23.1.26

continua/benjamin/passagens/Das Passagen-Werk/continua

 
“A ... paisagem profundamente transformada do século XIX permanece visível até hoje, pelo menos em seus rastros. Ela foi formada pela estrada de ferro... Os lugares onde se concentra essa paisagem histórica são aqueles em que montanha e túnel, desfiladeiro e viaduto, torrente e teleférico, rio e ponte de ferro ... revelam seu parentesco... Em sua singularidade, atestam que a natureza não se degradou, diante do triunfo da civilização técnica, em algo que não tem nome nem imagem, que a mera construção da ponte ou do túnel em si mesma ... não se tornou a característica da paisagem, e sim que o rio ou a montanha tomaram imediatamente um lugar a seu lado, não como um derrotado aos pés do vencedor, mas como uma potência amiga... O trem de ferro que desaparece em um túnel dentro das montanhas ... parece ... retornar à sua própria origem, onde repousa a matéria da qual ele próprio foi feito.” Dolf Sternberger, Panorama oder Ansichten vom 19. Jahrhundert, Hamburgo, 1938, pp. 34-35.
[N 12a, 2]
[...]
Lotze, como crítico do conceito de progresso: “Diante da afirmação bem aceita de um progresso retilíneo da humanidade..., uma reflexão mais prudente viu-se há muito obrigada a constatar que a história avança em espirais; outros preferem falar em epiciclóides. Em suma, nunca faltaram, mesmo sob a forma de obscuros travestimentos, testemunhos de que a impressão geral da história não é puramente edificante, mas predominantemente melancólica. Um observador isento nunca deixará de se espantar e se lamentar de quantos bens culturais e quanta beleza singular da vida ... desapareceram, para nunca mais voltar.” Hermann Lotze, Mikrokosmos, vol. III, Leipzig, 1864, p. 21.
[N 13, 2]
[...]
À concepção segundo a qual “há progresso suficiente quando ... a cultura [Bildung] de uma pequena minoria procura se sofisticar cada vez mais, enquanto a grande maioria permanece em uma condição de perene incultura [Unbildung], Lotze contrapõe a pergunta: “como seria possível falar em tais condições de uma historia da humanidade como um todo?” Lotze, Mikrokosmos, vol. III, p. 25.
[N 14a, 2]
“A maneira como a educação da Antigüidade é quase que exclusivamente transmitida”, leva, como diz Lotze, “diretamente de volta a algo que é o contrário daquilo que deveria ser o objetivo do trabalho histórico; quero dizer, ela leva à formação de um instinto de cultura que abrange cada vez mais elementos da vida moral e os subtrai da ação autonoma, para transformá-los em uma propriedade já sem vida.” (p. 28) De maneira análoga: “O progresso da ciência não é ... de imediato um progresso da humanidade; ele o seria se, com o crescimento dos conteúdos de verdade acumulados, aumentasse igualmente a participação dos seres humanos nestes conhecimentos, e a clara compreensão do que significa para eles o seu conjunto.” Lotze, op. cit., p. 29.
[N 14a, 3]
[...]
Uma fórmula que Baudelaire cria para a consciência do tempo própria de quem se encontra sob o efeito do haxixe pode ser aplicada à definição de uma consciência histórica revolucionária; ele fala de uma noite na qual estava tomado pelos efeitos do haxixe: “Por mais longa que ela tenha parecido ... eu tinha a impressão, entretanto, de que ela não havia curado mais que alguns segundos, ou mesmo de que ela não havia tomado um lugar na eternidade.” Baudelaire, Œuvres, ed. I e Dantec, Paris, 1931, vol. I, pp. 298-299.21 
[N 15, 1]
Em qualquer época, os vivos descobrem-se no meio-dia da história. Espera-se deles que preparem um banquete para o passado. O historiador é o arauto que convida os defuntos à mesa.
[N 15, 2]
Sobre a dietética dos livros de história. O contemporâneo que reconhece por meio deles há quanto tempo a miséria que se abate sobre ele vem sendo preparada — e mostrar-lhe isto deve ser o desejo caro ao historiador — adquire uma alta opinião a respeito de suas próprias forças. Uma história que assim o instrui não o entristece; ao contrário, ela lhe fornece armas. E tampouco ela provém da tristeza, ao contrário daquela que Flaubert tinha em mente quando escreveu a seguinte confissão: “Poucos suspeitarão o quanto foi preciso estar triste para empreender a ressureição de Cartago.” A pura “curiosidade nasce da tristeza, e a aprofunda.
[N 15, 3] 
[...]
“O passado deixou nos textos literários imagens de si mesmo, comparáveis às imagens que a luz imprime sobre uma chapa sensível. Só o futuro possui reveladores suficientemente ativos para examinar perfeitamente tais clichês. Várias páginas de Marivaux ou de Rousseau contêm um sentido misterioso que os primeiros leitores não podiam decifrar plenamente.” André Monglond, Le Préromantisme Français, vol. I, Le Héros Préromantique, Grenoble, 1930, p. XII.
[N 15a, 1] 
[...]
Sobre o estilo a que se deve aspirar: “É através das palavras comuns que o estilo morde e invade o leitor. E através delas que circulam e são considerados genuínos os grandes pensamentos, como o ouro e a prata marcados com um selo conhecido. Elas inspiram a confiança naquele que se serve delas para tornar seus pensamentos mais inteligíveis, pois reconhecemos no emprego da língua comum um homem que sabe da vida e das coisas, e que se mantém em contato com elas. Além do mais, essas palavras tornam o estilo franco. Elas mostram que o autor por muito tempo remoeu o pensamento ou o sentimento expresso, que se apropriou deles e os tornou de tal forma familiares, que as expressões mais comuns lhe sao suficientes para exprimir idéias que, para ele, se rornaram banais, graças a uma longa meditação. Enfim, o que se diz parece mais verdadeiro, porque nada é tão claro, no domínio das palavras, quanto aquelas que chamamos de familiares; e a clareza é um elemento tão distintivo da verdade que, muitas vezes, tomamos uma pela outra.” Nada mais sutil que o conselho de ser claro para, pelo menos, parecer verdadeiro. O conselho de escrever com simplicidade, na maioria das vezes fruto do ressentimento, quando dado desta maneira, adquire a máxima autoridade. J. Joubert, Œuvres, vol. II, Paris, 1883, p. 293 (“Du style”, XCIX).
[N 15a, 3]
Aquele que pudesse desenvolver a dialética dos preceitos de Joubert obteria uma estilística digna de nota. Assim, Joubert aconselha o uso das “palavras familiares”, mas adverte contra a “língua particular” que “só exprime coisas relativas a nossos costumes presentes”. Op. cit., p. 286 (“Du style”, LXVII).
[N 16, 1] 
[...]
Considerando a economia política, Marx caracteriza magnificamente como “seu elemento vulgar” “o elemento que nela é mera reprodução da aparência como representação a aparência”. Cit. em Korsch, Karl Marx (manuscrito), vol. II, p. 22.23 Este elemento vulgar deve ser igualmente denunciado nas outras ciências. 
[N 16, 3]
Conceito de natureza em Marx: “Se em Hegel ... ‘também a natureza física intervém na história universal’, Marx concebe a natureza desde o início segundo categorias sociais. A natureza física não intervém de maneira imediata na história universal, e sim de maneira mediata, como um processo de produção material que se desenvolve desde a sua origem não só entre o homem e a natureza, mas também entre o homem e o homem. Ou, para usar uma linguagem compreensível também para os filósofos: a natureza pura, pressuposto de toda atividade humana (a natura naturans econômica), é substituída, em toda parte enquanto matéria social, na ciência rigorosamente social de Marx  pela natureza como produção material (a natura naturata econômica), mediada e transformada pela atividade humana social, e, com isso, ao mesmo tempo, suscetível de ser modificada e transformada no presente e no futuro.” Korsch, op. cit.., vol. III, p. 3.24
[N 16, 4]
Korsch menciona as seguintes reformulações da tríade de Hegel nos termos de Marx: “A ‘contradição’ hegeliana é substituída pela luta das classes sociais, a ‘negação’ dialética pelo proletariado e a ‘síntese’ dialética pela revolução proletária.” Korsch, op. cit., vol. 111, p. 45.25
[N 16, 5]
Restrições à concepção materialista da história por parte de Korsch: “Com as transformações do modo de produção material, transforma-se também o sistema de mediações existente entre a base material e sua superestrutura política e jurídica, com suas correspondentes formas sócias de consciência. Por isso, as proposições gerais da teoria social materialista, concernentes às relações entre economia e política ou economia e ideologia, ou conceitos gerais como classes e luta de classes, ... têm um significado diferente para cada época especifica, e, na forma específica em que foram enunciadas por Marx em relação à atual sociedade burguesa, estas proposições são válidas a rigor somente para esta sociedade... Apenas para a atual sociedade burguesa, na qual as esferas da economia e da política estão formalmente e totalmente separadas uma da outra e onde os trabalhadores, na qualidade de cidadãos, são livres e iguais quanto a seus direitos, a demonstração cientifica de sua efetiva e continua falta de liberdade na esfera econômica tem o caráter de uma descoberta teórica.” Korsch, Op. cit., vol. III, p. 21-22.26
 [M 16 a, 1]
Korsch faz a “constatação aparentemente paradoxal, mas pertinente para a ultima e mais madura forma da ciência marxista, de que na teoria social materialista de Marx aquele todo das relações sociais, que é tratado pelos sociólogos burgueses como um domínio de pesquisas independente, ... já é tratado pela ciência histórica e social da economia segundo seu conteúdo objetivo... Nesse sentido, a ciência social materialista de Marx não é sociologia, e sim economia.” Korsch, op. cit., vol. III, p. 103.27 
[N 16a, 2]
Uma citação de Marx sobre a mutabilidade da natureza (em Korsch, op. cit., vol. III p. 9): “Mesmo as diferenças naturais das espécies, como as diferenças de raça etc., ... podem e devem ser abolidas no processo histórico.”28
[N 16a, 3]
  
21 Baudelaire, OC I, p. 424. (J.L.) 
23 Paralelamente às referências à versão manuscrita do livro de Korsch  que foi o texto utilizado por Benjamin indicam-se aqui as citações da edição em livro: Karl Korsch, Karl Marx, ed. org. por Götz Langkau, Frankfurt a. M. - Viena, 1967, p. 74. (R.T.)
24 Korsch , 1967 , pp. 128-129. A obra de Hegel atada por Korsch é Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte (Introdução geral, 2, 1 , a). (R.T.; E/M)
25 Op. cit., p. 160. (R.T.) 
26 Op. cit., p. 1 39. (R.T.)
27 Op. cit., pp. 128-129. (R.T.)
28 Op. cit, p. 1 33. Korsch cita de Marx e Engels, Gesamtausgabe (Berlim, 1927-1930), vol. I, parte V, p. 403. (R.T.; E/M) 
 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

Nenhum comentário: