[...]
É próprio das formas técnicas de construção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu êxito sejam proporcionais à transparência de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura em vidro.)
A humanidade deve despedir-se de seu passado reconciliada — e uma forma de reconciliação é a alegria. “O regime alemão atual..., a nulidade do Antigo Regime exibida aos olhos do mundo, ... nada mais é que o comediante de uma ordem mundial cujos heróis verdadeiros morreram. A história é radical e atravessa muitas fases quando leva para o túmulo uma forma antiga. A última fase de uma forma da história universal é sua comédia. Os deuses da Grécia que, de maneira trágica, já haviam sido feridos de morte no Prometeu Acorrentado de Esquilo, tinham de morrer mais uma vez, de maneira cômica, nos Diálogos de Luciano. Por que esta marcha da história? Para que a humanidade se despeça alegremente de seu passado.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. org. por Landshut e Mayer, Leipzig, vol. I, p. 268 (“Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie” — “Sobre a crítica da Filosofia do Direito de Hegel”). O Surrealismo é a morte do século XIX na comédia.
[N 5a, 2]
Marx (Marx und Engels über Feuerbach: Aus dem Nachlass. Marx-Engels-Archiv, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, p. 301): “Não existe história da política, do direito, da ciência etc., da arte, da religião etc.”
[N 5a, 3]
Em A Sagrada Família, diz-se do materialismo de Bacon: “A matéria, mostrando-se em seu esplendor poético e sensual, sorri ao homem inteiro.”11
[N 5a, 4]
“Lamento só ter podido tratar de maneira muito incompleta os fatos da vida cotidiana —alimentação, vestuário, habitação, costumes de família, direito privado, divertimentos, relações sociais — que sempre constituíram o interesse principal da vida para a imensa maioria dos indivíduos.” Charles Seignobos, Histoire Sincère de la Nation Française, Paris, 1933, p. XI.
[N 5a, 5]
Ad notam uma frase de Valéry: “O que distingue aquilo que é verdadeiramente geral é sua fertilidade.”
[N 5a, 6]
A barbárie está inserida no próprio conceito de cultura: como conceito de um tesouro de valores considerado de forma independente, não do processo de produção no qual nasceram os valores, mas do processo no qual eles sobrevivem. Desta maneira, servem à apoteose deste último <?>, não importando o quão bárbaro possa ser.
[N 5a, 7]
Investigar como surgiu o conceito de cultura, qual seu sentido nas diferentes épocas e a que necessidades correspondeu sua elaboração. Poderia evidenciar-se que, na medida em que designa a soma dos “bens culturais”, ele seja de origem recente; certamente era desconhecido, por exemplo, pelo clero, que no início da Idade Média promoveu uma guerra de aniquilamento contra os testemunhos da Antigüidade.
[N 6, 1]
[...]
É de se enfatizar a apresentação gráfica particularmente cuidadosa dos primeiros escritos sobre os problemas sociais e assistenciais, como Naville, De la Charité Légale, Frégier, Des Classes Dangereuses etc.
[N 6, 3]
“Eu não saberia insistir demais sobre o fato de que, para um materialista esclarecido como Lafargue, o determinismo econômico não é a ‘ferramenta absolutamente perfeita’ que ‘pode tornar-se a chave de todos os problemas da história’.” André Breton, Position Politique du Surréalisme, Paris, 1935, pp. 8-9.
[N 6, 4]
Todo conhecimento histórico pode ser representado pela imagem de uma balança em equilíbrio, que tem sobre um de seus pratos o ocorrido e sobre o outro o conhecimento do presente. Enquanto no primeiro prato os fatos reunidos nunca serão insignificantes e numerosos demais, o outro deve receber apenas alguns poucos pesos — grandes e maciços.
[N 6, 5]
“A única atitude digna da filosofia ... na era industrial é ... o retraimento. O ‘cientificismo’ de um Marx não significa que a filosofia renuncia a sua tarefa ... e sim que ela se retrai até que se tenha posto um fim à dominação de uma realidade inferior.” Hugo Fischer, Karl Marx und sein Verhältnis zu Staat und Wirtschafi, Jena, 1932, p. 59.
[N 6, 6]
Não é irrelevante a ênfase que Engels dá à “classicidade” no contexto da concepção materialista da história. Para demostrar a dialética do desenvolvimento, ele evoca as leis que “o próprio curso histórico fornece, na medida em que cada momento pode ser observado no ponto de desenvolvimento de sua maturidade plena, de sua classicidade”. Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Engels und der Aufitieg der Arbeiterbewegung in Europa, Berlim, 1922, pp. 434-435.
[N 6, 7]
Engels em carta a Mehring, de 14 de julho de 1893: “É sobretudo esta aparência de uma história autônoma das constituições de Estado, dos sistemas jurídicos e das representações ideológicas em cada domínio particular que ofusca a maioria das pessoas. Quando Lutero e Calvino ‘superam’ a religião católica oficial, quando Hegel ‘supera’ Fichte e Kant, e Rousseau, com seu Contrato Social, indiretamente ‘supera’ o constitucional Montesquieu, trata-se de um processo que, mantendo-se no âmbito da teologia, da filosofia, da ciência política, representa uma etapa na história destes domínios do pensamento, sem ultrapassar a esfera do pensamento. E desde que se somou a isso a ilusão burguesa relativa ao caráter eterno e definitivo da produção capitalista, até mesmo a superação dos mercantilistas pelos fisiocratas e Adam Smith é considerada uma mera vitória do pensamento — não o reflexo intelectual de fatos econômicos transformados, mas a visão correta, finalmente conquistada, de condições reais, sempre presentes em todos os lugares.” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Friedrich Engels und der Aufstieg der Arbeiterbewegung in Europa, Berlim, pp. 450-451.
[N 6a, 1]
[...]
É preciso estabelecer a relação entre a presença de espírito e o “método” do materialismo dialético. Não se trata apenas de sempre poder demonstrar um processo dialético na presença de espírito, considerada como uma das formas mais elevadas de comportamento apropriado. O que é decisivo é que o dialético não pode considerar a história senão como uma constelação de perigos, que ele — que acompanha seu desenvolvimento com o pensamento — está sempre prestes a desviar.
[N 7, 2]
“A Revolução talvez seja mais um drama que uma história, e o patético nela é uma condição mãe imperiosa quanto a autenticidade.” Blanqui, cit. em Gefifroy, L’Enfermé, vol. I, Paris, 1926, p. 232.
[N 7, 3]
Necessidade de prestar atenção, durante muitos anos, a qualquer citação casual, qualquer menção fortuita de um livro.
[N 7, 4]
Contrastar a teoria da história com a observação de Grillparzer, traduzida por Edmond Jaloux nos “Joumaux intimes” (Le Temps, 23 maio 1937): “Ler o futuro é difícil, mas enxergar puramente o passado é mais difícil ainda — digo puramente, isto é, sem misturar a esse olhar retrospectivo tudo o que aconteceu no intervalo.” A “pureza” do olhar não só é difícil, mas também impossível de ser alcançada.
[N 7, 5]
É importante para o historiador materialista distinguir, com máximo rigor, a construção de um estado de coisas histórico daquilo que se costuma denominar sua “reconstrução”. A “reconstrução” através da empatia é unidimensional. A “construção” pressupõe a “destruição”.
[N 7, 6]
Para que um fragmento do passado seja tocado pela atualidade não pode haver qualquer continuidade entre eles.
[N 7, 7]
A história anterior [Vorgeschichte] e a história posterior [Nachgeschichte] de um fato históncn aparecem nele graças a sua apresentação dialética. Além disso: cada fato histórico apresentado dialeticamente se polariza, tornando-se um campo de forças no qual se processa o confronto entre sua história anterior e sua história posterior. Ele se transforma neste campo de forças quando a atualidade penetra nele. E assim o fato histórico se polariza em sua história anterior e posterior sempre de novo, e nunca da mesma maneira. Tal polarização ocorre fora do fato, na própria atualidade — como numa linha, dividida segundo o corte apolíneo,12 em que a divisão é feita fora da linha. '
[N 7a, 1]
O materialismo histórico não aspira a uma apresentação homogêna nem tampouco contínua da história. Do fato de a superestrutura reagir sobre a infra-estrutura resulta que não existe uma história homogêna, por exemplo, a história da economia, nem tampouco existe uma história da literatura ou do direito. Por outro lado, uma vez que as diferentes épocas do passado são tocadas pelo presente do historiador em graus bem diversos (sendo muitas vezes o passado mais recente nem sequer tocado pelo presente; este “não lhe faz justiça”), uma continuidade da apresentação histórica é inviável.
[N 7a, 2]
[...]
A apresentação materialista da história leva o passado a colocar o presente numa situação crítica.
[N 7a, 5]
É minha intenção resistir àquilo que Valéry chama de “uma leitura lenta e pontuada de resistências de um leitor difícil e refinado”. Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, Introdução de Paul Valéry, Paris, 1928, p. XIII.
[N 7a, 6 ]
Meu pensamento está para a teologia como o mata-borrão está para a tinta. Ele está completamente embebido dela. Mas se fosse pelo mata-borrão, nada restaria do que está escrito.
[N 7a, 7]
É o presente que polariza o acontecimento em história anterior e história posterior.
[N 7a, 8]
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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