<M°, 3>
A superposição segundo o ritmo do tempo. Em relação ao cinema e à transmissão “sensacionalista” das notícias. Do ponto de vista do ritmo, segundo a percepção temporal, o “devir”, para nós, não possui mais qualquer evidência. Nós o decompomos dialeticamente em sensação e tradição. — Importante dar a estas coisas uma expressão analógica no domínio biográfico.
<M°, 4 >
[...]
Haxixe ao meio-dia: sombras são uma ponte sobre a corrente luminosa da rua.
<M°, 6>
Na arte de colecionar, a aquisição como fator decisivo.
<M°, 7>
A arte de preparar o fundo no ler e no escrever. Quem souber esboçar da maneira mais superficial é o melhor autor.
<M°, 8>
Visita subterrânea aos canais de esgoto: percurso preferido Chatelet-Madeleine. [cf. C 2a, 7]
<M°, 9>
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A melhor arte de capturar, sonhando, a tarde nas malhas da noite é fazer planos. [cf. M 3a, 2]
<M°, 11>
[...]
O páthos deste trabalho: não há épocas de decadência. Tentativa de ver o século XIX de maneira tão positiva quanto procurei ver o século XVII no Livro sobre o drama barroco. Nenhuma crença em épocas de decadência. Assim também (fora dos limites) qualquer cidade para mim é bela; e, por isso, não acho aceitável qualquer discurso sobre o valor maior ou menor das línguas. [cf. N 1, 6]
<M°, 13>
O coletivo que sonha ignora a história. Para ele, os acontecimentos se desenrolam segundo um curso sempre idêntico e sempre novo. Com efeito, a sensação do mais novo, do mais moderno, é tanto uma forma onírica do acontecimento quanto o eterno retomo do sempre igual. A percepção do espaço que corresponde a essa percepção do tempo é a superposição. Quando então estas formas se dissolvem na consciência iluminada, surgem em seu lugar categorias político-teológicas. E apenas sob estas categorias, que congelam o fluxo dos acontecimentos, forma-se em seu interior a história como constelação cristalina. — As condições econômicas, sob as quais a sociedade existe, a determinam não apenas em sua existência material e na superestrutura ideológica: elas encontram também sua expressão. Assim como o estômago estufado de um homem que dorme não encontra sua superestrutura ideológica no conteúdo onírico, assim também ocorre com as condições econômicas da vida do coletivo. O coletivo interpreta essas condições e as explica, elas encontram sua expressão no sonho e sua interpretação no despertar. [cf. S 2, 1 e K 2, 5]
<M°, 14>
O homem que espera como tipo oposto ao flâneur. A apercepção do tempo histórico do flâneur comparada ao tempo do homem que espera. Não olhar as horas. Caso de superposição na espera: a imagem da mulher que é aguardada sobrepõe-se à de uma desconhecida. Somos uma barragem onde se acumula o tempo, que se precipita em nós mesmos quando surge aquela que esperamos. “Todos os objetos são como chefes.” Édouard Karyade.
<M°, 15>
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Investigar a relação entre colportagem e pornografia. Imagem pornográfica de Schiller uma litografia — numa pose pitoresca, ele aponta com uma das mãos para um longínquo ideal, com a outra, se masturba. Paródias pornográficas de Schiller. O monge fantasmagórico e lascivo: a longa procissão de fantasmas e da lascívia: nas Mémoires de Saturnin, de Madame de Pompadour, a fileira lasciva dos monges; à frente, o abade com sua prima.
<M°, 17>
Sentimos tédio quando não sabemos o que estamos esperando. E o fato de o sabermos ou imaginar que o sabemos é quase sempre nada mais do que a expressão de nossa superficialidade ou distração. O tédio é o limiar para grandes feitos. [cf. D 2, 7]
<M°, 18>
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Limiar e fronteira devem ser rigorosamente diferenciados. O limiar é uma zona. Mais exatamente, uma zona de transição. Mudança, transição, fluxo <?> estão contidos na palavra schwellen (inchar, entumescer), e a etimologia não deve negligenciar estes significados. Por outro lado, é necessário determinar o contexto tectônico imediato que deu à palavra o seu significado. Tornamo-nos muito pobres em experiências liminares. O “adormecer” é talvez a única delas que nos restou. Porém, assim como se sobrepõe ao limiar o mundo onírico com suas figuras, também sobrepõem-se a ele as oscilações do entretenimento e as mudanças de comportamento entre os sexos ao longo das gerações. — Do círculo de experiências liminares desenvolveu-se então o portal que transforma aquele que passa sob seu arco. O arco romano da vitória transforma em triumphator o general que retorna. Contra-senso do relevo na face interna do portal, um equívoco classicista. [cf. O 2a, 1 e C 2a, 3]
<M°, 26>
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BENJAMIN, Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin; edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo; pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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