25.6.25

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua


I
[0 Intérieur, o Rastro]
“Em 1830, o Romantismo triunfava na literatura. Invadiu a arquitetura e exibiu na fachada das casas um gótico de fantasia, exibição muitas vezes moldada em gesso. Impôs-se à ebanisteria. ‘De repente’, diz o relator da exposição de 1834, ‘surge um entusiasmo pelo mobiliário de formas estranhas: foram copiadas dos velhos castelos, dos antigos guarda- móveis e dos depósitos de móveis usados, a fim de decorar salões, modernos quanto a todo o resto...’ Os fabricantes seguiam essa inspiração e eram pródigos em utilizar em seus móveis ‘ogivas e balestreiros’: viam-se camas e armários guarnecidos de ameias, como fortalezas do século XIII.” E. Levasseur, Histoire des Classes Ouvrières et de L’Industrie en France de 1780 à 1870, Paris, 1904, vol. II, pp. 206-207.
[I 1, 1]
Em Behne, esta boa observação a propósito de um armário medieval: “O mobiliário desenvolveu-se muito claramente a partir do imobiliário.” Além disso, o armário é comparado a uma “fortificação medieval. Da mesma forma em que nesta um diminuto compartimento habitável é circundado por muros, valas e fossos, que se ampliam em anéis cada vez mais largos ao seu redor, como uma poderosa obra exterior, também aqui o conteúdo de gavetas e prateleiras está comprimido sob uma forte obra exterior.” Adolf Behne, Neues Wohnen, Neues Bauen, Leipzig, 1927, pp. 59, 61-62.
[I 1, 2 ]
[...]
O confronto com o mobiliário em Poe. Luta pelo despertar do sonho coletivo.
[I 1, 4]
[...]
Hessel fala da “época sonhadora do mau gosto”. Sim, esta época estava decorada para o sonho, estava mobiliada de sonho. A alternância de estilos - gótico, persa, renascença etc. - significava: ao intérieur da sala de jantar burguesa sobrepunha-se uma sala de banquetes de César Bórgia, do boudoir da dona da casa emerge uma capela gótica, o escritório do dono da casa transmuda-se de forma irisante no aposento de um sheik persa. A fotomontagem que fixa tais imagens para nós corresponde à forma de intuição mais primitiva destas gerações. Apenas gradualmente as imagens sob as quais elas viviam desligaram-se e depuseram-se em anúncios, etiquetas, cartazes, como as figuras da publicidade.
[I 1, 6]
[...] 
“Vimos o que nunca acontecera antes: o casamento de estilos que podíamos pensar que jamais ‘se casariam’: chapéus do Primeiro Império ou da Restauração com jaquetas Luís XV; vestidos no estilo Diretório com botas de salto alto - melhor ainda, redingotes de cintura baixa enfiados sobre vestidos de cintura alta.” John Grand-Carteret, Les Elégances de la Toilette, Paris, p. XVI.
[I 1a, 1]
Nome de diferentes tipos de vagões de trem dos primórdios da estrada de ferro: berlindas (fechadas ou abertas), diligências, vagões decorados, vagões não decorados. ■ Construção em ferro ■
[1 1a, 2]
[...]
Sobre o intérieur sonhador, se possível, oriental: “Todos aqui sonham com a felicidade repentina, todos querem obter de uma só vez tudo aquilo que se conquistaria, em tempos de paz e de trabalho, com o esforço de toda uma vida. As invenções dos poetas estão cheias de súbitas metamorfoses de existências domésticas; todos vibram por marquesas, princesas, pelos milagres das mil e uma noites. Há uma embriaguez de ópio que acometeu o povo inteiro. A indústria fez mais estragos nesse sentido do que a poesia. A indústria produziu o logro das ações da Bolsa, a exploração de todas as coisas que se queira transformar em necessidades artificiais, e os ... dividendos.” Gutzkow, Briefe aus Paris, Leipzig, 1842, vol. I, p. 93.
[I 1a, 5]
[...] 
O caráter de fortificação permanece tanto nos móveis quanto nas cidades sob a burguesia: “A cidade fortificada foi até aqui o empecilho que sempre paralisou o urbanismo.” Le Corbusier, Urbanisme, Paris, 1925, p. 249.
[I 1a, 8]
[...]
O intérieur do século XIX. O espaço se disfarça, assumindo a roupagem dos estados de ânimo como um ser sedutor. O pequeno-burguês satisfeito consigo mesmo deve experimentar algo da sensação de que no aposento ao lado pudessem ter ocorrido tanto a coroação do imperador Carlos Magno como o assassinato de Henrique IV, a assinatura do Tratado de Verdun ou o casamento de Otto e de Teófano. Ao final, as coisas são apenas manequins, e mesmo os grandes momentos da história universal são apenas roupagens sob as quais elas trocam olhares de conivência com o nada, com o trivial e o banal. Semelhante niilismo é o cerne do aconchego burguês; um estado de espírito que se condensa na embriaguez do haxixe em satisfações satânicas, em saber satânico, em quietude satanica, mas que assim revela como o intérieur dessa época é, ele mesmo, um estimulante da embriaguez e do sonho. Aliás, este estado de espírito implica uma aversão contra o espaço aberto, por assim dizer, uraniano, que lança uma nova luz sobre a extravagante arte decorativa dos espaços interiores da época. Viver dentro deles era como ter se enredado numa teia de aranha espessa, urdida por nós mesmos, na qual os acontecimentos do mundo ficam suspensos, esparsos, como corpos de insetos ressecados. Esta é a toca que não queremos abandonar.
[I 2, 6]
[...] 
“As golas pontudas e os enchimentos nas mangas ... que se imaginava erroneamente ser o traje das antigas damas medievais.” Jacob Falke, Geschichte des modernen Geschmacks, Leipzig, 1866, p. 347.
[I 2a, 2]
[...]
“Como uma odalisca em um divã de bronze reluzente, a orgulhosa cidade alonga-se pelas tépidas colinas do vale sinuoso do Sena, cobertas de vinhedos.” Friedrich Engels, “Von Paris nach Bem”, Die Neue Zeit, XVII, n° 1, Stuttgart, 1899, p. 10.
[I 4, 3]
[...] 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

Bertolt Brecht/Poemas 1913-1956/Paulo César de Souza/continua

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poemas 1913-1956 / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); seleção, tradução e comentário de Paulo César de Souza; texto de 2a e 3a capa Willi Bolle. –  São Paulo: Editora 34, 2012.

1933-1938

ELOGIO DO ESQUECIMENTO

Bom é esquecimento!
Senão como se afastaria o filho

Da mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros

E o impede de experimentá-la.

Ou como deixaria o aluno
O professor que lhe deu o saber?

Quando o saber está dado
O aluno tem que se pôr a caminho.

Para a velha casa
Mudam-se os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá vivessem

A casa seria pequena demais.

O forno esquenta. Já não se sabe
Quem foi o oleiro. O plantador
Não reconhece o pão.

Como se levantaria pela manhã o homem
Sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?

Como se ergueria pela sétima vez
Aquele derrubado seis vezes
Para lavrar o chão pedroso, voar
O céu perigoso?

A fraqueza da memória
Dá força ao homem.

Dos Poemas de Svendborg

No abrigo desse teto de palha dinamarquês, amigos
Eu sigo sua luta. Mando-lhes aqui
Como vez e outra no passado, estes versos despertados
Por visões sangrentas, vindas sobre o mar e através da folhagem.
O que lhes chegar, usem com cautela.

Livros envelhecidos, fragmentos de relatos
São minhas fontes Vendo-nos novamente
Com prazer quero voltar a aprender.

Svendborg, 1939

CARTILHA DE GUERRA ALEMÃ

O PINTOR FALA DA GRANDE ÉPOCA POR VIR
As florestas ainda crescem.
Os campos ainda produzem.
As cidades ainda existem.

Os homens ainda respiram.

QUANDO O PINTOR FALA SOBRE A PAZ
ATRAVÉS DOS ALTO-FALANTES
Os trabalhadores de construção olham para

As autoestradas e veem
Cimento profundo, próprio
Para tanques pesados.

O pintor fala de paz.
Aprumando as costas doloridas
As mãos grossas em cubos de canhões

Os fundidores o escutam.

Os pilotos dos bombardeiros
Desaceleram os motores e ouvem
O pintor falar de paz.

Os madeireiros param no silêncio dos bosques
Os camponeses deixam de lado o arado e colocam a mão atrás do ouvido
As mulheres que levam a comida para o campo se detêm:
No terreno revolvido há um carro com amplificador. De lá se ouve

O pintor pedir paz.

OS DE CIMA DIZEM: GUERRA E PAZ
São de substância diferente.
Mas a sua guerra e a sua paz
São como tempestade e vento.

A guerra nasce da sua paz
Como a criança da mãe
Ela tem
Os mesmos traços terríveis.

A sua guerra mata
O que sua paz
Deixou de resto.

NO MURO ESTAVA ESCRITO COM GIZ:
Eles querem a guerra.
Quem escreveu
Já caiu.

OS DE CIMA
Juntaram-se em uma reunião.

Homem da rua
Deixa de esperança.

Os governos
Assinaram pactos de não agressão.

Homem da rua
Assina teu testamento. 

QUANDO OS DE CIMA FALAM DE PAZ
A
 gente pequena
Sabe que haverá guerra.

Quando os de cima amaldiçoam a guerra
As ordens de alistamento já estão preenchidas.

A GUERRA QUE VIRÁ
Não é a primeira. Antes dela
Houve outras guerras.
Quando a última terminou
Havia vencedores e vencidos.
Entre os vencidos o povo miúdo
Sofria fome. Entre os vencedores
Sofria fome o povo miúdo.

OS DE CIMA DIZEM QUE NO EXÉRCITO
Reina fraternidade.
A verdade disso se percebe
Na cozinha.

Nos corações deve haver
O mesmo ânimo.
Mas nos pratos
Há dois tipos de comida.

NO MOMENTO DE MARCHAR, MUITOS NÃO SABEM
Que seu inimigo marcha à sua frente.

A
 voz que comanda
É a voz de seu inimigo.
Aquele que fala do inimigo
É ele mesmo o inimigo. 

GENERAL, TEU TANQUE É UM CARRO PODEROSO
Ele derruba uma floresta e esmaga cem homens.
Mas tem um defeito:
Precisa de um motorista.

General, teu bombardeiro é poderoso.
Ele voa mais veloz que um vendaval e carrega mais carga que um elefante.

Mas tem um defeito:
Precisa de um engenheiro.

General, o homem é muito útil.
Ele pode voar e pode matar.
Mas tem um defeito:
Pode pensar.

QUANDO A GUERRA COMEÇAR
Seus irmãos se transformarão talvez
De modo que seus rostos não serão reconhecíveis.

Mas vocês devem permanecer os mesmos.

Eles irão à guerra, mas
Não como uma matança, e sim

Como a um trabalho sério. Tudo
Terão esquecido. Mas vocês
Nada deverão Ter esquecido.

Vocês receberão aguardente na garganta
Como todos os outros.
Mas deverão permanecer sóbrios.

23.6.25

Bertolt Brecht/Poemas 1913-1956/Paulo César de Souza/continua

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poemas 1913-1956 / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); seleção, tradução e comentário de Paulo César de Souza; texto de 2a e 3a capa Willi Bolle. –  São Paulo: Editora 34, 2012.

1933-1938

DE QUE SERVE A BONDADE

1

De que serve a bondade
se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados
Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade
Se os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?

2

Em vez de serem apenas bons, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade
Ou melhor: que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que liberte a todos

E também o amor à liberdade
Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se
Para criar um estado de coisas que torne a desrazão de um indivíduo
Um mau negócio! 

O PASSAGEIRO

Quando, há alguns anos
Aprendi a dirigir um carro, meu instrutor
Me fazia fumar um charuto; e quando
Na confusão do tráfego ou em curvas difíceis

O charuto apagava, ele me tirava o volante.
Também contava piadas, e se eu não sorria
Muito ocupado com a direção, afastava-me
Do volante. Eu estava inseguro, dizia ele.
Eu, o passageiro, me apavoro quando vejo
O motorista muito ocupado com a direção.

Desde então, ao trabalhar
Cuido para não ficar absorvido demais no trabalho.

Dou atenção a muitas coisas em volta
Às vezes interrompo o trabalho para ter uma conversa.

Andar mais rápido do que o que me permite fumar
É algo que já não faço. Penso
No passageiro. 

O CHANCELER ABSTÊMIO

Eu soube que o Chanceler não bebe
Não come carne e não fuma
E mora em uma casa pequena.
Mas também soube que os pobres

Passam fome e morrem na miséria.
Bem melhor seria um Estado em que se dissesse:
O Chanceler está sempre bêbado nas reuniões
Observando a fumaça de seus cachimbos
Alguns iletrados mudam as leis

Pobres não há. 

SOBRE A ESTERILIDADE

A árvore que não dá frutos
É xingada de estéril. Quem
Examina o solo? 

O galho que quebra
É xingado de podre, mas

Não havia neve sobre ele? 

COMEÇO DA GUERRA

Quando a Alemanha estiver armada até os dentes
Uma grande injustiça lhe acontecerá
E o tocador de tambor fará sua guerra.

Vocês, porém, defenderão a Alemanha
Em terras estranhas, de vocês desconhecidas

E lutarão contra homens seus iguais.

O tocador de tambor soltará disparates sobre liberdade
Mas a opressão no país será sem igual.

E ele poderá vencer todas as batalhas
Exceto a última.

Quando o tocador de tambor perder sua guerra
A Alemanha ganhará a sua. 

ABLUÇÃO

a C.N.

Quando há alguns anos lhe mostrei
Como se lavar de manhã cedo
Com pedacinhos de gelo na água
Da pequena tigela de cobre

Submergindo o rosto, os olhos abertos
Lendo as linhas difíceis de seu papel
Na folha presa à parede, eu disse:
Isto você faz para você mesma, faça
De modo exemplar.

Agora me dizem que você deve estar na prisão.
As cartas que lhe escrevi
Ficaram sem resposta. Os amigos aos quais falei de você

Silenciam. Nada posso fazer por você. Como será
Sua manhã? Ainda fará algo para você?
Esperançosa e responsável
Com movimentos certos
De modo exemplar?

SOBRE OS POEMAS DE DANTE A BEATRIZ

Ainda hoje, na cripta onde jaz
Aquela que ele não pôde fazer sua
Por mais que a seguisse pela rua
Uma emoção forte seu nome nos traz.

Pois ele cuidou de nos mantê-la na memória
Ao dedicar-lhe verso tão sublime
E não pode haver quem não se anime
A acreditar inteira em sua história.

Ah, que mau costume ele inaugurou então
Ao cobrir de louvor arrebatado
O que havia apenas visto e não provado!

Desde que versejou a uma simples visão
Tudo de aparência bela e casta, a qualquer ensejo

Cruzando uma praça, tornou-se objeto de desejo. 

POEMAS CHINESES

A GRANDE COBERTA

O governador, perguntado por mim sobre o que seria necessário
Para socorrer os que têm frio em nossa cidade
Respondeu: Uma coberta, comprida de dez mil pés
Que cubra simplesmente todo o subúrbio.

Po Chu-yi (772-846)

UM PROTESTO NO SEXTO ANO DE CHIEN FU

Os rios e morros da planície
Transformais em vosso campo de batalha.
Como, pensais, o povo que aqui vive
Poderá se abastecer de “madeira e feno”?
Poupai-me por favor vosso palavreado
De nomeações e títulos.
A reputação de um único general

Significa: dez mil cadáveres.

Ts’ao Sung (870-920)

22.6.25

beethoven/op 59/n 3/Quator Hongrois/continua/

BEETHOVEN, Ludwig van. Complete String Quartets and Grosse Fuge. Ludwig van Beethoven. From The Breitkopf & Härtel Complete Works Edition. Is an unabridged republication of Serie 6 (Volumes 1 and 2): Quartette für 2 Violinen, Bratsche und Violoncell of Ludwig van Beethoven’s Werke. Vollständige kritisch durchgesehene überall beerechtigte Ausgabe. Mit Genehmigung aller Originalverleger, original published by Breitkopf & Härtel, Leipizig, n.d. [1863] Quartet No9 in C Major, Op.59, No3. New York: Dover Publications, INC, 1970.







 
 

BEETHOVEN, Ludwig van. Quator à cordes en ut majeur, Op59 No3 “Razoumovsky”. Ludwig van Beethoven. Quator Hongrois. France: EMI, 1966.

21.6.25

beethoven/op 59/n 2/Quator Hongrois/continua/

BEETHOVEN, Ludwig van. Complete String Quartets and Grosse Fuge. Ludwig van Beethoven. From The Breitkopf & Härtel Complete Works Edition. Is an unabridged republication of Serie 6 (Volumes 1 and 2): Quartette für 2 Violinen, Bratsche und Violoncell of Ludwig van Beethoven’s Werke. Vollständige kritisch durchgesehene überall beerechtigte Ausgabe. Mit Genehmigung aller Originalverleger, original published by Breitkopf & Härtel, Leipizig, n.d. [1863] Quartet No8 in E Minor, Op.59, No2. New York: Dover Publications, INC, 1970.




 


 

 

BEETHOVEN, Ludwig van. Quator à cordes en mi mineur, Op59 No2 “Razoumovsky”. Ludwig van Beethoven. Quator Hongrois. France: EMI, 1966.

20.6.25

Bertolt Brecht/Poemas 1913-1956/Paulo César de Souza/continua

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poemas 1913-1956 / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); seleção, tradução e comentário de Paulo César de Souza; texto de 2a e 3a capa Willi Bolle. –  São Paulo: Editora 34, 2012.

1933-1938

A EMIGRAÇÃO DOS POETAS

Homero não tinha morada
E Dante teve que deixar a sua.
Li-Po e Tu-Fu andaram por guerras civis
Que tragaram 30 milhões de pessoas
Eurípides foi ameaçado com processos
E Shakespeare, moribundo, foi impedido de falar.

Não apenas a Musa, também a polícia
Visitou François Villon.
Conhecido como 
“o Amado”
 Lucrécio foi para o exílio
Também Heine, e assim também
Brecht, que buscou refúgio
Sob o teto de palha dinamarquês.

O QUE CORROMPE

Nos primeiros meses do domínio nacional-socialista
Um trabalhador de uma pequena localidade na fronteira tcheca
Foi condenado à prisão por distribuir panfletos comunistas
Como um de seus cinco filhos havia já morrido de fome

Não agradava ao juiz enviá-lo para a cadeia por muito tempo.
Perguntou-lhe então se ele não estava talvez

Apenas corrompido pela propaganda comunista.
Não sei o que o senhor que dizer, disse ele, mas meu filho
Foi corrompido pela fome.

O VIZINHO

Eu sou o vizinho. Eu o denunciei.
Não queremos ter aqui
Nenhum agitador.

Quando penduramos a bandeira com a suástica
Ele não pendurou nenhuma bandeira.
Quando lhe falamos sobre isso
Ele nos perguntou se no cômodo

Onde vivemos com quatro crianças
Ainda há lugar para um mastro de bandeira.
Quando dissemos que acreditamos novamente no futuro

Ele riu.

Nós não gostamos quando o espancaram
Na escada. Rasgam-lhe o avental.
Não era necessário. Temos poucos aventais.

Mas agora ele se foi, há sossego no edifício
Já temos preocupações demais
É preciso ao menos haver sossego.

Notamos que algumas pessoas
Viram o rosto quando cruzam conosco. Mas

Os que o levaram dizem
Que agimos corretamente.

19.6.25

Bertolt Brecht/Poemas 1913-1956/Paulo César de Souza/continua

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poemas 1913-1956 / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); seleção, tradução e comentário de Paulo César de Souza; texto de 2a e 3a capa Willi Bolle. –  São Paulo: Editora 34, 2012.

1926-1933

AO CAMARADA DIMITROFF, QUANDO LUTOU DIANTE DO TRIBUNAL FASCISTA EM LEIPZIG

Camarada Dimitroff?

Desde o dia em que lutas diante do tribunal fascista
A voz do comunismo, cercada pelos bandos de matadores e bandidos da SA
Através do ruído dos chicotes e cassetetes
Fala bem alto e nítido
No centro da Alemanha.

Voz que pode ser ouvida em todas as nações da Europa
Que através das fronteiras ouvem o que vem
Do escuro, elas mesmas no escuro
Mas também pode ser ouvida

Por todos os explorados e espancados e
Incorrigíveis lutadores
Na Alemanha.
Com avareza utilizas, camarada Dimitroff, cada minuto
Que te é dado, e o pequeno lugar que

Ainda é público, utiliza-o
Para nós todos.

Mal dominando a língua que não é a tua
Sempre advertido aos gritos
Várias vezes arrastado para fora

Enfraquecido com as algemas
Fazes repetidamente as perguntas temidas

Incrimina os criminosos e
Leva-os a gritar e a te arrastar e assim

Confessar que não têm razão, apenas força
E que podem te matar, mas nunca te vencer.

Pois, assim como tu, resistem a essa força
Embora não tão visíveis
Milhares de combatentes, mesmo os

Ensanguentados em suas celas
Que podem ser abatidos
Mas nunca vencido.
Assim como tu, suspeitos de combater a fome

Acusados de revolta contra exploradores
Incriminados por lutar contra a opressão
Convictos
Da causa mais justa. 

ELOGIO DO APRENDIZADO

Aprenda o mais simples! Para aqueles
Cuja hora chegou
Nunca é tarde demais!
Aprenda o ABC; não basta, mas

Aprenda! Não desanime!
Comece! É preciso saber tudo!
Você tem que assumir o comando!

Aprenda, homem no asilo!
Aprenda, homem na prisão!
Aprenda, mulher na cozinha!
Aprenda, ancião!
Você tem que assumir o comando!
Freqüente a escola, você que não tem casa!

Adquira conhecimento, você que sente frio!
Você que tem fome, agarre o livro: é uma arma.
Você tem que assumir o comando.

Não se envergonhe de perguntar, camarada!
Não se deixe convencer
Veja com seus olhos!
O que não sabe por conta própria

Não sabe.
Verifique a conta
É você que vai pagar.
Ponha o dedo sobre cada item

Pergunte: O que é isso?
Você tem que assumir o comando.

ELOGIO DO PARTIDO

O indivíduo tem dois olhos
O Partido tem mil olhos.
O Partido vê sete Estados
O indivíduo vê uma cidade.
O indivíduo tem sua hora
Mas o Partido tem muitas horas.
O indivíduo pode ser liquidado
Mas o Partido não pode ser liquidado.

Pois ele é a vanguarda das massas
E conduz a sua luta
Com os métodos dos Clássicos, forjados a partir

Do conhecimento da realidade. 

MAS QUEM É O PARTIDO?

Mas quem é o partido?
Ele fica sentado em uma casa com telefones?

Seus pensamentos são secretos, suas decisões desconhecidas?
Quem é ele?

Nós somos ele.
Você, eu, vocês – nós todos.
Ele veste sua roupa, camarada, e pensa com a sua cabeça

Onde moro é a casa dele, e quando você é atacado ele luta.

Mostre-nos o caminho que devemos seguir, e nós
O seguiremos como você, mas
Não siga sem nós o caminho correto
Ele é sem nós

O mais errado.
Não se afaste de nós!
Podemos errar, e você pode ter razão, portanto

Não se afaste de nós!

Que o caminho curto é melhor que o longo, ninguém nega
Mas quando alguém o conhece
E não é capaz de mostrá-lo a nós, de que nos serve sua sabedoria?

Seja sábio conosco!
Não se afaste de nós!

ALEMANHA 

Que outros falem de sua vergonha,
eu falo da minha

Ó Alemanha, pálida mãe!
Como apareces manchada
Entre as nações.
Entre os imundos

Te destacas.

De teus filhos o mais pobre
Jaz abatido.
Quando sua fome era grande

Teus outros filhos

Ergueram a mão contra ele.
Isto ficou notório.

Com as mãos assim erguidas
Erguidas contra seu irmão
Passeiam insolentes à tua volta
E riem na tua cara.
Isto é sabido.

 

Em tua casa
Grita-se alto a mentira

Mas a verdade
Tem que calar.
Então é assim?

Por que te louvam os opressores em roda, mas
Os oprimidos te acusam?
Os explorados
Te apontam com o dedo, mas

Os exploradores elogiam o sistema
Engenhado em tua casa!

E nisso te vêem todos
Esconderes a barra do vestido, ensanguentada

Do sangue do teu
Melhor filho.

Ouvindo as falas que vêm da tua casa, rimos.
Mas quem te vê, corre a pegar a faca
Como à vista de um facínora.

Ó Alemanha, pálida mãe!
Como te trataram teus filhos
Que assim apareces entre os povos

Um escárnio e um pavor!

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

G

[O Colecionador]

[...]

É decisivo na arte de colecionar que o objeto seja desligado de todas as suas funções primitivas, a fim de travar a relação mais íntima que se pode imaginar com aquilo que lhe é semelhante. Esta relação é diametralmente oposta à utilidade e situa-se sob a categoria singular da completude. O que é esta “completude” <?> É uma grandiosa tentativa de superar o caráter totalmente irracional de sua mera existência através da integração em um sistema histórico novo, criado especialmente para este fim: a coleção. E para o verdadeiro colecionador, cada uma das coisas torna-se neste sistema uma enciclopédia de toda a ciência da época, da paisagem, da indústria, do proprietário do qual provém. O mais profundo encantamento do colecionador consiste em inscrever a coisa particular em um círculo mágico no qual ela se imobiliza, enquanto a percorre um último estremecimento (o estremecimento de ser adquirida). Tudo o que é lembrado, pensado, consciente torna-se suporte, pedestal, moldura, fecho de sua posse. Não se deve pensar que o tópos hyperouranios, que, segundo Platão,7 abriga as imagens primevas e imutáveis das coisas, seja estranho para o colecionador. Ele se perde, certamente. Mas possui a força de erguer-se novamente apoiando-se em uma tábua de salvação, e a peça recém-adquirida emerge como uma ilha no mar de névoas que envolve seus sentidos. — Colecionar é uma forma de recordação prática e de todas as manifestações profanas da “proximidade”, a mais resumida. Portanto, o ato mais diminuto de reflexão política faz, de certa maneira, época no comércio antiquário. Construímos aqui um despertador, que sacode o kitsch do século anterior, chamando-o à “reunião”.8

[H 1a, 2]

[...] 

É preciso reexaminar as Fleurs du Mal para ver como as coisas são elevadas à condição de alegoria. Deve ser observado o emprego de letras maiúsculas.

[H 1a, 4]

Ao final de Matière et Mémoire, Bergson desenvolve a idéia de que a percepção é uma função do tempo.9 Poder-se-ia dizer que, se vivêssemos segundo um outro ritmo — mais serenos diante de certas coisas, mais rápidos diante de outras não existiria para nós nada “duradouro”, mas tudo se desenrolaria diante de nossos olhos, tudo viria de encontro a nós. Ora, é exatamente isso que se passa com o grande colecionador em relação às coisas. Elas vão de encontro a ele. Como ele as persegue e as encontra, e que tipo de modificação é provocada no conjunto das peças por uma nova peça que se acrescenta, tudo isto lhe mostra suas coisas em um fluxo contínuo. Aqui se observam as passagens parisienses como se fossem possessões na mão de um colecionador. (No fundo, pode-se dizer, o colecionador vive um pedaço de vida onírica. Pois também no sonho o ritmo da percepção e da experiência modificou-se de tal maneira que tudo - mesmo o que é aparentemente mais neutro - vai de encontro a nós, nos concerne. Para compreender as passagens a fundo, nós as imergimos na camada mais profunda do sonho, falamos delas como se tivessem vindo de encontro a nós.)

[H 1a, 5]

“A compreensão da alegoria assume para vocês proporções que vocês mesmos ignoram; notaremos, en passant, que a alegoria, esse gênero tão espiritual, que os pintores canhestros nos acostumaram a desprezar, mas que é verdadeiramente uma das formas primitivas e mais naturais da poesia, retoma sua legitima dominação na inteligência iluminada pela embriaguez.” Charles Baudelaire, Les Paradis Artificieis, Paris, 1917, p. 73. (Do que se segue resulta indubitavelmente que Baudelaire de fato tem em mente a alegoria, não o símbolo. O trecho foi extraído do capitulo sobre o haxixe.) O colecionador como alegorista. ■ Haxixe ■

[H 2, 1]

[...]

Pode-se partir do fato de que o verdadeiro colecionador retira o objeto de suas relações funcionais. Esse olhar, porém, não explica a fundo esse comportamento singular. Pois não é esta a base sobre a qual se constrói uma contemplação “desinteressada” no sentido de Kant e de Schopenhauer, de tal modo que o colecionador consegue lançar um olhar incomparável sobre o objeto, um olhar que vê mais e enxerga diferentes coisas do que o olhar do proprietário profano, e o qual deveria ser melhor comparado ao olhar de um grande fisiognomonista. Entretanto, o modo como este olhar se depara com o objeto deve ser presentificado de maneira ainda mais aguda através de uma outra consideração. Pois é preciso saber: para o colecionador, o mundo está presente em cada um de seus objetos e, ademais, de modo organizado. Organizado, porém, segundo um arranjo surpreendente, incompreensível para uma mente profana. Este arranjo está para o ordenamento e a esquematização comum das coisas mais ou menos como a ordem num dicionário está para uma ordem natural. Basta que nos lembremos quão importante é para cada colecionador não só o seu objeto, mas também todo o passado deste, tanto aquele que faz parte de sua gênese e qualificação objetiva, quanto os detalhes de sua história aparentemente exterior: proprietários anteriores, preço de aquisição, valor etc. Tudo isso, os dados “objetivos”, assim como os outros, forma para o autêntico colecionador em relação a cada uma de suas possessões uma completa enciclopédia mágica, uma ordem do mundo, cujo esboço é o destino de seu objeto. Aqui, portanto, neste âmbito estreito, é possível compreender como os grandes fisiognomonistas11 (e colecionadores são fisiognomonistas do mundo das coisas) tornam-se intérpretes do destino. Basta que acompanhemos um colecionador que manuseia os objetos de sua vitrine. Mal segura-os nas mãos, parece estar inspirado por eles, parece olhar através deles para o longe, como um mago. (Seria interessante estudar o colecionador de livros como o único que não necessariamente desvinculou seus tesouros de seu contexto funcional.)

[H 2, 7; H 2a, 1]

[...]

<fase média> 

[...]

O tipo positivo oposto ao colecionado, que, ao mesmo tempo, representa seu aperfeiçoamento à medida que realiza a libertação das coisas da servidão de serem úteis, deve ser apresentado segundo esta formulação de Marx: “A propriedade privada, tornou-nos tão tolos e inertes que um objeto é nosso apenas quando o possuímos, portanto, quando existe para nós como capital ou quando é ... utilizado por nós.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed.org. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1923, vol.1, p.299 (“Nationalökonomie und Philosophie”).

[H 3a, 1J

“O lugar de todos os sentidos físicos e espirituais ... foi tomado pela simples alienação de todos estes sentidos do ter ... (Sobre a categoria do ter, ver Hess em “21 Bogen” (21 Folhas).) Karl Marx, Der historische Materialismus, Leipzig, vol. I, p. 300 (“Nationalõkonomie und Philosophie”).

[H 3a, 2]

“Praticamente, só posso ter um comportamento humano em relação à coisa quando a coisa tem um comportamento humano em relação ao homem.” Karl Marx, Der historische Materialismus, Leipzig, I, p. 300 (“Nationalökonomie und Philosophie”).

[H 3a, 3]

[...]

Trechos de Marx, extraídos de “Nationalökonomie und Philosophie”: “A propriedade privada tornou-nos tão tolos e inertes que um objeto é nosso apenas quando o possuímos.” “O lugar de todos os sentidos físicos e espirituais ... foi tomado pela simples alienação de todos estes sentidos, o sentido do ter.” Cit. por Hugo Fischer, Karl Marx und sein Verhältnis zu Staat und Wirtschaft, Jena, 1932, p. 64.

[H 3a, 7]

[...]

<fase tardia> 

[...]

Colecionar é um fenômeno primevo do estudo: o estudante coleciona saber.

[H 4, 3]

[...] 

7 “Lugar supraceleste”; cf. Platão, Fedro, 247c. (w.b.; E/M)

8 Jogo de palavras entre Sammeln, “colecionar”, e Versammlung, “reunião”, com a conotação de “reunião das coisas colecionadas", (w.b.)

9 Cf. provavelmente H. Bergson, Matière et Mémoire, in: Œuvres, Paris, P.U.F., Éd. du Centenaire, 1970, p. 359. (J.L.) [sem dúvida, obviamente é Henri Bergson! (PVdC/VP)]

11 0 termo “fisiognomonista” (physiognomoniste) é empregado também por Baudelaire e Proust (À la Recherche du Temps Perdu, I, p. 855). (J.L.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.