[DOS DIÀRIOS 1941-1947]
3.10.42
Eisler toca para Winge e Herbert Marcuse as “Elegias” e alguns dos “Epigramas Finlandeses”. Ele não consegue se libertar completamente — quando fala sobre essas composições, não quando as compõe — da visão convencional de que se trata de pequenas obras de circunstância, pouco significativas, à maneira de uma anotação de diário, ou talvez espere apenas encontrar contradição quando fala tão "modestamente" e que alguém, por exemplo, lhe diga que “essas coisas importantes são insignificantes para o compositor, não nós” (o modesto gesto de Bruckner). Mas, na verdade, as composições têm uma importância real, também enquanto música provavelmente, porém seguramente para os epigramas, incentivando uma leitura investigativa, um estudo de escavação. Estes são poemas completos, eles contêm, por causa de sua natureza lacônica, não menos do que um longo poema.
19.10.42
Interessante como o estrangulamento da função estrangula a pessoa.
O ego torna-se disforme quando não é mais abordado, encarado, dominado.
A autoalienação se inicia.
20.10.42
O que eu gosto de fazer é regar o jardim. Curioso como a consciência política influencia todas essas atividades diárias. De onde mais vem a preocupação de que uma parte do gramado possa ser negligenciada, que a pequena planta ali receba nada ou bem menos, que a velha árvore ali possa ser negligenciada por parecer tão forte. E que todo verde, erva daninha ou não, precisa de água;
e a gente descobre tanto verde na Terra quando começa a regar.
[...]
25.6.43
Eisler escreveu dois grandes ciclos para seu “Pequeno Livro de Canções Hollywoodiano”, poemas de Anacreonte e poemas de Hölderlin.
Aqui fica visivel a possibilidade de se chegar a coros dramáticos, uma vez que as composições são agora total e completamente gésticas.
9.8.43
Quando, no domingo passado, Thomas Mann se inclinou para trás, com as completamente bestial. O colarinho falou. Nenhuma luta foi mencionada nem mãos no colo, e disse: “Sim, meio milhão deve ser morto na Alemanha”, soou reivindicado para essa matança, tratava-se de castigo frio, e onde a higiene
como fundamento já seria animalesco, o que aí é vingança (pois isso era ressentimento do animal).
9.8.43
“Regar o jardim para encorajar o verde”. E: “A cidade natal, como vou encontrá-la?” Mas uma obra poética completa deve ter uma história (interior) que possa estar em harmonia ou contraste com a história exterior. Penso em algo como as "fases" dos pintores, no nosso tempo, de Picasso, por exemplo.
Por mais desordenadas que as impressões possam ser, por mais arbitrárias que sejam as intervenções nestes anos — o que eu escrevo de poemas mantém sempre o seu caráter experimental, e as experimentos organizam-se numa certa relação entre si, e a leitura dificilmente pode proporcionar um gozo adequado se, por exemplo, um poema como o primeiro também não puder ser apreciado em sua novidade no todo de produção, como domesticum.
24.8.43
Os grandes crimes só são possíveis por meio de sua incredulidade. Fraude comum, mentira simples, apropriação com um mínimo grau de vergonha, atinge muitos desprevenidamente. Os espíritos mais sutis recusam-se a suspeitar de enganos primitivos, já desconfiados, são ainda demasiadamente exigentes ao postularem crimes sofisticados e magistralmente refinados. Recusam-se com indignação a “confundir” estadistas com ladrões de cavalos, generais com especuladores da bolsa, e assim as roubos de cavalos e as especulações na boba permanecem completamente incompreensíveis para eles. Naturalmente, eles procuram, com razão, a astúcia entre os grandes, mas é uma astúcia limitada à execução dos delitos. Os golpes que cometem nem sempre são letais.
Passam a perna no povo com belos discursos que não devem tornar as suas vítimas incapazes de trabalhar, apenas mentalmente incapazes.
8.9.43
Thomas Mann, ouço de uma testemunha auricular, anda agora dizendo por aí “esses esquerdistas como Brecht” cumpriam ordens de Moscou quando tentaram persuadi-lo a declarar que deve ser feita uma distinção entre Hitler e a Alemanha. O réptil não consegue imaginar que se possa fazer alguma coisa pela Alemanha (e contra Hitler) sem ordens vindas de algum lado e que se posso até por si só, digamos por convicção, ver na Alemanha algo além de um grande público leitor. E notável a perfídia com a qual o casal Mann — sua esposa é muito ativa nisso — espalha tais suspeitas, que, como eles sabem,
podem fazer grande mal a qualquer um.
[...]
11.11.43
Leio em “19th Century and After” uma reportagem sobre o extermínio dos judeus na Polônia. Desejo que nunca mais se volte a falar ou a escrever sobre “homem alemão”, que não atribuamos essas qualidades a cada um de nós!
Todas estas expressões — engenhosa capacidade de venda da “ciência alemã”, “temperamento alemão”, “cultura alemã”, conduzem inevitavelmente a estas “ignomínias alemãs”. Somos justamente a raça que deve começar a chamar nosso país de número II e pronto. A Alemanha não deve se emancipar como nação, mas como povo, mais precisamente como classe trabalhadora. Não foi “nunca uma nação”, mas foi uma nação, ou seja, jogou o jogo das nações pelo poder mundial e desenvolveu um nacionalismo fedorento.
[como o que é feito atualmente em relação à religião judaica, a mãe de todas as religiões modernas dos últimos 20 séculos, do cristianismo ao Alcorão. A eterna confusão entre a religião, julgando ser igual aos políticos que estão no poder de Israel mais os políticos evangélicos brasileiros. E normalmente pensada pelos pós-pós-cristãos latino americanos. Como um fusion.]
20.6.44
Trabalho numa nova série de foto-epigramas. Uma vista geral dos antigos, em parte originados nos primeiros tempos da guerra, revela que não tenho quase nada a eliminar (politicamente nada mesmo), com o aspecto constantemente em mudança da guerra, é uma boa prova do valor do meu modo de observação.
São agora mais de sessenta quartetos, e com “Terror e Misério do Terceiro Reich”, os volumes de poesia e talvez “Cinco Dificuldades em Escrever o Verdade”, a obra dará um relato literário satisfatório sobre o tempo do exílio.
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht);
300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações
autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução &
tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa
Lion Feuchtwanger (1928). – São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)

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