Charles Baudelaire. Fotografia de Nadar.
XII
AS MULTIDÕES
NEM A TODOS é dado tomar um banho de multidão: gozar da multidão é uma arte; e só pode fazer, à custa do gênero humano, uma farta refeição de vitalidade, aquele em quem uma fada insuflou, no berço, o gosto do disfarce e da máscara, o horror ao domicílio e a paixão da viagem.
Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis para o poeta diligente e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só em meio a uma multidão atarefada.
O poeta goza do incomparável privilégio de ser, à sua vontade, ele mesmo e outrem. Como as almas errantes que procuram corpo, ele entra, quando lhe apraz, na personalidade de cada um. Para ele, e só para ele, tudo está vago; e, se alguns lugares parecem vedados ao poeta, é que a seus olhos tais lugares não valem a pena de uma visita.
O passeador solitário e pensativo encontra singular embriaguez nessa comunhão universal. Aquele que desposa facilmente a multidão conhece gozos febris, de que estarão privados para sempre o egoísta, fechado com um cofre, e o preguiçoso, encaramujado feito um molusco. Ele adota todas as profissões, todas as alegrias e todas as misérias que as circunstâncias lhe deparam.
Aquilo a que os homens chamam amor é muito pequeno, muito limitado e muito frágil, comparado a essa inefável orgia, a essa sagrada prostituição da alma que se dá inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.
É bom alguma vez lembrar aos felizes deste mundo, ao menos para lhes humilhar por um instante o orgulho tolo, que há felicidades superiores à deles, mais vastas e mais requintadas. Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os padres missionários exilados no fim do mundo, conhecem, por certo, algo dessas misteriosas embriaguezes; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem por vezes rir daqueles que lhes deploram o destino tão agitado e a vida tão casta.
XIII
AS VIÚVAS
DIZ VAUVENARGUES que há nos jardins públicos alamedas freqüentadas sobretudo pela ambição desiludida, pelos inventores infelizes, pelas glórias malogradas, pelos corações dilacerados, por todas essas almas tumultuosas e fechadas em que ainda murmuram os últimos suspiros de uma tormenta, e que recuam para longe do olhar insolente dos alegres e dos ociosos. Estes recantos sombrios são o ponto de reunião dos mutilados da vida.
A tais lugares é que o poeta e o filósofo gostam de encaminhar, de preferência, as suas ávidas conjeturas. Existe aí, para elas, alimento certo. Pois se há um sítio que eles desdenham de visitar, como ainda agora eu insinuava, é sobretudo a alegria dos ricos. Essa turbulência no vazio não lhes oferece o mínimo atrativo. Ao contrário, sentem-se eles irresistivelmente atraídos para tudo quanto é frágil, arruinado, aflito, órfão.
Um olhar experimentado nunca se engana com essa gente. Naqueles traços rígidos ou deprimidos, naqueles olhos cavos ou embaciados, ou cintilantes dos últimos lampejos da luta, naquelas rugas profundas e numerosas, naqueles andares tão lentos ou tão sacudidos, ele adivinha, de relance, as inumeráveis lendas do amor enganado, da dedicação anônima, dos esforços sem recompensa, da fome e do frio silenciosa e humildemente suportados.
Já tivestes ocasião de encontrar viúvas nesses bancos solitários, viúvas pobres? Estejam de luto, ou não, é fácil reconhecê-las. Aliás, há sempre no luto do pobre alguma coisa que falta, uma ausência de harmonia que o torna mais pungente. O pobre é constrangido a regatear a sua dor. O rico exibe por inteiro a sua.
Qual a viúva mais triste e mais entristecedora: a que leva pela mão uma criança com quem não pode repartir seu devaneio, ou a que está inteiramente só? Não sei... Certa vez, aconteceu-me seguir, durante longas horas, uma velha aflita desta última espécie; rija, firme, sob um xalezinho usado, mostrava em todo o ser uma altivez de estóica.
Sem dúvida era condenada, por uma absoluta solidão, a procedimentos de velho celibatário, e o caráter masculino de seus hábitos ajuntava um toque de mistério à austeridade. Não sei em que miserável café e de que maneira ela almoçou. Acompanhei-lhe os passos até o gabinete de leitura; e espreitei-a largo tempo enquanto ela procurava nas gazetas, com olhos diligentes, abrasados outrora pelas lágrimas, notícias de um interesse poderoso e pessoal.
Enfim, à tarde, sob um delicioso céu de outono, destes céus de onde baixam, em bando, as tristezas e as saudades, ela sentou-se num afastado recanto de jardim, para escutar, longe da multidão, um dos concertos com que a música dos regimentos mimoseia o povo de Paris.
Era aquela, decerto, a pequena orgia da velha inocente (ou da velha purificada), a consolação bem-merecida de um desses pesados dias sem amigo, sem conversa, sem alegria, sem confidente, que Deus deixava cair sobre ela, desde muitos anos talvez! trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
Mais outra:
Não posso abster-me de lançar um olhar, se não universalmente simpático, pelo menos curioso, à multidão de párias que se comprimem em torno do recinto de um concerto público. A orquestra despede, dentro da noite, cantos de festa, de triunfo ou de volúpia. Os vestidos arrastam-se, espelhantes; cruzam-se os olhares; os ociosos, cansados de nada haverem feito, balançam-se, fingindo saborear indolentemente a música. Aqui, nada que não traduza riqueza, felicidade; nada que não respire e não inspire a despreocupação e o gosto de se deixar viver; nada, salvo o aspecto desta multidão, que se apoia, além, no muro exterior, apanhando de graça, ao capricho do vento, um farrapo de música, e mirando a resplandecente fornalha interior.
É sempre coisa interessante esse reflexo da alegria do rico no fundo do olhar do pobre. Naquele dia, porém, percebi, no meio do povo vestido de blusas e de chita, um ser cuja nobreza produzia nítido contraste com toda a trivialidade ambiente.
Era uma senhora alta, majestosa, e tão nobre em toda a sua aparência que não me lembra ter visto igual nas coleções das aristocráticas belezas do passado. Emanava-lhe do vulto um perfume de altiva virtude. O rosto, triste e emagrecido, estava em perfeito acordo com o luto fechado que a envolvia. Também ela, como a plebe à qual se mesclava e que seus olhos não viam, contemplava o mundo luminoso com um olhar profundo, e escutava movendo a cabeça devagar.
Singular visão! — Sem dúvida — pensei — essa pobreza, se pobreza é, não deve tolerar a economia sórdida; é o que me diz tão nobre semblante. Por que fica ela, então, voluntariamente, num meio onde constitui tão aceso contraste?
Mas, passando, curioso, perto dela, julguei adivinhar a causa. A grande viúva trazia pela mão um menino também vestido de preto; por menor que fosse o preço da entrada, bastaria talvez para satisfazer uma das necessidades da criança, melhor ainda, uma superfluidade, um brinquedo.
E ela voltará para casa a pé, meditativa e a sonhar, sozinha, sempre sozinha, pois o pequeno é turbulento, egoísta, sem docilidade e sem paciência, e não pode sequer, como o puro animal, como o cão e o gato, servir de confidente às dores solitárias.
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris], tradução Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, tradução do poema epílogo de Manuel Bandeira / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso;
traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio
Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto
Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira,
Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira,
Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni,
Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e
notas adicionais Ivo Barroso. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.
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