28.12.25

continua/neil gaiman/A Corte/Centre Point/A vida secreta de Londres/entra

GAIMAN, Neil (1960- ). A Corte / Neil Gaiman e Waren Pleece; Centre Point / Neil Gaiman; em: ZARADE, Oscar, Org. A vida secreta de Londres / Organização de Oscar Zarade; Alan Moore, Neil Gaiman, Dave McKean, Iain Sinclair, Stewart Home e outros; prefácio de Rogério de Campos; tradução Alexandre Boide; 1996. Its dark in London. — São Paulo: Veneta, 2017.

continua/neil gaiman/Eternos/Eternals/John Romita Jr/sai

GAIMAN, Neil (1960- ); ROMITA JR, John (1956- ). EternosEternals / Neil Gaiman, John Romita Jr; Rick Berry capas; introdução Marco M.Lupoi; textos no final sobre The Eternals, de Jack Kirby; galeria de capas de John Romita Jr; texto sobre esta versão; 2007. — Barcelona, Catalunya: Panini; Salvat; Marvel,  2014.

25.12.25

Modest Mussorgsky Моде́ст Петро́вич Му́соргский/Maurice Ravel/Quadros de uma Exposição/Картинки з виставки/Carlo Maria Giulini

MUSSORGSKY, Modest (1839-1881); RAVEL, Maurice (1875-1937). Quadros de uma Exposição / Картинки з виставки / Modest Petrovich Mussorgsky Моде́ст Петро́вич Му́соргскийJoseph Maurice Ravel; Carlo Maria Giulini; Orquestra Sinfônica de Chicago; 1976. — Brasil: Altaya; Deutsche Grammophon, 1999.

23.12.25

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

M
[O Flâneur]1
Uma paisagem obsedante, intensa como o ópio.
Mallarmé 
[...]
A rua conduz, o flâneur em direção a um tempo que desapareceu. Para ele, qualquer rua é íngreme. Ela vai descendo, quando não em direção às Mães,3 pelo menos rumo a um passado que pode ser tão mais enfeitiçante por não ser seu próprio passado, seu passai» particular. Entretanto, este permanece sempre o tempo de uma infância. Mas por que o tempo de sua vida vivida? No asfalto sobre o qual caminha, seus passos despertam trama surpreendente ressonância. A iluminação a gás que recai sobre o calçamento lança uma Le ambígua sobre este duplo chão.
[M 1, 2]
Uma embriaguez apodera-se daquele que, por um longo tempo, caminha a esmo pelas ruas. A cada passo, o andar adquire um poder crescente; as seduções das lojas, dos bistrôs e das mulheres sorridentes vão diminuindo, cada vez mais irresistível torna-se o magnetismo da próxima esquina, de uma longínqua massa de folhagem, de um nome de rua. Então chega a fome. Ele nem quer saber das mil e uma possibilidades de saciá-la. Como m animal ascético, vagueia por bairros desconhecidos até desmaiar de exaustão em seu quarto, que o recebe estranho e frio.
[M 1, 3]
[...]
Deve-se tentar compreender a constituição moral absolutamente fascinante do flâneur apaixonado. A polícia  que se revela aqui, como em tantos outros assuntos de que tratamos como um verdadeiro perito — fornece a seguinte indicação, no relatório de um agente secreto parisiense, de outubro de 1798 (?): “É quase impossível lembrar dos bons costumes e mantê-los numa população amontoada, em que cada indivíduo, de certa forma desconhecido de todos os outros, esconde-se na multidão e não precisa enrubescer diante dos olhos de ninguém.” Cit. em Adolf Schmidt, Pariser Zustände während der Revolution, vol. III, lena, 1876. O caso em que o flâneur se distancia totalmente do tipo do passeador filosófico e assume os traços do lobisomem a vagar irrequieto em uma selva social foi fixado pela primeira vez — e de maneira definitiva — por Poe em seu conto “O homem da multidão.
[M 1, 6]
As manifestações de superposição, de sobreposição (Überdeckung), que aparecem sob o efeito do haxixe devem ser compreendidas através do conceito de semelhança. Quando dizemos que um rosto se assemelha a outro, isto quer dizer que certos traços deste segundo rosto se manifestam no primeiro, sem que este deixe de ser o que era. As possibilidades de que as coisas assim se manifestem, porém, não estão sujeitas a nenhum critério, sendo, portanto, ilimitadas. A categoria da semelhança, que tem uma importância muito restrita para a consciência desperta, adquire uma importância ilimitada no mundo do haxixe. Neste, com efeito, tudo é rosto-e-visão (Gesicht), tudo tem a intensidade de uma presença encarnada, que permite procurar nele, como em um rosto, os traços manifestos. Sob tais circunstâncias mesmo uma proposição adquire um rosto (sem falar da palavra isolada), e este rosto assemelha-se àquele da proposição oposta. Assim, cada verdade remete de maneira evidente a seu contrário, e com base neste fenômeno explica-se a dúvida. A verdade torna-se algo vivo, existindo apenas no ritmo em que a proposição e seu contrário trocam de lugar para se pensarem.4
[M 1a, 1]
 [...]
 [...] ■ Hoje, o lema não é mistura e sim transparência. (Le Corbusier!)
[M 1a, 4] 
Com o aumento constante do tráfego, foi somente graças à “macadamização das ruas que se podia conversar nos terraços dos cafés sem precisar gritar nos ouvidos das pessoas.
[M 2, 6]
 [...]
Dialética da flânerie: de um lado, o homem que se sente olhado por tudo e por todos, como um verdadeiro suspeito; de outro, o homem que dificilmente pode ser encontrado, o escondido. É provavelmente esta dialética que se desenvolve em “O homem da multidão”.
[M 2, 8]
[...]
O princípio da flânerie em Proust. “Então, longe de todas essas preocupações literárias e sem me prender a nada, de repente um teto, o reflexo do sol em uma pedra, o cheiro de um caminho detinham-me pelo prazer singular que me proporcionavam, e também porque pareciam esconder, para além do que eu via, algo que me convidavam a buscar e que, apesar de meus esforços, não consegui descobrir.” Du Côté de Chez Swann, vol. I, Paris, 1939, p. 256.7  Esta passagem permite reconhecer claramente como o antigo sentimento romântico da paisagem se desfaz e como surge uma nova visão romântica dela, que parece ser sobretudo uma paisagem urbana, se é verdade que a cidade é o autêntico solo sagrado da flânerie. É isto que deverá ser exposto aqui pela primeira vez desde Baudelaire (em cuja obra não aparecem as passagens, embora fossem tantas em seu tempo).
[M 2a, 1]
Assim o flâneur passeia em seu quarto: “Quando Johannes, às vezes, pedia licença para sair, o mais das vezes isso lhe era negado; vez por outra, entretanto, seu pai lhe propunha, como compensação, passear pelo assoalho, segurando-o pela mão. À primeira vista, isto poderia parecer um pobre sucedâneo, no entanto, ali se ocultava algo totalmente diferente. A sugestão era aceita e Johannes era livre para decidir por onde caminhar. Saíam então pela entrada rumo a um palacete próximo, ou dirigiam-se à praia, ou apenas perambulavam pelas mas, exatamente como desejava Johannes; pois o pai era capaz de tudo. Enquanto passeavam pelo assoalho, o pai relatava tudo o que viam; cumprimentavam os transeuntes, veículos passavam por eles fazendo um ruído tão forte que encobria a voz do pai; as frutas carameladas da confeiteira eram mais convidativas do que nunca...” Um texto do jovem Kierkegaard, segundo Eduard Geismar, Sören Kierkegaard, Göttingen, 1929, pp. 12-13. Eis a chave para o esquema de Voyage Autour de ma Chambre.8
[M 2a, 2]
“O industrial passa sobre o asfalto apreciando sua qualidade; o velho procura-o com cuidado, seguindo por ele tanto quanto possível e fazendo alegremente ressoar nele sua bengala, lembrando-se com orgulho que viu consrruir as primeiras calçadas; o poeta ... anda pelo asfalto indiferente e pensativo, mastigando versos; o corretor da bolsa o percorre calculando as oportunidades da última alta da farinha; e o desatento, escorrega.” Aléxis Martin, “Physiologie de l’asphaite”, Le Bohème, I, n° 3, 15 abr. 1855  Charles Pradier, redator-chefe.
[M 2a, 3]
[...]
Mas, definitivamente, só a revolução cria o ar livre na cidade. O ar pleno das revoluções. A revolução desencanta a cidade. A Comuna na Éducation sentimentale. A imagem da rua na guerra civil.
[M 3, 3]

A rua como intérieur. Vistas da Passage du Pont-Neuf (entre a Rue Guénégaud e a Rue de Seine), “as boutiques parecem armários”. Nouveaux Tableaux de Paris, ou Observations sur les Maeurs et Usages des Parisiens au Commencement du XIX
e Siècle, Paris, 1828, vol. I, p. 34.
[M 3, 4]
O pátio das Tulherias: “imensa savana plantada com bicos-de-gás em vez de bananeiras. Paul-Ernest de Rattier, Paris Nexiste Pas, Paris, 1857. ■ Gás ■
[M 3, 5]
Passage Colbert: “O candelabro que a ilumina parece um coqueiro no meio de uma savana...” ■ Gás ■ Le Livre des Cent-et-un, vol. X, Paris, 1833, p. 57 (Amédée Kermel, Les Passages de Paris).
[M 3, 6]
Iluminação na Passage Colbert: “Admiro a série regular desses globos de cristal de onde emana uma claridade ao mesmo tempo viva e suave. Náo se diría que são cometas em ordem de batalha, esperando o sinal de partida para ir vagar no espaço? Le Livre des Centet-un, vol. X, p. 57. Comparar esta metamorfose da cidade em universo astral com Un Autre Monde, de Grandville. ■ Gás ■
[M 3, 7]
Em 1839, era elegante levar consigo uma tartaruga quando se passeava. Isto dá uma idéia do ritmo do flanar nas passagens.
[M 3, 8]
 [...]
O cardápio do restaurante “Les Trois Frères Provençaux”: 36 páginas para a cozinha, 4 as para a adega  mas páginas muito extensas, in-fólio pequeno, com um texto comprimido e muitas observações em letras miúdas.” O livro está encadernado em veludo. 20 entradas e 33 tipos de sopa. “46 pratos de carne bovina, entre os quais 7 de bifes diversos e 8 tipos de filé.” “34 pratos de carne de caça, 47 pratos de legumes e 71 taças de compotas de frutas.” Julius Rodenberg, Paris bei Sonnenschein und Lampenicht, Leipzig, 7, pp. 43-44. Flânerie gastronômica.
[M 3a, 1]

A melhor arte de capturar, sonhando, a tarde nas malhas da noite, é fazer planos. O flâneur a feazer planos. 
[M 3a 2]
“As casas de Le Corbusier não são definidas nem pela espadalidade, nem pela plasticidade: o ar as atravessa! O ar torna-se fator constituinte! Para tanto, não contam nem o espaço, nem a forma plástica, apenas a relação e o entrecruzamento! Existe apenas um espaço une s e indivisível. Caem os invólucros entre o interior e o exterior.” Sigfried Giedion, Bauen in Frankreich, Berlim, 1928, p. 85.
[M 3a, 3]
 [...]
“O último ônibus puxado por cavalos funcionou na linha La Villette-Saint-Sulpice em janeiro de 1913; o último bonde puxado por cavalos, na linha Pantin-Opéra, em abril do mesmo ano.” Dubech e D’Espezel, op. cit., p. 463.
[M 3a, 7]
“Em 30 de janeiro de 1828, funcionou o primeiro ônibus na linha dos boulevards, da Bastilha à Madeleine. O percurso custava vinte e cinco ou trinta centavos, o veículo parava onde se quisesse. Ele comportava de dezoito a vinte lugares, e seu trajeto dividia-se em duas etapas, sendo a Porte Saint-Martin o ponto divisório. A voga dessa invenção foi extraordinária: em 1829, a Compagnie explorava quinze linhas e companhias rivais lhe faziam concorrência: Tricycles, Écossaises, Béarnaises, Dames Blanches.” DubecnD’Espezel, op. cit., pp. 358-359.
[M 3a, 8] 
 [...]
Sobre os ônibus. “O cocheiro pára, sobem-se os poucos degraus da pequena e cômoda escada e se procura um lugar no veículo, no qual há bancos para 14 ou 16 pessoas à direita c à esquerda, no sentido do comprimento. Mal se coloca os pés no veículo e este já prossegue a viagem, o condutor já puxou novamente o cordão e, com um golpe sonoro, ele avança o ponteiro em um mostrador transparente, indicando que mais um passageiro subiu; é o controle dc arrecadação. Com o veículo em movimento, pega-se calmamcntc a carteira e paga-se o bilhete. Quando se está sentado longe do condutor, o dinheiro passa dc mão cm mão entre os passageiros; a dama bem vestida toma-o do operário de macacão azul e passao adiante; tudo isso ocorre facilmente, como por hábito e sem problema. Para descer, o condutor puxa novamente o cordão e faz o veículo parar. Se for uma subida, o que não é raro em Paris, e o veículo anda mais vagarosamente, os cavaleiros costumam subir e descer mesmo com ele em movimento.” Eduard Devrient, Briefe aus Paris, Berlim, 1840, pp. 61-62.
[M 4, 2] 
 [...]
E. T. A. Hoffmann como tipo do flâneur. Seu conto “Des Vetters Eckfenster” (“A janela de esquina do primo”) é o testamento do flâneur. Daí o grande êxito de Hoffmann na França, onde este tipo gozava de especial compreensão. Nas observações biográficas da edição em cinco volumes de seus últimos escritos (Brodhag?)11 lê-se: “Hoffmann nunca foi um grande aficcionado da natureza. Os seres humanos  a comunicação com eles, sua observação, o simples fato de olhá-los  importavam-lhe mais que qualquer outra coisa. Quando saía a passeio no verão, o que, com bom tempo, ocorria diariamente no entardecer ... não era fácil encontrar uma taverna ou confeitaria, onde ele não tivesse entrado para ver se lá havia pessoas, e de que espécie.”
[M 4a, 2]
Ménilmontant. “Neste imenso bairro, cujos magros salários condenam crianças e mulheres a eternas privações, a Rue de la Chinc e as que se encontram com ela e a cruzam, como a Rue des Partants c esta surpreendente Rue Orfila, tão fantástica com seus circuitos e suas voltas bruscas, com seus tapumes de madeira mal cortada, seus caramanchões desabitados, seus jardins desertos regressando ao estado de pura natureza, com ervas daninhas e arbustos selvagens, respiram o sossego e uma rara calma... E, sob um grande céu, uma trilha no campo, onde a maioria das pessoas que passam parece ter comido e bebido.” J. K. Huysmans, Croquis Parisiens, Paris, 1886, p. 95 (“La rue de la Chine”).
[M 4a, 3]
Dickens. “Em suas cartas ... queixa-se sempre, quando em viagem, mesmo nas montanhas da Suíça ... sobre a falta do burburinho das ruas que era indispensável para sua produção poética. ‘Não saberia dizer como as ruas me fazem falta’, escreveu ele em 1846 de Lausanne, onde elaborou um de seus maiores romances (Dombey and Son). ‘Parece que elas fornecem a meu cérebro algo que lhe c imprescindível quando precisa trabalhar. Durante uma semana, quinze dias, consigo escrever maravilhosamente em um lugar afastado; um dia em Londres é então suficiente para me refazer e me inspirar de novo. Mas o esforço e o trabalho de escrever dia após dia sem essa lanterna mágica são enormes... Meus personagens parecem paralisados quando não têm uma multidão ao redor... Em Gênova ... eu tinha ao menos duas milhas de ruas iluminadas por onde eu podia vagar durante a madrugada, e um grande teatro todas as noites.’” Franz Mehring, “Charles Dickens”, Die Neue Zeit, Stuttgart, 1912, XXX, n° 1, pp. 621-622.
[M 4a, 4] 
[...]
— O que é, então, este maldito guisado que cheira tão mal e que cozinha neste grande caldeirão? ... diz um tipo provinciano a uma velha porteira. — Isso, caro senhor, são lajes que eles cozinham para pavimentar nosso pobre boulevard, que passaria muito bem sem elas! ... Pergunte- me, antes, se o passeio não era mais agradável quando se caminhava sobre a terra, como num jardim.” La Grande Ville: Nouveau Tableau de Paris, Paris, 1844, vol. I, p. 334 (“Le bitume” — “O betume”).
[M 5, 3]
Sobre os primeiros ônibus: “Acaba de se criar uma concorrência, as Dames Blanches’... Esses veículos são inteiramente pintados de branco, e os cocheiros, vestidos de ... branco, tocam com o pé num fole a ária de La Dame BlancheA dama de branco olha para você...’” Nadar, Quand Jétais Photographe: 1830 et Environs, Paris, 1900, pp. 301-302.
[M 5, 4]
O flâneur é o observador do mercado. Seu saber está próximo da ciência oculta da conjuntura. Ele é o espião que o capitalismo envia ao reino do consumidor.
[M 5, 6]
O flâneur e a massa: o respeito. “Rêve parisien” de Baudelaire poderia ser muito instrutivo a esse respeito.
[M 5, 7]
A ociosidade do flâneur é um protesto contra a divisão do trabalho.
[M 5, 8|
O asfalto foi primeiramente utilizado nas calçadas.
[M 5, 9]
“Uma cidade como Londres, onde se pode caminhar durante horas sem chegar sequer ao início do fim, sem encontrar o mínimo sinal que indique a proximidade do campo, é algo realmente singular. Esta centralização enorme, esta aglomeração de dois milhões e meio de seres humanos, em um único lugar, centuplicou a força destes dois milhões e meio; elevou Londres à condição de capital comercial do mundo, criou as gigantescas docas e reuniu os milhares de navios que navegam continuamente no Tâmisa... Só mais tarde, descobrir-se-á o número de sacrifícios que isto custou. Depois de percorrer durante alguns dias as calçadas das ruas principais..., percebe-se que estes londrinos tiveram que sacrificar a melhor parte de suas qualidades humanas para realizar todos estes milagres da civilização... O próprio tumulto das ruas possui algo de repugnante, algo que revolta a natureza humana. Estas centenas de milhares de pessoas de todas as classes e camadas sociais, que se comprimem ao passar umas pelas outras, não são todas elas seres humanos com as mesmas qualidades e capacidades e o mesmo interesse de serem felizes? E não devem elas finalmente buscar sua felicidade da mesma forma e com os mesmos meios? No entanto, estas pessoas passam apressadas umas pelas outras, como se nada tivessem em comum, como se nada as unisse, mantendo apenas um único acordo tácito, o de que cada uma se mantenha no lado direito da calçada para que as duas correntes da multidão, ao passar por ali, não se detenham mutuamente; a ninguém ocorre conceder ao outro o mais simples olhar. A indiferença brutal, o isolamento insensível de cada indivíduo em seus interesses particulares, vem à tona de maneira tanto mais repugnante e ofensiva quanto mais estes indivíduos são confinados naquele espaço reduzido. Embora saibamos que este isolamento do indivíduo, este egoísmo tacanho é por toda parte o princípio básico da nossa sociedade atual, ele não se manifesta em nenhum lugar de maneira tao descarada e evidente, tão presunçosa, como justamente aqui no tumulto da cidade grande.” Friedrich Engels, Die Lage der arbeitenden Klasse in England, 2 a ed., Leipzig, 1848, pp. 36-37 (“Die grofien Städte”  “As grandes cidades”).
[M 5a, 1]
“Entendo por boêmios esta classe de indivíduos cuja existência é um problema, cuja condição é um mito, cuja fortuna é um enigma; que não têm endereço certo, nenhum abrigo reconhecido, que não se encontram em parte alguma e que encontramos por toda parte! Aqueles que não têm nenhuma situação e exercem cinquenta profissões; cuja maioria se levanta de manhã sem saber onde jantará à noite; ricos hoje, famintos amanhã; prontos para viver honestamente se puderem, e de outro modo se não puderem.” Adolphe d’Ennerv et Grangé, Les Bohémiens de Paris (LAmbigu-Comique, 27 de setembro de 1843), Paris (série Magasin Théatral), pp. 8-9.
[M 5 a, 2]
 
 
1 Na revisão da tradução deste arquivo temático foi consultada também a tradução de José Carlos Martins Barbosa, publicada em OE III, pp. 185-236. (w.b.)
3 Cf. nota para M°, 25. (w.b.) 
4 A palavra denkenpensar, no manuscrito, é provavelmente um erro, em lugar de [sich] decken[se] sobrepor. Neste caso, haveria uma retomada e um reforço da idéia de Überdeckungsobreposição da frase inicial. (R.T.; E/M)
7 M. Proust, À la Recherche du Temps Perdu, I, p. 178. (J.L.)  
8 Voyage Autour de ma Chambre: título de obra publicada em 1794 por Xavier de Maistre (1763-1852). (E/M) 
11 Os volumes XI-XV dos Ausgewählte Schriften de E. T. A. Hoffmann foram publicados em 1839 pela Editora Fr. Brodhag, Stuttgart. A citação que segue, de autoria de Julius Eduard Hitzig, encontra-se no vol. XV, pp. 32-34. (R.T.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

22.12.25

continua/neil gaiman/Eternos/Eternals/John Romita Jr/entra

GAIMAN, Neil (1960- ); ROMITA JR, John (1956- ). EternosEternals / Neil Gaiman, John Romita Jr; Rick Berry capas; introdução Marco M.Lupoi; textos no final sobre The Eternals, de Jack Kirby; galeria de capas de John Romita Jr; texto sobre esta versão; 2007. — Barcelona, Catalunya: Panini; Salvat; Marvel,  2014.

continua/neil gaiman/Orquídea Negra/Black Orchid/Dave McKean/sai

GAIMAN, Neil (1960- ); McKEAN, Dave (1963- ). Orquídea Negra / edição definitiva / Black Orchid: The Deluxe Edition / Neil Gaiman, Dave McKean; introdução Mikal Gilmore; anotações, esboços e seleções de Neil Gaiman; 1991; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2012.

19.12.25

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

L
[Morada de Sonho, Museu, Pavilhão Termal]
[...]
A obra de Le Corbusier parece constituir o epílogo da “casa” enquanto configuração mitológica. Cf. a seguinte observação: “Por que a casa deve ser constmída da maneira mais lese e aérea possível? Porque só assim pode-se pôr término a uma fatal monumentalidade, de caráter patrimonial. Enquanto o jogo de suporte e carga — real ou como exagero simbólico "no Barroco) — adquiriu sentido com os muros de arrimo, seu aspecto pesado se justificava. Mas hoje, que o muro exterior não precisa mais suportar tanto peso, o jogo de suporte e carga, sublinhado pelo ornamento, é uma mísera farsa (os arranha-céus americanos).” Giedion, Bauen in Frankreich, p. 85.
[L la, 4]
[...]
“A habitação coletiva [Mietskaserne] é o último castelo feudal. Ela deve sua existência e forma à batalha brutal e egoísta de alguns proprietários de terra pela posse de um terreno, que é desmembrado e recortado em parcelas durante esta disputa. Assim, não nos espanta ver ressurgir também a forma do castelo feudal — com o pátio cercado de muros. Cada proprietário se isola do outro, e esta é uma das razões por que, no fim, subsiste um resto casual de todo o conjunto.” Adolf Behne, Neues Wohnen — Neues Bauen, Leipzig, 1927, pp. 93-94.
[L la, 6]
[...]
Em junho de 1837 é inaugurado o museu histórico de Versailles  “para a glória perene da França”. Uma série de salões que exigem quase duas horas para serem percorridos. Cenas de batalhas e de sessões parlamentares. Entre os pintores: Gosse, Larivière, Heim, Devéria, Gérard, Ary Scheffer etc. Aqui a coleção de quadros converte-se em pintar quadros para o museu.
[L 2, 1]
[...]
“Gosto muito desses homens que se deixam trancar à noite num museu para poder contemplar à vontade, em tempo ilícito, um retrato de mulher, à luz tênue de uma lanterna. Depois disso, inevitavelmente, deverão saber muito mais dessa mulher do que nós.” André Breton, Nadja, Paris, 1928, p.150.3 Mas por quê? Porque no medium desta imagem realizou-se a metamorfose do museu em intérieur.
[L 2 , 3]
[...]
“A Opera é uma das criações características do Segundo Império. Entre cento e sessenta projetos apresentados, foi escolhido o de um jovem desconhecido, Charles Garnier. Seu teatro, construído entre 1861 e 1867, foi concebido como um local de ostentação ... é o palco em que a Paris imperial se contempla com satisfação; classes que recentemente chegaram ao poder e à fortuna, misturas de elementos cosmopolitas — é um mundo novo, que exige um novo nome: não se diz mais a Corte, diz-se Toda-Paris... Um teatro concebido como centro de vida social e urbana, eis mais uma nova idéia, um sinal dos tempos.” Dubech e D’Espezel, op. cit. , pp. 411-412.
[L 2a, 5]
[...]
[fase média]
[...]
Sobre a criação do museu de Versailles: “O Sr. de Montalivet tinha pressa em ter um grande número de pinturas. Ele as queria por toda parte, mas como as Câmaras denunciavam o excesso de gastos, era preciso comprar barato, a economia andava de vento em popa... O Sr. de Montalivet ... deixaria ... pensar de bom grado que era ele próprio que, nos cais e junto aos revendedores, fora comprar os quadros de terceira categoria.. Mas não... Foram os príncipes da arte dessa época que se entregaram a essa operação hedionda... As cópias e os pastiches do museu de Versailles são a prova mais pungente da cobiça dos mestres artistas que se transformaram em empreiteiros e negociantes de arte... O comércio e a indústria decidiram elevar-se até a arte. O artista, para satisfazer às necessidades do luxo que começava a tentá-lo, prostituía a arte na especulação e fazia degenerar a tradição artística, reduzindo-a à condição de mero ofício.” Esta observação refere-se ao fato de que (por volta de 1837) os pintores confiavam as encomendas assumidas a seus discípulos. Gabriel Pélin, Les Laideurs du Beau Paris, Paris, 1861, pp. 85, 87-90.
[L 3, 5]
[...]
Esgotos: “Fantasmas de todas as espécies assombram esses longos corredores solitários; em toda parte, podridão e miasma; aqui e ali um respiradouro, por onde Villon, do lado dc dentro, conversa com Rabelais, do lado de fora.” Victor Hugo, Œuvres Complètes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, p. 160 (Les Misérables).
[L 3a, 2] 
[...]
Esgoto: “Paris . . . chamava-o de Trou punais. . . O Buraco Fedorento não era menos repugnante peia higiene que pela lenda. O Monge empanturrado aparecera sob o arco fétido do esgoto Mouffetard; os cadáveres dos Marmousets tinham sido jogados no esgoto da Barillerie. . . A boca do esgoto da Rue de la Mortellerie era mal-afamada pelas pestes que espalhava... Bruneseau havia dado o primeiro impulso, mas foi preciso o cólera para determinar a vasta reconstrução que se realizou em seguida.” Victor Hugo, Œuvres Complètes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, pp. 166 e 180 (Les Misérables, “L’intestin de Léviathan”).
[L 3a, 4]
A descida de Bruneseau aos esgotos, em 1805: “Assim que Bruneseau ultrapassou as primeiras articulações da rede subterrânea, oito dos vinte trabalhadores recusaram-se a ir mais longe... Avançava-se penosamente. Não era raro que as escadas para a descida mergulhassem em três pés de lama. As lanternas agonizavam nos miasmas. De tempos em tempos carregava-se um trabalhador desmaiado. Em certos lugares, um precipício. O solo tinha afundado, a pavimentação tinha desmoronado, o esgoto tinha se transformado em um poço perdido; não se achava mais o chão firme; um homem desapareceu de repente; foi uma grande dificuldade recuperá-lo. Por conselho de Fourcroy, iluminava-se cada ponto, nos lugares suficientemente saneados, com grandes gaiolas cheias de estopa embebida em resina. A muralha, em determinados lugares, estava coberta de fungos disformes — tumores, diziam; a própria pedra parecia doente nesse ambiente irrespirável... Pensou-se reconhecer aqui e ali, sobretudo sob o Palais de Justice, celas de antigos cárceres construídos no próprio esgoto... Uma corrente de ferro pendia numa dessas celas. Todas elas foram muradas. A visita completa ao sistema viário da imundície subterrânea de Paris durou sete anos, de 1805 a 1812... Nada igualava o horror dessa velha cripta supurosa ... antro, fossa, abismo cortado de ruas, monte gigantesco de toupeiras, onde o espírito imagina ver rondar através das sombras ... essa enorme toupeira cega, o passado.” Victor Hugo, CEuvres Completes, Romances, vol. IX, Paris, 1881, pp. 169-171 e 173-174 (Les Misêrables, “Tintestin de Léviathan”).
[L 4, 1]
[...]
Proudhon defende os quadros de Courbet como causa própria e deles se apropria através de definições nebulosas (“da moral em ação”).
[L 4, 3] 
 [...]
Enquanto a viagem normalmente dá ao burguês a ilusão de transcender seus vínculos de classe, a estação termal reforça a sua consciência de pertencer à classe superior. E isto acontece não só porque ela o põe em contato com as camadas feudais. Mornand chama a atenção para uma circunstância mais elementar: “Em Paris, sem dúvida, as multidões sao maiores mas nenhuma é homogênea como esta: porque a maior parte dos tristes humanos que as compõem jantaram mal ou não jantaram... Em Baden não é assim: todo mundo e feliz, porque todo mundo está em Baden.” Felix Mornand, La Vie des Eaux, Paris, 1855, pp. 256-257. 
[L 4a, 1] 
 [...]
 [fase tardia]
Existem relações entre a loja de departamentos e o museu, sendo que o bazar serve de meio-termo. O acúmulo de obras-de-arte no museu as aproxima das mercadorias que, quando oferecidas ao transeunte em grandes quantidades, despertam nele a idéia de que uma parte delas deveria lhe caber.
[L 5, 5] 
 
3 André Breton, Nadja, Paris, Gallimard, 1980, pp. 132-133. (J.L.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

continua/neil gaiman/Orquídea Negra/Black Orchid/Dave McKean/entra

GAIMAN, Neil (1960- ); McKEAN, Dave (1963- ). Orquídea Negra / edição definitiva / Black Orchid: The Deluxe Edition / Neil Gaiman, Dave McKean; introdução Mikal Gilmore; anotações, esboços e seleções de Neil Gaiman; 1991; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2012.

continua/neil gaiman/The Quotable Sandman/sai

GAIMAN, Neil (1960- ). The Quotable Sandman / Memorable lines from the acclaimed series / Neil Gaiman; illustrations by a remarkable ensemble of artists— New York: Vertigo/DC Comics, 2000.

18.12.25

continua/neil gaiman/The Quotable Sandman/entra

GAIMAN, Neil (1960- ). The Quotable Sandman / Memorable lines from the acclaimed series / Neil Gaiman; illustrations by a remarkable ensemble of artists— New York: Vertigo/DC Comics, 2000.

continua/neil gaiman/Sandman/volume 14/Prelúdio/Overture/J.H.Williams III/Dave McKean/sai

GAIMAN, Neil (1960- ); WILLIAMS III J.H. (1958- ). Sandman / volume 14 / Prelúdio Overture / edição especial 30 anos / Neil Gaiman, J.H.Williams III (James Jim” H. Williams III)capa(s) Dave McKean; prefácio Neil Gaiman; capas alternativas; cores (imagens da execução com texto do Dave Stewart); letreiramento (ídem por Todd Klein); construção da capa (por Dave McKean); Shelly Bond entrevista: Neil Gaiman; Dave Stewart; J.H.Williams III; notas de Neil; esboços de J.H.Williams III; 2015; Vertigo/DC Comics. — Barueri, SP: Panini Brasil, 2022.

15.12.25

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase tardia>

“A Paris dos Saint-Simonianos.” Do projeto enviado por Charles Duveyrier a LAdvocat, para ser integrado ao Livre des Cent-et-un (o que acabou não ocorrendo): Quisemos dar forma humana à primeira cidade sob a inspiração de nossa fé. O bom Deus disse pela boca do homem que ele envia... Paris! É nas margens de teu rio e sobre o território dentro de teus muros que imprimirei o selo de minha generosidade... Teus reis e teus povos caminharam com a lentidão dos séculos e se detiveram numa praça magnífica. É ali que repousará a cabeça da minha cidade... Os palácios de teus reis serão sua fronte... Conservarei sua barba de altos castanheiros... Varrerei o velho templo cristão do alto dessa cabeça ... e sobre esse terreno limpo estenderei uma cabeleira de árvores... Sobre o peito de minha cidade, nesse lar simpático de onde irradiam e para onde convergem todas as paixões, ali onde vibram as dores e as alegrias, construirei meu templo..., plexo solar do colosso... As colinas do Roule e de Chaillot serão seus flancos; colocarei ali o banco e a universidade, os mercados e as gráficas... Estenderei o braço esquerdo do colosso sobre a margem do Sena; ele estará ... no lado oposto ... a Passy. A associação dos engenheiros ... constituirá a parte superior, que se estenderá em direção a Vaugirard; formarei o antebraço da reunião de todas as escolas especiais das ciências físicas... No vão do braço ... agruparei todos os liceus, para que minha cidade os aperte contra o seio esquerdo, onde fica a Universidade... Estenderei o braço direito do colosso em sinal de força até a estação de Saint-Ouen... Encherei esse braço das oficinas da pequena indústria, de passagens, galerias, bazares... Formarei a coxa e a perna direita com todos os estabelecimentos das grandes fábricas. O pé direito pousará em Neuilly. A coxa esquerda oferecerá aos estrangeiros longas filas de hotéis. A perna esquerda se estenderá até o Bois de Boulogne... Minha cidade está na atitude de um homem prestes a caminhar; seus pés são de bronze e se apoiam sobre uma dupla estrada de pedra e de ferro. Aqui se fabricam ... os veículos de transporte e os aparelhos de comunicação; aqui as carruagens disputam em velocidade... Entre os joelhos esrá uma arena de equitação, em forma de elipse; entre as pernas, um imenso hipódromo.” Henry-René dAllemagne, Les Saint-Simoniens 1827-1837, Paris, 1930, pp. 309-310. A idéia desse projeto deve-se a Enfantin, que utilizou pranchas anatômicas para a planificação da cidade do futuro. 
[K 5]
[...]
Chateaubriand sobre o obelisco da Place de la Concorde: “Chegará a hora em que o obelisco do deserto encontrará, na Praça dos Assassinos, o silêncio e a solidão de Luxor.”8 Cit. em Louis Bertrand, “Discours sur Chateaubriand”, Le Temps, 18 set. 1935.
[K 5a, 3]
Saint-Simon propôs “transformar uma montanha da Suíça em uma estátua de Napoleão, que teria em uma das mãos uma cidade habitada, e na outra, um lago.” Conde Gustav von Schlabrendorf, em Paris, sobre acontecimentos e personalidades de sua época [em Cari Gustav Jochmann, Reliquien: Aus seinen nachgelassenen Papieren, ed. org. por Heinrich Zschokke, vol. I, Hechingen, 1836, p. 146.]
[K 5a, 4]
A Paris noturna em LHomme Qui Rit.9 “O pequeno errante sentia a paixão indefinível da cidade adormecida. Esses silêncios de formigueiros paralisados emanam vertigem. Todas essas letargias misturam seus pesadelos, esses sonos são uma multidão.” Cit. em R. Caillois, “Paris, mythe moderne”, Nouvelle Revue Française, XXV, n° 284, 1 maio 1937, p. 691.
[K 5a, 5]
“Sendo o inconsciente coletivo uma manifestação da história do mundo que se expressa ... na estrutura do cérebro e do simpático, ele significa ... uma espécie de imagem do mundo atemporal, de certa forma, eterna, que se opõe à nossa imagem consciente momentânea.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 326 (“Analytische Psychologie und Weltanschauung”).
[K 6, 1]
Jung denomina a consciência  ocasionalmente!  como “nossa conquista prometéica”. C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 249 (“Die Lebenswende”). E em outro contexto: “O pecado prometéico é o de ser a-histórico. O homem moderno, neste sentido, vive no pecado. Um grau maior de consciência é, portanto, culpa.” Op. cit.. p. 404 (“Das Seelenproblem des modernen Menschen”).
[K 6, 2]
“Não há dúvida que ... desde a época memorável da Revolução Francesa, o psíquico passou pouco a pouco para o primeiro plano da consciência geral..., devido à sua força crescente de atração. Aquele gesto simbólico de entronização da Deusa Razão em Notre-Dame parece ter significado para o mundo ocidental algo análogo ao abate dos carvalhos de Wotan pelos missionários cristãos, pois tanto naquela ocasião quanto hoje nenhum raio atingiu os blasfemadores.” C. G. Jung, Seelenprobleme der Gegenwart, Zurique-Leipzig-Stuttgart, 1932, p. 4 1 9 (“Das Seelenproblem des modernen Menschen”). A “vingança” para estes dois gestos históricos fundadores parece estar iminente hoje, simultaneamente! O nacionalsocialismo se encarrega do primeiro, Jung, do segundo.
[K 6, 3]
Enquanto ainda houver um mendigo, ainda haverá mito.
[K 6, 4]
“Aliás, um aperfeiçoamento engenhoso foi introduzido na construção das praças. A administração comprava-as já prontas, sob encomenda. Arvores em papelão colorido e flores em tafetá desempenhavam muito bem seu papel nestes oásis, onde se tinha até mesmo a precaução de esconder nas folhagens pássaros artificiais que cantavam o dia todo. Assim, conservou-se o que há de agradável na natureza, evitando o que ela tem de sujo e de irregular.” Victor Fournel, Paris Nouveau et Paris Futur, Paris, 1 868, p. 252. 
[K 6, 5]
“Os trabalhos do Sr. Haussmann deram impulso, pelo menos no início, a uma grande quantidade de planos bizarros ou grandiosos. . . Por exemplo, o Sr. Herard, arquiteto, publica em 1855 um projeto de passarelas a serem construídas no cruzamento dos boulevards Saint-Denis e Sébastopol: essas passarelas com galerias desenhariam um quadrado contínuo, em que cada lado seria determinado pelo ângulo que formam, ao se cruzarem, os dois boulevards. O Sr. J. Brame expõe em 1856, numa série de litografias, seu plano ferroviário para as cidades, particularmente Paris, com um sistema de arcos sustentando os trilhos, de vias laterais para os pedestres e de pontes móveis para colocar essas vias laterais em comunicação... Mais ou menos na mesma época ainda, um advogado pede, por uma “Carta ao Ministro do Comercio , o estabelecimento de toldos em todo o comprimento das ruas, a fim de evitar que o pedestre ... tenha que pegar uma carruagem ou um guarda-chuva. Um pouco mais tarde, um arquiteto propõe reconstruir a Cité inteira em estilo gótico, para harmonizá-la com Notre-Dame.” Victor Fournel, Paris Nouveau et Paris Futur, Paris, 1868, pp. 384-386.
[K 6a, 1]
Do capítulo de Fournel intitulado “Paris futura”: “Havia ... cafés de primeira, de segunda c de terceira classes ... e para cada categoria estava previsto o número de salas, de mesas, de bilhares, de espelhos, de ornamentos e de peças douradas... Havia ruas para os patrões e p m de serviço, como há escadas sociais e escadas de serviço nas casas bem organizadas... No frontão do quartel, um baixo-relevo ... representava, com esplendor, a Ordem Pública fardada como um soldado de infantaria, com uma auréola na fronte, abatendo a Hidra de cem cabeças da Descentralização... Cinqüenta sentinelas posicionadas nas cinqüenta guaritas do quartel, frente aos cinqüenta boulevards, podiam ver, com uma luneta, a quinze ou vinte quilômetros dali, as cinqüenta sentinelas das cinqüenta barreiras... Montmartre era coroada uma cúpula ornada com um imenso relógio elétrico visível a oito e audível a dezesseis ‘metros de distância, servindo de referência para todos os demais relógios da cidade. Tinha-se enfim atingido o grande objetivo perseguido há tanto tempo: fazer de Paris um de luxo e curiosidade mais que de uso, uma cidade em exposição, numa redoma de ... objeto de admiração e inveja para os estrangeiros, e insuportável para seus habitantes.” V. Fournel, op. cit., pp. 235-237, 240-241. 
[K óa, 2 ]

Crítica de Fournel à cidade saint-simoniana de Ch. Duveyrier: 
Não podemos continuar acompanhando a exposição dessa metáfora atrevida que o Sr. Duveyrier desenvolve ... com fleuma cada vez mais estupeficante, sem nem mesmo perceber que sua engenhosa distribuição levaria Paris, por força do progresso, de volta até a época da Idade Média, cada indústria e cada ramo do comércio eram confinados num mesmo bairro. Fournel, Paris Nouveau et Pans Futur, Paris, 1868, pp. 374-375 (“Les précurseurs de M. Haussmann”). 
[K 7, 1]
Vamos falar de um monumento que estimamos particularmente, e que parece de primeira necessidade quando se tem um céu como o nosso ... um Jardim de inverno!.. Quase no centro da cidade, um lugar vasto, muito vasto, capaz de receber, como o Coliseu em Roma, pane da população, seria rodeado por uma imensa cúpula luminosa, mais ou
menos como o Palácio de Cristal de Londres ou como nossos mercados de hoje: colunas de ferro, algumas pedras para assentar as fundações... Ah! Meu jardim de inverno, que partido tiraria de ti para meus Novutopianos; enquanto em Paris, na grande cidade, eles construíram um grande monumento de pedra, pesado e feio, que não serve para nada, e onde, neste ano, os quadros de nossos artistas, a contraluz aqui, escaldavam um pouco mais ao longe sob um sol ardente.” F. A Coumrier de Vienne, Paris Modeme: Plan d
une Ville Modèle que lAuteur a Appelée Novutopie, Paris, 1 860, pp. 263-265.
[K 7, 2]
[...]
Não seria possível comparar a diferenciação social na arquitetura (cf. a descrição dos cafés por Fournel em K 6a, 2, ou a oposição entre escada social e escada de serviço) com aquela presente na moda?
[K 7a, 1]
Sobre o niilismo antropológico, cf. N 8a, 1: Céline, Benn.
[K 7a, 2]
“O século XV ... é uma época em que os cadáveres, os crânios e os esqueletos eram ultrajosamente populares. Na pintura, na escultura, na literatura e nas representações dramáticas, a Dança Macabra estava onipresente. Para o artista do século XV, a atração pela morte, bem tratada, era uma chave tão segura para atingir a popularidade quanto o é, em nossa época, um bom sex appeal. Aldous Huxley, Croisière dHiver: Voyage en Amérique Centrale, Paris, 1935, p. 58.10
[K 7a, 3]
Sobre o interior do corpo. “Este tema e sua elaboração remontam ao modelo de João Chrysóstomo, ‘Sobre as mulheres e a beleza (Opera, ed. B. de Montfaucon, Paris, 1735, tomo 12, p. 523).” “A beleza do corpo não reside senão na pele. Com efeito, se os homens vissem o que está debaixo da pele — assim como o lince da Beócia, que dizem que pode ver o interior , a vista das mulheres dar-lhes-ia náuseas. Toda aquela graça consiste de muco e sangue, de humores e fel. Se alguém considerar o que se esconde nas narinas, na garganta e no ventre, encontrará sempre sujeira. E se nos repugna tocar o muco e a sujeira mesmo só com a ponta do dedo, como então poderíamos desejar abraçar o próprio saco de excrementos?” Odon de Cluny, Collationum, livro III, Migne, tomo 133, p. 556), cit. em J. Huizinga, Herbst des Mittelalters, Munique, 1928, p. 197.
[K 7a, 4]
Sobre a teoria psicanalítica da recordação: As pesquisas posteriores de Freud mostraram que esta concepção [ou seja, a do recalque (Verdrängung)] deveria ser ampliada. . . O mecanismo do recalque ... é ... um caso particular do processo mais geral e significativo que tem início quando nosso Eu não consegue corresponder de forma adequada às exigências feitas ao aparelho psíquico. O mecanismo geral de defesa não anula as fortes impressões; ele apenas as põe de lado... Em favor da clareza, seria útil formular de maneira intencionalmente simples a oposição entre memória e recordação; a função da memória [o autor idendfica a esfera do esquecimento’ com a da memória inconsciente’, p. 130] é proteger as nossas impressões; a recordação visa a sua dissolução. A memória [Gedächtnis] é essencialmente conservadora, a recordação [Erinnerung] é destrutiva.” Theodor Reik, Der überraschte Psychologe, Leiden, 1935, pp. 130-132.
[K 8, 1]
[...]
O que foi depositado no inconsciente como conteúdo da memória. Proust fala do “sono muito vivo e criador do inconsciente ... onde acabam de se gravar as coisas que apenas nos afloraram, onde as mãos adormecidas se apoderam da chave certa, inutilmente procurada até então.” Marcei Proust, La Prisonnière, vol. II, Paris, 1923, p. 189.
[K 8, 3]
A passagem clássica sobre a “memória involuntária” em Proust  prelúdio ao momento em jgue é descrito o efeito da madeleine sobre o autor: “Foi assim que, durante muito tempo, qjeando acordado no meio da noite eu me lembrava de Combray, nada me vinha à mente mão essa espécie de painel luminoso... Para dizer a verdade, teria podido responder, a quem me perguntasse, que Combray tinha ainda outra coisa... Mas como aquilo de que me teria lembrado teria sido fornecido somente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela dá sobre o passado não conservam nada dele, eu nunca teria tido vontade de pensar nesse resíduo de Combray... Assim é com o nosso passado. É trabalho petdido procurar evocá-lo; todos os esforços de nossa inteligência são inúteis. Ele está escondido finta de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material ... de que nós não suspeitamos, ato a esse objeto, depende do acaso se o encontramos ou não o encontramos, antes de morrer.” Marcel Proust, Du Côté de Chez Swann, vol. I, pp. 67-69.
[K 8a, 1]

A passagem clássica sobre o despertar durante a noite, no quarto escuro, e a orientação do autor dentro dele: “Quando eu acordava assim, e meu espírito se agitava, sem sucesso, tentando saber onde eu me encontrava, tudo girava ao meu redor na escuridão: as coisas, os países, as anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mover, procurava reconhecer, pela forma de seu cansaço, a posição de seus membros, para perceber a partir deles a direção da parede, o lugar dos móveis, para reconstruir e nomear o local em que se encontrava. Sua memória, a memória de suas costelas, de seus joelhos, de seus ombros, apresentava-lhe sucessivamente os vários quartos em que dormira, enquanto em torno dele rodopiavam nas trevas as paredes invisíveis, mudando de lugar conforme o cômodo
imaginado. E antes mesmo que meu pensamento ... tivesse identificado o aposento..., ele — meu corpo - lembrava-se, para cada quarto, do tipo de cama, do lugar das portas, de como a luz do dia entrava pelas janelas, da existência de um corredor, com o pensamento que tivera ao adormecer e que reencontrava ao despertar.” Marcel Proust, Du Côté de Chez Swann, vol. 1, p. 15.
[K 8a, 2]
Proust sobre noites de sono profundo após um grande cansaço: “Elas nos fazem reencontrar, ali onde nossos músculos fincam e retorcem suas ramificações aspirando a vida nova, o jardim onde fomos crianças. Não é preciso viajar para revê-lo; é preciso descer para reencontrá-lo. O que um dia cobriu a terra não está mais sobre ela, mas abaixo; para visitar a cidade morta, não basta uma mera excursão  é preciso fazer escavações.” As palavras contradizem a orientação de sair à procura dos lugares onde fomos crianças. Elas mantêm, no entanto, seu significado também como crítica à memória voluntária. Marcei Proust, Le Côté de Guermantes, vol. I, Paris, 1920, p. 82.
[K 9, 1]

Articulação entre a obra proustiana e a obra de Baudelaire: “Uma das obras-primas da literatura francesa, Sylvie, de Gérard de Nerval, assim como o livro Mémoires dOutre-Tombe ... oferece uma sensação do mesmo tipo que a do gosto da madeleine... Em Baudelaire, enfim, essas reminiscências, mais numerosas ainda, são evidentemente menos fortuitas e, portanto, a meu ver, decisivas. É o próprio poeta que, com uma escolha mais ampla e com mais preguiça, procura voluntariamente, no perfume de uma mulher, por exemplo, de sua cabeleira e de seu seio, as analogias inspiradoras que lhe evocarão o azul do céu imenso e redondo’, e um porto cheio de velas e mastros’. Eu ia procurar lembrar-me das peças de Baudelaire que se baseiam, da mesma forma, em uma sensação transposta, para colocar-me decididamente numa filiação tão nobre, e assim assegurar-me de que a obra, que não hesitaria empreender, merecia o esforço que iria lhe consagrar, quando, tendo chegado ao fim da escada..., encontrei-me ... no meio de uma festa.” Marcel Proust, Le Temps Retrouvé, vol. II, Paris, 1927, pp. 82-83.
[K 9, 2]
“O homem só é homem na superfície. Levante a pele, disseque: aqui começam as máquinas. Depois, você se perde numa substância inexplicável, estranha a tudo o que você conhece e que é, entretanto, o essencial.” Paul Valéry, Cahier B, 1910, Paris, 1930, pp. 39-40.
[K 9, 3]
 
8 Originalmente erguido na cidade egípcia de Luxor, durante o reinado do faraó Ramses II, o obelisco foi transportado em 1831 para a Place de la Concorde, em Paris. Nesta praça, a antiga Place de la Révolution, funcionava de 1793 a 1795 a guilhotina. (E/M) 
9 Romance escrito por Victor Hugo entre 1866 e 1868. (E/M; w.b.)
10 Aldous Huxley, Beyond the Mexique Bay, Londres, Chatto and Windus, 1934, pp. 56 e 60. (E/M) 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.