27.4.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SVENDBORG

3. SVENDBORG [1933-1939] 
 
Über die Bezeichnung Emigranten
 
Immer fand ich den Namen falsch, den man uns gab: Emigranten.
Das heißt doch Auswanderer. Aber wir
Wanderten doch nicht aus, nach freiem Entschluß
Wählend ein anderes Land. Wanderten wir doch auch nicht
Ein in ein Land, dort zu bleiben, womöglich für immer.
Sondern wir flohen. Vertriebene sind wir, Verbannte.
Und kein Heim, ein Exil soll das Land sein, das uns da aufnahm.
Unruhig sitzen wir so, möglichst nahe den Grenzen
Wartend des Tags der Rückkehr, jede kleinste Veränderung
Jenseits der Grenze beobachtend, jeden Ankömmling
Eifrig befragend, nichts vergessend und nichts aufgebend
Und auch verzeihend nichts, was geschah, nichts verzeihend.
Ach, die Stille der Sunde täuscht uns nicht! Wir hören die Schreie
Aus ihren Lagern bis hierher. Sind wir doch selber
Fast wie Gerüchte von Untaten, die da entkamen
Über die Grenzen. Jeder von uns
Der mit zerrissenen Schuhn durch die Menge geht
Zeugt von der Schande, die jetzt unser Land befleckt.
Aber keiner von uns
Wird hier bleiben. Das letzte Wort
Ist noch nicht gesprochen. [1937]
 
Sobre a designação de emigrantes
 
Sempre achei errado o nome que nos deram: emigrantes.
Isso quer dizer retirantes. Mas nós
Não nos retiramos por livre decisão
Escolhendo um outro país. Tampouco nos retiramos
Para um país a fim de ali ficar, quem sabe para sempre.
Mas fugimos. Fomos expulsos, expatriados.
E não um lar, um exílio há de ser o país que nos acolhe.
Quedamos inquietos, o mais próximo possível da fronteira
Esperando o dia do regresso, observando a menor
Mudança no outro lado da fronteira, interrogando com ânsia
Cada recém chegado, não esquecendo nada, não entregando
Nada, não perdoando nada que se passou e nada perdoando.
Ah, não nos ilude o silêncio dos estreitos! Ouvimos os gritos
Que vêm dos campos de concentração. E não somos nós mesmos
Quase como rumores de crimes que escaparam através
Da fronteira. Cada um de nós
Que caminha com sapatos rotos por entre a multidão
Dá testemunho da vergonha que agora enxovalha a nosso terra.
Mas nenhum de nós
Vai ficar aqui. A última palavra
Ainda não foi falada.
 
Letztes Liebeslied
 
Als die Kerze ausgebrannt war
Blieb uns nur ein kalter Stumpen
Als der Weg zu End gerannt war
Schimpften wir uns wie zwei Lumpen.
Beatrize war gestellet
Spitzel wurde ihr Begleiter
Tatbestand ward aufgehellet
Statt der Schwüre floß der Eiter.
Alle Himmel aufzureißen
Nur dem Haß wurd's zum Gewinne
Hinz und Kunz, die großen Weisen
Wußten dies von Anbeginne. [c. 1937]
 
Última canção de amor
 
Quando a vela se apagou, somente
Nos restava uma bituca fria
Quando a estrada terminou, a gente
Feito dois vadios se ofendia.
Beatriz caiu: o delator
Ainda lhe fazia companhia
Crime elucidado com rigor
Pus, ao invés de juras, escorria.
Trespassar o céu de cabo a rabo
Deu apenas ódio como prêmio
Mas o Zé Povinho, grande sábio
Já sabia disso no proêmio.

So wie der Mensch der Steinzeit
Taumelnd sich aufhob
In den finsteren Wäldern
 
Das Gehirn erfüllt von dunklen Bildern, schwankenden
In großem Hunger
 
Seinen mühsamen Weg begann
Oft ermattend
Vielfach getäuscht
Unvernünftig zornig
Unvernünftig milde
 
Die Hast seiner Feinde nicht kennend
Seinen Weg nicht wissend
Immer wieder niedergestreckt
Von den grausamen Schlägen unbekannter Mächter
Regungslos liegend lange Zeit
Wieder aufstand
Aus Mut oder aus Furcht [c. 1937-1938]
 
Assim como o homem da idade da pedra
Levantou-se trôpego
Nas florestas sombrias
 
O cérebro cheio de imagens escuras, cambaleando
Com fome enorme
 
Iniciou seu caminho árduo
Não raro definhando
Muitas vezes iludido
Desrazoadamente irado
Desrazoadamente manso
 
Desconhecendo o ímpeto de seus inimigos
Sem saber o seu caminho
 
Constantemente derrubado
Pelos golpes cruéis de forças ocultas
Prostrado inerte um longo tempo
Para se levantar de novo
Por coragem ou temor
 
Die Oberen sagen: Frieden und Krieg
Sind aus verschiedenem Stoff.
Aber ihr Frieden und ihr Krieg
Sind wie Wind und Sturm.
 
Der Krieg wächst aus ihrem Frieden
Wie der Sohn aus der Mutter
Er trägt
Ihre schrecklichen Züge.
 
Ihr Krieg tötet nur
Was ihr Frieden
Obriggelassen hat. [1938]
 
Os de cima dizem: paz e guerra
São feitas de matéria distinta.
Mas a paz e a guerra deles
São como vento e tempestade.
 
A guerra nasce da paz deles
Como da mãe o filho
Ele traz
As terríveis feições dela.
 
A guerra deles só
Mata o que a paz deles
Deixou de pé.

Legende von der Entstehung des Buches Taoteking
auf dem Weg des Laotse in die Emigration
 
1
Als er siebzig war und war gebrechlich
drängte es den Lehrer doch nach Ruh
denn die Güte war im Lande wieder einmal schwächlich
und die Bosheit nahm an Kräften wieder einmal zu
und er gürtete den Schuh.
 
2
Und er packte ein, was er so brauchte:
Wenig. Doch es wurde dies und das.
So die Pfeife, die er abends immer rauchte
und das Büchlein, das er immer las.
Weißbrot nach dem Augenmaß.
 
3
Freute sich des Tals noch einmal und vergaß es
Als er ins Gebirg den Weg einschlug.
Und sein Ochse freute sich des frischen Grases
kauend, während er den Alten trug.
Denn dem ging es schnell genug.
 
4
Doch am vierten Tag im Felsgesteine
hat ein Zöllner ihm den Weg verwehrt:
„Kostbarkeiten zu verzollen?“ — „Keine.
Und der Knabe, der den Ochsen führte, sprach: „Er hat gelehrt.
Und so war auch das erklärt.
 
5
Doch der Mann in einer heitren Regung
fragte noch: „Hat er was rausgekriegt?
Sprach der Knabe: „Daß das weiche Wasser in Bewegung
Mit der Zeit den harten Stein besiegt.
Du verstehst, das Harte unterliegt.
 
6
Daß er nicht das letzte Tageslicht verlöre
Trieb der Knabe nun den Ochsen an.
Und die drei verschwanden schon um eine schwarze Föhre
Da kam plötzlich Fahrt in unsern Mann
Und er schrie: „He dul Halt an!
 
7
Was ist das mit diesem Wasser, Alter?
Hielt der Alte: Intressiert es dich?
Sprach der Mann: „Ich bin nur Zollverwalter
Doch wer wen besiegt, das intressiert auch mich.
Wenn du's weißt, dann sprichl
 
8
Schreib mir's auf! Diktier es diesem Kindel
So was nimmt man doch nicht mit sich fort.
Da gibt's doch Papier bei uns und Tinte
und ein Nachtmahl gibt es auch: ich wohne dort.
Nun, ist das ein Wort?
 
9
Über seine Schulter sah der Alte
Auf den Mann: Flickjoppe, keine Schuh.
Und die Stirne eine einzige Falte.
Ach, kein Sieger trat da auf ihn zu.
Und er murmelte: „Auch Du?"
 
10
Eine höfliche Bitte abzuschlagen
War der Alte, wie es schien, zu alt.
Denn er sagte lout: „Die etwas fragen,
Die verdienen Antwort. Sprach der Knabe: „Es wird auch schon kalt.
„Gut, ein kleiner Aufenthalt.
 
11
Und von seinem Ochsen stieg der Weise
Sieben Tage schrieben sie zu zweit.
Und der Zöllner brachte Essen (und er fluchte nur noch leise
Mit den Schmugglern in der ganzen Zeit.)
Und dann war's soweit.
 
12
Und dem Zöllner händigte der Knabe
Eines Morgens einundachtzig Sprüche ein.
Und mit Dank für eine kleine Reisegabe
Bogen sie um jene Föhre ins Gestein.
Sagt jetzt: kann man höflicher sein?
 
13
Aber rühmen wir nicht nur den Weisen
Dessen Name auf dem Buche prangt!
Denn man muß dem Weisen seine Weisheit erst entreißen.
Darum sei der Zöllner auch bedankt:
Er hat sie ihm abverlangt. [1938]
 
 
Lenda da origem do livro Tao-te king
no caminho de Lao-Tsé para a emigração
 
1
Aos setenta anos, frágil de saúde
Ansiava o mestre por lugar pacato
Pois o bem enfraquecera e a força rude
Se expandia no país com espalhafato.
E amarrou o seu sapato.
 
2
No alforje ele pôs o que costuma
Usar: muito pouco. E mais um quê.
O cachimbo que à noite ele fuma
O livrinho que ele sempre lê
E pão branco pra comer.
 
3
Viu o vale alegremente e foi
Dele se esquecendo enquanto ia
Subindo a montanha no seu boi 
O frescor da relva, que alegria
Pro animal, quando comia.
 
4
Mas no quarto dia, no penhasco um
Guarda alfandegário bloqueou
A passagem: Bens a declarar? — Nenhum.
O rapaz que conduzia o boi falou: É professor.
E assim tudo se explicou.
 
5
Todavia, com desenvoltura
O homem perguntou: O que tirou do ofício?
Disse o rapaz: Que água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura. E nisso
Torna o rijo submisso.
 
6
Para não perder a luz do dia
O garoto toca o boi adiante
Mas o trio mal se distancia
Deu em nosso homem um rampante:
Parem, parem! Um instantel
 
7
Que sucede, velho, com aquela água?
O velho se vira: Acaso te interessa
O homem fala: Eu sou somente um guarda
De aduana, mas quem-vence-quem me intriga à beça..
Diz, se o sabes, mas sem pressal
 
8
Deita por escritol Dita a esse rapaz!
Não é coisa que se guarde só pra si.
O papel e a tinta te forneço, e mais
Refeição: eu moro logo ali.
Bom convite, hás de convir!
 
9
E por cima do ombro, o velho, isto posto
Examina o homem: uniforme roto, sem
Botas. Uma ruga só no rosto.
Ah, não é um vencedor que me detém.
E murmura: Tu também?
 
10
Um pedido tão cordial, ao que parece
Não podia o velho recusar.
Uma vez que disse de bom som: Merece
Ter resposta uma pergunta. E o rapaz: Já está
Frio, melhor descansar.
 
11
E do boi o sábio então desceu
Sete dias escreveram os dois.
A comida guarnecida pelo guarda (e, no interim, ele só deu
Bronco em muambeiro e pouco se indispôs.)
Foi assim que se compôs

12
A obra que o rapaz um belo dia
Entregou ao guarda da aduana: oitenta
E um ditados, em retorno à cortesia
E seguiram pela estrada poeirenta.
Gentileza gera gentileza: hoje se comenta.
 
13
Não devemos só prezar, no entanto
Quem seu nome empresta ao livro! Que é forçoso
Extrair dos sábios o saber. Portanto
Obrigado ao guarda venturoso
Que o pediu por simples gozo.

BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos) 

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