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II. O Método Historiográfico:
a Terminologia de Benjamin e a dos Historiadores
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[...] “A chance [do fascismo]”, escreve Benjamin, “consiste, não por último, em que seus adversários o afrontem em nome do progresso, como se este fosse uma norma histórica. — O espanto em constatar que os acontecimentos que vivemos sejam ‘ainda’ possíveis no século XX, não é nenhum espanto filosófico” (GS I, 697; Teses, p. 83, trad. modificada).
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A “planta primeva” é para Goethe, por um lado, uma “imagem primeva” (Urbild) ideal de todas as plantas, portanto a-histórica, por outro, “a idéia da planta primeva corresponde à folha e a idéia transformada em movimento é a metamorfose das plantas”.16 E essa idéia de metamorfose e “passagem” que é adotada por Benjamin. No Urphãnomen goetheano, ele enxerta o seu conceito de Ursprung, carregado com o elemento de “extinção”, ou seja, com a marca da mortalidade, própria do ser histórico.17
16 Jost Schieren, Anschauende Urteilskraft: Methodische und philosophische Grundlagen von Goethes naturwissenschaftlichem Erkennen, Düsseldorf-Bonn, Parerga, 1998, p. 187 apud Magali dos Santos Moura, “A Poiesis Orgânica de Goethe”, tese de doutorado, FFLCH-ÜSP, 2006, p. 163.
17 Ursprung, Urphänomen, Urpflanze, Urbild, Urgeschichte — em sua obra sobre a Grande Cidade contemporânea, Benjamin reúne uma sugestiva constelação de termos com a partícula silábica “ur”. Muito a propósito vem o artigo de Guilherme Wisnik “Ur, de Urbano” (Folha de S.Paulo, 1 maio 2006, p. E 2) que chama a atenção para a “associação do ‘ur’ germânico ao ‘Ur’ mesopotâmico” e focaliza “a semelhança dos nomes Ur e Uruk, que designam as primeiras cidades de que se tem notícia, construídas na Mesopotâmia por volta de 3.200 a.C., com o radical da nossa palavra ‘urbano’, do latim ‘urbe’”.
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O despertar, como “síntese da tese da consciência onírica e da antítese da consciência de vigília” [N 3a, 3], ou como “o agora da cognoscibilidade” [N 18, 4], é um atributo daquilo que constitui o termo mais original da historiografia benjaminiana: a “imagem dialética”, “É uma imagem que lampeja. É assim, como uma imagem que lampeja no agora da cognoscibilidade, que deve ser captado o ocorrido. A salvação que se realiza deste modo [...] não pode se realizar senão naquilo que estará irremediavelmente perdido no instante seguinte.” [N 9,7] O que Benjamin chama de “dialética na imobilidade” [N 3, 1] é a fixação vertical, momentânea e fugaz da superposição entre o agora e o ocorrido. Esse conhecimento em forma de lampejo é o exato oposto do historicismo que se acomoda no postulado de que “A verdade não nos escapará” (GS I, 695; Teses, p. 62).
Do alto grau de exigência e da dificuldade de escrever a história por meio de “imagens históricas autênticas”, nos dá uma idéia este testemunho de Benjamin numa carta (de 9/10/1935) a Gretei Adorno. Referindo-se ao ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, que acabou de concluir, ele escreve: “Com isso, realizei em um exemplo decisivo a minha teoria do conhecimento, que se cristaliza em torno do conceito [...] do ‘agora da cognoscibilidade’. Encontrei aquele aspecto da arte do século XIX que é cognoscível só ‘agora’, que não o foi nunca antes e nunca o será depois. (GS V, 1 148) — Esse desafio se coloca também para as nossas leituras dos textos de Benjamin.
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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