LVI
EX-VOTO AO GOSTO ESPANHOL
A ti, Madona e amante, eu quero consagrar,
Na mais funda miséria, um subterrâneo altar,
E nos confins mais tenebrosos de meu peito,
Bem longe do prazer mundano e do despeito,
Cavar um nicho de ouro e azul todo esmaltado,
Onde terás, Estátua, o que te for do agrado.
Com Versos que esculpi no mais puro metal,
Armados sabiamente em rimas de cristal,
Porei em tua fronte um imenso Diadema;
E o pródigo de Ciúme, ó Madona suprema,
Hei de saber talhar-te, ao gosto mais sombrio,
Um rijo e espesso Manto, ambíguo no feitio,
Que, qual uma guarita, há de ocultar-te o encanto,
E em vez de Pérolas, as gotas de meu Pranto!
Teu vestido será meu Desejo a fremir,
Meu Desejo ondulante, a descer e a subir,
Que nos cumes se agita e nos vales estanca,
E com beijos te reveste a nudez rósea e branca.
Farei de meu Respeito esplêndidos Calçados
De cetim, por teus pés divinos humilhados,
Que, ao envolvê-los em macio e doce abraço,
Tal qual um molde fiel lhes guarde o breve traço.
Se não posso, já que me é pouca a pena ingrata,
Por Escabelo dar-te uma Lua de prata,
Então porei sob teus pés a cruel Serpente,
Para que calques e escarneças inclemente,
Rainha vitoriosa e fértil em perdões,
Este monstro ébrio de ódio e gosma dos pulmões.
Verás meus Pensamentos, firmes como os Círios
Diante do altar em flor da Rainha dos Lírios,
Crivando o teto azul de estrelas e de flamas,
A contemplar-te com pupilas sempre em chamas;
E como tudo em mim te quer de amor intenso,
Tudo será Benjoim, Mira, Olíbano, Incenso,
E sempre rumo a ti, nos píncaros pousada,
Em Vapor subirá minha alma atormentada.
Enfim, para concluir teu papel de Maria,
E para misturar o amor à grosseria,
Negra volúpia! Dos Pecados capitais,
Algoz cheio do horror, farei sete Punhais
Bem aguçados e, jogral sem emoção,
Fazendo de alvo o teu secreto coração,
Hei de cravá-los todos, a meu gosto e jeito,
Em teu arfante, soluçante e ardente peito!
E para misturar o amor à grosseria,
Negra volúpia! Dos Pecados capitais,
Algoz cheio do horror, farei sete Punhais
Bem aguçados e, jogral sem emoção,
Fazendo de alvo o teu secreto coração,
Hei de cravá-los todos, a meu gosto e jeito,
Em teu arfante, soluçante e ardente peito!
LVIII
CANÇÃO DA SESTA
Embora os cílios traiçoeiros
Te dêem esse ar esquisito,
Decerto a um anjo interdito,
Ó maga de olhos faceiros,
Eu te amo, minha selvagem,
Minha frívola paixão!
Com a mesa devoção
Que ama o padre sua imagem.
O deserto e o arvoredo
Perfumam-te as tranças rudes,
E tens na fronte atitudes
De mistério e de segredo.
Qual turíbulo envolvente,
Teu corpo esparge perfumes;
Da noite o encanto resumes,
Ninfa tenebrosa e ardente.
Não há poção mais bendita
Do que teu ócio, ó delícia,
E conheces a carícia
Que os defuntos ressuscita!
Por teu dorso e por teus seios
Teus quadris morrem de amores
E aos coxins causas rubores
Com teus lânguidos meneios.
Se urge às vezes ser domada
Tua raiva misteriosa,
Tu me cravas, respeitosa,
Além do beijo, a dentada.
Morena, tu me aniquilas
Com teu riso de acre efeito,
E depois banhas-me o peito
No luar de tuas pupilas.
A teus pés de talhe fino,
Pés graciosos de cetim,
Ponho tudo o que há em mim,
O meu gênio e o meu destino.
Por ti minha alma se cura,
Só por ti, que és luz e cor!
Fulguração de calor
Em minha Sibéria escura!
LIX
SISINA
Imaginai Diana em galante roupagem,
Percorrendo florestas e sarçais rasteiros,
Cabelo e colo ao vento, em júbilo selvagem,
Soberba, a desafiar os hábeis cavaleiros!
Já nÃo viste Théroigne, amante da carnagem,
Insuflando ao ataque um bando de arruaceiros,
A face e o olhar febril, conforme a personagem,
Galgando, sabre em punho, o trono dos herdeiros?
Tal é a Sisina! Mas a doce combatente
Revela uma alma tão feroz quanto indulgente;
Seu destemor, vizinho à pólvora e aos tambores,
Sabe poupar a vida a quem de pé implora,
E sempre o coração, pulsando entre fulgores,
Ante quem o merece eis que se mostra e chora.
E sempre o coração, pulsando entre fulgores,
Ante quem o merece eis que se mostra e chora.
LX
LOUVORES À MINHA FRANCISCA
Versos compostos para uma modista erudita e devota
Em novas cordas te canto,
Ó corça de álacre encanto
Que se diverte em meu pranto.
Ó corça de álacre encanto
Que se diverte em meu pranto.
Envolve o corpo de flores,
Ó mulher que aos pecadores
Perdoa as culpas e as dores!
Como a um Lestes benfazejo,
À boca te sorvo um beijo,
Pois que és imã do desejo.
Quando da tormenta da orgia
Meus caminhos confundia,
Eis que vieste, Deusa, um dia,
Bendita estrela dos mares,
Nos naufrágios, nos pesares...
A alma elevo a teus altares!
Límpida e fresca nascente,
Fluxo de eterno presente,
Restituiu-me a voz ausente!
O que era impuro queimaste;
O que era áspero alisaste;
O que era frágil firmaste.
Na minha fome, taverna,
Na minha noite, lanterna,
Sempre reta me governa.
À força mais força soma,
Doce banho cujo aroma
Suavíssimo vem à tona!
Cinge-me toda a cintura,
Casta insígnia que fulgura
Em seráfica tintura;
Taça que em gemas faísca,
Salso pão, dádiva prisca,
Divino vinho, Francisca!
LXIII
A ALMA DO OUTRO MUNDO
Como os anjos de ruivo olhar,
À tua alcova hei de voltar
E junto a ti, silente vulto,
Deslizarei na sombra oculto;
Dar-te-ei na pele escura e nua
Beijos mais frios do que a lua
E qual serpente em náusea fossa
Te afagarei o quanto possa.
Ao despontar o dia incerto,
O meu lugar verás deserto,
E em tudo o frio há de se pôr.
Como os demais pela virtude,
Em tua vida e juventude
Quero reinar pelo pavor.
LXIV
SONETO DE OUTONO
O teu olhar me diz, claro como cristal:
“Bizarro amante, o que há em mim que mais te excita?”
— Sê bela e cala! O meu coração, que se irrita,
Por tudo, exceto a antiga candura animal,
Não te quer revelar seu segredo infernal,
Embalo cuja mão a um longo sono incita,
Nem a sua negra lenda a ferro e fogo escrita.
Abomino a paixão e a alma me faz mal!
Amemo-nos em paz. Amor, numa guarida,
Tenebroso, emboscado, entesa o arco fatal.
Conheço-lhe os engenhos do velho arsenal:
Crime, horror e loucura! — Ó branca margarida!
Não serás tu, como eu, triste sol outonal,
Ó minha branca, ó minha branca Margarida?
BAUDELAIRE, Charles. 1821-1867. Poesia e prosa /
Charles Baudelaire; volume único; edição organizada por Ivo Barroso;
traduções, introduções e notas: Ivan Junqueira, Alexei Bueno; Antônio
Paulo Graça, Aurélio Buarque de Holanda Ferreiro, Cleone Augusto
Rodrigues, Fernando Guerreiro, Heitor Ferreira da Costa, Ivan Junqueira,
Joana Angélica dÁvila Melo, José Saramago, Maiza Martins de Siqueira,
Manuel Bandeira, Marcella Mortara, Mário Pontes, Marise M.Curioni,
Plínio Augusto Coêlho, Suely Cassal, Wilson Coutinho; revisão geral e
notas adicionais Ivo Barroso. — Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

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