31.8.26

Bertolt Brecht/Conversas de refugiados/Flüchtlingsgespräche/continua

15
O pensamento como prazer/
Sobre os prazeres/ Crítica verbal/
A burguesia é destituída de senso histórico

[...]
KALLE
Esse é o desenvolvimento moderno. Surgiu uma casta inteira, a dos intelectuais, que deve se ocupar do pensamento e que é treinada exclusivamente para isso. Eles têm de alienar suas cabeças aos empresários, como nós o fazemos com nossas mãos. Naturalmente, têm a impressão de que pensam para a coletividade. É como se disséssemos que fabricamos automóveis para o bem da coletividade, algo que não pensamos, pois sabemos que os fabricamos no interesse dos empresários, e aos diabos com a coletividade!
 
ZIFFEL
Você quer dizer que penso apenas em mim mesmo, na medida em que penso na maneira de vender aquilo que penso, e que aquilo que penso não atende aos meus interesses, ou seja, não atende aos interesses da coletividade?
 
KALLE
Exatamente.

ZIFFEL
Li em algum lugar que, nos Estados Unidos, onde o desenvolvimento está em estágio mais avançado, os pensamentos em geral são considerados uma mercadoria. Li num destacado jornal: A principal missão do presidente é vender a Congresso e ao país. A ideia implícita era a de o país entrar na guerra. Nas discussões sobre questões científicas ou artísticas, quando alguém concorda com um ponto de vista, diz: compro sua ideia. O verbo "convencer é substituído simplesmente pelo verbo vender.

KALLE
Nessas circunstâncias, essas pessoas se tornam facilmente avessas ao pensamento. O pensamento deixa de ser um prazer.

ZIFFEL
Seja como for, ambos acreditamos que a ânsia pelo prazer seja uma das maiores virtudes. Há algo de podre num lugar onde ela enfrenta obstáculos ou é difamada.

[...]
 
KALLE 
[...] Decisivo é o seguinte: a vida dos prazeres está completamente apartada do restante da vida. Ela é apenas a pausa necessária para você, em seguida, retornar às suas atividades, que não lhe dão nenhum prazer.

[...]
 
ZIFFEL 
[...] Hitler pelo menos sabe que não pode haver capitalismo sem guerra, algo que os liberais não sabem.
[...]
 
16
Sobre as raças superiores/
Sobre a dominação do mundo82
82 De acordo com o editor alemão, o trecho que segue, sem numeração no original, integra a fase inicial (finlandesa) de preparação de texto, estando originalmente vinculado ao diálogo 12 (aqui 14). 
[...]
 
ZIFFEL 
[...] A propaganda, as ameaças e o exemplo fazem de cada um, quase sem exceção, um herói, despojando-o da própria vontade. Certa vez, bem no início da grande época,84 vi o zelador de meu prédio comportar-se como o governador-geral que administra um país inimigo. Vi o repórter esportivo de um jornal obscuro agir como um grande depositário da cultura, e um vendedor de charutos, como um capitão de indústria. Alguns criminosos, que até então haviam agido de modo muito tímido e evitavam fazer alarde, que assaltavam residências, de preferência sob o manto da noite, agora praticam suas ações abertamente, à luz do dia, e tratam de garantir que seus feitos sejam reportados nos jornais. Com uma pitada de especiarias, são capazes de adulterar a massa, modificando-lhe completamente o sabor. Assim, tudo o que havíamos visto assumiu um novo caráter, de feições ameaçadoras. De início apenas alguns ameaçavam uns poucos, mas então alguns passaram a ameaçar todos os demais e, por fim, todos se ameaçavam mutuamente. As pessoas dormiam à noite com o pensamento posto nas ameaças a que haviam sido submetidas durante o dia e também nas ameaças que poderiam elas mesmas fazer no dia seguinte.
84 Referência irônica ao nazismo.
 
BRECHT, Bertolt. (1898-1956). Conversas de refugiados / Flüchtlingsgespräche / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); tradução, posfácio e notas de Tercio Redondo;]. –1a ed– São Paulo: Editora 34, 2017.

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