PASSAGENS PARISIENSES <I>2
2 Estes 405 fragmentos, de <A°, 1> a <Q°, 25>, representam o texto fundador das Passagens. As siglas com “cotovelos” < ... > são do editor alemão: trata-se de uma classificação meramente serial, sem conotação semântica, de textos surgidos em ordem espontânea. Destes fragmentos, Benjamin transcreveu aproximadamente a metade para sua grande coletânea de “Notas e Materiais”, organizada de forma sistemática em 36 arquivos temáticos (Konvolute), onde os fragmentos foram identificados por ele próprio por siglas alfanuméricas, marcadas aqui com colchetes [...]. Baseando-nos na edição norte-americana, e com a mesma ressalva de que nossa lista não é exaustiva, indicamos entre colchetes, por exemplo [cf. L 2, 7], os fragmentos que foram retomados por Benjamin, no manuscrito principal ou ainda em outros textos do “primeiro esboço”. — Todas as observações entre < ... > são do editor; palavras ilegíveis do manuscrito foram assinaladas com < x > e as palavras que suscitam dúvidas vêm acompanhadas de <?>. (R.T., w.b.)
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Maurice Renard descreveu em seu livro Le Péril Bleu3 habitantes de uma estrela desconhecida que pesquisam o tipo de flora e fauna existente no fundo do mar rarefeito — em outras palavras, sobre a superfície da Terra. Os habitantes do planeta vêem no ser humano algo semelhante a minúsculos <?> peixes do oceano, ou seja, seres que habitam o fundo de um mar. Tal como nós mal percebemos a pressão atmosférica, tampouco o peixe percebe a pressão da água: isso nada muda no fato de que ambas as criaturas seguem sendo do fundo de um mar. Com a observação das passagens, tem início uma nova orientação bem semelhante do espaço. Nela, a própria rua dá-se a conhecer como <x> um intérieur intensamente habitado: como sala de estar do coletivo, pois os verdadeiros coletivos habitam a rua como tais: o coletivo é um ser eternamente desperto, eternamente agitado, que vivência, experimenta, conhece e inventa tantas coisas entre as fachadas quanto os indivíduos no abrigo de suas quatro paredes. Para este coletivo, as esmaltadas tabuletas das firmas comerciais são uma decoração de parede tão boa, senão melhor, quanto uma cópia a óleo barata o é para a intimidade do lar. Muros com o “Proibido colar cartazes” são sua escrivaninha; bancas de jornais, suas bibliotecas; vitrines, suas inacessíveis cristaleiras envidraçadas; caixas de correio, seus bronzes; bancos, a mobília de seu dormitório e o terraço do café, a sacada de onde ele observa seu lar. Como numa grade, na qual os calceteiros penduram o paletó antes de ir ao trabalho, o vestíbulo é, para ele, o oculto portão de entrada, que conduz a uma série de pátios, e o corredor que assusta estranhos é, para ele, a chave de sua casa. [cf. d°, 1 e M 3a, 4]
3 Paris, 1911. (R.T.)
<A°, 9>
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A morte, a estação central dialética: a moda, a medida do tempo.
<C°, 2 >
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Um passeio por Paris terá início com o aperitivo, isto é, por volta das 5 ate às 6 horas. O senhor esteja bem à vontade. Como ponto de partida, o senhor pode tomar uma das grandes estações: a Gare du Nord, de onde se parte para Berlim; a Gare de l’Est, para Frankfurt; a Gare St Lazare, para Londres; ou a Gare de Lyon, de onde se toma o P[aris]-L[yon]-M-[arseille] . Se quiser saber minha opinião, aconselho a Gare St. Lazare. E que lá o senhor terá meia França e meia Europa ao seu redor: nomes como Havre, Provence, Rome, Amsterdam, Constantinople perpassam a rua como o doce recheia uma torta. Trata-se do assim chamado bairro Europe, no qual as maiores cidades da Europa delegaram uma noa como portadora de seu prestígio. Nesse corpo diplomático de ruas européias reina uma etiqueta bastante precisa e rigorosa. Cada uma delas destaca-se muito sobre a outra. Caso tenham a ver uma com a outra — nas esquinas — encontram-se muito cortesmente sem qualquer ostentação. Um estrangeiro a quem nada se avisa, talvez nem mesmo perceberia que se encontra aqui numa corte. Quem reina aqui é justamente <porém ?> a Gare St. Lazare, uma soberana robusta e suja, uma princesa de ferro e fumaça que vocifera e solta fogo pelas ventas, [cf. L 1, 4] Todavia, não somos obrigados a nos ater necessariamente às estações de trem. Estações são boas como ponto de partida, entretanto são também muito boas como ponto de chegada. Pensemos nas praças. Aqui faz-se necessária uma diferenciação: temos praças sem história <?> e sem nome. Assim, a Place de la Bastille e a Place de la Republique, a Place de la Concorde e a Place Blanche, mas também outras, cujo arquiteto é desconhecido e cujos nomes se procuram por muito tempo num muro e por vezes em vão. Estas praças são felizes coincidências na paisagem urbana, não se encontram sob o patronato da história como a Place Vendôme ou a Place de Grève, não foram planejadas minuciosamente, mas assemelham-se a improvisações arquitetônicas, agrupamentos de casas onde construções baixas se espairecem de maneira um tanto desordenada. Nestas praças, as árvores têm a palavra; as menores árvores dão aqui uma espessa sombra. À noite, porém, sua folhagem paira diante da lanterna a gás como frutos transparentes. Estas minúsculas praças ocultas são os futuros <?> jardins das Hespérides. [cf. P 1, 2] Vamos supor que nos sentemos por volta das 5 horas na Place Sainte-Julie9 para um aperitivo. De uma coisa podemos ter certeza: seremos os únicos estrangeiros e não teremos talvez sequer um parisiense a nosso lado. Caso se aproxime alguém, esse vizinho dará a impressão de um provinciano <?> que se achega para o afável aperitivo crepuscular. Existe um tipo de senha maçônica através da qual os fanáticos aficionados de Paris, tanto franceses quanto estrangeiros, reconhecem uns aos outros: a palavra “província”. Dando de ombros, o verdadeiro parisiense, mesmo que ano após ano jamais saia em viagem, rejeita morar em <Paris>. Ele mora no treizième ou no deuxième ou no dix-huitième, não em Paris, e sim em seu arrondissement — no terceiro, sétimo ou no vigésimo — e isto é a província. Talvez esteja aqui o segredo da suave hegemonia desta cidade sobre a França: que ela tenha acolhido no coração de seus bairros que são também pequenas Franças particulares — o seu outro, de modo que possui mais províncias do que a França inteira. Pois seria absurdo proceder aqui segundo a ordem dos cadastros burocráticos: Paris tem mais do que vinte arrondissements e possui inúmeras cidades e aldeias. Um jovem autor parisiense, Jacques de Lacretelle, há pouco tomou como tema de seu flanar sonhador <?> essa investigação dos secretos distritos parisienses, das províncias dos arrondissements, escrevendo um “Rêveur parisien”, de cujas vinte páginas muito se aprende.10 Paris possui o seu Sul com sua Riviera e sua praia onde brincam as novas construções parisienses <?>, sua costa bretã de neblina e chuva junto à margem do Sena <?>, não longe do Hotel de Ville, seus recantos borgonheses no mercado e as mais mal afamadas ruelas portuárias como em Toulon e Marseille; naturalmente não na Butte Montmartre, e sim bem atrás da reputada Place Saint-Michel. Existem outros lugares que parecem como se a foto de uma <interrompido>
9 Conforme observa o tradutor francês (J.L.), esta praça não existe.
10 Jacques de Lacretelle, “Le Rêveur Parisien”, NRF, 166, 01/07/1927, pp. 23-29. (R.T.)
<C°, 6>
BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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