[DOS DIÀRIOS 1941-1947]
21.7.41
Chegamos em San Pedro, o porto de Los Angeles. [...]
[...]
9.8.41
Sinto-me como se eu tivesse sido tirado de uma era, isto aqui é um Tahiti em forma de metrópole; agora mesmo olho para um pequeno jardim com grama. Arbustos florindo vermelhos, uma palmeira e cadeiras de jardim brancas, e a voz de um homem cantando algo sentimental ao piano — não no rádio. Eles têm natureza aqui e, como tudo é tão artificial, até um sentimento mais forte pela natureza, que é alienada. Da casa de Dieterle pode-se ver o vale San Fernando; um reluzente fluxo incessante de carros rompe a natureza; mas a gente descobre que apenas por meio de sistemas de irrigação todo esse verde é arrancado do deserto. Arranhe um pouco, e o deserto transparece: deixe de pagar a conta de água, que nada mais floresce. A quinze mil quilômetros de distância através da Europa, onde é mais longo, dia e noite, um massacre sangrento e crucial para o nosso destino produz uma fraca reverberação no burburinho do mercado de arte.
Walter Benjamin envenenou-se numa pequena localidade da fronteira espanhola [a la regió catalana]. A guarda nacional havia detido o pequeno grupo em que estava. Quando os seus companheiros de viagem quiseram informar-lhe, na manhã seguinte, que a continuação da viagem fora autorizada, encontraram-no morto. Estou a ler o último trabalho que ele enviou ao Instituto Para Pesquisa Social. Günther Stern me entregou com a observação de que seria obscuro e confuso, creio que a palavra “já” também foi empregada. O pequeno tratado aborda a pesquisa histórica e pode ter sido escrito depois da leitura do meu “César” (com qual Benjamin, quando o leu em Svendborg, não soube muito o que fazer). Benjamin vira-se contra as noções de história como um fluxo, do progresso como um poderoso empreendimento de mentes descansadas, do trabalho como fonte de moralidade, do operariado como protegidos da técnica etc. Ele zomba da frase frequentemente ouvida de que é preciso se surpreender com o fato de que algo como o fascismo possa ter acontecido “ainda neste século” (como se não fosse o fruto de todos os séculos). — Em suma, a pequena obra é clara e desembaraçante (apesar de toda a metafórica e judaísmos), e a gente pensa com horror o quão pequeno é o número daqueles que estão dispostos a pelo menos mal interpretá-la.
E agora aos sobreviventes! Numa garden party na casa de Rolf Nürnberg, encontrei a dupla de palhaços Horkheimer e Pollock, os dois tuis do Instituto Sociológico de Frankfurt. Horkheimer é milionário, Pollock apenas de uma boa família, por isso só Horkheimer consegue comprar uma cátedra no lugar em
que reside “para cobrir externamente as atividades revolucionárias do instituto”. Desta vez é na Columbia, mas desde que as grandes razzias contra vermelhos tiveram lugar, Horkheimer perdeu o desejo de “vender a sua alma, o que sempre se sucede em menor ou maior grau numa universidade”, e eles se mudam para o oeste paradisíaco. O que são palmeiras acadêmicas! — Com seu dinheiro, eles mantêm à tona uma dúzia de intelectuais que precisam entregar todo o seu trabalho sem a garantia de que a revista alguma vez irá publicá-lo. Assim, podem afirmar que “poupar o dinheiro do instituto tem sido o seu principal dever revolucionário ao longo de todos esses anos”.
22.10.41
A relação com o dinheiro revela aqui o capitalismo colonial. A gente tem a impressão de que todas as pessoas, onde quer que estejam, estão aqui apenas para fugir. Elas estão nos Estados Unidos apenas para ganhar dinheiro. É um teatro nômade, de pessoas em trânsito para pessoas que perderam o caminho. Time is money, os tipos são montados já prontos, os ensaios são puro trabalho de montagem. Não se vive nas colônias.
[...]
21.1.42
Estranho, não consigo respirar neste clima. O ar é completamente inodoro, tanto de manhã como à noite, dentro de casa como no jardim. [...]. Em todo lugar, fazia parte das minhas tarefas matinais inclinar-me à janela e apanhar o ar fresco; aqui cortei essa tarefa. Não há cheiro de fumaça nem de grama. As plantas me parecem como os galhos que a gente espetava na areia quando era criança; dez minutos depois, as folhas murchavam. Sempre se espera aqui também que a irrigação possa ser desligada de repente, e então o qué? As vezes, especialmente ao dirigir para Beverly Hills, percebo algo como feições de uma paisagem que parecem “realmente” atraentes: linhas suaves de colina, arbustos de limão, um carvalho californiano e um ou outro posto de gasolina que é realmente divertido, mas tudo isso fica como atrás de uma vidraça, e em cada grupo de colinas ay em cada limoeiro eu procuro involuntariamente uma etiqueta de preço. Essas etiquetas de preços a gente também procura nas pessoas. — Não cabe a mim, por si só, ficar insatisfeito com um ambiente, especialmente nestas circunstancia Atribuo grande importância à minha posição distinta de refugiado, e ao refugiado não é de todo apropriado ser tão servil e subserviente como esse ambiente o é. Mas são provavelmente as condições de trabalho que me tornam impaciente. O costume aqui exige que se procure “vender” tudo, desde um encolher de ombros até uma ideia, ou seja, é preciso lutar constantemente por um comprador, e assim se é incessantemente um comprador ou vendedor vende-se para o pinico a própria urina. O oportunismo é tido como a mais alta virtude, a gentileza vira logo covardia.
27.2.42
Feuchtwanger e outros não conseguem lidar com o fenômeno de Hitler porque não veem o fenômeno da “pequena burguesia governante”. A pequena burguesia não é economicamente uma classe independente. Permanece sempre objeto da politica, agora é o objeto da politica da grande burguesia. (Os sociais-democratas exilados, por exemplo, agarram-se agora classes da alta burguesia da Inglaterra e da América.) Isso é o “marionetismo” de Hitler. Ele é um “mero ator” que “apenas interpreta” o grande homem, o “Ninguém” (“qualquer um seria tão bom quanto”), o “homem sem caroço” porque justamente representa a pequena burguesia, que sempre, no político, somente atua e joga (jogar aqui é jogo de azar) [como vemos exemplos em todo o mundo atual. O que era tragédia, no Brasil, já mira para uma sanguinolenta Comédia, de pai para filho]. No teatro, isso significaria que Hitler só poderia ser concebido como figurante (figura de proa). Isso, porém, seria inadequado. Ele é “falso”, na verdade, “apenas” como representante da pretensão ao poder da pequena burguesia, não pessoalmente. Dentro da pequena burguesia, ele não é falso. O seu destino é real quando é levado ao limite das possibilidades pequeno burguesas, aí se torna subitamente uma “personalidade” e protagonista.
17.3.42
Palestra de Reichenbach na Universidade da Califória sobre determinismo Nosso sistema de razões é limitado por um tipo de reproduibilidade que Einstein uma vez expressou como segue: ele fez alguns movimentos muito irregulares e ritmicamente instáveis com seu dedo e disse: Se as estrelas se movessem assim, por exemplo, não haveria astronomia. (Ainda que tivessem, sem dúvida, boas razões para isso.) Os filósofos ficom imitados com o teorema de Heisenberg, segundo o qual o ponto de espaço e o ponto de tempo não podem ser coordenados. Mesmo que se houvesse apontado um limite para além do qual os métodos de descrição não pudessem, em principio, “ser melhorados”, continuaria a ser para os filósofos uma questão do possibilidade de descrição, de modo que o teorema deles de que nodo acontece sem razão permaneceria válido. Os físicos derrubam-no provando o seu vazio; deixam-no, por assim dizer, abandonando-o. Razões que, par princípio, não podem ser conhecidas não são, para eles, razões.
A incapacidade dos filósofos de imaginar o nada já não impede os físicos, naturalmente, de tratar o nada como nada. Afinal, eles têm como um de seus hábitos saudar o zero como uma “grandeza”, com a maior consciência. Num sistema de grandezas, o zero pode talvez ser referido como grandeza, ou melhor, dificilmente pode ser chamado de outro jeito, mas sem um “sentimento” pela dialética, não se pode dar o salto lógico das outras grandezas para esta não grandeza. Assim, o espaço como propriedade da matéria torna-se inimaginável para os filósofos. Que o espaço deva ser apenas o que a matéria absorve é estranho para eles. Infelizmente, Reichenbach não diz uma palavra sobre isso.
22.3.42
Em certo sentido, os nazistas têm o direito de chamar seus feitos de revolução. A burguesia alemã leva a cabo a sua revolução sob a forma de uma tentativo de conquistar o mundo. Emancipou-se imediatamente como condutora de escravos e apresentou-se para o posto — como assaltante. No final, porém, não conseguiu acabar ainda, mesmo agora, com a sua aristocracia, e assim começou imediatamente a sua guerra de roubos, pulou por cima de seu Robespierre, submeteu-se imediatamente ao seu Napoleão (que, depois deste, é um Napoleão fetal!). Por isso essa miséria de ferro, essa síndrome de Amok meticulosamente planejada, essa Potsdam de Schwabing.
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht);
300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações
autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução &
tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa
Lion Feuchtwanger (1928). – São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)

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