ANEXOS
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PRIMEIRA VERSÃO DO EXPOSÉ DE 1935
<Paris, a capital do século XIX>
<Paris, a capital do século XIX>
I. Fourier ou as passagens
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“Cada época sonha a seguinte.”
Míchelet, Avenir! Avenir!
À forma do novo meio de produção, que no início ainda é dominada por aquela do antigo (Marx), correspondem na superestrutura social imagens de desejo nas quais o novo e o antigo se interpenetram de maneira fantástica. Esta inter-relação adquire seu caráter fantástico principalmente pelo fato de o antigo nunca se destacar de maneira nítida em relação ao novo no decorrer do desenvolvimento social, mas o novo, em seu empenho de distinguir-se do antigo, renova elementos arcaicos, primevos. As imagens utópicas que acompanham a eclosão do novo recorrem sempre, de maneira concomitante, a um passado primevo. No sonho, onde diante dos olhos de cada época surge em imagens a época seguinte, esta aparece associada a elementos da história primeva. Os reflexos da infra-estrutura pela superestrutura são, portanto, inadequados, não porque teriam sido conscientemente falsificados pelas ideologias da classe dominante, mas porque o novo, para tomar a forma de uma imagem, sempre associa seus elementos àqueles da sociedade sem classes. O inconsciente coletivo tem neles uma participação maior do que a consciência do coletivo. É dele que se originam as imagens da utopia que deixaram seu rastro em mil configurações da vida, desde as construções até as modas.
Estas relações podem ser identificadas na utopia de Fourier...
[GS V, 1224-1225]
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V. Baudelaire ou as ruas de Paris
[1] O engenho de Baudelaire, em sua afinidade com o spleen e a melancolia, é um engenho alegórico. “Tudo para mim torna-se alegoria.” Paris como objeto da visão alegórica. O olhar alegórico como olhar daquele que se sente um estranho. Indiferença do flâneur.
O flâneur como contraponto da “multidão”. A multidão londrina em Engels. O homem da multidão em Poe. O flâneur completo é um bohémien, um desenraizado. Ele não se sente em casa em sua classe e sim apenas na multidão, isto é, na cidade. Excurso sobre o bohémien. Seu papel nas sociedades secretas. Característica do conspirateur profissional. O fim da antiga bohémien. Sua cisão em oposição legal e oposição revolucionária.
A posição híbrida de Baudelaire. Seu refugio junto aos elementos associais. Ele vive com uma prostituta. {A teoria estética da arte pela arte. Ela se origina da intuição do artista de que doravante ele será obrigado a produzir para o mercado.}
O motivo da morte na poesia de Baudelaire. Ele se confunde com sua imagem de Paris. Excurso sobre o lado ctônico da cidade de Paris. Rastros topográficos da pré-história: o antigo leito do Sena. Os rios subterrâneos. As catacumbas. Lendas da Paris subterrânea. Conspiradores e communards nas catacumbas. O mundo subaquático das passagens. Seu significado para a prostituição. Ênfase no caráter de mercadoria da mulher no mercado do amor. A boneca como símbolo de desejo.
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A arte em sua luta contra seu caráter de mercadoria. Sua capitulação diante da mercadoria como arte pela arte. A gênese da obra de arte total a partir do espírito da arte pela arte. A sedução exercida por Wagner sobre Baudelaire.
[2] O engenho de Baudelaire, que se alimenta da melancolia, é um engenho alegórico. “Tudo para mim torna-se alegoria.” Com Baudelaire, pela primeira vez, Paris torna-se objeto da poesia lírica. Não como a cidade natal, ao contrário, o olhar que o alegórico lança sobre ela é o olhar do homem que ali se sente um estranho.
O flâneur é um desenraizado. Ele não se sente em casa nem em sua classe, nem na sua cidade natal e sim apenas na multidão. A multidão é o seu elemento. A multidão londrina em Engels. O homem da multidão em Poe. A fantasmagoria do flâneur. A multidão como véu através do qual a cidade familiar transparece metamorfoseada. A cidade como paisagem e aposento. [...]
O flâneur como bohémien. Excurso sobre o bohémien. Ele nasce simultaneamente ao mercado da arte. Ele trabalha para o grande público anônimo da burguesia, não mais para o mecenas feudal. Ele constitui o exército de reserva da intelectualidade burguesa. Suas primeiras participações nas conspirações do exército dão lugar mais tarde às participações nas insurreições do operariado. Ele se torna um conspirador profissional. Falta-lhe a formação política. Incerteza quanto à consciência de classe. Revolução “política” e social . O Manifesto Comunista como seu atestado de óbito. A bohéme divide-se em uma oposição legal e uma oposição anarquista. Seu refúgio junto aos elementos associais.
O motivo da morte interpenetra-se na poesia de Baudelaire com a imagem de Paris. Os “Tableaux parisiens”, o Spleen de Paris. Excurso sobre o lado ctônico da cidade de Paris. O antigo leito do Sena. Os rios subterrâneos. Lendas da Paris subterrânea. Conspiradores e communards nas catacumbas. Nelas, o lusco-fusco. Sua ambigüidade. Elas se encontram entre raca e rua, entre o largo e o pavilhão. O mundo subaquático das passagens. Seu significado para a prostituição. Ênfase no caráter de mercadoria da mulher no mercado do amor. A boneca como símbolo de desejo.
O engenho de Baudelaire, que se alimenta da melancolia, é um engenho alegórico. Com Baudelaire, pela primeira vez, Paris torna-se objeto da poesia lírica.
[2] O engenho de Baudelaire, que se alimenta da melancolia, é um engenho alegórico. “Tudo para mim torna-se alegoria.” Com Baudelaire, pela primeira vez, Paris torna-se objeto da poesia lírica. Não como a cidade natal, ao contrário, o olhar que o alegórico lança sobre ela é o olhar do homem que ali se sente um estranho.
O flâneur é um desenraizado. Ele não se sente em casa nem em sua classe, nem na sua cidade natal e sim apenas na multidão. A multidão é o seu elemento. A multidão londrina em Engels. O homem da multidão em Poe. A fantasmagoria do flâneur. A multidão como véu através do qual a cidade familiar transparece metamorfoseada. A cidade como paisagem e aposento. [...]
O flâneur como bohémien. Excurso sobre o bohémien. Ele nasce simultaneamente ao mercado da arte. Ele trabalha para o grande público anônimo da burguesia, não mais para o mecenas feudal. Ele constitui o exército de reserva da intelectualidade burguesa. Suas primeiras participações nas conspirações do exército dão lugar mais tarde às participações nas insurreições do operariado. Ele se torna um conspirador profissional. Falta-lhe a formação política. Incerteza quanto à consciência de classe. Revolução “política” e social . O Manifesto Comunista como seu atestado de óbito. A bohéme divide-se em uma oposição legal e uma oposição anarquista. Seu refúgio junto aos elementos associais.
O motivo da morte interpenetra-se na poesia de Baudelaire com a imagem de Paris. Os “Tableaux parisiens”, o Spleen de Paris. Excurso sobre o lado ctônico da cidade de Paris. O antigo leito do Sena. Os rios subterrâneos. Lendas da Paris subterrânea. Conspiradores e communards nas catacumbas. Nelas, o lusco-fusco. Sua ambigüidade. Elas se encontram entre raca e rua, entre o largo e o pavilhão. O mundo subaquático das passagens. Seu significado para a prostituição. Ênfase no caráter de mercadoria da mulher no mercado do amor. A boneca como símbolo de desejo.
“Tudo para mim torna-se alegoria.”
Baudelaire, Le Cygne.
O engenho de Baudelaire, que se alimenta da melancolia, é um engenho alegórico. Com Baudelaire, pela primeira vez, Paris torna-se objeto da poesia lírica.
[GS V, 1231-1232]
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“É fácil descer o Averno.”
Virgílio, Eneida.
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A
imprensa organiza o mercado de valores espirituais provocando a
princípio uma alta dos preços. Eugène Sue torna-se a primeira
celebridade do folhetim. Os inconformados rebelam-se
contra o caráter de mercadoria da arte. Agrupam-se sob a bandeira da
arte pela arte. Deste lema origina-se a concepção da obra de arte total
que tenta proteger a arte, rornandoa impermeável ao desenvolvimento da
técnica. A obra de arte total é uma síntese prematura que carrega em si o
germe da morte. A solenidade com a qual este culto é celebrado é o
contraponto dos divertimentos que cercam a apoteose da mercadoria. Ambas
fazem abstração em suas sínteses da existência social do homem.
Baudelaire sucumbe à sedução de Wagner.
[GS V, 1233-1234]VI. Haussmann ou o embelezamento estratégico de Paris
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... aumentou o risco financeiro da haussmannização.
A exposição universal de 1867 foi o apogeu do regime e do poder de Haussmann. Paris afirma-se como a capital do luxo e das modas. Excurso sobre o significado político da moda. As mudanças da moda deixam intacta a substância da dominação. A moda faz passar o tempo para os que são dominados, um tempo que é fruído pelos dominadores. As concepções de F.Th.Vischer.
Haussmann tenta reforçar sua ditadura...
A exposição universal de 1867 foi o apogeu do regime e do poder de Haussmann. Paris afirma-se como a capital do luxo e das modas. Excurso sobre o significado político da moda. As mudanças da moda deixam intacta a substância da dominação. A moda faz passar o tempo para os que são dominados, um tempo que é fruído pelos dominadores. As concepções de F.Th.Vischer.
Haussmann tenta reforçar sua ditadura...
[GS V, 1234]
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“Mostra, desvendando teu ardil,
Ó república, a esses perversos.
Tua grande face de Medusa
Por entre rubros clarões.”
Canção de operários, por volta de 1850.
A barricada ressurge na Comuna. Ela está mais forte e mais protegida do que nunca. Estende-se pelos grandes boulevards e esconde trincheiras situadas atrás dela. Assim como o Manifesto Comunista encerra a época dos conspiradores profissionais, também a Comuna põe fim à fantasmagoria de que o proletariado e sua república estariam encarregados de completar a obra de 1789. Esta fantasmagoria domina os quarenta anos desde a insurreição de Lyon até a Comuna parisiense. A bourgeoisie não compartilhou desse erro.
[GS V, 1235-1236]
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[1] {Balzac foi o primeiro a falar das ruínas da burguesia. Porém, ainda nada sabia a respeito delas. Quem lançou o primeiro olhar sobre o campo de ruínas que o desenvolvimento capitalista das forças produtivas deixou atrás de si foi o Surrealismo.}
Porém, apenas o Surrealismo permitiu o olhar livre sobre esse campo de ruínas. Elas se tornaram para ele objeto de uma pesquisa não menos apaixonada do que os vestígios da Antigüidade clássica para os humanistas do Renascimento. Pintores como Picasso ou Chirico fazem alusão a essa analogia. Este confronto impiedoso entre o passado mais recente e o presente é algo historicamente novo. Outros membros vizinhos na cadeia de gerações encontravam-se na consciência coletiva, mal se distinguindo uns dos outros no coletivo. O presente, porém, já se encontra em relação ao passado mais recente assim como o despertar em relação ao sonho. O desenvolvimento das forças produtivas no decorrer do século anterior fez cair em ruínas os seus símbolos de desejo, antes mesmo que desmoronassem seus monumentos representativos e antes que amarelasse o papel sobre o qual foram registrados. Este desenvolvimento das forças produtivas no século XX emancipou as formas plásticas da arte, assim como no século XVI as ciências tinham se libertado da filosofia. O início é dado pela arquitetura enquanto obra de engenharia. Segue-se a fotografia enquanto reprodução da natureza. A criação imaginária prepara-se para tornar-se prática ao colocarse como arte gráfica a serviço da publicidade. A poesia submete-se à montagem dos folhetins. Todos esses produtos estão prestes a oferecer-se ao mercado como mercadorias. Contudo hesitam ainda no limiar. Permanecem parados no meio do caminho. Valor e mercadoria celebram um breve casamento antes que o preço de mercado legitime esta união. Desta época originam-se as passagens e os intérieurs, os pavilhões de exposição e os panoramas. São resquícios de um mundo onírico. Mas como a utilização dos elementos oníricos no momento do despertar é o caso exemplar do pensamento dialético, o pensamento dialético é o órgão do despertar histórico. Apenas o pensamento dialético está à altura do passado mais recente, porque ele sempre é seu resultado. Cada época sonha não apenas a próxima, mas ao sonhar, esforça-se em despertar. Traz em si mesma seu próprio fim e o desenvolve — como Hegel já o reconheceu — com astúcia. Há muito tempo que os primeiros monumentos da burguesia começaram a desmoronar, mas nós reconhecemos pela primeira vez como estavam destinados a isso desde o início.
Porém, apenas o Surrealismo permitiu o olhar livre sobre esse campo de ruínas. Elas se tornaram para ele objeto de uma pesquisa não menos apaixonada do que os vestígios da Antigüidade clássica para os humanistas do Renascimento. Pintores como Picasso ou Chirico fazem alusão a essa analogia. Este confronto impiedoso entre o passado mais recente e o presente é algo historicamente novo. Outros membros vizinhos na cadeia de gerações encontravam-se na consciência coletiva, mal se distinguindo uns dos outros no coletivo. O presente, porém, já se encontra em relação ao passado mais recente assim como o despertar em relação ao sonho. O desenvolvimento das forças produtivas no decorrer do século anterior fez cair em ruínas os seus símbolos de desejo, antes mesmo que desmoronassem seus monumentos representativos e antes que amarelasse o papel sobre o qual foram registrados. Este desenvolvimento das forças produtivas no século XX emancipou as formas plásticas da arte, assim como no século XVI as ciências tinham se libertado da filosofia. O início é dado pela arquitetura enquanto obra de engenharia. Segue-se a fotografia enquanto reprodução da natureza. A criação imaginária prepara-se para tornar-se prática ao colocarse como arte gráfica a serviço da publicidade. A poesia submete-se à montagem dos folhetins. Todos esses produtos estão prestes a oferecer-se ao mercado como mercadorias. Contudo hesitam ainda no limiar. Permanecem parados no meio do caminho. Valor e mercadoria celebram um breve casamento antes que o preço de mercado legitime esta união. Desta época originam-se as passagens e os intérieurs, os pavilhões de exposição e os panoramas. São resquícios de um mundo onírico. Mas como a utilização dos elementos oníricos no momento do despertar é o caso exemplar do pensamento dialético, o pensamento dialético é o órgão do despertar histórico. Apenas o pensamento dialético está à altura do passado mais recente, porque ele sempre é seu resultado. Cada época sonha não apenas a próxima, mas ao sonhar, esforça-se em despertar. Traz em si mesma seu próprio fim e o desenvolve — como Hegel já o reconheceu — com astúcia. Há muito tempo que os primeiros monumentos da burguesia começaram a desmoronar, mas nós reconhecemos pela primeira vez como estavam destinados a isso desde o início.
[GS V, 1236-1237]
Materiais para o Exposé de 19351
1 As passagens riscadas por Benjamin no manuscrito foram colocadas entre { ... }. (R.T.)
[...]
N°4 Temas para o Trabalho das Passagens
[...]
{O intérieur (mobiliário) em Poe e Baudelaire}
[...]
N°5 [Temas para o Trabalho das Passagens II]
[...]
Os ideólogos da burguesia: Victor Hugo, Lamartine. Ao contrário: Rimbaud
[...]
Três aspectos do flanar; Balzac, Poe, Engels; os aspectos ilusionista, psicológico, econômico
[...]
[...]
{Salvação dos utópicos; as concepções de Marx e Engels sobre Fourier}
[...]
{A entronização da mercadoria em escala cósmica / mercadoria e moda}
Reclame e cartaz (comércio e política){Dominação do capital financeiro sob Napoleão III}
{Offenbach e a opereta}
A ópera como centro
{A crinolina e o Segundo Império}
Polêmica contra Jung que quer manter o despertar distante do sonho.
[Manuscrito 1 144]
BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.
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