26.4.26

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Fournier, sobre sua atividade como comerciante: Perdi meus belos anos nas oficinas da mentira, sentindo ressoar em meus ouvidos, por toda parte, este sinistro augúrio: Rapaz bom e honesto! Ele não vale nada para o comércio. Com efeito, fui enganado e roubado em tudo que empreendi. Mas se não valho nada para a prática do comércio, valho para desmascará-lo. Charles Fourier, 1820, Publication des Manuscrits, vol 1, p 17; cit em A.Pinloche, Fourier et le Socialisme, Paris, 1933, p 15

[W 1, 2]

[...]

 “Entre todos os contemporâneos de Hegel, Ch. Fourier foi o único que percebeu as relações burguesas de maneira tão lúcida quanto o primeiro.” G. Plekhanov, “Zu Hegels sechzigstem Todestag”, Die Neue Zeit, X, n° 1, Stuttgart, 1892, p. 243.

[W 2a, 7]

Fourier fala “da ascensão do princípio da ‘paixão industrial’ (fougue industrielle), o entusiasmo geral que é determinado pelas leis ... da ‘compósita’ ou da ‘coincidente’. Uma reflexão superficial poderia nos levar a crer que já atingimos esse estágio hoje em dia. A paixão industrial é representada pela furia da especulação e pelo afã de acúmulo de capital; a ‘passion coincidente’ (compulsão pela coesão), pelo acúmulo de capitais, por sua crescente concentração. Entretanto, mesmo que nesta relação existam os elementos descobertos por Fourier, eles não estão ordenados e organizados do modo como ele sonhava e imaginava. Charles Bonnier, “Das Fourier’sche Prinzip der Anziehung”, Die NeueZeit, X, n° 2, Stuttgart, 1892, p. 648.

[W 3, 1] 

[...]

“Os economistas e políticos que inspiraram os socialistas do período anterior a 1848 foram sempre contrários às greves. Explicavam aos operários que uma revolta, mesmo sendo vitoriosa, não lhes traria vantagens, e que, em vez de gastarem seu dinheiro em greves, eles deveriam empregá-lo na criação de cooperativas de consumo e produção. Proudhon teve ... a idéia genial de conclamar os operários à greve  não para conseguir um aumento de salários, e sim  para reduzi-los... Dessa forma o operário ganharia como consumidor duas ou três vezes mais do que ganhava como produtor.” Lafargue, Der Klassenkampf in Frankreich”, Die Neue Zeit, XII, n° 2, 1894, pp. 644 e 61 6.

“Fourier, Saint-Simon e os outros reformistas recrutavam seus adeptos quase exclusivamente dentre os artesãos ... e a elite intelectual da burguesia. Com poucas exceções, reuniam-se em torno deles pessoas cultas que achavam que a sociedade não lhes dava a devida atenção... Tratava-se de desclassificados que se tornaram empreendedores ousados, comerciantes ardilosos e especuladores... O Sr. Godian, por exemplo, ... fundou em Guise (département Aisne) um familistère conforme os princípios de Fourier. Deu moradia a numerosos operários ae sua fábrica de louça esmaltada, instalando-os em prédios vistosos, que se estendem em innn de um amplo pátio quadrangular coberto por um teto de vidro; ali, os operários encontravam, além de um lar, todos os artigos de uso diário..., um teatro e concertos para sna entretenimento, escolas para seus filhos etc. Em suma, o senhor Godin cuidava de todas as necessidades materiais e espirituais deles, e conseguia, além disso, lucros consideráveis. Ele conquistou a fama de um benfeitor da humanidade e morreu multimilionário.” Paul Lafargue, “Der Klassenkampf in Frankreich”, Die Neue Zeit, Xii, n° 2, 1894, p. 617.

[W 3 a, 1]

Fourier sobre as ações: “Em seu Traité de lUnité Universelle, Fourier enumera ... as vantagens que esta forma de propriedade oferece ao capitalista: ‘Ele não corre o risco de ser roubado ou de sofrer danos provocados por incêndios ou terremotos... Um investidor menor nunca é prejudicado na administração de seus bens, uma vez que a administração é a mesma para ele e para todos os demais investidores... Um capitalista  mesmo que possua cem milhões  pode realizar seu patrimônio a qualquer momento’ etc. Por outro lado, o pobre, mesmo que possua apenas um táler, poderia participar de uma das ações populares, que sao subdivididas em partes minúsculas ... e, desse modo, fala ... de nossos palácios, nossas lojas de departamentos, nossos tesouros’. Napoleão III e seus cúmplices no golpe de Estado eram muito favoráveis a estas idéias; ... eles democratizaram a renda pública, como um deles o disse, ao instituírem o direito de se comprar papéis por 5 francos ou até por 1 franco. Acreditavam despertar desta maneira o interesse das massas pela solidez do crédito publico e evitar as revoluções políticas.” Paul Lafargue, “Marx’ historischer Materialismus”, Die Neue Zeit, XXII, n° 1, Stuttgart, 1904, p. 831.

[W 3 a, 2]

“Fourier não é somente um crítico; sua natureza eternamente alegre torna-o um satírico, e certamente um dos maiores satíricos de todos os tempos.” Engels, cit. por Rudolf Franz em sua resenha de E. Silberling, Dictionnaire de Sociologie Phalanstérienne (Paris, 1911), Die Neue Zeit, XXX, n° 1, Stuttgart, 1912, p. 333.

 [W 3 a, 3]

[...] 

Na Inglaterra, a influência de Fourier foi comparável à de Swedenborg.

 [W 3 a, 5]

“Heine conhecia bem o socialismo. Ele ainda conheceu Fourier pessoalmente. Em seus artigos sobre A situação na França’ (Französische Zustände),2 escreveu certa vez (15 de junho de 1843): ‘Sim, Pierre Leroux é pobre, assim como o foram Samt-Simon e Fourier, e foi a pobreza providencial destes grandes socialistas que enriqueceu o mundo.. Fourier também teve que recorrer à caridade de seus amigos; quantas vezes o vi passar apressadamente ao longo das colunas do Palais-Royal, vestindo seu casaco cinzento e puído, com os bolsos tão cheios que se podia ver em um deles o gargalo de uma garrafa, e no outro, a ponta de um pão. Um de meus amigos, o primeiro a mostrá-lo para mim, chamou minha atenção para a indigência de um homem que precisava buscar ele mesmo a bebida na taverna e seu pão na padaria.”’ Cit. em “Heine an Marx”, Die Neue Zeit, XIV, n° 1, Stuttgart, 1896, p. 16. Texto original: Heine, Sämtliche Werke, ed. org. por W. Bölsche, Leipzig, vol. V, p. 34 [“Kommunismus, Philosophie und Klerisei”, I].

 [W 4, 1]

“Em suas notas sobre as memórias de Annenkoff, Marx escreveu: ...Fourier foi o primeiro a ridicularizar a idealização da pequena-burguesia.’” Relatado por P. Anski, “Zur Charakteristik von Marx”, Russkaia Mysl, agosto de 1903, p. 63; em N. Rjasanoff, “Marx und seine russischen Bekannten in den vierziger Jahren”, Die Neue Zeit, XXXI, n° 1, Stuttgart, 1913, p. 764.

[W 4, 2]

“O senhor Grün pode facilmente criticar a maneira como Fourier trata o amor; ele mede a crítica de Fourier às relações amorosas atuais tomando como base as fantasias pelas quais Fourier procurava chegar a uma percepção do amor livre. O senhor Grün, como bom filisteu alemão, leva estas fantasias a sério. São a única coisa que leva a sério. Se pretendia realmente aprofundar este aspecto do sistema, não dá para entender por que também não se interessou pelas considerações de Fourier sobre a educação, que são, de longe, o melhor cue existe neste ponto e que contêm suas observações mais geniais... ‘Fourier é justamente a pior expressão do egoísmo civilizado’ (p. 208). Ele comprova isto narrando que, na ordem do mundo concebida por Fourier, o mais pobre dos mortais se serve diariamente de -40 pratos, consumindo cinco refeições por dia, que as pessoas atingem a idade de 144 anos de vida, e assim por diante. A concepção grandiosa dos homens, que Fourier contrapõe com humor ingênuo à acanhada mediocridade dos homens da Restauração [em Dampfboot, palavras inseridas após ‘homens’: ‘infinitamente pequenos’, Béranger], serve para o senhor Grün apenas para retirar dali o aspecto mais inocente e usá-lo para fazer um comentário impregnado de moralismo filisteu.” Karl Marx sobre Karl Grün como historiador do socialismo (reprodução de um artigo do número de agosto-setembro de 1847 de Westphälisches Dampfboot) em Die Neue Zeit, XVIII, n° 1, Stuttgart, 1900, pp. 137-138.

[W 4, 3]

Pode -se caracterizar o falanstério como uma maquinaria humana. Isto não é uma recriminação, e nem se pretende fazer alusão a nada de mecanicista; a expressão designa apenas a grande complexidade de sua estrutura. O falanstério é uma máquina feita de homens.

[W 4, 4]

[...] 

Algumas observações sobre a mística dos números em Fourier, segundo Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845: Tudo prova que o fourierismo se fundamenta na harmonia pitagórica... Sua ciência ... era a ciência dos antigos” (p. 397). “O número reproduz seu ritmo na avaliação dos benefícios” (p. 398). Os moradores do falanstério constituem-se de 2 x 810 homens e mulheres. Pois “o número 810 oferece uma série completa de acordes, correspondendo a uma grande quantidade de assonâncias cabalísticas” (p. 396). “Se em Fourier a ciência oculta assume uma forma nova, a forma da indústria, é preciso não esquecer que a forma em si não conta nessa poesia flutuante das mistagogias” (p. 405). “O número agrupa todos os seres segundo suas leis simbólicas; ele desenvolve todos os grupos por séries; a série distribui as harmonias no universo... Ora, a série ... é perfeita na natureza inteira... Só o homem é infeliz, porque a civilização inverte o número que deve governá-lo. Que ele seja arrancado da civilização... Aí então a ordem que domina o movimento físico, o movimento orgânico, o movimento animal, explodirá no ... movimento passional; a própria natureza organizará a associação” (pp. 395-396).

[W 6,1]

Antevisão do rei burguês em Fourier: “Ele fala dos reis dedicados à serralheria, à carpintaria, à venda de peixes, à fabricação da cera para selar.” Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845, p. 393.

[W 6, 2]

“Fourier pensou durante toda sua vida, sem se perguntar nem uma vez de onde lhe vinham as idéias. Ele concebe o homem como uma machine passionelle: sua psicologia começa com os sentidos e se encerra com o compósito; ela não supõe ... a intervenção da razão para a solução do problema da felicidade.” Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XVI, n° 3, Paris, 1845, p. 404.

[W 6, 3]

Elementos utópicos: “A ordem combinada apresenta o lustro das ciências e das artes, o espetáculo da cavalaria andante, a gastronomia combinada no sentido político..., a politique galante para o recrutamento dos exércitos’.” (Ferrari, p. 399). “O mundo toma a forma de seu contrário, os animais ferozes ou maléficos se transformam para o uso do homem: os leões fazem o serviço de entrega de correspondência. Auroras boreais aquecem os pólos, a atmosfera torna-se uma superfície clara como um espelho, a água do mar se adoça, quatro luas clareiam a noite; em suma, a terra se renova vinte e oito vezes, até que a grande alma do nosso planeta, extenuada, fatigada, passe para um outro planeta, junto com todas as almas humanas” (Ferrari, p. 401).

[W 6, 4]

“Fourier é excelente na observação da animalidade, seja da besta, seja do homem; ele é dotado do gênio das coisas vulgares.” Ferrari, “Des idées et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1845, p. 393.

[W 6a, 1] 

[...]

No esquema seguinte, referente às doze paixões, o segundo grupo de quatro representa as paixões agrupadoras; o terceiro, de três, as paixões serializantes: “primeiro os cinco sentidos, em seguida o amor, a amizade, o fãmilismo, a ambição; em terceiro lugar, as paixões da intriga, da variabilidade, da união — em outras palavras, a cabalista, a borboleteante, a compósita; uma décima terceira paixão, o uniteísmo, absorve todas as outras”. Ferrari, “Des idees et de 1’école de Fourier”, Revue des Deux Mondes, XIV, n° 3, Paris, 1 845, p. 394.

[W 6a, 3] 

2 Título de uma série de artigos de jornal publicados em 1831 e 1832 no Allgemeine Zeitung, de Augsburgo, e reunidos em livro em 1833. (w.b.) 

BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.  

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