Linha 408A/10 terá alteração do ponto inicial, inviabilizando o retorno dos trólebus; remoção da rede aérea já é dada como certa nos bastidores da SPTrans
Thiago Silva, Técnico em Transporte Rodoviário, Técnico em Transporte Ferroviário e Tecnólogo em Transporte Terrestre
Com pouca divulgação, a São Paulo Transporte (SPTrans) acaba de anunciar uma alteração no ponto inicial da pioneira linha trólebus, hoje operada com veículos a bateria. De acordo com um informativo em sua página, a linha 408A/10 – Machado de Assis/Cardoso de Almeida, a partir da próxima segunda, dia 23 de março, terá seu ponto inicial na Rua José do Patrocínio.
A partir desta data, a linha, no sentido Machado de Assis, após a Rua Topázio, fará uma conversão à esquerda, acessando a Rua Paula Ney, seguindo direto até a Rua José do Patrocínio, finalizando seu itinerário nesta via, ao lado da Praça Rosa Alves da Silva. Na volta, a linha sairá deste ponto terminal, fazendo conversão à direita na Rua Machado de Assis, seguindo o traçado atual. Na prática, a linha deixará de atender a Rua Paula Ney entre a Rua Topázio e a Rua Machado de Assis. Neste trecho, há um ponto de ônibus na altura do número 926. O motivo alegado pela SPTrans é “melhorar a operação da linha”.
Entretanto, informações extraoficiais dão conta de que essa mudança possa ter partido de uma imposição de um desembargador que mora na rua em frente ao ponto inicial da linha, e não quer os ônibus e trólebus estacionados no local. Caso isso seja verídico, é de se lamentar que um desembargador tenha tamanho poder para mexer com a vida das pessoas, ao ponto de alterar sua rotina a partir do novo itinerário. Nada mais é do um claro sinal de abuso de poder. E por mais que não possamos provar isto, é muito suspeito fazer a alteração de uma linha em plena segunda-feira, quando o comum da SPTrans é realiza-las aos sábados. Soa como algo forçado, uma pressão fora do normal.
Com essa alteração, a linha perde totalmente a possibilidade de ter os trólebus de volta em sua operação, já que o novo trecho não possui rede aérea. Hoje, com o itinerário 100% coberto, a Ambiental Transportes, concessionária operadora, pode colocar os trólebus a qualquer momento, dependendo de suas necessidades operacionais. É o que vem acontecendo com a linha 2002/10, que embora opere de forma predominante com veículos a bateria, regularmente são vistos trólebus nela.
Vai mesmo melhorar a operação da linha?
Para o blog, trata-se de um argumento muito frágil (por parte da SPTrans) ou uma imposição absurda (considerando exigência do desembargador). Com essa alteração, a linha deixará de trafegar pela Rua Guimarães Passos. Se o objetivo é não atender esta via, bastaria manter o ponto inicial da linha na rotatória da Rua Machado de Assis ao lado da praça, como ocorria até meados dos anos 90. Para quem não se recorda, a rede aérea contornando Praça Rosa Alves da Silva foi instalada na segunda metade dos anos 90, permitindo mais espaço aos trólebus. Entretanto, a frota da linha hoje é menor do que daquela época, logo, o ponto inicial anterior possui capacidade normal.
Outra análise importante é sobre o trecho da Rua Paula Ney que a linha passará a trafegar. Neste local, além de não ter parada de ônibus, a via é estreita. Há uma ciclofaixa bidirecional em um sentido e a permissão de estacionar no outro sentido. Considerando que os veículos a bateria que operam na linha hoje são do modelo de 15 metros, certamente haverá dificuldades operacionais. Lembrando que a conversão à esquerda a partir da Rua Topázio para a Rua Paul Ney possui um ângulo extremamente acentuado.
Observando friamente, não há justificativa plausível para essa alteração. O que esse espera em mudanças de itinerários, são traçados fluídos, que aumentem o atendimento e que avancem por locais hoje desprovidos de transporte. E a linha 408A/10 tem um potencial enorme, conforme mostramos neste artigo aqui onde, onde fizemos uma estimativa de como poderia ser a rede de trólebus do ano 2000 adequada para a realidade atual. E a linha 408A/10 está com nossas sugestões.
Remoção da rede aérea
A alteração do traçado é apenas a parte “menos pior” desta situação. Segundo informações apuradas pelo Plamurb, a remoção da rede aérea no trecho usado pela linha 408A/10 já é considerada pela prefeitura. Isso significa que os cabos seriam removidos entre as ruas Pires da Mota e Machado de Assis, pelo lado sul, e entre as ruas Marques de Itu e Cardoso de Almeida, pelo lado norte. E isso sim é grave e preocupante. Em outras palavras, essa alteração sem fundamento algum tem como pano de fundo a justificativa para remover a rede aérea e evitar qualquer chance de retorno dos trólebus no futuro. Notem que no passado, a linha 408A/10 já ficou dois grandes períodos sem operar com trólebus, mas a rede aérea permaneceu intocada, o que permitiu seu retorno em seguida.
Vale lembrar, que toda a rede de trólebus passou por um processo de modernização da década passada, com a substituição dos cabos, suportes (flexíveis), segmentos, postes e demais componentes da infraestrutura de trólebus. A remoção seria um desperdício financeiro.
Outrossim, a remoção da rede aérea da 408A/10, abre margem para a desativação das linhas 4112/10 e 4113/10, uma vez que a redução da malha, impacta no aumento dos custos globais, visto para a operação com trólebus se exige uma infraestrutura mínima. Lembrando, ainda, que a linha 4113/10 sofre com a falta de uma subestação que iria suprir as necessidades.
Ação no MP e no TCM podem ter potencializado essa decisão?
Embora seja algo que não possamos cravar, não nos surpreenderia se esta decisão fosse, digamos, uma retaliação a dois processos que correm “em segredo” no Ministério Público (MP) e no Tribunal de Contas do Município (TCM).
No TCM, corre uma denúncia de improbidade administrativa à ação prevista pelo prefeito de São Paulo em desativar, prematuramente, o sistema trólebus. Pelo MP, não conseguimos maiores detalhes, mas nos parece ser uma denúncia do mesmo teor.
Sendo assim, essa imposição do desembargador que levou à alteração do itinerário da 408A/10, veio em momento oportuno, onde a gestão municipal do prefeito Ricardo Nunes (MDB), já declarou abertamente a intenção de desativar o sistema trólebus paulistano.
Trólebus IMC/e-Trol
Enquanto a prefeitura se esforça ao máximo para sufocar o sistema trólebus e levar adiante o processo criminoso de desativação do sistema, diversas cidades pelo mundo investem exaustivamente em trólebus ultramodernos, dotamos de um banco de baterias que permite trafegar por longos trechos sem rede aérea. É o caso, por exemplo da Cidade do México, que viveu situação semelhante a São Paulo, mas apostou nos trólebus. A tecnologia está aí, mas a prefeitura se nega a apreciar para, no mínimo, testar nas ruas paulistanas.
Chamado de trólebus IMC (In Motion Charging), essa nova tecnologia anula todos as adversidades enfrentadas pelo trólebus comum. Mudanças de traçado como a da linha 408A/10 certamente seriam superadas com o trólebus IMC. Mas a “boa” vontade da prefeitura enxerga dificuldade em tudo.
E pensar que daqui praticamente um mês, o sistema trólebus paulistano completa 77 anos de operação, que começou, justamente com a 408A/10. Que belo presente para a tecnologia, para a cidade e para seus defensores.
”
Ando de trólebus faz quase 5 décadas. Outro dia comentei sobre este assunto, o fim dos Trólebus, com um dos cobradores antigos, que me conhece (como tantos outros cobradores, motoristas e funcionários de transporte público).
É curioso o responsável pelo desvio ser desembargador. Sou filho de um desembargador aposentado e uso este veículo desde que meu pai era juiz.
Transporte onde vou com tranquilidade até o centro, pegando ele no Parque Buenos Aires (e, algumas vezes, vou até o parque Aclimação) ou, do outro lado, até a Cardoso de Almeida, esperando sentado no prédio do Vilanova Artigas. Esperar ele, para voltar, no Páteo do Colégio, na frente da Casa Godinho ou do Theatro Municipal.
Estou para ir pegar umas coisas (LPs) de um apartamento em frente a praça Rosa Alves da Silva (no Trólebus que não é mais Trólebus). Imagina se eu cruzo com ele no elevador, sem saber?


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