6.1.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

<fase tardia>
[...]
Seria útil descobrir certos traços precisos da fisionomia do habitante da cidade. Por exemplo: a calçada, reservada ao pedestre, estende-se ao longo da rua. Assim, em seus afazeres diários, o habitante da cidade, quando anda a pé, tem constantememe diante dos olhos a imagem do concorrente que o ultrapassa dentro de um veículo.  As calçadas cenamente foram construídas no interesse daqueles que andavam de carruagem ou a cavalo. Quando?
[M 14, 6]
[...]
A Paris de 1908. “Um parisiense habituado à multidão, aos veículos, e a escolher as ruas, chegava a fazer longas caminhadas com um passo regular e muitas vezes distraído. De um modo geral, a abundância dos meios de circulação ainda não havia dado a três milhões de homens a idéia ... de que poderiam deslocar-se com qualquer propósito e de que a distância é o que menos conta.” Jules Romains, Les Hommes de Bonne Volonté, livro I, Le 6 Octobre, Paris. 1932, p. 204.
[M 14a, 2]
[...]
Encontramos em Jules Romains, Crime de Quinette (Les Hommes de Bonne Volonté, livro II), algo como o negativo da solidão, que é, na maioria das vezes, a companheira do flâneur. Que a amizade tem a força suficiente para quebrar essa solidão, este talvez seja o argumento ate da tese de Romains. “A meu ver, é sempre um pouco assim que nos tornamos . Presenciamos, juntos, um momento do mundo, talvez um de seus segredos fugidios  uma aparição jamais vista e que talvez não se veja nunca mais. Mesmo se for algo pequeno. Imagine, por exemplo, dois homens que passeiam, como nós. E de repente, graças a um vão entre as nuvens, uma luz vem bater no alto de um muro, e o alto do muro se transforma por um instante em algo de extraordinário. Um dos homens toca o ombro do outro, que ergue a cabeça e vê o mesmo, compreende o que aconteceu. Depois a coisa se desmancha no ar. Mas eles saberão in aeternum que ela existiu.” Jules Romains, Les Hommes de Bonne Volonté, livro II, Crime de Quinette, Paris, 1932, pp. 175-176.
[M 15, 1]
Mallarmé. “Ele tinha atravessado a Place e a Pont de l’Europe quase todos os dias — confidenciou ele a Georges Moore — tomado pela tentação de se jogar do alto da ponte sobre as vias férreas, sob os trens, a fim de escapar dessa mediocridade da qual era prisioneiro.” Daniel Halévy, Pays Parisiens, Paris, 1932, p. 105.
[M 15, 2]
[...]
Carta que acompanha os dois “Crépuscules” dirigida a Fernand Desnoyers, que os publicou em seu Fontainebleau, Paris, 1855: “Envio-lhe dois poemas que representam, mais ou menos, a soma dos devaneios que me assaltam nas horas crepusculares. Na profundeza dos bosques, afundado nessas criptas semelhantes às das sacristias e catedrais, penso em nossas surpreendentes cidades, e a prodigiosa música que rola sobre seus pontos mais altos soa para mim como a tradução das lamentações humanas.” Cit. em A. Séché, La Vie des Fleurs du Mal, Paris, 1928, p. 110. ■ Baudelaire ■
[M 15a, 1]
A clássica primeira descrição da multidão em Poe: “A maioria dos que passavam tinha um ar convencido, característico dos negócios; eles não pareciam ocupados senão com o caminho que procuravam abrir através da multidão. Franziam as sobrancelhas e moviam os olhos vivamente; quando eram acotovelados pelos transeuntes ao lado, não mostravam nenhum sinal de impaciência, mas ajustavam suas roupas e seguiam apressados. Outros, uma classe também bastante numerosa, tinham movimentos inquietos e o rosto sangüíneo, falavam sozinhos e gesticulavam, como se se sentissem sós justamente por causa da multidão que os envolvia. Quando seu caminho era interrompido, eles paravam de murmurar, mas redobravam seus gestos enquanto esperavam, com um sorriso distraído e despropositado, a passagem das pessoas que impediam seu curso. Se eram empurrados, saudavam exageradamente quem neles esbarrou, e pareciam aflitos com a confusão.” Poe, Nouvelles Histoires Extraordinaires, trad. Ch. B, Paris, 1886, p. 89. 
[M 15a, 2]
[...]
Descrição da multidão em Baudelaire, a comparar com a de Poe:

“O rio, leito fúnebre por onde escoam os desgostos, Carrega espumando os segredos dos esgostos;
Ele bate em cada casa com suas ondas deletetias,
Tinge de limão o Sena que ele altera,
E apresenta suas vagas aos joelhos dos transeuntes.
Cada um, esbarrando em nós nas calçadas ondulantes.
Egoísta e brutal, nos respinga ao passar,
Ou, para ir mais depressa, nos empurra ao se afastar.
Por toda parte lama, dilúvio, escuridão do céu:
Negro quadro que teria sonhado o negro Ezequiel!

Charles Baudelaire, 
Œuvres, vol. I, Paris, 1931, p. 211 (Poèmes Divers, “Un jour de phuie”).
[M 16, 1]
Sobre o romance policial:

“Quem não assinou, quem não deixou retrato 
Quem não esteve presente, quem nada falou 
Como poderão apanhá-lo! 
Apague as pegadas!”

Bcecht, Versuche, 4-7 [Caderno 2], Berlim, 1930, p. 116 (Lesebuch für Städtebewohner, I).
19
[...]
Sobretudo eu que, fiel ao meu velho hábito,
Faço muitas vezes da rua gabinete de estudo,
Quantas vezes, levando ao acaso meus passos sonhadores,
Caio de imprevisto no meio dos pavimentadores!”

Barthélemy, Paris: Revue Satirique à M.G. Delessert, Paris, 1838, p. 8.
[M 16a, 5]
[...]
Sobre a embriaguez da emparia no flâneur, pode-se lançar mão de uma passagem magnífica de Flaubert. Ela se origina provavelmente da época da elaboração de Madame Bovary. “Hoje, por exemplo, homem e mulher ao mesmo tempo, amante e amada, eu passeei a cavalo numa floresta, durante uma tarde de outono, sob folhas amareladas, e eu era os cavalos, as folhas, o vento, as palavras que foram ditas, e o sol vermelho que fazia se entrefecharem as pálpebras inundadas de amor...” Cit. em Henri Grappin, “Le mysticisme poétique et l’imagination de Gustave Flaubert”, Revue de Paris, 15 dez. 1912, p. 856.
[M 17a, 4]
Sobre a embriaguez da empatia no flâneur, tal como aparece também em Baudelaire, esta passagem de Flaubert: “Vejo-me com muita nitidez em diferentes épocas da história... Fui barqueiro no Nilo, cáften em Roma no tempo das guerras púnicas, depois orador grego em Subura, onde fui devorado pelas pulgas. Morri durante uma cruzada, por ter comido uvas em excesso nas praias da Síria. Fui pirata e monge, saltimbanco e cocheiro, talvez também imperador do Oriente...” Grappin, op. cit., p. 624.
[M 17a, 5] 
 [...]
Em de julho de 1838, G. E. Guhrauer escreve a Varnhagen a respeito de Heine: “Ele sofria muito, na primavera, com problemas nos olhos. Da última vez, acompanhei-o em um trecho dos boulevards. O esplendor e a vida desta via única em seu gênero provocavam em mim uma admiração incansável, à qual Heine desta vez contrapôs enfaticamente o que havia de horrível neste centro do mundo.” Cf. Engels sobre a multidão. Heinrich Heine, Gespräche, ed. org. por Hugo Biebcr, Berlim, 1926, p. 183.
[M 19, 4]
Esta cidade, onde reina uma vida, uma circulação, uma atividade sem igual, é também, por um singular contraste, aquela onde se encontra o maior número de ociosos, preguiçosos e vagabundos.” Pierre Larousse, Grand Dictionnaire Universel, Paris, 1872, vol. VIII, p. 436 (verbete: “Flâneur”).
[M 19, 5]
Hegel à sua mulher, em 3 de setembro de 1827, de Paris: “Quando ando pelas ruas, as pessoas se parecem com as de Berlim — vestidas da mesma maneira, praticamente os mesmos rostos —, o mesmo aspecto, mas em meio a uma massa populosa.” Briefe von und an Hegel, ed. org. por Karl Hegel, Leipzig, 1887, Parte II, p. 257 (Werke, vol. XIX, tomo 2).
[M 19, 6]
[...]
Se comparamos o texto de Baudelaire sobre Meryon com “Londres”, de Barbier, surge a pergunta se a imagem lúgubre da “mais inquietante das capitais”, ou seja, a imagem de Paris não foi fortemente determinada pelos escritos de Barbier e de Poe. Certamente Londres estava à frente de Paris, quanto ao desenvolvimento industrial.
[M 19a, 2]
[...]
"'London Bridge. Passei há algum tempo sobre a Ponte de Londres e me detive para olhar o que amo: o espetáculo de uma água rica, pesada e complexa, ornada de lençóis de nácar, perturbada por manchas de lama, confusamente carregada de tantos navios... Apoiei-me... A volúpia da visão me invadia com a força de uma sede, e me prendia àquela luz deliciosamente composta, cuja riqueza eu não podia esgotar. Mas sentia atrás de mim o trotar e o escorrer incessante de todo um povo invisível, de cegos eternamente impelidos ao objeto imediato de suas vidas. Parecia-me que essa multidão não se compunha de seres individuais, cada um com sua história, seu deus único, seus tesouros e suas taras, um monólogo e um destino; eu fazia deles, sem o saber, à sombra de meu corpo, ao abrigo de meus olhos, um fluxo de grãos todos idênticos, identicamente aspirados por não sei qual vazio, e cuja corrente surda e precipitada eu escutava passar monotonamente sobre a ponte. Nunca experimentei tamanha solidão, e misturada com orgulho e angústia.” Paul Valéry, Choses Tues, Paris, 1930, pp. 122-124.
[M 20, 2]
A flânerie se baseia, entre outras coisas, no pressuposto de que o fruto do ócio é mais precioso <?> que o do trabalho. Como se sabe, o flâneur realiza “estudos”. O Larousse do século XIX diz a esse respeito o seguinte: “Seu olho aberto e seu ouvido atento procuram coisa diferente daquilo que a multidão vem ver. Uma palavra lançada ao acaso lhe revela um desses traços de caráter que não podem ser inventados e que é preciso captar ao vivo; essas fisionomias tão ingenuamente atentas vão fornecer ao pintor uma expressão com a qual ele sonhava; um ruído, insignificante para qualquer outro ouvido, vai tocar o do músico e lhe dar a idéia de uma combinação harmônica; mesmo ao pensador, ao filósofo perdido em seu devaneio, essa agitação exterior é proveitosa: ela mistura e sacode suas idéias, como a tempestade mistura as ondas do mar... Os homens de gênio, em sua maioria, foram grandes flâneurs; mas flâneurs laboriosos e fecundos... Muitas vezes, é na hora em que o artista e o poeta parecem menos ocupados com sua obra que eles estão mais profundamente imersos nela. Nos primeiros anos deste século, via-se todo dia um homem dar a volta nas fortificações da cidade de Viena, não importando o tempo que fizesse, neve ou sol: era Beethoven que, flanando, repetia em sua cabeça suas admiráveis sinfonias antes de lançá-las no papel; para ele, o mundo não existia mais; em vão o cumprimentavam respeitosamente em sua caminhada  ele não percebia; seu espírito estava em outro lugar.” Pierre Larousse, Grand Dictionnaire Universel, Paris, 1872, vol. VIII, p. 436 (verbete: “Flâneur”).
[M 20a, 1]
 
19 Bertolt Brecht, Poemas: 1913-195 6, 5a ed., São Paulo. Editora 34, 2000; tradução de Paulo Cesar de Souza. (w.b.)

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-WerkWalter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

Nenhum comentário: