14.6.26

continua/Bertolt Brecht/Poesia/introdução & tradução André Vallias/SANTA MONICA [1941-1947]

 
 
E.P. ODE POUR L’ELECTION DE SON SEPULCHRE
  
Por três anos tentou, à parte
De sua idade, restaurar a arte
Morta da poesia; manter o sublime
Dos velhos tempos. Este seu crime −

Se tanto. Mas vendo que surgira
Fora do tempo, num país semi-selvagem,
Passou a arrancar lírios de uma vagem;
Capaneu; truta para uma isca de mentira;

ἴδμεν γάρ τοι πάν πάνθ', όσ' ένι Τροίη
No ouvido desobstruído;
Dando, nas rochas, pouco pano,
O oceano o apanhou nesse ano.
 
Sua real Penélope: Flaubert.
Pescou por ilhas obsedantes,
Observando o penteado de Circe
Antes que os lemas dos quadrantes.
 
Indene à marcha dos acontecimentos,
Passou de memória no an trentiesme
De son eage. Ao diadema
Das musas nenhum aditamento.
II
A Idade exigia uma imagem
De sua ágil maquilagem,
Tablado para um novo ato,
Nada do ático artefato;
 
Não, nada dos confusos pesadelos
Do olhar introspectivo;
Melhor paliativo
Que os clássicos por modelos!
 
Idade exigia um molde em gesso
Feito com rapidez, não obra-prima,
Cinema em prosa, o avesso
Do alabastro, a escultura da rima.
III
Rosa-chá pó-de-arroz
Suplantam a musselina de Cós,
A pianola abafa
O bárbitos de Safo.
 
Cristo sucede a Dioniso,
O falus e o mel
Dão lugar ao cilício;
Caliban bane Ariel.
 
Tudo flui − dizia
O inclito Heracleitos;
Mas ouropéis perfeitos
Restarão destes dias.
 
Mesmo o Belo cristão
Decai face a Samotrácia;
Já vemos το καλόν
Cotado no mercado.
 
Carne de fauno é-nos defesa
Como a sacra visão;
Temos por hóstia a imprensa,
O voto por circuncisão.
 
Todos iguais perante a lei.
Livres de Pisistrato,
Um eunuco ou um rato
Será nosso rei.
 
Ó lúcido Apolo,
τίν᾽ ἄνδρα, τίν' ἥρωα, τίνα θεόν
A que deus, homem, herói
Destina-se a coroa de latão!
IV
Esses, afinal, combateram,
e alguns acreditando,
pro domo, afinal...

Alguns por amor às armas.
alguns por aventura,
alguns por medo da fraqueza,
alguns por medo da censura,
alguns por amor à mortandade, em pensamento, 
aprendendo mais tarde...
alguns com medo, aprendendo a amar a mortandade;

Morreram uns, pro patria,
não dulce, não et decor...
andaram de olhos fundos pelos inferno,
acreditando nas mentiras dos mais velhos,
depois, descrentes, voltaram
para casa, voltaram para uma mentira,
para muitos engodos,
para velhas mentiras e nova infâmia;
a usura decrépita e adiposa
e os mentirosos nos postos públicos.
 
Audácia como nunca antes,
desperdício como nunca antes.
Sangue jovem e sangue quente,
belas faces e corpos sãos;
 
vigor como nunca antes
 
franqueza como nunca antes,
desilusões como nunca se ouviu nos velhos dias,
histerias, confissões de trincheira,
riso frouxo de ventres mortos.
V
Ali jaz uma miríade,
E dos melhores, entre eles,
Por uma velha cadela desdentada,
Por uma civilização de remendos,
 
Viço nos lábios sorridentes,
Faísca de olhos sob a pálpebra da terra,
 
Por duas grosas de cotos de estátuas,
Por algumas pilhas de livros rotos.
 
POUND, Ezra Loomis (1885-1972). E.P. ODE POUR L’ELECTION DE SON SEPULCHRE; traduzido por Augusto de Campos em: Poesia / Ezra Pound; tradução, organização e notas de Augusto de Campos; traduções de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino; textos críticos de Haroldo de Campos São Paulo: HUCITEC; Brasília: Ed.Universidade de Brasília, 1993. 
6. ZURIQUE/BERLIM ORIENTAL [1947-1956] 
5. SANTA MONICA [1941-1947] 
 
E. P. Auswahl seines Grabstein
 
Die Herstellung von Versteinerungen
Ist ein mühsames Geschäft und
Kostspielig. Ganze Städte
Müssen in Schutt gelegt werden
Und unter Umständen umsonst
Wenn die Fliege oder der Farn
Schlecht plaziert wurde. Überdies
Ist der Stein unserer Städte nicht haltbar
Und auch Versteinerungen
Halten sich nicht sicher. [c. 1954]
 
E. P. escolhe sua lápide
 
A produção de petrefatos
um empreendimento árduo e
Dispensioso. Cidades inteiras
Precisam virar escombros e, sob
Certas circunstâncias, em vão
Se a mosca ou feto tiver sido
Mal posicionado. Além disso
A pedra de nossas cidades não é durável
E petrefatos tampouco
Perduram seguros.

Wie es war
 
Deine Sorg war meine Sorg
Meine Sorg war deine
Hattest du eine Freude nicht mit
Hatt ich selber keine. [1956]
 
Como era
 
Teu zelo era meu zelo
Meu zelo era teu
Não tivesses nisso tua alegria
A minha eu não teria.


Der Zar hat mit ihnen gesprochen
Mit Gewehr und Peitsche
Am blutigen Sonntag. Dann
Sprach zu ihnen mit Gewehr und Peitsche
Alle Tage der Woche, alle Werktage
Er verdiente Mörder des Volkes.
 
Die Sonne der Völker
Verbrannte ihre Anbeter.
Der größte Gelehrte der Welt
Hat das kommunistische Manifest vergessen.
Der genialste Schüler Lenins
Hat ihn aufs Maul geschlagen.
 
Aber jung war er tüchtig
Aber alt war er grausam
Jung
War er nicht Gott.
 
Der zum Gott wird
wird dumm. [1956]
 
O Czar falou a eles
Com armas e açoites
No domingo sangrento. Depois
Falou a eles com armas e açoites
Todos os dias da semana, todo dia útil
Ele, benemérito algoz do povo.
 
O sol dos povos
Torrou os seus adoradores
O maior mestre do mundo
Esqueceu o Manifesto Comunista.
O aluno mais genial de Lênin
Deu-lhe um murro na boca.
 
Mas, quando jovem, era ativo
Mas, quando velho, era atroz
Jovem
Não era Deus.
 
Quem vira Deus
Emburrece.

Die Gewichte auf der Waage 
Sind groß. Hinausgeworfen
Wird auf die andere Skale die Klugheit
Und als nötige Zuwaag
Die Grausamkeit.
 
Die Anbeter sehen sich um:
Was war falsch? Der Gott?
Oder das Beten?
 
Aber die Maschinen?
Aber die Siegestrophäen?
Aber das Kind ohne Brot?
Aber der blutenden Genossen
Ungehörter Angstschrei?
 
Der alles befohlen hat
Hat nicht alles gemacht.
 
Versprochen worden sind Äpfel
Ausgeblieben ist Brot. [1956]
 
Os pesos na balança
São grandes. Serão jogados
Na outra escala a perspicácia
E como contrapeso necessário
A crueldade.
 
Os devotos olham ao redor:
O que era falso? O deus?
Ou a reza?
 
Mas, e as máquinas?
Mas, e os troféus da vitória?
Mas, e a criança sem pão?
Mas, e o grito de medo inaudito
Dos camaradas sangrando?
 
Quem tudo ordenou
Não fez isso tudo.
 
O prometido foram maçãs
O que ficou de fora, pão.
 
BRECHT, Bertolt. 1898-1956. Poesia / Bertolt Brecht (Eugen Bertholt Friedrich Brecht); 300 poemas (edição bilíngue); fragmentos dos diários, anotações autobiográficas, 20 textos sobre poesia; seleção, introdução & tradução André Vallias; texto de 2a capa Augusto de Campos; e 3a capa Lion Feuchtwanger (1928).  São Paulo: Perspectiva, 2019. – (Coleção Signos; 60 / dirigida por Augusto de Campos)  

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