22.5.26

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Se na concepção burguesa as coisas e as relações econômicas’ parecem ser, aos olhos do cidadão individual, apenas elementos exteriores a ele..., na nova concepção os homens, em todas as suas ações, movem-se desde o início nas condições sociais determinadas que se originam, por sua vez, de um dado estágio de desenvolvimento da produção material... Os ideais da sociedade burguesa, como o indivíduo livre e autônomo, a liberdade e a igualdade de todos os cidadãos no exercício de seus direitos políticos e a igualdade de todos perante a lei, revelam-se agora apenas como conceitos correlatos ao fetichismo da mercadoria, derivados do intercâmbio de mercadorias... Apenas através do recalque das relações sociais reais para o inconsciente..., apenas através da metamorfose fetichista das relações sociais que se estabelecem entre a classe dos capitalistas e a classe dos assalariados, graças à ‘livre’ venda da mercadoria força de trabalho’ ao proprietário do ‘capital’ ... é possível falar nesta sociedade de liberdade e de igualdade.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 75-77.26
[X 8a, 1]
“A barganha individual e coletiva das condições de venda da mercadoria força de trabalho ainda pertence totalmente ao mundo da aparência fetichista. Considerados do ponto de lista social, junto com os meios materiais de produção, os operários assalariados sem propriedade, que vendem como indivíduos sua força de trabalho por meio do ‘livre contrato de trabalho’ a um empreendedor capitalista, são, enquanto classe, desde o início e para sempre, a propriedade da classe que dispõe dos meios materiais de trabalho. Portanto, não é inteiramente verdadeiro o que Marx afirmara no Manifesto Comunista... A burguesia ainda não ... introduziu a ‘exploração aberta, não velada, ela apenas colocou no lugar da exploração enfeitada de ilusões religiosas e políticas” [da Idade Média] “uma outra forma de exploração velada, mais refinada e mais difícil de desmascarar. Se em épocas passadas as relações de dominação e servidão, abertamente proclamadas, aparecem como as molas propulsoras imediatas da produção, na época burguesa ... ao contrário, a produção ... serve como pretexto para as ... relações de exploração.” Korsch, op. cit., pp. 64-6 57.27
[X 8a, 2]
[...]  Na “realidade”, para Marx, naturalmente, “os diversos trabalhos efetuados para a produção dos diferentes bens de consumo são efetivamente diferentes também sob o domínio da lei do valor”. Op. cit., vol. I, p. 68.28 Isto contra Simmel, cf. X 6, X 6a.
[X9]
“Marx e Engels ... chamaram a atenção para o fato de que o ideal de igualdade que se formou na época da produção burguesa de mercadorias, e que se expressa, no plano econômico, na ‘lei de valor’ dos clássicos burgueses, conserva como tal um caráter burguês e, por isso, só é incompatível com a exploração da classe operária pelo capital do ponto de vista ideológico, não na realidade. Os socialistas ricardianos imaginavam..., a partir do princípio econômico de que ‘só o trabalho produz o valor’, poder transformar todos os homens em operários imediatos, que trocam quantidades de trabalho de valor igual. Marx replicou ... que esta relação igualitária ... é, ela própria, apenas o reflexo do mundo atual, e que é, em consequência, totalmente impossível reconstituir a sociedade sobre uma base que é apenas sua sombra embelezada. À medida que a sombra toma corpo, percebe-se que esse corpo, longe de ser sua sonhada transformação, é o corpo atual da sociedade.’” A citação é extraída de La Misère de la Philosophie, Korsch, vol. II, p. 4.29
[X 9a, 1]
Korsch: Na época burguesa, “a fabricação dos produtos do trabalho serve de pretexto e invólucro para as ... relações de opressão e de exploração. A economia política é a forma científica da dissimulação deste estado de coisas.” Sua função: deslocar “a responsabilidade pela inibição do desenvolvimento e pela destruição da vida  que já se dão no atual estágio das forças sociais produtivas e que emergem de forma catastrófica nas grandes crises econômicas  da esfera da ação humana ... para a esfera das relações naturais e imutáveis entre as coisas.” Korsch, op. cit., vol. II, p. 65.30
[X 9a, 2]
“A distinção entre valor de uso e valor de troca, sob a forma abstrata em que é apresentada pelos economistas burgueses..., não constitui um ponto de partida aproveitável para o conhecimento da produção burguesa de mercadorias... Segundo Marx, trata-se na economia não do valor de uso em geral, e sim do valor de uso da mercadoria. Ora, o valor de uso da ‘mercadoria não é só premissa (extra-econômica) para seu ‘valor’. Ele é um elemento do valor... O fato de uma coisa ter uma utilidade qualquer para um homem qualquer  por exemplo, para aquele que a produz  ainda não determina a definição econômica do valor de uso. Somente o fato de uma coisa ... ter utilidade ‘para outrem’ determina a definição econômica do valor de uso como característica da mercadoria. Se o valor de uso da mercadoria é determinado economicamente como valor de uso social (valor de uso ‘para outrem’), então o trabalho que produz este valor de uso também é definido economicamente corno ... trabalho ‘para outrem’. O trabalho produtor de mercadorias aparece, pois, como trabalho social em um duplo sentido. Ele tem ... um caráter social geral enquanto ‘trabalho especificamente útil’ que produz um certo gênero de ‘valor de uso’ social. Ele tem um caráter histórico específico enquanto ‘trabalho social geral’ que produz uma certa quantidade de ‘valor de troca. A capacidade do trabalho social de produzir certas coisas úteis aos homens ... manifesta-se no valor de uso, sua capacidade de produzir um valor e uma mais-valia para o capitalista (uma característica decorrente da forma particular da socialização do trabalho ... no âmbito da atual época histórica) aparece no valor de troca do produto do trabalho. A fusão dos dois caracteres sociais das mercadorias produzidas pelo trabalho aparece na ‘forma de valor do produto do trabalho’ ou ‘forma da mercadoria’.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 42-44.31
[X 10]
“Ao derivarem o valor a partir do trabalho, os economistas burgueses, no início, quando as categorias abstratas da economia política ainda se encontravam no processo de separação de seu conteúdo material, pensaram também nas diversas formas do trabalho real. Assim, os mercantilistas, os fisiocratas etc. proclamaram que a verdadeira fonte da riqueza seria o trabalho realizado nas indústrias exportadoras, no comércio e nos transportes marítimos, na agricultura etc., nesta ordem. Mesmo em Adam Smith, que definitivamente passou dos diversos ramos do trabalho para a forma geral do trabalho produtor de mercadorias, encontra-se uma determinação paralela, que toma lugar ao lado da definição formalista do ‘trabalho’ (que ele partilha com Ricardo) como uma entidade abstrata que aparece exclusivamente no ‘valor’ (valor de troca). O mesmo trabalho que ele havia definido como trabalho gerador de valor de troca foi definido por ele também ... como a única fonte da riqueza material ou dos valores de uso. Esta doutrina, que sobrevive inerradicável até hoje no socialismo vulgar..., é economicamente falsa.” Partindo destes pressupostos, seria difícil “explicar por que na sociedade ... atual, são pobres justamente aqueles que até agora dispunham sozinhos desta fonte de riqueza, e mais difícil ainda explicar por que eles permanecem ‘sem trabalho’ e pobres, em vez de produzir riqueza com seu trabalho. Mas ... Adam Smith, ao fazer o elogio da força criadora do ‘trabalho’, tinha em mente não tanto o trabalho forçado do operário assalariado moderno, que aparece no valor das mercadorias e que produz o lucro capitalista, mas principalmente a necessidade natural geral do trabalho humano; assim como a glorificação pouco crítica da ‘divisão do trabalho’ naquelas grandes manufaturas’, termo que para ele resume a economia capitalista moderna em seu conjunto, se aplica muito menos à forma extremamente imperfeita da divisão do trabalho na sociedade capitalista amai do que à forma social geral do trabalho humano que aparece de maneira nebulosa.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 44-46.32
[X 10a]
Uma passagem decisiva sobre a mais-valia, mesmo que a frase final necessite ainda de esclarecimento: “Também a doutrina da mais-valia, considerada usualmente corno o elemento socialista propriamente dito da teoria econômica de Marx, não é, na forma aperfeiçoada em que ele a apresenta, nem uma simples operação de aritmética econômica, que atribui ao capitalismo um logro formal praticado contra os operários, nem uma lição moral da economia, que exige que seja devolvida aos operários a parte do ‘produto integral do trabalho’ que foi desviada pelo capital. Como teoria ‘econômica’, ela parte do princípio de que o empresário capitalista adquire ‘normalmente’ a força de trabalho dos assalariados por meio de uma troca leal em que o operário recebe como salário o equivalente integral da ‘mercadoria’ que ele vendeu. A vantagem do capitalista neste negócio não advém da economia, e sim de sua posição social privilegiada de proprietário exclusivo dos meios materiais de produção, que lhe permite explorar, para produzir mercadorias, o valor de uso específico da força de trabalho comprada por ele por seu ‘valor’ (valor de troca). Entre o valor das mercadorias produzidas pela exploração da força de trabalho na empresa capitalista e o preço pago por esta força de trabalho a seus vendedores não existe, segundo Marx, nenhuma relação econômica nem outro tipo de relação que possa ser racionalmente determinada. O tamanho do valor produzido pelos operários na forma dos produtos de seu trabalho acima do equivalente de seu salário, ou seja, a quantidade de mais-trabalho despendido para criar esta ‘mais-valia’, e a relação deste ‘mais-trabalho’ com o trabalho necessário (isto é a taxa de mais-valia ou a taxa de exploração’ vigente respectivamente por um tempo determinado e em um determinado país) não são, portanto, resultado de um cálculo econômico. São o resultado de uma luta social de classes.” Korsch, op. cit., vol. II, pp. 71-72.33
[X 11]
“O sentido da doutrina marxista do valor não consiste absolutamente..., em última análise, na constituição de uma base teórica qualquer para o cálculo prático dos benefícios particulares que busca o homem de negócios, ou para as medidas político-econômicas do homem de Estado burguês, que se preocupa com a manutenção e o crescimento geral da mais-valia capitalista. Segundo Marx, a finalidade científica de sua teoria consiste em ‘desvendar a lei econômica do movimento da sociedade moderna — e isto significa, ao mesmo tempo, a lei de seu desenvolvimento histórico.” Korsch, op. cit., vol. II, p. 70.34
[X 11a, 1]
“Determinação completa do caráter social real daquele processo fundamental da produção capitalista moderna que é apresentado de maneira unilateral tanto pelos economistas burgueses quanto por seus adversários, os socialistas vulgares, ora como produção de bens de consumo, ora como produção de valor ou como simples produção de lucro”: uma “produção de mais-valia mediante a produção de valor mediante a produção de bens de consumo em uma sociedade na qual os bens de produção materiais entram no processo de produção dominado pelo capitalista como capital, enquanto os produtores reais entram como mercadoria força de trabalho.” Korsch, op. cit., vol. III, pp. 10-11.35
[X 11a, 2]
A experiência de nossa geração: o capitalismo não morrerá de morte natural.
[A experiência da atual geração: o capitalismo morre de forma sangrenta (levando com ele tudo o que ainda resta da vida humana, incluindo a sobrevivência fisica)]. 
 [X 11a, 3]
A disputa entre Lafargue e Jaurès caracteriza muito bem a grande forma do materialismo.
[X 11a, 3]
Fontes de Marx e Engels: “Eles tomaram de empréstimo dos historiadores burgueses do período da Restauração o conceito de classe social e de luta de classes; de Ricardo, a fundamentação econômica das diferenças de classe; de Proudhon, a proclamação do proletariado moderno como a única classe realmente revolucionária; dos denunciadores feudais e cristãos da nova ... ordem econômica, o desmascaramento impiedoso dos ideais liberais burgueses, a invectiva carregada de ódio que atinge fundo o coração; do sooal pequeno-burguês de Sismondi, o desmembramento perspicaz das contradições do modo moderno de produção; dos companheiros iniciais da esquerda hegeliana, principalmente Feuerbach, o humanismo e a filosofia da ação; dos partidos políticos operários seus contemporâneos — os social-democratas franceses e os cartistas ingleses — , o significado da luta política para a classe operária; da Convenção francesa, de Blanqui e dos blanquistas, a doutrina da ditadura revolucionária; de Saint-Simon, Fourier e Owen, todo o conteúdo de seu programa socialista e comunista: a transformação total dos fundamentos da sociedade capitalista vigente, a abolição das classes ... e a transformação do Estado em uma simples instância administrativa da produção.” Korsch, op. cit, vol. III, p. 101.36
[X 12, 1]
“Por meio da referência a Hegel, o novo materialismo da teoria proletária estabeleceu uma conexão com a soma do pensamento social burguês de toda a época anterior, na mesma forma antitética em que, na prática, a ação social do proletariado dá continuidade ao movimento social precedente da classe burguesa.” Korsch, op. cit., vol. III, p. 99.37
[X 12, 2]
Com razão, Korsch afirma  e a esse respeito poderíamos pensar em De Maistre e Bonald: “Assim, a teoria ... do movimento operário moderno foi impregnada também de uma parte daquela ... ‘desilusão’ que ... fora proclamada após a grande Revolução Francesa, primeiro pelos primeiros teóricos franceses da contra-revolução, e depois pelos românticos alemães, desilusão que exerceu uma forte influência sobre Marx, principalmente através de Hegel.” Korsch, op. cit., vol. II, p. 36.38
[X 12, 3]
Conceito de força produtiva: “‘Força produtiva’ é, em primeiro lugar, nada mais do que a real força de trabalho terrena dos homens: a força..., portanto, de produzir ‘mercadorias’ sob condições capitalistas. Tudo que faz aumentar este efeito útil da força de trabalho humana ... é uma nova ‘força produtiva social. Fazem parte das forças de trabalho materiais, além da natureza, a técnica, a ciência, e sobretudo também a própria organização social e as forças sociais criadas ... pela cooperação e pela divisão do trabalho industrial.” Korsch, op. cit., vol. III, pp. 54-55.39
[X 12a, 1] 
26 Op. cit, pp. 115-116. (R.T.)
27 Op. cit, pp. 106-107. (R.T.)
28 Op. cit., pp. 108-110 e 109. (R.T.) 
29 Op. cit, p. 61. (R.T.)
30 Op. cit, p. 107. (R.T.)
31 Op. cit, pp. 89-90. (R.T.)
 
32 Op. cit, pp. 91-92. (R.T.)
33 Op. cit, p. 112; grifos de Benjamín. (R.T.)
34 Op. cit, p. 256. (R.T.)
35 Op. cit, p. 260. (R.T.)
36 Op. cit, pp. 205-206. (R.T.)
  
37 Op. cit. p. 204; cf. também p. 277. (R.T.)
38 Op. cit, p. 84. (R.T.)
39 Op. cit., p. 167. (R.T.) 
 
BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009. 

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