O gato dorme a tarde inteira no
jardim.
Sonha (?) tigres enviesados a chamá-lo
para a fraternidade no jardim.
Gato sonhando,
talvez sonho de homem?
Continua dormindo, enquanto ignoro
a natureza e o limite do seu sonho
e por minha
vez
também me sonho (inveja) gato no jardim
Duração
Fortuna, ó Glória, se evapora,
e a glória se esvanece, Glória.
Não assim o cisco da hora
— nossa —, que desdenhou a História.
Há de restar, Glória — ossatura
desfeita embora em linha espúria —
de modo, Glória, que a criatura,
morta, de amor ostente a fúria.
Enumeração
no gelo seco do passado,
velhos furores demenciais
esmigalhados no mutismo
de demônios crepusculares,
velhas traições a doer sempre
na anestesia do presente,
velhas jogadas de prazer
sem a menor deleitação,
velhos signos de santidade
atravessando a selva negra
como cervos escorraçados,
velhos gozos de torva índole,
velhas volúpias estagnadas,
velhos braços e mãos e pés
em transtornada oscilação
logo detida, velhos choros
que não puderam ser chorados,
velhos issos, velhos aquilos
dos quais sequer me lembro mais...
Fora de Hora
e posse fora de hora.
Quem mandou
você atrasar a hora,
você apressar a hora,
você aceitar a hora
não madurada
ou demasiado madura?
O tempo fora de hora
não é tempo nem é nada.
O amor fora de hora
é como rolar a escada.
ANDRADE, Mario Drummond de. 1902-1987. Poesia Completa. / Carlos Drummond de Andrade. (conforme as disposições do autor) Fixação de textos e notas de Gilberto Mendonça Teles. Introdução de Silviano Santiago. Biblioteca Luso-brasileira / Série Brasileira. / Farewell, 1996. — 1a tiragem da primeira edição, 2002 — Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 2003.
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