17.1.26

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<fase média>

[...]

A utilização dos elementos do sonho ao despertar é o cânone da dialética. Tal utilização é exemplar para o pensador e obrigatória para o historiador.
[n 4, 4]
Raphael procura corrigir a concepção marxista do caráter normativo da arte grega: “Se o caráter normativo da arte grega é ... um fato histórico explicável..., devemos ... determinar ... quais foram as condições especiais que levaram a cada renascimento e, portanto, quais os fatores especiais da ... arte grega que esses renascimentos aceitaram como modelo. De fato, a arte grega em sua totalidade nunca possuiu um caráter normativo, os renascimentos ... têm sua própria história... Somente uma análise histórica pode indicar a época na qual nasceu a noção abstrata de uma norma ... da Antigüidade... Esta só foi criada pela Renascença, isto é, pelo capitalismo primitivo e, em seguida, foi aceita pelo classicismo, que ... começou a determinar seu lugar no encadeamento dos fatos históricos. Marx não avançou nessa via com a plena medida das possibilidades do materialismo histórico. Mas Raphael, Proudhon, Marx, Picasso, Paris, 1933, pp. 178-179.
[N 4, 5]

É próprio das formas técnicas de construção (em oposição às formas artísticas) que seu progresso e seu êxito sejam proporcionais à transparência de seu conteúdo social. (Daí a arquitetura em vidro.)
[N 4, 6]
Uma passagem importante em Marx: “É reconhecido, no que concerne ... por exemplo, a epopéia ... que ... certas expressões importantes da arte não são possíveis senão num grau pouco desenvolvido da evolução artística. Se isso é válido para as relações entre as diferentes espécies de arte, no domínio da própria arte, já será menos surpreendente que isso também seja válido para as relações entre a totalidade do domínio das artes e o desenvolvimento geral da sociedade.” Citado sem referências (talvez Theorien des Mehrwerts, vol. I?)9 em Max Raphael, Proudhon, Marx, Picasso, Paris, 1933, p. 160.
[N 4a, 1]
A teoria marxista da arte: ora presunçosa, ora escolástica.
[N 4a, 2]
[...]
Curiosa afirmação de Engels sobre as “forças sociais”: “Uma vez compreendida sua natureza, elas podem, nas mãos dos produtores associados, scr transformadas de soberanos demoníacos em servos obedientes.”10 (!) Engels, Die Entwicklung des Sozialismus von der Utopie zur Wissenschafi, 1882.
[N 4a, 4]
Marx, no posfácio da segunda edição de O Capital. “A pesquisa deve apropriar-se da matéria no detalhe, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e descobrir seu concatenamento interno. Somente depois de realizado este trabalho é que o movimento real pode ser apresentado adequadamente. Se isso for alcançado, de modo que a vida do material seja refletida agora de maneira ideal, então pode parecer que se está diante de uma construção a priori.” Karl Marx, Das Kapital, ed. org. por K. Korsch, Berlim (1932), p. 45.
[N 4a, 5]
É necessário expor a dificuldade particular do trabalho historiográfico para o período posterior ao fim do século XVIII. Depois do surgimento da grande imprensa, as fontes tornam-se ilimitadas.
[N 4a, 6}
Michelet gosta de dar ao povo o nome de “bárbaros” — “Bárbaros. A palavra me agrada, aceito-a” — e afirma a respeito de seus escritores: “Eles amam infinitamente, e até demais, entregando-se às vezes até aos detalhes, com a santa inabilidade de Albrecht Dürer, ou com o polimento excessivo de Jean-Jacques, que não esconde o bastante sua arte; pelo detalhe minucioso, comprometem o conjunto. É preciso não repreendê-los demais; é ... a extravagância da verve: essa seiva ... quer alcançar tudo ao mesmo tempo, as folhas, os frutos e as flores; ela verga e torce os ramos. Os defeitos destes grandes trabalhadores encontram-se freqüentemente em meus livros, que não têm aquelas boas qualidades. Não importa!” Michelet, Le Peuple, Paris, 1846, pp. XXXVI-XXXVII.
[N 5, 1]
Carta de Wiesengrund, de 5 de agosto de 1935. “A tentativa de reconciliar o momento do sonho mencionado pelo senhor — como o elemento subjetivo na imagem dialética — com a concepção desta última como modelo ensejou-me algumas considerações... À medida que o valor de uso morre nas coisas, as coisas alienadas são esvaziadas, atraindo para si significados, como cifras. A subjetividade se apossa delas à medida que as investe de intenções de desejo e temor. Pelo fato de as coisas mortas responderem, enquanto imagens, pelas intenções subjetivas, estas se apresentam como imemoriais e eternas. Imagens dialéticas são constelações entre coisas alienadas e o significado incipiente, detendo-se no instante de indiferença entre a morte e o significado. Enquanto na aparência as coisas são despertadas para o que é o mais novo, a morte transforma os significados no que é o mais antigo.” Com respeito a estas considerações, deve-se ter em conta que, no século XIX, o número das coisas “esvaziadas” aumenta numa medida e num ritmo antes desconhecidos, uma vez que o progresso tecnológico retira continuamente de circulação os novos objetos de uso.
[N 5, 2]
“O crítico pode tomar ... como ponto de partida qualquer forma da consciência teórica e prática e desenvolver, a partir das próprias formas da realidade existente, a realidade verdadeira como seu dever-ser e sua intenção final.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 225 (Marx a Ruge; Kreuzenach, setembro de 1843). O ponto de partida do qual Marx fala aqui não corresponde necessariamente ao último estágio do desenvolvimento. Ele pode ser empregado para épocas muito remotas, cujo dever-ser e intenção final podem ser apresentados não em relação ao estágio subseqüente ao desenvolvimento, e sim nele mesmo e como pré-formação do objetivo final da história.
[N 5, 3]
Engels diz (Marx und Engels über Feuerbach: Aus dem Nachlass, Marx-Engels-Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. I, Frankfurt am Main (1928), p. 300): “Não esquecer que o direito, como a religião, não tem uma história própria.” O que vale para ambos vale principalmente, e de maneira decisiva, para a cultura. Pensar as formas de existência da sociedade sem classes, segundo a imagem da humanidade civilizada, seria um contra-senso.
[N 5, 4]
“Nosso lema ... deve ser: reforma da consciência, não por meio de dogmas, e sim pela análise da consciência mística, obscura a si mesma, seja em sua manifestação religiosa ou política. Ficará claro que o mundo há muito possui o sonho de uma coisa, da qual precisa apenas possuir a consciência para possuí-la realmente.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. org. por Landshut e Mayer, Leipzig, 1932, vol. I, p. 226-227 (Carta de Marx a Ruge; Kreuzenach, setembro de 1843).
[N 5a, 1]

A humanidade deve despedir-se de seu passado reconciliada — e uma forma de reconciliação é a alegria. “O regime alemão atual..., a nulidade do Antigo Regime exibida aos olhos do mundo, ... nada mais é que o comediante de uma ordem mundial cujos heróis verdadeiros morreram. A história é radical e atravessa muitas fases quando leva para o túmulo uma forma antiga. A última fase de uma forma da história universal é sua comédia. Os deuses da Grécia que, de maneira trágica, já haviam sido feridos de morte no Prometeu Acorrentado de Esquilo, tinham de morrer mais uma vez, de maneira cômica, nos Diálogos de Luciano. Por que esta marcha da história? Para que a humanidade se despeça alegremente de seu passado.” Karl Marx, Der historische Materialismus: Die Frühschriften, ed. org. por Landshut e Mayer, Leipzig, vol. I, p. 268 (“Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie” — “Sobre a crítica da Filosofia do Direito de Hegel”). O Surrealismo é a morte do século XIX na comédia.

[N 5a, 2]

Marx (Marx und Engels über Feuerbach: Aus dem Nachlass. Marx-Engels-Archiv, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, p. 301): “Não existe história da política, do direito, da ciência etc., da arte, da religião etc.”

[N 5a, 3]

Em A Sagrada Família, diz-se do materialismo de Bacon: “A matéria, mostrando-se em seu esplendor poético e sensual, sorri ao homem inteiro.”11 

[N 5a, 4]

“Lamento só ter podido tratar de maneira muito incompleta os fatos da vida cotidiana —alimentação, vestuário, habitação, costumes de família, direito privado, divertimentos, relações sociais — que sempre constituíram o interesse principal da vida para a imensa maioria dos indivíduos.” Charles Seignobos, Histoire Sincère de la Nation Française, Paris, 1933, p. XI.

[N 5a, 5]

Ad notam uma frase de Valéry: “O que distingue aquilo que é verdadeiramente geral é sua fertilidade.”

[N 5a, 6]

A barbárie está inserida no próprio conceito de cultura: como conceito de um tesouro de valores considerado de forma independente, não do processo de produção no qual nasceram os valores, mas do processo no qual eles sobrevivem. Desta maneira, servem à apoteose deste último <?>, não importando o quão bárbaro possa ser.

[N 5a, 7]


Investigar como surgiu o conceito de cultura, qual seu sentido nas diferentes épocas e a que necessidades correspondeu sua elaboração. Poderia evidenciar-se que, na medida em que designa a soma dos “bens culturais”, ele seja de origem recente; certamente era desconhecido, por exemplo, pelo clero, que no início da Idade Média promoveu uma guerra de aniquilamento contra os testemunhos da Antigüidade.

[N 6, 1]

[...]

É de se enfatizar a apresentação gráfica particularmente cuidadosa dos primeiros escritos sobre os problemas sociais e assistenciais, como Naville, De la Charité Légale, Frégier, Des Classes Dangereuses etc.

[N 6, 3]

“Eu não saberia insistir demais sobre o fato de que, para um materialista esclarecido como Lafargue, o determinismo econômico não é a ‘ferramenta absolutamente perfeita’ que ‘pode tornar-se a chave de todos os problemas da história’.” André Breton, Position Politique du Surréalisme, Paris, 1935, pp. 8-9.

[N 6, 4]

Todo conhecimento histórico pode ser representado pela imagem de uma balança em equilíbrio, que tem sobre um de seus pratos o ocorrido e sobre o outro o conhecimento do presente. Enquanto no primeiro prato os fatos reunidos nunca serão insignificantes e numerosos demais, o outro deve receber apenas alguns poucos pesos — grandes e maciços.

[N 6, 5]

“A única atitude digna da filosofia ... na era industrial é ... o retraimento. O ‘cientificismo’ de um Marx não significa que a filosofia renuncia a sua tarefa ... e sim que ela se retrai até que se tenha posto um fim à dominação de uma realidade inferior.” Hugo Fischer, Karl Marx und sein Verhältnis zu Staat und Wirtschafi, Jena, 1932, p. 59.

[N 6, 6]

Não é irrelevante a ênfase que Engels dá à “classicidade” no contexto da concepção materialista da história. Para demostrar a dialética do desenvolvimento, ele evoca as leis que “o próprio curso histórico fornece, na medida em que cada momento pode ser observado no ponto de desenvolvimento de sua maturidade plena, de sua classicidade”. Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Engels und der Aufitieg der Arbeiterbewegung in Europa, Berlim, 1922, pp. 434-435.

[N 6, 7]

Engels em carta a Mehring, de 14 de julho de 1893: “É sobretudo esta aparência de uma história autônoma das constituições de Estado, dos sistemas jurídicos e das representações ideológicas em cada domínio particular que ofusca a maioria das pessoas. Quando Lutero e Calvino ‘superam’ a religião católica oficial, quando Hegel ‘supera’ Fichte e Kant, e Rousseau, com seu Contrato Social, indiretamente ‘supera’ o constitucional Montesquieu, trata-se de um processo que, mantendo-se no âmbito da teologia, da filosofia, da ciência política, representa uma etapa na história destes domínios do pensamento, sem ultrapassar a esfera do pensamento. E desde que se somou a isso a ilusão burguesa relativa ao caráter eterno e definitivo da produção capitalista, até mesmo a superação dos mercantilistas pelos fisiocratas e Adam Smith é considerada uma mera vitória do pensamento — não o reflexo intelectual de fatos econômicos transformados, mas a visão correta, finalmente conquistada, de condições reais, sempre presentes em todos os lugares.” Cit. em Gustav Mayer, Friedrich Engels, vol. II, Friedrich Engels und der Aufstieg der Arbeiterbewegung in Europa, Berlim, pp. 450-451.

[N 6a, 1]

[...]

É preciso estabelecer a relação entre a presença de espírito e o “método” do materialismo dialético. Não se trata apenas de sempre poder demonstrar um processo dialético na presença de espírito, considerada como uma das formas mais elevadas de comportamento apropriado. O que é decisivo é que o dialético não pode considerar a história senão como uma constelação de perigos, que ele — que acompanha seu desenvolvimento com o pensamento — está sempre prestes a desviar.

[N 7, 2]

“A Revolução talvez seja mais um drama que uma história, e o patético nela é uma condição mãe imperiosa quanto a autenticidade.” Blanqui, cit. em Gefifroy, LEnfermé, vol. I, Paris, 1926, p. 232.

[N 7, 3] 

Necessidade de prestar atenção, durante muitos anos, a qualquer citação casual, qualquer menção fortuita de um livro. 

[N 7, 4]

Contrastar a teoria da história com a observação de Grillparzer, traduzida por Edmond Jaloux nos “Joumaux intimes” (Le Temps, 23 maio 1937): “Ler o futuro é difícil, mas enxergar puramente o passado é mais difícil ainda — digo puramente, isto é, sem misturar a esse olhar retrospectivo tudo o que aconteceu no intervalo.” A “pureza” do olhar não só é difícil, mas também impossível de ser alcançada. 

[N 7, 5]

É importante para o historiador materialista distinguir, com máximo rigor, a construção de um estado de coisas histórico daquilo que se costuma denominar sua “reconstrução”. A “reconstrução” através da empatia é unidimensional. A “construção” pressupõe a “destruição”. 

[N 7, 6]

Para que um fragmento do passado seja tocado pela atualidade não pode haver qualquer continuidade entre eles.

[N 7, 7]

A história anterior [Vorgeschichte] e a história posterior [Nachgeschichte] de um fato históncn aparecem nele graças a sua apresentação dialética. Além disso: cada fato histórico apresentado dialeticamente se polariza, tornando-se um campo de forças no qual se processa o confronto entre sua história anterior e sua história posterior. Ele se transforma neste campo de forças quando a atualidade penetra nele. E assim o fato histórico se polariza em sua história anterior e posterior sempre de novo, e nunca da mesma maneira. Tal polarização ocorre fora do fato, na própria atualidade — como numa linha, dividida segundo o corte apolíneo,12 em que a divisão é feita fora da linha. '

[N 7a, 1]

O materialismo histórico não aspira a uma apresentação homogêna nem tampouco contínua da história. Do fato de a superestrutura reagir sobre a infra-estrutura resulta que não existe uma história homogêna, por exemplo, a história da economia, nem tampouco existe uma história da literatura ou do direito. Por outro lado, uma vez que as diferentes épocas do passado são tocadas pelo presente do historiador em graus bem diversos (sendo muitas vezes o passado mais recente nem sequer tocado pelo presente; este “não lhe faz justiça”), uma continuidade da apresentação histórica é inviável. 

[N 7a, 2] 

 [...]

A apresentação materialista da história leva o passado a colocar o presente numa situação crítica.

[N 7a, 5]

É minha intenção resistir àquilo que Valéry chama de “uma leitura lenta e pontuada de resistências de um leitor difícil e refinado”. Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, Introdução de Paul Valéry, Paris, 1928, p. XIII.

[N 7a, 6 ]

Meu pensamento está para a teologia como o mata-borrão está para a tinta. Ele está completamente embebido dela. Mas se fosse pelo mata-borrão, nada restaria do que está escrito.

[N 7a, 7]

É o presente que polariza o acontecimento em história anterior e história posterior.

[N 7a, 8] 

9 A passagem encontra-se na Introdução de Kritik der politischen Ökonomie, de 1857; cf. Marx e Engels, MEW, vol. XIII, 2 a ed., Berlim, 1964, pp. 640-641. (R.T.)
10 Marx e Engels, MEW, vol. XIX, Berlim, 1962, p. 223. (R.T.) 
11 Marx e Engels, MEW, vol. II, Berlim, 1957, p. 135. (R.T.)
12 Trata-se provavelmente do “segmento áureo” (ou “proporção áurea”, golden section), elaborado na Grécia antiga e retomado pelo matemático italiano Leonardo de Pisa (Fibonacci). Cf. H. E. Huntley, A Divina Proporção: Um Ensaio sobre a Beleza na Matemática, Brasília, Ed. UnB, 1985. (w.b.) 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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