou como luz,
Dizer pudesse, acendera eu de amor,
Quanto peito existir de homem ou fera.
LX
Mia benigna fortuna e’l viver lieto,
I chiari giorni et le tranquille notti
E i soavi sospiri e’l dolce stile
Che solea resonare in versi e’n rime,
Vòlti subitamente in doglia e’n pianto,
Odiar vita mi fanno, et bramar morte.
Crudel, acerba, inexorabil Morte,
Cagion mi dài di mai non esser lieto,
Ma di menar tutta mia vita in pianto,
E i giorni oscuri et le dogliose notti.
I mei gravi sospir' non vanno in rime,
E’l mio duro martir vince ogni stile.
Ove è condutto il mio amoroso stile?
A parlar d’ira, a ragionar di morte.
U’sono i versi, u’son giunte le rime,
Che gentil cor udia pensoso et lieto;
Ove’'l favoleggiar d’amor le notti?
Or non parl’io, né penso, altro che pianto.
Già mi fu col desir sí dolce il pianto,
Che condia di dolcezza ogni agro stile,
Et vegghiar mi facea tutte le notti:
Or m’è’l pianger amaro piú che morte,
Non sperando mai’l guardo honesto et lieto,
Alto sogetto a le mie basse rime.
I chiari giorni et le tranquille notti
E i soavi sospiri e’l dolce stile
Che solea resonare in versi e’n rime,
Vòlti subitamente in doglia e’n pianto,
Odiar vita mi fanno, et bramar morte.
Crudel, acerba, inexorabil Morte,
Cagion mi dài di mai non esser lieto,
Ma di menar tutta mia vita in pianto,
E i giorni oscuri et le dogliose notti.
I mei gravi sospir' non vanno in rime,
E’l mio duro martir vince ogni stile.
Ove è condutto il mio amoroso stile?
A parlar d’ira, a ragionar di morte.
U’sono i versi, u’son giunte le rime,
Che gentil cor udia pensoso et lieto;
Ove’'l favoleggiar d’amor le notti?
Or non parl’io, né penso, altro che pianto.
Già mi fu col desir sí dolce il pianto,
Che condia di dolcezza ogni agro stile,
Et vegghiar mi facea tutte le notti:
Or m’è’l pianger amaro piú che morte,
Non sperando mai’l guardo honesto et lieto,
Alto sogetto a le mie basse rime.
[...]
Far mi pò lieto in una o’n poche notti:
E’n aspro stile e’n angosciose rime
prego che’l pianto mio finisca Morte.
Minha doce fortuna e o viver ledo,
Os claros dias e as tranquilas noites,
Os claros dias e as tranquilas noites,
O suave suspirar e o doce estilo
Que soia ressoar em verso e rimas,
Mudados são subitamente em pranto,
E assim odeio a vida e anseio a Morte.
Cruel, acerba, inexorábil Morte,
Tu não me dás razão de viver ledo,
Tu não me dás razão de viver ledo,
Mas de levar a minha vida em pranto
E obscuros dias e doridas noites.
Não vai meu suspirar expresso em rimas
Não vai meu suspirar expresso em rimas
E vence meu martírio todo estilo.
Aonde me levou o meu estilo?
A falar de ira, de tristeza e Morte.
Onde esta hora estão versos e rimas
Que gentil coração ouvia ledo?
Onde o amoroso devaneio às noites?
Não penso agora em nada mais que pranto.
Já me foi com o amor tão doce o pranto,
Amor doçura dava ao agro estilo,
Mantendo-me em vigília sempre às noites;
O pranto agora é amaro mais que Morte,
Posto que não espero o olhar tão ledo,
Tão alto objeto às minhas baixas rimas.
[...]
Pode fazer-me ledo em poucas noites;
Em duro estilo e em angustiantes rimas
Peço que o pranto meu o acabe a Morte.
Em duro estilo e em angustiantes rimas
Peço que o pranto meu o acabe a Morte.
PETRARCA,
Francesco (1304-1374). O Cancioneiro / Il Canzonieri / Francesco
Petrarca; tradução, introdução e notas Jamil Almansur Haddad; alguns
poemas com reproduções antigas em italiano. — Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. (Clássicos de Bolso)

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