VIII
O Cão e o Frasco
— Meu belo cão, meu cãozinho,
meu querido totó, vem cá, vem respirar um excelente perfume comprado
no melhor perfumista da cidade .
E o cão, agitando a cauda, o que é, suponho, entre esses pobres seres, o sinal correspondente ao riso e
ao sorriso, aproxima-se e, curioso, mete o nariz úmido no frasco
destampado; porém subitamente, recuando de susto, late contra mim, à
feição de reprimenda .
— Ah, miserável cão! Se eu te houvesse
oferecido um embrulho de excremento, decerto o cheirarias com delícia e
talvez o tivesses devorado. Assim, ó indigno companheiro de minha
triste vida, tu te assemelhas ao público, a quem nunca se devem
apresentar perfumes delicados, que o exasperam, mas imundíces
cuidadosamente escolhidas.
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris], tradução Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, tradução do poema epílogo de Manuel Bandeira / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

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