26.1.26

continua/Charles Baudelaire/Poesia e prosa/Flores do Mal/Les Fleurs du mal/Ivan Junqueira

XCIV
 
Le squelette laboureur
 
1
Dans les planches d’anatomie
Qui traînent sur ces quais poudreux
Où maint livre cadavéreux
Dort comme une antique momie,

Dessins auxquels la gravité
Et le savoir d’un vieil artiste,
Bien que le sujet en soit triste,
Ont communiqué la Beauté,

On voit, ce qui rend plus complètes
Ces mystérieuses horreurs,
Bêchant comme des laboureurs,
Des Écorchés et des Squelettes. 
 
2

De ce terrain que vous fouillez,
Manants résignés et funèbres,
De tout l’effort de vos vertèbres,
Ou de vos muscles dépouillés,

Dites, quelle moisson étrange,
Forçats arrachés au charnier,
Tirez-vous, et de quel fermier
Avez-vous à remplir la grange?

Voulez-vous (d’un destin trop dur
Épouvantable et clair emblème!)
Montrer que dans la fosse même
Le sommeil promis n’est pas sûr;

Qu’envers nous le Néant est traître;
Que tout, même la Mort, nous ment,
Et que sempiternellement,
Hélas! Il nous faudra peut-être

Dans quelque pays inconnu
Écorcher la terre revêche
Et pousser une lourde bêche
Sous notre pied sanglant et nu? 
 
O esqueleto lavrador 
 
 
Nas lâminas de anatomia
Amontoadas no cais poeirento
Onde muito livro ao relento
Dorme como múmia sombria,
 
Desenhos aos quais a grandeza
E o cabedal de um velho artista,
Conquanto a dor no tema exista, 
Comunicaram a Beleza,

Vêem-se, o que faz mais completos
Esses fantásticos horrores,
A escavar como lavradores
Escalpelados e esqueletos.
 
2
 
Desses torrões por vós cavados,
Tíbios campônios em destroços, 
De todo esse esforço dos ossos
Ou dos músculos esfolados,

Dizei, que messe estranha e alheia,
Galés expulsos de um carneiro,
Ceifais, e de que fazendeiro
Deveis deixar a granja cheia?

Quereis (de um destino tão duro
Espantoso e límpido emblema!)
Mostrar que nem na cova extrema
Sequer dormir nos é seguro;

Que o Nada conosco é falsário;
Que tudo, a morte até, nos mente,
Que desde sempre e eternamente
Talvez nos seja necessário

Nalgum país desconhecidoEscalpelar a terra má
E empurrar uma áspera pá
Com pé descalço e dolorido? 
 
XCV
 
O crepúsculo vespertino

Eis a noite sutil, amiga do assassino;
Ela vem como um cúmplice, a passo lupino;
Qual grande alcova o céu se fecha lentamente,

E em besta fera torna-se o homem impaciente.
Ó noite, amável noite, almejada por quem
Cujas mãos, sem mentir, podem dizer: Amém,
Galgamos nosso pão! — É a noite que alivia
As almas que uma dor selvagem suplicia, 
O sábio cuja fronte pesa sem proveito,E o recurvo operário que regressa ao leito.
Entretanto, demônios insepultos no ócio
Acordam do estupor, como homens de negócio,
E estremecem a voar o postigo e a janela.
Através dos clarões que o vendaval flagela
O Meretrício brilha ao longo das calçadas;
Qual formigueiro ele franqueia mil entradas;
Por toda parte engendra uma invisível trilha,
Assim como inimigo apronta uma armadilha;
Pela cidade imunda e hostil se movimenta
Como um verme que ao Homem furta o que o sustenta.
Ouvem-se aqui e ali as cozinhas a chiar,
Os teatros a ganir, as orquestras a ecoar;
Sobre as roletas em que o jogo encena farsas,
Curvam-se escroques e rameiras, seus comparsas,
E os ladrões, que perdão ou trégua alguma têm
Começam cedo a trabalhar, eles também,
Forçando docemente o trinco e a fechadura
Para que a vida não lhes seja assim tão dura. 
 
Recolhe-te, minha alma, neste grave instante,
E tapa teus ouvidos a este som uivante.
É o momento em que as dores dos doentes culminam!
A Noite escura os estrangula; eles terminam
Seus destinos no horror de um abismo comum;
Seus suspiros inundam o hospital; mais de um
Não mais virá buscar a sopa perfumada,
Junto ao fogão, à tarde, ao pé da bem-amada. 
 
E entre eles muitos há que nunca conheceram
A doçura do lar e que jamais viveram!
 
XCVII
 
Danse macabre

A Ernest Christophe

Fière, autant qu’un vivant, de sa noble stature,
Avec son gros bouquet, son mouchoir et ses gants,
Elle a la nonchalance et la désinvolture
D’une coquette maigre aux airs extravagants.
 
Vit-on jamais au bal une taille plus mince?
Sa robe exagérée, en sa royale ampleur,
S’écroule abondamment sur un pied sec que pince
Un soulier pomponné, joli comme une fleur.
 
La ruche qui se joue au bord des clavicules,
Comme un ruisseau lascif qui se frotte au rocher,
Défend pudiquement des lazzi ridicules
Les funèbres appas qu’elle tient à cacher.
 
Ses yeux profonds sont faits de vide et de ténèbres,
Et son crâne, de fleurs artistement coiffé,
Oscille mollement sur ses frêles vertèbres,
O charme d’un néant follement attifé!

Aucuns t’appelleront une caricature,
Qui ne comprennent pas, amants ivres de chair,
L’élégance sans nom de l’humaine armature.
Tu réponds, grand squelette, à mon goût le plus cher!

Viens-tu troubler, avec ta puissante grimace,
La fête de la Vie? ou quelque vieux désir,
Éperonnant encor ta vivante carcasse,
Te pousse-t-il, crédule, au sabbat du Plaisir? 
 
Au chant des violons, aux flammes des bougies,
Espères-tu chasser ton cauchemar moqueur,
Et viens-tu demander au torrent des orgies
De rafraîchir l’enfer allumé dans ton cœur?

Inépuisable puits de sottise et de fautes!
De l’antique douleur éternel alambic!
A travers le treillis recourbé de tes côtes
Je vois, errant encor, l’insatiable aspic.

Pour dire vrai, je crains que ta coquetterie
Ne trouve pas un prix digne de ses efforts;
Qui, de ces cœurs mortels, entend la raillerie?
Les charmes de l’horreur n’enivrent que les forts!

Le gouffre de tes yeux, plein d’horribles pensées,
Exhale le vertige, et les danseurs prudents
Ne contempleront pas sans d’amères nausées
Le sourire éternel de tes trente-deux dents.

Pourtant, qui n’a serré dans ses bras un squelette,
Et qui ne s’est nourri des choses du tombeau?
Qu’importe le parfum, l’habit ou la toilette?
Qui fait le dégoûté montre qu’il se croit beau.

Bayadère sans nez, irrésistible gouge,
Dis donc à ces danseurs qui font les offusqués:
“Fiers mignons, malgré l’art des poudres et du rouge,
Vous sentez tous la mort! O squelettes musqués,

Antinoüs flétris, dandys à face glabre,
Cadavres vernissés, lovelaces chenus,
Le branle universel de la danse macabre
Vous entraîne en des lieux qui ne sont pas connus!

Des quais froids de la Seine aux bords brûlants du Gange,
Le troupeau mortel saute et se pâme, sans voir
Dans un trou du plafond la trompette de l’Ange
Sinistrement béante ainsi qu’un tromblon noir.

En tout climat, sous tout soleil, la Mort t’admire
En tes contorsions, risible Humanité,
Et souvent, comme toi, se parfumant de myrrhe,
Mêle son ironie à ton insanité!” 
 
Dança macabra

A Ernest Christophe

Vaidosa, qual mortal, da fidalga estatura,
Com seu buquê, a luva e o lenço balouçante,
Tem ela a inércia e a singular desenvoltura
De uma coquete esguia de ar extravagante.

Quem viu jamais no baile um porte tão sublime?
O vestido abundante, em rútilo esplendor,
Descai em dobras sobre um pé que se comprime
Em rico borzeguim, belo como uma flor.

A mantilha que ondula à borda das clavículas,
Qual lascivo regato a roçar no rochedo,
Recobre, com temor das pilhérias ridículas,
Os fúnebres ardis que ela guarda em segredo.

As trevas e o vazio inundam-lhe a pupila,
E o crânio, com artísticas flores penteado,
Sobre as vértebras frágeis indolente oscila.
Ó fascínio de um nada loucamente ornado!

Alguns verão em ti uma caricatura,
E sedentos da carne voltam sempre o rosto
À anônima elegância da humana ossatura.
Atendes, esqueleto, à essência de meu gosto!

Vens então denegrir, com teu ar de desgraça,
A doçura da Vida? Ou qualquer coisa a doer,
Pungindo ainda a tua agônica carcaça,
Te impele, tão ingênua, ao sabá do prazer? 
 
Ao canto do violino, ao cintilar dos círios,
Pensas fugir ao teu mordaz sonho malsão,
E vens pedir à ébria torrente dos delírios
Que te refresque o inferno em que arde o coração?

Inesgotável poço de erros e mazelas!
Da antiga dor um alambique intermitente!
Por entre as grades curvas de tuas costelas
Eu vejo, a errar ainda, a lúbrica serpente.

Chego a pensar que a tua atroz coqueteria
Nunca recebe pelo esforço a justa paga;
Que coração mortal te entende a zombaria?
O fascínio do horror somente ao forte embriaga!

Teus olhos abissais, cheios de horrendos sonhos,
Fazem girar tudo em redor, e os mais prudentes
Jamais contemplarão sem vômitos medonhos
O sorriso fatal de teus trinta e dois dentes.

Mas quem nos braços nunca teve um esqueleto,
Ou sequer uma vez não se nutriu do além?
Que importa o aroma, o traje, o enfeite mais faceto?
Quem de raro se faz crê-se belo também.

Cortesã sem nariz, hedionda bailarina,
Dize aos que dançam e se fingem de ofuscados:
“Galãs gentis, malgrado o ruge e a purpurina,
Cheirais à morte! Ó esqueletos perfumados!

Antínoos já sem viço ou dândis de tez glabra,
Defuntos de verniz, dom-juans encanecidos, 
O embalo universal dessa dança macabra
Vos arrasta a confins por ninguém conhecidos!

Dos frios cais do Sena ou do Ganges ao leste,
O rebanho mortal se agita em toda parte,
Sem ver surgir no teto a trombeta celeste
Que se abre qual sinistro e negro bacamarte.

Ao sol de qualquer clima, a Morte te aprecia
As fátuas contorções, bizarra Humanidade,
E às vezes, como tu, em perfumada orgia,
Mistura o seu sarcasmo à tua insanidade!” 
 
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa / Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso; traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira, Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira, Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni, Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e notas adicionais Ivo Barroso.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

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