8.7.26

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<fase tardia>
Sobre “Um rio subterrâneo em Paris”, que foi coberto em grande parte no começo do século XVII: “O rio ... assim ... descia gradualmente o declive em direção à casa que, já no século XV, tinha dois salmões como insígnia, e que deu lugar à passagem de mesmo nome. Lá, tendo se avolumado com as águas que vinham dos Halles, ele se afundava sob a terrà, no lugar em que hoje começa a rua Mandar, e onde a entrada do grande esgoto, que ficou aberta durante muito tempo, deu passagem aos bustos de Marat e de Saint-Fargeau ... depois do Termidor... O rio se perdia ... no Sena, bem embaixo da cidade... Foi o suficiente para que o rio lodoso empesteasse em sua passagem os bairros que atravessava, e que formavam uma das partes mais populosas de Paris... Quando irrompeu a peste, via-se que ela surgia primeiro nas ruas em que o rio, com sua vizinhança infecta, produzia antecipadamente fixos de pestilência.” Édouard Fournier, Énigmes des Rues de Paris, Paris, 1860, pp. 18-19, 21-22 (“Une rivière souterraine dans Paris”).
[l 2, 1]
[...]
m

[ÓCIO e Ociosidade]1
 
 1 Neste arquivo temático, o ócio tradicional, aristocrático, criativo (o otium dos Romanos; o alemão Muße: o francês loisir, o inglês leisure) é confrontado com a ociosidade moderna (respectivamente Müßiggang, oisiveté e idleness). No sistema de valores burguês, baseado no negócio (de nec-otiumnegação do ócio), o ócio dos antigos e da sociedade aristocrática  isto é, o privilégio de estar livre da obrigação de trabalhar  é visto como algo superado e depreciado como ociosidade, ou seja, “indolência e preguiça. Por outro lado, a ociosidade moderna é um protesto contra a fetichização burguesa do trabalho. Nossa distinção entre ociosidade e ócio procura reproduzir a diferenciação entre Müßiggang e Muße, tentando expressar, ao mesmo tempo, através da afinidade fonética, a dialética da mudança e da continuidade históricas. (J.L.; w.b.)
 
<fase tardia>

Entrecruzamento notável: na Grécia antiga, o trabalho prático era reprovado e proscrito; embora fosse executado essencialmente por mãos escravas, era condenado principalmente por revelar uma aspiração vulgar por bens terrenos (riqueza); ademais, esta concepção serviu para a difamação do comerciante, apresentando-o como servo de Maramon: “Platão prescreve, nas Leis (VIII, 846), que nenhum cidadão deve exercer profissão mecânica; a palavra banausos, que significa artesão, torna-se sinônimo de desprezível...; tudo o que é artesanal ou envolve trabalho manual traz vergonha e deforma a alma e o corpo ao mesmo tempo. Em geral, os que exercem tais ofícios ... só se empenham para satisfazer ... o ‘desejo de riqueza, que nos priva de todo tempo de ócio...’ Aristóteles, por sua vez, opõe aos excessos da crematística [arte de adquirir riquezas] ... a sabedoria da economia doméstica... Assim, o desprezo que se tem pelo artesão estende-se ao comerciante: em relação à vida liberal, ocupada pelo ócio do estudo (scolé, otium), o comércio e ‘os negócios (neg-otium, ascolía) não têm, na maioria das vezes, senão um valor negativo.” Pierre-Maxime Schuhl, Machinisme et Philosophie, Paris, 1938, pp. 11-12.
[m 1, 1]
Quem desfruta do ócio, escapa da Fortuna; quem se rende à ociosidade, não lhe escapa. A Fortuna que o aguarda na ociosidade é, contudo, uma deusa menor do que aquela da qual escapou quem se entregou ao ócio. Esta Fortuna não se sente mais em casa na vita activa; seu quartel general é a vida mundana. “Os imaginários da Idade Média representam os homens que se dedicam à vida ativa ligados à roda da Fortuna, elevando-se ou rebaixando-se segundo O sentido em que ela gira, enquanto o contemplativo permanece imóvel no centro.” P.-M. Schuhl, Machinisme et Philosophie, Paris, 1938, p. 30.
[m 1, 2]
Sobre a caracterização do ócio. Sainte-Beuve no ensaio sobre Joubert: ‘“Conversar e conhecer, era sobretudo nisso que consistia, segundo Platão, a felicidade da vida privada.’ Esta classe de conhecedores e amadores ... quase desapareceu na França depois que cada um assumiu um ofício.” Correspondance de Joubert, Paris, 1924, p. XCIX.
[m 1, 3]
Na sociedade burguesa, a preguiça — para usar uma palavra de Marx — tinha deixado de ser “heróica” (Marx fala da “vitória ... da indústria sobre a preguiça heróica”. Bilanz der preußischen Revolution, em Gesammelte Schriften von Karl Marx und Friedrich Engels, vol. III, Smrtgart, 1902, p. 211.)
[m 1a, 1]
Na figura do dândi, Baudelaire procura encontrar para a ociosidade uma utilidade como aquela que o ócio tinha anteriormente. A vita contemplativa é representada e substituída por algo que se poderia chamar de vita contemptiva. (Comparar com a parte III de meu manuscrito <“Das Paris des Second Empire bei Baudelaire”>.)2
 2 W. Benjamin, Die Moderne, GS 1, 570-604  A Modernidade, OE III, pp. 67-101. (w.b.)
[m 1a, 2]

A experiência [Erfahrung] é o fruto do trabalho, a vivência [Erlebnis] é a fantasmagoria do ocioso.
3
3 Um traço marcante do pensamento de Benjamin é a diferenciação entre experiência e vivência. Enquanto Erfahrung (do verbo erfahren, que originalmente significava viajar", atravessar) pressupõe tradição e continuidade: Erlebnis, que é algo mais espontâneo, implica em choque e descontinuidade. Em notas relacionadas com o ensaio Über einige Motive bei Baudelaire (Sobre Alguns Temas em Baudelaire), Benjamin escreve que as vivências são, por natureza, não utilizáveis para a produção poética e que se trata de transformar as vivências em experiências (GS I, 1183). (E/M)
[m 1a, 3]
No lugar do campo de força que a humanidade perde com a desvalorização da experiência, um novo campo se abre para ela na forma do planejamento. A massa das uniformidades desconhecidas é mobilizada para fazer face à diversidade comprovada do tradicional. “Planificar”, a partir de então, só é possível em grande escala. Não mais em escala individual, isto é, nem para o indivíduo, nem por meio dele. Valéry tem razão ao dizer: “Os projetos elaborados ao longo de muito tempo, os profundos pensamentos de um Maquiavel ou de um Richelieu teriam hoje a consistência e o valor de um bom palpite na Bolsa de Valores.” Paul Valéry, Œuvres Complètes, J, Paris, 1938, p. 30.
[m 1a, 4]
[...]
A ociosidade possui poucos elementos representativos, embora seja muito mais exibida que o ócio. O burguês começou a envergonhar-se do trabalho. Ele, para quem o ócio não tem mais um significado em si mesmo, gosta de exibir sua ociosidade.
[m 2, 2] 
[...]
Estudante e caçador. O texto é uma floresta na qual o leitor é o caçador. Rumores na floresta: a idéia — a presa arisca; a citação — uma peça do quadro. (Nem todo leitor consegue encontrar a idéia.)
[m 2a, 1]
[...]
Na sociedade feudal, o ócio a desobrigação do trabalho — era um privilégio reconhecido. Na sociedade burguesa não é mais assim. O que distingue o ócio, tal como o conhece o feudalismo, é o fato de ele se comunicar com dois tipos importantes de comportamento social. A contemplação religiosa e a vida na corte representam, por assim dizer, as matrizes em que podia ser moldado o ócio do nobre, do prelado, do guerreiro. Estas atitudes — tanto a da piedade quanto a da representação  traziam vantagens ao poeta. Sua obra as favorecia pelo menos indiretamente, ao preservar o contato com a religião e com a vida na corte. (Voltaire foi o primeiro dos grandes escritores a romper com a Igreja, mas não deixou de assegurar para si um lugar na corte de Frederico, o Grande.) Na sociedade feudal, o ócio do poeta é um privilégio reconhecido. É somente na sociedade burguesa que o poeta é considerado como alguém que vive na ociosidade.
[m 2a, 5]
A ociosidade procura evitar qualquer relação com o trabalho de quem é ocioso, e mesmo qualquer relação com o processo de trabalho em geral. Isto diferencia a ociosidade do ócio.
[m 3, 1] 
[...]
O abalo da experiência relaciona-se intimamente com o abalo das certezas jurídicas. “No período liberal, o poder econômico estava intimamente ligado à propriedade jurídica dos meios de produção... Mas a rápida concentração ... do capital no século passado, impulsionada pelo desenvolvimento da técnica, fez com que a maior parte dos proprietários, em termos legais, fosse afastada da direção dos negócios... Uma vez que os meros detentores de títulos de propriedade são separados da produção efetiva..., restringe-se o seu horizonte ... e, por fim, o benefício que ainda obtêm de sua propriedade ... parece socialmente inútil... A idéia de um direito autônomo, com um conteúdo estável e independente da sociedade como um todo, perde sua força.” Ocorre assim “a abolição de todo direito determinado pelo conteúdo..., que é levada a cabo nos Estados autoritários”. Max Horkheimer, “Traditionelle und kritische Theorie, Zeitschrift für Sozialforschung, <ano VI>, 1937, n° 2, pp. 285-287; cf. Horkheimer, “Bemerkungen zur philosophischen Anthropologie”, op. cit., <ano IV>, n° 1, p. 12.
[m 3, 3]
[...]
Sobre o folhetim. Tratava-se, por assim dizer, de injetar na experiência, por via intravenosa, o veneno da sensação; isto quer dizer: ressaltar na experiência comum o caráter de vivência. A isto se prestava, em primeiro lugar, a experiência do habitante das grandes cidades. O folhetinista tira proveito disso. Ele torna a grande cidade estranha para os seus habitantes. Desta forma, ele é um dos primeiros técnicos convocados pela necessidade premente de vivências. (A mesma necessidade manifesta-se com a teoria da “beleza moderna”, tal como proposta por Poe, Baudelaire e Berlioz. A surpresa constitui-se nela como um elemento dominante.)
[m 3a, 2]
O processo de estiolamento da experiência começa já na manufatura. Em outras palavras: ele coincide, em seus primórdios, com os primórdios da produção de mercadorias. (Cf. Marx, Das Kapital, vol. I, ed. Korsch, Berlim, 1932, p. 336.)
[m 3a, 3]
A fantasmagoria é o correlato intencional da vivência.
[m 3a, 4]
Assim como o processo de trabalho industrial se destaca do artesanato, também a forma de comunicação correspondente a esse processo de trabalho — a informação — destaca-se da forma de comunicação correspondente ao processo de trabalho artesanal, que é a narração. (Cf. Walter Benjamin, “Der Erzähler”, Orient und Occident , nova série, n° 3, outubro de 1936, p. 21, parágrafo 3 até p. 22, parágrafo 1, linha 3; p. 22, parágrafo 2, linha 1 ate o fim, da citação de Valéry).5 É preciso prestar atenção a esta correlação para se ter uma idéia da força explosiva contida na informação. Esta força explode na sensação. Com ela, arrasa-se tudo que ainda evoca a sabedoria, a tradição oral, o lado épico da verdade.
5 W. Benjamin, “Der Erzähler”, GS II, 447, linhas 13-20; e 448, linhas 16-33; 0 Narrador, OE I, p. 205, linhas 15-22; e p. 206, linhas 14-29. (R.T.; w.b.)
[m 3a, 5]
[...]
O verdadeiro “flâneur assalariado” (Henri Béraud) é o homem-sanduíche.
[m 4, 2]
[...]
Pode-se deixar em suspenso a questão de saber se e em que sentido o ócio é determinado pela ordem de produção que o torna possível. Em vez disso, deve-se procurar elucidar o quão profundamente arraigados na ociosidade estão os traços da ordem econômica capitalista em que ela viceja.  Por outro lado, a ociosidade na sociedade burguesa — que desconhece o ócio — é uma condição da produção artística. E freqüentemente é a própria ociosidade que marca aquela produção artística de forma drástica com os traços que evidenciam seu parentesco com o processo de produção econômico.
[m 4a, 4]
O estudante “nunca termina de aprender”, o jogador “nunca se contenta com o que tem”, o flâneur “sempre tem algo a mais para ver”. A ociosidade traz em si o desígnio de uma duração ilimitada, que a distingue do simples prazer sensorial de qualquer natureza. (Seria correto dizer que o “mau infinito”, que predomina na ociosidade, aparece em Hegel como marca da sociedade burguesa?)
[m 5, 1]  
[...]
As palavras de Flaubert  “poucas pessoas serão capazes de imaginar como foi preciso estar triste para ressuscitar Cartago”9 — tornam transparente a correlação entre estudo e melancolia. (Esta, decerto, ameaça não somente esta forma de ócio, como também toda forma de ociosidade.) Cf. “mon âme est triste et j’ai lu tous les livres” [minha alma está triste e li todos os livros] (Mallarmé); “Spleen II” e “La voix” (Baudelaire); “Habe nun ach” [Ai de mim!] (Goethe ).10
9 Cf. a tese VII de W. Benjamin, Über den Begríff der Geschíchte, GS I, 696; Teses, p. 70. (w.b.)
10 Benjamin cita de memória um verso do poema Brise Marine, de Mallarmé: La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres.[A carne é triste, sim, e eu li todos os livros. Mallarmé, ed. org. e trad. por Augusto de Campos (, Decio Pignatari e Haroldo de Campos), São Paulo/Editora Perspectiva, 2002, p. 44]; cf. J 87,5.  A citação de Goethe é o início do primeiro monólogo (Noite) de Fausto: Ai de mim! Da filosofia / Medicina, jurisprudência, / E, mísero eu! da teologia, / 0 estudo fiz, com máxima insistência. Fausto, ed. org. por Marcus Mazzari, trad. de Jenny Klabin Segai, São Paulo/Editora 34, 2004, p. 63. (J.L.; w.b.)  
[m 5, 3]
O elemento especificamente moderno se manifesta em Baudelaire sempre como complemento do elemento especificamente arcaico. No flâneur, cuja ociosidade o faz percorrer uma cidade imaginária de passagens, o poeta encontra o dândi (o dândi que se movimenta pela multidão sem dar atenção aos esbarrões a que está exposto). Entretanto, existe também no flâneur uma criatura há muito desaparecida, que lança um olhar sonhador que atinge fundo o coração do poeta. Trata-se do “filho da selva”, o homem a quem uma natureza generosa outrora prometeu o ócio. O dandismo é o último lampejo do heróico em tempos de decadência. É com prazer que Baudelaire encontra em Chateaubriand uma referência a dândis índios, um testemunho do tempo de antigo esplendor dessas tribos.
[m 5, 4]
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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