30.6.26

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A Outra Face
 
O cômico, um enigma. Oscarito era sério
e agora faz chorar seus amigos diletos.
Se vive acaso numa estrela, está rindo
dessa combinação de contrastes secretos.
 
 DEDICATÓRIAS PARA BROTOS
 
I
Sílvia, cicio em si, brisa levinha,
sussurro no silvado, silva poética.
No silêncio de um vôo de andorinha,
a esquiva graça e a sugestão estética.
II
É Tânia, é Tânia, é Tânia
Maria.
Espontânea
como o sol e o dia.
É Tânia, é Tânia, é Tânia
Maria.
Contemporânea
dos astronautas,
da informática,
da cibernética.
E não abstrusa
nem circuncisfláutica.
É Tânia, é Tânia, é Tânia
simples: Maria 

Exposição
 
Não canto
as armas e os barões assinalados.
Canto
as arcas e os baús de Minas Gerais
já sem ouro e diamantes,
sem escrituras de terras e escravos,
sem belbutinas, veludos,
chamalotes,
rendas.
As arcas e os baús despojados
de turvos segredos familiares,
mas guardando ainda e sempre
um não sei quê de eterno,
a respiração discreta, o silêncio,
a vida recolhida
dos mineiros do Setecentos,
que Iara Tupinambá, o lindo nome,
veio mostrar na Galeria Chica da Silva
recriando com flores? criando
o tempo-e-alma em forma de objeto.
 
Livro
 
Boitempo, ou seja, aquele vago boi
imóvel na planura do passado,
a ruminar o verde-azul-dourado
silêncio do que é de quando foi.
 
Mata Atlântica
 
A Câmara Viajante
 
Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta - ainda esplendor - da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã - quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: "Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?"
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil. 
 

Sem o lirismo das orquídeas,
Sem o charme decorativo das samambaias,
Nua de liquens e bromélias do litoral,
A mata da Caratinga, protegida dos ventos,
Espera de nós
A proteção maior contra o machado,
A serra mecânica, o fogo.

 II 

Samambaias, palmeiras... São alfaias
Da casa vegetal de Itatiaia.
São tesouros, bem mais que barras de ouro,

A guardar com amor para os vindouros. 

III 

Não, não haverá para os ecossistemas aniquilados
Dia seguinte.
O ranúnculo da esperança não brota
No dia seguinte.
O vazio da noite, o vazio de tudo
Será o dia seguinte.

IV

Muriqui, muriqui, tu estavas aqui
bem antes do europeu, bem antes do progresso.
Teu alegre saltar entre ramos e ventos
vai ficando tão longe. Onde estás, muriqui?

És apenas uma lembrança
De um tempo que eu não vi.

V

De cada cem árvores antigas
Restam cinco testemunhas acusando
O inflexível carrasco secular.
Restam cinco, não mais. Resta o fantasma
Da orgulhosa floresta primitiva.

VI 

A água serpeia entre musgos seculares
Leva um recado de existência a homens surdos
E vai passando, vai dizendo
Que esta mata em redor é nossa companheira,
É pedaço de nós florescendo no chão.

XII

Xaxim, teu nome raro não te deixa
Arborescer no mato em flor.
És enfeite doméstico. Nos lares,
Mulheres maltratam com amor. 

IX 

Uma espuma de azul bóia nas névoas da altura,
Um resto de sonho perdura na resina dos caules.
Manhã-quase-manhã, a terra acorda
Do seu sono de perfumes e lianas.

Na mata de caratinga,
Tem paca, tem capivara,
Tem anta e mais jacutinga,
Tem silêncio tem arara,
E nas ramarias densas
De suas copas imensas,
Paira um segredo mineiro
Que dura um século inteiro… 

XI 

Riacho de Campo Belo,
Crivado de pedras lisas,
Como rápido deslizas
Modulando um ritornelo:
Mais amar sabe quem ama
Sua terra e sua dama.” 

XII 

No esforço de fugir à mata obscura,
Bromélias em família buscam luz
E em suas folhas uma gota d’água,
Puro diamante líquido, reluz.

XIII

Um som de flauta rude se derrama
No que restou da terra comburida.
O sanhaço é nostálgica lembrança
De outro tempo, outra mata, noutra vida. 

XV

Penúltima jacutinga do Brasil?
Ou última, talvez?
Sem coco de palmito-juçara para comer,
Sem galho forte para pouso,
Sem ambiente para viver,
A jacutinga espera o fim de toda a fauna. 

XVII 

Meu gavião-de-penacho,
Meu rei aéreo da mata,
Meu rapinante invencível
De hálux certeiro e cruel,
Quem diria, quem diria
Que um dia se acabaria
Na floresta ressecada
Teu domínio, teu poder? 

XVIII

Meu verdoengo tucano
De bico leve e guloso,
Escuta este teu amigo:
Te arriscas, se não me engano,

A ter um fim doloroso
Se não te pões ao abrigo
Do destruidor ser humano. 

 XIX

O canto-risada
do japuguaçu
No alto da embaúbs 
Me deixa intrigado.
Ele ri de Quê?
Da mão que derruba
Seu ninho cuidado?
Vou adivinhar:
Se a ave ri, coitada.
É que, por destino,
Não sabe chorar.

XX 

Como é palrador este chauá!
Imita voz de gente, é bom ator,
Porém no oco do pau logo se esconde
Se percebe o sinistro caçador.

XXII

Olha o barbado, olha o bando do barbado!
Olha o coro de barbados na floresta!
À sua maneira.
Está berrando, aos deuses implorando
Que detenham a fúria arrasadora
Da sacrificada mata brasileira. 

XXIII 

Leãozinho dourado, o mico
É joia-animal raríssima.
Deixai-o viver, arisco.
Com seu vermelho sedoso,
Seu ouro nativo, seu
Focinho avioletado.
Salve, mico-leão dourado! 

XXIV

Tigrina
Beleza
Felina.
Elástica,
Plástica
Imagem
Selvagem
Da vida
Inserida
Noverso-
Universo
Da mata! 

XXV 

Que rumor é esse na mata?
Por que se alarma a natureza?
Ai…é a moto-serra que mata,
Cortante, oxigênio e beleza.

M.T.A.
 
Imagino o puro semblante:
Maria Teresa Amarante.

Em sua graça natural
lembra andorinha no beiral.

Lembra flor, lembra luz, que sei?
O diamante oculto do rei.

E me pergunto: que poesia
lhe darei, que não seja fria

imitação do melhor verso:
uma garota no universo?

(E além do mais, com esta rima:
neta querida de Herman Lima.)

 

PAPO COM LUMiÈrE

Oi, Louis Lumière, que alegria falar com você
através do tempo e dos seus filmes-relâmpago!
Vou assistir agora, 89 anos depois,
à saída dos operários do seu estúdio
(que você modestamente chamava de fábrica)
em Lyon Monplaisir para o prazer de todo mundo
que mediante um franco de entrada, no subsolo do Salão Indiano do Grand Café
curtia dez filmezinhos de 17 metros cada um.
— Maravilha!
Vão saindo as mulheres de chapéus emplumados
e bustos generosos, como para uma festa,
mas vão para casa de subúrbio preparar o magro jantar de família,
operárias da ilusão, que até hoje distribuem quimeras.
Só você e o mano Augusto não perceberam:
pensavam ter lançado uma simples curiosidade científica
de breve duração, brincadeira sem conseqüências
e criaram um outro mundo dentro do mundo velho e bocejante.
Libertaram as paisagens, soltaram as imagens:
elas agora entram em nossas casas, misturam-se com as nossas vidas.
— Maravilha...
Olha a locomotiva que salta da tela, espalhando susto e fumaça na sala de projeções,
olha Madame Lumière pescando delicadamente peixinhos vermelhos
e o jardineiro levando banho do regador descontrolado...
A invenção ingênua transformou-se em formidável indústria universal
que chega até à lua e embala o sonho dos seres humanos.
Obrigado, meu velho! 
 
Ressonâncias da Poesia de Henriqueta Lisboa

Airosos ares de Minas:
em vós procuro a violeta
com as cambiantes mais finas
para Henriqueta.

Bosques, veredas, colinas:
recolho na caçoleta
vossas discretas resinas
para Henriqueta.

Sons de seresta e matinas,
vou traduzir na espineta
vossas falas cristalinas
para Henriqueta. 
 
Versos de fim de ano
I
Você sabia que a lua
ainda não foi visitada?
Que há sempre uma lua nova
dentro de outra, e encantada?

É lá que vivem as graças
que nesta quadra do ano
a gente sonha e deseja
a todo o gênero humano.

Mas a lua, preguiçosa,
nem sempre atende à pedida?
A gente pede assim mesmo
até melhorar a vida.
II
É tempo de pesquisar no tempo
uma estrela nova, um sorriso;
de dizer à nuvem: sê escultura;
e à escultura: sê nuvem.

Tempo de desejar, tempo de pensar
madura e docemente o bom tempo de acontecer
(e mesmo não acontecendo fica desejado),
pássaro-mensageiro, traço
entre vida e esperança
como satélite no espaço.
III
Na volta da esperança,
um princípio de vida:
ser outra vez criança
por toda, toda a vida.
IV
 
Vinhetas de Carnaval
 
PAIXÂO
 
Não amei Colombina.
Amei, de amor baiano, uma porta-estandarte
que nem sequer me olhava, tão violenta
era a sua paixão pelo estandarte.
A ele se entregava, com ele dormia,
e quando um fósforo consumiu o objeto de seu amor,
também a consumiu, papoula ardente.
 
ERA UMA VEZ
 
O velho mascarado
contempla-se no espelho
e não se reconhece.
A máscara do tempo recobriu
os gloriosos disfarces dos Tenentes do Diabo.
 
SEMPRE LAMARTINE
 
O bom Lalá sorri no espaço indefinido.
Sua canção abafa o inexpressivo ruído
que faz do carnaval uma festa enfadonha.
O povo, a recordá-lo, canta, ri e sonha.
 
SAMBA-SAUDADE

Nasce dos pés o pé de samba
e pela quadra florescendo
vai Mangueira se tornando
sambal em flor,
jardim movente, múltipla corola
esparsa no ar;
exalado a saudade de Cartola.
 
MEMÓRIA NO CHÃO
 
O confete de quarta-feira no asfalto
cisma de continuar o carnaval.
Pisado, repisado, tema
em lembrar a batalha que não houve.
O confete-fantasma
liga-se à amarrotada serpentina,
junto à página da Revista da Semana de 1921
que voou de uma janela nostálgica.
 
O OUTRO CARNAVAL
 
Fantasia,
que é fantasia, por favor?
Roupa-estardalhaço, maquilagem-loucura?
Ou antes, e principalmente,
brinquedo sigiloso, tão íntimo,
tão do meu sangue e nervos e eu oculto em min,
que ninguém percebe, e todos dos dias
exibo na passarela sem espectadores?
 
VISÃO DE PATCHWORK

Como se faz a moda patchwork? A receita é simples,
tomem nota:
o matraquear da metralhadora em serviço;
o canto gregoriano;
as tintas passionais de Van Gogh;
os bigodes do Dr Schweitzer;
o choro do bebê reclamando que não lhe trocaram a fralda;
a Carolina de Chico Buarque na janela;
o grito da vitória de Tarzan;
os objetos e não objetos da Bienal;
o pôr-de-sol de primeira classe do Leblon;
o buzinar dos carros no engarrafamento da manhã;
o chute em gol de Pelé;
o silêncio gelatinoso da pílula;
os pregões na Bolsa de Valores;
o concerto de música experimental serial concreta de vanguarda;
misture bem misturado num coquetel.
junte numa colcha de retalhos,
faça um bolo de cor, som e expressão
e aguarde
— pum — a magnífica explosão.
 
AMIGOS
 
Tenho tantos amigos! Hoje
almocei com Mickey Mouse,
brinquei com Kid Farofa,
joguei bola com Pafúncio,
passeci com Cebolinha,
falei com Recruta Zero
e lanchei com Dick Tracy.
Belinda telefonou.
Brucutu deixou recado.
Onde anda Modesty Blaise,
Steve Roger voltou?
As cobras me convidaram
pra jantar com o Superman.
Os Flintstones chegaram
e Nick Holmes roncando.
Vou chamar o Mago de Id,
Flash Gordon e Charlie Brown
prum cineminha legal.
Tantos amigos que eu tenho!
E nem me lembro de todos...
Até já perdi a conta...
 
DESEJO
 
— Mammy, eu queria ser Mandrake.
Filhinho, pare com essa de almanaque.

— Mammy, eu queria tanto ser Tarzan
— Meu bem, deixe isso pra amanhã
 
Mammy, compra pra mim um disco-voador.
— Querido, você não disse qual a cor.
 
Mammy, é tão difícil ser criança!
Tudo que eu peço a vista não alcança...
  
ANDRADE, Mario Drummond de. 1902-1987. Poesia Completa / Dispersos / Viola de Bolso III / Carlos Drummond de Andrade. (conforme as disposições do autor) Fixação de textos e notas de Gilberto Mendonça Teles. Introdução de Silviano Santiago. Biblioteca Luso-brasileira / Série Brasileira.  1a tiragem da primeira edição, 2002  Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 2003.  

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