“No ano de 1839, alguns operários fundaram em Paris um jornal com o título La Ruche Populaire [A Colmeia do Povo]... A redação situava-se no bairro mais pobre de Paris, na Rue de Quatre-Fils. Era um dos poucos jornais dirigidos por operários com repercussão junto ao povo, o que se explica pela linha editorial adotada. Com efeito, o jornal tinha estabelecido como programa levar a miséria oculta ao conhecimento dos benfeitores ricos... No escritório do jornal havia um registro da miséria, aberto para que todo cidadão faminto ali pudesse se inscrever. Este registro da desgraça causava impacto, e como nessa época o romance Les Mystères de Paris, de Eugène Sue, havia contribuído para que a caridade se tornasse moda no mundo elegante, viam-se carruagens paradas diante do prédio sujo da redação, onde damas; de pose procuravam os endereços dos desvalidos para levar-lhes esmolas pessoalmente, do assim uma nova excitação em seus nervos amortecidos. Cada número dessa publicação dos operários começava com uma lista sumária das pessoas pobres que tinham feito sua inscrição junto ao redator; detalhes sobre sua desgraça eram encontrados no registro... Mesmo depois da Revolução de Fevereiro, quando todas as classes se olhavam com desconfiança..., o jornal La Ruche Populaire continuou a favorecer os contatos pessoais entre pobres e ricos... Isto parece ainda mais excepcional quando se pensa que mesmo nesta época todos os artigos da Ruche Populaire eram escritos por operários de verdade, que exerciam uma atividade prática.” Sigmund Engländer, Geschichte der französischen Arbeiter-Associationen, Hamburgo, 1864, vol. II, pp. 78-80, 82-83.
[a 3, 1]
[...]
Sobre o trabalho infantil entre os operários da indústria têxtil: “Os operários ... não podendo prover às despesas de alimentação e manutenção de seus filhos com seu magro salário, que muitas vezes não passa de quarenta sous por dia, mesmo acrescentando a ele o salário de sua mulher, que mal chega à metade dessa soma, vêem-se obrigados ... a colocar seus filhos nos estabelecimentos de que falamos, a partir da idade em que são capazes de algum trabalho. Essa idade é normalmente de 7 a 8 anos... Esses operários deixam seus filhos na fábrica ou nas tecelagens até a idade de 12 anos. Nessa idade eles providenciam para que os filhos façam a primeira comunhão e, em seguida, encaminham-nos para uma aprendizagem numa oficina.” H. A. Frégier, op. cit., vol. I, pp. 98-100.
[a 3a, 3]
[...]
“Jenny, l’Ouvrière11 revelava de modo pungente uma das chagas mais terríveis do organismo social: a jovem do povo ... forçada a sacrificar sua virtude por sua família, vendendo-se para poder levar pão aos seus... Quanto ao prólogo de Jenny, a Operária, ele não informa o ponto de partida do drama nem os detalhes da miséria e da fome.” Victor Hallays-Dabot, La Censure Dmmatique et le Théâtre (1850-1870), Paris, 1871, pp. 75-76.
[a 4a, 5]
[...]
“A Convenção, órgão do povo soberano, fará desaparecer, de uma só vez, a mendicância e a miséria... Ela garante um trabalho a todos os cidadãos que não o têm... Infelizmente, a parte da lei que tinha como finalidade reprimir a mendicância como um crime era mais facilmente aplicável que aquela que prometia à indigência os benefícios da generosidade nacional. As medidas de repressão foram aplicadas e ficaram no texto, assim como no espírito da lei, enquanto o sistema de caridade que as motivava, como sua justificativa, jamais existiu, exceto nos decretos da Convenção!” E. Buret, De la Misère des Classes Laborieuses, Paris, 1840, vol. I, pp. 222-224. Napoleão apropriou-se da disposição aqui descrita por meio da lei de 5 de julho de 1808; a lei da Convenção data de 15 de outubro de 1793: o mendigo que fosse flagrado pela terceira vez corria o risco de ser deportado para Madagascar e lá permanecer por oito anos.
[na parte da mendicância é como anda acontecendo, atualmente por via governo/prefeitura, na cidade de São Paulo (para pegar apenas um grão de uma grande areia). Assim como o trabalho público virando privatizado — escravizado]
[a 5, 4]
[a 5, 4]
[...]
“Os quinze anos da Restauração tinham sido anos de grande prosperidade agrícola e industrial... Com exceção de Paris e das grandes cidades, o regime da imprensa e os diversos sistemas de eleição entusiasmaram apenas uma parte da nação e a menos numerosa; a burguesia. E mesmo dentro da burguesia, muitos temiam uma revolução.” A. Malet e P. Grillet, XIXe Siècle, Paris, 1919, p. 72.
[a 5a, 3]
“A crise de 1857-1858 ... pôs um fim abrupto em todas as ilusões do socialismo imperial. Todos os esforços para manter o salário em um nível que fosse razoavelmente compatível com a elevação constante dos preços dos gêneros alimentares e do custo de habitação revelaram-se vãos.” D. Rjazanov, “Zur Geschichte der ersten Internationale”, in: Marx-Engels-Archiv, vol. I, Frankfurt a. M., 1928, p. 145.
[a 5a, 4]
“Em Lyon, a crise econômica havia provocado a redução dos salários dos tecelões — os canuts — para 18 sous por jornada de quinze a dezesseis horas de trabalho. O prefeito havia tentado conduzir operários e patrões a um acordo que estabelecesse um valor mínimo para os salários. Após o fracasso dessa tentativa, irrompeu, em 21 de novembro de 1831, uma insurreição sem caráter político, um levante da miséria. ‘Viver trabalhando ou morrer combatendo’, lia-se na bandeira negra que os canuts portavam à frente... Depois de dois dias de combate,12 as tropas de linha, que a Garde Nationale se recusara a sustentar, tiveram que evacuar Lyon. Os operários depuseram as armas. Casimir Périer retomou a cidade com um exército de 36.000 homens, destituiu o prefeito, anulou o valor que este havia conseguido estabelecer com os patrões e licenciou a Garde Nationale (3 de dezembro de 1831)... Dois anos mais tarde ... perseguições empreendidas contra uma associação de operários de Lyon, os mutualistas, foram a ocasião para um levante que durou cinco dias.” A. Malet e P. Grillet, XIXe Siècle, Paris, 1919, pp. 86-88.
[a 6, 1]
“Uma pesquisa sobre a condição dos operários da indústria têxtil, em 1840, revelou que para uma jornada de 1 5 horas e meia de trabalho efetivo, o salário médio era de menos de 2 francos para os homens e de apenas 1 franco para as mulheres. O mal ... se agravou ... sobretudo a partir de 1834, porque, uma vez assegurada a tranqüilidade interna, as empresas industriais se multiplicaram tanto que, em dez anos, viu-se a população das cidades aumentar em dois milhões de homens, unicamente em razão do afluxo dos camponeses rumo às fábricas.” A. Malet e P Grillet, XIXe Siècle, Paris, 1919, p. 103.
[a 6, 2]
[...]
Em 8 de dezembro de 1831, o Journal des Débats, ligado ao grande capitalismo, posicionase em relação à insurreição de Lyon. “O artigo no Journal des Débats causou enorme sensação. O inimigo dos operár ios havia dado grande ênfase ao significado internacional dos sintomas de Lyon. Contudo, nem a imprensa republicana, nem a imprensa legitimista queriam apresentar a questão de maneira tão perigosa... Os legitimistas ... protestaram com intenção puramente demagógica, pois o lema deste partido naquele momento era acirrar o antagonismo entre a classe operária e a burguesia liberal, visando ao restabelecimento da linhagem mais antiga dos Bourbons... Os republicanos, ao contrário, tinham interesse em minimizar tanto quanto possível o aspecto puramente proletário do movimento..., para não perder a classe operária como futura aliada na luta contra a Monarquia de Julho. Não obstante, a impressão imediata da insurreição de Lyon foi tão peculiar e tão embaraçosa para seus contemporâneos, que só por isso os acontecimentos de Lyon já mereceram um lugar especial na história. Em princípio, dever-se-ia pensar que esta geração, que vivenciou ... a Revolução de Julho, possuísse nervos de aço. No entanto, eles viam na insurreição de Lyon algo totalmente novo..., que os assustava tanto mais quanto os próprios operários de Lyon pareciam não enxergar e tampouco compreender esse aspecto novo.” E. Tarlé, “Der Lyoner Arbeiteraufstand”, in: Marx-Engels-Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. II, Frankfurt a. M., 1928, p. 102.
[a 6a, 1]
Tarlé cita uma passagem de Börne, relativa à insurreição de Lyon, em que este expressa sua indignação com Casimir Périer, pois, como escreve Tarlé: “Périer se regozija com a ausência do elemento político na insurreição de Lyon, com o fato de esta ser apenas uma guerra dos pobres contra os ricos.” Nessa passagem (Ludwig Borne, Gesammelte Schriftien, Hamburgo-Frankfurt a. M., 1862, vol. X, p. 20) lê-se o seguinte: “Diz-se que isto nada mais é do que uma guerra dos pobres contra os ricos, daqueles que nada têm a perder contra aqueles que possuem alguma coisa! E esta verdade terrível, que — por ser a pura verdade — deveria ser sepultada no poço mais profundo, é elevada por esse homem insano e exibida ao mundo inteiro!” Em E. Tarlé, “Der Lyoner Arbeiteraufstand”, in: Marx-Engels-Archiv, ed. org. por D. Rjazanov, vol. II, Frankfurt a. M., 1928, p. 112.
[a 6a, 2]
Buret foi um discípulo de Sismondi. Charles Andler atribui-lhe uma influência sobre Marx (Andler, Le Manifeste Communiste, Paris, 1901), o que Mehring (“Ein methodologisches Problem”, Die Neue Zeit, XX, n° 1, pp. 450-451) contesta veementemente.
[a 6a, 3]
11 Jenny l’Ouvrière [Jenny, a Operária] drama em cinco atos (1850), de Adrien Decourcelle e Jules Barbier. (w.b.)
12 15.000 operários enfrentaram a Garde Nationale nas ruas de Lyon e sofreram cerca de 600 baixas antes de capitularem. (E/M)
BENJAMIN,
Walter (1892-1940). Passagens / Das Passagen-Werk / Walter Benjamin;
edição alemã de Rolf Tiedemann; organização da edição brasileira Willi
Bolle; colaboração na organização da edição brasileira Olgária Chain
Féres Matos; tradução do alemão Irene Aron; tradução do francês Cleonice
Paes Barreto Mourão; revisão técnica Patrícia de Freitas Camargo;
pósfácios Willie Bolle e Olgária Chain Féres Matos; introdução
à edição alemã (1982) Rolf Tiedemann. — Belo Horizonte: Editora UFMG;
São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2009.

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